Ouvi-los.
Fixa no tempo
a forma
remediando …………………..o branco.
Guardá-los.
Quantos forem os bocados.
Deixa na planura
um gesto,
mais parece socorro.
Ouvi-los
depois que o repetir
sob o acorde
de aranhas.
Um nexo.
Um corrimão avulso.
***
Pior, no plano
do cordeiro,
sabendo o homem,
eis o lobo.
O cruel da carne,
acredite,
zero a zero,
imenso o rosto.
Amadurece,
podendo advir
quando um bote
ave de rapina.
E o que retorna
ao sabor das mãos:
livre é o medo
no intercâmbio das coisas.
***
Mas como fugir dessa linguagem
impoluta, sufocada dia após dia,
intercedendo sobre tais minérios?
E como, arrisco-me por conhecer
nenhuma lei, alivia-se a boca
sob a estase dos ventos? Mais se parecem
do que negam, o verdadeiro valor
da conta, cântico dos quânticos
no descortinado meio-dia; aliás,
Sofia engole a cidade, convenhamos
que Sofia é morta e nos atende por Antônio
Gonçalves Dias, nosso primeiro narciso.
***
Primeiro arrebenta,
desemparelhado em sua fúria.
Um problema comum
ao ministério de todos, até mesmo
em suas abstrações: um galho que venha romper;
depois, no dia seguinte, análogo
ao anterior, você o encontra, naquela posição
inócua, promíscua, reposto ao ministério
da árvore. Como reagiria a esse beco?
Encerra os olhos, ali, na hora
de encontrá-lo, como um galho que pensou.
***
Quero da palavra sua ruga,
a mancha da camisa sem sossego,
os tempos louros
que só cheiravam a jasmim.
É sempre o mesmo desespero,
o mesmo pé de valsa
sobre o capim.
Quero a palavra ‘carne’,
verbo que ilumina,
labirinto sem Deus.
Quero a palavra ‘morte’
o terreno da sorte
zero à esquerda
até nos momentos de gol.
Inescapável
como a fome
baixo e vil até no nome
é certo que o Rio não é mais.
A regra
é o que reza pedir.
Quero a palavra ‘cobra’
com suas
dobras e rugas.
***
Eu sou o chaveiro, mais do que a chave de Só se passar por mim
O que atrai a tantos ou é tão covarde que morde os donos?
E tem também o oráculo de Delfos esculpido em tuas mãos.
No canto da página como água parada
o amor – sob custódia.
André Luiz Pinto da Rocha nasceu em 1975, Vila Isabel, Rio. Doutor em Filosofia pela UERJ, leciona na FAETEC e SEEDUC. É autor de: “Flor à margem! (1999), “Um brinco de cetim / Un pediente de satén” (Maneco, 2003), “Primeiro de Abril” (Hedra, 2004), “ISTO” (Espectro Editorial, 2005), “Ao léu” (Bem-te-vi, 2007), “Terno Novo” (7Letras, 2012), “Mas valia” (Megamíni, 2016), “Nós os Dinossauros” (Patuá, 2016), “Migalha” (7Letras, 2019) e, em parceria com Armando Freitas Filho, “Na rua” (Galileu Edições, 2019). Seus poemas foram tema para os documentários “André Luiz Pinto: Prazer, esse sou eu” e “Autobiografias poético-politicas”, em 2019, ambos de Alberto Pucheu.
O poema nasce da dor
Da indizível dor
A dor precária e suja
O poema é a própria dor
Narrada em desespero
A dor calada e velha
O poema traduz a dor
Sem rimas
A dor miúda e desvalida.
***
Giroscópios
Entretanto vigio a frase
Escorregadia membrana
Sob chuva de amarelos
Que preparam o dia
Vai-se o corte, a espera
A frase de magnólia
Que apodrece
As plantas, os giroscópios,
A escama, o chumbo do dia.
***
Faca do Sol
Me fiz rio navegável,
Faca do sol.
Nasci peixe feio
Sob as trovoadas de junho.
Banho as patas do gado,
Alimento seu existir.
Converso em água e sal,
Convulso o caminho
Em que me arrasto.
Sou verde, castanho ou negro.
Dependo dos olhos que fitam.
Sou agora rio: antes e depois.
***
Hábito
Onde os meus olhos
Eram noite e transitórios,
Julgo a tessitura do tempo
E transitório serei
Aos teus olhos suspensos.
Perdoa se me invento
A cada espelho,
A cada sumo da rudeza.
Ao arrepio dos pelos
Desprezo a demasia do hábito.
***
Nu
Durmo nu
Apesar dos latidos.
Sou ermo e rotina,
Spleen nos ilhéus.
Durmo nu e
Ninguém me anuncia
Mesmo que grite
O líquido da rua.
