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136ª Leva - 03/2020 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Jorge Elias Neto

 

Imagem : Roberto Pitella

 

FOLHAS SECAS DE OUTONO

 

Paixão, esta folha de outono,
luz incerta de raio obliquo,
que desperta viva no entorno
do fogo, o tremor de um aflito.

Sou um ser do outono, de um crepúsculo,
que faz brilhar o olhar dos loucos,
e faz o horizonte fecundo
ao germe melancólico

dos suicidas, dos sem afeto.
E a carne, arfando, sem um rumo,
em busca de um pouso, de um teto,

tem no rubro da tarde o lúmen,
a medida de tudo, o concreto
do frio, da origem do Mundo.

 

 

 

***

 

 

 

SONETO SEM TETO

 

O tédio faz brotar o Eu perverso,
nos cantos esquecidos dos escombros,
e da sombra, o rugido do universo
surge na boca imensa do ser manso.

Pois se o calor emana da tristeza,
e a paixão é pólvora do selvagem,
o sopro faz tremer a chama acesa,
e a urgência é a medida da voragem.

E nada sobra que se preze e guarde
àquele ser que se debate firme
contra uma vida que esmaga e late.

Resta o engate ao cerne da maldade,
sem esperança, se atirar ao crime,
e ser centelha no porvir da tarde.

 

 

 

***

 

 

 

TERCEIRA MARGEM

 

 Para Flávio Viegas Amoreira


A terceira margem, fundo do rio,
aguarda, sob as águas, cada corpo
que pesa e se desprende em voo tardio
tal sonho derramado por um sopro

que faz pesar as pernas, os embustes,
esfacelar espelhos, cortar pulsos,
rogar com desespero por abutres
de voo carniceiro sobre os justos.

E se de tanto nada faz-se o vulto
que tomba do lajedo, da encosta,
se faz estranho o peso, absurdo

o baque sobre as águas maculadas,
é que há um segredo em cada bruto,
levado para o fundo da jornada.

 

 

 

***

 

 

 

O CORADOURO ETERNO

 

O mais é esta pressa interrompida
pelo abraço apertado da tormenta,
na engrenagem que faz fluir a vida,
que traga corpo e tempo na sarjeta.

Mas a luz, que rompe as nuvens convictas,
jaz corando a réstia do que foi presa
de si para si, predador e vítima
do extinto céu, e se tornou soberba.

E o curtume divino ressentido
do rebanho que se danou no Mundo
conta as perdas das reses que, perdidas,

romperam cercas, bem a esmo, imundas
de desespero retinto, suicidas,
buscando espaço nos varais da culpa.

 

 

 

***

 

 

 

SONETO EM CRISE

 

O perdido traz a marca na testa,
esboço do nome, falso retrato,
um corno – caligrafia da besta -,
revolta e um perfil de semblante amargo.

A fala que se esforça em verso, ofensa,
um desmentir inútil do absurdo
que transpassa o ser fútil e enlaça
a criatura com seu silvo agudo,

é um fruir da morte, certeza amarga,
disfarçada em hóstia, na boca posta
do infiel na catedral, mãe das gárgulas,

pois ser temente a Deus é fuga justa
ao que nega à morte sua carne e alma
e segue, hipocondríaco, em meio à turba.

 

 

 

***

 

 

 

SOBRE CASAS E PAIXÕES

 

Para Oscar Gama Filho

 

As casas têm segredos, todas têm,
e não é por medo que silenciam.
Suspenso, nas ranhuras, o desdém
das paredes frente à paralisia

de atores ausentes, sempre despidos,
carentes de desejos, de paixões.
E as casas, sempre lá, ao pé do ouvido,
propondo encontros, vultos, revoluções.

Cada verdade tola, cada cheiro, desperdício,
faz ponderar a casa: uma mudança…
Mas só engodo surge, de novo o vício

do estalo das palavras, vis lembranças,
que nos cantos da casa, feito lixo
do não mais viril, mas da vingança.

 

Jorge Elias Neto (1964) é médico , pesquisador e poeta. Capixaba, reside em Vitória – ES. São de sua autoria: Verdes versos (Flor&cultura editores – 2007); Rascunhos do Absurdo (Flor&cultura editores – 2010); Os ossos da baleia (PRÊMIO SECULT – 2013); Breve dicionário poético do boxe (Patuá-2014); Glacial (Patuá-2015); Cabotagem (Mondrongo-2016); Breviário dos olhos (Edição do autor – 2017); O ornitorrinco do pau oco (Cousa-2018) e Sonetos em crise (Mondrongo-2020).

