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126ª Leva - 04/2018 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Rita Santana

 

Foto: María Tudela

 

ANDORINHA

 

As andorinhas existem!
Saíram das páginas do livro
E resolveram viver
Nas alvenarias
Do invisível.

Mas a tua ausência dentro de mim é puríssima dor.
Não há voo que dissipe minha esperança.
Nem vento, nem rosa, nem crença
Que suavize a melancolia parasita nos ossos.

Alheios desejos nos levaram
Para ilhas opostas:
Tu foste para Creta.
Eu, para o Crato.
E do anonimato dos dias
Tenho feito poesia secreta
E prosadura.

 

 

 

***

 

 

 

CÂNHAMO

 

O tempo envelhece o telhado
E desola os meus ovários.
Teço cânhamo em São Luís.
Teço o dia inteiro,
Teço a noite inteira,
Teço em todas as horas do meu dia
O tecido que não vestirei.

Invado rios em busca
Das dunas e me acanho diante
Do teu nome de assombros
Diante da tua boca de veleiros
Que não me deixa falar
Diante da tua presença
Que não me deixa existir.

Minha terra tem buritis
E no meu coração
Há um curso de cicios silenciados.
Discursos emudecidos.

Há emaranhados de maranhões em mim.

 

 

 

***

 

 

 

LANGOR

 

Há sol demais na paisagem.
Moinhos de vento
Atormentam meu dia.
O casario recolheu o rutilar
Da minha vontade,
E eu, à sombra, deitei minha vocação
De campesina.

Minha boca pede água,
Somente meus pés pedem língua.
Tenho cansaço nas veias
De tanto deixar tecidos
Soltos no caminho.

Pescoço dança violoncelo,
Cintura requebra em violinos,
O meu vagar já é tão certo
Quanto a infelicidade dos dezembros.

Vem! Rega meu baixo ventre
Com aquilo que, em ti, é abundância.
Mas não venhas com esperas!
Estou mole, mole.
Quero abrir-me as pernas ao vento.

 

 

 

***

 

 

 

RECEPTÁCULO DA BONDADE

 

A minha infelicidade vem da tua casa à beira-mar
Vendo-me correr o meu vagar pela praia.
Sei da tua ausência pelo cheiro,
Pela falta de vida nas ondas.
Eu, cega em antigas saídas da alma,
Não quero meus textos frouxos na tua película
De vinhática virilidade servil.
Tampouco quero o teu francês na minha língua,
Tramando aturdimentos.

Não quero a tua delicadeza fingida
Dedilhando minha vagina expressionista.
Bem certa estou de que tu és
O delator dos meus delitos.

Não quero o teu anel roçando
O meu desejo lírico com promessas,
Nem profecias proféticas
De outra vez amar,
Amar o mar da nossa terra.

Não quero meu livro de versos íntimos
Entre teus dedos,
Imunes à eternidade das ostras negras,
E aos lírios lilases do meu quintal.
Nem quero saber dos teus dias de suntuosidade,
Durante a minha ausência paladina.

Sou a mulher por quem a tua esfinge procura
Nos pesadelos cheios de gozo e fortuna de afeto.
Sou toda brusquidão e rudezas de amor,
E rezo por nós dois à toa, sem estações,
Sem toadas nem eras, nem bolos de carimã.

Quero pousar no teu dia vez ou outra
Para assoprar tua gravata,
E desatar os nós do teu sapato lustroso.

És bárbaro,
Na arrogância dos diamantes
Que escapam do teu palato duro.
Deixa-me dormir em paz!
Sem que interrompas o meu sono
De exaustão operária.
Dez horas depois,
Está a acariciar meu sono de menina eterna,
Ao som da tua desgraça de poeta sem portas,
Sem machados nem cancelas.

Quero ofertar minhas soluções e meus soluços
À face do que em ti é Absoluto e é Eterno.
À face do que em ti é Amatividade e Amavios.
Apesar das derrocadas, das implosões,
E dos mistérios escolásticos da penitência.
Quero, hoje, ter saudade de qualquer vertigem
Que tenha sido nossa,
Qualquer ilusão
Que tenha saído da tua honradez absoluta
De macho curioso por meu mutismo.

O meu pai morreu sem te ter à mesa
Ofertando ao velho a minha condição de ser tua,
E de querer de mim o meu grande ventre
De mulher bem parideira e fazedora de sonhos.

Deixa-me dormir nas calçadas,
Sem teu ódio vencido
De macho traído
Mil vezes por esta fêmea que te adora.
E que por isso busca em teus pares
Relíquias do teu cheiro.
Busca em teus pares a tua pele nobre de rei etíope.
Busca, na verve dos teus discípulos,
Vestígios de tua fome sobre o meu corpo exausto.
Por isso, busco nos teus consanguíneos
Alguma razão para o caos da tua inapetência
Diante dos meus propósitos de mulher.

Eu, este receptáculo da Bondade.

