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127ª Leva - 05/2018 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Matheus Arcaro

 

Ilustração: Ana Matsusaki

 

É insuportável
não sentir
a dor do mundo.

A incompletude
inunda a vida
de tal modo
que o pasmo
esconde o rosto
sob o silêncio do instante.

A fresta de cada frase
o hiato do amor
o vácuo do olhar
engolido a seco.

Todos os sentimentos
acumulados na curva da alma:
lama tóxica que enrijece
a dança do tempo.

 

 

 

***

 

 

 

Silêncio

 

Não fere os amantes
as frestas
entre as frases.

Na língua em repouso
o desejo se dilata
até tocar o incontestável.

A ausência das palavras
é o palco dos olhos,
dos hálitos,
dos hábitos despidos.

Peles, pelos e peitos
entrelaçados,
bêbados de presente.

Um espetáculo
em que as proposições
são espectadoras.
E aplaudem atônitas
a eloquência dos corpos.

 

 

 

***

 

 

 

Temporais

 

Há os que estão sentados na esperança,
aguardando o fim de semana,
o mês seguinte,
o ano em que os astros se alinharão.
O alívio dos dias úteis.

Na casa das máquinas ao lado,
há os acorrentados.
Mastigando as migalhas
endurecidas de Cronos.
Suspirando pela ferrugem dos ponteiros.

Há, por fim,
os que intuem o instante.
Os que dançam
sobre a mortalha da eternidade.
Há os que vivem.

 

 

 

***

 

 

 

Despedida

 

Senti o perfume da saudade nos teus olhos.
Pressenti que não passaríamos de um passado
desprovido de peso,
nos teus beijos empoeirados,
nos teus abraços em branco e preto.

No lençol,
ato consumado,
eu não era mais do que um retrato,
um fato
avesso a argumentos.

Tu sabias que eu sabia.
Mas sempre preferiste os palcos à ciência.
Eu também.
Que bem nos fez esse fingimento mútuo:
o que é o amor, senão uma farsa partilhada?

O sol subiu e afundou meus minutos:
era tempo, tinhas que ir,
fazer-te completa como uma libélula.

Saíste sem mala
sem palavra,
sem sorriso,
deixando-me aos vãos da vida.

Desde aquela noite,
Evito pensar em ti.
Talvez,
Pra não gastar as lembranças
que tenho de mim.

 

 

 

***

 

 

 

A criança é uma noite
seca
na veia da cidade.

Com o vazio
encostado na vitrine,
derrama o futuro
pelos olhos:

Quando terá,
em seu estômago,
um pedaço mísero
daquela padaria?

 

 

 

***

 

 

 

Poesia Pura

 

Não aprendi a roubar do outono uma tarde virginal.
Não encontrei a organicidade da pétala no sorriso da mucama.
Não percebi a puberdade incrustada em cada amanhecer.

Por isso não faço poesia.

Procuro por causas e efeitos
e deslembro dos defeitos,
dos hiatos
que impulsionam a criação.

Sou filho da definição,
súdito do porquê,
dependente sintomático do juízo.

– Doutor, e o tratamento?
Não há desintoxicação.
Não há antídoto.
Não há haverá.

É tarde. Tardíssimo!
A criança que me habitava
esvaiu-se no labirinto da certeza
sem saber como cobrir o verbo de cor.

Não sei fazer poesia
porque cadaverizo os sentimentos
numa página pálida.

 

Matheus Arcaro é mestrando em filosofia contemporânea pela Unicamp. Pós-graduado em História da Arte. Graduado em Filosofia e também em Comunicação Social. É professor, artista plástico, palestrante e escritor, autor do romance “O lado imóvel do tempo” (Ed. Patuá, 2016) e dos livros de contos “Violeta velha” e “outras flores” (Ed. Patuá, 2014) e Amortalha (Ed. Patuá, 2017). Também colabora com artigos para vários portais e revistas.

 

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Janela Poética IV

Julia Bac

 

Ilustração: Ana Matsusaki

 

existe um jeito certo
de arrumar a cama:

deve
puxar bem o lençol
nos cantos
deixar o tecido firme
passar a mão
para alisar os vincos
não deixar espaço
ou ar
entre uma superfície e outra

existe um jeito certo
de arrumar a cama:

deve
ser feito com calma
circundando o estrado
logo depois de acordar
para não querer voltar
e depois de pronta
olhar com satisfação
a cama lisa
perfeita

existe um jeito certo
de desarrumar a cama:

e isso depende.

 

 

 

***

 

 

 

a primeira coisa que fiz
quando você saiu pela porta
foi colocar uma pequena toalha
com flores bordadas
– aquela que você não gosta –
na mesinha de cabeceira

troquei os lençóis
para tirar o seu cheiro
varri o chão
para que não sobrasse
nem um fio
de cabelo seu

limpei as portas
as janelas
os azulejos
podei as plantas
tudo
para não sobrar nenhum rastro
nenhuma partícula
que tenha tocado o seu corpo

 

 

 

***

 

 

 

já gastei umas sete páginas
com este poema
este poema que não vem

ontem gastei
cinco horas fazendo faxina
para uma visita
que não veio
e de você
de você eu só
esperava duas linhas
que também não vieram

 

 

 

***

 

 

 

nove e meia da manhã
são nove e meia da manhã e
já fiz o café
já lavei a louça
estendi a roupa no varal
já levei o cachorro pra passear
respondi e-mails
e perdi meu tempo nas redes sociais

são nove e meia da manhã e
terminei de ler o livro do Beckett
varri a garagem
tomei banho
e esqueci propositadamente de secar os cabelos

são nove e meia da manhã de um domingo e
já tive três crises existenciais:
a primeira quando acordei de ressaca
a segunda quando vi o meu reflexo no espelho sujo
e a terceira quando comecei a escrever esses versos

 

 

 

***

 

 

 

marcas de café
na mesa que você construiu
suja com farelos de pão
um livro marcado com lápis
na centésima página
exatamente no número 100
das 585, li ontem essas cem
as mesmas marcas de café
na mesa da cozinha
uma abelha
voava e zunia
batendo na janela fechada
insistia em querer
atravessar o vidro
hoje o corpo dela
caído e deitado
no azulejo da pia