 

 

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135ª Leva - 02/2020 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Wesley Correia

 

Ilustração: Ana Luiza Tavares

 

Teu homem

 

………………………..Teu homem não virá.
A melodia que, há pouco,
semeaste pelos sulcos da tua pele,
enquanto, aflito, tentavas te limpar
………………………………………………..de ti mesmo,
………………………………………………..não brotará,
………………………………………………..mas restará, seca,
….no fundo das mãos vazias, quedará num
canto do cômodo rarefeito,
e a partitura, então ininteligível,
…………………………………….se executará
………………………………no adverso da regência.

………………………..Teu homem não virá.
Do desejo que imprimiste às ervas aromáticas,
do amor-quase-morte com que,
devotamente, temperaste
.o peixe para o jantar, permanecerá,
tão somente,
..o espasmo de uma premeditação,
…..o sintoma de uma precipitação,
………..a réstia de uma palpitação,
……………….uma deletéria ilusão,
……………………..e uma excitação,
….que nunca tarda em dissipar-se.

………………………..Teu homem não virá.
Recolhe, pois, os pratos, os sapatos,
……………………………….os gatos, os gastos.
Recolhe tuas ânsias, teu querer bem,
………………e tua boca ardente a morder
…………a carne improvável da alegria,
………………………………recolhe-a, também.
E recolhe teu pelo eriçado,
os teus arfares, ai, os teus arfares,
recolhe-os todos!,
e recolhe-te, enfim, a ti mesmo,
quando a chuva, tua confidente,
vier anunciar a noite comprida.

………………………..Teu homem não virá.
Nem hoje
……………nem amanhã
…………………nem depois.
Ama-te, por fim, e sê tu teu próprio homem,
e escandaliza-te com as seivas
de teu corpo transbordante, e ria-se da entrega, e
beije-te a boca, e envolve-te no teu próprio
abraço, e aquece-te no teu calor,
……….e goza contigo, que teu homem aí está.

 

 

 

***

 

 

 

Galope

 

O bêbado levita sobre a maciez
de teu dorso bravio
e tu relinchas.

Ele guarda na mão direita
o redemoinho das caatingas impossíveis
e traz no pé esquerdo
o Décimo Nono Arcano Maior.

Teus olhos são
de esfinge alada
reluzente.

Tu galopas o chão etéreo,
e bebes a secura da terra,
o bêbado ri das profecias mortas.

A vida é sentinela.

 

 

 

***

 

 

 

Noite

 

À noite, tinjo-me de estrelas
e penetro, com o salto
do meu sapato de verniz,
as pedras da cidade.

Fecundo as rochas.

Gasto meu batom azul
em corpos efêmeros,
dou a todos eles os tons
do riso e do prazer.

Pela manhã, volto à rotina:
pego ônibus lotado;
bato ponto;
carimbo dezenas de papéis,
que engendram a máquina colossal,
e chego, sem memória,
ao final do expediente.

Vou pra casa, pintado de constelações
com meu coração sem estrelas.
……..Meu coração sem estrelas
……..tem parido luzes cintilantes.

 

 

 

***

 

 

 

Imaginário

 

Pende entre minhas pernas pretas
um mito gorduroso,
quase impossível de carregar.

E na sua plena atividade,
na diabólica plasticidade,
me arqueia o dorso,
me alquebra o corpo
até interditá-lo.

E na sua robustez de mito,
me debilita a frágil saúde
ainda mais,
nas suas dimensões de mito,
me diminui a forma
ainda mais,
na sua centralidade de mito,
me reduz a toda solidão
do cais.

Por isso, não morram
se eu resolver
extirpá-lo amanhã.

É que minhas pernas pretas
marcham melhor
sem o seu peso incômodo,
minha cabeça preta
se equilibra melhor
sem o seu peso incômodo,
todo o meu corpo preto
se ergue maior
sem o seu peso incômodo.

 

 

 

***

 

 

 

Memória do sol

 

o sorriso
a beleza,
a luz, a pluma e a comoção.

arde-me a fantasia deste sentido querer-te.

 

Wesley Correia nasceu em 21 de Outubro de 1980, em Cruz das Almas, Bahia, e aos dezessete anos publicou seu primeiro conto no Jornal A Tarde. É autor de “Pausa para um beijo e outros poemas” (2006), “Deus é negro” (2013) e “Íntimo Vesúvio” (2017). Atualmente, é professor do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia da Bahia – IFBA, onde ministra aulas na Pós-graduação em Estudos Étnicos e Raciais, e outros cursos.

 

 

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135ª Leva - 02/2020 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Lílian Almeida

 

Ilustração: Ana Luiza Tavares

 

Crisálida

 

Grávida do ser que me habita
vou parir a mim mesma.
Outra.

Quando a lua anunciar negruras
já serei o que sou.

Mariposas cintilam lilases
voos e auroras.

 

 

 

***

 

 

 

Costuro palavras
no assoalho dos dias
a ver se liberto
os pés
de existir entre homens.

