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121ª Leva - 06/2017 Destaques Olhares

Olhares

Ecos Interiores

Por Fabrício Brandão

 

Pintura: Cláudia R. Sampaio

 

Mirar os espaços em redor. Creditar a eles uma amplitude que atravessa as dimensões concretas da existência. Vislumbrar experiências de vida em esferas até mesmo inimagináveis. Sentir a pulsação dos dias em meio a doses cortantes de realidade e fantasia. Acreditar que o corpo é também um receptáculo de outros tantos estágios da consciência. Assim, trajamos as vestes de nossas humanidades. Assim, também navegamos, talvez um tanto à deriva, em meio às procelas de um mar que sabe a todo tempo nos acostumar a seus mistérios.

Viver é não negar o ato contínuo dos equívocos. É descortinar o véu que divisa a euforia e o sonho da dor ou hecatombes íntimas. Quando olhamos o que nos parece visível ao primeiro ato, sentimos que a matéria um dia pode se dissolver sem prévio aviso. As coisas, por mais palpáveis que sejam, desmancham-se ante nossos olhos nalgum instante futuro. É quando talvez tenhamos como companheira de jornada finita a memória e seus falhos recortes.

Mas se permitir experimentar a efusão dos instantes também pode representar uma rica constatação de que a vida não nos reserva apenas o lado aparente de seres, coisas e lugares. Há um universo de sensações e construções particulares que são percebidos no decorrer duma caminhada que contempla as possibilidades de abstração. Certamente, é ofício dos mais complexos ousar interpretar aquilo que transcende a concretude do mundo.

Todos os mergulhos relatados nas linhas iniciais deste texto talvez sirvam como um átimo de compreensão a respeito do trabalho de uma artista plástica como a portuguesa Cláudia R. Sampaio. São dela arremates de reflexão que viabilizam um espaço de coexistência para os matizes da alegria, dor, inocência e esperança. Suas pinturas, mesmo quando nos permitem vivenciar sinais de elevada densidade em torno do humano, apontam para marcantes sinais de leveza.

 

Pintura: Cláudia R. Sampaio

 

Do contraponto entre cenas cruas da vida e seus correspondentes mais antagônicos, Cláudia retira o resultado efetivo de suas apostas narrativas. Desse modo, fala-se de um mundo que nos atravessa cotidianamente, mas também de outros mais que perpassam um lapso onírico da existência. Ademais, esse paralelismo de sensações faz multiplicar uma variedade de sentimentos que, ao fim e ao cabo, são a mais pura representação das nossas inquietudes inalienáveis.  No contraste entre as pulsões internas e externas, a artista reverbera uma voz que a tudo vê e sente.

Na espiral do tempo que não retrocede, as pinturas de Cláudia também se ocupam de pensar a vida como um constante painel de expressões poéticas. Há um clamor que vem da necessidade de conferir vez e voz ao canto íntimo de suas personagens, atitude que abre perspectivas em torno do desejo, da serenidade, do caos mundano e do espanto e estranhamento frente ao todo circundante.

Nascida em Lisboa, nos idos de 1981, Cláudia R. Sampaio também se dedica ao ofício de poeta, tendo publicado os livros Os dias da corja (Ed. Do Lado Esquerdo, 2014), A primeira urina da manhã (Ed. Douda Correria, 2015), Ver no escuro (Ed. Tinta-da-China, 2016) e 1025 mg (Ed. Douda Correria, 2017). Sua dedicação à pintura remonta à infância. Tem na figura do pintor Jean-Michel Basquiat uma de suas grandes inspirações no labor artístico.

Diante da presença vigorosa das cores e do contraste entre sentimentos díspares da condição humana, Cláudia lança mão da sua feição de poeta para também impulsionar a criação de suas pinturas.  Sua arte mescla tanto uma observação que emana do contato com o externo, como também dos mergulhos interiores caracterizados sobremaneira por uma marca pontuada pelo lado sublime da vida. De modo especial, as incursões apontam para o âmago das coisas, esse ato contínuo e transformador de olhar tudo por dentro.