 

 

 

***

 

 

 

[um copo americano
2 cm de cerveja]

uma mosquinha
voava ao redor do copo
assoprei para que fosse embora
mas o inseto caiu
na cerveja
com o indicador tirei
a mosquinha
que boiava no líquido
e a coloquei no guardanapo
ela limpou as patas
como se fosse humana
balançou as asas
com intensidade

 

Julia Bac é formada em História (PUC/2004) e Artes Visuais (Centro Universitário Belas Artes/2009). Fez o CLIPE/Poesia 2017 da Casa das Rosas e estudou no núcleo de ficção do Curso de Formação de Escritores do Instituto Vera Cruz (2018). Em 2013, publicou o livro “os dias” (Ed. Giostri) e em 2018 o zine “olha aí olha aí a promoção só paga 10 reais senhora é poema a partir de 10 reais” de forma independente.

 

 

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Janela Poética V

Vítor Teves

 

Ilustração: Ana Matsusaki

 

……………………………..…NÃO CORRESPONDIDOS

 

O oleiro cansado já não molda a forma. As
enrugadas mãos pousam sobre a mesa os
poros da pele do desejo. Calado espera, o
Velho sonhador, pelos tempos que lenta-
mente passam. Não mais outra tentativa!

A. A informe sensação desaparece, lenta-
M. mente, em fios de sangue. Parado, já
O. não desloca o grosso grão de areia da
R. argamassa inútil à mesa. Oca, a forma
E. não mais nasceu perfeita. Vive hoje

S. entre a espera e a imobilidade eterna.

 

 

 

***

 

 

 

POEMA FEITO COM FITA-COLA E ESFEROVITE

 

À falta de rica matéria-prima, a mão
que desenha já não escava a forma
pura. O rosto e o corpo mutilados
unem-se em fita-cola e esferovite.

Reinventada a carne moribunda
com mingadas e fracas palavras,
a fealdade intensa do monstro,
abre lentamente a grande boca.

O crânio feito em metal reusado,
abrindo e fechando, propaga o som
desarticulado na planície plana.

Pousada Huma perna sobre a folha
o corpo articulado cospe farpas
pontiagudas e Bhabha a quem o vê.

 

 

 

***

 

 

 

DON’T FUCK WITH ME FELLAS!

 

THIS AIN’T MY FIST poem!
Dizia o poeta, baixinho, gordo,
com a cara irritada, vermelha,
como se fosse um peixe retirado
do mar e que respirava a custo.
Realmente, quem lhe dera ter
a boa intenção de se misturar
com os melhores dos melhores?

Aprender era o que dizia
querer, um querer sincero,
sem qualquer macua ou vil
malícia. Mas, bem sabemos,
a sinceridade pouco acrescenta
à grande e nobre literatura.

E, assim irritado, uma espécie
de Joan Crawford arrancando
a roupa dos cabides a meio da
noite e batendo na filha pequena,
era ele atirando farpas afiadas
a todos os seus colegas à mesa.

Tudo porque não conseguia
ver que por detrás da sua
pequenez existia um ego
maior que o último modelo
de balão quente, um que
dizia insistentemente:
Eu Eu Eu Eu Eu e Eu.

No fundo, todos gostavam
dos seus pequenos poemas,
cheios de ironia e síntese,
mas não suportavam aquele
seco olhar fotográfico que
registava todo e qualquer
arroto literário dos literatos.

 

 

 

***

 

 

 

O MEU NOVO NAMORADO

 

Everthing is contained
Herman Bas

 

Egon passeando pela Steplansplatz olhava a catedral
e imaginava-se na pele de uma pequena rola que, em
tardes quentes, caminhava, lentamente, como se fosse
um rato ou uma barata, no ziguezagueado do telhado.
Nada disso tem a ver com o meu novo namorado,
sentado aqui no sofá, perdido em pensamentos que
não consigo ler. É quando me debruço sobre o rosto
que me vem à retina os olhos de Egon, a sua pele
desbotada a pincel e começo a imagina-lo entre
as pombas de Steplansplatz. Aqui no sofá, vejo o
meu novo namorado, calado, de perna cruzada e
imagino-o, por momentos, ser ele o próprio Egon
aqui sentado entre a confusão do meu estúdio.
Como a um bolo, vou sobrepondo homens como
as camadas de tinta, imagens e aprendizagem,
porque para o meu caótico pincel nada tem entre
si fronteira definida. Por isso, arrasto o meu pincel
em zonas de luz e me demoro na escuridão da sala.
Pintando no silêncio o pensamento daquele que,
agora, amo, dou por mim, sem querer, a fazer do
lume da lareira a chama sobre as suas suspensas
e grandes mãos, como se alguma luz divina me
pudesse dizer em epifania: Este é o verdadeiro
Amor. Eu limito-me a pintar esta que é a minha
Vida e espero pelo eminente colapso de tudo,
dos meus olhos, do meu corpo e desta chama.

 

 

 

***

 

 

 

DO IMPULSO OU DA DELICADESA, COM S.

 

O poeta altermoderno não pode errar a palavra,
nem alterar a sintaxe da frase, abolir a vírgula.
Deve, como convém à máquina, passar por todos
os estados de formação do espírito: andar, apenas,
cronometrado com o cânone vigente, ler o bardo
A e o bardo C, ser formado em literaturas, línguas,
Química, ter licenciatura, mestrado, doutoramento,
Pós-graduação, pós-pós-graduação em vegetarismo.
Deve comer figos em vez de cenouras, dizer advér-
bios e usar sempre o Nós. Deverá amar a cidade,

apenas a cidade, e citar dez poetas estrangeiros
nos seus poemas, saber dez ou vinte rótulos de
bolachas, músicas estranhas e ter voz de trovão.

E, se isso não chegar, deverá tentar dizer o mes-
mo em todos as línguas, mas com delicadeza. Se
usar o Eu, sem que ninguém o veja, que seja um
eu colado, fictício e nunca autobiográfico. Deve,
sobretudo, escrever para satisfação do público.