Durmo nu
E invisível.
***
Vento agrário
Quem detiver o tempo nos dentes
Irá quedar o desejo,
Conduzir águas ao extremo
No sereno em furta-cor,
No desmaio sumário do sol.
Quem guardar as ruas nas unhas
Irá dedilhar os rastros da noite
Antes que a morte navegue
O seu barco sírio.
Há um vento agrário no ranger da flor.
André Rosa é Ilheense, nascido na Maternidade Santa Isabel. Autor de “Morte e gênero: um estudo sobre a obra de Jorge Amado” e “Quintais do Tempo”. Coordena o Prêmio Sosigenes Costa de Poesia e compõe a comissão organizadora da Festa Literária de Ilhéus. Atualmente está presidente da Academia de Letras de Ilhéus.
a Augusto Soledade, a partir da lenda yoruba recolhida por Pierre Verger
certa feita, o Rei de Ifé,
vulgo Olofín Odudua,
como era de costume
fez a festa dos inhames,
proibindo que seu povo
comesse desse alimento
antes da celebração
mais esperada do ano
não que fosse um rei cruel.
essa tal interdição
se fazia necessária
garantindo que a colheita
fosse próspera e seu povo
tivesse acesso ao alimento
importante para o reino
que hoje fica na Nigéria.
e eis que chega o grande dia:
Olofín estava sentado,
vestido pra ocasião,
cercado de suas mulheres
– um rei podia ter muitas –
e também de seus ministros
cujos conselhos valiam
tanto quanto uns bons inhames.
como fazia calor
que atraía muitas moscas
os escravos de Olofín
– um rei podia ter muitos –
ao mesmo tempo o abanavam
e espantavam as tais malditas
de modo que o rei tivesse
o conforto merecido
e pudesse apreciar
toda a beleza da festa,
tudo feito em seu louvor:
os tambores que tocavam,
os cantos que entoavam,
os incensos que queimavam,
as mulheres que bailavam,
homens dançavam também.
todo mundo reunido,
conversando alegremente,
fofocando e paquerando,
festejando a vida farta,
comendo os novos inhames,
bebendo vinho da palma,
uma bebida africana,
até não mais aguentar.
só que um fato muito estranho,
antes nunca acontecido
em nenhum reino de África
se abateu sobre essa festa.
de repente escureceu
quando ainda era dia
e quando olharam pro céu
todos ficaram espantados
um pássaro gigantesco
sobrevoando Ifé
resolveu, assim, do nada,
pousar bem exatamente
sobre o teto do palácio
justo no prédio central
onde ficava o pátio
em que a festa ocorria.
acontece que o abutre
lá não estava por acaso
ele obedecia as ordens
das terríveis feiticeiras
as Ìyámi Òṣòròngà
donas de todos os pássaros
que usavam ao bel prazer
pra fazer suas maldades
logo que caiu a ficha
de onde veio a maldição
mais ainda apavorado
o povo de Ifé ficou.
o conselho de ministros
logo se reuniu com o rei
para resolver de pronto
a terrível situação.
matutaram, matutaram
e lembraram dos “odé”
– em iorubá, “caçador” –
que também são os “oxó”
– “guarda”, em língua iorubá,
já que o caçador tem armas
e a destreza para usá-las,
deles vinha a solução.
foi então que convocaram
o temível Oxotogun,
caçador das vinte flechas,
oriundo de Idô,
que chegou paramentado
com uma bela vestimenta,
seu grande arco e suas flechas
miradas ao alvo em vão
mas alguém lembrou que tinha
outro odé mais temeroso.
foram buscar em Moré
o bravo Oxotogí,
o das quarenta flechadas
atiradas para nada.
nem de raspão uma delas
atingiu o grande pássaro.
a terceira tentativa
veio lá de Ilarê:
o das cinquenta flechadas
chamado Oxotadotá.
igual aos anteriores,
chegou se achando o tal,
tirou onda e prometeu
o que não logrou cumprir.
acontece que uma caça
não depende tão somente
de destreza e habilidade
de um nobre caçador
tem de pedir proteção,
saber a quem de direito,
que comidas, que palavras
entoar e oferecer.
foi quando Oxotokanxoxô,
o de uma flechada só,
veio acudir Ifé
ao tempo que sua mãe,
lá na vila de Iremã,
pediu a um babalaô
que protegesse seu filho
e que o mal não lhe abatesse.
na consulta ele lhe disse:
“o seu filho está a um passo
da morte ou da riqueza,
faça uma oferenda e a morte
há de se tornar riqueza”.
ela pegou uma galinha
e a ofertou em sacrifício
às terríveis feiticeiras.
