Categorias
154ª Leva - 02/2024 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Karine Padilha

 

Foto: Marcelo Leal

 

Quase

 

Estamos prestes a alcançar o fim, num suspiro de quase nunca
Pegando fôlego nos dias de quase lá
Nos sonhos que vem tarde para os sonhadores
Onde o tumulto que fala
É também o que faz calar.
Nas linhas de chegada,
Nos postos de largada,
Um sufoco rumo ao quê.
Estamos prestes a alcançar o nunca, num suspiro de quase fim
Pegando fôlego nos dias abandonados
Nos sonhos que vem tarde para os sonhadores
Onde a mão que toca
É também a que perde o tato.

 

 

 

***

 

 

 

Tudo se consome

 

Negam-nos sempre um pedaço
Falta-nos sempre uma coisa
Extraviam-nos sempre uma parte
Tamanha dor, arrancam-nos sempre um membro:
O tempo.
Os brincos nos assoalhos
Os descuidos
Os anos
Os erros
Esperamos aflitos
Que se desfaçam
Que Deus perdoe
Que não se percam.
Tudo se consome.

 

 

 

***

 

 

 

O que se inscreve também se esquece

 

Deixar escapar
Pela ponta dos dedos
[como quem luta contra a lembrança]
Uma pista qualquer
Que leve de volta
Ao começo do poema:
Sonhar de corpo inteiro.

Sonhar
De corpo
Inteiro.

 

 

 

***

 

 

 

Aqueles que caem

 

Eu escrevo para os homens que não sabem ler
Mas desconfiam
Do que dizem os poemas.
Eu escrevo porque tenho urgência de enunciar aquilo que a palavra não segura
Que não é letra nem vocábulo
Que não cabe no espaço
Que é o outro não visto, e bem conhecido.
Eu escrevo porque há um declive não mapeado no mundo
Não um lugar, mas um jeito de cair
Que derruba os desconhecidos a cada segundo
Eles desabam pra sempre
Desabam a sós
Sem ler os poemas
De boas novas
Por que os poemas
de boas novas
Não são feitos
para aqueles que caem
E é, também, porque posso cair,
que eu escrevo.

 

 

 

***

 

 

 

As coisas do mundo

 

As coisas do mundo estão todas espalhadas cercadas, escravizadas.
Foram cedidas e foram negadas
Negociadas
Esquecidas
Escondidas
Empoeiradas
Incendiadas
Esbanjadas
Suplicadas
Negligenciadas
Os donos das coisas do mundo
A troco do giro da manivela
Apossaram-se do tempo
-Que passa
Da vida
-Que passa
Agarraram-se com as mãos à terra, ao umbigo, às suas mulheres, aos seus pertences, aos seus chapéus e à ventania,
Porque do outro lado do muro os puxava a morte.
O cabo de guerra da imortalidade:
O desespero de provar-se vivo pelo peso que se carrega
O pavor de sentir-se morto pela entrega.
As coisas do mundo,
Toda e cada coisa,
Consumida
Consumada
Não salva o homem do fim do homem
Não salva, no fim, o homem de nada.

 

 

 

***

 

 

 

Distâncias

 

Quão seguro é percorrer a distância de um homem
E que aterrorizante é chegar ao fim do percurso.
Um trilho de trem comprimido por um incidente.
A proximidade de um longo intervalo de tempo.
Um fio de vida
Onde a morte pendura os sapatos.
Tentamos enxergar do outro lado
Tentamos atravessar os lados,
Mas todas as pontes cedem sobre os abismos.
Nunca
Corremos
Por essas
Estradas
Que são os outros.

 

 

 

***

 

 

 

Coragem

 

Enfrentarei a metodologia
A burocracia
As reuniões de trabalho
As oposições políticas
As exposições artísticas
O dólar
A cor dos olhos
O ego
O desencanto
O desacato
Por uma bagatela de quase nada aceitarei de bom grado
A confusão que me causa a felicidade.
Não minto que perdoarei as mentiras
E as dores
Que o ser humano provoca sem admitir que lhe sejam infligidas.
Sobreviverei ao homem que deseja casar-se comigo,
à omissão de minha mãe
Aos golpes de desafeto
Ao tiro disparado em vão contra mim
Pelas mãos de meu melhor amigo
[esfolado pelo ombro daquele que me odeia] Serei acusada
Perdoada
Santificada
Esquecida.
Seguirei em frente, enquanto louca
Sem vias de ida ou retorno
Cheia de ter com o vazio
Disputando um braço de volta.

