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139ª Leva - 06/2020 Janelas Poéticas

Janela Poética V

Vanessa Teodoro Trajano

 

Desenho: Fernanda Bienhachewski

 

Mulher em partes

 

Eu não sou inteira
Sou feita de partes
Não todas juntas
Nem apartadas
Apenas somadas
Uma a uma.

Há partes minhas
Por aí soltas
E, quando eu as
encontrar
Perderei outras.

Partes, quantas partes?
Fazei de mim tudo
Que cada parte queira
Qualquer coisa
Menos inteira.

 

Mujer en partes

 

Traducción: Clarissa Macedo
Revisión: Irina Henríquez

 

No soy entera
estoy hecha de partes
no todas juntas
ni lejanas
solamente sumadas
una a una.

Hay partes mías
por ahí sueltas
Y, cuándo yo las
encuentre
perderé otras.

¿Partes, cuántas partes?
haz de mi todo
lo que cada parte quiera
cualquier cosa
menos entera.

 

 

***

 

 

Puteiro

 

No puteiro da D. Eudóxia
é sempre meia noite
oportuna transição
entre os que nasceram tarde
e morreram ontem
sobretudo anteontem

Lá reside a mulher fatal
vermelho nos pés
vermelho no corpo
vermelho na alma
alma propositalmente fatalista
na mão um cigarro
na outra a bebida
a boca vermelha, ferida

Sugere o poema e o giz:
se te entrego minhas forças
sou louca, não trouxa
melhor ser infeliz
vestir verdade
sem roupa

Mas os dentes,
afiados na infantaria,
avisam:
cuidado com o sorriso
que ambientou desgraças
dele não se morre
por ele se mata.

 

Prostíbulo

 

Traducción: Clarissa Macedo
Revisión: Irina Henríquez

 

En el prostíbulo de D. Eudóxia
es siempre media noche
oportuna transición
entre los que nacieron tarde
y murieron ayer
sobre todo anteayer

Allí reside la mujer fatal
rojo en los pies
rojo en el cuerpo
rojo en el alma
alma intencionalmente fatalista
en la mano un cigarrillo
en la otra la bebida
la boca roja, herida

Sugiere el poema y el lápiz:
si te entrego mis fuerzas
soy loca, no tonta
mejor ser infeliz
vestir la verdad
sin ropa

Pero los dientes,
afilados en la infantería,
advierten:
cuidado con la sonrisa
que alardeó desgracias
de él no se muere
por él se mata.

 

 

***

 

 

Etimologia de prostíbulo

 

Se ser meretriz ou leviana
É roubar o corpo e o bolso
De muitos homens
E não amá-los noutro amor
Que não for o da gana
Peço então que somente me chamem
Por esse nome que diz
Que uma mulher só pode ser feliz
Quando pela pura vaidade
Muitos corações ela engana.

 

Etimología de prostíbulo

 

Traducción: Clarissa Macedo
Revisión: Irina Henríquez

 

Si ser prostituta o frívola
Es robar el cuerpo y el bolsillo
De muchos hombres
Y no amarlos en un amor
Que no sea el de la gana
Pido entonces que sólo me llamen
Por ese nombre que dice
Que una mujer sólo puede ser feliz
Cuando por pura vanidad
Muchos corazones engaña.

 

Vanessa Teodoro Trajano é natural de Teresina-Piauí e atualmente reside em em Brasília-DF. Além de escritora, é professora de língua portuguesa com mestrado em Estudos Literários pela Universidade Federal do Piauí. Participou do projeto Arte da Palavra promovido pelo SESC em 2017, em que viajou por diversas cidades do Brasil como palestrante e oficineira, e do 25ª Encuentro Internacional de Mujeres Poetas na Colômbia em 2018. Possui ao total 10 publicações, entre antologias e obras individuais, as quais se destacam: Mulheres Incomuns (2012, contos), Poemas Proibidos (2014) e Doralice (2015, romance). Ela não é mulher pra casar (2019) é o seu quarto livro.

 

Vanessa Teodoro Trajano es de Teresina-Piauí y actualmente vive en Brasília-DF. Alem de escritora, es profesora de lengua portuguesa con maestría en Estudios Literarios por la Universidad Federal del Piauí. Ha participado del proyecto Arte de la Palabra promovido por el SESC en 2017, viajando por diversas ciudades de Brasil como maestrante y tallerista, e del 25ª Encuentro Internacional de Mujeres Poetas en Colombia en 2018. Tiene, al total, 10 publicaciones, entre antologías y obras individuales, a ejemplo de Mulheres Incomuns (2012, cuentos), Poemas Proibidos (2014) e Doralice (2015, novela). Ela não é mulher pra casar (2019) es su cuarto libro.

 

 

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Janela Poética VI

Jorge Lucio de Campos

 

Desenho: Fernanda Bienhachewski

 

GIRÂNDOLA 

 

Um belo retrato
alucina teus sapatos
sujos de charco. Teus
lábios cochicham textos
de filosofia. Há deuses
egípcios em tuas axilas.
Já não és desse tempo.
Diante de nós, rosas
sangrentas te açoitam
até o fim. Uma pulga
de óculos nos convida
a entrar.

Entramos.

 

 

 

***

 

 

 

A NOITE SEGUINTE

 

Até sinto
um traço
entre as
coisas em
que toco e
quase me
impedem
de existir –
só não sei
como.

 

 

 

***

 

 

 

MACMANN

 

Salta o silêncio que corrói
a miopia trevosa dos carretéis
de teus cabelos.

