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137ª Leva - 04/2020 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Galvanda Galvão

 

“Muita fumaça na cabeça”: Claudio Parreira

 

3la

 

ela acendia todos os cigarros
adorava a memória dos dias
a pressa e as caixas
globos de fogo nas mãos, a corrosão

no burburinho do barco ouvia-se toda a família
a mãe o irmão da mãe o pai numa fotografia obscurecida
não se falava ali
ela insistia numa cantilena
não a conheço e a amo
inventava sinais pra abrir labirintos
vozes nos corredores
a indeterminação
a sombra
a repetição  –  fica
demoro-me numa obra aberta
espero o mar

 

 

 

***

 

 

 

se você me encontrar? atravessa-me

 

ela sob a muralha da China
instinto de liberdade diz
a companhia presente de solidão
mão pé um corpo nas manhãs
a noite não tem cor
grafava as linhas caídas do papel
abstraía vendaval com barbitúricos
a massa gritada no comercial atrás da porta
a raiz quadrada
o fazer
havia um nome no indeterminável
não ser ela resquício de existência
meudeus
triturava as correntes o sal
a barbárie no giro do relógio
quebrar a cabeça
soprar as minhocas

estamos e não estamos
num mundo voluntariamente sibilino
precisão de certeza

 

 

 

***

 

 

 

protocolo clinico e diretrizes terapêuticas
essas palavras ecoaram quando desenhava o risco
Michaux num alfabeto não nomeado
todas as letras escapavam
davam-nos sinuosas sombras
fechava os olhos
círculos birutas prolegômenos ou introdução
o feminino são dois
pedras adensavam a ventania
meu suor e medo estáticos
raízes em doses homeopáticas

um bárbaro pinta Beatriz vermelha
performance erótica de um anjo
contra uma identidade trágica a violência da serpente
rasgava a bula
não acentuava palavra

 

 

 

***

 

 

 

ela pensava as trilhas com K
no Egito o sol tem os braços peludos

nos mínimos detalhes
o pertencimento
a realidade no caos reverbera

perto desarranjava
a língua os objetos
fora de lugar
único e multiplicado
pele transparente
pulsa ante a força aquática
o que está junto se mistura

palavra-mão
o infinito
pergunta insistente

sem pressa continuar

o vão o silêncio a montanha
na pedra o deserto
superfície, abismo
memória instantânea
o corpo extraviado
o que fica da aparência
vigor destilado
cadente morte
…………………………………………. [outra

 

 

 

***

 

 

 

o peixe elétrico
saltava Sodoma
em verso Dionísio
havia de beber
uma precisa liberdade
cogitava montanha
era rio
singular obsceno
tocava estrelas
viragem
explodia num corpo seu outro
guelra sangue coadunado
na pedra penetrava
lusco fusco burburinho
memórias acendiam o presente com cara de homens
a rede a morte
estendia olhos e dentes
ele sabia voar guardava um desassossego

 

 

 

***

 

 

 

Ela n.2

 

as mitologias nas prateleiras
num não lugar, diz-se, virtual
ela observava catálogos
páginas abertas para uma expressão singular
uma repetição contínua
a obsessão e o jogo
amianto na cidade, sufoca e protege

pulmões, árvores condicionados
o destino não enxerga correspondência
uma cartomante entrega muiraquitã numa piscadela
lembro de Levi Strauss
as palavras dela são as primeiras apagadas
vício de linguagem, sobrevivência
esta carta deve ser enterrada
afirma
já nem sei quem fala
os funâmbulos em páginas
mensuraram questões pontuaram
voltava às prateleiras

não lembrava o nome do deus

 

 

 

***

 

 

 

eu era Ana
avesso Cesar
cigarros e bombas
pensei
imaginava estrelas
queria enxergar longe
tocar estações
galo e sol enredados
cartografar continentes
carregar questões
ruminar o vazio na barriga do rei
varar geleiras
adentrar a pele
colar a sombra
descabelada voar

 

Galvanda Galvão, videoartista, colagista, fotógrafa, professora e escritora do livro UMLANCEDEDENTES da Edições Do Escriba & uxi.cão, 2017, reedição, 2019 e AMENINAANOLIMOC da editora uxi. Cão, 2013. Sou pesquisadora do PPGARTES-UFPA em Cinema sob orientação do Prof. Dr. Orlando Maneschy.  Participo do Projeto plataforma Kaquiado do Preamar de Cultura e Arte da Fundação Cultural do Pará coordenado por Felipe Pamplona 2020.