 

 

 

***

 

 

 

BÊNÇÃO

 

Apeio o peito sobre a saudade que arde a carne,
Sem consolo possível no solo das desesperanças.
Herdei de meu pai pujanças, bravezas,
E de minha mãe a fragilidade animal das fêmeas.
Por isso tenho tudo!
Posso despregar o afeto como macho cansado faz,
Posso abandonar as armas, trêmula, porque morro.
Tenho grandes, pequenos e verdes medos,
Sou mulher de agora, de hoje,
Tenho hábitos de galo e caprichos de galinha.
Falta o dicionário farto em suas doações doces de fonemas,
De raízes, arcaicas presenças de verbo.
Doarei o dia à paz, ao abandono das preocupações.
Tratarei da poesia, minha parceira de demolições e alvenarias.
Quem me dera só ser, sem bruscas mutações,
Mas o corpo oscila na regularidade do ciclo.
Endoideço alguns dias porque virá a sangria
E entrarei no templo das penitências,
Fitando meu Deus com acusações humanas.
Sou esse fruto peco das diásporas,
Minha veemência é minha mordaça,
Assim têm sido meus dias de santa, casta, pacata,
Senhora de um Deus-homem.
Desacato porque sorvo substantivos, substâncias,
Essências de nomes, dores, fantasias.
Desacato porque sou poeta.
Tenho língua de fontelas, hildas.
Sou muito brava para donos
E afeita a clamores de desprotegidos.
Tenho tudo sob meu viaduto-castelo.
Sou rata e rainha.

 

 

 

***

 

 

 

LIVRO

 

Lanço-te, marujo!
Urge o arremesso do desbravamento,
O amansar da fúria contida nos dicionários.
Estende o teu olhar pras gentes e vê o que querem.
Vê o paladar apurado do povo,
Agita os braços ante o infante de leituras.
Dou-te todo o meu mar salgado,
Minhas mulheres que choram e riem alto,
Minhas noivas dispostas ao divórcio das prendas,
Arquétipos da minha avó cabocla.
Vai, marujo!
Arrisca teu perfil às tintas, ao incesto das editoras,
Aos naufrágios à beira da porta,
Aos críticos que rasgarão teu ofício de dias.
Vai, portuoso!
Beija na boca todas as mulheres que querem teu beijo,
Todos os homens dispostos ao risco,
Abre teu pórtico de páginas aos servos, aos escravos,
Aos que vivem sob vigências de feudos modernos.
Vai, marujo! Gruda nas casas novo ato de liberdade,
Conspira com os nossos,
E toma da noite sua embriaguez,
Sua inspirada subversão de Musa.
Vai, marujo!
Lança-te ao Mar com tudo que nele há
De Pessoa, de Neruda, de Carlos, de Adélia,
De Cora, de Bandeira, de Clarice, de Lorca.
Vai! E afoga meus navios velhos, viola minhas certezas,
Viola minhas mentiras, meus fingimentos de Poeta,
Viola minha caixa de Pandora,
Meu anonimato, meu suicídio diário,
Minha textura de negra, minha candura de puta.
Vai! Antes que eu me lance sem âncoras,
Pois que deixo velas, remos e medos muitos.

Rita Santana é atriz, escritora e professora de Língua Portuguesa na Rede Estadual de Educação do Estado da Bahia. Em 2004, foi uma das premiadas no Braskem de Cultura e Arte para autores inéditos com o livro de contos Tramela. Logo depois, o seu livro Tratado das Veias (poesia) foi publicado pelo extinto selo Letras da Bahia, em 2006. A Editus publicaria o seu Alforrias (poesia) em 2012.  Participa da antologia Outro Livro da Estante organizada por Herculano Neto e publicada pela Mondrongo em 2015, com o conto Ondas, Trânsitos e Trilhos, além de ter o seu poema Adusto publicado na revista organismo, projeto do Editor Jorge Augusto, organizada por Ederval Fernandes e Alex Simões.

 

 

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125ª Leva - 03/2018 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Ana Paula Olivier

 

Ilustração: Sadrie

 

Deixou o raio
o quarto
o risco

e se foi com a dança
de apanhar gravetos

Deixou o raio
o quarto
o risco

E esse vício tão sublime
De brincar de abismos.

 

 

 

***

 

 

 

Cordas no grito da chave
que o corpo que nada
sabe do pulso que pulsa
e que passa

Deixa o brilho do canto
que a gente grita
suaviza a corda
que não mata

Belezas não se acalmam.
Verdades são caladas.

 

 

 

***

 

 

 

O amor ri das glórias e dos insones.
Multiplica o tempo,
abre as portas,
brinca de esconder-se
em altas horas.
O amor gargalha,
estanca as mágoas.

 

 

 

***

 

 

 

Quem quer viver faz mágica
Levanta mortos, junta luz
Lambe corpos, lambe escrita
Devora anjos, perdoa lobos.
Nas labaredas do intenso
Nas cadeias do gozo.

 

 

 

***

 

 

 

SOPHIA

 

Ela vai deixar os cabelos brancos, brancos
vai se deixar
estriar, enrugar, desbotar

Vai deixar a pele sinalizar
pontos, peitos, prantos

Vai cansar
vai deitar
vai deixar
Deus falar.

 

 

 

***

 

 

 

ORAÇÃO

 

É vício a palavra
com que falas
de crueldades
delicadezas
É vício a palavra
no meu corpo
minha escrita
que não te rouba
É vício a palavra
com que calas
no meu invento
minhas feridas
É vício que eu volte sempre
De delicadezas
Crueldades
É vício, amor
“Deuses só comem palavras”.