Nas latas de lixo, um abrir e fechar
de tampas, um sussurro na terra
deserta, sem direito a voz.

A palavra cinzenta não deve morrer,
mesmo acuada na boca que mastiga
línguas de papel.

Há a história de uma pedra perdida
na floresta. Não quero perder-me
na floresta.

Que floresta?

 

 

 

***

 

 

 

RATOS E RATAZANAS

 

Daqui para frente,
entrarei em órbita.
Sacudirei as asas
só pra te agradar.
Entre as duas piscadas
de um cachorro velho,
uivarei para a casebre
com a alma solta e
pios de gaivota na
tinta da chuva.

Mas o mundo,
como um prato,
continuará vazio.

 

 

 

***

 

 

 

SERMÃO

 

Foste minha
sombra, minha
epifania
revolta.

Alguns degraus
abaixo dos meus,
estava aquele
que te fez.

Não fui algo
que te sirva.
Apenas quis
amar-te antes

que fugisses
como glosa
pregada num
deserto sem

gavetas.

 

 

 

***

 

 

 

CALEIDOSCÓPIO

 

Dobras de raios
de sol abrigam
um criado-mudo e
um fonógrafo.

Na cabeça cortada,
um pavio aceso,
uma escotilha
em cada olho.

No fim da tarde,
um polvo rasteja,
mesmo que eu
não queira.

 

Jorge Lucio de Campos é poeta, ensaísta e professor da ESDI/UERJ. Publicou diversos ensaios, entre os mais recentes estão: “Os nomes nômades”(Clube de Autores, 2019; Amazon, 2020), “Paisagem bárbara” (Clube de Autores, 2019; Amazon, 2020), “Sob a lâmpada de quartzo” (Clube de Autores, 2019; Amazon, 2020), “Desimagens” (Clube de Autores, 2019; Amazon, 2020),”Impertinências” (Clube de Autores, 2019; Amazon, 2020) e” Figuras para outras pessoas”(Clube de Autores, 2019; Amazon, 2020).

 

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Janela Poética I

Alexandre Pilati

 

Desenho: Fernanda Bienhachewski

 

[O amor]

 

Eu te dei o nome do fogo
E todas as ruas se tornaram
Urgência por aquilo que inventas.
Desde então, os anjos sobre a cidade
Desatinaram enlouqueceram rebentaram.
E todo instante em meu corpo
É um cristal em febre
Que tece a marcha doce
Da luz azul que se chama amanhã
E se apossa das palavras que inexistem.
E meus olhos são essa corrente
De flores estendida entre a lua
E o pequeno coração dos pássaros.

 

 

 

***

 

 

 

[Bate outra vez]

 

ei pombos de aço
de pedra que habitam
elétricos dentro do meu peito

aquietem-se acalmem-se
esta gaiola de carne e pejo
prende-os e todavia os ama

juntos vamos ao fim do caminho:
é certo é justo eu quero e eu preciso –
sem estes arrulhos sou uma coisa sem revolta

mas não vistam tantas patas de cavalo
não cisquem não sapateiem tanto
assim as cãs do meu coração

prestem atenção neste corpo
de pinho que vem agora ao meu socorro
sintam este abraço de calma

em que me segura o violão
com que disfarço o desespero
em que me abrigo do tempo

 

 

 

***

 

 

 

[Caracol]

 

livros que li

esta casca
de peles e palavras

esta casa
de danças e dilema
que me fiz

patuá de afetos
que me protege
por dentro de mim

 

 

 

***

 

 

 

[Crescente]

 

Venha como a tatuagem
Que se faz às costas do medo
Venha como o risco da fantasia
Que nos acode na noite
Venha como o sorrir sutil
Que é estigma do segredo

Venha, deflua, passe
O mês é longo, a arte é breve
Mas, ante tudo, venha e grave
Desfaça o desespero
E nunca vá embora
De dentro do céu
Esteja nos lugares-espaço
Nos mais distantes ângulos
E no aqui afim aos cantos também

Como o amor
que nunca muda
Que nos fica escondido
Ainda que eterno
Nas carnes do miocárdio
Seja aí em cima
O pólen que as mães agitam

Abra-nos as mãos
Talhe o não e o talvez
Venha, seja em nós:
Que queremos tão pouco
Que estamos mais humanos agora
Com seu pequenino reino de luz

 

 

 

***

 

 

 

[Réquiem pequeno]

 

à janela
impassível arrepio
olho o jardim feito o vidro
os olhos
bem abertos
à bela imagem do desamparo
a flor
pétala dormente
aponta os pés para o zênite
só eu
sou capaz
de guardar essa flor aqui dentro
jardim outro
não há onde caiba
a eternidade que se eletriza no perecer
 

 

 

***

 

 

 

[Noctâmbulo]

 

a palma da mão é silenciosa e longínqua.
a paisagem dorme em nossos olhos independentemente.
não está parada a forma rígida que ampara o amargo olhar.
a paisagem é um ângulo de guinada apenas calor.

as árvores estão em fogo e não dormem jamais.
e não morrem jamais as árvores em fogo.
a palma da mão tem a agonia da ação, da febre.
o fogo enlouquece e solta sua vida.

as árvores são rochas, estátuas, de sono.
as árvores dormem dentro da paisagem e não sofrem.
a palma da mão não salvará as árvores e sofre.
as árvores queimam sonâmbulas na paisagem de fogo.

ardem, aceitam, não fogem, dormem
as árvores: sonham rigorosas com a liberdade
que sabem parir de dentro das cinzas.

a palma da mão, em sua ânsia,
é pura plástica; inútil geometria da vigília
– coisa que se queima distante do fogo.