 

 

 

***

 

 

 

Fênix

 

Para Rita Santana

 

No chão, os meus restantes.
Estatelei-me no voo.
Esfacelada, a altura era o solo.
Uma asa esmagada
um pé quebrado
os olhos parados
o tronco desconjuntado.
Restantes em fragmento do que te dei inteiro.

Recolhi as partes.
Lavei com lágrimas
sequei com rotos sorrisos.
Secreto unguentos de sangue e muco
e cicatrizo os cortes.
Suturo as dores com o preto fio dos meus cabelos
para deixar marcado, no corpo da fênix,
a porção mulher que há em mim.

 

 

 

***

 

 

 

Abaeté

 

A água escorre dos olhos
sobre a face escura.

A água escorre das roupas
dentro das mãos negras.

Escorre dos olhos
das mãos da mulher
a dor dos dias.

A água escura da lagoa
lava as roupas
e a alma.

 

 

 

***

 

 

 

De cor

 

na cidade alba
os olhos brilham retinas cegas.

entre alvos passos
e braços
o invisível caminha.

 

 

 

***

 

 

 

Cio

 

A fêmea exala
o cheiro rubro
da vida

 

 

Baiana de Salvador, Lílian Almeida é professora adjunta na Universidade do Estado da Bahia e doutora em Teoria da Literatura pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. Participa de “Além dos quartos: coletânea erótica negra Louva Deusas”, “CartoGRAFIAS” (Funceb) e “Profundanças 2: antologia literária e fotográfica”. Publicou “Todas as cartas de amor” (ficção) em 2014, pela Editora Quarteto. Venceu o prêmio Edital Caramurê de Literatura 2019 com o livro “Pulsares”.

 

 

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135ª Leva - 02/2020 Janelas Poéticas

Janela Poética V

Maria Clara Escobar

 

Ilustração: Ana Luiza Tavares

 

Essa cadeira, que fica na sala
Eu escolhi com medo
De não combinar
Com a outra
Que escolhi com medo
De não combinar com essa
A mesa, o sofá, foram negociações medrosas
Em que dividir no cartão me dava medo
De depois não poder pagar
Me inscrevi no curso com medo
De me constranger
Afinal estou velha
Afinal terei que conversar
Melhor nem ir
Da prova de condução desisti
Ele ficava lá só pra me ver errar
Melhor
em casa?
Acompanhada da cadeira, da mesa e do meu sofá
Que do medo conquistei
E com o medo pactuei
Esse medo que vira objeto
Não um elefante no meio da sala
Não um hipopótamo de sainha
Mas uma mulher, gigante
Que agora olha pra mim

 

 

 

***

 

 

 

do lugar que não há horizonte
do lugar que me querem ver morta
decidi não morrer
entro nela, sinto ela
meu corpo e o dela
eles querem nos matar
foi o que eu disse
eles querem nos matar
chorei
sonhei essa noite que ela me dizia que eu estava doida
acordei
com ódio
eles querem nos matar, ela disse
mas
eles não vão?
conseguir
estou dentro dela.
moro aqui agora.
e essa casa, de onde se vê o horizonte extenso, cheio de gente, de árvore, de água,
de coisa e de vida

também medo
mas não é
morte

 

 

 

***

 

 

 

a solidão é uma coisinha chata
um dia se acorda bem
e de repente ela está na sala
as mulheres perguntam se não dá medo ficar sozinha em casa
o dia todo sinal de coragem
não pela solidão
mas pelo ladrão
que pode entrar
e elas nem sabem que o pior é a solidão
que é do tamanho da quantidade de ar
que o ventilador faz circular e é densa
como paredes antigas
como a muralha da china

 

 

 

***

 

 

 

Na rua escura
Apresso o passo
Um homem virou
Apresso o passo
Agora vem, dois
Do outro lado da rua
Já não dá pra atravessar
Finjo calma
Depois, apresso o passo
Esses passaram
O que está atrás de mim segue
Ele também anda rápido
Sou obrigada a apressar ainda mais
O passo
Melhor correr agora do que
Se arrepender depois
Apresso o passo
Ele também tem pressa
Mudo a rota
Viro a esquina, respiro
Depois lembro, com um novo homem cruzando a esquina
Que estou na rua escura
Volto a andar
Rápido
Eles vêm de todos os lados
Eu sou uma corredora
A marcha atlética é o estilo feminino noturno

 

Maria Clara Escobar é roteirista e realizadora de cinema. Dirigiu e escreveu os filmes Os Dias Com Ele e Desterro – selecionado para a Tiger Competition do Festival de Roterdã, 2020. MEDO, MEDO, MEDO é seu livro de estreia.