 

 

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Janela Poética IV

Wesley Peres

 

“Angústia”: Claudio Parreira

 

 

tatuagem
sonora nº2 para
criança de seis
anos e oboé

 

……………………….O  HOMEM COISA CÓDIGO  alguma
invertebração   recifra a  angústia  substância  limítrofe
e análoga ao  silencioso  gozo  sonoro   em  sua  morte
instilada  nos poros gemidos  bordas  erógenas  fazem
vibrar os  átomos  até  sangrarem  também  o  lugar do
corpus   da    palavra    minério   inervado  resto  vivo  o
nada   dos  corpos  ancestrais, rastros ventos pássaros
passaram     alando    túmulos    de    cadáveres    vivos:
palavras.   Gerações   passadas  restos  de cotidiano  e
restos     pelos    sonhos    sonoras   vertebrações   em
vértebras  vértices   remoendo o corpo parolando com
a morte esse eutro na sala enquanto o meu pó da pele
ele                     se iluminam de objetos

 

 

 

***

 

 

 

atoms at work

para Campos de Carvalho

 

A maçã sobre a cadeira.
Uma noite, dentro da maçã.
A criança, sequer vê o vento,
senta-se, trincando a noite
da matéria
(Os cães, sim, latem —
..os únicos a escutarem o instante
..em que o mundo se torna o mesmo).

 

Um homem esperando o trem

adivinha a criança

é mais feliz do que o outro
aguardando a eternidade.

 

A chuva imóvel contém
nossos possíveis passos.

A infância é mesmo indestrutível.

 

 

 

***

 

 

 

Poema gerado de implosões  do
Levítico      e      de    impressões
deixadas por haver   acontecido
o que não acontece em Goiânia
1987

 

 

E   ACONTECEU  O  QUE  NÃO  ACONTECE  E  DESCOBRIU-SE   QUE  AS  foices
também  podem    ser      azuis  e   foi um pássaro   amitológico   mortoabertorasgado
pela invisível  lâmina  azul que simulava  cidade  vista  de   cima  e à noite no corpo nu
da mulher  de longos  cabelos   dona  do   pássaro  amitológico   mortoabertorasgado
e  foi   na  cidade  de   sol   sólido  e  em  setembro  e  o sol  sólido  da cidade  e  tudo
permanecia   quando   alguma   pessoa   tocar    em   corpo   morto    ainda   que   não
soubesse,    contudo   será   ele  imundo  e  culpado. Culpada,  esse  o veredicto dado
pelo    polvo   de   mãos   alando   e  espedaçando  lápides  sobre  o  caixão da menina
eviscerada   pelo   azul  que  não  se  vê.   Porém  pode-se  usar da  gordura  de corpo
morto,  e  da  gordura  do   dilacerado  por  feras,  para  toda a obra, mas de nenhuma
maneira   a   comereis.  Invisível   e  sem  cheirodor  esse azul  esse maldororazul  que
captura   vísceras   e   lambe-lambeu   por   dentro  o  corpo  da menina  eviscerada  e
apedrejada    por     vozes     uma    verdadeira    aletria    sonora   corpodecão   outros
vitupérios singulares e  plurais.   E  aquilo  sobre  o   que  cair  alguma   parte   de  seu
corpo morto,  será  imundo;  o  forno  e  o  vaso de barro  serão  quebrados;  imundos
são.  E  quem   comer  do  seu  cadáver lavará as  suas vestes,  e   será  imundo  até  à
tarde; e quem levar o seu   corpo morto  lavará  as  suas vestes  e  será imundo  até  à
tarde.   E   todo   o   homem  entre  os  naturais,   ou   entre   estrangeiros, que comer
corpo  morto  ou  dilacerado,   lavará   as  suas  vestes  e se  banhará com água e será
imundo     até    à   tarde   e   depois   será   limpo.   E  devorada  de  azul  e   pedras  e
vitupérios   tentaram   fazê-la   ela   a  menina  eviscerada  morrer  uma segunda  vez,
assim como Judas  morreu    uma  segunda  morte  ao  trair  Cristo  antes  mesmo  de
morrer  a  primeira.   O  corpo  morto  e  o  dilacerado não comerá, para  que  não   se
contamine com ele.

 

 

 

***

 

 

 

AGORA SÓ ELA E SUA CAMA SÓ ELA  E seu
corpo    decalcado   na   cama.  Fala  decerto a
língua dos  mortos, decerto menos deserta do
que a língua dos  vivos.   Ela,  só,  na casa-de-
receber-enfermos.    Enfermo,   essa   palavra.
Recobre  apascenta a boca da palavra ausente.
(O homem crê em Deus e nas pedras. Sonhou
a clareza  de seus olhos implodidos densos de
um  imenso sol soletrado pelo calmo ninguém
que habita o homem só com o seu corpo).

 

 

 

***

 

 

 

HOMEM, SUAS MORTES
iluminam Deus e os seus restos.
Guardo-me em qualquer silêncio.
Coleciono matérias.
O corpo é um Deus sem nome.

 

 

 

***

 

 

 

FALAR É OUVIR O VÔO DE UM pássaro que
não  há,   deslocar   Deus  de  casa  e  não dar
nome.  Falar é  experimentar  entre o olho e a
coisa dada  o  que há não há. E o pássaro que
voa, voa na  polpa seca da  chuva  que  aresta
os   sonhos.   Falar   é   haver  morrido,  tocar
outra voz.

