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148ª Leva - 03/2022 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Patricia Porto

 

Foto: Gilucci Augusto

 

Retrato

 

O corpo é uma promessa
Um passaporte para o estrangeiro.
Carrega luz e outro tanto de oculto.
Nem todas as camadas podem ser escavadas.
O rosto esconde poços. Com e sem água.
E há mais da sede que poço.
Todas os símbolos são expressões do encontro
entre o deserto e a passagem de mar.
No rosto daquela mulher há uma constelação,
uma onça que nada,
uma casa sempre assombrada.
Um bebê derramando choro no escuro
é quem ela embala em fantasia.
O Cão morde seu calcanhar
e ela ainda Monalisa.

 

 

 

***

 

 

 

Fênix

 

Apesar dos grandes abalos
Sísifo encontrou a luz
Era uma luz pequena.
Uma luzinha de nada.
Um pedacinho claro na fria escuridão.
Apesar dos outros muitos lugares de medo,
na saída foi que Sísifo encontrou o tempo de mastigar
– com dentes afiados na pedra –
os desgostos do pássaro morto.
Apesar do imenso infortúnio da noite,
Sísifo feliz saiu dos escombros
da casa incendiada,
não nas asas de um ser vivo,
mas com as asas de sua ave morta.

 

 

 

***

 

 

 

A mulher de Safo

 

Uma mulher inteira é uma mulher intensa
é uma mulher na cabeça
nos desvios
vãos
abismos
entranhas
vulva e falo
uma mulher inteira é inteira na palavra
é inteira ao acordar com seus humores
seus cheiros
axilas
pelos
suores noturnos
uma mulher inteira é um bicho de si mesma
é concreta e abstrata
é múltipla e una
é uma mulher na cabeça
uma mulher inteira não passa por um ângulo ou agulha
uma mulher inteira é um círculo de ciclos
é uma mulher descalça em seus pés
é uma mulher que ri, gargalha, não teme
e chora e grita se for preciso
diante do soco
diante da merda que corrói o amor
diante da rigidez, do autoritarismo
é uma mulher que se atravessa
se alimenta de seivas
se reconstrói
se reinicia
se regenera
se liberta
se emancipa
para dizer todos os adeuses
para colocar fim nas histórias mortas
é uma mulher que se levanta dela mesma
e anda com sua cabeça

 

 

 

***

 

 

 

Casa do mar

 

o amor como esse vinho que cai sobre a toalha branca
o amor como esse sangue derramado no sofá branco
o dia feito sangue e vinho
as aves dos dias em que tudo escoa
tudo molha
tudo mofa

o amor como esse vento frio dos homens
o amor na geladeira
com as frutas

no tempo das castanhas
das folhas jogadas ao chão

o amor dos inacabados
para onde caminhamos sem saber
se ainda somos crianças ou não
se somos velhos ou figos

o amor na porta de entrada
um gato quieto, parado
estranhado de sua natureza

vive e respira
profusamente

 

 

 

***

 

 

 

Às cegas

 

O amor é uma dança de espelhos
Uma dança de corpos
Uma aliança entre elementos químicos
Quem dera eu tivesse um cão guia
para me ajudar nos teus passos

 

 

 

***

 

 

 

Casulo

 

A noite caiu como fiapo de tempo
Guardei as histórias de chorar
Para depois
Depois de nós, de um amontoado de fantasmas
Desfilando sonoros
Em nossos países de dormir, matar ou morrer

Seremos um dia os mesmos de ontem?
Guardei minhas esperanças na caixa de sonhos
alucinações, um casulo de doídos,
uma Pandora decidida

e estou mais velha que meu espanto
branqueio na paisagem

 

Patricia Porto é poeta maranhense, Doutora e Mestre em Políticas Públicas Educação, formada em Letras, publicou vários artigos, a obra acadêmica “Narrativas memorialísticas: por uma arte docente na escolarização da literatura” e os livros de poesia “Sobre pétalas e preces”, “Diário de viagem para espantalhos e andarilhos”, “Cabeça de Antígona” e “Casa de boneca para elefantes”. Participou, ainda, de coletâneas literárias no Brasil e no exterior.

