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124ª Leva - 02/2018 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Isabela Rossi

 

Foto: Tati Motta

 

UM CANTO

 

dos pássaros
honradas todas as plumas
rimos com dentes de nada
próximos choramos
Grandes telas de cinema
estações de tratamento
As ratas de esgoto também não conhecem aberto
o céu
Toquemos pra elas, Viviane
Com as palavras no azul
o violão cello
em comum nós temos um coração
patas
e pêlos cheirando azedo
ou sangue
quando a chuva infiltra
palcos planos
porões cândidos
Todos
desertos loucos da nossa alma

 

 

 

***

 

 

 

seria pássaro
a máscara caindo em rasa água
uma língua em pleno voo
trocar as penas que sinto de mim
por uma plumagem nunca antes inaugurada
pássaro átimo
desentendida da fome
invenção do étimo a
alinhavar o bico
onde
bocas já não falam mais,
assovios se afinam
busco este alimento, frutas em
olhos de virgem,
as folhas secas
que o jardineiro acomodou antes de fugir

 

 

 

***

 

 

 

COM A MÃO ESQUERDA

 

I

raiva acumulada nos anos
doce revólver mirando ânus
não quero nada disso
goteira de água morna
enxofre do desejo
não parece
mas meu corpo é feito no bronze

 

II

Par de olhos se despindo frente a frente
sombra ante sombra
luz fosca na verdade oculta
porrete na invenção do que se quer pra sempre
límpido cristalino sem violenta irrupção
Hora do espelho
Não me vejo taciturno e
uma chaga dantes tema misericórdia
é agora sangue urdindo
Em dó menor
Morrer todo dia cansa
estilhaçada a
nudez dos anjos
eu quero agora Cantar

 

III

que imagem é aquela desfeita
contratempo da charada
que rosto é esse pincelado
na astuta margem da página
cospem-nos as esfinges em ossatura

do espelho que estilhaça
Em todo poema
colo cacos
A procura do alguém que responda
o antiquado chamado
do Eu

 

IV

válvula
vibra vermelha vulva
essa mulher
verborrágica
vai gozar
mão esquerda em euforia
doce
vesicante prazer
ruindo
não há pesadelo
penetrar fecunda
a Vida

 

 

 

***

 

 

 

AREIA E CASTELO

 

areia e castelo
semente e casca
aço e sertralina
eu estava ficando louca
até no front
da pele com a pele
explodir
o sal
de uma Manhã

 

 

 

***

 

 

 

CANTO DA VIDA COMUM

 

I.

por que me destes Deus este segredo da Pedra?
por que não olhaste para minha cara
dente de leão nos lábios da criança
e legasse a febre ou
sóbrio
o caminho dos leitos
que levam à Lete?

foi-me aventurado granitos
minérios
a levedura do chumbo

mas sou uma mulher
e todos os fuzis
são velas nas minhas mãos

 

II.

dedos da pianista
Lizst era um soldado
que gostava de açúcar
nós estivemos a ponto de partir
mas aquelas notas
melodias do incomum
desarmaram a vaidade

Filarmônica de trapos
preenche nossas horas
lugares onde descansamos
tecidos nos ninguéns

 

III.

nunca coube
nesta solidão
o vazio da estrela torta
recolhidas ao fogo
partilhamos apenas
os cacos
das vitrines opostas

refém dos caramujos
o Eu é insolúvel nos espelhos
muralhas contornantes da vida comum

 

Licenciada em Filosofia pela Universidade Estadual de Campinas e, atualmente, aluna da Escola de Arte Dramática da USP, Isabela Rossi é atriz e autora na Companhia Balé de Pancadaria. Um dia, num suspiro, tomou de assalto os versos do samurai Paulo Leminski, “não discuto / com o destino/o que pintar/eu assino” e desde então tem seguido com a pólvora e poesia que se pode experimentar a Vida.

