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130ª Leva - 02/2019 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Denise Pereira

 

Foto: Almir Bindilatti

 

Acto Segundo

 

Vives.

Respiras.

Tens volume.

Odor.
Revelas-me o mistério do que é táctil.
Do que existe para além de mim,
e que regressa mudo,
entranhando-se na pele,
o maior órgão
do corpo
humano.
Ainda mais humano.
Aqui.
Em contra mão.
Em contraluz.

Ondas.
Sete até ao rebentamento.
Esquecer as listas,
o léxico,
a lengalenga das preposições,
a dor nas mãos
quando havia esquecimento.

Descoberto
O significado último
de apontar para o céu.
Aqui.
na pressão variável
do teu peito.

No ritmo doce
de dois pulmões,
transcreves
a mais cândida estrofe
sobre
ser.

 

 

***

 

 

Hemofilia

 

Passar-te nos dedos os papéis em corte.
Deglutir sincera na direcção oposta.
Por um triz levaste nos bolsos um esboço sorrindo.
Uma quase neblina que em raiz perdura.
Estancar-te na ferida que abres ainda,
Na generosa oferenda cálida do magma
antes de explodir,
Em sabor bélico,
Difuso e torto na mucosa efervescente.

Repete-me:
um corpo nunca é apenas um corpo.
É antes um choque em cadeia numa auto-estrada coberta de chuva,
a um domingo.

 

 

***

 

 

Café Curto

 

Cortada e sorvida metade da laranja,
passei os dedos na aplicação.
Esquerda.
Direita.
Repeti. Infinitas vezes.
Tu em nenhum quadrado.
Só naquele quadrado tão teu,
tão pendurado no avesso
da nossa interrupção.

 

 

***

 

 

Ilusão de óptica

 

O poema surge da justaposição dos corpos.
Das arestas erodidas pelos fluxos em contacto.

Preparo a passagem do testemunho.
Evitando ouvir as tuas mãos trémulas a cair em caixas.
Cantando-te no desaparecimento sôfrego dos náufragos.

Aperto o volume indefinido da estafeta.
Tapo os olhos túrgidos enganando o pragmatismo das listas.
Repetindo a sede paciente do que é inevitável e intemporal.

O início tosco do verso resistirá na penumbra da raiz.
Respirando em segredo segundo os compassos do nosso encontro.
Vai descendo o testemunho pelos teus olhos que se afastam.

Temos apenas um segundo antes de tudo ser já estrofe e harmonia.
Um rasgo subtil de instantânea clarividência.
E aí saberemos.
Sim, somos um novo poema.

 

 

***

 

 

Linha Mestra

 

Não sei se da pálpebra,
ou da coxa,
augúrio ou despedida.

misturas,
ou um eco
pálido
das suturas quentes.

linha vermelha.

O alarme dissipa
a óbvia pergunta sobre disparidades.

mão que se pousa,
ou se imagina pousada.
ténue.
segurança proscrita.

linha vermelha.

Não sei se sorrisos,
ou silêncios.
na surpresa só o atraso.

o atraso de ter,
ou de nunca ter tido.

de saber que se foi,
que se demora no regresso,
que na forma se engana.

linha vermelha.

Faz-se da espera um verbo.
Os caminhos são curtos.
Os narizes rectilíneos.

Nem uma sílaba se toca
entre os nomes e os
versos.

A linha não quebra,
nem aproxima.
apenas existe.
e revela.

 

 

***

 

 

Acto Sétimo

 

Nos padrões pulsão que paralisa.
Abstraída nos cortes transversais,
ser-se mono ou dicotiledónea apenas.

Puxar lustro a imaginados cones,
Pressentir os dedos húmidos
na destreza lenta das folhas.
Permanecer quieta na certeza de que só cresce
suave.

Ser a rainha do meristema apical.
Dominar assim a latitude e longitude.
Prender amostra na lamela.
Ser-te no corte e fixar-te o meio.

O prazer condensa-se pelo recorte oculto.
um secreto decifrar ambíguo de corantes,
ora parede espessa ora comunicante.

Excitação que cavalga nos contrastes,
labirinto redondo de células côncavas e convexas,
fixar a ampliação e rodar o foco,
soltar a cada mês o acto redondo da origem.

Nem meristema nem membrana vegetal,
toda eu animal
em vertigem compulsiva
de rebobinar e premir play.
Gastar toda a actividade mitocondrial
em overload sensorial
sem conquista ou consequência.

 

Fascinada pelas palavras e a sua musicalidade e ritmo, Denise Pereira começou a escrever os seus primeiros poemas aos dez anos. Em 2011, começou a publicar regularmente os seus poemas e textos no blog “Janela Inquieta”. É doutorada em História, Filosofia e Património da Ciência e da Tecnologia, pela Universidade Nova de Lisboa, tendo escrito uma biografia do Psiquiatra Luís Cebola (1876-1967), um dos pioneiros da arte-terapia em Portugal. Em 2015, escreveu uma performance músico-poética original – Marioneta Inquieta – que, desde então, já foi a palco inúmeras vezes em Lisboa e em Berlim. Em 2016, mudou-se para Berlim, onde reside atualmente. Alguns dos seus poemas foram traduzidos para alemão pela tradutora e autora Christiane Quandt, a propósito do festival e publicação Stadtsprachen.