 

Wesley Peres é escritor e psicanalista. Autor de As Pequenas Mortes (Rocco), Casa entre Vértebras (Record), Corpo de uma Voz Despedaçada (Martelo Casa Editorial), dentre outros. Mora em Catalão-GO

 

 

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Janela Poética V

Ângela Coradini

 

“A prisão da alma”: Claudio Parreira

 

29.

 

há coisas tão bonitas
ditas com seus olhos
que devia,
como já faz,
desenhá-las na minha história
e mais,
em mim

 

 

 

***

 

 

 

31.

 

e prendo na memória
o vo-lu-me
das suas palavras
reouço, ouço,
lambo
o tom da sua voz
e a graça
nunca se gasta

 

 

 

***

 

 

 

32.

 

o que mais desejo
é que o que me toma
sobre você
seja só desejo

que seja uma piada espúria
um rouco choro
uma tristeza forasteira
uma sede de saliva
que me nega todos os dias

que seja apenas efêmero
e que me coma
só agora
um pedaço de vida
do riso
do cérebro

que suas ignorâncias
dias sim, dias nãos
me arranhem a sensatez
como você
me arranha
a carne

que me aperte
ao invés de entristecer
que deixe suor nos corpos
e não sombras sob meus olhos

que esse seu maldito riso
endoidecido
quando me mira doida
sobre você
embebede
minha língua
minha vida

que você seja corrosivo
e que com seu grito leve
sua voz breve
deixe sob as minhas unhas
sua pele

desejo de infinita sorte
que se chame apenas paixão
que seja, assim só,
espasmo de pequenas mortes

que será árduo
e irresistível
que leve de mim a luz
me tire do silêncio
que cobre cada curva
me arranque o medo

desejo que tudo que saia de mim por você
seja perto daquilo que leva o nome de ligeiro

que me consuma
o sexo
em fogo
e ausência de ar

que me rasgue
o dia
que me queime
e deixe para o vento
só pó
e mais nada

e se só você me deixar
a ruminar esse desejo
rogo que não sejam seus dentes
irreversíveis
porque quero poder enfim
num dia, talvez,
soprar suas cinzas
todas elas
de mim

 

 

 

***

 

 

 

e
prendo
na memória
o ritmo
dos versos
de todos os teus
não ditos

 

 

 

***

 

 

 

o tempo desafinou
e você estava lá
estando apenas em você

 

 

 

***

 

 

 

que não eu

 

era meio da tarde,
e sob a luz esbranquiçada
que criava sombra sob os seus olhos,
testemunhei sua boca explodir numa curva festiva
um leve balanço no rosto
um riso mudo
desacelerando em uma expressão de ternura

e eu senti ciúmes

ciúmes do emaranhado de coisas
atrás daquela tela para a qual você sorria
que não eu

 

 

 

***

 

 

 

não venha mais

 

trazia um bilhete entre os dedos
deixou-se no centro da sala, soturna
sem soluçar, sem desabar sobre nada
escorregou o papel pela mesa
três palavras escrita
“não venha mais”

adorava o passado do papel na madeira
odiava a alma molhada na face dela
ultimas palavras, última atenção
tudo ressoava a mesma agonia

e no verso do mesmo bilhete
com o lápis de alumbrar seu olhar
ela escreveu, no verso da dor

“(…)
e são horas mortas
nós vencidas
cada nota dessa lamúria
dá cor a minha sangria
ritmando a farsa dela

e no embalo do que nos toca
entrando pela fresta dessa porta
sinto a amargura apertar

entregue e pedante ela
emparedada eu
presa na minha mania de amortecer
e enquanto ela se vai em tempo
peço perdão, mais uma vez, ao medo”

 

Ângela Coradini é uma contadora de mentiras na poesia, na teoria e nos roteiros audiovisuais. Tem doutorado em Cultura Contemporânea (UFMT) e é editora na revista eletrônica Ruído Manifesto. É autora dos livros “…já não podem ser amanhã” (Carlini Caniato, 2020), “Imagens-Espectro de Futuridades no Amplo Presente” (Edufmt, 2020) e “Quatro nós” (Carlini Caniato) no prelo.

 

 

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Janela Poética I

Ricardo Thadeu

 

“Desespero”: Claudio Parreira

 

VOZ

 

Está tudo aí:

Os discos de heavy metal,
O último discurso do condenado,
O recado na agenda do ministro,
O bem, o mal, a torpeza
E a bunda em rede nacional.

Somos abonados pelo futuro.
E não há tropeço.

Há caminho.
………………Apenas um.

E seguimos por ele, em fila indiana,
Adiando o regresso.

 

 

 

***

 

 

 

BAQUE

 

Aposentei o velho discurso.

De longe,
Acompanho o curso da história.

Há tantas célebres frases
E nenhum acelerador de partículas.

Há tantas formas de amoldar
E nenhuma de embrutecer.

Penso nos debates, nas contendas,
Nos homens minúsculos,

No mormaço dos becos;
Penso na sorte dos imaculados

E no monge, na montanha,
A descobrir novos silêncios.