 

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128ª Leva - 06/2018 Janelas Poéticas

Janela Poética V

Sel

 

Foto: Adelmo Santos

 

ODE

 

Canto 1

 

1

que dizer a mais do que já dito
desse obscoso formato, ornamental?!
o que para alguns tem de maldito
a outros certamente de imortal

 

2

qual etna entre tempos se revela
num espetáculo, arco tortuoso
narra a olhos sem pudor sua querela
afligindo até mesmo o virtuoso

 

3

como quem ardendo se exaspera
lança-se’m pensar, ao mar, ao fundo
eu vi dentre mim nascer a fera
errante animal, vil moribundo

 

4

que em seu canto, fresco odor, se enleia
chagando o que chamamos de razão
quanto mais fugir tenta d’ sua teia
mais consome, definha esse brasão

 

5

marca iluminista inda eminente
embora já freud tenha descrito
que esse, subjugado ao inconsciente
fica, apesar do apelo d’ seu mito

 

6

skinner, com objeto bem diverso
ao relatar sobre essa abrangência
nega ao abstrato, neste universo
delegando-o para a contingência

 

7

boltzmann e gödel noutra vereda
tangendo aquele vau impossível
criam o que à lógica faz-se azeda
nau onde o contrassenso é compossível

 

8

nessa via, loucura voluptuosa
em quo acaso ao causo sempre é mote
volvido vou com a agre mucosa
carne na carne, sorvendo o pote

 

9

satisfação que maslow predizia
ser da boa pirâmide a sua base
cuja carência formula uma azia
corpo transfigurado em estase

 

10

mesmo q’ depure, reveja o tema
tal rato rói, e o verme o defunto
esse imã, atroz que não queda, rema
disforme, em massa, rompendo junto

 

Canto 2

 

11

empinado o glúteo, a língua em bis
sua sombra encerrada como cela
o ânus à manteiga simula um xis
bel tango, masoch, eu, marquês e ela

 

12

oposto a descartes, q’ pelo juízo
quis tocar metódico o que é real
a episteme, atribui, sem prejuízo
hume, pro empírico, achando-o leal

 

13

enthousiasmos que em mim só se agrava
afronta pois o ensino d’aquino
o qual ao gênio ofende, deprava
também d’ luther, hipona, Calvino

 

14

se a marx o fetiche é mercadoria
o capital opressor do infeliz
aqui, donx, escravx, em coautoria
convertem a dor no valor motriz

 

15

bem mostra-nos aquela multidão
que no ato com françois observara
sanson primeiro torturar-lhe a mão
tronco, o resto após, a tarde cara

 

16

queimam, vertebras, equus n’alcova
alegorias, comuns arquétipos
homolka, bundy, bodil, malkova
bispanking claire, fados, édipos

 

17

conquanto comece, exija o perfil
mártir, catella, de hermética ou rés
seu molde revira, perfaz-se em til
amiúde, avessa, reviça, revés

 

18

perdoe-me leitor se cá me extravio
abuso das figuras pra aduzir
mas é flama a memória, ou um pavio
ora compraz-me o fluxo e faz luzir

 

19

crua, devassa, nessa contradança
la bruja vislumbra, desfere o fel
de lua, dourada, a bátega, avança
o tédio da última, oblitera, o mel

 

20

harpia, vampir, agita o chicote
agarra, rebuça, esgatanha o osso
oblíqua, carmina, a própria sorte
cava, retrava, profondo rosso

 

Canto 3

 

21

antes d’ seguirmos cabe explicação
ao uso dum termo citado acima
porventura não seja obrigação
contudo dou versão q’ qro que exprima

 