 

 

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129ª Leva - 01/2019 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Luísa Gadelha

 

Ilustração: Luiza Velozo

 

ansiedade
é a gente surrupiar toda a sensatez
sugar o ceticismo
se sabatinar, auto-sabotar
serpentear por futuros absurdos e quem sabe possíveis,
mas improváveis.
suportar sozinha as situações sonhadas de desalento
é desesperar no abismo
insegurar nas possibilidades
se saciar na insanidade.

 

 

 

***

 

 

 

O período mais duro
Mais trôpego, mais triste, mais traste
Foi aquele inverno nos jardins
De Sophia de Mello Breyner Andresen
Em que esqueci os instantes que vivi
– e os que não vivi –
Junto ao mar.
O Porto era então todo cinza
Todo cinzas
Gélido, úmido, sufocante
Tinha mesmo sido
Um lar?
E mesmo nos jardins
De Sophia de Mello Breyner Andresen
A trégua era só para um suspiro
Um soluço, um sussurro
Uma contemplação das roseiras já murchas
Que um dia pertenceram a Sophia
– agora já éramos íntimas, separadas apenas pelo tempo –
Sophia que um dia disse:
“O Porto é o lugar onde para mim começam todas as maravilhas e todas as angústias.”

 

 

 

***

 

 

 

Poesia

 

versos podem ser
analgésicos
nostálgicos
(cômicos) incômodos
icônicos
nas costas insustentáveis,
curvados
versos são
etéreos, instantes
materiais, estantes

 

 

 

***

 

 

 

até ontem à noite eu não sabia como era
urrar de dor
até perder a voz
animalesca,
assustar o meu gato
abandonar minhas introspecções
acordar os vizinhos
fazer tremer os móveis
pôr o peito pra fora
junto com a garganta
o som voraz
desfísico
mais veloz que a luz
urrar até raiar
urrar na aurora
uma dor crepuscular

 

 

 

***

 

 

 

por que tanto temor do tempo
e seus tentáculos tentadores
que te enterrarão tiranicamente
a trote e a galope
em grutas de topázio e turmalina?
medo, não
qualquer terremoto, aterramento, desastre,
casulo, desfecho
vale mais que esse deserto

 

 

 

***

 

 

 

hipocrisia
uma crise no hipocampo
direito – esquerda?
sinistros vórtices vívidos
vertigens em
versos
vertigo

 

Luísa nasceu em João Pessoa (Brasil), onde se graduou em Letras e concluiu o mestrado em Linguística. Contribuiu com artigos sobre literatura e cultura em geral para os portais Diário do Centro do Mundo e Prosa Mirante. Atualmente, é estudante de doutoramento em Literatura e Estudos Feministas da Universidade do Porto.

 

 

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129ª Leva - 01/2019 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Elizabeth Hazin

 

Ilustração: Joana Velozo

 

CURVA DE SAN MARTINO

 

Para que a pressa
se a vida inteira se tece de acasos?
chove sobre as ruínas do castelo
como outrora terá chovido
sobre as pedras recém-erguidas
para que a pressa
se apenas lento
…………………………..lento
………………………………………….lento
o cinzel do tempo
nivela e repara?
À minha revelia
todo ponto é feito e desfeito:
sou um detalhe que passa
assim como – vista do trem –
toda a paisagem.

Como arrancar das pedras
a verdade que encarnam?
tudo agora é anódino e pálido
(até mesmo o pálio
no centro da praça
que de graça se oferece
a nossos olhos desarmados).
Onde o esplendor medieval
que colorimos de bandeiras e de cavalos?
levianamente
pisamos as pedras há séculos dispostas
e nosso coração nem sabe
dos suspiros e das noites
nem sabe da beleza
nem sabe.

 

 

 

***

 

 

 

Deixa sentar a poeira do tempo
debruça-te sobre mim.
Foi de conviver com a luz e com a água
essa minha lucidez esse lodo
esse gosto amargo demais
esse meu lado avesso e morto.
Não tenho margens nem porto
não possuo uma única ilha
mergulha em mim
não mais que tua mão
e acompanha minha vigília.

Velar é preciso
(é como navegar)
teu rosto impermeável
Não se molhará.

 

 

 

***

 

 

 

INVENÇÃO

 

Para que mais do que já temos?

nossas roupagens humanas
nossa fragilidade
o areal que atravessamos
nossos parcos segredos:

tudo é a vida que vivemos
deveria ser suficiente.

Para que inventarmos
o Amor e seu desassossego?

 

 

 

***

 

 

 

NO ESPELHO (II)

 

Eu te acendo
e me vejo:
sonhos de infinito
esse jeito tosco
meu andar comprido
meu olhar tão fosco
o amor perdido
– não vivi de todo.

Perdi minha ambição
(lembrança antiga)
já não brinco de poemas
algo se desfez
perdi – razão da vida –
o meu canto.
Já não me comovem sonhos
nem sonhos há que me movam.
Sobra a noite
e em teu vidro – aceso –
o meu espanto.

 

 

 

***

 

 

 

HOMO LUDENS

 

Lúdico animal o homem
e esse ludismo o transforma
em carta marcada embora
ele nunca saiba a hora
certa xequemate (o rei
morreu? outro rei é posto)
nada se mostra em seu rosto
que não esse jogo vário
de mil nomes – estuário
de todos os seus desejos.
Que mar, que mar os espera?
Não há. O que existe é mera
ilusão – regra do jogo:
pensa-se tirar a sorte
porém morre-se no fogo.

