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155ª Leva Ciceroneando

Ciceroneando

Ilustração: Nicole Marra

 

A Diversos Afins é puro movimento, dinâmica que teima em render frutos que nos impulsionam adiante. Seu projeto editorial vem se consolidando e renovando cada vez que nos deparamos com instigantes expressões do campo artístico. E como é importante saber que os caminhos não se esgotam por si só, pois habitamos um mundo onde as vozes se mostram plurais e dotadas de acordes próprios. Aliás, o emblema da singularidade sempre foi uma marca de nossas edições, pois, a cada etapa de publicações, percebemos que surgem outros tantos olhares sobre o mundo, essa grande plataforma através da qual os sentidos emanam e se fazem presentes. Imersos em leituras das mais variadas, por vezes somos surpreendidos positivamente com o efeito que os autores imprimem a seus textos e imagens. Ao fim e ao cabo, são distintos modos de se narrar a persistente aventura humana sobre a Terra. Escritores, artistas plásticos, ilustradores e fotógrafos, dentre outros, são verdadeiros provocadores quando nos tomam de assalto com suas investidas. Mais parecem desacomodar nossas pequenas e frágeis certezas diante da vida e seus fenômenos todos. E é salutar quando a Arte atinge esse ponto de se balançar antigas estruturas e nos propõe fôlegos alternativos para saborearmos nossas andanças mundanas, pois o objeto artístico não se desvincula do ato espantado do existir. Do equilíbrio entre convites e aproximações espontâneas, brota uma nova Leva de expressões que remontam a universos pessoais bastante contundentes em seus propósitos. Pelas veredas das nossas janelas poéticas de agora, por exemplo, despontam os versos emblemáticos de gente como Marianna Perna, Marlos Degani, Ramayana Vargens, Anna Lúcia Maestri e Lisandra Crespi. São de Gustavo Rios as impressões acerca dos contos de “Gosto de Amora”, obra de Mário Medeiros. Na seara do teatro, Vivian Pizzinga nos apresenta uma abordagem sensível e convidativa sobre o monólogo “Traidor”, interpretado por Marco Nanini. Por ora, somos bem servidos de prosa com os contos de Whisner Fraga e Ailton Lima, cada um com seus horizontes peculiares. Em sua verve cinéfila habitual, Guilherme Preger incursiona pelos aspectos relevantes do filme “Anora”. O disco de estreia do rapper Yago Oproprio é destaque das apreciações sonoras e aguçadas de Larissa Mendes. O entrevistado da vez é ninguém menos que o escritor baiano Paulo Bono, que dialoga com Fabrício Brandão sob o impacto dos desdobramentos de seu mais recente livro de contos, “Pepperoni”. É Roberto dos Santos quem nos conduz pelas alamedas de “Quem falou?”, romance de André Cunha. E todos os espaços aqui aparecem abrilhantados pela exposição das ilustrações de Nicole Marra, artista que nos oferta uma possibilidade especial de mergulho na dimensão feminina das formas. Com toda essa reunião de valiosas contribuições, nasce a Leva 155. Boas leituras!

Os Leveiros

 

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155ª Leva Janelas Poéticas

Janela Poética III

Ramayana Vargens

 

Ilustração: Nicole Marra

 

SEM VOLTA

 

O tempo se dissolve no ar
Átomos mágicos
de pó
de vida
O tempo só pode viver
em trânsito
através da transmissão solar
que transporta
a trajetória da existência

O tempo não é triste
nem histérico
É tranquilo
no transe histórico
dos motivos orgânicos
da razão de existir

O tempo
O tempo
O tempo
O tempo poeira
transitório
não tem trombetas agudas
Atropela em silêncio

 

 

 

***

 

 

 

Na geografia abstrata
da condição humana
imprudência maior
é não perceber
a inutilidade do medo

 

 

 

***

 

 

 

Ninguém sabe quem
inventou
a máquina que criou
Deus
No entanto percebe-se
pragmático engenho
humano
na indústria da culpa
e fabricação do pecado

Mas quem explora
o câmbio flutuante
do medo
e outros ativos baratos
dos negócios escusos
da alma
no mercado
clandestino
das mentes covardes?

 

 

 

***

 

 

 

Quando sinais são trocados
menos com menos
é demais
A ordem dos horrores
não altera o produto
A soma das mazelas
é um total sem restos
ou rasuras

 

 

 

***

 

 

 

Eduquei meus neurônios
com muita
permissividade
Fiz todas as vontades
e eles ficaram
mal acostumados
Criei meu coração
com liberdade
para sentir
o que quisesse
Aceito sereno
seus caprichos estranhos
e suas manias esquisitas

Não ensinei maldades
ao meu espírito rebelde
Acostumei meu sono
a dormir limpo
com a consciência
desarmada
Passei meus olhos
por paisagens pacíficas
e atmosferas benignas
Habituei minhas mãos
no trato sincero
do afeto dedicado

Sou normal
Diferente diverso
Único
Exclusivo
Comum

Sigo leal
os mandamentos
do instinto
as luzes da razão
os saltos de improviso
e a verdade
desconhecida
do que sou