 

 

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135ª Leva - 02/2020 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Jennifer Trajano

 

Ilustração: Jennifer Trajano

 

henna

 

como o reflexo que passa
rápido no negro da pantera
assim teu desenho suporta
meu corpo – tão suporte
quanto uma abortada fuga

paro um instante como
param as pequenas tartarugas
levadas pelas águas, das que
preferem não voar, das que
querem tua mão, reflexo que

passa devagar no tigre branco
– luz confundida com a pele
assim desejo teus dedos do
lado de dentro: como quando
se sente levemente o mar bater

na altura da boca, sem a agonia
dos lagartos dançando para pular
do bico das aves que tiveram medo
de atacar algo maior, porque o voo
é leve, o cigarro acaba, a dose se perde

no corpo. quero que dose as mãos
com a tinta da dor inventada e comece
a riscar meus pés, primeiro passo
no mar. depois suba como sobe o sal
ao sol, ardente, bronzeando o pelo

da pantera na cor do tigre branco
mas quando chegar à boca não afogue
empurre o corpo na onda que dá espaço
para outra anatomia, por não poder
jamais tocar apenas uma única pele

 

 

 

***

 

 

 

Maria na Procissão da Penha

 

oca em
sua oca
foi oferenda
devolvida

ardida
pelo sal
da praia
da penha

 

 

 

***

 

 

 

cirurgia

 

admiro as utopias que o cineasta
berri fez falar galeano
por dizer, sem ensaios, que
os sonhos impossíveis servem
para nos fazer caminhar

admiro a sensatez de borges
que narrou um encontro consigo
pois narrar é muito íntimo

admiro quem não precisa
de religião para negar o vinho

admiro as ginastas que parecem
ser o vinho quando dançam
em suas taças, de tão sangrentas
e leves, como a dor que se
esvai ao adormecermos cansados

admiro quem desaba porque deve
ser boa a sensação de reconstruir

às vezes admiro o silêncio dos
bichos presos só porque podem
fazer isso, aquietar-se

em mim a sensibilidade opera
está como a metafísica do vestido
que rasga sem querer e desnuda a pele
bisturí é o tempo. às vezes o corte sangra

 

 

 

***

 

 

 

energia

 

teu ódio não resta
no resto de capim
raiz inalcançada pelo
cavalo de madeira

não regressa
o dente
de leão solto
pelo tempo

não despedaça o
barco de papel
que navega
nas profundezas

não cerra
a pálpebra
daquele que
nunca dorme

não ergue
o feto
forçado
à forca

teu ódio é grego:
sangra
e em vão cava
a cova dos 300

é flecha que foca
o calcanhar
mas volta
às mãos de páris

constrói o oco
que em ti faz eco
e refazendo-me
se desfaz

no olhar da velha
com alzheimer
que carregou pedras
pras três pirâmides

mas num suspiro
de lembrança
sentou na areia
africana

e por algum
motivo
esqueceu

 

 

 

***

 

 

 

infância apodrecida

 

cresci ouvindo gatos
no telhado da casa
e fazendo as goteiras
inquietarem sonos

cresci ouvindo ratos
no telhado da casa
e sentindo goteiras
adormecerem sonhos
 

 

***

 

 

 

paixão

 

a asa se viu
pousada no costume
de ser mirada pelo caçador:

quando a ameaça
se aproximava
penava, mas não voava mais
 

 

***

 

 

 
fóssil

 

teu crânio em minhas mãos
e a imagem do canto mais
escuro de olhos
que tocam brancos
como se a liberdade

deixasse de ser sensação
e passasse a ter ossos
que ficam quando
a alma já não cabe
na estrutura da carcaça

 

 

Jennifer Trajano é natural de João Pessoa-PB, professora de Língua Portuguesa e revisora textual. É autora do livro de poemas “Latíbulos” (Editora Escaleras, 2019). A leitura do texto literário para ela é uma espécie de borboleta amarela (referência: Cem anos de Solidão) que pousa no imaginário para anunciar um novo mundo capaz de fazer chorar, sorrir, revolucionar etc..  

 

 

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135ª Leva - 02/2020 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Carla Diacov

 

Ilustração: Ana Luiza Tavares

 

TOMAR A SOPA DA QUARENTENA

 

dentro da música que
conta aquela vez
encontrar encontrar algum
espaço para a quarentena da
calma – prorrogo vossa estúpida santidade –

 

 

 

***

 

 

 

quem sabe o tempo
disso tudo um jovem muito
mau costureiro quem sabe
o dia em que
suavemente
a emenda perceba a outra
para
além do confisco lacrimoso

sonho com um casaco feito
dessas penas

 

 

 

***

 

 

 

vai passar

 

continuarei a odiar continuarei
a trombar o coração nas quinas
dos móveis que se mistificam
da primeira letra do seu
nome

 

 

 

***

 

 