De longe, muito longe,
Acompanho o cerco da morte.

 

 

 

***

 

 

 

REALEZA

 

A corte do passado
Passou dessa
……….Pra uma pior:

O príncipe pop
Virou ator pornô;

A rainha do rebolado
Mendiga likes e views;

O imperador
……….Do reality show
Foi achado morto.

A corte do passado ─
Quem diria? ─
Passou dessa
……….Pra uma pior:

Subiu às nuvens
Em arquivos virtuais.

 

 

 

***

 

 

 

ESCONDERIJO

 

Só acredito no que não sinto,
No mistério, na pergunta eterna.

Inferno? Deus? Extraterrestres?
Creio no enigma que os cerca;

Creio nos poemas não escritos,
Na poesia que emana do engano.

Não espero respostas definitivas,
Nem que um sábio dê o Veredito.

A face oculta das coisas táteis:
Eis aquilo no que (só eu) acredito.

 

 

 

***

 

 

 

MAKE DEATH GREAT AGAIN

 

Não estamos na Idade das Trevas,
Mas não estamos
……………..No Século das Luzes:

Estamos na época

Dos homens fartos
……………..De coisa alguma,
Das cruzes que viram espetáculo;

Dos celulares incríveis,
Dos dedos sujos apontados pro errado;

Dos argonautas virtuais
Presos em suas bolhas,
……………..Barcos naufragados;

Das dietas malucas,
Dos corpos de fast food,
Dos que não comem carne
…………….E dos que não plantam
…………….Uma só semente.

Não estamos na idade das trevas
Mas já não temos
……………..Tanto tempo assim.

 

 

 

***

 

 

 

ENCHENTE

 

Inquilinos tiram móveis
E rezam pro Santo de devoção.

Além das histórias,
Dos homens cobertos de lama

E da bondade dos abutres,
Há uma falsa esperança:

As águas do Jacuípe
Encontrarão novo caminho.

 

 

 

***

 

 

 

DAS MEMÓRIAS

 

Vejo tudo com bastante nitidez,
Mas não posso revogar o tempo:

Minha mãe mexendo o café,
Seu rosto sumindo entre nuvens;

Meu pai estacionando o Chevette,
Toda tristeza embaixo do bigode;

E eu, desperto, nutrindo planos
Que não realizo antes de morrer.

Vejo tudo num fio de memória
Tão nítido quanto não deveria ser.

 

Ricardo Thadeu (1989), nascido em Riachão do Jacuípe-Ba, é mestre em Estudos Literários (UEFS), professor e escritor. Publicou diversos livros, sendo “Você não deve pensar nessas coisas” (Penalux, 2020, poesia) o mais recente. É integrante de mais de uma dúzia de antologias, dentre elas: “Tudo no mínimo: antologia do miniconto na Bahia” (Mondrongo, 2018, miniconto).

 

 

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137ª Leva - 04/2020 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Elizabeth Hazin

 

“A insustentável leveza da rosa”: Claudio Parreira

 

MORTE

 

Morte não é quando se morre apenas
quando os dias já não tornam
e a música cessa:

morte é sempre
ou de repente
é vez por outra

morre-se para tantas coisas
não só para a vida que escorre em fios
(por vezes entrelaçáveis)

também morre a palavra
se não diz o novo
se ao atingir a forma cristalizada
não a dissolve.

 

 

 

***

 

 

 

ENIGMA

 

O poema não chega à mão
quando se quer
movido pela fria
aragem do pensamento

mistura de nuvem e armadilha
tampouco nos salta do coração:
as palavras têm seu preço
e muitas vezes só nos resta
o sonho da noite anterior
fragmentado e mudo.

 

 

 

***

 

 

 

NOTURNO

 

Noites, a difícil travessia:
são manhãs escuras
compridas de silenciosas
e vazias. Vazias de tudo.
Sobretudo de sonhos
única possível alegria
em tempos de miséria.

De tanto não dormir
começo a discernir no escuro
o cinza das horas
matizes do tempo
e cavalgo a noite de pouca lua
adivinhando a cada instante
a manhã salvadora.

Acompanho no céu o percurso de Júpiter
ou dos resquícios da lua minguando sempre
e sei:
a de hoje não é a de ontem
e a de amanhã será menos
(uma ambulância rasga o espaço da rua).

Como não durmo, descubro:
as noites não são iguais
cada uma tem seu nome
e o traz no dorso
impresso
( por que não o leio?)
Do lado avesso do sono
resta-me apenas meu verso.

 

 

 

***

 

 

 

SILÊNCIO

 

Fio de silêncio o meu amor
(só o silêncio é permitido)
e aturdida escuto o eco
do silêncio mesmo – ó castigo –
reabrindo sempre a ferida
– a mesma – em que ponho o meu dedo
ó sangue esse rio corrente
em que – de medo – afogo o medo
de excluir para sempre o silêncio
com que fio o amor e desfio
as cordas que batem no peito
essa canção afogada no rio.