 

 

 

***

 

 

 

Uma
duas
três taças
e o poema se derrama
– vermelho e ácido –
queimando minha garganta

toda palavra é um pássaro escarlate
que voa sempre
(ainda quando me calo)
no tempo escasso da tarde

 

Elizabeth Hazin (Recife-PE, 1951). Publicou Poesias (1974), Verso e reverso (1980), Casa de vidro (1982), Arco-íris (1983), Espelho meu (1985), Martu (1987), O arqueiro e a lua (1994). Em 2006, a Vieira & Lent reeditou uma segunda edição — revista e ampliada — de Martu, livro vencedor do Prêmio Rio de Literatura (1986) e foi publicado Lêgo & Davinovich (7Letras) escrito a quatro mãos com Davino Sena. Em 2010, a Vieira & Lent republicou Arco-íris e em 2014 publicou Mágica de Carrosel (infantil). Atualmente é professora Associada Plena junto ao Programa de Pós-Graduação da UnB, líder do grupo de pesquisa Estudos Osmanianos.

 

 

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129ª Leva - 01/2019 Janelas Poéticas

Janela Poética V

Tito Leite

 

Ilustração: Joana Velozo

 

ETERNIDADE

 

A poesia é avis rara
num mundo raso.

A dúvida faz parte
de cada bago do poema.

O poeta trucida
o coloquial e seus oficiais.

Se o ofício do dia
é um batismo de sangue,

ele não teme as flores
dementes.

Se a lógica dos abutres
aponta para o óbvio,

o poeta agarra-se
ao mito que nunca morre.

 

 

 

***

 

 

 

MISERERE NOBIS

 

No gueto
chuva de anjos
caídos.

O telejornal toca
o contrabaixo
do apocalipse.

Cigarras bailam
na descontente
garganta do caos.

Poetas procuram
o melhor
atentado.

Matar
as harpias
que molestam
a alma.

A resistência
é um gato branco
numa noite
de blecaute.

Muitos pastores
um só holocausto:
Deus nos salve
de Deus.

 

 

 

***

 

 

 

CARTEIRA DE TRABALHO

 

para André Luiz Pinto

 

Folha de prata
que cai,
qual raiz no húmus
inferno capital.
Ínfima
renda per capita.

Todo dia
o mesmo esquartejamento.

Em lodo
o lobo rapina
o sol, bois
& relhas riscam
o pasto.

Não faltam homens
que comem feno.

Adão, tu ganhas
o pão com o suor
da tua tarde,
mas muitos dos teus
filhos comem
a nossa carne.

 

 

 

***

 

 

 

TEOLOGIA NEGATIVA

 

Nas maçãs do mistério um louco
morde a sombra
do sol.

Sob o peso
da solidão
é o meu número.

Hoje a comarca não me compra.

Uso sapatos
de chumbo para o vento
não me roubar.

Mostro a imensa substância
das noites escuras
de San Juan de La Cruz.

Na fuga
do hospício etéreo
a realidade se salva em porta:
arranha-céu.

 

 

 

***

 

 

 

GÊNESIS

 

Deus, como verbo,
é criação. Pecadores
são santos em potência:
universo em ebulição.

Antes do homem,
os peixes brincavam
nos grânulos da linguagem.

Celebramos o que nos falta.

A poesia é o brilho
de uma estrela
fora de época.

Em tempos implumes,
esqueço os dialetos
falados na Torre
de Babel e brigo
com homens e demônios.

 

 

 

***

 

 

 

REVELAÇÃO

 

Falta um afago
nas ruas
que pavimentam
as multidões.

Quando o artista briga com
a tirania do horizonte,
salta um sentimento
de beatitude entre os pulmões.

Vidas destroçadas:
desencanto
pelas metrópoles.

Dostoiésvski embriagou-se
do sermão da montanha,
lembra um teólogo,
diante da divina intuição:

o inferno não
é um lugar das almas
non gratae,
é a indigência de amar.

 

Tito Leite (Cícero Leilton) nasceu em Aurora/CE (1980). É autor do livro de poemas Digitais do Caos (Selo edith, 2016). É poeta e monge, mestre em Filosofia pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte. É curador da revista gueto. Têm poemas publicados em revistas impressas e digitais.

 

 

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Janela Poética I

Ricardo Escudeiro

 

Ilustração: Joana Velozo

 

se tal não vai à montanha à que vão já as montanhas

 

“A menos que con afán, que con afán conserves
Tus inquietudes y así nunca envejecerás”

 

transtorna as geografias
os planaltos as planícies
as depressões
as intempéries vêm em dois tipos
de dentro
pra fora e de fora
pra dentro
pega de punhado
tudo o quanto geomorfa e deduz pra si
um rosto não inquebrantável
que soe quase como se fora
manufaturado por um deus perspicaz
ou assim parecesse ao menos

a maturação um dos envelheceres mais inacabados

longe dos céus tanto almas quanto pássaros
livres e já próximos muito próximos
do paraíso como todo o resto

um silêncio de milhos nas calçadas

e chega
tremem
as rótulas quando querem tudo
não me dói
nos joelhos a montanha
agachada em perjúrio

 

 

 

***

 

 

 

ab sentia

“[…] a mão é um pentagrama,
mesmo morta.”
(Andréia Carvalho Gavita)

 

e foi que perdi

e fiquei só
com aquela parte mais bonita

tipo

uma música
e o silêncio que ela provoca

 