 

Pintura: Cláudia R. Sampaio

 

* As pinturas de Cláudia R. Sampaio são parte integrante da galeria e dos textos da 121ª Leva

 

Fabrício Brandão edita a Revista Diversos Afins, além de buscar abrigo em livros, discos, filmes e no ato apaixonado de tocar bateria. Atualmente, é mestrando em Letras pela UESC, cuja linha de pesquisa reúne Literatura e Cultura.

 

 

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109ª Leva - 03/2016 Destaques Olhares

Olhares

Paralelismo de sensações

Por Fabrício Brandão      

 

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Arte: Helena Barbagelata

 

Entre os atos, pairam taciturnas outras existências. Viver é esse gesto colossal de colecionar mistérios e avançar por sobre eles sem que saibamos ao certo suas origens mais imediatas. É flertar com o desconhecido que nos apresenta suas investidas cotidianamente. Embora busquemos natural abrigo no algo concreto e visível, somos tomados vez ou outra pelas garras da abstração.

Quando não sabemos lidar com o intangível, muitas vezes sentimos que perdemos a desejada capacidade de controlar as coisas ao nosso redor. É muito mais do que uma mera questão de se ir além da superfície. Um percurso de rotas que nos atraem rumo ao estranhamento de nós mesmos.

Para além das experiências corporais, há trajetos de invenção e sonho. Almejando alguma espécie de libertação, um criador se rende aos atributos desse caminhar por dimensões imateriais. Assim, o que parece ocorrer é que um curioso processo de reconhecimento se opera, tornando a vivência das situações um mirar de faces diante de um espelho.

Para uma artista como a portuguesa Helena Barbagelata, o outro lado do espelho reflete uma esfera de vivências na qual o físico e o abstrato convivem harmoniosamente. É como se um ambiente único de percepções surgisse, mesclando o real e o onírico, o vivido e o imaginado.  Tudo num organismo amalgamado que processa as mais complexas questões do olhar.

 

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Arte: Helena Barbagelata

Helena expõe certas densidades humanas. Mostra-nos um conjunto de gestos, externa rostos carregados de sobriedade, aponta trajetos do corpo. Em lugar de entabular razões, a artista utiliza como principal ferramenta um prisma poético sobre as coisas observadas. É, de fato, uma valiosa escolha na medida em que os recursos da sugestão promovem uma ideia de que as vias estão abertas para captar algo que não habita o território das obviedades.

Nascida em Lisboa e hoje vivendo em Atenas, Helena há muito percorre caminhos em torno das artes plásticas, música e literatura. Na seara literária, colaborou com revistas internacionais, obteve prêmios e publicou a obra Soliloquia (Apenas-Livros, 2013). Em matéria de artes visuais, suas criações transitam entre a pintura e a fotografia.

Considerando a arte como um diálogo entre criador e receptor, a artista lusitana abre fronteiras para a libertação do olhar, ponto no qual quem contempla é capaz de vislumbrar outros significados para a criação. Ainda, segundo Helena, os caminhos percorridos levam a uma alternativa não somente de autoconhecimento, mas também de descoberta do homem em relação a seus pares e ao mundo.

Contemplar a obra de um alguém como Helena Barbagelata é apostar na existência de dimensões ilimitadas e paralelas em convivência. Na intersecção entre o palpável e o inventado, percebemos uma sucessão de camadas de vida. São saberes do ato de existir, noções que apenas são percebidas porque se ousou experimentar a continuação dos passos.

 

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Arte: Helena Barbagelata

 

Fabrício Brandão é um dos editores da Revista Diversos Afins. Cultua livros, discos e filmes com amor táctil e espiritual.  

