
Poema # 5
L. Rafael Nolli
Que se desabroche como flor
em um vaso sobre a mesa –
alimentada por lâmpada fluorescente
………& água de cloro da torneira
(ou
às margens de uma estrada
que segue o curso do rio: onde
o sol faísca nos olhos dos cavalos)
Que se desabroche como as flores
no canto escuro da casa –
regada pelo encanamento rompido
…..& o árduo trabalho intestinal
(ou
no peito do homem
que entre tantos outros caminha
para libertar a cidade sitiada)
***
Inventário de um rio # 2
1
Aquele havia sido o meu Eufrates.
Ainda que inexpressivo
– sequer constava no mapa –
não teria havido nada sem ele
(a água era tão pouca
e de tão má qualidade
– pombos sedentos agonizavam
……………… às suas margens –
que nada sobrevivia em seu bojo
[além de vermes aquáticos
e caramujos da esquistossomose])
Aquele havia sido o meu Aqueronte.
Quando corria –
quase sempre estava engasgado
……..com o cadáver de um cão –
conduzia a inframundos
………………sobre o domínio de Hades
(pouca era a sua água
………e de tão má qualidade –
espessa como a baba de um enforcado –
que ela se mostrava incapaz de refletir o céu
[senão simulá-lo
………com um azul de olho vazado])
2
Aquele que havia sido o meu rio
se arrasta por galerias de concreto
– como um fantasma do Lete –
roendo pacientemente os pilares da cidade
(L. Rafael Nolli nasceu na cidade de Araxá, MG, no ano de 1980. Publicou Memórias à Beira de um Estopim (2005). Pode ser lido semanalmente no blog Stalingrado. Contatos: nolli@bol.com.br.Twitter: @nollirafael)