 

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123ª Leva - 01/2018 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Cibely Zenari

 

Foto: Kelly Cristina dos Santos

 

frútero

 

12 contrações
compassadas
despressurização
caem as máscaras
primeiro as mulheres
depois as orgias
celestes

 

 

 

***

 

 

 

astro

 

navego na tez dessa pele
astrolábio
avesso à razão da direção

fundo com o oceano
mares profundos

sem fronteiras entre
donos
terreiros
terras
tornozelos
e saveiros

perdidas docas
lábios e bocas

remam incansáveis
ilhas inalcançáveis
flutuam
latitude zero

trapiches largados
birutas
balangamos ao vento

ao fundo escafandro
Ó2 acabando

jamais achados
escombros náufragos
pegadas na água
em únicos rastros
úmidos
de lábios cúmplices

trovões silenciam
há salvos?

 

 

 

***

 

 

 

botânica

 

o rizoma de nossas raízes
gira rodas cinéticas
em forças centrípetas
e ao centro estripulias
de dois quadrúpedes
de sensibilidades termostáticas
incendeiam variáveis distônicas.

o resultado atômico
pulsa sangue aos ventrículos
banhando estruturas
músculo-esqueléticas
em névoas harmônicas
onde vejo nebulosas
emanarem formatos
amorosos-biônicos
geneticamente interessados.

 

 

 

***

 

 

 

woman

 

minhas sardas e rugas
minhas saias sem nesga
minha brancura com olheiras
você vem e me toma pelo que pareço

meus tons vivos
meus sons graves
meus dons inexplicáveis
você me retoma quando anoiteço

meu doce café
meu bom tempero
meu extraordinário pé
você me adora quando te teço

estou tua,
sempre que pela manhã caminho nua
na nossa imaginada e exclusiva rua.

 

 

 

***

 

 

 

corra lola

 

ela vestida
em vestido ela era
em corrida ela vestia
esvoava e ela corria de vestido e voava
voada de chão
cabelo, cabelo santo, era cabelo
era vestido vestida e cabelo pendia
um desespero lhe corria
nas veias gotas vazias corriam
suor e lágrimas, rápidas
corria de si, de se machucar
corria e perdia
lhe saiam cabelos
lhe ficavam nuas
saias saiam, pelos corriam
despencavam pernas e braços
peitos des-pe-da-ça-vam
flutuava aos pedaços
torpes pegadas lhe seguiam
o que sobrava dela
era ela, fumaça chamuscada
em reflexo na fachada
e ainda ela
ela no dia do hoje
ainda pingava
talvez veneno doce
talvez carne passada
era um vestido rendado
esburacado de frio
no meio fio corria, desequilibrava
ela morrida de corrida cansada

 

 

 

***

 

 

 

cozinha*

 

uma certa mania de fazerem das cozinhas, brancas
é preciso colocar cor, os cheiros têm cor
as casas de aluguel azulejam branco até o teto
dá uma mania de escrever e pendurar coisas
na casa antiga a torneira é uma avó que se lembra em alguém
as cozinhas são os quartos adolescentes dos adultos
algumas panelas dependuradas para exibir
aqui é uma cozinha
um pano cai aleatoriamente sobre o botijão para dizer
aqui é quente, sai fogo
as formigas em seus caminhos naturais
nunca os interrompo
aqui a natureza se desenha em fome
quando transamos na pia
fiquei com vontade de dizer que te amava
mas não sabia se era a mesma coisa que amar
o desejo de falar que ama
e depois veio
o amor
veio o desfile de moda íntima pela cozinha
e copo d’água pelado da madrugada
depois veio o desamor
ele não comia mais na cozinha
mas me comia
ainda há fome no desamor
a cadeira amarela agora um trono vazio
apressa-se um bolo no forno
enche a casa de chocolate
aquece por um curto tempo o oco branco e quadrado
dessa mania de azulejo frio
sentar à mesa
afundar estofado de cadeira
tantas e tantas vezes na rotina
até que o rejunte encarda mas continue re-juntando
o que nasce separado
vira carne de pele quente
cozinha é uma fábrica
depois se repousa na cama
e depois some com a fome
a cozinha é tão enorme
hoje trago a cama e moro nela
deito com as panela