22

se “obscoso” nd encontra, em lugar nenhum
é devido seu viés ‘xtraordinário
obscuro e viscoso agrupados num
neologismo pro vocabulário

 

23

prossigo nesse instant donde parei
co’ a femme fatale a minha frente
que, em frenesi deixou-me, na sua lei
miragem, substância evanescente

 

24

nessa forja onde a pedra amarra o sol
e a legião celebra o próprio fim
ta’ o sábio que na montanha é farol
condenado o dragão ressurge em mim

 

25

este tão logo se manifesta
“venho a ti, e ‘tu deves’ é meu nome”
grito “satã! diabo! mal que infesta!
belzebu! levai p/ lá a vossa fome!”

 

26

ao que sorri e, soberbo, assim me diz
“ouve, compreendo essa tua precaução
porém os que compõem minha matriz
são os mesmos que povoam teu coração

 

27

mil faces tenho e mil faces há em ti”
conclui dessa maneira a sua língua
reajo, então, “vós, de mim, ide, parti!”
“inútil é a ação, nada se míngua

 

28

hidra sou, dessas testas que possuo
fulguram os preceitos que as sustêm
se uma é decepada, duas, sem recuo
crescem no lugar e o ocaso detêm”

 

29

qual dura sonora onde o índio clama
soa, ressoa, atirado sou àquela voz
retorno, a visão imersa em lama
para a mulher que é xama, bruta foz

 

30

mas nesse imo, fragílimo cristal
zona cujas piras não são breves
áspero, esse monstro, sua digital
troa, “tu deves, tu deves, tu deves…”

 

Canto 4

 

31

saliva a besta ao desiderato
enqnto, espreita, essoutro d’ várias tranças
caos sobre caos, causando o substrato
menocchio, sua gênese às lembranças

 

32

degola a mãe, pierre, por compaixão
eu, de mim, um maço que reprime
todavia para ambos a maldição
no cáucaso à ave pelo meu crime

 

33

tecem as irmãs nosso destino
nós, amalgamados, feitos em ser
consoante d’ parmênides o atino
indiviso, omnis, perpétuo haver

 

34

de maneira diferente o devir
heráclito crê real, legifera
conceito que introduz ao perquirir
panta rei, fogo, tudo se altera

 

35

pra tales entretanto em início
a água, da natureza, se traduz
igual fêmea, bravio mar, um vício
líquida nave gera e nos conduz

 

36

já anaximandro o ápeiron insere
valsa invisível como proposta
infinito q’ derrama, (re)ingere
pasta donde a physis é composta

 

37

razoável o ar remeter outrossim
àquilo que transmuta a matéria?!
segundo anaxímenes faz-se assim
o antropo, o mineral, a bactéria

 

38

empédocles afirma por sua vez
que é das quatro raízes essa função
unas com o amor e o ódio em lucidez
tramam da nascença à putrefação

 

39

pitágoras idem inaugura
o número indubitavelmente
p/ xenófones é a terra, assegura
a demócrito, o átomo, “somente”

 

40

inobstante, seja enfim essa arqué
não o noûs de anaxágoras q’ move a idea
destart’, qual dorso daquela em mim é
paisagem, pasto, ninfas ou medea

 

Canto 5

 

41

a manceba amante inda que tele
pois alfim só plantou grave espectro
fere-me a boca, a boca à mia pele
conserva-se acre, látego plectro

 

42

tal perenelle flamel, lendatriz
logrou longa vida com a magia
crepita, velada pua ou beatriz
ora turra dulcis, ora em algia

 

43

águia de sangue, rebenta o fruto
seiva nossa, das escápulas, voa
xenomórfico ose, dissoluto
morta madre na des-figura ecoa

 

44

nobre sal, item oma signo seu
pela treva age, prodigioso orbe
da abóbada, entona sina, androceu
sua vinga prepara nesse alforbe

 

45

“eu que de mary à cria me assemelho
largo orto em serro da calipígia
sou, de hades, rei, sacro escaravelho
ou vulgo um, verbero desta lígia?!