 

 

***

 

 

 

contra conjunto ou neon sobre fumaça

 

 

“Olhos míopes inúteis
obrigam-me […]”
(In: “Inconfidência primeira”, de Natália Ribeiro da Conceição)

 

 

o olhar mais se detém mesmo é quando falha
noutras vistas as minhas
descansadas param com isso de

ultrapassa pelo acostamento
vai

tatear os mundos pelas suas córneas e pelas suas cordas
pois

dói na garganta o tanto seu nome nos pulmões
e nos descansos
e nos cenários
e numas pedras com umas sílabas
à tiracolo

ficar perguntando pra janela
quando a gente nem tá mais no carro

já chegou

não não
falta ainda alguns aniversários

ver mais mesmo é quando longe

leio
claro tipo
um miopismo inexato

na fumaça do cigarro toda a esquiva tragada
o cotovelo na mesa a cabeça entre os tabacos
como num balãozinho de hq daqueles de pensamento sabe
uma interrogativa
ou uma inlabial desleitura

faz quanto tempo desde a última
vez que sua boca nunca

 

 

 

***

 

 

 

garganta do diabo

 

“[…] I finally died which started the whole world living
Oh, if I’d only seen that the joke was on me […]”
(Single by Bee Gees, 1968)

 

 

desse teu imenso e venerável e húmido

não era dizer ainda
da nossa alma olhando pra dentro
enquanto grandeza mensurável a fúria do mundo tem mais peso
e ainda
em nossos
estados mais primitivos é que nos tornamos
mais rápidos mais furtivos
do sublime ou da lição de arquitetura dos tempos

silêncio

 

 

 

***

 

 

 

fraturar as raízes duma ilha

 

“[…]
Ou a enxuta memória de quem não sofreu, não morreu –
apenas olhou.
E gravou a visão do demónio no quintal.”
(In: A dolorosa raiz do Micondó, de Conceição Lima)

 

 

daí uma vez
não
não gosto do
era
uma vez ela me perguntou

se você pudesse ser alguém
da literatura quem seria

respondi eu seria
a susan sontag
a conceição lima
a hilda hilst
a carolina maria de jesus
a paulina chiziane
eu seria
a stela do patrocínio

e era só isso mesmo
histórias à parte e também entropias
encontramo-nos noutra forma
encontramo-nos noutro modo
encontramo-nos noutro sítio

 

 

 

***

 

 

 

Ordália

 

 

“Se deus der rolê com cartão magnético
nem por marca de nascença
reconhecem no exame médico
[…]”
(-In: “Direto do campo de extermínio”, Facção Central, 2003)

 

menos o ônibus chacoalha mais livres as mãos
perceber não só com o corpo mas
com o corpo inteiro
a organização dos ódios ainda que desses de pequeno porte
e a maneira lenta
lentíssima bem lenta pela qual nossas formas a um só tempo
abrangem a terra e desatam da terra
as maneiras pelas quais os determinados chãos onde cremos nem sempre
funcionam nos mesmos termos ou permitem
os embarques os desembarques aqueles
aos quais queremos
o aviso é claro o aviso é objetivo
fale com o motorista somente o necessário
bem como os outros do tipo
esse assento é de uso exclusivo e ou preferencial
ou fique atrás da faixa amarela
talvez soassem melhor se fossem não pisoteie lugares místicos
de caminho no corredor vamos uns aos outros
nos evitando mas nos ouvindo

oh
que será de nossos filhos de cem anos depois de tudo isso
terão eles também alguém nos acentos aos lados pra dialogar
perguntar e aí valeu
mas por que um céu tão baixo
mas por que abaixaram tanto esse céu
é pra poder tocar sem as ajudas de aparatos levadiços será
e ainda que o céu se quebre não condenaremos nossos

opa no próximo eu desço satisfação te encontrar
precisamos nos ver com mais tempo
queride fica bem agora com licença enquanto eu mato o céu

ali espia
o gambé com o negócio coldre neh que fala
desabotoado

aham
dizem nos transportes públicos eles têm que tá sempre de pé

menina mas cê ouviu quando ele falou
do milagre do barro como portento divino
mas se há todos esses outros de porte pequeno
as fomes as sedes as linfas
e o principal deles esse milagre
o da brita

oxe pior ainda
e se o enquanto vamos apertando botões puxando cordinhas
é o enquanto vamos anulando-nos uns aos outros enquanto criaturas
de caminho no corredor aniquilando-nos

pois é
ainda que aqui donde a gente tá
parece tudo meio calmo um pouco
ih olha lá
o pivete estrebuchando no chão esse aí
deve tá na abstinência da pedra
certeza

ou não
pode ser na abstinência do pão talvez
tomara chegue logo nosso ponto
que de bucho cheio talvez a gente expia umas certezas
dessas mais bestas
os quinze minutos de rango hoje deu nem pra metade da marmita

no pano de fundo desses diálogos muito muito imprecisos
um cão pixa com mijo ao pé da letra no poste
estamos será a quantas refeições do colapso cívico
debaixo desse sol tremendo

 

Ricardo Escudeiro (Santo André-SP, 1984) é (ex) metalúrgico e (ex) professor. Autor dos livros de poemas “rachar átomos e depois” (Editora Patuá, 2016) e “tempo espaço re tratos” (Editora Patuá, 2014). Graduado em Letras na USP, desenvolve (ou não) projeto de mestrado com interesse em Literaturas Africanas de Língua Portuguesa e Estudos de Gênero. Possui publicações em mídias digitais e impressas: Escamandro, Germina, Jornal RelevO, Mallarmargens, Flanzine (Portugal), Enfermaria 6 (Portugal), Tlön (Portugal), entre outras. Participou das antologias “Os pastéis de nata ali não valem uma beata – antologia de 2017” (Enfermaria 6, 2018), “29 de abril: o verso da violência” (Editora Patuá, 2015), entre outras.