 

*poema parafraseado de algum da poeta Carla Diacov sobre banheiro

 

Cibely Zenari é poeta, psicóloga e psicodramatista. Sua produção poética já transbordou os formatos tradicionais, como objeto poético e produção de cartazes escritos com sangue menstrual. O universo feminino é produto e produtor de sua pesquisa na escrita em seu universo anatômico e simbólico. Auto-publica zines de poesia chamados Tril’orgia – escreve, diagrama, costura e vende.

 

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123ª Leva - 01/2018 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Analice Martins

 

Desenho: Raquel Piantino

 

RUÍNAS

 

O que se decompõe
também conta uma história.
Outra:
pelo avesso.

As cores que esmaecem
têm brilho próprio.
Outro:
lusco-fusco.

As paredes trincadas
reverberam suas nervuras.
Outras:
cicatrizes.

O tempo que se contorce
se ergue em ruínas.
Outro:
natimorto.

 

 

 

***

 

 

 

LA CITTÀ

 

Percorrer uma cidade,
derrubar seus muros,
furar suas paredes,
arrancar sua pele,
até que,
núbil,
ela se curve
como o mapa
roto
que se dobra
e se guarda.

 

 

 

***

 

 

 

CROMOTERAPIA

 

Por todos os lados,
um verde incrédulo
atravessa janelas e paredes.

Come traças e ruínas,
deita luz
em corações silentes.

E grita uma alegria
espantalha.

 

 

 

***

 

 

 

AMPULHETA

 

Para o que tarda,
não há mais tempo
no célere deslizar dos dias.

Tempo não há para esperas.
O amanhã sempre chega
antes.

Parem os ponteiros.
Quebrem os relógios.
Clamem o tempo da gestação.

Não roubem da fruta
nem da flor
sua delonga.

Deixem que o remoto e o ermo
comam da estrada
a poeira.

 

 

 

***

 

 

 

ABRACADABRA

 

Na parede branca e lisa,
a realidade
escorrega
sem contornos,
inexistente.

Dentro da moldura,

na parede branca,
a realidade
se ergue
outra.

A que é entrevista

pela janela,
essa,
não a inventamos.

Mas a que aprisionamos,

em cores e linhas,
é a que nos inaugura
a vida e os desejos.

 

 

 

***

 

 

MAGIA

 

O traço na página em branco
cava a palavra,
que tomba em gruta
profunda.

O eco da palavra escavada
distorce o sentido.
Inventa uma outra
vertigem.

A página em branco é caverna
de paredes e ásperas entranhas.
Precisa da teima e da urgência
de quem a percorre.

A sombra do traço entrevisto
ganha a cor do desejo imaginado.
Eis a magia que propicia
a coisa.

A coisa que – sólida –
o desejo inventou,
e o traço riscou
na parede branca e muda.

 

Analice de Oliveira Martins nasceu em Campos dos Goytacazes (RJ), é Doutora em Estudos de Literatura pela PUC-RIO. Leciona Literatura Brasileira e Literatura Comparada no IFF campus Campos Centro e atua também, como professora e orientadora, nos Programas de Mestrado e Doutorado em Cognição e Linguagem da UENF. Pesquisadora e ensaísta, é autora do blog Rumores e Ruídos, no qual publica crônicas e poemas.