Faço o que sinto
Mas não controlo
infortúnios
e mal entendidos
de amor

 

 

 

***

 

 

 

Histórias íntimas
têm o sagrado direito
ao segredo

Memórias secretas
retidas no peito
sangram de medo
quando não são
drenadas com jeito

 

 

 

***

 

 

 

Do sal das estrelas
e dos sonhos dos deuses felizes
fez-se o amor no espírito da vida
Do atrito do vento
passageiro do espaço
que sopra faíscas
no incêndio das águas bentas
formou-se a massa matéria
fumaça
de momentos partidos em pedaços
de tempo

Comunhão
entre sangue
e sentimento
na usina do desejo
nas formas da carne em festa

 

 

 

***

 

 

 

Bichos que voam
conhecem
todos os tipos de chuva
Não arriscam as asas
em tempestade com raio
Não voam contra o vento
em nuvem pesada

Só os pássaros da paixão
enfrentam tormentas
por amor

 

Ramayana Vargens é poeta, jornalista, dramaturgo, compositor e professor de Literatura. Iniciou seus escritos na adolescência e, após mais de 5 décadas, tem textos publicados em variados suportes, do impresso ao digital. Os poemas aqui selecionados integram o livro “Amor Tecido nas Nuvens” (Via Litterarum, 2023).   

 

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155ª Leva Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Anna Lúcia Maestri

 

Ilustração: Nicole Marra

 

dois dias

 

num dia acorda-se tarde depois de
se ter aprendido tudo com a cedura das manhãs

num outro dia acorda-se e já terá partido
o seu cão
e só muitos dias depois é que seus pés
aprenderão a se acostumar
com a ausência
de outras patinhas no caminho até o sofá

num dia acorda-se e descobre-se que
a mãe existe
e agora você finalmente tem
para onde voltar
mas o pai continua por se descobrir
quem sabe um outro dia
numa terça ou quarta-feira
de um fevereiro ou dezembro
e sabe se lá deus de que ano

num dia acorda-se e o mundo já terá engolido
a casinha azul onde mora a infância

e mesmo assim
com tantos números quanto o
calendariozinho na geladeira
é capaz de suportar
vive-se dois dias apenas
um em que as coisas todas estão
e outro
em que há muito já ficaram para trás

 

 

 

***

 

 

 

dos pequenos caprichos

 

esconder-me pequena
da lua cheia
descobrir a caligrafia
das vizinhas
aceitar a cartografia bagunceira
de um ipê

pequenos compromissos
com o capricho que é viver

fazer do chuveiro
cachoeira
reclamar de uma ou outra
obrigação
deixar-me aqui a ver
o tempo dos morangos

pequenos caprichos
com o compromisso que é viver

 

 

 

***

 

 

 

como iniciar uma conversa

 

encontre por aí uma formiga.
apenas uma é o bastante por hora.
mas lembre-se que
encontrar uma formiga não é pegar uma formiga.
encontrar uma formiga não é comprar uma formiga.
encontrar uma formiga não é tornar sua a formiga.
ou, como é ainda absurdamente muito comum,
encontrar uma formiga não é,
sob qualquer hipótese, matar uma formiga.
então pergunte à formiga o que ela faz pra se divertir.
acompanhe-a por alguns dias e quando, evidentemente,
não obtiver resposta alguma,
pergunte à pessoa mais próxima

o que as formigas fazem pra se divertir?

 

 

 

***

 

 

 

deixar que uma coisa leve a outra

 

queria escrever em voz alta
manifestar meu anti-manifesto
atirar-me sem artilharia
deixar ir a ideia brilhante
que nem ao menos brilha
nada que interessar possa
ao desinteressantes medos
dar aos dedos
alguma coisa nova
talvez isso,
navegar nas novidades dos dias
tentar diálogos
com os caprichos do tempo
com o diacho das folgas
com o bicho que é meu fôlego
deixar que uma coisa leve a outra
poupar-me do pouco que sei
até não sobrar soberania alguma
alugar algum lugar em que
eu possa estar livre em mim
sem fincar bandeiras
presumir que fugi
fingir que não sei do que se trata
desfazer os tratos comigo
e mesmo assim,
seguir sentindo tudo pelo caminho
e que meus caminhos se resolvam entre si

 

 

 

***

 

 

 

outro dia
passei pelo mundo e vi
Começo e Fim
com seus focinhos esfregados
um contra o outro
um carinho sutil

um carinho
sutil
é capaz de consertar
de coreografar
as linhas do tempo
até que deixem de ser linhas
até que se tornem
danças do tempo
caleidoscópios do tempo
crianças do tempo
pequenos brotos de cenoura do tempo
marés do tempo
acrobatas do tempo

até que deixem de ser linhas do tempo
e se tornem
acrobatas
do tempo

 

 

 

***

 

 

 

o belíssimo espetáculo inimaginável do sonho
chega ao mundo
de perto, bem de perto
lê-se apenas que
é expressamente proibido olhar
pela cortina.
então,
feito criança, espia-se

 

Anna Lúcia Maestri é poeta e educadora, tem 24 anos e nasceu em Santa Catarina. “Tapetes são cidades de dançar” (ed Devir Poesia e Prosa, 2024) é sua obra de estreia na poesia, que cativa novos ares através da imaginação, profundidade, bom humor e encantamento com o que há de pequeno e grande em nosso cotidiano, um olhar sensível cultivado também no trabalho com as crianças pequenas. Atualmente, mora em São Paulo e divulga seus ofícios através das redes sociais.