 

 

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129ª Leva - 01/2019 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Wanda Monteiro

 

Ilustração: Joana Velozo

 

 

o pensamento não completa o voo no corte das asas
no calar do nome a palavra vagueia esparsa
esmaece névoa-memória
sem nome tudo se esvai
no traço perdido
do não dito

esquecer é silenciar o ser

 

 

 

***

 

 

 

na janela o espelho
no espelho o tempo
preso no silêncio da imagem
vítrea imagem
que no átimo do olhar
não nos reconhece

 

 

 

***

 

 

 

de súbito
lhe corto o curso à foice
meço a inteireza de seu propósito
lhe enterro estacas
para cegar vindoura estação
jogo-lhe a inerme isca da palavra

inútil intento domar o tempo
ele sempre volta ao cume
conjuga-se à revelia
de minha desmedida vontade

com olhos de escárnio
mira-me
de dentro da areia
como irrefutável sentença

 

 

 

***

 

 

 

em campo aberto de afetos
ferir-Se
no deslimite

sob
êxodo
transpor fronteiras

===

pisar no auto-exílio

 

 

 

***

 

 

 

paredes opulentas de vazio
sobre portas e janelas – o mofo das ausências
no rodapé – a poeira dos afetos
no limo dos azulejos – o pretérito das cotidianas tarefas

no-mínimo-círculo-de-calor-da-ultima-lâmpada-acesa
insetos dançam e fenecem em queda espiral

um feixe de malograda luz
tenta atravessar o vidro rachado
com intento de irromper o vão da sala

já é tarde para o sol
tudo se cala ao abandono

lá fora a história seca na casca da cigarra

vai chover

 

 

 

***

 

 

 

Há um movimento frio e feroz movendo-se na história da humanidade. O humano apartado do céu e da terra, portanto, apartado de si mesmo. O humano rendido e preso em sua dissonante esfera – num viver distanciado das significâncias da vida.

 

Wanda Monteiro, advogada, escritora, uma amazônida nascida à margem esquerda do rio Amazonas no Pará, tem seus textos publicados em várias revistas literárias, virtuais e impressas, tais como: Acrobata, Diversos Afins, Gueto, Ruído Manifesto, Mallarmargens, Zona da Palavra, Intacta Retina, Relevo, In Comunidades, LiteraturaBr e outras. Obras publicadas: O Beijo da Chuva, Ed. Amazônia, 2008; ANVERSO, Ed Amazônia, 2011; Duas Mulheres Entardecendo, Ed. Tempo, 2015; Aquatempo, Ed. Literacidade, 2016.

 

 

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128ª Leva - 06/2018 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Camila Assad Quintanilha

 

Foto: Adelmo Santos

 

O que não está aqui não está em lugar nenhum

 

A injunção do cronômetro
nos faz esquecer
que o tempo linear é
uma abstração
recente
e insidiosamente deletéria

O calendário ordena
e materializa o passado,
o relógio faz tic tac
ornamenta a cozinha,
conta os segundos que eu passo
a espera de sua ligação
mas de que morremos,
senão de tempo?

E toda a areia dessa minha ampulheta
corrói nossa vida
antecipa a desordem
arremessa nossa cara
contra a parede
sem reboco.

Nada aqui é limitado
E é sempre mais tarde do que você pensa.

 

 

 

***

 

 

 

Tudo o que está aqui está lá

 

eu me abaixei entre as pernas de
um camelo
esculpido em um
pedra gigante
que emergia de
um muro
deixando a onda passar
a onda infernal
me revelou um novo aspecto
completamente íntimo
da morada dos deuses:
– não há ninguém em casa

 

 

 

 

***

 

 

 

[poema do porto ao tibete – terceiro movimento]

 

não era água. era areia.
talvez fosse só o tempo.
talvez fosse muita coisa porque era o tempo.
eu fiquei sedenta, mas resignada.
quem ousou encarar o tempo não retornou à margem.

 

 

 

 

***

 

 

 

 

[um pasito bailante]

 

seu coração na altura exata das minhas orelhas
pra ouvir a nebulosa dos que andariam a pé
por todo o campo
em busca de uma flor rúbea,
dos que anseiam a revolução
& repartem pão e ideias
multiplicando líquidos e conceitos
nessa cidade catatônica
pedindo esmolas
de tempos mais brandos
que nunca vão chegar.

ontem nós dois vimos
o mesmo desenho
numa mesma nuvem
e isso é a mais profunda troca que pode haver
entre dois seres humanos

 

 

 

***

 

 

 

[poema pra driblar o inferno]

 

eu construo uma antessala
com balões de gás hélio e reciprocidades
fico apanhada ao seu dedo mindinho
como se um furacão nos cingisse
e você é esperança derradeira;
as mesas estavam postas mas foi tudo derrubado.
bagunça, tingiu meu coração com manteiga e mel
e na boca gosto de fim de feriado.