 

46

de ifigênia, a forte, rubro manto
que avulta-se algures pra deidade
ou o bico, à turba, do falsanto?!”
vão… verbo é impossibilidade

 

47

entre bósons, estelas, onde o grão
a prima obra, ny, raro etimodeus?!
por grossa fuga pulsa seu cifrão
em sólitons verte neuroproteus?!

 

48

oumuamu’alto e silente cetáceo
paz nenhuma demonstra esse enigma
traspassa o céu, infausto rubiáceo
rangem consigo as almas do origma

 

49

suspenso negrume ao sono induz
cobre de angkor frontes impassíveis
quem fácil não cede luna seduz
mas uivam em mim coisas horríveis

 

50

das vespas a peçonha igualmente
quos ortópteros cativos torna
envenena, a solidão, seu cliente
abasta essa raiva que, o senso, orna

 

Canto 6

 

51

ouabaína aplaca e regenera estro
quebra espada, esfaz a malfazeja
asperge o falcão sua febre, destro
molesta, circunda, ankou solfeja

 

Sel é poeta e artista visual. Possui textos publicados nas revistas literárias Arcana, Diversos Afins, euOnça e Benfazeja. É autor dos livros: Autopse (ed. Multifoco – 2012) e [Sel]vageria (ed. Urutau – 2016). Ambos de poesia.

 

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94ª Leva - 08/2014 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Alessandra Cantero

 

Luciana Bignardi
Foto: Luciana Bignardi

 

argamassa

 

pedra
sobre
lado a lado
pedra

entalhe desigual
atrito
ruído

encaixe à força
de conflito

sobre, sob
lado a lado
frente a frente
pedras

queda livre
noit solta
castelo construído

pedras firmes
frágeis como vidro

 

 

***

 

 

sob o peito
sombra
um som
ínfimo
fissurando ao
infinito gelo
dum azul distante
e marinho

depois de um tempo de mar
anzol é âncora

 

 

***

 

 

tento
desvínculo
do vício

mais
me separo

mais precipício

 

 

***

 

 

não foi nada!
essa dor é só jeito q a vida se dá por inteiro
não é nada
esse nulo é o todo despejo na pele
palavra que emperra completo complexo
esse pó na faringe poema
não esquenta e esquece de novo

 

 

***

 

 

o tempo esgota
com garras de ferro

rasga esganado
tecidos da pele

coa língua da gente
lambe e geme
cravando os dentes
nas dobras fecundas
dos nossos desejos
efêmeros

 

Alessandra Cantero. Poeta, licenciada em Letras pela Universidade Paulista con Máster em Filologia Hispânica pela Universidade de Sevilha, Espanha. Publicou o livro de poesia Deslocamentos Líricos (São Paulo: Patuá, 2012).

 

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91ª Leva - 05/2014 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Dheyne de Souza

 

Arte: Marcantonio

 

Quando eu digo saudade e sinto outra coisa

 