fez a oferta na estrada,
abrindo o peito do bicho.
com o respeito à natureza
e às ordens do Orun,
ela repetiu três vezes
o que o sábio lhe ensinou:
pois “que o peito do pássaro
receba esta oferenda”.
e foi que na mesma hora
que ela despachava o ebó,
seu filho lançava a flecha ,
a sua flechada só.
e eis que o pássaro gigante
abre o peito pra oferenda
feita pela mãe do Odé
de modo que relaxou
e ao invés da oferenda
recebeu de peito aberto
de Oxotokanxoxô
a sua flechada certeira
se debatendo de um lado
caindo pesadamente,
fazendo a terra tremer
e logo depois morrendo.
foi assim que o odé oxó
aclamado pelo povo
foi chamado popular,
que é o que quer dizer seu nome:
“Caçador é popular”
Oxóssi, okê arô,
caçador que é Rei de Kêtu,
viva Oxotokanxoxô!
eu era muito jovem e escrevia
poesia e as minhas poesias… tinha
poesias românticas, de protesto
contra o regime. eu era um poeta
razoável. depois eu desisti.
escrevia poemas que cobravam
dos generais, dos coronéis e tal…
escrevia sobre a libertação
do Brasil, sobre a liberdade, sobre
a tal democracia… até que um dia
ele me pegou, que dia foi, não
lembro…me despiu, me colocou
em pé sobre uma poça d’água, o fio
desencapado e atado em meu corpo
foi ligado por ele, que chamou
pessoalmente a tropa, a sua turma:
torturadores, uns soldados que
tomavam conta ali, eis a plateia,
a quem supostamente eu deveria
fazer declamação de poesia.
uma sessão de poesia para a tropa
na qual eu declamasse o que escrevia
contra o regime para os que a favor
me escutassem. e ficou lá por horas
com uma vara na mão que eu não lembro
exatamente o que era: um cipó,
alguma coisa com que me batia,
ele mesmo, pessoalmente, ali,
enquanto coordenava os outros a dar
choque, o fio desencapado e atado
no corpo do que era então poeta
recebendo telefones que não
aparelhos de comunicação,
mas muitos tapas dados com as mãos
sobre os ouvidos em posição côncava
numa sessão de poesia e eletrochoque
em que não declamava, mas ouvia
zumbidos de tortura e as risadas
que hoje só escuto parcialmente.
uma democracia por um fio
desencapado e atado em um corpo
que já não mais escreve poesia,
porém ouve os zumbidos da tortura.
_______________________________
[1] shorturl.at/np489
***
damarianas
I
se o habitat faz o monge
quem visitou a oca do poeta
outorga-se o habite-se da taba
onde a palavra mora se não nela
mesma pergunta que outra me deflagra
II
se a casa da palavra fica ao longe
lá onde mora agora o que não nela
a moça barda que é uma monja às pressas
se não habita lá a vida é bela
ela inter(p)ela:
longe de onde?
III
eu nem sabia nada
nada de onde aquilo ia dar
o que importa é que ele estava lá
antes que eu era
grafando nos cartazes mal me lidos
por entre umas vitrines tinha livros
e uns versos feitos pra dependurar:
deu-me origamis de papéis dispersos
não só suspensos: fáceis de(s)dobrar
IV
poemóbiles
orai pros natos nobilis
e as folhas podres dos bares avulsos
postando cibersóbrios veredísticos
sobre a nossa eterna embriaguez
de que só doma a razão em sendo louco
caso algo morra que não seja a plêiade
que só tenho certeza o seu talvez
V
e pelo exposto me interessa menos
acertar de onde viemos
do que errar para onde nós v(o)amos
***
pólen de flor
para Blande Viana
uma vez a
professora de botânica
estranhou
o fato de ter visto
uma placa
que dizia
VENDEMOS PÓLEN DE FLORES.
“de que mais haveria de ser?”,
ironizou.
o que me fez pensar primeiro
em polens das flores de plástico
alimentando gerações de abelhas mecânicas,
substitutas das suas matrizes
em adiantado processo de extinção.
elas, as extinguíveis, vão nos levar a todos,
dizem
.
.
.
um par de semanas depois,
lembrei que livros de poemas
gostam de miolos com papel
pólen ……………………………….soft ……………………………….& ……………………………… bold
nome que talvez se deva a sua cor
amarelada
e que reflete menos luz,
proporcionando uma leitura mais confortável.
oxalá
estas palavras percam sentido
num futuro cheio de
polens
de
flor
abelhas
&
leitores.