Ao anticorpo só lhe resta escrever palavras com
delicadeza e, se possível, numa delicadesa mínima.

 

Vítor Teves naceu em 1983 em Ponta Delgada, Açores. É licenciado em História da Arte pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto, sendo atualmente aluno no Mestrado de Estudos Culturais e Interartes na mesma Faculdade. Publicou poemas em diferentes revistas (Trama #1,#2, Apneia #2,#3) e sítios de poesia (Bacana; Enfermaria 6; Gazeta de Poesia inédita). Reuniu os seus primeiros poemas em “Dentes Tortos”, edição de autor que comporta poemas de 2007 a 2017. Além de participar regularmente com a editora Enfermaria 6 e escrever poesia, desenha e pinta.

 

 

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Janela Poética I

Sara F. Costa

 

Ilustração : Ana Matsusaki

 

Se os poetas são melancólicos

 

é porque o mar se desfaz no nosso ventre
como um deserto intemporal
espalhado pelas vísceras
de cada sílaba.
não me acuses de melancolia,
quando na representação da realidade
as vozes dos peregrinos
são arrepios escritos entre a pálpebras,
a melodia infinita que se esvai em sangue
quando ligamos o spotify.
hoje à tarde vou ser poeta outra vez
e amanhã vou ser mar,
depois deserto de vertigens.
dá-me uma metáfora que me salve a vida.

 

 

 

***

 

 

 

Na capital

 

de avental, à espera de limpar a casa
ou este labirinto inteiro a que chamo casa.
a limpeza deverá ser profunda,
mas como conseguirei vir à superfície,
debater-me contra todo este tédio de musgo.
sinto-me a afogar em cada lembrança de ti,
sei que vou ver-te mas espero até lá
já ter tudo limpo.
a capital é lírica
como o voo longínquo entre nós
como a tensão de bruma
ou o desencanto inevitável
entre nós.
deixei-te umas quantas mensagens sem sentido
quando estava sob o efeito das benzodiazepinas.
quero esconder uma paixão atrás de outra paixão,
atrás de outra paixão para que ninguém me veja.
mas a evidência da minha insignificância
mistura-se com o pó da casa:
discreto mas tóxico.

 

 

 

***

 

 

 

Lugares

 

este é um lugar de acidentes,
objetos arrefecidos no esquecimento.
esta é uma voz de vidro
que corta a paisagem.
queria ser a resposta às tuas perguntas
mas o açúcar das horas drenou a linguagem.
o lugar deste texto é entre a insónia e Cesariny.

 

 

 

***

 

 

 

São os teus gritos leves e radioativos,

 

são as tuas têmporas de aço
e os testículos idiomáticos dos teus poemas.
deixa-me sobreviver naturalmente
à vida furada que trazes às costas
podemos fazer planos
à volta da luz do medo
mas a vida é curta e a escrita é extensa
este é um nome que espreita
de todos os poros do meu corpo
o teu nome e o de outros animais
o ritmo desconcertante da espera,
as chamadas que rejeitaste,
os dedos transfigurados
pela radioatividade.

 

 

 

***

 

 

 

Doutora Fedúncia

 

vou escrever este poema com o que restar da culpa,
das várias culpas que vamos deixando amadurecer
junto à carne até que brotem raízes de luz
na escuridão que todos temos atrás dos olhos.
este é um poema responsável
sabe estar,
sabe mais do que
a imaturidade dos títulos porque a doutora sabe que
os nomes de código que a mulher da limpeza nos oferece
num ato de generosidade
são as alcunhas miseráveis
que melhor nos definem,
somos nomes de código que nunca saberemos
em bocas de consistência aleatória.
aquilo que nos chamam,
aquilo que os outros secretamente nos chamam
isso é que devia figurar na lápide.

 

 

 

***

 

 

 

Se precisares de mim,

 

sabes que estou disponível entre a faca e o coração,
o verão é incerto mas a minha mão
tem sempre o suor dos pulmões
sabes que a vida é simples
mas os movimentos da terra são longos.
hoje despeço-me de ti
vamos fumar a noite uma última vez
esconder-nos nas trevas que nos afastam,
nos símbolos que não nos pertencem,
nas religiões que nos separam,
a uma distância continental.

se precisares de mim
estarei no fogo e no sangue,
estou nas entrelinhas das coisas
que nunca deixaremos de partilhar.

 

 

 

***

 

 

 

Transfiguração da fome

 

escrevo ritualisticamente sobre as omoplatas da folha,
e há estrelas de solidão entre as palavras.
ao pernoitarmos na montanha do século
fomos adiando a terra
entre os aromas frágeis dos gestos.
há carne noturna nas nossas vozes,
impérios de tortura
e amigos tenebrosos.
perguntas-me se confio no furor do tempo,
quando sabes que a nossa glória
não passa da transfiguração da fome.
há um caos que irrompe da espera
e uma espera luminosa
nos espelhos provadores.
a tua ausência infindável
escorre desta folha.

 

Sara F. Costa (1987) nasceu em Oliveira de Azeméis. É licenciada em Estudos Orientais e Mestre em Estudos Interculturais: Português/Chinês pela Universidade do Minho em parceria com a Universidade de Línguas Estrangeiras de Tianjin, China. Tem recebido vários Prémios Literários nacionais na área da poesia.  De momento reside em Pequim. Tem publicadas as obras poéticas: “A Melancolia das Mãos e Outros Rasgos” (Pé de Página editores, 2003); “Uma Devastação Inteligente” (Atelier Editorial, 2008); “O Sono Extenso” (Âncora Editora, 2012); “O Movimento Impróprio do Mund” (Âncora Editora, 2016) e “A Transfiguração da Fome” (Editora Labirinto, 2018).

 

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Janela Poética II

Marcelo Benini

 

Ilustração: Ana Matsusaki

 

Ceifa

 

Chovia a cântaros pássaros do céu
No chão não sabiam ser pássaros
O encantador de fortunas, o rato
Mirava satisfeito seu intento
De fazer chover pássaros.