 

 

 

***

 

 

 

PRIMEIRO PASSO

 

Caminhei, caminhei, caminhei
mudei os móveis de lugar
sem pedir conselhos
eu mesma cortei
unhas e cabelos
e as cortinas
eu mesma pintei
a casa de branco
e as unhas de vermelho
tudo para afogar
tuas iniciais
nos meus lençóis tão brancos
tuas iniciais
sibilantes e serpentinas
no meu sacrossanto peito.
E perdoei.

 

Ana Paula Olivier nasceu em Natal (RN) em 1971 e está radicada em São Paulo (SP) há dezesseis anos. É licenciada em Letras pela Universidade Potiguar (UNP-RN) e é mestre em Literatura e Crítica Literária pela PUC (SP). Também é atriz e escritora, com diversos prêmios literários e participação em antologias poéticas publicadas no Brasil. Atualmente é professora de ensino superior (Literatura Portuguesa, Literatura Brasileira, Produção Textual e Formação de Leitores – Letras e Pedagogia) e doutoranda em Ciências Sociais pela PUC (SP).  “Infinito sobre o peito” é o seu primeiro livro de poesia.

 

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Janela Poética IV

Geraldo Lavigne de Lemos

 

Ilustração: Sadrie

 

o despertar do ódio

 

o ódio perdeu a mordaça
atrás da tela

ele agora tem voz alta
no meio digital

realidade virtual
que desvirtua
o real
– e que o expõe, também

associal, em rede,
o ódio é mais forte

 

 

 

***

 

 

 

falta

 

antes Niemeyer tivesse projetado a moral de Brasília.
nem em seu maior devaneio faria linhas tão curvas,
nenhum lápis teria grafite mais sujo,
nenhuma tinta seria mais permanente,
nenhum concreto, mais duro.

faltam os traços de Niemeyer nos homens,
faltam o sonho, a dedicação e o outro.

falta sempre alguma coisa,
dinheiro sempre dizem que falta.
ou falta no orçamento,
ou falta no bolso.
e como faz falta.

antes Niemeyer soubesse que projetava uma pocilga,
evitando, eu, falar promiscuidade,
e teria, ele, projetado pastos,
baias mais adequadas,
confinamento, e abatedouro.

 

 

 

***

 

 

 

nas malvinas

 

no peito da feira
lateja uma chaga purulenta

crianças vendem sonhos e infância,
pessoas vagam desalmadas
entre crimes e monturos

a lama – mistura de chuva, chorume e reuma
e salmoura das carnes e peixes –
que banha os pés dos ambulantes absortos
é o icor que escorre daquele lugar

o negócio é tão grave
que o piso tremula de frio e pavor
e da cobertura vazam suor e lágrima

 

 

 

***

 

 

 

dobraduras

 

barcos de papel viajam
nos rios intermitentes das sarjetas
com sonhos escritos nos costados

ágeis, no talvegue,
entre ondas do curso irregular de raso álveo,
ignoram que a esquina encerra
o sumidouro de tudo que navega
– barco, sonho, água e terra

 

 

 

***

 

 

 

o preço fora do mercado

 

30 mil reais.
esse foi o preço que o judiciário deu à minha perna.

ela, que foi boa, levou-me por aí,
pedalou bicicleta e fez tantos gols

ela, que saltou a poça naquele dia chuvoso,
esforçou-se pela minha saúde
e bailou com a pessoa
por quem eu me apaixonaria

ela, que foi má, provocou pênalti no futebol,
dilacerou o bicho e machucou outras pessoas.

30 mil reais.
esse foi o preço que o judiciário deu à minha perna.

ela, que me faltou no dia da audiência
para vencer os obstáculos do fórum,
e continua me faltando na hora do banho,
do café e do trabalho…

30 mil reais.
esse foi o preço que o judiciário deu à minha perna.

ainda tenho esperança de ter perna de novo.
não sou um louco que espera que ela cresça como rabo de
[lagartixa.
tenho esperança de um dia ter dinheiro para comprar uma
[perna mecânica, isso sim.

e, se o desenvolvimento da medicina seguir bem,
ainda verei pernas naturais serem implantadas com
[sucesso.
nesse dia, perguntarei ao juiz se ele me vende a dele.

 

Geraldo Lavigne de Lemos é graduado em Direito (UESC), especialista em Direito Notarial e Registral (Anhaguera/Uniderp) e em Gestão Pública (UESC) e mestre em Desenvolvimento Regional e Meio Ambiente (UESC). Membro da Academia de Letras de Ilhéus, autor dos livros À Espera do Verão (2011), amenidades (2014), alguma sinceridade (2014) e Massapê: Solo de Poesia (2016), todos de poesia e pela Editora Mondrongo. Tem no prelo o livro Poemas furta-cores, pela Editus – Editora da UESC. Foi curador do II Festival Literário de Ilhéus.