 

Alexandre Pilati nasceu em Brasília – DF em 1976. É poeta e professor de Literatura Brasileira na Universidade de Brasília UnB. Publicou quatro livros de poemas: “sqs 120m2 com dce” (NTC, 2004); “prafóra” (7Letras, 2007); e “outros nem tanto assim” (7Letras, 2015) e “Autofonia” (Penalux, 2018).

 

 

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Janela Poética II

Helena Arruda

 

Desenho: Fernanda Bienhachewski

 

Corpo-cicatriz

 

meu corpo-mundo é conquista diária,
ponte entre a natureza e o caos:
desejo-essência-sofrimento-luta.
[resistência]
moro em cada corte do caminho:
no meu ventre, nos meus seios,
no meu assoalho pélvico,
nas minhas entranhas, na minha voz.
meu corpo, cartografia de quereres,
é um mapa,
paisagem milimetricamente desenhada,
cicatrizes que dão a exata direção:
rios e montanhas e
mares e oceanos e
planícies verdejantes e
areias quentes e
vales profundos para sempre tatuados por um bisturi,
para estancar minha dor
[não estancou].
meu corpo-cartográfico hoje é pele suada por seus sais,
palmilhado por suas mãos generosas, calmas.
corpo demarcado por seus beijos e
guarnecido por suas palavras macias, amáveis.
[corpo-multidão].

 

 

 

***

 

 

 

Roupa sem corpo

[ou releitura]

 

hoje,
o melhor corpo para minha roupa
é aquele descoberto
das exigências
que o tempo traz.

 

 

 

***

 

 

 

Roupas velhas

 

minha dor são flores descoloridas
[do meu jardim]
que duram o tempo necessário
[saturação]

parto e permaneço aconchegada a mim

meu corpo, pedra áspera
à mercê das águas da cachoeira

[espera]

equilíbrio e falta,
estar e não-estar

sou pedaços de roupas velhas
cerzidas pelas agulhas do tempo

vejo todas as veias pulsando
na imensidão do meu corpo:

[pulso-sangue]
[mundo-pulsa]

vivo na emboscada da vida

minhas mãos envelhecem
à medida da minha dor

meu corpo é dor e desejo,
viço e cansaço

[grito]

na feitura do meu poema,
desfaço nós,
construo espaços
e atravesso sombras
[enxergo]

 

 

 

***

 

 

 

Amor

 

sei que é possível transcender pequenezas
transcendo o azul-griverdoso dos seus olhos baços
e sigo
[lutando]
a vida é mais que existência
a vida, meu amor,
é resistência.

 

 

 

***

 

 


Espaços

 

quando começo a pensar no espaço que ocupo,
penso nas palavras
e folhas em branco

meu espaço então se torna habitado,
porque o azul do infinito sobre ele
o preenche de riscos
que se entrecruzam
e formam palavras

se as palavras fazem sentido?
não sei, arrisco

aprendi a inventar mundos
e a ocupar espaços
com a tinta da imaginação
e o borrão da memória

nada mais.

 

 

 

***

 

 

 

Istmo

 

ela trazia o azul do mar
na vastidão da alma
[corpo]

e as montanhas,
entre o istmo e o coração
[sentido]

curiosa, escalava
incessantemente a vida
na tentativa de encontrar
o sol.
[liberdade]

 

 

Helena Arruda nasceu em Petrópolis, RJ. É mestra e doutora em Literatura Brasileira (UFRJ). Poeta, contista, ensaísta, é autora dos livros “Interditos” – poemas (2014); “Mulheres na ficção brasileira” – ensaios (2016), ambos pela Editora Batel; “Corpos-sentidos” (2020), Editora Patuá; “Há uma flor no abismo” (poemas) e “Mulheres de A à Z” (contos), com lançamentos previstos para 2021. Suas publicações mais recentes constam do livro de ensaios, “Ficção e travessias: uma coletânea sobre a obra de Godofredo de Oliveira Neto” (7Letras, 2019), do livro de poemas antifascistas, “Ato Poético” (Oficina Raquel, 2020) e da antologia “Ruínas” (Patuá, 2020).

 

 

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138ª Leva - 05/2020 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Samantha Abreu

 

Foto: Ricardo Stuckert

 

IV

 

Os pelos de uma mulher crescem tão silenciosos
que
não sabem deles os grandes debatedores políticos,
os educadores de biologia,
os poetas inspirados pelas musas.

Nenhuma legislação precisa ser criada para que os pelos cresçam inabaláveis,
não precisam de autorização para tomarem o corpo como se conquistassem um reino.

Não escutaram seus ruídos os compositores que foram capazes de finalizar o Réquiem,
não são perceptíveis aos cineastas iranianos nem cabem no silêncio do menino Antoine Doinel olhando as franjas das ondas.

Os pelos brotam no rosto de Clémentine Delait
sem que os bichos sintam inveja, sem que um gato se arrepie diante do mistério,
Senhoras Doloridas enfim não precisam inventar encantamentos para seus rostos de cavaleiros.

Os pelos de uma mulher crescem tão silenciosos
que
somente ela os sabe
quando se observa e se acarinha,
a aspereza das pontas abrindo os poros.

Algumas profecias dizem que
todas as vezes
que uma mulher corta, raspa ou depila seus pelos
– tomando para si o disfarce da lisura -,
seus restos descem pelo ralo e alimentam os monstros que um dia invadirão o mundo.