 

 

 

***

 

 

 

Ferida

 

Chegaram aqui as cercas de arame farpado
O arame roçava os bracinhos mestiços
E quando tentavam transpor os pastos
À dor do arame retrocediam

Encolhidos os braços
Deitavam-se à sombra
Excediam-se em valsas
De quinhentos anos.

 

 

 

***

 

 

 

Currais concretos

 

Celebrar a vida e seus horrores
Viver do torrão
Nada há para ser dito em linguagem humana
Amor só é possível o dos passarinhos

Mulheres-gado viajam em caminhões
Olham pelas frestas olhares de transe
Dia após dia alugamos nossa liberdade
(É dentro de mim que me perseguem).

 

 

 

***

 

 

 

Ossos

 

Ficam os cães porque querem
Por inteira vontade
De ao teu lado estarem
Mesmo com a intragável solidão
Teus estragados humores
Teus dias de câncer e tomografia
Tuas teorias existenciais
Ontologias não desanimam os cães
Ficam por tua carne ainda
Pelos dias em que exporás tua beleza
Pelo que podem ser de companhia
Nessa transitória feira de razões.

 

 

 

***

 

 

 

No hospital

 

Costuram há dias minhas asas
Danificadas
A longas distâncias e ao vento
Submetidas
Encontram-se em mau estado
Retido ao chão como besouro
Emborcado
Como abelha grudada no cabelo
Nada com o que atravessar os dias
Além do trespassar da agulha na carne
E observar o pavilhão dos amputados.

 

 

 

***

 

 

Nanquim

 

Aprendi com as árvores
A escolher um dia de chuva para tombar
E pôr a culpa no vento
Para que ninguém desconfie
Da minha imensa vontade de cair.

 

“Currais Concretos” é o quarto livro do poeta Marcelo Benini que vive em um núcleo rural próximo a Brasília-DF, Brasil. A poesia de Benini fala de suas experiências em contato com o Cerrado e de seus encontros com os passarinhos, as abelhas, a literatura e a filosofia. No prefácio, o escritor Ronaldo Cagiano escreve: “Currais Concretos encontra um poeta no auge de um fecundo exercício da condição artística. Sua voz poética parece reverberar um solo em que o artista transfere à palavra uma impactante melodia, um repertório de pura transubstanciação da realidade a partir de uma percepção nitidamente onírica e metafísica”.

 

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126ª Leva - 04/2018 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Meire Viana

 

Foto: María Tudela

 

sou a sombra de mim desmedida
enroscada nos remendos alinhavados do tecido gasto
imensurada nos cortes profundos
das fendas deixadas à mostra: carne sã
das brechas acidentais das saliências vãs
enlaçada nos egos que teimo em descosturar
eu,
vestida de outras texturas e outros textos
Nem me reconheço.

 

 

 

***

 

 

 

alago estiagem
inundo seco
transbordo rio
escoo ralo
Pra fora calo
Pra dentro falo

 

 

 

***

 

 

 

entediada
das falácias
falas pelos cotovelos
das tagare-tolices
dos verborrágicos
verbos raivosos
dos disse-me-disse e das blá blá blasfêmias
a palavra pede licença
e vai silenciar
no dicionário

 

 

 

***

 

 

 

diáfana
avoada
evaporada
em partículas
vocálicas:
Eis a palavra
fonemamente livre
das estruturas morfo-sintáticas
sem verbo
escrita e fala.
Sem aspas vírgula ponto
Sem rumo
Desenfreada
leva na mala
somente prefixos de negação
e oposição.

 

 

 

***

 

 

 

caminho curtortuoso
bifurcaçõestreitas
labirintoscos
estradatalho
poça dágua no meio:
atravesso e ando
atravessando
travessa
vereda
viela
vila
via
Paraliso
no piso
escorregadio
da esquina
me curvo à curva
desisto do risco
mantenho desestância
desvio
silencio
sou refém do espaço
refaço o passo.

 

 

 

***

 

 

 

Em tudo
entorno
em torno
contorno
em todo
retorno
em tudo
engodo
em torno
entulho
em todo
embrulho
em tudo
encolho
em torno
me encolho
todo

 

Meire Viana é professora de Português e Literatura, com Mestrado e Doutorado em Letras. É poeta experimental neoconcretista. Dialoga com o Concretismo, o Neoconcretismo e a Poesia Marginal dos anos 70, suas referências. Tem material inédito para publicação em livro, mas por ora é frequentadora de saraus poéticos na cidade. Mora em Fortaleza.

 

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126ª Leva - 04/2018 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra

EU ME APRESENTO

 

Por Jorge Elias Neto

 

 

 

Há que se entender ou não o ornitorrinco do pau oco?

Eu, por exemplo, vivo em busca de algum autoentendimento.  Só recentemente, relendo uma definição do Breviário da decomposição, de Emil Cioran, é que me descobri um pessimista entusiasmado.

Mas, antes de uma definição psicológica, quem ler esta coletânea de meus três primeiros livros já publicados, em que incluí poemas inéditos, terá primeiro uma impressão de estranhamento e de curiosidade: o porquê de meu nome.

Entendo.

Embora ainda prefira que o leitor procure ler o poema que leva meu nome – sempre considerei a obra mais relevante do que o autor –, sinto-me impelido a prosear um pouco, talvez deixar algum rastro sobre quem somos nós, os ornitorrincos do pau oco.

É chegado o tempo em que o silêncio e a contemplação passaram a fazer parte do comportamento de um transgressor. É o que conclama a balbúrdia multimidiática de nossos dias.

Na verdade, nada mais efêmero que o conceito numérico dos dias: um ou dois dígitos não preenchem o vazio do homem pós-moderno.

E os “vencedores” propõem: Falemos do caos binário, já que se tornou “feio” falar do Sol e da Lua.

O choque. O homem e o tempo, com seus instantes vendidos em módulos. Uma overdose de estímulos de duração efêmera. Eis a droga que carece ser discutida, esta que alimenta o corpo fluido e seus receptores cerebrais carentes de imagens.

E é aí que me insiro e busco me justificar.