vezes caminha em mim uma saudade que é um pouco arredia, um pouco insolente.
Ela vem com esses passos de noite como quem acorda um escuro.
Ela toma a mão dos meus sonhos e começa a cerzir metragens curtas.
Como se minha vida fosse uma fita me fita, essa memória meio insalubre, com os seus olhos de carpir montanhas. Com esses olhos de um tema curvo. Com essa displicência do momentâneo. Paisagem que dorme sem leito.
Mas não é sempre que me toca a pele esse vestido leve de sentir o peso.
Muitas vezes querendo que me perca me bato me espanco me ergo me enleio sentindo saudade desse modo específico de sentir falta.
É que ela me espinha o passado.
É que ela me aborta o presente.
É que me faz esquecer de ser para lembrar o que podia se fosse.
É que ela me ensina a ser forte, a ser grosso, a ser firme com seu meio ríspido de me tirar daqui. Com o seu gesto insípido de me lembrar que o instante é tudo o que tenho e deixo. Com o seu freio de desapego. Com o seu jeito, enfim, me devolve praticamente ileso.
Assim. Tem dias, confesso, que me pega bem preparado e eu lhe chamo de nomes bem feios – da forma que eu consigo dizer, que nunca fui muito afeito a maltratos. Mas digo mil coisas vis. Minto que esqueci de todo o berço. Grito que tenho costas limpas. Urro que no meu olho há cílios secos. Corro tanto a lembrar o quanto sou que tropeço e quando me aqueço azulejo já nem ri.
O que eu dizia mesmo?
Que às vezes ela não pisa nos meus medos.
E eu fico assim em vigília.
Eu fico assim dia a dia.
Sabe?
Eu vou ao supermercado e compro uma bala azeda.
Eu corto o cabelo em outra.
Eu rio uma piada negra.
Mudo de endereço. Danço. Corro.
Vou à academia louco a levantar esses pesos.
Bebo.
Mas ela me assiste em uma poltrona macia. Porque sabe que quando sento, quando meu olho esbarra na janela, que pena.
É uma ressaca pelada, sabe?
Assim meio desencapada.
É quando falo com meu cigarro.
Quando me abro com um café, me banho um blues.
Quando tenho alma feito desmaio.
Olhando buracos.
Catando sílaba.
Medindo o vácuo.
Sentindo uma saudade oca de senti-la.

 

 

Dheyne de Souza está em Curitiba, escreve poesia, prosema, caos e guaritas.

 

 

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81ª Leva - 07/2013 Janelas Poéticas

Janela Poética V

João Urubu

Ilustração: Mario Baratta

 

 

Teu Tutor Torna Todas Tuas Temperanças Trovões. Ou. Titubeio.

 

Para Thainá Cardoso.

 

 

I.

Estou em débito de dores contigo.
Não pelo livro do Paes Loureiro,
Ou pelo filme do Peschkowsky.

Há algo de insípido nos teus olhos.
Desengraçado mesmo.
Desinteressante
E fácil.

 

 

II.

Uma escada é posta na tua frente.
Ela fica em pé sem apoio.
E tu não mostras ao mundo nada disso.
A escada lá fica.
Não a usas
Nunca.

E justamente por causa da hialóide não demonstras nada.
Não tens humor nem no humor vítreo dos teus olhos.
E teu desespero é mais gasto quando tens os olhos abertos.

Sabendo que humor é um fluido líquido contido em corpos organizados
Não temos humor, nós dois.
Do humor negro, sobra-nos apenas o negro.
E é quando eu me sinto abraçado.

 

 

III.

Eu não gosto de covardia.

 

 

IV.

Esse teu jeito pretensiosamente chistoso irrita.

– Tu me chamas de pedante –

Eu não vou mais te adivinhar
Entediei-me.

Eu não vou mais entender.

 

 

V.

Agora eu sou teus olhos.
O nulo deles.

Sou teus olhos me afrontando.
N’uma nebulosa.

E em câmera lenta
A destruição
De uma vida
Ínfima
Nos faz
Parecer
Livres.

E o conjunto dos pássaros
Poetas
Ou estrelas
Não
Nos
Fará
Mais soltos
Por
Mais
De
Cinco
Minutos.

Chateie-se.

 

 

VI.

Eu faço isso, pois começo a achar que me serves mais morta.
Me serves mais seca.
Por que teus olhos já não me dizem nada.
Além de colo.

E eu tenho os joelhos doídos demais para ceder às pernas.
Tuas.

 

 

VII.

Deverias usar mais lilás.
E passar menos maquiagem.

Maquiagem não combina com lua.

– Não te justifica.

Só justifica quem muito pensa. Lua não pensa.

A Lua só é pensa quando…
Quando…

 

 

VIII.

Morre, Lua.
Morre, Pássaro.
Morre, Poeta.

Nada mais faz senso.
Nada mais faz questão.
Os teus olhos não me dizem nada.