 

 

 

 

***

 

 

 

 

[notas sobre o sutiã de renda preto]

 

Simetrias rendadas que se bifurcam ao centro. Hipocrisias rendidas que sustentam prazer e alimento. Ele segura um par de estrelas, astros que orbitam em cabeças mal-intencionadas, mesmo sendo sempre estáticos (desafiados apenas e inevitavelmente pela gravidade que faz com que tudo amaine). Aperta a anatomia, oprime desejos, amarga sentimentos. Limita, esmaga, maltrata; por vezes empina, levita pomos sobrepondo volúpias carnais ao mantimento sagrado. É feito de panos, aros, bases, bojos. Mundanos desejos repousam em suas camas semicirculares. Duas medialunas cingidas comprimindo lunas llenas perfeitas.

 

Camila Assad Quintanilha nasceu em Presidente Prudente/SP, Brasil, em 1988. Escreve, traduz, desenha e pinta. É autora do livro de poemas Cumulonimbus (Quintal Edições, 2017) e do Desterro, projeto comtemplado pelo Programa de Ação Cultural (ProAC) da Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo/2018, a ser lançado no próximo ano. Já publicou em diversas mídias literárias no Brasil e em Portugal.

 

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128ª Leva - 06/2018 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

José Pascoal

 

Foto: Adelmo Santos

 

LUTO ANTECIPADO

 

Reina suave tumulto
No meu cérebro cansado
De funerais adiados
E tenho medo dos mortos
Com longos avisos prévios
E abro os livros com facas
Em protesto piedoso,
Frágil e silencioso,
E vejo-me de fugida
No espelho dos teus olhos.

 

 

 

***

 

 

 

O BENEFÍCIO DA DÚVIDA

 

Dai-me o benefício
Da dúvida
Metódica
E farei com ela
Uma certeza instável:
Casa desabitada,
A ruir
Lentamente,
Em silêncio,
Como um barco a afundar-se.

 

 

 

***

 

 

 

AS MÃOS DO VENTO

 

As mãos do vento agarram-me pelo pescoço
E obrigam-me a ver
O mar morto de fome,
A cidade incivil,
O campo infértil,
O fumo do fogo que não arde,
O fumo do forno crematório,
A cama onde me vou deitar
Para depois ficar acordado
Com medo do escuro.

 

 

 

***

 

 

 

EXCESSO DE VELOCIDADE

 

Corres para a desgraça dos mendigos,
Dos que vivem debaixo de lusíadas
Pontes, dos que vivem as ilíadas
A olhar para os seus pobres umbigos,
E vais rapidamente, como um atleta
Dos cem metros, desmedidos, tal a pressa
De chegares não sabes a que meta,
Sentes que vais cumprir uma promessa
A uma virgem louca sem altar
E vais, desalinhado, sem parar.

 

 

 

***

 

 

 

CONTAGEM DECRESCENTE

 

Não é da minha conta
O que acontece
Nos bairros periféricos,
Nos bares alternados,
Nos becos esotéricos,
Nos barcos encalhados;
Não é da minha conta
O sal rosa dos muros,
O sol rubro dos túneis,
O sul roxo dos túmulos.

 

 

 

***

 

 

 

SEM TIRAR NEM PÔR

 

Não tiro uma vírgula,
Não ponho um acento a mais,
Tenho de ter cuidado
Com as cordas vocais
Com que enforco
As palavras mais banais,
Vida, morte, amor,
E, acreditem-me,
Faço um esforço danado
Para sobreviver a tudo isto.

 

José Pascoal, 1953, Torres Vedras, Portugal. Bibliografia poética activa: Sob Este Título, 2017, Antídotos, 2018, Excertos Incertos, 2018, Ponto Infinito, 2018, todos na Editorial Minerva,Lisboa.Inéditos em várias revistas digitais e impressa. Mantém o blogue Gazeta de Poesia Inédita.

 

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128ª Leva - 06/2018 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Isabella Ingra

 

Foto: Adelmo Santos

 

Escama

 

Café da esquina
Pouca temperatura
agora muita temperatura
quem chega e quem está indo
quem desmonta e se monta
mantém a compostura
finge não ser
a podridão do século
festival de cremes hidratantes
clareamento dos dentes
um amontoado de desamores bem resolvidos
próxima esquina
tira esse outono de mim
tira minha roupa
tira minhas escamas
me pesca sem isca
próxima esquina me fazem de isca
todo mundo morde
todo mundo morde e morre
a isca continua viva
próxima esquina: não vira.
Encosta e finge que
por enquanto

 

 

 

***

 

 

 

Contos de fadas parte dois

 

Nada foi real,
mas doeu como se fosse.
E aí o silêncio.
Eu não quero silenciar
Mas o primeiro grito
Sempre sai de mim
Na torre da gente
Na serpente que diz
Que o fruto do conhecimento
É atrevimento sem volta.

 

 

 

***

 

 

 

Um disparate:

 

atirar-me contra o vidro. atirar-me no teu colo. atirar-me meio tiro e meio pétala. atirar-me numa curva, numa selva de seca e terra. atirar-me contra o amor romântico amando e me atirando. Atirar-me repetidas vezes em diferentes cores e coisas. atirar-me em teu sexo, no seu intelecto e não sair de mim. atirar-me numa tela de tinta e lubrificação do que se vê mas não se toca. atirar-me agora fora do meu juízo. atirar-me para fora do golpe como se fosse possível, como se o estilingue pudesse me arremessar e me colocar fora para que eu possa olhar tudo por dentro.
atirar-me em outros corpos e copos
atirar-me em outras camas e lamas
atirar-me dentro de um filme ao vivo
atirar-me ao vidro
e como estilhaços
ir pra todo canto.