Quem sou? Algo indecifrável, como meu coirmão, objeto de estranhamento? Mamífero, ave?  Ovíparo, vivíparo? Tudo! Menos útil e justificável, embora ele ainda desperte alguma curiosidade científica. O que não parece ser bem o meu caso…

O ornitorrinco do pau oco destoa, e pode, muito em breve, perder de vez muito do lastro dos tempos, desgarrar-se do verde, de sua essência “Terra”. Impregnar-se definitivamente do urbano, perder-se no cinza e embriagar-se com seu-eu-deus-pessoal-bonito no selfie (sou eu lindo na foto, i.e.).

Dito algo sobre o ornitorrinco, há de se falar do “pau oco”.

Essa expressão “roubei” das esculturas que me encantaram na infância, em minhas visitas aos museus de Ouro Preto e Mariana.

Todos sabemos das histórias de ouro e diamantes dentro de esculturas de santos entalhados em madeira em contrabando que ocorria nas Minas Gerais, nos idos dos séculos XVI-XVIII. Nas costas da imagem (ou em seus pés), de forma camuflada, uma pequena abertura permitia a ocultação do metal nobre e das pedras preciosas que movimentavam o Velho Mundo.

É aí que eu me insiro.

Vivemos um momento neoantropofágico na poesia.  Pelo menos vejo isso como uma das tendências em muitos dos poetas atuais. Na miríade de cores, na heterogeneidade da produção atual, vê-se um esfacelamento do corpo, do que resta do corpo, já que a alma já foi esmigalhada.

O final do século XIX trouxe a proposição da morte de Deus, trouxe o materialismo dialético. O homem oitocentista adentrou-se no novo século deslumbrado com a tecnologia e o conhecimento evolucionista. Tivemos o leninismo-stalinismo e vimos que o homem, vestido com a ideologia, transformou a proposta da utopia nas distopias descritas por Orwell e Huxley. Viveu a insanidade nazista e, com o distanciamento histórico, pôde entender que o homem errado no lugar certo pode gerar a insanidade coletiva. Tudo trouxe a descrença, a desilusão e abriu espaço para o deus mercado, o oportunista da vez.

E onde entra o ornitorrinco e o “pau oco” nisso tudo?

Na medida em que o poeta é a “antena da sociedade” ― dito gasto, mas definitivo, de Ezra Pound ―, o poeta-ornitorrinco carrega consigo todo o estranhamento do que o circunda e, impregnado do que “não tem serventia”, por não optar pelo instante em detrimento do efêmero, corre o risco de se tornar uma curiosidade em risco de extinção.

Como pude, busquei me desconstruir, entender minha irrelevância relativa nesta vida. Enfim, vi-me um ornitorrinco.

E o que tem de especial o ornitorrinco? O olhar. E a necessidade… A necessidade de abrir o peito, com força, como tão bem ilustrou o poeta e grande artista Felipe Stefani, na ilustração que acompanha este livro.

Abrir o peito e oferecer o que mais precioso ele traz guardado em seu arcabouço de ossos e carne.

Já que o poeta é um estorvo, ele abre seu peito e joga na cara de quem quer que seja, como seu último ato de vida, rasgando sua última pele – a palavra —, mesmo que inutilmente, a “linguagem-ouro de enganar trouxa” que o alimentou enquanto vivo.

Eis aí o ornitorrinco do pau oco, queiram ou não.

 

 

O ORNITORRINCO DO PAU OCO

 

j´étais le bruit d´absence

 

Fui pelo não ido das manhãs
em voo de cera e contemplação
perseguindo desvãos no Mundo

fui ao sumidouro dos pés
descendo pirambeiras
em abissais loucuras

fui o anônimo
inacabado de véspera

fui inumano

fui testemunha
de corpo ausente
das praticâncias e despudores

fui matraca indignada
fui mendicante

fui a farpa
arrancada da espada

fui consolo adocicado
para línguas ásperas

fui perene e dilatado
fui objeto

fui pão e circo
do apocalipse

fui pudico e privado
fui rasgado
e brocha

fui tardio
sem salva-vidas

fui obsceno
cosseno e outras peripécias

fui o de dentro
sorriso do redemoinho

fui o gênesis
da comédia humana

fui o esteta do insolvível

fui o engate
o torvelinho

Fui o poeta.

 

 

 

***

 

 

 

NÃO ME CALO

 

Mordaça
se rasga com os dentes,
e, se me cortam a língua,
reinvento
a linguagem-uivo
̶ corda vocal é elástico
de boleadeira ̶
que atira longe o eco
do desatino.

 

 

 

***

 

 

 

ANACRÔNICO

 

Meu é este desperdício,
olhar que não se enquadra,
silêncio que espia na luz apagada,
o medo de não estar vazio
quando se acercar a luz do nada.

Meu é este dizer do tempo,
discurso interrompido,
lampejo, lamento,
saber inútil
o saco e a porra.

Meu não é o início,
mas o gargalo,
o rente, o arrebol sorvido,
este escuro – noite que se ressente do frio,
a fresta que observa,
o liberto, o estio,
ornamento dos dentes,
pavor, pavio.

Meu é o fim
justificando a queda,
o dedo ‒ semente das unhas,
o arvoredo brotando no interminável.

Meu é o absurdo,
o privilégio das horas,
o beijo contado,
o assobio, o assombro,
o firmamento inútil.

Meu é o desafio,
o preto e o branco
e este zelo
pelas coisas perdidas.

 

 

 

***

 

 

 

A BOCA DO INEFÁVEL

 

Cobre-te melhor
……….a seda rasgada,
contornando teu corpo,
nas fendas do meu desejo.
E esse cheiro das madrugadas
em que me masturbo
de tanta insônia.
Os momentos perdidos,
em um sonho mau,
tornam justo esse pesar
………..por amanhecer,
………..e ter que partir
nessa rotina que me afasta de ti,
obscena mulher de língua áspera,
………imensa,
………………..onde derramo
minhas noites de macho,
………………..perdido.

 

 

 

***

 

 

 

SAUDÁVEL

 

Humores, farrapos,
cachaça.
Rumores, gargalos,
cabaços.
Batuques, bagulhos,
………….. ..Carcaça.
E eu debruçado
………………no ocaso.