Nada.

Absolutamente nada.

 

 

IX.

Para de molhar.
Para de molhar.
Para de molhar.

Não adianta
Nem adia
Continuar
Olhando.

Para de olhar
Que eu paro de escrever.

 

 

X.

Para de ler que eu paro de escrever.

Eu nunca vou parar de escrever.

Teus olhos não me dizem nada.

 

 

(João Urubu é músico, poeta e compositor da cidade de Belém – PA, graduando de Licenciatura Plena em Letras com Habilitação na Língua Francesa pela Universidade Federal do Pará – UFPA. Dos três anos como poeta e compositor, passou um ano especificamente trabalhando como compositor de trilhas e diretor musical de teatro)

 

 

 

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76ª Leva - 02/2013 Janelas Poéticas

Janela Poética III

João Urubu

 

Foto: Silvio Crisóstomo

 

 

Efemérides do Desuso da Dor.

 

I

O que Mereço ou O que me Passo –

 

Eu tenho medo, confesso.
Juro que confesso meu medo
Meu medo
Meu medo é que se calem meus olhos.

Que meus olhos se calem o que há muito já não diz minha boca
Tenho medo que já não me caiba em meus olhos um mundo
Um mundo que em mim já é submerso, absorto.

Eles já calam as despedidas, meus olhos.
Outrora tão serenos, meus olhos cerrados, doídos.

Agora inertes trôpegos de uma maldade relutante
E uma saudade relutante
E eu não queria
Eu não queria que alguma coisa em mim
Como os olhos
Se tornasse finita.

Tudo é finito.
Desgostoso, admito o fato.
Tudo é finito aos olhos de Deus
E aos olhos do estômago.

Meus rins doem
E riem.

Meus olhos já nada
Nada em meus olhos
Pela tortura da dormente sensação de sofrimento por antecipação
Não sinto meus olhos.

E ao fim, que a eles pertence.
Que chegará sem que eu sinta.
Meus olhos morrerão no meio da minha preocupação medíocre
E eu não o saberei, mediocremente, justo por querer sabê-lo.

É justo.
Calar-se em meio disso é justo, é nobre.

Por isso falo, falo sem pensar, sem parar.
Ajo sem pensar, sem parar.
No fundo no fundo acho que o que eu quero é dessentir.
Por medo de provar do sabor de realidade que ludibrio.

E eu sinto tanto, sinto muito.
Sem sentir nada.

A vida é justa aos que a vivem plenamente.
E eu acho que nunca a vivi.

Minha vida é nada, minha poesia é nada.
Eu nunca vivi.
Tudo é falsidade, porque nem me permitir sentir, de forma íntegra, eu consigo.
Eu não sei ser íntegro aos olhos que falam.
Aos olhos que cantam
Aos olhos que cegam
Aos que cerram, à noite, em paz.
Os que cerram pra sempre.

Eu não mereço o olhar de nenhum cristão falso
Ou pederasta.

Matei meus olhos, sufocaram.
Sufocaram de tanta dor não sentida
Eu sinto um vazio no peito.
Eu sinto um vazio.
Vazio é vazio.
Vazio não se sente.

Assim eu adormeço, jurando pra mim mesmo que mereço outro dia.

Há sempre outro dia.

Há sempre outro dia

Há sempre outro dia

E é o que eu mereço.

 

 

***

 

 

IV
Lächeln und Verzweiflung –

Para Carla Diacov

 

Feita
Seleciono silenciosamente gritos
Sempiternos e silenciosos gritos
Ditos no oco de minha alma estática e muda
Onde já não há estática forma
De se dissimular verdade.

Que verdade o acaso me espera saber responder, corresponder, adivinhar?
Se não me caibo equilibrar para além dos poros qualquer tropeço
Se a minha carne trêmula veta a possibilidade dos tremores cardíacos.