 

 

 

***

 

 

 

Putas

 

Elas passam pelas ruas de todas as horas arrastando pedaços de seus corpos anteriores,
pedaços de suas trompas,
suas pontas de astros.
Passam altivas carregando o peso de antigos seios de tantas mamadas,
braços marcados por unhas e barbas,
genitálias explodidas por muitos nãos que foram ditos entre berros,
cabelos enozados por coágulos e vômitos cuspindo dentes.

Caminham juntas, passo a passo, cantando dolorosamente sua elegia da carne viva, enquanto as ruas as observam
quase vivas,
garantidas por um mandado de segurança: cem metros de distância
e maquiagens de alta definição – uma renovação pela graça de grandes laboratórios dirigidos por homens cientistas.

As boas pessoas que assistem ao cortejo rezam de cabeça baixa pedindo
a benção do esquecimento, mas as mulheres seguem
ensanguentadas
em direção ao espaço reservado aos que pagam penitências e culpas: putas!

 

 

 

***

 

 

 

Uma mulher é uma imagem em pé

 

Uma mulher caminha roçando suas asas nas pernas dos sonhos
e as asas flamejam e estalam,
as asas chicoteiam quando a mulher se levanta pisando no acolchoamento de nuvens.

Sempre que a mulher se ergue
– de dentro do vapor suado que circula o mundo –,
sempre que ela se mostra, sempre que a mulher caminha

eu entendo que anjos e demônios usam seu corpo,
que anjos e demônios se irmanam

sob as formas que ela encontrou de entender o mistério.

 

 

 

***

 

 

 

As rezas que inauguram o dia

 

Há algum tempo eu me convenci de que poemas estão no início e no fim.

Então me levanto pela manhã com metáforas enroladas na língua; com visões plenas de abismos.

Não respondo um bom dia sequer,
mas já repeti dois ou três versos em silêncio, um ritmo mental,
a incandescência do dia.
O poema do início, uma fundação.

Quando as lutas se acalmam e se abaixam as espadas,
eu volto ao poema em busca do fôlego, o fim da fadiga.
Abro os vãos da casa e avisto um descampado,
infinito campo de unguento.

O poema que é fim de tudo,
o impronunciável: um soluço que interrompe a lágrima.

 

 

 

***

 

 

 

Da incapacidade de matar o poema

 

Você mira a boca aberta do poema e mete nela meia dúzia de tiros;

Você observa a ontologia do poema enquanto espana o ar com as mãos para dissipar a fumaça dos tiros;

Você quer se vingar da arrogância do poema que decorou as sagradas escrituras do seu tórax;

Mas você mal suspirou aliviada e o rabo do poema já concedeu a ele um novo corpo de matéria pegajosa;

O poema rasteja e imobiliza seu assombro quando você dá de cara com o fenômeno:

O corpo asqueroso do poema é sua própria mão.

 

 

 

***

 

 

 

Eu tenho nas mãos o coração de um pássaro

 

Eu abro o peito do pássaro: sinto o coração bater na ponta do dedo
e tenho penas de todas as dores
enquanto o pássaro me observa segurando seu coração.

O pássaro ainda se debate com violência
mas não pode voar
e eu já não sei mais como devolver-lhe as palpitações,
pois a morte agarrou minhas mãos e está tentando fechá-la.
Ela quer esmagar a beleza do coração que pulsa,
a beleza,
ela quer parar o coração do pássaro.

Eu não resisto e esmurro fortemente o chão,
deixando que o sangue dos meus dedos se misture ao do coração dilacerado.

O pássaro emudeceu e não me olha mais.

Então eu sepulto seu pequeno corpo sob todas as formas que tenho
de gritar em silêncio

 

Samantha Abreu é escritora, professora e pesquisadora, mestre em literatura brasileira pela UEL. Participa e organiza eventos literários e publicou os livros “Fantasias para quando vier a chuva” (Orpheu, 2011); “Mulheres sob Descontrole” (Atrito Arte, 2015); “A Pequena Mão da Criança Morta” (Penalux, 2018). “Debaixo das Unhas (Olaria Cartonera, 2020). Também já foi publicada em antologias, sites, revistas e teve textos adaptados para o teatro. Integra o Coletivo Versa, que pesquisa e divulga autoras londrinenses.

 

 

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138ª Leva - 05/2020 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Tales Pereira

 

Foto: Ricardo Stuckert

 

ÓBICE (1)

 

Deitei sob a terra
Medos infundados
Geleiras afundaram-me
Em fractais anseios

Tudo faço em ciclones
Tumulto na sala de estar
A anfitriã opaca
E o café frio do sono
Convida-me ao deleite
Bolos mofados
E sonhos escatológicos

Revirei o celeiro
Entre plumas e palhas
Para enterrar-me no agulheiro
Pântano de pontas soltas

Subi ao sótão
E aspirei as lembranças
Bati tapetes
Amamentei traças
Servi pulsos aos cacos de vitrais
Fiz guisado de tempo
Com sobra de ossos
de meus antepassados

Varri a varanda
Inaugurando passagens
Entulhei pecados
No tapete surrado da porta
Dancei com folhas vencidas
De qualquer outono

Plantei heras e horas
Na murcha véspera da tarde
Reguei-as com águas de soluço
Cortei videiras atrevidas
E suas hastes indevidas
Colhi azevinhos
Na espera infértil
De quem sabe um beijo seco