 

 

 

***

 

 

 

BACURAU

 

Quando acordei
o pássaro noturno
permanecia sob a vidraça.

O orvalho,
as penas mortas,
o desatino da solidão.

Fazia frio,
e meu pensamento
caminhava perdido.

Testemunhar o que é casa,
o que é morte.

Não basta a fúria
enterrar-se até à noite.
Saber rasgar as roupas,
fazer curativos
não devolve o ar roubado.

A verdade é o pássaro
e o descuido das formigas.

 

 

 

***

 

 

 

SUPERORNITORRINCO

 

Acabou o sal
― desperdiçado ―
entre os sós,

e cada entranha
buscava o sustento
e a solidão
nos escombros
― como um consolo
na estranheza.

eu, ornitorrinco,
ridículo e ébrio,
reduzido
e semelhante ao consolo
dos demais ébrios,
ressentia-me
da esperança
e claudicava de medo.

não tinha lar,
não tinha sossego,
expirava,
e o que me sustinha:
― o desterro.

uma marca guardada,
uma flor
e o desejo.

chegara o dia
em que o temor me abraçara
com as trevas
e o pavor
da extinção.

troquei olhares,
então,
com os perdidos no calabouço

e percebi o sol
que irrigava a terra
e o verde
que me brotava
entre os dedos.

 

Jorge Elias Neto (1964) é capixaba, médico “eletricista do coração” e poeta. Livros: Verdes versos (Vitória: Flor&Cultura, 2007), Rascunhos do absurdo (Vitória: Flor&Cultura, 2010), Os ossos da baleia (Vitória: Secult–ES, 2013), Glacial (São Paulo: Patuá, 2014), Breve dicionário (poético) do boxe (São Paulo: Patuá, 2015), Cabotagem (Ilhéus: Mondrongo, 2016) e Breviário dos olhos (Vitória: Edição do autor, 2017).

 

 

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126ª Leva - 04/2018 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Mercedes Roffé*

 

Foto: María Tudela

 

Tradução: Diana Araujo Pereira
Seleção: Clarissa Macedo

 

XI

 

O amor será para o corpo
o que a contemplação é para a alma?
Esse sossego?
Essa intuição
do todo no instante?
Esse relâmpago no qual
o real se revela
consonante com seu eco?
A suspensão fugaz
que pressente tudo,
e tudo compreende?

Será aquele hiato no fluir do tempo
o único lar e pátria verdadeira?
Lar e pátria:
Chamo assim o possuir-se,
o olhar-se e ver-se refletido
em uma água
confiável e serena.
Corpo de luz
Corpo de bem
Hiperbólica pétala remando
entre uma e outra margem.

E se não forem duas as margens?
Se tudo for um?
Se não forem dois nem um
senão um glissando de espelhos
em direção e a partir da luz —ou do lodo?
Cada estação com seu afanoso demiurgo
mais confuso que cruel
ofuscado, mergulhado
no excesso
de um reino que ignora e que o ignora.

Regente, príncipe e menino —tudo ao mesmo tempo,
tudo a destempo.

E se não fosse tudo mais
que uma viagem
pelas idades congeladas desse príncipe
em direção à luz —ou ao lodo?

 

 

XI

 

¿El amor será al cuerpo
lo que la contemplación al alma?
¿Ese sosiego?
¿Esa intuición
del todo en el instante?
¿Ese relámpago en el que
lo real se revela
acorde con su eco?
¿La suspensión fugaz
que presiente todo,
y todo lo comprehende?

¿Será aquel hiato en el fluir del tiempo
el único hogar y patria verdadera?
Hogar y patria:
Llamo así al poseerse,
al mirarse y verse reflejado
en un agua
confiable y serena.
Cuerpo de luz
Cuerpo de bien
Hiperbólico pétalo bogando
entre una y otra ribera.

¿Y si no son dos las riberas?
¿Si todo es uno?
¿Si no son dos ni uno
sino un glisando de espejos
hacia y desde la luz —o el fango?
Cada estación con su afanoso demiurgo
más confundido que cruel
obnubilado, hundido
en el exceso
de un reino que ignora y que lo ignora.

Regente, príncipe y niño —todo a un tiempo,
todo a destiempo.

¿Y si no fuera todo más
que un viaje
por las edades congeladas de ese príncipe
hacia la luz —o el fango?

 

 

 

***

 

 

 

XV

 

O poema é o rosto no espelho
mais verdadeiro que o rosto e que o espelho.
O poema é o fluxo do sangue
para além do corpo,
o ritmo do sangue para além do sangue
—seus leitos rigorosos, seu latejar surdo e unitário.

O poema é o ritmo do outro em mim
para além de mim, sempre, além,
onde meu silêncio topa com teu ritmo
e repercute em mim, que solfejo no poema
um ritmo numinoso,
cifra que faz eco no eco
que é corpo verdadeiro
—o numinoso em ti e em mim—
o ciclo das esferas tocando-se e abandonando-se
—distanciando-se, sim, uma da outra,
mas soltando-se de si também
cada qual
em sua dourada, fecunda negligência.

Em seu ritmo me desdobro.
Em seu metrônomo
caprichoso e fugaz
desdobra o universo suas fantasmagorias
—sua verdade.

Não há tradução possível.
—ou sim, há:
de si próprio a si mesmo,
de si a aquele que tateia e vence
do que sabe de si
—seu pobre império.

O poema, digo,
digo a música, digo o movimento
da dança no corpo, o da pedra esculpida…
E a música no traço e na pedra, digo,
e o movimento sinuoso e firme do poema,
douta cadência, felicíssima queda no cruzamento
de todos os sentidos.

 

 

XV

 

El poema es el rostro en el espejo
más verdadero que el rostro y que el espejo.
El poema es el flujo de la sangre
más allá del cuerpo,
el ritmo de la sangre más allá de la sangre
—sus cauces rigurosos, su latido sordo y unitario.