 

 

 

***

 

 

 

EU E BORGES

 

A cada noite
repito o gesto
de abrir os olhos
………………no sono
e – pelo avesso –
olhar e ver
– por dentro da noite –
do outro lado
o descomeço.

 

 

 

***

 

 

 

URGÊNCIA

 

sempre escrevendo
alguma coisa mentalmente
sem coragem de mergulhar a cara no papel
e me perder no emaranhado de linhas
sempre
essa vaga necessidade de escrever
(de dizer algo
terrivelmente essencial à minha vida)
jamais concretizada

preciso anotar
todas as minhas lembranças
todos os meus sonhos
todos os livros que li
todas as brincadeiras da infância
todas as receitas de minha avó
todas as luas que vi
antes que tempo e pó
tornem ilegível a página.

 

Elizabeth Hazin (Recife-PE, 1951). Publicou Poesias (1974), Verso e reverso (1980), Casa de vidro (1982), Arco-íris (1983), Espelho meu (1985), Martu (1987), O arqueiro e a lua (1994). Em 2006, a Vieira & Lent reeditou uma segunda edição — revista e ampliada — de Martu, livro vencedor do Prêmio Rio de Literatura (1986) e foi publicado Lêgo & Davinovich (7Letras) escrito a quatro mãos com Davino Sena. Em 2010, a Vieira & Lent republicou Arco-íris e em 2014 publicou Mágica de Carrosel (infantil). Atualmente é professora Associada Plena junto ao Programa de Pós-Graduação da UnB, líder do grupo de pesquisa Estudos Osmanianos.

 

 

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136ª Leva - 03/2020 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra I

A memória como dispositivo e reinvenção

Por Kátia Borges

 

 

Devo este breve olhar sobre “As solas dos pés de meu avô” (Patuá, 2020), novo livro de poemas de Tiago D. Oliveira, desde antes da pandemia que sacudiu nossas vidas. Eu já o havia lido, antes mesmo de sua publicação, numa deferência  deste jovem poeta, que acompanho há muito. O tempo é um texto que tem seus mistérios e este que se instalou entre a primeira leitura dos inéditos e esta leitura de agora, após a edição e o lançamento, pôs em relevo novas perspectivas sobre o conteúdo que certamente não teriam sido consideradas do mesmo modo em um “passado próximo”.

 

é pelos pés de meu avô que entendo a vida.

morto de cima de nove décadas esculpidas 

nas rachaduras das solas duras, naquele 

mesmo quarto de estreitos e sonhos.

caminho nos cascos a figurar seu povo,

na herança do sangue no olho 

que o eco de sua voz ainda vive.

é pelos pés do morto, numa cama de pau, 

que vejo a luz do dia chegar.

o choro, a reza, a morrinha de paz que fica

 

Na perspectiva do que ora vivemos – e das elipses de nossas histórias forçadas pelo longo distanciamento – arrisco dizer, sem recorrer a subterfúgios, que escrevo precisamente no momento certo. Isto porque os poemas contidos em “As solas dos pés de meu avô” repousam sobre o exercício da memória, e de processos mnemônicos que  implicam muitas vezes em esquecer para lembrar. O esquecimento, enganosamente, costuma dispersar os detalhes, em modos de expansão da nossa capacidade mental de preservar aquilo que é “mais importante”. Ironicamente, no entanto, são os detalhes que  delimitam a importância daquilo que se preserva.

 

ter na morte um rosto

ao tempo nu e ilusório

que a falta pendura em nós,

que acura se dá em desgosto.

meu avô é hoje afecção.

nada mais falta em seu corpo

que ausente existe no que ficou,

nos objetos estranhos à imagem.

em quem ficou, na impotência

que assume o poema sobre

a mnemônica arte deste improviso  

 

Esta controversa relação entre aquilo que se configura como aparentemente irrelevante e o que se mantém na extensão da memória como afirmação de pertença é o norte dos poemas que compõem “As solas dos pés de meu avô”. Não me refiro aqui, portanto, ao simples resgate das memórias de certa época. Mas da ativação de  um todo compacto que se carrega no corpo como um dispositivo. Uma memória-dispositivo que se compõe de forma orgânica, não linear ou previsível, e que é ordenada pela lógica do sentir em seus deslocamentos.

 

as memórias se movimentam com o deitar dos sóis.

vão se transformando em um calor pendular:

longe do toque, perto da imaginação. gosto de guardá-lo como poeta.

 

O modo como este tempo-memória-dispositivo atua, movimentando-se em ciclos de reinvenção no imaginário do poeta é, portanto, instável e impreciso. Mas é nesse percurso temporal reconstruído, a partir dos detalhes que o orientam desde o título, e em um espaço íntimo ativado pelo lirismo, que Tiago D. Oliveira  transita em “A sola dos pés de meu avô”. E os pés do avô são calcinados, marcados pelo caminhar em um tempo possível de esperança e desesperanças, também legado e lida, herança e rito.