-Os tremores cardíacos os quais calo-

Que razão desmensurada me propõe tamanho lirismo?
Que conveniência me propõe tamanho gozo?
Que proficiência assentida pressupõe-me?

Chega de dúvidas.
Ao descaber-me dessas, curvo-me ao escuro.
Que ameniza, juntamente aos cigarros.
-Os limitadores de afã- Cigarros.
Porque afã cansa
E eu me sinto cansada.
De espera.

O mirone da vida teimou em dizer-lhe:
Olha como falha, demente, ao que tanto anseia.
Viciada nas parvoíces do devir.
Viciada na espera.
A paixão já lhe descai naturalmente fugaz.

Sou o acúmulo dos sentimentos néscios.
Eu que me deixo lograr.
E digo assim complexamente, pois fujo.
Que não me permito perceber.

Licença poética das medidas provisórias…
É onde me arranjo, porque meu ganho nessa corja de ideal é quase nada.
Minha cara dada a tapa somente ao vento, que muito maliciosamente bagunça os meus cabelos.

Quisera eu, quem sabe, perceber metade de mim nessa realidade que criei por cima da pele.
Ah, titubeando pro nada a graça de um brado valoroso.
Como sou mesquinha
E leve.

Avessamente bem quista pelos extremos de mim mesma.
A revolução por dentro da pele
O apaziguamento para além dos poros.

Como quisera eu ser pra dentro
O que pra dentro eu queria fora.

 

 

(João Urubu é músico, poeta e compositor da cidade de Belém – PA, graduando de Licenciatura Plena em Letras com Habilitação na Língua Francesa pela Universidade Federal do Pará – UFPA. Dos três anos como poeta e compositor, passou um ano especificamente trabalhando como compositor de trilhas e diretor musical de teatro)

 

 

 

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74ª Leva - 12/2012 Janelas Poéticas

Janela Poética V

Marcus Groza

 

 

Foto: Catharina Suleiman

 

 

aprendo
a tática
dos gravetos

me aninho
em labirintos
e territórios alheios

se perco
quebro me inflamo
ou falo sozinho

não é porque
a febre dos sinais
me galopem a esmo

cego
aceno o diálogo de poucos
porcos especialistas em pérolas

mudo
de discursos e sílabas
ora teimosia de um barco a velas

ora colossal
qual monstro ou surdo
ritmando mínimos tremores de terra

cajado inimigo
tacape em punho
invisíveis cirurgias nas vértebras

 

 

***

 

 

detrator azucrino
atravesso a paciência
com a pontinha dos dedos
calcifico as desvantagens
faço cafuné e coço
do cóccix ao meio do céu

pernas inquietas em síndrome
de reclamar mil calcanhares
bem antes do salto o chute
e infecção no canal da lágrima
só dando nó em agulhas
é que massageio os ossos da face

 

 

***

 

 

o duro nódulo
parto
no muque
ou com uma gafe

desdobro
os laços
canhestro
trombo
nas etiquetas

rasgo
com o sabre
devagarzinho
faço butim do sumo
arrebato só o recheio

escambo sem bodas
brindo a quem
só nos receita
ir ir e colisões

 

 

(Marcus Groza é poeta, dramaturgo, professor e devoto do céu violado. Autor do livro de poemas Do Buraco à Poça (no prelo – Editora Patuá), escreve regularmente no blog Pelas Ventas e Membranas. Além de literatura e teatro, interessa-se por música experimental e intervenção urbana. É Mestre em Artes pela Unesp e graduado em Filosofia pela USP)

 

 

 

 

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74ª Leva - 12/2012 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Dheyne de Souza

 

 

Foto: Catharina Suleiman

 