 

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125ª Leva - 03/2018 Janelas Poéticas

Janela Poética V

Renata Ferreira

 

Ilustração: Sadrie

 

forma de vida

 

o animal em mim
morto
fede
mas não abandona o corpo
que segue
ereto
na medida do orgulho
os pés
cansados
fingem
uma humanidade
desmedida
enquanto
a cabeça
molde perfeito
sorri
do inferno
que a sustenta

 

 

 

***

 

 

 

desassossego

 

se desperto, ânsia
clarão desassossego
luz que entra
devora-me/ devoro-a
anseio o fim
canção diária chamada desejo
martelando os dias
um turbilhão
arrasta-me para longe
ainda estou dentro de mim

 

 

 

***

 

 

 

construção

 

demoliram a casa:
desenho tristezas nos escombros memorialísticos,
[minha obra humana]
pés cansados percorrem o terreno,
já não são os mesmos,
incharam.
os sapatos apertam,
estão vivos,
caminham sem mim,
bailam com o passado,
[enquanto me enchem de calos perversos]
não poderei usá-los no futuro…

 

 

 

***

 

 

 

tempo

 

a velha cicatriz ainda coça
compete com a novíssima
[duas semanas de vida]
uma,
nas mãos [infância]
outra,
no joelho [adulta]
um corpo
qual coçar primeiro?

 

 

 

***

 

 

 

moinho

 

verto poemas esquizofrênicos
enquanto vomito saudade
tenho medo da perda
lambo o chão
já não sou eu
não sei quem sou
[ele disse: “um dia de cada vez”]
um enorme espaço de tempo
separou o abraço
solidão a dois é mais latente
tritura
tudo

 

 

 

***

 

 

 

leitura

 

não encontro no teu rosto o que preciso,
teus olhos incolores filtram o brilho dos meus,
teu cansaço diário pesa em mim,
a força que destina ao tédio me abala.

não encontro em tua atenção um espaço,
espaço confortável com móveis audíveis,
a negritude dos teus cômodos tira minha visão.

abro as janelas, a luz do sol se afasta,
num movimento de estar sem estar,
brinca de esconde-esconde.

a procura é infinita,
perdi-me em tua vida.
isto não é poético,
apenas uma prisão em forma de poema,
prisão-lar.

 

Renata Ferreira nasceu e vive em Duque de Caxias(RJ). Formou-se em Letras pela UERJ— onde cursa jornalismo—, e é mestranda em Estudos de literatura pela UFF. Prepara seu primeiro livro, “Clarão Desassossego”.

 

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125ª Leva - 03/2018 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Carolina Spyer

 

Ilustração: Sadrie

 

Nota sobre uma curva

 

Meus olhos já tão miúdos quanto os seus
imersos nessa cidade de gestos
tão
inusitados

Eu desenhei olhos de ar no papel
extasiada

O ar nu como eu
tão exposto
tão
alterado

Eles picotaram o ar pelo papel dos olhos
deixaram-me o vácuo
deitado minúsculo sobre meu colo
insistente
tão desfeito quanto eu

 

 

 

***

 

 

 

Terroso o seu corpo

 

insistente matéria atravessada no estômago
prepotente que revolve seu cabelo
branco como que autorizado a triturar
seus fios para impor seus vinte mil hectares
de canaviais ou mais fazendo seguir a gentileza
da proposta para que seja uma entre seus quinhentos
funcionários ou mais a esquecer seu pé de jabuticaba
farto como se não houvesse as vozes incrustadas
as vozes do saco barreiro cantando no barro
tóxico alastrando seu tronco no chão

 

 

 

***

 

 

 

Enquanto falávamos de ritmo

 

Éramos três músicas
à trinta minutos de distância
das mesas eu e você
três constrangidas
por linhas e figuras
ignorando as buzinas as mesas eu e você
éramos três músicas mortas
pouco displicentes
porque fenecidas
éramos três dobradas
no tanto de corpo que se tinha
descartadas sem que notássemos
três coisas
pairando
sobre o chão

 

 

 

***

 

 

 

O banho era diário

 

Minhas pernas se encolhem logo de manhã
eram talvez 7 tons de xixi e variadas combinações de cor coágulo e mais
eu apurei 37 graus morre de frio moradora de rua na zona leste

são quem sabe 2 de minhas saídas
quem sabe todas elas ideais
desde tão cedo acordada Fernanda

levou um tiro no peito enquanto dormia sob uma marquise na zona sul
ninguém cuidou da cor e da temperatura dos dias sob o teto infiltrado
de registros e pedaços de pele

e coágulos em fluxos variados logo antes da manhã começar
na zona norte enquanto moradora de rua de 22 anos é atacada
a golpes de gargalo de garrafa toda cheia de mucosa ureia

e água que não cessam de esguichar
enquanto apoio meus pés na parede do banheiro
enquanto cuido de tentar manter meus pés apoiados

os nervos e músculos intrauterinos comprimidos
chorando pelos rins bato na minha barriga
de fluidos na zona oeste

 

 

 

***

 

 

 

O encontro

 

Nós dois um cardápio tímido e a mesa
dispondo nossos cotovelos as sombras
as perspectivas o ritmo da conversa
a abrangência da nossa visão a estética
do tempo cruzando a mesa parada
toda parada enquanto organiza
discretamente
nossa noite que passa

 

 

 

***

 

 

 

Solos cobertos de giros

 

I

Perde a cabeça no ombro
A mão na testa
O umbigo no dedo
O chão na goela
Faz caminho cruzado
Coloca pé com pé
Mede tamanho de tempo
Lambe intervalo do peito
Tosse em silêncio
Abre de mão dada
Bunda com bunda
Enquanto ficaram os olhos alagados

 

II

Corre dedo na rua pra conhecer o maciço do chão
Atravessa pedra, ponte, peito
Hoje é quinta feira
Percorre túneis sondando seus círculos intermináveis
Olha curto, curso
Hoje é quinta feira
Rastreia linhas topográficas
Toca
Finge rosto desforme curvando pescoço
Se lambe imensa
Lado, lastro
Lapso
Ela nunca pensou em atravessar essa via à noite
Hoje ainda é quinta feira