 

fecho os olhos e escuto a sua voz

dentro de uma pega de boi no mato.

o corpo do vaqueiro é o seu mundo,

cada galho e espinho a marcar 

a pele, seu manto sagrado:

perneira, gibão, chapéu, peitoral, luvas, botas.

fecho os olhos e não há mais fim,

apenas o boi correndo solto

como um trovão sem chuva

a ecoar em labirintos

o desvencilhar dos pingos

até alcançarem a terra.

 

É o tempo do avô que o neto instaura em seus versos, como sói acontecer quando se olha afetivamente para trás. Coragem será preciso, para não se deixar enrijecer nessa mirada. Nem sempre é peso ou leveza o que se carrega na bagagem ao deixar a casa, e tudo que se fez e ela fez de (em) nós. A casa entendida/estendida ao que nos abriga enquanto aprendemos/apreendemos o mundo lá fora. Se pensarmos o demiurgo nesse resgate do perdido, figura recorrente na literatura, podemos situar esta poesia em par com outras que também revisitam as lembranças pelo viés do mesmo dispositivo, a exemplo de Cacaso e de Ruy Espinheira Filho.

 

as rinhas de galo num quintal 

de flores e homens.

a mesma casa da música

no domingo de manhã. passou

diante dos gestos engessados

que só as horas sabem

do quando em que vão chegar.

estavam lá, até mesmo depois.

lutar até morrer, gritavam

até não mais restar galos,

nem flores, só as rinhas

ficarão para o tempo abraçar:

em qual caminho se perdeu

a minha paz? este silêncio

nas marcas da testa

de meu avô. o rinhadeiro

já não responde mais

no colher derradeiro,

no crescer de teixos.

seguimos a tentar entender

de algum lugar que passou

a distância entre rir e chorar.

 

É deste modo, no domínio do território da memória, que se reinventa único pela experiência, que Tiago D. Oliveira se permite o trafegar suave entre temas que lhe são caros e que não o conectam a apenas essa ou aquela vertente poética. Tal característica o singulariza fortemente no universo recente da literatura brasileira. Este “As solas dos pés de meu avô” é um exemplo desta opção pela liberdade criativa, ao se voltar inteiro para dentro e se distanciar de outras abordagens do mesmo autor. Assim pensado, o livro se revela objeto-projeto inteiro e que se sustenta de seu próprio espaço-tempo.

 

Kátia Borges é autora dos livros “De volta à caixa de abelhas” (As letras da Bahia, 2002), “Uma balada para Janis” (P55, 2009), “Ticket Zen” (Escrituras, 2010), “Escorpião Amarelo” (P55, 2012), “São Selvagem” (P55, 2014) e “O exercício da distração” (Penalux, 2017). Tem poemas incluídos nas coletâneas “Roteiro da Poesia Brasileira, anos 2000” (Global, 2009), “Traversée d’Océans – Voix poétiques de Bretagne et de Bahia” (Éditions Lanore, 2012), “Autores Baianos, um Panorama” (P55, 2013) e na “Mini-Anthology of Brazilian Poetry” (Placitas: Malpais Rewiew, 2013).

 

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136ª Leva - 03/2020 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Dalila Teles Veras

 

Imagem: Roberto Pitella

 

provisão

 

nas réstias
fugidias
a mariposa
tonta, voa
………….à roda
………….à roda

sombras
sobradas
da tarde

efêmeros
desenhos
ilusões
de luz

provisão
……/
acalanto

para a noite
insone
que se avizinha

 

 

 

***

 

 

 

morte asséptica

 

nos hospitais
a morte
chega
de madrugada
(morte asséptica
morte a sós)

pela manhã, o
comunicado
e (a seco)
as instruções

o corpo
a burocracia do corpo

a família
:
diante do nada

 

 

 

***

 

 

 

poeminha pseudomístico

 

confrontar-se
com o invisível

(pedras
,,,,,,,x
entidades)

embate
nas trevas
arrepio
(sinais?)

 

 

 

***

 

 

 

sob os ditames do (meu) tempo

 

experimento
desconfio
testo
provo
entranho
arcaísmos e tecnologia
manuscritos e digitação
papel, cartas, selos
blog, e-mail msg
whatsapp, live
alternâncias
velocidades

minha alma
antiga
protesta
a consciência deste
tempo me diz
:
problematizar
(para compreender)

 

 

 

***

 

 

 

marinhas

 

Mas, se vamos despertando
Cala a voz, e há só o mar
Fernando Pessoa

 

havia manhãs
em que, ao abrir da janela
era só o mar e o mar
………………………o mar
………………………o mar
………………………o mar
aqui e além, barcos
quebravam em dois
o azul
inauguravam o branco
desenhavam a espuma

e não havia palavras
só as ondas
.,,,….as ondas
..,,,…as ondas

via, ouvia
………….calava

 

 

 

***

 

 