 

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123ª Leva - 01/2018 Janelas Poéticas

Janela Poética V

Adrian’dos Delima

 

Desenho: Raquel Piantino

 

A DANÇA

 

Há uma poesia
de tal tamanho
querendo pôr
meu corpo em movimento
Que saio
sem rumo certo
para a rua
por esta tarde
agradável de inverno
onde algumas folhas
balançam
orelhas ao vento

 

 

 

***

 

 

 

SUBURBE

 

A tarde tinha um ar grisalho ao terminar
Onde as lâmpadas mais altas
Acendiam cabeças
De vaga-lumes pálidos

Eram os pescoços desta cidade baixa
Que se esticavam nos postes
Talvez para ver além dos telhados
Presos que estavam na borda da calçada

Se pudessem se lançavam
Por cima do chapéu do morro
Para o céu estrelado que à noite
O teto das metrópoles usa

Para iluminar com os poetas
Os vultos que a lua projeta
Os vãos escuros entre os edifícios
E a sombra da miséria sob os viadutos

 

 

 

***

 

 

 

PHATO

 

Fato exposto (FRATura)
TRACtor feito feito TRACto
faTOR-faTURA

PRAto posto

R
uralmente
rURp

 

 

 

***

 

 

 

O VOTO DO SILÊNCIO

 

Escute um discurso contemporâneo

O verdadeiro nadador
é aquele que cruza os braços
diante da água.
A estrela mais bela
ainda está por ser descoberta.
O grito
que vale a pena ser ouvido é o do mudo.

Incorre em erro
aquele que diz o que acha que sabe
porque a verdade está escondida
e em constante movimento.

Se você repete estas frases, você tem alguma chance

 

 

 

***

 

 

 

OS PEIXES

 

Tocando com os dedos no vidro,
Os peixes dentro do aquário
Se movimentam, seguindo-os.

Ao contrário, com peixes dentro,
A um toque invisível no monitor
Se movem os peixes do lado de fora.

 

 

 

***

 

 

 

TURVBILHÃO

 

O ventilador olhou dois lados
Eu dormi
Ele virou pro outro
E enterrou fundo
As hélices pela janela
Numa nuvem de chuva

 

Adrian’dos Delima (Canoas, RS), pseudônimo para Adriano do Carmo Flores de Lima, é poeta, tradutor, teórico de poesia e compositor. Cursou Letras, habilitação Tradução na UFRGS, onde não se graduou em função de dificuldades econômicas. Publicou em revistas impressas e online, como a Germina, a Babel Poética e a Sibila. É autor dos livros “Consubstantdjetivos ComUns (Vidráguas e Gente de Palavra, 2015)” , “Flâmula e outros poemas (Gente de Palavra, 2015)” e “Aqui fora o olholhante (Vidráguas, 2017).

 

 

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123ª Leva - 01/2018 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Natália Agra

 

Desenho: Raquel Piantino

 

ESTRELA-DO-MAR

Para Lis

 

que espetáculo é a palavra crepúsculo!
labirinto-oceano
estrela cadente que valsa céu abaixo
segredos de água-viva
do navio projeto-me em concha, um par de mãos dadas
vieira-vênus:
……………………(explosão da aurora)
que palavra é estrela senão chuva?

 

 

 

***

 

 

 

LOVE SONG

 

quando você me aperta o coração
cortando da gaivota
o silêncio
da solidão, o frio
aprendo aos poucos os acordes de “La Vie en Rose”
te dou metade da palavra amor
e espero do caminho,
……….a outra metade

 

 

 

***

 

 

 

TROCO EM BALAS

Para Angélica Freitas

 

hoje troco quase tudo por açaí
e tranco a chave
hoje troco a vereda pela exaustão do caminho mais longo
troco a corneta pela flauta doce
hoje troco farpas por gentilezas
e deixo anotado na porta da geladeira
hoje troco quase tudo por bala
troco a dieta por milk shake
troco o reiki por haicais

hoje troco passeios em Vênus por meias voltas pela casa
deixo o vento ser uivo em meus cabelos-redemoinho
hoje troco quase tudo por nada
troco nada por açaí e balas
hoje troco arqueiros por flamingos
e ensino o alvo
troco a Via Láctea por farinha láctea
hoje troco quase tudo
e passo o troco em balas

 

 

 

***

 

 

 

TOTALIDADE

 