 

sola circular

 

que lugar é o lugar
de frente para a janela você pensa
outra janela à parte o lugar
será diagnosticado em tempo é
o lugar é acreditar a noite molhada à
janela esmigalhar entre os dedos enrugados
um perdido de grande amor
dormir cheirando os dedos é o lugar

 

 

 

***

 

 

 

solavanco

 

rendem-se os calcanhares ao
isolamento agora o projeto é
a sombra a obediência é dançar o
contra das outras vezes em que
nas pontas dos pés estava a partitura
do solavanco

 

 

 

***

 

 

 

um silêncio e meio
a duração do perfil da pomba
três pombas e um quarto
a
duração da sombra
nove sombras e um meio silêncio
peso e altura da espera
cor e resistência da minha janela

 

 

 

***

 

 

 

empilhar luas

 

a flecha ideal de quando
um antigo amor está e está a dizer
você
você é a flecha e a boca não
é
você é você o tempo
da flecha rente
à língua a flecha original e o vaticinado
furo

 

 

Carla Diacov, São Bernardo do Campo, 1975. Escreveu Amanhã Alguém Morre no Samba (Douda Correria, 2015/Edições Macondo, 2018), bater bater no yuri (livro on-line pela Enfermaria 6, 2017), A Munição Compro Depois (Cozinha Experimental, 2018), A Menstruação de Valter Hugo Mãe (Casa Mãe, Portugal, 2017/Edições Macondo, 2020).

 

 

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134ª Leva - 01/2020 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Maria Fernanda Elias Maglio

 

Foto: Hermes Polycarpo

 

EU ERA O RIO

 

“... e, eu, rio abaixo, rio a fora, rio a dentro — o rio.”
(Guimarães Rosa)

 

Gosto das paredes emboloradas
Do lodo nas quinas das garagens escuras
O capim-gordura crescendo no vão do cimento
O calor claustrofóbico das cozinhas oleosas

Das rachaduras nos tijolos
A carne da construção revelada pela negligência
Do tempo
Das gentes
Dos desencontros

Gosto dos sentimentos sem nome
Das saudades que são também repulsa
Esquecimento
Do amor que é também raiva
Que é também amor

Das nojeiras inconfessáveis
Cativas nos instantes de solidão
Ranhos lambidos com a ponta da língua
Unhas mastigadas
Cascas de feridas partidas na força dos dentes

Gosto dos bichos que não são estimados
Piolhos dentando a pele do crânio
Baratas gordas se espremendo no estreito do ralo
As antenas por último
Prenúncio de tudo que é imundo

Gosto das ausências
Os cantos não preenchidos por móveis
A cama não repartida
O prato vazio
Sem farelo de comida recente

De tudo que não é recente
Lutos petrificados pela austeridade dos anos
Casas erguidas por braços mortos
Há tantos anos mortos

Gosto da morte
O silêncio das alamedas de sombras
As filas das formigas alargando as trincas dos túmulos
O cheiro mineral das fendas

Não me interessam as flores violetas
Crescendo na sombra das amoreiras
Nem as amoras
Cajus suculentos
Cactos ostentando folhas
Que também são caules
Que também são folhas

Eu quero o escuro do debaixo da terra
Pretendo a fundura
O miolo do acontecer
Ossos ocultos
Mortos de ninguém
Nem cruz, nem placa de bronze

Não me importa a superfície
O lado de fora do chão
Anseio veios subterrâneos
Lençóis freáticos
O magma fervendo no coração do mundo

Nada me vale o mar turquesa
Ondas esfarelando na areia
Desmanchando conchas
Eu quero o oceano profundo
Peixes abissais de couro transparente e sexo hermafrodita
Enguias elétricas sem olho nem boca
Contorcendo a escuridão

Não me comove jardins semeados
As filas simétricas das rosas e das margaridas
Árvores podadas em círculo
Gosto das florestas indômitas
Cipós estrangulando troncos
O chão úmido do musgo apodrecido
Camadas de folhas secas dando abrigo a aranhas fluorescentes
Escorpiões, formigas ruivas, lacraias de mil pés

Não quero o cruzeiro do sul, a via láctea, saturno
Não me interessam cometas e a composição do solo da lua
Tenciono matéria escura, as bordas de fora do universo
O buraco negro e a gula que engole o tempo
O passado obliterado e o futuro cindido em um milhão
Doze milhões de futuros

Não sei em que possibilidade me perdi
No destino estilhaçado em que eu era
Uma camponesa na revolução mexicana
Um padre na inquisição
Uma corça de pata fraturada
Um peixe remando o rio
O rio
Eu era o rio

Era morna e fresca
O limo das margens
As águas cáusticas matando carpas
Botos
Lontras
E aguapés

Depois eu era os aguapés
Era o fundo e os barcos de papel
As crianças brincando na beira
Sete crianças soltando barquinhos