 

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155ª Leva Janelas Poéticas

Janela Poética V

Lisandra Crespi

 

Ilustração: Nicole Marra

 

 

Lave as mãos
se despeça do corpo
não se esqueça das extremidades
o cheiro da vida é voraz
inebria as narinas
tornando difícil sentir outro odor
gosto azedo queima a língua
talvez a vida venha para arder
impregnar nos sentidos
grudando na pele
mesmo que a esfregue na repulsa de tirá-la
não desgruda,
agarrou-se com medo que fugisse
fugir é perder
o ganho de todo entardecer
amanhã o recomeço
lave as mãos,
de novo.

 

 

 

***

 

 

A nascente se fez
crescente e derradeira
abriu espaço nas fendas
construiu caminhos
e destruiu meus ninhos
cuidei para que permanecessem
elas eram o começo
da vida em desalinho.

 

 

 

***

 

 

 

Morar em momentos
os segurar com força de vida
para condensá-los

Abraçar o instante perspicaz
nele se perde os passos, o abraço, a batida

Ruídos estalares despertam
o canto do tempo é esse
reverberando sua partida

Se agarrar a coisa qualquer
para quem sabe assim não se perder daqui.

 

 

 

***

 

 

 

Faz um tempo que não exponho
não escrevo
nem transbordo
é que me falta vírgula
muito ponto-
poucas reticências.

 

 

 

***

 

 

 

O sentimento é turvo
lança voo
ao pé do ouvido

Estremece o corpo
entorpece a mente
tomando conta

Só se faz sentir
quando caleja
vira semente

Tão temente
que esqueceu novamente
do presente.

 

 

 

***

 

 

 

No tic tac dos ponteiros
vejo todos passando
estão aqui e posso sentir
me avisando ao amanhecer
ainda há o que viver
a vagarosidade se perdeu no olhar
sempre atento ao que não é existente
como seria se não tentássemos espiar
a página do amanhã.

 

Lisandra Izabel Crespi, 25 anos, residente de Florianópolis-SC, é psicóloga clínica e dirigente de grupos de arteterapia. Escreve há 10 anos, no princípio seus poemas não passavam de brincadeira inocente, mas no decorrer dos anos a escrita se tornou uma forma de encontro com quem é e caminho para conexão com o mundo.

 

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155ª Leva Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Marianna Perna

 

Ilustração: Nicole Marra

 

Abertura

 

Pelas mãos daquelas
que vieram
antes.

Porque estive morrendo
já há tanto tempo,
e foram estas mãos
da Idade
que me relembraram.

Eu estou aqui.

Denise, Sylvia
Hilda, Ana Cristina
Adrienne.

Alejandra…
Catarina, senhora.

Senhora.

Eu estou aqui.

 

 

 

***

 

 

 

Poema para cessar o horror

 

Campo de batalha
pelas plumas brancas
da vida & da morte

supremacia destacada
sobre um nada inútil
que insiste em vicejar.

Não, não quero mais o horror
gotejando sobre o umbigo
vermelhoso da terra.

Não, necessito devorar o seu coração
agora
veias e artérias
em um só ato
para que a dor se faça tão, mas tão grande
que deixe de existir.

Filamento por filamento
de carne

Hei de deglutir
e expelir em troca
o fruto extenso
da Chuva profunda
que há em mim.

Desejo o som de água corrente
para encerrar esta batalha
de forma fecunda.

 

 

 

***

 

 

 

Algo de novo

 

Há no ar
a voar

um pássaro enfeitado
de saudade & solidão;

veja como ele
voa alto,

rodopia
em seu silêncio
desconhece todo apego.

Veja como ele
decola, sem demora
decola para além
de suas penas enfeitadas
mergulha fundo
nos céus
e de si mesmo
transborda-se,

extasiado
de um novo sol
que subitamente

brotou

em seu ferido peito…

 

 

 

***

 

 

 

Sobre quatro patas
Cresce a vontade selvagem

Enrola-se
Em galope

Sobe o morro
Suor nas asas.

Palavra impossível.

 

 

 

***

 

 

 

Contemplo do outro

 

Espelho pode ser Máscara, escudo
Pode ser não-ver
Pode ser mergulho & espanto

Ver-se infinita, caleidoscópica
Duelo, esconde-esconde
Convite
Fusão.

 

 

 

***

 

 

 

Lua de fogo

 

1.
na face oculta
da lua
sigo talhando pedra
até virar fogo

2.
no silêncio absurdo
da lua
sigo pisando em gravetos
ocultos
até a floresta
ser toda puro sonho.