I

abrir a porta quieta
ouvir o choro violáceo da viúva
o coro do breu
aqui comigo
uma aliança
a infância revestida inflama
cintila o inconcebível fim
posto que o vento perturba
mexiam também as pétalas
separando-se do botão
diminuída em si a ternura
abro a boca que desde a aurora silencia

trago-o de volta
percebo num instante a demora
em um sonho revela-se
a carta da morte
a totalidade do corpo

 

II

a floresta de noite em
compasso
de longe a chuva
quebra gravetos
fora de mim, há
pessoas chorando de medo
a hipnose é um veneno
miosótis
há pessoas morrendo lá fora
muitas

 

III

o sol quebra por trás dos prédios
desmaiando em cinza inglória
a morte silenciosa

 

IV

onde estaremos amanhã?

 

V

deitados
na grama
olhando
a chuva
se aproximar
de repente

 

 

 

***

 

 

 

POEMA DO INFINITO

Para Fabiano

 

tâmaras maduras em teus quadris
corpo em flor de anis
escapa vivo num torso místico:
todo o profano
Aruanda é aqui
nesta cama

o tempo, naquele instante
um tear
vislumbrando no outro a própria estranheza
(carne e cios duros)
castelã com unhas de gatos
costas arranhadas
hímen e rins como animais em asas

falena volteia erguido libertino
não coma a borboleta
(veneno e lua lambem a mesma boca)
sinédoque doce Shiva
num toque de chuva
abraça vísceras sem palavras

por último, lâmina-lança
bruta serpente calada
(Aruanda, nossa eternidade)
éter, clarim
todos os sentidos
chama
e chuva

 

Natália Agra nasceu em Maceió, Alagoas, em 1987. É poeta e jornalista. Acaba de publicar seu livro de estreia: “De repente a chuva” (Corsário-Satã,2017).

 

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123ª Leva - 01/2018 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Fábio Pessanha

 

Desenho: Raquel Piantino

 

 

Caía.
Transpunha a solidez
dos fatos para a solidão
dos fetos.

Bati em retirada
ao ter cobertos os cílios
pela força dos ventos. Nunca cheguei
ao destino. Meus olhos extraviavam

o peso…….largo…….da..expectativa.

 

 

 

***

 

 

meus ombros emigram de mim para os pássaros
Manoel de Barros – Poesias (1947)

 

 

meus ombros transitam. partem
de mim à procura de pássaros, cujo voo
leva o vento nas costas e o dorso
se erguia forte frente ao contraponto
da velocidade. na trajetória das asas,
perdia-se o rumo das coisas e só restava
o que pendia do espaço entre o pescoço
e o resto do corpo.

os ombros estão presos
ao futuro dos pássaros,
são indícios
para o mergulho dos homens
na envergadura dos braços.

 

 

 

***

 

 

 

o que de mim se vê perde-se
nos estilhaços do meu nome

uma teoria acústica se erige
pela subjetividade sonora

da palavra que nunca serei
mas os retalhos recobram

a difração do eu atado
à imagem muscular

nascida do encontro entre a voz
e o estrondo mudo dos tecidos

 

 

 

***

 

 

 

e se de repente
se repetisse
o gesto não
como uma agonia
acostumada,
mas somente aquela
pontada
aguda que segue o ritmo
inalcançável das flores?

o tempo indigno
das mãos deita sobre
a face desconhecida
do espelho. a imagem
ali nascida observa
tudo que se reflete

e vê
na repetição ardida
dos olhos
o ineditismo perdido
das rugas.

quisera eu ter mais tempo
para me jogar naquela piscina
azulejada que forma uma linha
côncava perpendicular
ao espelho imperfeito da água
e assim surpreender
.meus mergulhos.