 

esquecimento pela fé

 

romecleide, a diarista
arrimo de família, marido
bêbado e desempregado
sete filhos, agora cinco
enlouqueceu pela primeira vez
quando perdeu duas filhas
no passeio à praia grande
(afogamento)

pelos vizinhos evangélicos
confortada, rendeu-se à fé
e aos ditames canônicos

romecleide, a neopastora
(a casa transformada em templo)
prega
a fé que lhe foi ensinada

prega e esquece
esquece e prega
pregada que está
na segunda loucura

 

Dalila Teles Veras, nascida em Portugal, vive no Brasil desde a infância. Escritora, editora e ativista cultural. Publicou mais de duas dezenas de livros nos gêneros poesia, crônica e ensaio:  “tempo em fúria”, 2019, “a mulher antiga”, 2017; “SETENTA anos poemas leitores”, poemas escolhidos por 70 leitores, por ocasião dos seus 70 anos, 2016, “solidões da memória”, 2015 e “estranhas formas de vida”, 2013, os mais recentes, todos de poesia.    Dirige a Alpharrabio Livraria, Editora e Espaço Cultural, em Santo André – SP, desde 1992.

 

 

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Janela Poética IV

Laisa Kaos

 

Imagem: Roberto Pitella

 

A+

 

Minha cara trazia segredos pálidos
Ouvia de longe os passos arrastados no corredor
Todos curando suas dores aos gritos

Havia um corredor de azulejos brancos
Cada quadrado com seu cheiro de éter
A cara da morte me dava beijos frios na espinha
Passava quase sexualmente a língua pelo meu rosto gelado
E se lambuzava com o pavor que escorria da minha testa

Acordo.

Foi um sonho ruim. Ainda.

 

 

 

***

 

 

 

39

 

Quis sair da fossa. Mas não.
Preferi mergulhar
Escancarar até o pescoço
Afogar soltando espumas
Rasgada, afundada, assumida

Dor cravada na carne é pior que gripe mal curada
(e ambas causam um mal terrível para os pulmões)

E eu.
Morro de medo de morrer.
Ou viver sufocada.

 

 

 

***

 

 

 

ESPASMO (PARA LER COMO QUISER)

 

Em mim tudo é escândalo
Histeria
Doença nervosa
Convulsão uterina
O afago afoga
O peito berra
O abraço sufoca
O corpo inunda
Em mim tudo é múltiplo
De sofrimentos a orgasmos.

 

 

 

***

 

 

 

Lábios abertos
Poros abertos
Peito rasgado
E a poesia – vida – corrente
Que me pulsa
Ventre
Adentro

 

 

 

***

 

 

 

(PARA OS MEUS 50 ANOS)

 

Se soubesses tu dessa tal inquietude
Engoliria com afinco
Todas as inseguranças que não te cabem
E guardaria para mim a tua pele
Não tão pura, não tão calma, não tão minha
Leve como tudo breve
Por onde passei lábio e língua
Tatuando em ti baixos poemas

E gozos d’alma.

 

 

 

***

 

 

 

Carta de não-amor para um não poeta

 

Síndrome
Bukowskiana
Contemporânea
Quarentenária

Só que sem a originalidade.

Já que a mesma morreu lá em 1994.

Desculpe “baby”
Sofro da mesma síndrome
Mas assumo somente a parte da sinceridade
E possível alcoolismo

Não existe fé no sucesso póstumo
Não existe fé nas leituras pagas
Não existe fé.
Só o amargo da verdade me convence.
Mas não existe fé
Nas tuas
Verdades.

 

Laisa Kaos é poeta e publicou “Lábio Aberto”, seu primeiro livro, em 2019. Nascida em Belém do Pará, graduou-se em história e cedo encantou-se pelas possibilidades das palavras e das artes. Mudou-se para São Paulo, onde estudou as expressões artísticas. Atualmente é pós-graduanda do Instituto Federal de São Paulo e trabalha em seu segundo livro.

 

 

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Janela Poética V

Lorena Ribeiro

 

Imagem: Roberto Pitella

 

Suas letras passam rápido
Mal consigo ler o que elas têm a dizer
Se são de verdade,
ou de mentira, como saber?

Sempre que as encontro
Sou levada a um momento inexistente
Nem passado, nem futuro
E de tão breve, nem presente

Um estado de graça
Que mora numa farsa
Onde me vejo imersa
Cada dia um pouco mais

 

 

 

***

 

 

 

Transita suavemente
………entre a superfície
e a profundidade,
……………….o simplório
…….e a complexidade,
como dois seres
…….habitando em um.

….Um deles vaga livre
entre ocasos e auroras,
………enquanto dorme
o que espera o amanhecer,
……………. não do dia,
…………………..mas da vida.