3.
na topografia
impensável
da lua
sigo o impossível destino
de beijar o solo
até tudo arder e ser sol.

 

 

 

***

 

 

 

nenhuma carne a cantar
nenhum olho intacto

tudo é nuvem nuvem nuvem
ainda é preciso existir
encontrar formas de seguir

Após o colapso
Após o desaparecimento das estrelas

(Me sinto tão antiga).

 

Marianna Perna é artista, pesquisadora e terapeuta holística. Historiadora & mestre em filosofia (USP). Ativa como poeta multimídia desde 2015, publicou dois livros-disco autorais. Propostas de poesia expandida, contam com trilha musical original, nos quais Marianna se desdobra entre miríades de vozes e instrumentos, além de contar com outros músicos convidados: “A cerimônia de todas as vozes” (Urutau, 2018) e “O livro dos espelhos” (Litteralux/Auroras, 2023). Em 2024, lançou a plaquete de poesia “Até os corais renascerem”, dentro da coleção da Editora Primata.

 

 

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155ª Leva Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Marlos Degani

 

Ilustração: Nicole Marra

 

 

PLACEBO

 

Incomodado no seio da tarde morna,
entre o arquivo em branco e a encosta
do morro, mesclada de cinza e ardósia,
caio novamente na ilusão de uma rota

imaginária, no enredo que me transporta
às curvas da sua neve quente que alojam
a inédita encarnação deste corpo utópico
parindo a perfeição no sal dos meus suores.

Mesmo aqui de longe, posso ouvir as notas
da água contra os seus ombros sem ossos
e fotografo todos os leitos que ela percorre
durante o banho que invento antes da morte.

Por que o poema? Sua ausência é mais forte.

 

 

***

 

 

RANGIDOS

 

É seu o que restou da minha fogueira e da fumaça
que entoa a dor e a música das dobradiças da casa.

Irei assisti-la entre intimidades… E sobre os lados,
abrirei os meus cadeados enferrujados que faltam.

Antes de despertar, serei o seu dia, o chá, a torrada
Petrópolis, o vento de fora e a nuvem almiscarada

das seis; serei a sua folha de outono, o seu mágico
no final da manhã, no beijo das onze: o seu atraso

claro; um grito silencioso ou aquele vapor abafado
ao deitar na sua rua e me asfaltar no seu passado.

E virá a tarde: e serei seu; a noite e a madrugada,
e serei seu, todo, enquanto for a nossa temporada.

 

 

 

***

 

 

 

CHORUME

 

Quando, por fim, acharem entre os meus destroços
A caixa-preta, saberão que mais trágico que a minha
Própria morte, foram os poemas
Que morreram comigo
João Dinato

 

 

E quando acharem os meus destroços,
a caixa-preta não dirá apenas
da tragédia que são os não poemas
ou filigranas que foram a óbito,

dirá dos truques, das obsolescências
— do desdém, do medo e desses códigos
salientes, rasos e mentirosos
em que pus o amor, entre correntes.

Haverá sinais de entorpecentes,
do corpo e alma fantasmagóricos,
de quem nunca teve fé e enforca
a poesia desde a nascente.

E quando acharem os meus destroços,
serei o fedor que sobe dos ossos.

 

 

 

***

 

 

 

Sou aquela chuva muito intensa
Caio no mar, não faço diferença.
Esse sem sombra, não marca presença,
Insosso, não esfria, nem esquenta.
Cézar disse: só uso um esquema.
Eu respondi: é a mesma sentença,
Desde quando fui preso na algema
Do mundo feito de papel e pena,
Da sinfonia muda de nascença,
Do ofício que não pede licença.
Ser poeta é a antiessência
Da cor onde a luz se movimenta.
A palavra, meu reino, em mim reina
No verso que nunca será poema.

 

 

 

***

 

 

 

INSUFICIÊNCIAS
— 23h15 —

 

 

Ensina-me um grito. Ou um suspiro
que reconduza à corrente da janela,

a paleta de escuros do meu espírito,
este voo solo permitido para o poeta.

Repara: em tudo o que reza equilíbrio,
há, entre os lados da linha, o convívio.

E às altas horas desta noite, e à espera
do milagre improvável de algum verso,

defloro a folha de poeiras e de fuligem
(mas sempre será pura e intrometida).

O morro é musgo. O céu não sei ainda.

 

 

 

***

 

 

 

OUTRA HISTÓRIA NATURAL

 

I.

Cinomolgos usam cabelos feito fio dental.
Há tubarões que navegam pelas estrelas.
O Louva-a-deus orquídea é quase branco.
E o tal do poeta não é o que pensamos.

II.

Há primatas exclusivamente carnívoros.
Colmeias sem rainha não produzem mel.
Adolf Hitler pertencia à raça dos humanos.
E o tal do verso não é o que pensamos.

III.

Tiranossauros Rex não eram solitários.
Golfinhos diferentes não são sociáveis.
Cobras e lagartos planam no pântano.
E o tal do poema não é o que pensamos.