 

III

Roda céu: então chora (então escapa)
Tanto se pôs à superfície que agora é quase toda língua
Quase toda anel viscoso dela mesma
Rasteja à revelia do corpo
Com seu corpo

 

IV

Sensível às vibrações exteriores
Reajo entre expansões e contrações
Escavo galerias e canais
Me alimento de detritos de diversas origens
Enquanto constantemente excreto terra
Já não tenho pulmão
E me regenero

 

Carolina Spyer nasceu e vive em Belo Horizonte, Brasil. Possui graduação em Direito pela PUCMINAS e mestrado em Filosofia do Direito pela UFMG. É poeta, publicou “vrás” pelo Selo Leme (Editora Impressões de Minas, 2016) e tem poemas publicados em revistas virtuais.

 

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Janela Poética II

Leonardo Bachiega

 

Ilustração: Sadrie

 

construção geométrica

 

resistência
garante o povo
o que a imaginação entrega
ao ventre
depois de atirarem
a pedra
não é a dor
que se vê
mas os círculos
se
ampliarem
no meio
do
riacho

 

 

 

***

 

 

a poeira fragmenta a água

 

o primeiro desafio inclinar a cidade
uma chaminé perfura a casa como a consoante
de um coração que sabe os homens bons
são feitos de pólens
e as bordas ficam mais lentas com
as passarelas de mão
algum limbo decifrou o canto do sol
e as tristezas de uma cesta de cordão
que guarda os ossos da fala
dizendo é mais difícil desfiar
as relações dos homens

 

 

 

***

 

 

você ainda não leu os ossos

 

o chão é sério
formigas rasuram de tanto trabalhar
a cortina parece um fole
se o ar tem uma caixa harmônica
e um tórax
se você desalinhar a métrica
você diminuirá a saudade

 

 

 

***

 

 

 

o primeiro poeta disse não

 

não é de causar estranhamento
ou erosão nos olhos
ou febre no caviar das mãos
a oscilação das calçadas
desde sempre
a poesia foi apenas parte
de uma linguagem cotidiana
mas ela sabe de cor tudo
que existe dentro
isso porque ela diz uma coisa
e faz outra

 

 

 

***

 

 

 

auto relevo

 

entortei um dialeto engenhosamente
de muito inventar máquinas de fazer
planícies e calmarias
entulho suplicando entulho
conduz a água
esfarinhei tantos dedos
e os rochedos são as cartas do tempo
injetei desespero na veia
de uma sujeira cavando uma vala
que uma quase infância
descia a uma depressão

 

 

 

***

 

 

 

as lições das margens

 

não é fácil compreender a pedra
só os rios o fazem e quando
nasce de uma cidade
esquecer músicas quase
nas cidades areias
onde amar é uma pesquisa
arqueológica

 

Leonardo Bachiega é poeta, arquiteto e urbanista, pós – graduado em Barcelona. Nasceu em 1980 na cidade de São Paulo – Brasil, onde mora hoje, é autor de “Poema Número Um” (Chiado Ed. 2016), seu livro de estreia, também publicado em Portugal. O seu segundo livro “A cidade desabotoada”, está previsto para 2018. Tem poemas publicados nas revistas InComunidade e Literatura e Fechadura.

 

 

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124ª Leva - 02/2018 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Luiz Frazon

 

Foto: Tati Motta

 

ARCHYTAS OF TARENTUM

 

O que sabemos
de nós mesmos
é um pouco mais
do que uma chave de fenda sabe
sobre um parafuso:
é um jeito abissal
de enroscar o mundo
e prendê-lo, firme.
Um íntimo conhecer, profundo,
do seu nome ferroso,
a matéria que se abraça.
É lançar-se adentro
e entretecer o aço
sob pressão
da mão alheia.

 

 

 

***

 

 

 

COSTURA

 

“Quanto mais eu, que nu nasci, me encontro nu:
nem perco e nem ganho.”
Cervantes

 

Guardo com zelo,
numa das gavetas de minhas vísceras,
a primeira roupa que vesti.

Era eu, não muito mais
que um nome
e um mosto de minha mãe e de meu pai.

A roupa trançava seu algodão no meu torço,
tecia-me uma língua,
aquecia-me um gesto,
e enxugava todos os choros
do resto de minha vida.

 

 

 

***

 

 

 

ITINERÁRIO ESTILETE

 

Num vão de tempo,
esquecida
e prenha
de sabores salinais,
a lágrima
é a cicatriz solúvel,
iluminada,
pública,
engasgada
no caminho
de um ismo choro.
Agora,
outra percorre uma vereda
já de antes desbravada:
um rastejo cítrico
no encalço da benção.
Em dorso derme
no rodapé da folha-face
a cópula:
fusão de gotas
atemporais.