 

 

 

***

 

 

 

Degraus:

 

é que eu me sentia cair degrau por degrau
sentia a nutrição de força por força
sentia desejo de corpo por corpo
é que eu não sabia sentir e ter que sair de mim
era tudo aqui dentro.

Adicionar legenda
e secreto.
Tão secreto que qualquer um poderia entender
era notável, pegajoso, sujo.
Essa coisa de me sentir caindo
foi me dando altura
noção de espaço
noção desesperadora dos espaços que eu posso
noção de dor. Noção de dor é umas das piores noções que se pode ter.
Sei que dói
e caio pra me valer da dor
pra manter distância dos que não caem nunca.

 

 

 

***

 

 

 

Balança devagar

 

Me assaltaram a alma
Numa esquina entre o que eu acho
e entre o que eu penso.
Coloco na balança tudo
olhares, cartas, enigmas, chuva, cabelo bagunçado
sorrisos, bom dias, cuspe, beijo, penetração, fracasso
desejo
coloco na balança tudo
espera:
balança tudo.
Balança o mundo
e a gente não supera
coloco na balança a falência do estado
a falência do meu estado
o socorro cochichado
um pé estalado
corrida
medo coragem vontade
colidimos no tempo,
quando olhei pra tudo
já era 64 de novo
a balança quebrou
dividimos os ombros pra pesar
dividimos os ombros em pesar.
Meu coração agora tem pressa.
Sem metáforas
é
pressa
de balançar pra demolir.

 

 

 

***

 

 

 

Nós somos os potes de ouro

 

Seremos nossos próprios potes de ouro no fim do arco-íris,
ou no fim de um disco,
nas últimas sílabas das palavras que quase foram ditas.
Seremos o rebuliço causador,
os primeiros desejos ainda que antigos, esses dias simbolizam o nosso número da sorte ainda que golpeados, ainda que exaustos, ainda estamos excitados pela vida, inundados, molhados, aquecidos, um dentro do outro, nós dentro de todos, beijos, lascívia e umas esquinas.
Fumamos um cigarro depois do estrago.

 

Isabella Ingra ( Brasília, 1993) escreve poesias desde que leu seu primeiro poema (quadrilha, Drummond) na escola. É professora de literatura, atriz, contadora de histórias e poeta. Publicou dois livros infantis e agora se prepara para publicar seu primeiro livro de prosa e poesia. Suas maiores inspirações nasceram da poesia marginal e da escritora lendária Clarice Lispector. Acredita que poesia é pura bruxaria e não há inquisição que a pare!

 

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Janela Poética II

Marcelo Ariel

 

Foto: Adelmo Santos

 

COSMOGRAMA 8

 

Eles eram como nuvens
de sangue
dentro do sonho
Havia uma tela no início
e ele estava perto de desertar
do sonho para o infinito efêmero
das imagens fixas
que escondiam algo
ele havia sonhado
que era uma bala perdida
e acertaria seu próprio coração
dez anos depois
como num conto
argentino
ou tcheco
havia um padrão
dentro do sonho
criado pela impossibilidade
de ver a si mesmo
ele era
como um pássaro
transparente
voando
na direção
de um céu
de carne
com ossos
no lugar
de estrelas
a bala havia
perfurado
seu tórax
ele ouviu
o enfermeiro
cantar
essa ária
para o médico
de plantão
na medida
em que a morte
se aproximava
ele ia se esquecendo
do seu próprio nome
e desertando de dentro
do sonho
o fundo branco
das paredes
mudava
para prateado
de acordo
com a intensidade
do som
de um oceano
cada vez mais perto
perfurando seu pulmão
ele ouviu sua voz
misturada
com a voz de
seu avô
dizer a fumaça
oceânica
haviam
duas águas-vivas
grudadas nos seus braços
e uma arraia
no teto
flutuando
por cima
de seu corpo
dela
saiam
orquídeas
vermelhas
que ficavam
paradas no ar
estas flores
são o tempo
ele se ouviu dizer
e depois
acordou novamente
dentro da água.

 

 

***

 

 

PARA MARIELLE FRANCO E ANDERSON PEDRO GOMES

 

O sangue
não pode voltar no tempo

como o orvalho
seca e avança
até o Sol

O grito
não pode parar a rajada
de uma metralhadora

como a água
dentro da onda
avança
e retorna sempre

 

 

 

***

 

 

 

ANTÍFONA *

ANTÍFONA

 

 

Ó Formas alvas, brancas, Formas claras

E aí, branquitudes, purezas, certezas

De luares, de neves, de neblinas!…

De clareiras, nuvens, névoas

Ó Formas vagas, fluidas, cristalinas…

E aí, branquíssimas peles lapidadas

Incensos dos turíbulos das aras…

nuvens brancas atravessando avenidas cercadas

 