 

Marlos Degani, Nova Iguaçu/RJ, é jornalista. Lançou o seu primeiro livro de poemas chamado Sangue da Palavra em 2006 e que conta com a apresentação do poeta Ivan Junqueira, imortal da Academia Brasileira de Letras, falecido em 2014. Em setembro/14 lançou o segundo volume de poemas chamado INTERNADO, também pelo formato e-book, disponível nas melhores livrarias virtuais do planeta. Em 2021, pela Editora Patuá, lançou o seu terceiro volume, chamado UNIPLURAL. Participa como poeta convidado da edição número 104 da Revista Brasileira, editada pela Academia Brasileira de Letras, lançada em janeiro/21, ao lado de grandes nomes da literatura brasileira.

 

 

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154ª Leva - 02/2024 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Luciana Moraes

 

Foto: Marcelo Leal

 

00:00 ou À Meia-noite

 

Devorar as cores em nós, destacar outro tema para o futuro. Hoje, vai
transplantar a palavra que não acordou no corpo inteiro. Passos, no
corpo inteiro, as mais de cem mil vidas, agora, Silenciadas. Inaceitável:
esquecer o dia em que se nasceu (corpo inteiro). Na profundidade de
11km, numa fossa do Oceano Pacífico, a vida quer ser Plenos pulmões, lá
onde o jogo esteja vencido pelo suspirar.
Rente ao chão, nada com os pés, continua assim: inatingível,
distanciado, limítrofe: o natural é já um mistério e AR. Boca aberta,
marulhando ~ ~ ~ faz parte do tempo enevoado. Se encara talvez tanja os
in.vi..ve.is
………………………………………………….g.r.ã.os

 

 

 

***

 

 

 

Compenetrado olhar do Abismo

 

A meta do veado alvejado
é ser mutação e desova
desencarne das flechas
numa ação Cor de Ouro

Não há beleza nem altura maior
do que suas Quatro pernas abertas
empostadas no caminho
galopando o idílico desconhecido
Ressurgindo…

Ele comporta o peso (é)
depois mais nada:
leve e sereno pu(lu)lar de páginas

Como se a chuva
__________________ se expandindo
e toda gota lavando
a dureza da fibra na Cabeça

A ferida na vida
Pausa de quem recebeu Nove
flechas rasteiras cravadas
na carcaça mais fina

gritante e certa
que pudemos
V E R

 

 

 

***

 

 

 

Peregrino no PandeMundo

 

Tu não lês o trabalho deste sangue
corpo catando sonhos reciclados

Tem que abrir a janela para ver

Ar noticiando o fim do começo,
pois só há possibilidade de
início no fim dos
meios-limites

Uma coisa infinita a cada dia
Aqui morre também

O das ossadas, O da carne viva
……se faz
Cotidianamente em seu jardim
, cintilante e cariado,

Nosso pranto inoculado do Agora
Corpos jovens ou não
Garranchos e papagaios de toda
….c………..o……………r

 

 

 

***

 

 

 

Sobre atravessar o horizonte partido

 

Há fome desde a Antera,
onde se poliniza galáxias
Há flor de ideias na tinta espacial
chegando ao exoesqueleto e
em nosso túnel compacto roçando
claras espirais

Se palavra é gasta, sombra túmida de si
malícias negam desfibrilação de estrelas
demônio-um representante
saturação de cores invertidas num dragão marítimo
branco, pouco comum ao olho nu

Nossos pássaros inquilinos
frementes, em desvio
colisão da vida que pulsa
em nós, sem pergunta

Se o peixe feroz, informe e ilegível à claridade
Leviatã New-artífice do exício
do enredo sem rumo
cria o mundo anônimo
noite em todo o corpo, debalde,
carregando as rédeas do tempo nas compotas
de falácias
As sépalas em preto em branco contraem o passado
e assumem a sustentação de toda a flor até o estigma central
parem borboletas luzentes
mitológico sabor do vento
yvytu em zênite
tu e tal e tal e tu
formam-se tessituras de vida

Entre uma cabeça de serpente e outra
não ponderando termos
carregando em sua joia ruína
sua mortal comprovação

 

 

 

***

 

 

 

Tigre de Champawat

 

Quando a chuva
perde sua cor marrom
e tocamos no mistério
de suas entranhas de tigre
o sangue cristalino revela
numerosos feixes de luz
abrigando nossos desenganos

Na claridade do desamparo
ainda tiros intrépidos
e desenfreados
pelas vítimas que ainda vemos
em nosso Habitat

é doloroso morrer, e ainda morremos
porque não somos tigres

 

 

 

***

 

 

 

Rastro 8

 

Após o silêncio
a mulher falava com o sangue
Ela: céu e terra
com a ternura em sua face
sempre se
ajustando
à fala do sangue

Após o sono
na manhã
sem cabelo
com sangue
sem sono

Após o silêncio
seus gestos bailavam os braços
e entravam na Odisseia
entrementes

 

 

 

***

 

 

 

No decorrer da noite

 

Agapanto no peito. Uma Ofélia em água funda. Ainda viva.
Na fuga de novembro. Rasgos de mim.
Mesmo assim, amiga das procelas em fúria.
Uma nova janela aberta. O dossel ao vento nos espalha.
[ Juntas passeamos nas cinzas.