 

 

 

 

***

 

 

 

 

COMEDOURO

“Mourão, mourão
Tome teu dente podre
Dá cá meu são.”
parlenda de autor desconhecido

 

barganhamos com nossos nomes
a imagem
do que esperamos ser

no entanto, à conta-gotas,
somos traídos

o nome é a palavra que nos come

 

 

 

***

 

 

 

ESTATUTÁRIO

“Olha tua obra.
Olha a obra que é tua por ser feita à tua revelia.”
Rodrigo Petrônio

 

Seguramos o sol
com força, na unha.
Não lhe damos folga abonada,
nem licença ou férias;
não lhe permitimos atestar
doença ou praga
na pele do seu nome de luz.
Queremos o sol
analfabeto em Marx,
quase escravo.
E são poucos os que o imaginam
rebelado,
vigorando seu ardor
e retorcendo a madrugada.
Forjando no fogo
imagem lúdica da meia-noite.

 

 

 

***

 

 

 

POEMA PARA HEIDEGGER CORRIGIR

 

“Flerto com o mundo enquanto o calunio”
Victória Monteiro

 

Chove lá fora,
no entanto, uma janela, com laivos de vidro,
e estigmas de aço,
lacra meu corpo
para o mundo.

Desejo arremessar minha consciência
o mais longe que posso.
Na chuva, ela ensopa-se de rios selvagens nas ruas
e empossa águas de outro continente
em seu quintal.

Se depois procura abrigo
se saltita pelas poças, encharcada e com medo
se adentra à primeira embarcação, plausível
não me convém espionar.

 

Luiz Frazon é Educador Social na cidade de Ribeirão Preto, SP. Cursou letras, apesar de não concluir o curso e hoje faz bacharelado em Educação Física e Esporte pela USP. Coeditou o Zine “O circense” entre os anos de 2003 e 2007. Participou de algumas antologias poéticas, publicou seu primeiro livro de poemas, “Roçando água”, em 2009 e em outubro de 2017 seu segundo livro, O nome pela metade, pela Editora Patuá.

 

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124ª Leva - 02/2018 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Flávia Péret

 

Foto: Tati Motta

 

Estudos para um acidente

 

Dentro das cobertas
do lado esquerdo da cama
quase encostado na parede
fria e branca
do nosso quarto de dormir
você escuta música com os fones de ouvido
que nunca me empresta
porque você acredita
que eu estrago suas coisas
mas você se esquece
enquanto escuta
esses compositores desconhecidos e obscuros
que quem quebra as xícaras
desta casa
é você

 

 

 

***

 

 

 

Manhã com nuvens

 

Acidentes acontecem diariamente
nos quartos e nas cozinhas
não apenas nas via de circulação
mas em espaços pequenos e áridos
ou naqueles fortemente irrigados
como as plantações de arroz
ou dentro das panelas onde cozinhamos feijão
numa manhã nublada de terça-feira
dia duro como um corpo com roupas

 

 

 

***

 

 

 

Cartilha-de-cura

(para Ana C.)

 

Eu queria que meu filho fosse mais livre
brincasse na chuva
como os indiozinhos que vi ontem à noite
naquele documentário na televisão
eu queria que a mãe do meu filho fosse mais livre
nunca desistisse de afundar navios
comesse um pouco mais devagar
desaprendesse a ler e a escrever
tocasse a vida
não com a cabeça ou com as palavras
escafandrista dos sentidos
obtusos, incertos, agitados
mas com as plantas dos pés
os olhos bem abertos
os dedos das mãos

 

 

 

***

 

 

 

Abrigo Nuclear

 

Um dia
eu quis
me separar

acordei
decidida
era de manhã cedo
a cidade ainda em silêncio

você
estava
na cozinha

fervia
água
para fazer
um chá

olhei para
os seus pés
descalços
sem meias
nem medo

sentei-me
ao seu lado
pedi
um beijo
tomamos
em silêncio
nosso chá

 

 

 

***

 

 

 

Ikebana

(Para Simone Brantes)

 

Quase todas as noites
antes de dormir
prometo que na manhã seguinte
ao me levantar
colocarei
sobre a mesa
não apenas as xícaras
mas tudo aquilo
que ficou por dizer
(as coisas difíceis, as coisas bonitas)
e meu cansaço
infinito
de repente se dissolverá
serei equilibrada como
certos arranjos de flores
audaciosa como as salamandras
pequenos bichos que mesmo arrastando-se
nunca fogem do fogo

 

Flávia Péret é escritora, faz livros e é professora de literatura e de escrita. Publicou: Imprensa Gay no Brasil (2011), 10 Poemas de Amor e de Susto (2013), Outra Noite (2014), Novelinha (2016) e Uma Mulher (2017). Em 2018, publicará pelo selo Leme (editora Impressões de Minas) a novela Os Patos. Vive e trabalha em Belo Horizonte.

 

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124ª Leva - 02/2018 Janelas Poéticas

Janela Poética V

Verónica Aranda*

 

Foto: Tati Motta

 

Tradução: Edson Oliveira
Revisão: Clarissa Macedo

 

Estrangeira

 

Tem dias que entro em uma confusão
precipitadamente, enquanto busco
o pulso da cidade, o mesmo pulso
do Cairo na hora marcada pelo muro
da cidadela ocre ou em um dezembro
na multidão de Nova Deli.

Busco avenidas com o cais ao fundo,
diante daqueles velhos armazéns
e casas de embarcações onde antigamente
se perdia, Biralbo, o pianista,
com o impulso quase policialesco
daquele que foge de um amor, e ao mesmo tempo,
deseja encontrá-lo em vielas
onde volateiam os pombos,
e não para de andar e se percebe
diante do Cais de Sodré que é um estrangeiro.