Talhei entranhas
Com a faca da cozinha
Mil cortes
Em minha espessa pele
Com bílis aspergi os cômodos
Cruzei o corredor
Em tudo untando
E bendizendo
Risquei no chão
Áspero alicerce
O início da chama

 

 

 

***

 

 

 

PILATOS SE BANHA

 

Eu hoje volto
Com as mãos sujas de sangue
E não sei de quem
Já secou e mancharam
Vestes brancas e encardidas
Da sujeira do mundo

Tentei alvejá-las
Mas o cheiro fica
Entranhado na mente
Inundando as narinas

Ouço as vozes
De corpos que gritam
E o pavor me acorda
Em noites insones e nebulosas

Olho para as mãos
E estão rubras
Um alerta indelével
E as cubro com luvas
Para esquecer o sangue

Saio nas ruas
Paralelepípedos violentos
Jogados contra um crânio qualquer
Lançam-me num mar sangrento
Vejo vísceras e miúdos
Numa carnificina aterrorizante
Mas fecho os olhos
Tapo os ouvidos
Emudeço…

Sobram delitos
Para cada morte sentenciada
Tento convencer-me
Há no silêncio a virtude dos justos
E quem se resguarda
Tem o privilégio da vida

Sigo pela rua deserta
Não pela falta de gente
São seres de retidão
Que não gritam e nem se aborrecem
Inofensivos e cheios de bem
De branco trajados
E com luvas
Mesmo distante o inverno…

 

 

 

***

 

 

 

ARREMETIMENTO

 

Faço compêndios
Arrisco inscrições
Dentro de páginas ariscas
Eu sangro letras
E cada gota
Já é minha parte
No pacto maculado

Embaraço lãs
Entre agulhas agonizantes
Meu tear tem pressa
Em capturar
O fio do nada
E sua tenuidade
Na tapeçaria do tempo

Lavro atas obscuras
Cego no labor de sectários
Assino no anverso
O lado de fora
Da minha pele fugidia
Meus dias são documentos
Arquivos do morto passar

Corto a fita de cetim
Inaugural arquitetura
De voltas retorcidas
Abro esse mesmo caminho
E o pavimento
Sob o que em mim
Desiste e não recomeça
Curvas precedem
Diagonais flutuações

Abro imensas galerias
Nessa terra que há
Em busca de cínicos cristais
E nada do que busco
Minera a dor
Já o magma flui
Tão denso queimor
Meu solo alcalino
Ferido em ravinas

 

 

 

***

 

 

 

A BOTA ACIMA DOS PESCOÇOS

 

A bota acima dos pescoços
Brilhante e ilustríssima
Engraxada na melhor saliva
E com panos caríssimos
De decentes cidadãos

A bota acima dos pescoços
Dizem que é cega
Tal qual a deusa da balança
Mas tem forte predileção
Por tingir-se de sangue retinto

A bota acima dos pescoços
Curtida em puro couro militar
Orgulho da pátria
Item customizado na nação
Uma bela babá para o sono das elites

A bota acima dos pescoços
Pisando vigorosa no chão
De favelas e subúrbios
O solado tem fome animal
E devora ossos marginais

A bota acima dos pescoços
Pisa em folhas flutuantes
Balé adestrado e perfeito
Quando dança nos salões
Dos bairros da nobreza

A bota acima dos pescoços
Sabe de toda a carnificina
E sente-se orgulhosa
Do seu idioma de dor e violência
Abatem presas para um deus odioso

Os pescoços debaixo da bota
Ouvem a sinfonia macabra
De ossos partidos
E seus gritos desvanecem
Há falta de ar no país
E os pulmões precários
Tentam capturar
Qualquer sinal de vida

 

 

 

***

 

 

 

À NOITE NO BATEKOOL

 

Vejo línguas infames
Mortais verbos
De afiar navalhas

Esparramam na rua
Closes certos
E muito atrake
Abrindo esparcates
Em pernas longuíssimas

Giro pombagiresco
Voam as mechas
Das laces alucinantes
Cabeças como rodas da fortuna
E o futuro é tombamento

Magias profanas
Antigas conjurações
Ocultação dos mistérios
E o universo acuendando
E tudo sumindo
Num buraco negro

A Super Lua montada
Do céu brindava
E fazendo o lipsync
Banhava todas
Criaturas insubmissas
Na fronteira
Da folia
Daquelas que apenas
Deslizam

 

Tales Pereira. (Ar)risco versos desde os nove anos e até agora tenho essa maquina rota de fazer versilharias. Trago também meu corpo de beesha para esta tessitura, e uso desse verbo viado para enviadescer palavras e conceitos. Tenho vários palcos para uma multidão inquieta. Às vezes Thallyz Mann vem rodar essa gira comigo, ou eu com ela e vice-versa. E vamos todas girar: a doutoranda, a aspirante a performer, a cantora de chuveiros e tantas outras.  

 

 

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138ª Leva - 05/2020 Janelas Poéticas

Janela Poética V

Léa Costa Santana

 

Foto: Ricardo Stuckert

 

Urgência

 

Desistir enquanto há tempo e ensejo
Da casa sem frestas, das portas fechadas,
Das flores murchas e seus vasos quebrados,
De todos os domingos em branco e preto.

Desistir enquanto há tempo e ensejo
Das mãos que prendem sem nenhum abraço,
Das palavras mornas, do amor minguado,
Do sexo sem nenhuma estrela acesa.

Escrever cartas para o Papai Noel,
Fazer pedidos a estrelas cadentes
E aos santos meninos rezar novenas.

Aprender a pular as sete ondas do mar,
Construir torres e castelinhos de areia
Para neles se abrigarem as sereias.