 

Karine Padilha está no espectro da dupla excepcionalidade (autista com altas habilidades), é artista visual e neuropsicóloga brasileira. Ao longo de sua trajetória escreveu para o grupo editorial multimídia de poesia brasileira Aboio, para a revista nacional de arte e cultura Pixé, e para a revista internacional de arte e cultura Trama. Seu trabalho integrou mostras nacionais e internacionais, entre elas Universidade Federal de SC – UFSC, Art Lab Gallery (SP), Salon Caw (Portugal), CAM (Espanha). Com uma escrita contemporânea, inspira-se em autoras como Ana Martins Marques, Aline Bei e Matilde Campilho para explorar temas existenciais e psicológicos. Seus textos e produções visuais aprofundam-se em questões de identidade, memória, vulnerabilidade, e efemeridade, criando uma atmosfera nostálgica e introspectiva.

 

 

Categorias
142ª Leva - 02/2021 Janelas Poéticas

Janela Poética V

André Siqueira

 

Foto: Joice Kreiss

 

Quarentena

 

Os objetos conhecem
os quartos, partes, cômodos,
extensões de remansos
que abrigam toda a gente
íntima do silêncio
isolado na espera
de cada ser fechado.
Testemunhas ocultas
mesmo que emudecidas,
hospedeiros de gente
no vírus desse mundo.
Sem luva sinto, pálido:
os objetos na casa
prosseguem retesados
e infectados de gente.

 

 

 

***

 

 

 

chuviscou nos telhados simples
as gotas dançavam dulcíssimas
trespassando os pedestres rápidos
indo e voltando pelo asfalto
empoçado numa renúncia
de quem cansou de tanta gente
que passa e não percebe os cacos
de esmeraldas nos velhos ombros
dos muros plantados nas terras
abertas pelas mãos passadas
silentes no canto da casa
erguida no solo tocado

chuviscou nos telhados simples
as gotas acertavam como
barcos de papel naufragando
no mar de imagens chuviscadas

 

 

 

***

 

 

 

o silêncio quebrado apenas
pelo pernilongo da casa
mata o tempo das horas moucas
horas corredoras da noite
enquanto na parede o dono
é o relógio cafona como
a minha cara malpassada
nos ponteiros do meu relógio
sedento e sisudo conduz
a bocarra que enruga e cospe
os detritos vãos da memória

 

 

 

***

 

 

 

20 de julho e o tempo

 

O tempo.
Aplacá-lo, interrogá-lo,
inquiri-lo, investigá-lo.
O relógio de antanho.
O de agora pende sobre mim.
Sou deitado assombro.

O tempo (esse clichê avolumado)
perpassa espectralmente.
Fui digerido, digeridos fomos.
Fica esse arroto do tempo.
Verdugo taciturno em horas.

 

 

 

***

 

 

 

Breve cafeína

 

Começo o dia com café
Nas ruas o verde das folhas grita
delicadezas
Espero o ônibus de reminiscências
que mornas ainda excitam. Temo
a velhice e os frutos podres
Pessoas passam em águas turvas. Uma
gota ferida.
Termino a noite num riso sarcástico
de fé.

 

 

 

***

 

 

 

Recuperação do cansaço

 

O grande som do avião atravessa a noite.
No sofá, à meia-luz, enquanto o macarrão
não fica pronto, velo a vida ancorada nos
quartos vazios, engolindo coaxos longos
e maduras ventanias.

 

André Siqueira é poeta, mora em Jacareí, interior de São Paulo. Cursou a faculdade de Letras pela UNIP, mas não concluiu. Publicou em 2020 seu primeiro livro de poemas “As Manhãs Fechadas” (editora Gataria). Já colaborou em diversas revistas, jornais, blogues e antologias de poesia. Atualmente participa de eventos, palestras, oficinas e saraus, além de escrever regularmente para a revista de literatura e arte Pixé.