 

Extranjera

 

Hay días que me adentro en el bullicio
precipitadamente, mientras busco
el pulso a la ciudad, el mismo pulso
de El Cairo en la hora punta desde el muro
de la ocre ciudadela o de un diciembre
en la aglomeración de Nueva Delhi.

Busco avenidas con el muelle al fondo,
al pie de aquellos viejos almacenes,
y oficinas de barcos donde antaño
se perdía Biralbo, el pianista,
con el impulso casi policiaco
del que huye de un amor y, al mismo tiempo,
se lo quiere encontrar en callejones
donde revolotean las palomas,
y no para de andar y se da cuenta
frente al Cais do Sodré que es extranjero.

 

 

 

***

 

 

 

Armazéns Mouraria

 

Os comerciantes chineses embaralhavam as cartas
na conspiração de um filme noir.
Os golpes das fichas trouxeram a derrota
dos que jogaram numa cartada
o amor e a vida: dois de espadas.

Se afundaram para sempre os navios de pimenta.

 

Armazens Mouraria

 

Los comerciantes chinos barajaban los naipes
en la conspiración del cine negro.
Los golpes de las fichas trajeron la derrota
de los que se jugaron a una carta
el amor y la vida: dos de espadas.

Se hundieron para siempre las naves de pimienta.

 

 

 

***

 

 

 

Mirante de Santa Catarina

 

Eu nao sou eu nem sou o outro,
Sou qualquer coisa de intermédio:
Pilar da ponte de tédio
Que vai de mim para o Outro.
MÁRIO DE SÁ-CARNEIRO

Contam as velhas crônicas que outrora
o povo subia até aqui
para esperar os navios
e seu regresso incerto da rota
das especiarias e das tormentas,
até o alto onde se forjava
toda resignação, com a paciência
de argilas modeladas na sombra
das promessas junto às ermidas.

Hoje espero, não sei muito bem o que,
assomada ao contágio secular.
E os versos que leio
de Mário de Sá-Carneiro já anunciaram,
desde os botequins parisienses,
o tédio pós-moderno, a ressaca ilustrada
que flutua sobre o rio e os telhados.

 

Miradouro de Santa Catarina

 

Eu nao sou eu nem sou o outro,
Sou qualquer coisa de intermédio:
Pilar da ponte de tédio
Que vai de mim para o Outro.
MÁRIO DE SÁ-CARNEIRO

Cuentan las viejas crónicas que antaño
subía hasta aquí el pueblo
a esperar a las naves
y su regreso incierto de la ruta
de las especias y de las tormentas,
hasta este alto donde se forjaba
toda resignación, con la paciencia
de arcillas moldeadas a la sombra
de las promesas junto a las ermitas.

Hoy espero, no sé muy bien el qué,
asomada al contagio secular.
Y los versos que leo
de Mário Sá-Carneiro ya anunciaron,
desde los cafetines parisinos,
el tedio posmoderno, la resaca ilustrada
que flota sobre el río y los tejados.

 

 

 

***

 

 

 

Estação de Santa Apolônia (Alfama)

 

Desci em uma daquelas estações
onde ninguém pendura uma guirlanda
de cravos laranjas ao chegar.

E ao longe, a cidade que se iluminava
entre pontes metálicas e hotéis
com cheiro de toalha e salitre,
nessa hora precisa
em que os vendedores desaparecem
deixando unicamente amontoado
o milho e os restos da feira.

Então, nesse momento
na sala de espera repleta
de viajantes sentados sobre suas malas
tive a lucidez do desencontro.

Olhei para o azul celeste colonial
pintado nos muros, evocando
velhas cartas de amor escritas em La Habana.

 

Estação de Santa Apolonia (Alfama)

 

Bajé en una de aquellas estaciones
donde nadie te cuelga una guirnalda
de claveles naranjas al llegar.

Y fuera la ciudad, que se encendía
entre puentes metálicos y hoteles
con olor a toallas y salitre,
en esa hora precisa
en que los vendedores se diluyen
dejando únicamente amontonados
los restos de la feria y el maíz.

Entonces, sólo entonces,
en la sala de espera rebosante
de viajeros sentados en maletas
tuve la lucidez del desencuentro.

Miré el azul celeste colonial
que tenían los muros, evocando
viejas cartas de amor fechadas en La Habana.

 

 

 

***

 

 

 

Miradores

 

Os múltiplos Pessoas sugeriam
ir lê-los aos miradouros
diante do primeiro café contemplativo.

 

Miradores

 

Los múltiples Pessoas sugerían
ir a leerlos a los miradores
ante el primer café contemplativo.

 

 

 

***

 

 

 

Navegantes

 

As noites partiam, desdobradas
sobre os mapa-múndi do desejo,
aqueles em que tu marcavas
os países em forma de postais,
onde havia feito escala,
enquanto me perdia
por essas latitudes de teu corpo
que anunciam as ilhas e alcançava
o centro do teu peito
com instrumentos de navegação.

 

Navegantes

 

Se nos iban las noches, desplegadas
sobre los mapamundi del deseo,
aquellos donde te iba señalando
los países en forma de postales,
donde había hecho escala,
mientras me detenía
por esas latitudes de tu cuerpo
que anticipan las islas y alcanzaba
el centro de tu pecho
con instrumentos de navegación.