(Você não finda)
Nemorosos
vaga-lumes

 

Luciana Moraes (1993) é poeta carioca, graduada em Letras pela Unirio. Integra a equipe do portal “Fazia Poesia” e o coletivo “Escreviventes”, pesquisa o figurativo do inominável e o hibridismo nas artes extemporâneas, além de atuar como revisora e tradutora literária. Foi tardiamente diagnosticada, no final de 2023, com Transtorno do Espectro Autista (TEA). Participou do coletivo “Oficina Experimental de Poesia” (2017-2018). Tem poemas publicados em revistas como “Mallarmargens”, “Capivara”, “Aboio”, “Caxangá”, “Torquato”, “Cassandra”, “Letras Salvajes”, “Zunái”, “ONavalhista”, entre outras. Seus livros: “Tentei chegar aqui com estas mãos” (2022) e “Flor de sangue” (2024).

 

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154ª Leva - 02/2024 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Bianca Monteiro Garcia

 

Foto: Marcelo Leal

 

PÊNDULO DE FOUCAULT

 

deitada na poltrona de frente pra cama
ensaio um luto te vejo segurando um pedaço
de amora adormecida com as mãos no abdômen
carrego no peito um pêndulo estático
e atento aos teus ponteiros
varro os olhos pela casa e a casa despeja
uma canção sem resposta:
tua pele este tronco de madeira antiga
será capaz de carregar ainda
a textura do teu tempo
quando a raposa que à noite te fareja pela janela
decidir enfim saltar em tuas pernas?
o ruído que tua pleura orquestra
ferve na sola dos meus pés um aviso
a noite se esconde da aurora
e o rastro deixado pela areia
forma um longo tapete antiderrapante
a raposa mais uma vez adormece
debruçada nas patas de um cavalo

 

 

 

***

 

 

 

QUANTO AO QUARTO BALDIO

 

tão irônico este quarto
com estes lençóis branquíssimos
impedindo a poeira a olho nu
embora persistente debaixo do nariz

a parede alva e sóbria adornada
uma longa flâmula vermelha
e dentro
uma citação de madre teresa
– paz
– longevidade
– amor
– paciência
fincado ao leito
o silêncio decora tudo com letargia e raízes

tão irônica esta cama sem cabeceira
presa à parede e ao chão
a cinco passos de uma porta sem fechadura
encostada por um chinelo preso em sua fresta
meu único alarme de segurança

ontem mesmo uma vizinha às 2h da manhã
tensa como as cordas de um violino
pediu pra dormir embaixo da minha cama
por medo da colega de quarto
atacá-la com o pente de cabelo

qualquer um pode invadir o espaço
até o vento entra sem permissão
e eu mesmo sem precisar de chave
não consigo sair à revelia

 

 

 

***

 

 

 

HIPOCONDRIA

 

cresci rodeada de plantas de plástico
não me lembro de arnica em machucados
a mesa da cozinha
sempre costurada por uma mini-farmácia
nimesulida paracetamol privina
hoje teimo fazer sabonetes de argila
e vitaminas de banana com linhaça

 

 

 

***

 

 

 

RELEASE

 

acordo com 25 anos e olheiras salgadas
preciso logo-logo mexer nas pastas
as máquinas me perguntam
– tua data de nascimento
– o nome do pai
– o nome da mãe
– os três primeiros dígitos do cpf

as máquinas me questionam sem pudor

eu lembro, pai
durante os almoços de sábado
das nossas conversas atravessando o som
do rádio
de como as mexericas são
pequeninas
de como as tangerinas são
grandonas
perto de ti eu era eterna
criança
que dormia com as mãos cruzadas no peito
e pedia a um deus qualquer que fizesse do pai
um guerreiro imortal
como highlander
mas sem morte no final
oh dear dad can you see me now?
i am myself like you somehow

 

 

 

***

 

 

 

TRIAGEM

 

cymbalta para suposta fibromialgia
aos 14 esporadicamente alprazolam
aos 16 nos dias de insônia clonazepam
depakote receitado devidamente aos 20
aos 21 a cama dobra de tamanho com lioram
para queda brusca de libido e apatia de sobra:
oxalato de escitalopram
o coringa do hospital psiquiátrico:
sertralina e quetiapina
não peça s.o.s na enfermaria

 

Bianca Monteiro Garcia nasceu em 1994, no subúrbio carioca, onde vive desde então. Fundou a Macabéa Edições em 2019, editora focada em publicar autoras mulheres de diversas regiões do país. Publicou “breve ato de descascar laranjas”, seu primeiro livro, em 2023, que foi agraciado com o Prêmio Jabuti 2024, no Eixo Inovação, categoria Escritor Estreante – Poesia. Lançado em parceria de coedição entre Macabéa Edições e 7letras, o livro fala sobre luto, loucura e solidão. Participou do World Poetry Day Festival, de Washington, representando a jovem poesia brasileira, em março de 2024. Em janeiro do mesmo ano, integrou a publicação La Juventud de la poesía en Brasil: muestra de poesía contemporánea, da Fundación Cultural Esteros (Uruguay – Argentina).