 

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97ª Leva - 11/2014 Destaques Olhares

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Sob tramas da alma

Por Fabrício Brandão

 

Cristina Arruda
Arte: Cristina Arruda

 

Dizer do manto que recobre o universo feminino significa mergulhar em profundezas de mistério. Na medida em que tentamos desvendar sua complexidade, o sabor crescente do indecifrável acaba tomando corpo vigoroso diante de nossas percepções. E não funciona ter em conta a visão simplista e limitada de que tudo é acometido apenas por sinais de delicadeza e sensibilidade.

Definitivamente, a desgastada noção de que o feminino navega águas de fragilidade vem perdendo sua razão de ser entre nós. E não se trata também de ressaltarmos aspectos que apontam para uma mera afirmação de gênero. Pelo contrário. Significa levarmos em conta a genuína expressão que brota dos olhares particulares de mundo. Assim o faz Cristina Arruda quando nos propõe pungentes observações sobre as epifanias que brotam das mulheres.

Fazendo uso de curvas, traçados, contrastes entre o preto e o branco, além duma profusão de cores, Cristina nos convida a viajar por uma espiral dotada de contornos poéticos. E mencionamos poesia aqui pelo caráter sintético da apreensão dos sentimentos humanos. Trata-se de uma condução sem afetações ou contaminações imediatas e apressadas, ou seja, sem viciar o olhar em torno duma acalorada visão restrita de mundo. Segue-se um fluxo natural e deveras intuitivo de recortes existenciais sem que isso possa resultar num arroubo apoteótico.

 

Cristina Arruda
Arte: Cristina Arruda

 

Quiçá seja a simplicidade o que buscam os poetas em seu engenhoso ofício. Quiçá seja também essa condição a melhor forma de significar o trabalho de Cristina. E, como a própria artista nos confessa, há uma imersão diária nos cenários que compõem seus domínios, principalmente quando se trata de vislumbrar a mulher em sua interação com o ambiente externo.

Seja nos desenhos, munidos a giz, lápis de cor e nanquim, seja nas pinturas em aquarela e acrílica, essa mineira de Belo Horizonte ressignifica os espaços e os personagens do seu entorno físico e imaterial, dando margem também a uma apreensão mística da vida. Perfazendo mais de 15 anos de trajetória autodidata, Cristina Arruda apresenta em seu currículo as exposições individuais “Universo Feminino” e “Rebento”, além de outras de cunho coletivo.

Na edificação dos cenários e seus habitantes, a artista apropria-se de um tenro fio que sutilmente costura a vida. É como se tudo estivesse mesmo sustentado por um sentido de leveza. Caminhos de ida podem ser levados aos da volta com natural facilidade, ou o contrário também pode acontecer. Para a essência que nos abraça, as linhas e curvas de Cristina são um lembrete de que somos feitos pela substância inexata da alma.

 

Cristina Arruda
Arte: Cristina Arruda

 

 

* Os desenhos e pinturas de Cristina Arruda são parte integrante da galeria e dos textos da 97ª Leva

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93ª Leva - 07/2014 Destaques Olhares

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Lastros imaginativos

Por Fabrício Brandão

 

Neuza Ladeira
Pintura: Neuza Ladeira

 

Toda vez que nos deparamos com alguma espécie de observação, decidimos primeiro entre desvendar as formas aparentes do visto ou dissecar seus labirintos internos. De súbito, a alternativa inicial nos parece cômoda por sugerir algum deslocamento pelas fronteiras da superficialidade, quiçá um caminho apartado de considerações mais voltadas para uma lapidação. No outro polo, agarrar as entranhas da coisa apreciada pode demonstrar um interesse ancestral pela sondagem dos mistérios que nos acometem.