Formas do Amor, constelarmente puras,

Modos de se matar, celestiais estáticos

De Virgens e de Santas vaporosas…

Em estados líquidos, enevoados

Brilhos errantes, mádidas frescuras

Fosforescências efêmeras

E dolências de lírios e de rosas…

e melancólicas orquídeas vaporosas

Indefiníveis músicas supremas,

Inefáveis  mixtapes esquecidas

Harmonias da Cor e do Perfume…

perfeitas mas sem cheiros e sem lume

Horas do Ocaso, trêmulas, extremas,

vindo em ondas de  sangue  que o Sol queima

 

Réquiem do Sol que a Dor da Luz resume…

Velórios da luz no vidro que o projétil quebra

Visões, salmos e cânticos serenos,

Delírios, funks,  risos, celas

Surdinas de órgãos flébeis, soluçantes…

Ecos de toques de celulares nas biqueiras

Dormências de volúpicos venenos

Sonabulismos do beck com doce batendo na viela

Sutis e suaves, mórbidos, radiantes..

vagos e violentos, santos rostos faíscantes

Infinitos espíritos dispersos,

Duplos vetorizados, capturados  logo adiante

Inefáveis, edênicos, aéreos,

encurralados ao revés por  ancestrais , mortos, indigentes

Fecundai o Mistério destes versos

florescendo em galáxias distantes

Com a chama ideal de todos os mistérios.

na parte azul do sangue, nenhuma verdade

Do Sonho as mais azuis diafaneidades

alucinações em vermelho, nos olhos que se fecham

Que fuljam, que na Estrofe se levantem

que se dissolvam no refrão gritando não

E as emoções, sodas as castidades

com o sentimento sonoro, vertendo em espuma a interdição

Da alma do Verso, pelos versos cantem.

nas ruas as almas dos internos, crianças-onças-pardas

Que o pólen de ouro dos mais finos astros

germinando o sonho do mais fino grão do ser

Fecunde e inflame a rime clara e ardente…

sejam  flores, os que desabrochando debaixo do  chão e

Que brilhe a correção dos alabastros

como baleias  nadando no mar de esgoto , em sua amplidão

Sonoramente, luminosamente.

entoando para a luz , a ultima canção evocando

Forças originais, essência, graça

forças de dentro que jamais avançam em vão

De carnes de mulher, delicadezas…

através da pele mestiça e negra , docemente

Todo esse eflúvio que por ondas passe

dos rios soterrados,  subindo em ondas quentes

Do Éter nas róseas e áureas correntezas…

sobem, crescem, todos sentem

Cristais diluídos de clarões alacres,

tudo se refletindo em tudo, sem alarde

Desejos, vibrações, ânsias, alentos,

Eros regendo o ritmo das carnes

Fulvas vitórias, triunfamentos acres,

E aí, Branquitudes, a hora é agora!

 

Os mais estranhos estremecimentos…

a mais feroz doçura

Flores negras do tédio e flores vagas

desce até a piscina a matéria escura

De amores vãos, tantálicos, doentios…

de tristezas cósmicas, sem vagueza

Fundas vermelhidões de velhas chagas

fendas, falésias, fios, chamas, feras são

Em sangue, abertas, escorrendo em rios…..

sangram , fluem, pela água , antes represada

Tudo! vivo e nervoso e quente e forte,

cristalina fome de ser que vem do fundo, como a morte

Nos turbilhões quiméricos do Sonho,

vórtices, espirais de outra realidade

Passe, cantando, ante o perfil medonho

engolem vossos corpos, como  o  sono

E o tropel cabalístico da Morte…

chega para reger a manhã da insurreição

 

 

 

***

 

 

 

SIDERAÇÕES

GRAVITAÇÕES

 

 

Para as Estrelas de cristais gelados

Para os oceanos que vagam na matéria escura

As ânsias e os desejos vão subindo,

os sentimentos  vastos são atraídos

Galgando azuis e siderais noivados

como no casamento do Sol e da Lua

De nuvens brancas a amplidão vestindo…

a anterioridade de contrários se fundindo

Num cortejo de cânticos alados

num ritmo , pulsação e vibração contínuos

Os arcanjos, as cítaras ferindo,

crianças na ocupação cantam esse hino

Passam, das vestes nos troféus prateados,

dançando com seus corpos negros azuis e cabelos prateados

 

As asas de ouro finamente abrindo…

de uma revoada de pássaros no peito tatuado

Dos etéreos turíbulos de neve

fortes em porosidade etérea

Claro incenso aromal, límpido e leve,

doçuras moventes , risos firmes permanentes

Ondas nevoentas de Visões levanta…

atravessam o sereno

E as ânsias e os desejos infinitos

agem derrubando muros, tropas, policias, fascistas

Vão com os arcanjos formulando ritos

da insurreição dos proscritos

Da Eternidade que nos Astros canta…

ecoando a força infinita de um grito

 

 

* Poemas do livro inédito ESCUDOS BROQUEIS onde dialogo linha a linha com o livro de Cruz e Souza, criando através desse diálogo um novo poema formado pela união de dois poemas. É minha homenagem ao legado do poeta negro Cruz e Souza, que considero meu Mestre maior.

 

Marcelo Ariel é poeta e performer, autor dos livros “Tratado dos Anjos Afogados” (LetraSelvagem, esgotado), “Retornaremos das Cinzas para sonhar com o silêncio” (Editora Patuá, esgotado), “Jaha Ñande Ñañombovy’a”(Editora Penalux), entre outros. Em breve será lançado “Ou o Silêncio contínuo” – Poesia reunida 2007-2017 que está no prelo pela Kotter/Patuá.