El poema es el ritmo de lo otro en mí
más allá de mí, siempre, más allá,
donde mi silencio se topa con tu ritmo
y repercute en mí, que solfeo en el poema
un ritmo numinoso,
cifra que hace eco en el eco
que es cuerpo verdadero
—lo numinoso en ti y en mí—
el ciclo de las esferas tocándose y abandonándose
—alejándose, sí, una de la otra,
pero desasiéndose de sí también
cada cual
en su dorada, fecunda negligencia.

En su ritmo me despliego.
En su metrónomo
caprichoso y fugaz
despliega el universo sus fantasmagorías
—su verdad.

No hay traducción posible.
—o sí la hay:
de lo uno a sí mismo,
de lo uno a aquello que tantea y vence
de lo que sabe de sí
—su pobre imperio.

El poema, digo,
digo la música, digo el movimiento
de la danza en el cuerpo, el de la piedra esculpida…
Y la música en el trazo y en la piedra, digo,
y el movimiento sinuoso y firme del poema,
docta cadencia, felicísima caída en el cruce
de todos los sentidos.

 

 

 

***

 

 

 

XX

 

Queda não houve.
O alto está aqui. É aqui.
Dentro.

Queda não houve.
Distrações há. Ventos. Fugas.
Maquinárias. Grandes, grandes.
Jogos de sombra, preocupação e olvido. De si.
Sempre houve.

Cada época. Cada
civilização
retratada em sua própria engrenagem
de humilhações e esquecimento. De si.
Roubar o fogo não é roubar nem é fogo.
Recordar é remontar-se, preservar para si o acesso
ao resplandor custodiado por
—não seus guardiães, mas seus inimigos.
Vertedouro de sombra e sangue.
Quanto maior pobreza, mais esquecimento.
Quanto mais prepotência, menos luz.

Em si e fora de si
—tudo é um—
única morada de pura geometria
e luz regendo
mansa, inexoravelmente, generosa-
mente banhando
tudo de si.

Luz estético-ética.
Esquecida de si —entregue.
Fórmula-Mãe.

E ainda há Algo. Algo, fora
que não se pensa.

Outro tom. Outra
modulação da luz.

Lá na origem.

 

 

XX

 

Caída no hubo.
Lo alto está aquí. Es aquí.
Adentro.

Caída no hubo.
Distracciones hay. Vientos. Fugas.
Maquinarias. Grandes, grandes.
Juegos de sombra, preocupación y olvido. De sí.
Siempre los hubo..

Cada época. Cada
civilización
retratada en su propio engranaje
de humillaciones y olvido. De sí.
Robar el fuego no es robar ni es fuego.
Recordar es remontarse, preservar para sí el acceso
al resplandor custodiado por
—no sus guardianes, sino sus enemigos.
Vertedero de sombra y sangre.
Cuanto mayor pobreza, más olvido.
Cuanta más prepotencia, menos luz.

En sí y fuera de sí
—todo es uno—
sola morada de pura geometría
y luz rigiendo
mansa, inexorablemente, generosa-
mente bañando
todo de sí.

Luz estético-ética.
Olvidada de sí —entregada.
Fórmula-Madre.

Y aún hay Algo. Algo, fuera
que no se piensa.

Otro tono. Otra
modulación de la luz.

Allá en origen.

 

 

 

***

 

 

 

XVII

 

Além dos ventos
rumorosos

além da aurora

transitam
dispersos
retalhos de uma história

—centelhas
resplendores—

arrancada do vazio
(a sua voz
a sua mudez)

enlaça-os
uma mão mestra

ou a história
em si
impõe seu ostinato

 

*

 

De um modo ou de outro

depois da alvorada
ou
dos rumores do vento
amanhece
—diáfano
leve
pertinaz—
um sujeito e seu verbo

 

 

XVII

 

Más allá de los vientos
rumorosos

más allá de la aurora

transitan
dispersos
jirones de una historia

—destellos
resplandores—

arrancada al vacío
(a su voz
a su mudez)

los hila
una mano maestra

o la historia
en sí
impone su ostinato

 

*

 

De un modo u otro

tras el alba
o
los rumores del viento
amanece
—diáfano
leve
pertinaz—
un sujeto y su verbo

 

 

 

***

 

 

 

XVIII

 

vasilhas do nada
somos
—disse—
derramando-se
no escuro

bexigas do nada
derramando
—disse—
urinas, óxidos, rubis

centelhas
—disse—
que na sua queda
(nossa)
encontram
sua hybris
sua obsessão

anil dignificado
somos
—disse—
pelo alado
voo da alma
entre ser e não ser

 

 

XVIII

 

vasijas de la nada
somos
—dijo—
derramándose
en lo oscuro

vejigas de la nada
derramando
—dijo—
orines, óxidos, rubíes

centellas
—dijo—
que en su caída
(nuestra)
encuentran
su hybris
su obsesión

añil dignificado
somos
—dijo—
por el alado
vuelo del alma
entre ser y no ser

 

 

 

***

 

 

 

XIX

 

um fim, uma forma, uma queda
uma espera obediente
uma ferida
a brancura bordada sobre o branco
e a matéria muda
atrapada e derramada
suspensa
na tela
áspera
vibrante opacidade que circunda, cega,
a história cega que ampara
o território
e os nomes enterrados
flamejantes ainda
como archote
projetando sua sombra sobre este
tórpido feroz
certeiro
irrenunciável
aqui e agora

 

 

XIX

 

un fin, una forma, una caída
una espera obsecuente
una herida
la blancura bordada sobre el blanco
y la materia muda
asida y derramada
suspendida
en el lienzo
áspero
vibrante opacidad que ciñe, ciega,
la historia ciega que cobija
el territorio
y los nombres enterrados
llameantes aún
como candelas
proyectando su sombra sobre este
tórpido feroz
certero
irrenunciable
aquí y ahora

 

* Poemas dos livros Las linternas flotantes e Vislumbres (Madrid/México, Vaso Roto, 2014)

 

Mercedes Roffé é uma das vozes mais reconhecidas da poesia latino-americana atual. Alguns de seus livros foram traduzidos e publicados na Itália, Quebec, Romênia, Inglaterra, França e Estados Unidos. Desde 1988, dirige o selo Edições Pen Press. Obteve as bolsas artísticas John Simon Guggenheim (2001) e Civitella Ranieri (2012).