***
era
para Antonia Avelina Ninha, in memoriam
era
3 anos mais velha
10 quilos mais gorda
um tanto mais alta
gostava de me pegar pelos braços
girar girar girar ………………………………& …………………………………..s…………o…… l……t…..a…..r
um dia ……………………..as costas na pedra grande da rua
estrelas piscando num fundo vermelho
soltaram faíscas
e então
perdi o medo ……………………..de
re ……..vi ………….dar
***
A Educação pela Pedrada
para Jorge Augusto
Porque a pedrada é pra: pegar visão;
para aprender na tora, é uma bala
a queima-roupa, um cachação verbal
(um cínico litotes, uma fala
neg-afirm-ativa, pedagogia
da dura, do chepo, não burilada,
nem bostética, a ideia reta
sem nada de caô, que vai na lata),
lição da pedrada que vai pro centro
da periferia e a tudo empala.
Outra pedrada educativa: o não,
(do centro pro gueto, bem antipática)
pra aquele que não sabe se ligar
(e talvez não adiantasse nada)
que dar pedrada na selva de pedra
é faísca no paiol da barricada.
alexsim é um poeta criado na avenida Bahia, número 1, Fazenda Grande do Retiro, Salvador, meu amor, Bahia. é também performer, professor de português para estrangeiros e revisor de textos alheios, entre outros. publicou alguns livros, o último intitulado trans formas são. às vezes traduz, critica, resenha, edita e torna público o que faz. às vezes, troca de pele e de nome.
As utopias acabaram
em nome da televisão,
um erro feito
pelo preço do petróleo
Eu te amo, tu me amas
e o verbo já não pode mar
Em nome de Cristo
muitas guerras foram dadas
em nome da dívida
uma tristeza no tronco do país.
Todos os mestres morreram
e na tua carne se desenha
traços que inauguram um título
baralho aberto no avesso da palavra,
asa feita de corpo e de coragem
O mundo agora
cruza um lago sem memória
e em alguns anos
estaremos mais pobres
mais burros
mais tristes
na alma e no prato ( )
Cresce um rasgo
em massa e sem história
na palavra-passe chamada pátria –
essa nódoa, essa traça
esse vazio imenso do nome
no mito de um tempo chamado aflição.
***
Faísca
Ontem havia esperança
toda a esperança do mundo.
Hoje sou um estilhaço
um catálogo de dúvidas
e desejo.
Os pássaros não voam mais
e o dia que nasce
é o luto ordinário, grave,
posto sobre a mesa.
A boca diz o que o coração fala
e a dor é antiga:
chega, se instala
abre ocos na aorta, devagar,
para o aprendizado – ………………………………………do enigma
……………………………………….. da sutura ……………………………………………………..da ferida ……………………………………………………………………..da beleza.
Os fracassos… saúdam uns aos outros;
o que fica é o peso
a humilhação calcada nos olhos.
Digam que perdi:
que faltei às classes de empreendedorismo
e visitei às de angústia e miséria;
que não vou ao shopping
que rasguei os papéis e os comi.
Digam que perdi tudo:
a fé, o sonho, o dinheiro que não sobra
mas amo como se fosse eu o país
essa cavidade aberta
exposta, sangrando até a morte.
***
Versículo
1º Evangelho do Capital, 1, 1º. não derramarás coca-cola
em vão: / tomarás todo o néctar da garrafa não-reciclável;
/ não catarás os meninos e suas tampilhas, / ao risco de
ser apedrejado / ante a primeira vitrine; / patrocínio do
produto cuja etiqueta cobre o líquido do tiro perfurado.
***
Carnê
logo cedo a caminho do trabalho
olho a lista de coisas pregada na geladeira de 10 prestações ……………………………………………………………………………..[que não foram pagas
a mesma que congela ovos e óvulos da casa
a mesma que assiste na tv a cidadã que reza,
corta e mata em nome da moral etc. e tal
e que aparece no outdoor da cidade – esse espelho de ………………………………………………………………………….[simulacros;
geladeira que congela, escorre,
que não refresca a água da casa onde vive quem uiva sem
[presas a lista de coisas e a violência no coração seco do mundo
***
Arado
Nesta contrição feita de nuvem
o seixo que a conforma
é um sortilégio de canções
um sem fim que aflora
e deita à fera
um fio de água
que dos olhos brota
; assim entra no limbo
deixando fora as contas,
o salário baixo, a feira pobre
e até mesmo a nação
– esta que dói
por sangrar o cofre
deixando a nu os que plantam
e não colhem.
***
Rito
Sou uma tripa de pedras
que se escoam na ciclovia
das aves a morder o tempo
e seu desvão de tic-tacs
uma esfinge que choraminga
sem oráculo e sem os cactos
que não dormem;
tudo o que vive
é esta parede sem reboco
que observa, vigilante,
a goteira da sala
e se confunde com meu choro
a tomar as unhas, os canos
o cimento da massa;
quatro cantos
e os signos do calvário.