 

* Poemas do livro Alfama (Centro de Poesía José Hierro, Getafe, 2009)

 

Verónica Aranda nasceu em Madrid, Espanha. É licenciada em Filologia Hispânica e realizou estudos de doutorado em Nova Deli. Recebeu diversos prêmios de poesia, dentre eles o Miguel Hernández e o Ciudad de Salamanca. Publicou vários livros, como Poeta en India (Melibea, 2005), Alfama (Centro de poesía José Hierro, 2009), Postal de olvido (El Gaviero, 2010), Lluvias Continuas. Ciento un haikus (Polibea, 2014), Épica de raíles (Devenir, 2016) e Dibujar una isla (Reino de Cordelia, 2017). Também é tradutora.

 

Edson Oliveira da Silva é poeta, doutor em Teorias e Críticas da Literatura e da Cultura pela Universidade Federal da Bahia, em consórcio com a Universidade Autônoma de Barcelona. Atualmente é Professor Adjunto da Universidade Estadual de Feira de Santana, ministrando disciplinas na área de Literatura Espanhola e Literatura Latino-americana.

 

 

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Janela Poética I

Flavio Caamaña

 

Foto: Tati Motta

 

DIFERIR NA DURAÇÃO

 

o mar um dia me descobriu mas eu nunca descobri o mar
estávamos apartados por gírias por orçamentos
estávamos desunidos e desgrudados
éramos divididos por muros e fileiras
de campos minados e arames farpados
éramos dois desossados
esparadrapo sobre esparadrapo
eu e o mar

não havia sequelas visíveis não havia sístoles
não havia o amor amortecendo quedas
não havia sinais de trajetos ou de dejetos
no percurso de um alvo à salvo
dos atiradores de palavras
condicionados e incontinentes
treinados para enganar
treinados para fechar a geral

pode ser que um dia alguém conte essa história
e o mar desabe sobre as minhas costas
o mar sancionado e em estado de ressalva
o mar abraçado de burocracias
abocanhado até a ponta do último cais

e o mar nunca se descobre de igual pra igual
algo sempre se perde na hora da desova
algo de sobrenatural e aquela coisa e tal
eu e o mar aferidos na pressão
máquina contra carne
vontade sem vontade
verdade sem verdade
eu e o mar

 

 

 

***

 

 

SERVIL

 

se eu estou no fogo
e sou esta lenha

perdido no mato
um cachorro à solta

minha bagunça não cabe
nos bagulhos do doido

minha vida renega
o poema que afago

 

 

 

***

 

 

 

CURTO PRAZO

 

não é pela força que se mede um salto
cumpre-se a missão do corpo no espaço
desforram no ar as hélices parasitas
cumpre-se o que é dado e desmentido

não é pelo salto que se mede a força
o que perfura a sangue e violência
o que se desdobra de lúcida veemência
e um apurado silêncio de permuta

de tudo é a surpresa que se infiltra
de tudo a boca compra o alto risco
e a validade perde a justa forma
e a forma encontra um voo frágil

não é pelo voo que se traça um salto
e o leopardo morde-se na fissura
a mais primitiva forma de violência
os olhos não capturam na aterrisagem

 

 

 

***

 

 

 

PARTILHA

 

talvez ele seja abençoado por conhecer
a índole de seus carrascos/ talvez apenas
por falar uma língua e entender que quando
coçam os sacos não autorizam um perdão

que eu não consigo esquecer que ainda existe
o amor/ enxame de bolinações cravadas
que eu não consigo esquecer a luz acendendo
talvez ele seja abençoado por conhecer seus

carrascos/ trapos luxuosos beiços molhados
mendicantes de um beijo fuçando a garra
melindrosa de deus/ um feiticeiro e vidente

apunhalado pela lábia sapiente de odara ilê
pela caçada penitente/ um reles na trapaça
sua vida é um lamber de fogo esmaecendo

 

 

 

***

 

 

 

ORIDES

 

elevar o cavalo
a uma estatura
de ave

o tijolo
e o seu peso:
libélula

pelas rugas
fundas da face
florir a seda

os dedos
rígidos e murchos
despetalar

a beleza
atravessada:
espinho na cereja

 

 

 

***

 

 

 

DO QUE NÃO DISSE

 

 

arrependo-me das palavras que não disse
das latas que não senti o cheiro
da bebida diluindo-se nas poças de lama
aquecida pelo sol de sertões apodrecidos
na carcaça de secas esfomeando a rolinha
isso é alento isso é conversa
embrenhando-me no fumo amargo
de um amor letárgico
graveto no meio da sinuosa estrada
onde pneus sapeiam

goza se o veneno que vem do poema desvia-se da boca
e as palavras não sinalizam um retorno
nem despojo sei que cada frase não dita surrupia o ovo
de uma coisa que poderia ser grandiosa
e se recolheu num betume se esfarelou na estranheza
de antiquário e santo homem
de palavras eternas e perebas faltando
com a educação com o zelo cutâneo
pregado na apostasia

 

Flavio Caamaña é um trabalhador braçal e poeta nascido em Tamboril, desertão do Ceará. Atualmente residindo em Fortaleza, obteve primeiro lugar no XVI Prêmio Estadual Ideal Clube De Literatura, participou da coletânea “Golpe” e revistas eletrônicas. É autor de “Aquedutos” (Patuá, 2016).