 

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154ª Leva - 02/2024 Janelas Poéticas

Janela Poética V

Jussara Salazar

 

Foto: Marcelo Leal

 

ars memoriae

 

Tenho uma vaga lembrança
De um pássaro [De um mar
De lembrar essa vaga [Essa água
De reprise de ondas
Filmes desbotados [De sombras
Marcas [De patas úmidas
De animais ao redor da casa
Peixes de celofane
Tenho uma vaga
Que se vai
Que se vem
Alga caravela de fogo
Boiando [Como uma chaga
Essa água
Chamada lembrança
Vagando chegando

 

 

 

***

 

 

 

sobre amanhecer no agreste

 

nessa aridez que tudo ocupa
terra semeada à faca_ iamanaka’ru
como se em terra sua
lança suas bordas afiadas
fere a pele de sua pele quando rasga
em si_ como se nasce_ sem água
essa terra que lhe serve de morada
e se lhe sustenta a epiderme_ é para
quando a sede que lhe bebe lhe serve
nas noites de frio espelhe-se
em galáxia de órion que vaga
lá do alto como a fruta violeta
_ a polpa breve
no céu da noite ao amanhecer
fúria
que o sol no catimbau floresce
_recrudesce_ em meio ao nada

 

 

 

***

 

 

 

visão de n.s. da feira do Arcoverde

 

En roscas de cristal
serpiente breve não vês?
pois ouve
seu farfalhar quando
resbala uns
guizos preguiçosos
arabesco
vivo venenosos
rodeando o barro das
vasilhas e moringas
esticadas ao sol gongórico
entre pés
idas e vindas
os peixes
presos ao calcário
gasto há mil anos
pétreos sob o sol
em duro calvário
não despertam
nem
à castanha passagem
ruidosa passagem
de cabras e trens
um cão
o vento
o vento
os bois
o tempo
a água
pingando
na lata
as mulheres
os homens
a montanha xukuru
a mata
e a procissão das
vestes negras o
corpo santo que
atravessa ao dia
o corpo
ornado de velas
vai ardendo a
parafina
à revelia
tão morno
tão fria
tão morna latomia
tão morna latomia
tão morna latomia
enquanto um tambor
ressoa
o som tortuoso
a ladainha ao
longe não é
senão
a luta de um vivo
e de um morto
timão fiado
santos
santa
barrueca bendição
eu e
minha avó
ali
temos
cem anos
de sertão
um cão
o vento
o vento
os bois
o tempo
a água
pingando
na lata28
as mulheres
os homens
a montanha xukuru
a mata
a terra castanha
como
as cabras
exibe suas
cicatrizes
sem
água
a terra
seu chão29
eu e
minha avó
na solidão
ali
temos
cem anos
de sertão

 

 

 

***

 

 

 

O sal

 

essa sílaba
mínima
marítimo oceano
um grão
cristal
pedra d’água
o sal
essa sílaba
para lavar pés
e derramar
sobre a cabeça
do santo
como o batista
um dia o fez
o sal
essa sintaxe salsugem
para a onda
levar
e trazer o cão
a escama
translúcida
essa bendição
o sal
de queimar o mar
das águas vivas
das pedras lavadas
das ervas nocivas
do encarnado
multitudinoso
rubro carnoso
oinopa ponton
homérico salobro sal
para sangrar o mar33
para levar
a onda
para trazer
o corpo
e cobrir as conchas
o fundo do barco
como mínimos
diamantes
para te parir
por um instante
o sal

 

 

 

***

 

 

 

das manhãs na rua das moças

 

sobre a mesa antiga
marcas
ranhuras
mapas riscados
rotas marinhas perdidas
……..[antigos oceanos]
entre panos
da costa
cauim
papéis recortados
as frutas
respingam um frescor
como as folhas brilham
nas mãos que as colhem
na tábua que as acolhe
e sangram seu sumo
como no andor36
de procissão incensada
sagradas
as frutas
as folhas que Nhá
com mãos escuras
lava
eleva
lava
mergulha
na ágata
e bendiz
as manhãs
da morada

 

Jussara Salazar é doutora em Comunicação e Semiótica pela Pontifícia Universidade de São Paulo [Fapesp, 2016], é mestra em Teoria Literária pela Universidade Federal do Paraná (2010). Escritora, tradutora e artista visual, pesquisa ainda alguns mitos relacionados à oralidade e ao feminino havendo publicado “Inscritos da casa de Alice” [1999], “Baobá, poemas de Leticia Volpi”, [2002], “Natália” [2004], “Coraurissonoros” com tradução de Reynaldo Jiménez [Buenos Aires, 2008], “Carpideiras” [2011] com a Bolsa Funarte, ficando entre os finalistas do Prêmio Portugal Telecom na edição de 2012, “O gato de porcelana, o peixe de cera e as coníferas” [2014], “Fia” [Projeto Funcultura, 2016], “Corpo de peixe em arabesco” [[2019], “O dia em que fui santa joana dos matadouros” [2020], Prêmio Hermilo Borba Filho e finalista do Prêmio Jabuti e Bugra [2022].