 

 

 

***

 

 

 

toco o muro. nele,
digitais encrespadas

pela sílica,
pelo cimento,
pelo tempo

que comeu a superfície chapiscada
em lances rápidos de movimentos
ensolarados.

cai a chuva.

tudo que é vivo se molha.

achei pensamentos
suspensos pelo carro
que passava em alta
velocidade e lançava
contra o muro minhas
mãos encorpadas d’água.

a chuva molhava
a rua e o movimento
rápido dos pés,
dos pneus.

não sei o que fazer
quando retirarem minhas mãos
do muro. ficamos ligados
como meninos achados na chuva.
era uma simbiose,
quem sabe.

 

 

 

***

 

 

 

POESIA
tinha uma janela escancarada no meio das costas por ela se previa a quadrangular visão do que se infiltrava radiante POESIA ERA OS BRAÇOS SE ENVERGANDO ANTE A BRUTALIDADE SURDA DOS VENTOS havia um fenômeno aquoso transbordando os olhos tudo era fluido e delirante nada se via pela secura das pálpebras POESIA ERA O ABRIGO DO ESCURO ENTORNANDO nas calçadas por onde andava colecionava a desorientação dos passos sempre encontrava chinelos trocados sempre eram mais calçados entulhados até o ponto de imprimir ansiedade nos adereços do chão POESIA ERA O QUE SE PERDIA tinha um POEMA escancarado no vão das costas tinha
POESIA

 

Fábio Pessanha é poeta, doutorando em Teoria Literária e mestre em Poética, ambos pela UFRJ. Publicou ensaios em periódicos sobre sua pesquisa atual, a respeito do sentido poético das palavras, partindo das obras de Manoel de Barros e Paulo Leminski. É autor do livro “A hermenêutica do mar” – Um estudo sobre a poética de Virgílio de Lemos e coorganizador do livro “Poética e Diálogo: Caminhos de Pensamento”, além de participar como ensaísta em outros livros.

 

 

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122ª Leva - 07/2017 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Vladimir Queiroz

 

Foto: Bárbara Bezina

 

VALADO

 

Existe ali ao lado
um buraco profundo
que se divide em temores:
um que berra e se oculta;
um que se transpõe
invade
vai ao longe
nas asas
no voo da catapulta;
um dominado
que rumina
o lume indigesta,
que passa pelo trato
como um jato obscuro;
um que transpassa o valado
de um pulo, em solavancos
mancos, de bengala
e se rala nos joelhos
no farpado embolado,
cumprindo uma penitência.
Sangrando sorri
um riso largo
nas mãos brancas
de um teclado melodioso,
vai mancando
arrancar os tocos
……………….trecos
…………………….tascos
da alforria prometida de um ser alado.

 

 

 

***

 

 

 

ABISMO

 

Resvala-se o louco pelas frestas,
respinga a borrasca pela testa
que lhe empresta o balanço do mar
para navegar sem rumo
à espreita do horizonte que lhe foge….

Um mouco que lambuza na fronte
as cores e segue pelas nuanças
à beira do abismo.
Numa mistura de cataclismos,
em desalinho cisma pela noite,
pelos ventos aguçados
de sentidos.
Adormece após os uivos
e gemidos.

 

 

 

***

 

 

 

LILÁS

 

A curva do rio é um anúncio,
prenúncio da correnteza.
Prepúcio tosco a desvestir o reinado
que coroa o bem-te-vi.
No jornal a manchete desregra a balburdia
criada no matagal:
torrenciais as chuvas estrondam e ocultam
o choramingo dos ninhos que repousam sob a várzea.
Nem se ouve o gemido germinado da gema
de um cristal puro que prende o grito de vida:
jaça a ir-se colérica no sopro do vento,
acompanhar a curva do rio que mastiga o bambual.
Indefeso caminho do leito
que na tormenta indigesta sucumbe.
Um obituário genérico nas mãos de um bérbere
hedonista, a moldar com as mãos a ânfora,
que recolhe a água que molha a margem,
que muda a cada instante
e flui:
pretérito sujeito de Éfeso em profecia.

Vem o perfume lilás aos olhos,
cai pétala por pétala o aroma
adubando a sola pé ante pé,
curtida de um couro denso, passa.
Uma rês que se desfez.
Não se compraz e segue,
fica o perfume estendido:
perdido jaz
…………….na praça.