Uma delas era eu
A menina de vestido azul
Escapulário
E olhos líquidos
Chorava pelas orelhas
A vida escorrendo nas fendas
E de novo rio
Para sempre eu era o rio

 

 

 

 

***

 

 

 

 

E NÃO TEM ESTRADA QUE EU NÃO QUEIRA

 

Quero a vida de cara limpa
Não quero maconha, yoga, sertralina
Quero hoje e muito
O ontem e o atrás
Quero dor sem intermédio
Maternidade sem consolo

Não quero vírgula, hiato, camisinha
Quero onde e nunca
O longe e o depois de amanhã
Quero Líbia e Guatemala
Esquimós e aborígenes
Quero sal, umbigo e quinta-feira

Quero ontem o que não quis amanhã
Quero dentes firmes e coxas flácidas
Quando não quero nada quero muito
E quero muito cada quando
Quero lá-aqui-nunca e dentro-fundo-depois
Quero o através, o avesso, o atravessado

E não tem estrada que eu não queira
Nem caminho que minhas pernas não pretendam
Quero o reverso da falha e o verso da perfeição
Quero dormir de cansaço e acordar sem sol
Quero sonho sem sono
E sono povoado de estrelas cadentes

 

 

 

 

***

 

 

 

 

AGORA QUE TEM ÁGUA EM MARTE

 

a segunda de manhã me escorreu com a urina
e a noite de quarta evaporou no suor das minhas axilas
o tempo é alguma coisa tão líquida
que escorre e evapora
de um jeito que só os líquidos fazem

ontem eu quis ser uma pessoa melhor
hoje me esqueci

descobriram água em Marte
e é água mesmo
não é gelo, gás metano, prata derretida
o tempo de Marte também deve escorrer
pelos rios subterrâneos
lotados de bactérias marcianas
microrganismos de antenas azuis

agora que tem água em Marte
não dá tempo de ser uma pessoa melhor
o ser humano anda pela terra há 200 mil anos
o universo tem a idade de 13,7 bilhões
o ser humano é o microrganismo de antenas azuis
do universo

agora que tem água em Marte
a gente precisa deixar de ter insônia
e culpa

agora que tem água em Marte
a gente está absolvido para sempre
até os próximos 3,8 bilhões de anos
quando não vai ter água aqui
só em Marte

agora que tem água em Marte
eu nunca mais vou deixar de sentir sede

 

 

 

 

***

 

 

 

 

EU ERA PRIMATA E SEGURAVA PRIMATA

 

Não me lembro o que eu era antes de ser mãe
Alguma coisa entre tijolo e rã
(sólida e escorregadia)
O tempo de antes ficou sujo de uma coisa
que eu não sei
A vida principiou naquele dia
e depois só futuro
E era um futuro tão velho que parecia passado
Quando eu coloquei no colo minha filha
Era como se carregasse minha mãe
Ou a mãe da minha mãe
Ou a primeira mulher do mundo
Que era gente e era macaco
Ali eu era primata e segurava primata
E doía tanto

 

 

 

 

***

 

 

 

 

PONTES DE EINSTEIN-ROSEN

 

Para Gabriel

 

não, não parece que foi ontem
foi há dois séculos
talvez três
a gente se encontrou numa dessas dobras do tempo
quando o passado é também futuro
e é também passado
não há dia, nem ano, nem verão
o tempo é só um tecido vincado

vai ver a gente sempre esteve lá
no passado que não é passado
no começo do mundo e também no fim
você me salvando todos os dias
eu morrendo todas as noites

 

Maria Fernanda Elias Maglio nasceu em Cajuru-SP. É escritora e defensora pública, trabalha fazendo a defesa de pessoas pobres que estão cumprindo pena. Seu primeiro livro, “Enfim, imperatriz” (Patuá, 2017), venceu o Prêmio Jabuti 2018 na categoria contos. Em dezembro de 2019, lançou “179. Resistência” (poesias) também pela editora Patuá.

 

 

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134ª Leva - 01/2020 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Romério Rômulo

 

Foto: Hermes Polycarpo

 

se amo o teu olho dilatado

 

o anjo da morte me chega, olho de cobra
sua pupila ardente me retalha
meu foro íntimo é um corte de navalha

o mundo por inteiro é uma dobra.

 

2.
nasci agora e o meu amor nasceu
da tua pele feita madrugada.

quando eu escrevo é que a emoção morreu.

 

 

 

 

***

 

 

 

 

aqui, eu, jovem cão, enclausurado
bebi da fonte amarga do pecado

meu barco torto, bêbado, ardente
cortou a minha alma de indecente

em tudo fez-se a dura melodia
aguada do meu corpo que fugia

no fel dos candelabros dos infernos
ardi no fogo de 40 invernos.