***
Certidão
Se pudesse
arrancaria meus nomes
um a um
para desbaratar
a lápide que me cobriu
na vida.
Clarissa Macedo (Salvador – BA), licenciada em Letras Vernáculas, mestra em Literatura e doutora em Literatura e Cultura, é escritora, revisora, professora e pesquisadora. É autora da plaquete O trem vermelho que partiu das cinzas (Pedra Palavra – 2014) e do livro Na pata do cavalo há sete abismos (7Letras – Prêmio Nacional da Academia de Letras da Bahia – 2014, em segunda edição pela Penalux, 2017 – 3ª reimpressão, 2019), ambos de poesia. Entende a literatura como ferramenta para um mundo melhor.
É preciso viver sem paixões.
Permanecer morto ou vivo até o fim.
Mergulhar no absoluto anonimato,
Aclamar o tumulto escuro e bruto.
Encenar o drama clemente e lento.
Sentir um amor ideal por anjos nebulosos.
Descobrir um novo fundo de poesia e aguardar
uma voz que nos ordene docilmente:
– Não te movas, nem te inquietes,
nem traias o que
ainda não
és.
***
O poema aquece
as montanhas
quase sem voz
e relativiza a fúria
Inocente e letal
Do vento
***
Talvez um dia recordes
num qualquer espelho torto
quão simples fora a tua salva
e te lembres daquela vez
em que ceáramos apenas meia
laranja e nada de pão naquela casa cega
com o telhado a verter lágrimas
de fel.
***
Porto
A poesia vai
Pela rua,
Nua.
Esconde-se
Nas manhãs mais
Frias.
E é à noite que lhe foge
A voz.
Lenta
E lenta,
Lentamente,
Até
Desembainhar
Na
F
O
Z
***
Cisma
em mim um
conceito,
quase uma
ordem estabelecida.
– o desejo.
Quanto
menos o
pratico,
Mais
se manifesta e me
surpreende por
excitante e novo.
Glicínias.
***
Por vezes
Acontece entrarmos
Num maravilhoso jardim árabe
E sentarmo-nos logo ali
No primeiro banco de pedra lisa
Imaginando o azul do mar.
***
Hoje acordei com uma andorinha no estômago.
A noite era de tempo limpo e sono.
Sabia a quebra milenar, cabelo solto.
Nenhuma angústia, lei, mato ou víscera defronte.
O prédio seguia o seu curso normal de vida, espécie de abrigo impune.
Gineceu.
Observava sem capacidade estrelada o céu, quando a miúda astronomia me
Espantou a inocência.
A circular impressão se revelara.
Tal como no meu estômago, assim uma via-andorinha, se alongava, qual
fita emprestada, distraidamente, no ar.
Pedro Vale vive no Funchal desde 2002 onde é professor de primeiro ciclo desde 2002. Cursou Ciências da Cultura e frequenta o mestrado em Gestão Cultural na Universidade da Madeira. O seu primeiro livro – “Azul Instantâneo” – foi lançado em dezembro de 2017 e o autor trabalha há largos meses na sua segunda edição.
Ouça, rosto ungido pelo vento
as menores cascas estão secando a umidade dos canais
não era mentira quando disseram que a barreira iria mudar a rota e a construção de nossas casas de areia
mas mesmo assim o hibisco preso atrás da sua orelha representa a sua ordem imperativa de paz
combina suas marcas vermelhas com o dourado cerrando suas pálpebras de ferro
e não se deixe fugir
ouça,
não se deixe fugir como uma forma de medo pela aniquilação
não deixe de ouvir o vento empurrando sua franja para os montes
não deixe de bater os dias com um pé e com as mãos que recolhem as farpas
não deixe fugir sua vantagem
***
roo e agradeço às pequenas coisas
por expulsar os estertores da memória
que deixam num facho os dias congelados
como que de púrpura
e a memória aberta
não estanque……………………ao sol aberto
vendo com olhos semicerrados que uma pessoa é sempre a minha melhor ferida
e por isso tenho vivido sempre entre os seres inanimados e os animais domésticos para ver amar de novo
ver outra cor espraiar do terceiro hemisfério
ver outra cor espraiar dos horizontes
quase sempre semicerrados
mas ainda abertos
***
É chegada a hora que você se espanta com o osso que sai do meu peito
eu confiro a profundidade do seu umbigo com meu dedo fura bolos
por baixo do lençol a história de suas estrias de quando você cresceu rápido demais
por baixo dos meus pelos a história de minhas estrias de quando emagreci rápido demais
a altitude dos meus calos faz novas linhas na tua mão como brancas tatuagens de hena
suas cicatrizes que se encontram nas mesmas partes que as minhas cicatrizes se encontram