 

 

 

***

 

 

 

AS PALAVRAS DO SILÊNCIO

 

No silêncio dessa noite,
volto em muitas outras
…………noites,
……………………madrugadas,
…………………………….alvoradas
Cheias de barulho,
desse que de fora não se ouve
Mas há de estar lá,
Gritando dentro da cabeça
Escorrendo pelos dedos
Saltando palavras despretensiosas
…….Agitadas,
…………….fugitivas
Esse é um jogo interessante
Uma disputa que ninguém ganha
Nem quem grita
Nem quem corre
Nem quem salta
Uma fuga temporária
Dos laços,
………..traços,
…………………pedaços
Que, ao final, se unem aos cacos
E voltam todos para a caixa.

 

 

 

***

 

 

 

Sentir era tudo que estava
………Presente na saudade,
…………………………..palavras,
………………………….nostalgia.
…………..Presente na ausência,
na permanência da imagem.
………..O sentir parecia intenso,
………………tão grande.
…..Ora restos, sobras demais.
……………..Fazia trocas de verbo
……………………Do sagrado verbo
…….que ousaram pronunciar.

 

 

 

***

 

 

 

Como provar do tão abstrato
…… e.n.c.a.n.t.a.m.e.n.t.o ?
……………………Seu brilho,
……………….luzes e cores,
…………….vejo da sombra.
…….A que torna o dia noite,
……………………….todo dia
…………….L.o.n.g.o.s dias
……….a prever o teu sinal.
…………..Rastro de medo,
…………………fuga,
…………………… saudade.

 

 

 

***

 

 

 

Incompleto

 

Guardo-me incompleto
na prateleira
meio bebido,
meio consumido,
meio gasto
um tanto preenchido,
um tanto abastecido,
um tanto conformado
Ora destilado velho,
recipiente empoeirado
Ora bebida cara,
de raro sabor
pelo tempo aprimorado
Um meio cheio
do que se acha valer
Um meio vazio
do que ainda quer ter
Um tanto ausente
do que deixou de ser
Um incompleto volátil
que não se pode conter.

 

Lorena é licenciada em Física, Mestre em Ensino de Física. Tem pela escrita encantamento e curiosidade. Procura nas palavras aconchego, distração, refúgio dos cansaços diários

 

 

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136ª Leva - 03/2020 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Dheyne de Souza

 

Imagem: Roberto Pitella

 

Memória

 

memória, essa lâmina que não vem só com corte mas o cheiro dos móveis o vapor do olhar a temperatura do dolo
as horas em torno

memória, esse som
que escava
regurgita
apodrece
o urro mais largo
o vazio da prece

memória, essa língua dentada
esse punho tombado
essa voz sem assento

memória
esse eco sozinho
esse tempo sombrio

a saudade de cada

memória,
esse espólio de guerra

 

 

 

***
 

 

nãos tempos

 

não temos tempo de perder o trem
olhar no olho
parar ouvir
não temos, tempo, veja bem as horas
veja bem a
veja

não temos saldo paz joelho asilo
temos fome miséria temos filhos
não temos tempo de pedir à mãe ao pai à amada
pátria, não temos tempo de dizer
não

não temos tempo de tratar a morte o açoite a voz
não temos tempo de temer
sequer

 

 

 

***

 

 

 

ontologia

 

o que é isso que a vida
tem feito conosco

passam-se os anos
fincam-se as farpas

o que é isso que o tempo
crava na pele
enrugando a coragem
constipando a voz

o que é isso que a gente
tem permitido
jazigos de sonho
esses nossos co
pos

o que é isso amigo
você está longe
aonde foi que embarcamos
ou

o que é isso que há
feito fumos lúcidos
tragamos
o que mais podemos

o que é
escute
não olhe no espelho

em que ponto da rua
nos

 

 

 

***

 

 

 

amor dest’era

 

o nosso amor tem o som de um animal sofrendo

o nosso amor, eu não sei, anda puxando uma perna
ou talvez tenha deficiência de sol

o nosso amor, parece, dorme no enorme vão de ar que atravessa nossas espinhas
à noite

o nosso amor tem visto demais e escutado palavras extremas

o nosso amor perece
não sei
perdendo
até aqui

o nosso amor tem uma bala
no ventre

 

 

 

***

 

 

 

à meia voz envio
um sorriso
um alento
uma mão
uma linha
quem sabe para guardar, quem sabe para sempre, quem sabe em algum lugar virtual onde a memória suspende onde compartilhamos a vida quem sabe pra gente com certeza pra poucos que sentem mas os bem poucos e seu poder imensurável que se querem sabem de tudo e usam sem rastro a vida moldando a memória soterrando o bagaço ameaçando a mão esfumando o alento apreendendo sorrisos
essa meia voz não
é o nosso presente
não cala

 

 

 

***

 

 

 

ah a vida e esse cheiro que vela
como um cavalo no escuro no pesadelo da espora
como uma grama que acorda molhada pra ser pisada
como um refém que habita o esconderijo da porta
como uma escolta. paulatina. versando que a vida há

 

Dheyne de Souza é goiana, está morando em São Paulo e sustém um blog. Tem um canal de leitura de poemas, em parceria com Helô Sanvoy. Os poemas desta seleção estão no recém-lançado “lâminas”, pela Martelo Casa Editorial.