 

 

 

 

***

 

 

 

 

que eu fosse a mulher do meu espanto

a minha alma fêmea destravada
a minha alma rígida se encanta
com a minha alma vivida de espanto
quando a paixão caminha sobre o nada

se a paixão que bebo no meu canto
forjar a minha mão enclausurada
eu mulher vívida que peso cada pranto
relato bêbada a paixão que me embriaga

tomada da miséria e do quebranto
que pisa a minha alma depravada
eu verto sobre a carne o meu encanto

que eu fosse todo o corpo em que eu levanto
que eu fosse a paixão mais do que vaga
que eu fosse a mulher do meu espanto!

 

 

 

 

***

 

 

 

 

ítaca e áfrica

 

de ítaca roubei helenas tantas
em áfrica montei os sete mares
casei-me com mulheres todas santas

cobri meu corpo gasto de alamares.

as vidas são mais tantas e mais quantas
em muros e desejos sacripantas
castrados e vertidos pelos ares?

poetas são delírios bem vulgares.

 

 

 

 

***

 

 

 

 

a língua de camões

 

1.
mais amaríeis meu cortado canto
se mais soubésseis como sois amada
e navegásseis pelo meu espanto.

 

2.
se me amásseis tamanho eu vos diria
da dura solidão dos precipícios
da falsa imensidão dos sodalícios
da cortada razão dos meus ofícios

se me amásseis por certo eu vos diria

e a minha voz em voz por todo canto
decerto iria quebrar-vos em espanto.

 

3.
senhora, eu vos amei por tanto, em tudo
que de camões busquei o meu primeiro
estado de um estado verdadeiro
e vos cantei canções que são veludo.

 

4.
se os arcabouços meus em vós levásseis
e se dormísseis no meu louco porto
e mais amásseis o meu antro torto
e se acordásseis meu poema morto

faríeis meus duelos bem mais fáceis.

 

 

 

 

***

 

 

 

 

“eu que já fui cavalo e cavaleiro”

 

eu que já fui cavalo e cavaleiro
rangi os trapos num cerrado chucro,
pavoneei às feras meus intentos,
sofri imensidões como se gotas.

cavalo e cavaleiro que já fui
por anos repisados de novilhos
brandi os versos como fossem trilhos
de intensa solidão. agora rui

o meu intento de quixote e sancho
ter uma dulce, marília, o que me leva
a ser cavalo, cavaleiro e treva
pelos adros das ilhas que não sei.

eu que já fui cavalo e cavaleiro
de tronos abissais em que entorpeço
arranco os estilhaços de um berreiro
e me destravo, nu, no meu avesso.

cavalo e cavaleiro fui.
cavalo, cavaleiro e rei.

 

Romério Rômulo é professor de Economia Política da Universidade  Federal de Ouro Preto, MG. Poeta e editor, tem publicados os livros de poesia “Bené para Flauta & Murilo” (1990), a caixa “Tempo Quando” (4 livros, 2 volumes, 1996), “Matéria  Bruta” (2006), “Per Augusto & Machina” (2009), “Si yo fuera Maradona”(bilingue,português/espanhol, 2015), entre outros. Tem uma coluna semanal de poesias no Jornal GGN, editado pelos jornalistas Lourdes e Luis Nassif. É um dos fundadores do Instituto Cultural Carlos Scliar, com sede no Rio de Janeiro.

 

 

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134ª Leva - 01/2020 Janelas Poéticas

Janela Poética V

Fernanda Nali

 

Foto: Hermes Polycarpo

 

I.

Tocam, as mãos – esse aparato para o tato
o meneável frênulo – primeira manufatura
E dedilham, como abertura, o úmido períneo
inundando os vasos e nervos
de assoalho tão delicado.

A palma abraça o prepúcio: esse movimento lavrado
modula a temperatura das manilhas e falo
Como instrumento meu, corda e sopro
toco também com a boca
dentro o membro, prenhe, dura.

A língua, à viscosa água, saliva:
_Arfa. Espasma. Goza.
Chama o meu nome.
Depois reclame que me abra
sobre a carne, novamente, dura.

 

II.

Encontram os pés – planta semeadura em solo
um outro casco – pele fora da pele
e desliza o dorso, em toque pouco preciso
de metatarsos e falanges, nessa espessura
tateando, entre sono e vigília, nas rachaduras
a anatomia de estranhos calcanhares.

Os ossos livres das dimensões do sapato
amoldados na entre curvatura do arco
como concha, nessa postura se ajustam
vacilam no movimento, como pêndulo
nas margens até encostarem, titubeosos
as dobras de desconhecidos dedos.

Essa fricção em estrutura tão íntima
é deambulação por todo corpo – ranhura
marcando sobre um palimpsesto
a fundação de uma arquitetura segura.

 

III.