a sua mancha de limão na barriga formando um mapa da américa latina
Você vê agora até que ponto aguentam meus cabelos
corpo a corpo
medindo as travessias e até que ponto aguentamos as distancias a nado à ausência e à euforia
enquanto cambiamos entre a primeira a segunda a terceira pessoa
como alguém que é e foi e já não é
e vemos que parte é inteiramente nossa
irreproduzível
em todos os corpos que achamos ao longo de nossa curta vida até aqui
o meu arrepio o teu arrepio se encontram
seremos os desconhecidos mais íntimos que já pousaram os olhos nesta terra
serei muito em breve a tua sombra indômita
***
Aos que herdaram essas terras
deixaremos buracos e sustos
ensurdecendo seus talhos em nós
lasseia agora o amor esquecido
pelos sismos diários e uma jornada
mal posso acreditar que sobrevivi ao domingo
mal posso acreditar no ruído acoplado à candura
deixaremos um dilúvio
para o planalto
e um alívio
para as moscas
e com nosso peito exposto
saberemos que este amor
fabrica nossas armas
e o nosso grito plana nas ruas
avisando
***
Sinto que quando falamos medo
Tem sempre alguma outra coisa em que estamos esquecendo
***
acha-se em farpas como um dom que não sabe por onde irá romper
quando os obeliscos nos apontam feridas as estradas virgens
não é nenhuma má intenção perguntar dos quatro compassos que já não são
rompo as levadiças para ver se acham nessa cidade o que buscam em outra
só para então forçá-los para fora do meu sistema e do meu canal
aqui nenhuma peça está faltando
o mais difícil mesmo será correr olhando os anúncios
achar o pulso pensando se há sangue pelo lado de dentro e de fora
e se já não é mais o mesmo do que corre por dentro
já é um sistema externo um passado
já não tem um ritmo
eu deveria me preocupar com a minha dieta e comparar com a dieta de alguns mamíferos em particular …………..da baleia e do morcego
por que cantam e fluem
por que espremem a espinha dorsal às cores
por que precisam de um meio.……………e de um som
Stefano Calgaro (1991) nasceu em Porto Alegre e vive em São Paulo. “Pequena volta” (Pátua, 2019) é seu primeiro livro.
Tudo isto é dor:
o que falta,
a miséria do mundo,
a miséria do homem.
As horas longas entre as luas,
uma luz absurda que absorve
a calma dos meus olhos vivos
e fia com uma agulha essa dor.
Sim, tudo isso é dor.
Toda essa cor de faltas
e de vazios, cor nada, cor nunca,
a cor incompreendida das horas.
Nenhuma cor em meus olhos
nenhuns olhos nesse rosto,
só uma dor perene sem cor,
só uma figura distorcida pela dor.
Próxima, inteira, latente e fixa.
Dor por ser dor em estado real,
aquilo que é acumulado aqui
onde não sei bem se o acaso
ou se a vida tratou de manter.
Porque a carne dói,
dói viver em silêncio,
dói a vida cotidiana,
quando escorre dos olhos a dor
e sua solubilidade
resulta em analito,
sem medida exata.
***
um dia vai alto
O dia vai alto
vai alta a rua,
ladeira longa que se vai
marcada no sem tempo,
memórias antigas,
varanda encerada
de chão vermelho.
Um homem sobe a rua,
um homem anda lento,
todo o seu corpo é sombra e alumbramento.
Casas olham indiferentes,
indiferente o calçamento
de pedra resiste ao vento,
nada é mais justo que o dia alto sobre a rua alta,
na ladeira alta em que um homem caminha lento.
Casas e pessoas se misturam,
vozes vindas de lá de dentro
anunciam um futuro estranho e cheio de dúvidas.
Fosse a vida só contentamento,
fosse tudo o que fosse esse pó
que vai cobrindo casas e pessoas na lida do tempo.
O homem ainda vai lento,
não há pressa. Todos os homens anunciam o dia alto.
É realmente um dia alto, dia pleno de acontecimento.
Sim, é um homem e suas pernas e braços e ventre
estão deslizando sobre as pedras desse calçamento.
Há silêncios e vozes no vento, misturados à rua alta,
misturados ao que um dia foi a rua
agora coberta de pó no sem tempo.
***
na última sessão do dia
Dorme,
dorme tudo o que se retira,
a fatia do dia, a faca, a fala
e o que é da vertigem real.
Dorme,
dorme o que queria, alçava,
a morte esquecida na tarde,
a triste tarde de sonolências.
Dorme,
Morfeu versado em Tânato,
esquece o dia, abraça a noite,
a sua mãe desesperada e fria
também dorme e, ao dormir,
alcança a eternidade desejada.