 

eu quero des-cobrir a tua alma fóssil

 

preciso te avisar que sei carpir segredos e tateio silêncios
porque ouço em braile e à medida que teu sono inspira inauguro
arcabouços postes na altura dos teus poros, pequenas cidades.
eu quero estepe e riso e gota e vidro
e na esquina do teu cílio enredo um poema tátil. quero aparar tua
reticente vírgula. e confundir o teu cenho enleio passo.
mas eu preciso prevenir teu vão. que desenho til na linha do teu
lábio. que detenho o vil da tua fineza. que aparo gotas do teu olhar
quedado.
eu quero carpir a tua pele dentro.
quero expandir as tuas verdades.
quero escalar as paredes mornas do teu berço ilhado.
advirto ainda que meu toque é leve, não quero acordar o teu
silêncio indócil. eu só quero as portas do teu só sem chaves. tirar
pra dançar essa fresta tênue, que descansa a falta de uma brisa
torta. o meu hálito venta janelas de miras.
enquanto a tua vigia dorme, inscrevo o alfabeto das tuas retinas.
eu quero acordar a tua alma fóssil
e bocejar na boca da tua angústia
e quem sabe dizer bem baixinho e rente: despe o teu medo o frio o
passado o espinho que meu leito é quente e minha sede é ninho.

 

 

(Dheyne de Souza está em Curitiba, escreve poesia, prosema, caos e guaritas) 

 

 

 

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70ª Leva - 08/2012 Janelas Poéticas

Janela Poética VI

Foto: Viviane Rodrigues

 

 

 

ENCANTAMENTO

Luiz Otávio Oliani

 

no balde de juçaras
o homem busca
a água de que precisa

no terreno seco
procura o vento

encontra Deus
disfarçado de sabiá

 

***

 

O POETA E O OPERÁRIO
xxxxxxxxxxxxxxA Maiakóvski

 

o que difere
o poeta do operário?

na maquinaria
o trabalho braçal
dá lugar à escolha
de substantivos
verbos
metáforas

se um carrega cimento
terra areia
o outro esculpe o ser
talha a essência

se um usa espaçador de piso
espátula roldana
o outro opera em silêncio
na construção do poema

 

(Luiz Otávio Oliani nasceu no Rio de Janeiro. É graduado em Letras e Direito. Em maio de 2000, foi homenageado com a medalha “Só para Lembrar” no recital “Versos Noturnos” organizado pela SPOC. É detentor de mais de 50 prêmios literários. Publicou dois livros pela Editora da Palavra: “Fora de órbita”, 2007 e “Espiral”, 2009; e “A Eternidade dos Dias” pela Editora Multifoco, 2012)

 

 

Categorias
66ª Leva - 04/2012 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Foto: Kenia Vartan

 

 

ANÍMICO ANIMAL

Roberta Tostes Daniel

 

Petrificado pelas sensações.
Um bicho. Transmuta
Dor de si. Calcário,
Prende no rosto da rocha
Um reino de pesar. Pensa
Sob seu magma, sente
A poeira nas formas:
Sedimentária magia.
Requenta um passado
De fome. Um nome
Sublima a meninice do homem.
O anímico animal crava os dentes
No sangue da rosa. O peito
Como o diabo gosta:
Santa candeia de artérias.
Um servo: de querer bem ao corpo;
Um passo: rumo a tudo que varre;
Um sopro: de abismo e de glória.
Poente, um deus que venta o rio.
Senhor de fogo, de frio,
Ferve o eterno.
Verve do querer.

 

***

 

COMO PALAVRA
Palavras, evocações que faço
Beberagens do desconhecido
Sob a areia dos meus pés
Fortuitamente, o delírio.

O jorro profundo o silêncio
Seminal do indizível
A liturgia do poema.

Clivada de oculto, não meço
Que levo uma espécie
De vida dupla, movediça
Transubstancio-me na coisa

Da lida da lira.
Como palavra me abro
Ao rito vertida.

 

(Roberta Tostes Daniel, carioca nascida em 1981. Colaborou recentemente na Miniantologia poética do Centro Cultural São Paulo. Publicará na próxima edição da revista Zunái e no segundo volume da Pequena Cartografia da Poesia Brasileira Contemporânea, organizada por Marcelo Ariel)