 

 

 

***

 

 

 

Testamento

 

Ela bem sabia não fora amor.
Porém, casada. Por onde a coragem?
Não poucos lhe diziam: “É bom moço”.
Que pensasse nos filhos e no lar.

Ela bem sabia não fora amor.
Porém, calada. Por onde a coragem?
Era trêmulo o amarelo das dores
No recôndito do peito sangrado.

Ela bem sabia não fora amor.
Corpo tomado, rasgado, calado.
Os filhos distantes, partira o esposo.
Restaram as grades e os cadeados.

Ela bem sabia não fora amor.
Olhar tíbio, desejos sufocados.
Como ser corpo após tanto repouso,
Ferrolhos na voz, o riso guardado?

Ela bem queria ter sido amor.
Como bicho, como puta. Gozar
A liberdade de se prender ao outro
Em delírio: língua, dedos e falo.

Ela bem queria ter sido amor.
Como bicho, como puta. Gozar
As delícias do sexo sem pudores.
Amar sem limite, amar sem recato.

Ela bem queria ter sido amor.
Juiz impiedoso, amarelado,
O tempo, agora convertido em flores,
Espiava a urna a ser lançada ao mar.

Ré sem culpa, morreria de amor
Como bicho, como puta. Gozar
As delícias de se entregar ao ardor
Do corpo que para si resgatara.

 

 

 

***

 

 

 

Corpo calado

 

Por que tão tarde na rua?
– Ela desejava: era puta.

Por que tão curto o vestido?
– Ela provocava: era perdida.

Por que o rebolado e a cerveja?
– Ela queria: era rameira.

Por que tão feliz e risonha?
– Ela pedia: era piranha.

Estava sozinha a devassa.
Batom vermelho, talvez drogada.

No beco, no escuro:
Vestido rasgado,
Corpo violado.

– Puta, rameira, perdida!
Em deboche a polícia.

Na maca, às escuras:
Corpo sangrado.
Feto gorado.

– Acaso não merecera?
Em potestade a Igreja.

No túmulo, às claras:
Um corpo pálido.
Calado.

 

 

 

***

 

 

 

Urbanidades

 

A moça não parava.
Corria de um lado para o outro.
Arrancava os cabelos.
Dizia palavras desconexas.

Pintava-se de azul turquesa.
Pegava carona na lua.
Comia nuvens de algodão.
Brincava com os anjos do céu.

Era de vidro, de tons incolores.
Chovia lá dentro, no peito.
Alguém levasse suas águas.
Era o clamor da moça na rua.

Que se chamasse o padre.
Ela queria confessar seus pecados.
Que se chamasse a polícia.
Ela queria confessar seu delito.

A moça sangrava.
Franzina, quebrada.
O trânsito parado.
Todos absortos.

Fumaça.
Trinta e três.
A cola e os pivetes.
Meninos e meninas.

Picolés e chicletes.
Tesourinhas e bonés.
Um real.
Dois reais.

Sinal vermelho.
Pavor e medo.
Luzes apagadas.
Vidros fechados.

 

 

 

***

 

 

 

Escrevivências

 

Num canto da sala, estava Nininha.
Nunca, dos lábios, um som ou palavra
Para que se percebesse a menina.
Dizia-se: “Nascera muda, coitada!”

Tudo, porém, era voz em Nininha.
Os olhos choviam e as mãos sangravam
Inscrições da cálida pequenina
Nas mobílias e paredes da sala.

Pura maldade: ceifaram paredes
E queimaram a madeira mofada.
“Tragam papel!”, implorava Nininha

Para compor registro de segredos
Escondidos nas ruínas sangradas.
Narradora de enredos, a Nininha.

 

Léa Costa Santana é doutora em Literatura e Cultura pela Universidade Federal da Bahia (UFBA). Mestra em Literatura e Diversidade Cultural pela Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). Especialista em Estudos Literários pela Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). Professora de Literatura Brasileira da Universidade do Estado da Bahia (UNEB). Integra as coletâneas “Contos de Natal” (Lura Editorial, 2019), “Natal com poesia” (Biblio Editora, 2019), “Canarinho” (Porto de Lenha, 2019), “Toca a escrever” (In-Finita, 2020) entre outras.

 

 

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138ª Leva - 05/2020 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra II

Da crise à salvação: os novos poemas de Jorge Elias Neto

Por Geraldo Lavigne de Lemos

 

 

A recente publicação de formas fixas é um novo percurso na trajetória de Jorge Elias Neto e traduz os eventos mais contemporâneos: revisão de modelos e padrões. Contudo, a intenção do autor ultrapassa o presente, pois avalia a crise que a humanidade atravessa desde o Século XX, agravada nas últimas décadas. Nesse contexto, constrói variadas situações para conduzir o leitor por este grande observatório da alma que é Sonetos em crise. A poesia da obra resulta da ânsia da palavra enquanto entidade autônoma, desde quando apenas verbalizada até a presente escrita.

O poeta anota logo de início que as mudanças acontecem em decorrência das necessárias buscas por alternativas à sobrevivência, como modo de enfrentamento das permanentes ameaças de extinção. A crise civilizatória abordada pelo autor atravessa o existencialismo e deságua na sociedade industrial de riscos e destruição, que a ciência deu azo, mas não deu cabo ainda.