Como jamais se dormiu,
dorme todo, dorme inteiro,
fecha esses olhos definitivos,
encerra o mundo e seus ares,
encerra a fome de vida, a lida
e vai descansar de si mesmo.
Procura no sono absoluto
a absoluta ausência de si,
habita o longe, o longo e
vive esse mistério póstumo.
Medita, monge transfigurado,
na última sessão do seu dia e
no lótus perdido já reclamado,
dorme ………e morre ……………….e descansa ……………………………e mais nada.
***
do que é perdido
Mas fica esse silêncio,
o desdito, a ausência.
Fica o que não ficou
jamais entre as horas,
essas horas absurdas,
horas passadas a fio.
Fica o que nunca foi,
o suposto, imaginado.
Aquilo que seria mais
se não fosse passado.
Mas não foi, não era.
Ora ora, minha bela,
que dizer do perdido?
Que o jamais havido,
depois não se perde,
não há o que perder.
Nunca houve, não foi,
nem resto me restou,
nem o acabar acabou.
Nada,
ou quase nada,
só esse silêncio
ficou.
***
a fonte de Orides
para Orides Fontela
A fonte de Orides
seca
coberta de folhas
secas.
Resto do respiro
a um passo
do pássaro:
Orides resseca.
Deixa a tua mão
bater dura a tecla
-num tec tec tec-
de tudo um tanto.
Deixa, Orides,
que eu te engulo
como se engole
outra verdade.
***
Valor
Vazo de mim
e espalho-me
no chão seco.
Escolho olhares,
seleciono vozes,
avalio as dores.
Violentamo-nos
e tristes vamos
ao ato insensato.
Apenas o valor
esse ditador, e
sempre a injustiça,
essa triste puta,
seguem protegidos
à sombra do gigante
morto que putrefaz
na Avenida Paulista.
André Merez cursou Letras e fez pós-graduação em Língua Portuguesa na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Leciona Teoria da Literatura e Gramática há mais de 18 anos e desenvolve pesquisas sobre música, artes plásticas e poesia. Autor dos livros Vez do Inverso (Editora Patuá, 2017) e Perfeição Acidental (inédito). Também teve seus poemas publicados nas revistas Mallarmargens, Poesia Primata, Gueto, Germina e Poesia Avulsa.
Saber da pedra
sua inscrição
sua saliência.
Da pedra saber
sua ranhura
sua mística.
Saber da pedra
sua crueza,
sua concretude.
Da pedra saber
sua manifestação
rocha
moinho
lama.
Saber da pedra
destino
sua sina rupestre
marcando
o tempo
do caminho.
***
Rosacor
Para Carlos Figueiredo
A rosa
existirá
além
da lira
além
do nome
de sua cor.
A rosa
carnessência
da pétala
viverá
na consciência
antes do rito
num místico canto perfumado
/ oásis da criação /.
***
Calar
No meu silêncio
há um repouso
de mil folhas
que
não descansa.
No meu silêncio
há um milagre
que faz
brotar
girassol.
No meu silêncio
há uma distância
que aproxima
léguas.
No meu silêncio
mora
borboleta
ninho de passarinho
chuvas.
No meu silêncio
há uma luz
que
de tão profunda
escura
revela
/ o silêncio /
mil pétalas
que abrem
flores
no jardim.
***
Nascente
É preciso
chover.
Deixar-se
banhar
da água-sal
que é feita
a lágrima.
É preciso
chover.
Deixar-se
molhar
por esse filete
de rio
que escorre
o mar.
É preciso
chover
e deixar-se
lavar
pela unção
do seu
próprio choro.
É preciso
chover
para se abençoar.
***
Marinho
Entre
a rosa
e
o sal
se insinua
uma
fogueira
que
trepida
lágrima.
Entre
a rosa
e
o sal
se esconde
uma
ternura
que
invade
tudo.
Entre
o sal
e
a rosa
se instaura
um coração
que
sangrando
faz nascer
o deserto.
***
Habitante
Inquilina
da terra,
pátria
de
flores
e
frutos.
Nasci
madura
numa casca
ainda
verde.
Inquilina
de mim
caule
sangrando
seiva
brotei
ao avesso
na fissura
da pétala.
Mell Renault é escritora e dramaturga. Mineira de Belo Horizonte, tem 34 anos, quatro filhos e é casada com o fotógrafo e escritor Carlos Figueiredo – que mantém e organiza sua obra artística. Manteve, dos 15 aos 25 anos, o blogue Pensamento Polaroid – que deixou de ser blogue para se tornar um fanzine de incentivo à leitura. Publica nas seguintes revistas: Alagunas, Mallarmargens e InComunidade (Portugal). Lançou em 2019, pela Editora Coralina, seu livro de poemas “Patuá”.