Arde sobre escorpião a minha prematura fome
farejo sob a armadura, onça descendo a rugosa fundura
tensionando_ rastro aroma sombra pureza, e encontra:
_dá-me a via do excesso, há anos-luz tem que espero
sóbria penetro com os dedos e retenho: esse antigo desejo
e já o encontro pronto, labirinto aberto sem pejo
mandíbulas na cartilagem tudo a minha boca come
sobre o teu sexo tocando a minha voz implora
que venha dentro: fecunda primeiro a última dobra
e cresço madura em seiva bruta folha nova.

 

IV.

Dobram-se as costas – como garças canoas
em remanso abandonadas, os braços remos
distraídos tocando, minúcia, leveza, delícia
a superfície de águas sopesadas, o descanso

Mas somente depois de força e loucura
essa dobradura se aceita: porque o amor
não compreende brandura que não seja
impudência arrefecida mornando alheia
sobre todas as nossas profundas fissuras.

 

V.

Repousa o pescoço sobre a fímbria do colo
[o faro preparado para todos os ciclos do cio]
as pernas arqueiam uma moldura para os quadris
é breve esse intervalo.

O ombro como alavanca se inclina e acrobata
[é a intimidade inesperada tua singular diferença]
junto à cintura sincroniza a rotação das vértebras
até a extensão dos braços.

De joelhos me segura de quatro, como potro bravo
É por trás que captura a cavidade e me suspende à altura
grassando absurdo e teso mais perto dos testículos
uma pintura na projeção do espelho.

Sobre os cotovelos suporto o peso, a tortura de tê-lo
no equilíbrio instável dos artelhos e sob o teu nariz
me devolve ao mundo mais madura e safo
sempre por um triz.

 

Fernanda Nali nasceu em Vitória, ES. É autora de “território inominado” (Cousa, 2018, Prêmio de Obras Literárias da Secretaria de Cultura do Governo do Estado Espírito Santo),  atua na elaboração e execução de projetos culturais e cursa doutorado no programa de Teoria Literária e Literatura Comparada da USP. 

 

 

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134ª Leva - 01/2020 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Angel Cabeza

 

Foto: Hermes Polycarpo

 

BARRO

 

Deus criou nas trevas
os vinte dedos do homem
e sua caligrafia cinzenta.
Cego, imaginou
o som do sangue.
Num súbito lampejo,
investiu no sujo da têmpora;
teceu chumbo nas escápulas
da criação.
Impedido de voar,
o homem consumiu o céu
com olhos vitralizados;
expeliu todo o fogo herdado.
Inferno abaixo da terra nunca existiu.
Esse peso de Sísifo…
Esse vislumbre do voo…
Desde então o homem
segue agradecendo diariamente
a falha nas asas.

 

 

 

 

***

 

 

 

 

SACRAMENTO

 

Abandonar o pó
e esquecer a terra,
quebrar o corpo
e esconder espinhos:
somos o sal
de um deus barroco
temperando intervalos
entre pedras.

 

 

 

 

***

 

 

 

 

ALONGAMENTO

 

Alongo os olhos
nesta manhã
e curvo a mão
sobre o teu peito:
frêmito de asas
que toma a forma
do chumbo
da cidade.

 

 

 

 

***

 

 

 

 

CAVIDADE

 

Coloca meu nome entre dentes
e trinca.
Amacia o escuro
que nele mora e rememora
o gosto acetoso:
uma manhã envernizada
e virgem devorando
a extensa e já vazia noite.

 

 

 

 

***

 

 

 

 

MILAGRES

 

Os céticos anunciam não existir milagres
que comprovem uma santidade ou fé.
Tudo é matéria oca e sem divinização.
Somos duros e ácidos e inventivos
em nossas brumas.
Construímos uma religião
para o desespero do pão.
Entretanto, abrimos diariamente um mar
ao observar nossa rasteira plenitude
de extremos — fuligem na carne.

O silêncio atravessa o raso
à procura de novas terras.
Não seria milagre
o som dessas salgadas águas?

 

 

 

 

***

 

 

 

 

SOBRE FICAR

 

Lacerar a pele
e manter as
sensações expostas.

Fender a epiderme
e ferir a cicatriz
do tempo.

 

Angel Cabeza nasceu no Rio de Janeiro. Cursou Letras e Jornalismo. É poeta, cronista, coordenador editorial e produtor gráfico. Autor de ”Canção para os seus olhos e outros castanhos” (Urutau, 2019), participou das antologias “O Casulo” (Patuá), 29 de abril, o verso da violência (Patuá), Qasaêd lla falastin — Poemas para a Palestina (Patuá) e das revistas Odara, Escrita Droide, Vício Velho, Literatura e Fechadura, Gueto, Germina, Zunái, Subversa, Cuarto Propio (Porto Rico), Verso Destierro (México), Generación Espontánea (Madri), entre outras.