 

Diana Araujo Pereira é Professora de Literatura Latino-Americana da Universidade Federal da Integração Latino-Americana. Doutora em Literaturas Hispânicas (UFRJ). É tradutora e poeta. Foi Presidenta da Associação Brasileira de Hispanistas (2014-2016), Coordenadora do Instituto Mercosul de Estudos Avançados – IMEA-UNILA e Coordenadora do Curso Letras, Artes e Mediação Cultural do Instituto Latino-Americano de Arte, Cultura e História (ILAACH-UNILA). É líder do grupo de pesquisa " Construções socioculturais da Tríplice Fronteira". Entre suas publicações, estão Horizontes Partidos (NY: Artepoética Press, 2016) e La piel de los caminos y otros poemas (Bogotá: Biblioteca Libanense de Cultura, 2017).

 

 

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126ª Leva - 04/2018 Janelas Poéticas

Janela Poética V

Natasha Lins

 

Foto: María Tudela

 

Aprende novos truques. O ritual do
chá, o ikebana. Pratica o silêncio.
Prepara o ofurô, espalha as pétalas,
veste um quimono. Observa como
a gueixa massageia o mestre. Como
ele rende-se, relaxado, à pressão
dos dedos. É um domínio a entrega.
O guerreiro repousa, e escala o monte Fuji.
Akira nas Alturas. Arqueira das artes do tatame.

 

 

 

***

 

 

 

Jogam sobre ti uma névoa.
Dissuadem, maquiam. Mas são
como marionetes de ambições
e fetiches estranhos. Qualquer
desculpa serve a um tirano.
Porém não sabem dos porões
onde estiveste, e de como fugiste,
condessa-menina, com o íntimo
Intacto e os pés alvíssimos.

 

 

 

***

 

 

 

Para bunny rope não nasci, mas se
quiseres, suspendo-te de bom grado
num shibari. Serei tua rigger. Tenho
prática, minhas cordas são de seda.
Prazer igual nunca tiveste. Tantas
submissas no mundo, e encontras
uma dominante, não é sorte? Pois
hoje eu irei polir meu látex. Visto-me
de ringmaster e conduzo a cerimônia.

 

 

 

***

 

 

 

Fingir não perceber o corte, o talho nas costas, o mesquinho gesto. Há silêncios violentos, mais sinceros que sorrisos falsos. Há adiamentos. Há esquecimentos. Aperta o corpete para proteger-te. Endurece. A era é medieval.

 

 

 

***

 

 

 

Pois espreitava seus escritos para debochá-los, com ar de soberana.
Despudorada, sua íntima armadura camuflava uma cínica solidão.

 

Natasha Lins nasceu em Curitiba, cursou Letras, e vive há muitos anos na Europa. Trabalha com turismo. Vive entre o Algarve e a Sícilia. É inédita em livro.

 

 

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126ª Leva - 04/2018 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Matheus Guménin

 

Foto: María Tudela

 

INÚTIL

 

Inútil
inútil o gesto o plexo o beijo
inútil o desejo e o não-desejo
………………….[igualmente
Inútil inútil o salto e a pausa
Inútil a mão no ombro alheio
…………………………. [e próprio

Inútil soberanamente inútil
o gesto o plexo o beijo
nas campinas afiadas de verde
nas geometrias escuras da mente

e essa vontade de amar.

 

 

 

***

 

 

 

o amado que toca os pulsos mornos
de seu amado
e o braço e as mãos
tremulargênteas
e o rosto toca e o sexo
quente e afiado
o amado que toca os pulsos mornos
de seu amado
e sabe de repente o que é um ensolarado riso e
a noite antiquíssima que o olha
de volta.

 

 

 

***

 

 

 

PRIMEIRO

 

O toque mesmo nas coisas
para lembrar as mãos da
arquitetura limpa daquilo
que o mundo gestou.

A mão limpa, cartesiana, reta
pelas coisas
para tirar o pó sobre os nomes

sol, xícara, casca, ladrilho, pêssego, miséria

e tocar outra vez
como no Dia Primeiro
algo dos nomes
que vibre.

 

 

 

***

 

 

 

CANTO DE DISSOLUÇÃO

 

Sepultadas no tempo
deitam-se as coisas todas,
que já nem coisas são,
mas memória de coisas.

Sepultados no tempo
afundam-se os rostos
todos, ou quase todos,
e as datas, risos, gostos.

Sepultadas no tempo
jazem as nossas vidas,
num tempo em que não são
nem gozo nem ferida.

Sepultados, enfim,
no tempo, todos nós.

Onde não há nem feito,
nem pessoa, nem voz.

 

 

 

***

 

 

 

CANTO APAZIGUADO

 

O que sobra das mãos são as sombras de gestos
que, já feitos, nos jazem nas mãos sepultados.

O que sobra de olhares: o breve relance
que, de breve, se perde entre o feito e o lembrado.

O que resta de risos são luzes de dentes
entrevistos por entre a cortina do lábio.

O que resta da vida é a vida que fica
e ficando é que parte ao eterno adiado.

 

 

 

***

 

 

 

POEMA EXTREMO

 

Pega na mão a pedra
pega na mão a cadeira
pega na mão o pão
mesa escada copo d’água
pega
puxa pro lado
………………………..e descobre ali

a poesia.

 

 

Matheus Guménin Barreto (1992) é um poeta e tradutor brasileiro. Nascido em Cuiabá, é doutorando da USP. Estudou também na Universität Heidelberg. Traduziu Bertolt Brecht e Ingeborg Bachmann. É autor dos livros de poemas “A máquina de carregar nadas” (2017, 7Letras) e “Poemas em torno do chão & Primeiros poemas” (2018, Carlini & Caniato, no prelo). Foi publicado no Brasil e em Portugal (Escamandro, plaquete do “Vozes, Versos”, Enfermaria 6, Revista Escriva e Diário de Cuiabá; entre outros). É um dos editores do site cultural mato-grossense Ruído Manifesto e integrou o Printemps Littéraire Brésilien 2018 na França e na Bélgica a convite da Universidade Sorbonne.