Perdíamos o ar, para ganhar mais, logo depois,
e saíamos rápido, procurando lugares claros,
onde a cidade oferecesse melhores condições
atmosféricas, para esquecimento e respiração
E seguíamos pensando em uma hora,
duas, quase afogados, sem perceber riscos,
bichos fugidos, animais selvagens, as palavras
presas na garganta, os corpos iscas dos corpos,
como se o melhor dos segredos estivesse
por ser revelado, uma espécie de início,
cio, jogo, a escolha do dia para nascer, lá,
afinal, a eclosão, o resto das nossas vidas.
***
SILÊNCIO
Às vezes é melhor não dizer nada, ou quase
O que se diz ganha corpo, membros,
senta-se à mesa e se esgarça
toda a chance de esquecer
E esse corpo assume espaços, crava o ferrão
em um único lugar na respiração, na linfa,
corpo estranho que nenhum glóbulo branco desfaz
E talvez seja esta a forma de desistir ao contrário,
para sobreviver à dor generalizada,
sem anestesia, antidepressivos, alucinógenos
É este silêncio liso, longo e coagulado
de bicho-preguiça, imóvel, crédulo, na árvore,
enquanto espera
E não sabe, não vai saber
do sobrevoo da harpia.
***
CARDUME
É preciso calar,
porque em silêncio respiramos melhor,
o diafragma está livre e ondula,
brânquias secas por fora,
mas que engoliram o mar
A respiração assim não amarra veias,
não arruína enredos,
não condena desfechos,
garante mais uma cena,
outras centenas delas,
e, dependendo do ritmo,
abafa o terror da trincheira
A mudez deixa todos os golpes
abaixo das bordas do cardume,
da pontaria dos bicos,
mandíbulas, dos dentes
Não ditos, o baque, a ruptura, o tapa
são nossos, só nossos, não ferem
– armadas se esquecem na rocha.
***
PEGAR OU LARGAR
Nas avenidas de Amsterdã,
naquelas manhãs de setembro,
aprendemos que as lágrimas
têm sempre a mesma substância
O tempo não as torna mais doces,
o tempo não as estanca
Vimos o castigo por entre
árvores de falsa inocência
Não é nenhum segredo
Isso lateja em cada palavra
Sim, o nunca estava ali, conosco
Ainda está
As tardes terminavam
e nenhum farol nos distinguia
Melhor secar as lágrimas
Talvez o esquecimento
venha à cama,
outro dia chegue,
devolva um pouco de tempo,
bom nome às coisas
Os dados estão lançados,
as apostas, abertas
Basta girar
a roleta.
***
HABITAT II
I
Insistem os medos por dentro da pele,
escondendo os órgãos, o sangue, em todos
E nem sabemos o que nos falta,
do que fomos apartados algum dia,
porque nunca estivemos presentes sequer em nós
E então escavamos o que já está muito seco,
em busca de água, como toupeiras, javalis
Ou mergulhamos, invisíveis baleias azuis,
para gritar até que o silêncio enfim respire
II
Procuramos sempre a ilusão
no que é o inverso de tudo, com ansiedade,
o ar preso, a resposta esperada
em bolhas de vidro que repetem
a neve, cenas impossíveis
de um idílio sem calor, líquidos, pulso
E se pensarmos bem, sim, jamais tivemos
um lugar só nosso, onde morar,
defesas psicológicas, miméticas, abrigo
III
Amanhã, talvez, nem nos lembremos de quem somos
ou quem são os outros, porque não conseguimos
nos entender ou ao nosso século,
a nenhum deles, o que dizem e o que dizemos
E somos só isto mesmo: animais solitários,
tentando a sorte, insistindo no tempo
Até que alguma palavra caia, por azar,
castigo ou revelação,
e, enfim, possamos
aceitar.
***
CORVOS
Não via os corvos,
mas eram corvos,
prendendo o tempo
E eu criava pombos
Quando você saiu,
as sombras
tinham penas negras
e ficaram pela casa,
pela garganta,
as suas penas
Ontem entendi
e acendi a luz.
Alberto Bresciani nasceu no Rio de Janeiro. Vive em Brasília. É autor de “Incompleto movimento” (José Olympio Editora, 2011), de “Sem passagem para Barcelona” (José Olympio Editora, 2015, finalista do prêmio APCA de Literatura – Poesia de 2015) e de “Fundamentos de ventilação e apneia” (Editora Patuá, 2019). Integra, entre outras, as antologias Outras ruminações (Dobra editorial, 2014) e Escriptonita (Editora Patuá, 2016). Tem poemas publicados em portais, blogs e sítios da internet e em revistas e jornais impressos.