Mesmo para aqueles que optam pela primeira perspectiva de contemplação, a via interna e que pulsa densa jamais se qualifica como um bem alienável. Pelo contrário, estará ali a rondar os territórios de quem desbrava o mundo e seus correspondentes paralelos percebendo a matéria em estado bruto. Nesse sentido último, o componente diferencial que aponta para a consolidação dos caminhos vai encontrar abrigo ideal no aporte imaginativo de quem cria. E exemplificamos tal ponto de vista com o trabalho de pessoas como Neuza Ladeira, artista que funda o primado de suas acepções visuais no sedutor universo da liberdade conceitual.

Não são poucos os aspectos que podemos enfatizar como sendo cruciais na abordagem de Neuza. E talvez o maior deles seja baseado na capacidade que ela tem de exprimir a atmosfera emotiva que povoa intensamente seus traços de pintora. De posse dum olhar genuíno sobre o mundo, a artista se nega a uma representação orientada e previamente definida das coisas. Suas pinturas evocam uma visão sintética da natureza em seu estágio mais puro, cuja deformação da realidade sugere o modo como percebemos a tudo sem vãs interferências.

Fazendo uso intensivo das cores, Neuza não nos furta um ritual de exaltação à vitalidade e à espontaneidade do gesto. E é justamente isso que delineia a expressividade dos tipos humanos que compõem suas telas. Nesse ínterim, a artista concebe um dinamismo que flui desde a matriz intrínseca e pessoal até o diálogo mais próximo aos fenômenos mundanos.

 

Neuza Ladeira
Pintura: Neuza Ladeira

 

Num ponto de transição entre referências fauvistas e derivadas da arte bruta, Neuza Ladeira sedimenta três estruturas fundamentais à sua obra: as séries Personas, Natureza e Abstratus. Em todas elas, estão os componentes imprescindíveis para a compreensão dos universos de elaboração da artista. Sem se prender a determinantes canônicos, a criadora confere um especial poder aos componentes intuitivos que permeiam o seu olhar sobre a existência.

Nascida em Belo Horizonte, Minas Gerais, Neuza também se move pelos territórios da poesia, tendo participado de recitais e publicado os livros “Opúsculos” (Anome Livros), “Quarto de Dormir Quarto de Pensar” (Editora Urbana), “Poética Caderno 1” (Editora Catitu). Em sua trajetória, lutou ferrenhamente em prol da democracia no período da ditadura militar brasileira, tendo sido prisioneira política nos anos de 1970 a 1972.

Quando a arte nos incita a penetrar seus domínios, temos razões de sobra para não declinarmos ao chamado. Certamente, uma delas é a larga possibilidade que possuímos de ver o mundo com os múltiplos matizes da imaginação. No caminho, cruzando com as epifanias de alguém como Neuza Ladeira, nos é dado entender também que carregamos em nosso íntimo valiosas ferramentas de apreensão do concreto e abstrato. Cabe-nos apenas eleger o modo como faremos a travessia.

 

Neuza Ladeira
Pintura: Neuza Ladeira

 

As telas de Neuza Ladeira são parte integrante da galeria e dos textos da 93ª Leva

 

 

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85ª Leva - 11/2013 Destaques Olhares

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A inquietude poética de Julia Debasse

Por Fabrício Brandão

 

Arte: Julia Debasse

 

Com quantos arroubos de consciência são feitos os traçados de um artista? Quiçá nove entre dez pessoas falarão da complexidade que é conceituar de modo redondo um determinado estado de espírito quando o tema é apreender a arte. E se tentarmos mirar um mundo que transborda ante nossos olhos, mais distantes ainda ficaremos de um mínimo entendimento sobre as coisas.

Que a arte encerre em si mesma, então, uma estrada autônoma, capaz de se reinventar a cada intervenção do olhar humano: eis o desejo que se funda e nos instiga os sentidos. Se o desafio é falar de um mundo povoado de cenários contrastantes, nos aproximamos do ponto de vista de gente como Julia Debasse.  Por ousar, de tal modo em sua lida com a pintura e desenhos, essa artista carioca nos dá a impressão de que cada investida sua é um convite a uma esfera insone da vida. Nela, concebe-se a existência como uma cadeia frenética de sinais, muitos deles apontando para uma visão menos suave sobre os ímpetos humanos.