Vê-se, então, um labor complexo para dar conta de tantas relações intersistêmicas: artes, desenvolvimento e sobrevivência amalgamados nestes dias presentes. Ora as rimas preciosas e incomuns apresentam o extenso léxico do autor, ora versos brancos e intertextualidades revelam o cabedal, ora a coloquialidade torna-se instrumento de intrusão e profusão na sociedade, ora os decassílabos remontam o clássico na contemporaneidade.

O Soneto em crise, que inspira o título do livro, persegue o sentido da vida e o divino, com o pesar do pecado que amaldiçoa a vida terrena. Tal maniqueísmo persiste durante toda a obra, sem esclarecer se originado na formação do próprio Jorge Elias Neto ou se utilizado como ferramenta do eu lírico para eliciar do leitor as reflexões pretendidas. Certo é que, ao longo das páginas, o poeta manifesta o conflito entre o divino e mundano, extraindo a tensão poética a partir das qualidades exigidas para ingressar no paraíso.

Nesse fazer, ele também questiona a religiosidade enquanto construção humana e utopia, ainda que essencial à vida. E do evidente conflito de racionalidade que nasce da religião, o poeta impõe o exame permanente da morte e a salvação pela arte, capaz de perpetuar um estado de sobrevivência com significado. A vida está em discussão e todos nós, enquanto leitores e viventes, somos compreendidos pela densa e irremediável temática que assombra a nossa espécie desde a mais remota inteligência.

Nem a busca pela perfeição escapa ao atento olhar de Jorge Elias Neto, rejeitando-a se porventura manchada pela vaidade. O autor quer a sabedoria e a simplicidade. Para tanto, importa deixar os espaços de poder e privilégio, bem como os espaços de conforto e segurança. Assim, ele traça a perspectiva rebaixado, donde, à margem das coisas, é possível ver por inteiro o significado dos acontecimentos. Um genuíno mergulho no íntimo e no silêncio das coisas, tornando-os despudoradamente públicos.

É um risco e tanto, e Jorge Elias Neto parece movido por uma força impávida. Contudo, essa incessante procura pela verdade é contraposta por um certo medo das consequências da razão plena. Dizem por aí que coragem é continuar o caminho a despeito do medo, e dizem igualmente que a abstração é um bom remédio para combater o choque da realidade. Suspeito que o eu lírico tomou algumas discretas doses destes absintos, pois ele segue e chega ao destino.

Acontece que a revelação exige a imersão nesse ambiente de certo torpor para conectar simultaneamente o poeta com o universo que o rodeia e o permeia. Sem jamais dissociar-se da consciência, a embriaguez é passageira e o remédio, um mero placebo. A razão cresce ao transitarmos pelos sonetos e a realidade é cada vez mais pungente. Ao cabo, ele alcança sóbrio o limiar da consciência, ainda que isso lhe custe autodefinições ultrajosas após lancinante embate. Enfim, sentindo-se vazio e diante do nada, sabe-se invencível e inteiro.

O retorno do poeta ganha luz, cores do outono e compaixão. Sim, ele retorna compassivo para nos trazer o seu relato, volta fecundo de sabedoria para aplacar o frio de seus semelhantes. Mesmo que a consciência ainda o importune, ele é esperançoso. E tal contrariedade incomodará o autor como um infortúnio. Tanto que o retorno do poeta também ganha sombra e ele deixa de ser um amedrontado para tornar-se um amedrontador, uma figura mítica e colossal a transitar entre o divino e o humano, um arauto e semideus.

A mensagem que Jorge Elias Neto porta não visa facilitar a vida do leitor, mas conduzi-lo à igual revelação, processo que pode ser tão penoso para o leitor quanto foi para o autor. Ele bem compreende o quão custoso pode ser tocar a lâmina da verdade, mas sabe também que esta é a única forma de libertar o ser humano, dando-lhe autonomia e consciência plena diante das absolutas incertezas da vida.

Diversas áreas de conhecimento se ocuparam com as balizas da existência humana valorosa e digna. Os pensadores conectaram-se com as pessoas dentro de um arco, tendo em seus extremos a objetividade e a subjetividade – e aqui leia-se a arte, conceito retomado em diversos poemas. Dito isto, entenda o curioso desfecho que o autor trará: arte e poesia são o caminho. Ainda que o leitor ingresse nessa jornada pelo poema, é a poesia o método de alcançar o que o autor pretende, renovando no leitor a forma de olhar o mundo e o tempo presente através da arte. Quem alcança a esperada revelação, ganha visão e consciência tão destoantes que, em geral, será tido como louco, quando, na verdade, será um dos poucos a vagar liberto e verdadeiramente vivo neste mundo.

Trata-se de um itinerário de purificação das pessoas e de humanização das divindades, que reduz a vaidosa autorreferência e sobreleva a alteridade, quebrando as engrenagens tradicionais e as lógicas científicas, dando espaço a um estado sobre-humano. Pode parecer estranho, todavia o poeta alcança a recriação do mesmo espaço e da mesma vida de um modo diferente, completo e outrossim imperfeito, porque tem que haver nada no tudo para que seja inteiro, tem que haver todos em cada um para que seja tudo.

 

Geraldo Lavigne de Lemos é advogado e poeta, membro da Academia de Letras de Ilhéus, autor de seis livros. Publicou literatura nas revistas Revista da Academia de Letras da Bahia, Diversos Afins, Mallarmargens, Subversa, InComunidade, Ser MulherArte e Acrobata, nos jornais Diário de Ilhéus (Ilhéus/BA), Fuxico (Feira de Santana/BA) e A Gazeta (Vitória/ES) e no blogue LiteraturaBR. Foi curador do II Festival Literário de Ilhéus, parecerista ad hoc da Editus e membro de comissão julgadora de concursos literários.