 

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154ª Leva - 02/2024 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Rita Santana

 

Foto: Marcelo Leal

 

Escrita

 

“Por afrontamento do desejo.”
Ana Cristina César, 27

 

 

Com que tormento sento
sobre noites secas e quebradas
onde estalam estrelas, e fachos
quentes rompem horizontes.

Não há nada diante de mim,
senão o vazio no espaço,
o aço sobre a mesa,
a lâmina da língua
que elimina o hálito
e ordena a ordenha
da Criação.

Ouço uivos de ouriços
dentro do poço
e me curvo
à pena e ao punhal.

O Outono risca o céu
de cinzas e incertezas e quedas.
Eu espio a escuridão do rio [Joanes].

 

 

 

***

 

 

 

Austeridade de Modigliani.

 

Tudo é uma jarra d’água derramada sobre o sossego:
um vazamento opressor na descarga,
um vazamento opressor na pia da cozinha.

Concederia pêssegos frescos ao mancebo
que me trouxe orgasmos
em seu bornal, em sua vassalagem provençal,
e
foice.

Nunca terei a austeridade geométrica de Modigliani.
Talho o verbo e, no poema,
labirinto o Minotauro.

 

 

 

***

 

 

 

Eu, Sapho!

 

Quando chega do céu,
veste-se então todo de púrpura.
Visto-me de âmbar, abro janelas
e veredas que murmuram águas
à sua passagem.

Danço à sua chegada com festins,
rituais de camaradagem, banquetes de Babette,
alvíssaras, alfaias e entregas.
Nada usurpa a vaguidão dos sentidos,
o estado de languidez daqueles dias.
Resfregam-se amor e medo em meus colapsos.

Há sismos duradouros na carne,
quando cataclismo gozo consigo.
Ante seus olhos istmos, olhos de cereais,
sobre os quais cambaleio e desnudo-me exata,
ritmo versos e estimo arritmias.

Assim como sou: a que envelhece,
a que pende sobre o nordeste dos sentidos.
Aquela que, sobre os telhados, observa sua vinda.
São candelabros acesos na escuridão,
quando chega do céu. Nuvens invadem
os cômodos da casa por alguns dias.

Os cobogós se dilatam!

 

 

 

***

 

 

 

Cortesia

 

Enólogos avaliam
a acidez das rugas,
cuidam do envelhecimento
das esperas em carvalhos.
Dialogo com a Sombra,
refugio-me no fugidio
e aceito trazer o candeeiro,
pois tento tocar o que me escapa.

Orvalho refinamentos,
dilato nuvens no crepúsculo
e corro na amplidão dos céus.
Homologo alguma alegria
no porvir das correntezas.
Osculo lábios perdidos na lembrança.
Afianço amar a quem já não quero
no ofertório da Casa.

Alumbra-me a sapiência
daquele homem que estila
o Desejo, sem atentar ao telhado
das horas, sem aceder às vigas
céleres dos ponteiros.
Sobejo-me
em seus beijos.

Oxalá eu possa ser cristal
para acolher os aromas do dia, os tons
das aveniências que surgem no contato
com quem está do outro lado do rio,
e ordena romãs no leito da velha jangada,
dispõe os figos e as amoras sobre os bambus,
a fim de que eu, um dia, desatenta e casta,
saboreie as dádivas da sua Cortesia.

 

 

 

***

 

 

 

Papoulas na Fotografia

 

Mulheres afegãs,
entre a plantação de papoulas,
colhem e ofegam desejos,
com seus lenços rubros,
sua exaustão que plana sobre o cinza
que cobre o horizonte.

Papoulas na
província de Balkh.
Daqui, não vislumbro risos
entre as folhas e os botões que ainda dormem.

As papoulas não querem nascer.

Mulheres vestidas de cinzas,
numa paisagem de chumbo,
também de plúmbeos desejos,
refugiam-se na lavoura.

Herméticas, as papoulas adormecem.

Sequer
um verde-solidão vibra
a cena.

A Loucura sentou na cama
e olhou para as mulheres.
Era preciso arrancá-las da dor
e levá-las ao outono dos dias,
ao pasto da fome,
ao descampado da razão.

 

 

 

***

 

 

 

O Silêncio de Bach

 

O que amo em Bach
é o seu silêncio.
O vazio de som
das sonatas,
a trepidação das suítes.

O que amo em Bach
é a sua engenharia
do nada.
O que amo em Bach
é a música que não existe.

 

Rita Santana  –   Escritora e Atriz. Graduada em Letras pela UESC.  Em 2004, ganha o Braskem de Cultura e Arte para autores inéditos com o livro de contos “Tramela”. A partir daí, publica: “Tratado das Veias”,  “Alforrias”, “Cortesanias” e  “Borrasca”, além de participar de eventos literários e de antologias.