Não é exagero tencionar que Julia abraça uma estética transgressora, sobretudo pelo fato de que seus traços e formas demonstram rejeitar qualquer espécie de encantamento gratuito. Para ela, importa uma visão mais pungente sobre temáticas que remontam ao melindroso universo das emoções. É, por exemplo, o caso de se perceber o amor com olhos desnudos e, portanto, desabitados de devaneios e ilusões. Desse modo, a artista propõe a revelação do que se pode chamar de a face crua das coisas, porção esta marcada pela companhia inseparável da lucidez.

Arte: Julia Debasse

Conduzida às artes plásticas por sua paixão pela música, Julia Debasse parece ter encontrado um norte vigoroso para consolidar suas múltiplas formas de retratar o mundo. Seja na pintura ou no desenho, uma inalienável inquietude faz com que olhares e sentidos da artista permaneçam despertos em torno duma atmosfera muito peculiar a quem vislumbra o todo sem dissimulações.

Utilizando-se de cenas íntimas e outras tantas advindas do universo externo e também ficcional, Julia semeia provocações e questionamentos para, em seguida, colher soluções poéticas. Diante da densidade dos dias, a artista opera conversões e instaura um ambiente também habitado pela simplicidade dos gestos e tons da vida. Para os desvãos humanos, não se promete redenção ou qualquer coisa que o valha, apenas o ato imperativo de seguir em frente sem cultuar em demasia um deus denominado futuro.

Arte: Julia Debasse

 

 

* A arte de Julia Debasse é parte integrante da galeria e dos textos da 85ª Leva.

 

 

 

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73ª Leva - 11/2012 Destaques Olhares

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AS CARTAS AO MUNDO DE FAO CARREIRA

Por Fabrício Brandão

 

 

Arte: Fao Carreira

 

 

Pensar a expressão artística de Fao Carreira é trilhar uma via onde as representações da existência estão marcadas, acima de tudo, pela poesia.  De posse de tal condição, o artista inscreve na pele dos dias os laços que o atraem para o jogo das veleidades humanas, da presença sorrateira daquilo que nos seduz e, ao mesmo tempo, nos escapa volátil entre as mãos.

 

 

Arte: Fao Carreira

Indagar o que povoa a infância da criação, se a palavra ou a imagem, não nos parece relevante no caso desse paulista de Botucatu. Em Fao, as feições de desenhista, pintor e poeta harmonizam-se de modo a conferir à sua obra um caráter de unidade. Essa “contaminação” de uma arte pela outra opera a comunhão de linguagens distintas, cujo resultado possui um decidido teor filosófico. Nessa perspectiva, o porquê de se estar num mundo no qual os excessos nos saltam aos olhos parece instigante questão de ordem.

Cada desenho ou tela produzido por Fao Carreira é verdadeiro exercício de correspondência com o que explode lá fora. Seja em traçados, rostos ou profusão de cores, o artista remete ao mundo seus anseios e inquietações. A despeito disso, não é em vão o nome de batismo de seu blog. Suas missivas são direcionadas a todos nós como o registro mais puro do espanto que é estar vivo.

 

 

 

Arte: Fao Carreira

Da sua paixão pela literatura, Fao consolida um diálogo especial e denso com quem se debruça na contemplação de sua arte. Isolada ou conjuntamente, seus versos e imagens ousam sondar a fina camada que envolve o tecido das horas. Na passagem dos instantes, lacunas ganham corpo e nos relembram que o ato contínuo de respirar é pedra fundamental da criação. Por isso, um artista a relatar marcas do tempo. Por isso, somos cativos leitores do mistério que povoa suas cartas.

 

Arte: Fao Carreira

 

 

* As imagens de Fao Carreira são parte integrante da galeria e dos textos presentes na 73ª Leva.