 

 

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138ª Leva - 05/2020 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Michaela v. Schmaedel

 

Foto: Ricardo Stuckert

 

NATURALIDADE

 

Todos os poemas agora
são habitados por você
e também as montanhas,
os rios, as árvores desfolhadas
deste inverno rigoroso
e também o sol,
o fogo que arde na floresta,
as notícias tristes.

Você vem disfarçado,
então de repente você é
um livro, um animal que escapa,
um filme antigo, uma música.

Você está na palavra aparição,
na palavra afeto, na palavra gesto.

Você é este terror, esta avalanche,
esta luz, esta onipresença selvagem.

 

 

 

***

 

 

 

MAR ABERTO

 

Naquele dia
em que você me puxou
pelo braço
com força
para cima
eu já não respirava.

 

 

 

***

 

 

 

VISÃO

 

Te encontrar numa praia
de areia muito branca e mar muito azul.
Pegar os teus dois olhinhos marrons
e colocá-los num vidrinho em cima
das pedras brancas da encosta.
Ficar ali a ver o mar
e a olhar os teus dois olhinhos
e a lembrar que nem tudo
o que está posto no mundo
é para se pegar com as mãos.

 

 

 

***

 

 

 

AUTORRETRATO

 

Imaginas que, também aqui, no frio absurdo do museu, acompanhada do barulho excessivo das marteladas do andar debaixo, da minha total descrença no mundo, do meu coração cansado, até aqui, ou melhor, também aqui, estou a ver o autorretrato de Lucian Freud e, por qualquer semelhança boba (rugas fundas, olhar parado, cara perplexa), estou a pensar em ti. Teriam então que acabar todas as pinturas de homens tristes para acabar também isto: a lembrança de ti em lugares estapafúrdios.

 

 

 

***

 

 

 

ZEN

Para Tito Leite

 

A vida ligeira das moscas
ensina tanto quanto
a cerimônia do chá.

No Tibete ou aqui na cidade
de São Paulo
o mesmo calor infernal
a mesma desilusão
o mesmo trabalho pesado
(nesta tarde, desisti da poesia).

É sempre isso:
a vida, esta artimanha
eu, a mosca morta.

 

 

 

***

 

 

 

MINIMALISMO:

 

o cheiro da toalha que seca ao sol
o cheiro do sol
o sol.

 

 

 

***

 

 

 

VISTA (II)

 

É preciso ver um ponto à frente

seguir
seguir
seguir

como um camelo
esperançoso
no deserto.

 

Michaela v. Schmaedel (1976) é jornalista de cultura, nasceu e mora em São Paulo. Nos últimos anos, tem se dedicado à poesia, além de escrever resenhas sobre literatura para jornais e revistas. Cursou o Clipe (Curso Livre de Preparação do Escritor), na Casa das Rosas, e oficinas de poesia com Angélica Freitas, Tarso de Melo, Ismar Tirelli Neto, entre outros poetas brasileiros. “Coração Cansado”, lançado pela editora Penalux em junho de 2020, é seu primeiro livro de poemas.

 

 

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138ª Leva - 05/2020 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Ramayana Vargens

 

Foto: Ricardo Stuckert

 

FLORESTA DE MIM

 

Tristeza, tédio ou transbordamento.
O desespero solitário da noite
aprende na espera penosa
da aurora ou crepúsculo.

Tronco, galho ou raiz
faço folha, flor e fruto
.do sumo da terra que sugo
e do vento que bebo da lua.

O sangue que me faz
viva planta verdejante
.viçosa
é seiva de sol derretido,
ouro em pó das estrelas,
fogo e luz no sereno do mar.

 

 

 

***

 

 

 

REFERÊNCIAS

 

Filho da palavra
trabalho
o estilhaço do verbo singular

Irmão de órbita
exponho
a vez no espaço do salto pessoal

Companheiro do triz
frequento
a invenção desigual do saber

A lâmpada perpendicular do sol
não apaga manchas suspeitas
na bacia das estratégias de emergência

 

 

 

***

 

 

 

FRUTOS E VÍNCULOS

 

Fugidia e frívola alforria
é tornar-se refém sem futuro
ou fiel funcionário afetivo
dos laços ferozes
das paixões fugazes

 

 

 

***

 

 

 

DITOS BRAVOS

 

Ricos versos
côncavos convexos
complexos íntimos
tímidos reflexos
curvos riscos
sádicos perversos
.ínfimos trapos
fixos nas tripas

 

 

 

***

 

 

 

VIM DE LÁ

 

O mundo é o resto
do quase nada que sobrou
quando o universo aconteceu
no buraco negro que explodiu
no vazio da inexistência

 

 

 

***

 

 

 

!?…

 

Moro dentro da minha cabeça
nunca tirei férias do coração
Ficar pensando é meu desemprego
Permanente

 

 

 

***

 

 

 

FAUNA DOS VERSOS

 

O lado bicho do poeta
guarda instintos animais
misturados
no seu espírito de gente

Nas invenções
é macaco esperto
ferramenteiro improvisador
No salto
se faz felino adestrado
no tino da distância precisa
O impulso persistente
quando ousa
vem dos cães que vigiam montanhas
Na potência preferiu ser cavalo
não touro

O bicho poeta se veste de camaleão

 

Ramayana Vargens é Jornalista, professor de literatura, contista, poeta, autor e diretor teatral. Carioca, naturalizado baiano. Membro da Academia de Letras de Ilhéus.