 

 

 

***

 

 

 

MUXARABIS

 

Vejo a beleza que se espalha
por detrás da treliça
escondida,
a resguardar a formosura.
Só a réstia e o caminho lunar
podem beijar-lhe a face,
adernar sobre a pelve roliça.
Só a treva a rondar-lhe a boca,
despregar o véu da doçura.
Só os dois a comungar o amor,
entrelaçar os segredos.
Desvendar os devaneios,
os arquejos
e anseios guardados em jura.

 

 

 

***

 

 

 

TROMBETAS

 

As trombetas são ouvidas
para anunciar a estreia sem ensaio.

Vai pelas escarpas rolando o corpo
até despencar pelo barranco a alma,
e com calma repousar a crina,
lacrimejando.

As trombetas são ouvidas
para anunciar a estreia sem público,
e no púlpito desfazer as injúrias,
póstumas.

Vai pela campina forrar de madrasto a pele
que lhe permite o passo.
Despedir-se da culpa
que lhe mantém preso aos mistérios.

Sáfaro indigesto a berrar
ao Deus Hefesto:

Escrever com o ferro da forja a fala!

 

 

 

***

 

 

 

BARBA

 

A barba a crescer-lhe aos pés,
a tocar os caminhos nos passos
em desalinho que ficaram construindo o por vir.
A barba a roçar-lhe a mão, que pensa
segura o afago a gestar a ânsia da pele.
A barba, um invólucro de algodão
a ocultar a expressão das marcas
estiradas pelas macas que passam
e levam o tempo num suspiro,
desnudo de tudo,
num susto oculto da leve brisa
que roça a barba.

Um soluço a descer-lhe pela face
e mergulhar nos fios
escondidos na sofreguidão.

 

Vladimir Queiroz nasceu em Feira de Santana, Bahia. É membro do Centro de Literaturas e Culturas Lusófonas e Européias (CLEPUL) – Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Publicou os livros de poemas “Seres & Dizeres” (Pórtico, 1996), “Apokálupsis do Sertão” (Luripress, 2008), “Instinto” (EGBA, 2010), “Muxarabis” (EGBA, 2015), “Brasileirança” (EGBA, 2016), dentre outros.

 

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122ª Leva - 07/2017 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Rafaela Ferrari

 

Foto: Bárbara Bezina

 

Se do meu púbis nascessem asas, talvez esse peso no colo também aprendesse a voar,
talvez a necessidade de preenchimento com algo que molda meus pensamentos místicos necessitasse de somente mais um livro mítico para recuperar
esse vazio
essa completude de bebidas alcoólicas e fumaça enquanto fecho os olhos, e minha existência se resume a apenas um mexer da alma na caixa craniana, como se nem a gota mais pesada de chuva pudesse matar a sede
do púbis

sem luz
mas com esperança

 

 

 

***

 

 

 

o peso no peito na penumbra do quarto
o vestígio do vento nas veias
na minha orelha
no lago
O do ré mi fa das partículas subatômicas
nem a mais doce rosa de Hiroshima saberá cantar o adeus à pátria

 

 

 

***

 

 

 

Entre vidas e vindas
Descubro que a partida é a mais rápida das mortes
aos quarenta não sou
aos quarenta serei
mais pó do que hoje me descubro ser

 

 

 

***

 

 

 

gravidade igual empuxo
me encontro flutuando em mim mesma
pernas e braços algemados unicamente ao meu próprio ser
apnéia em minha própria consciência, que me afoga
que me sustenta
que me prende
que me algema
que me proíbe de conhecer o infinito pó das estrelas numa tentativa de conhecer o finito pó do eu.
Às pressas nado

em mim

 

 

 

***

 

 

 

Ausên…cia

 

Ainda bebia dos cachos ausentes , a curvatura do sorriso, o vai e vem do toque , o vai e vem da alma. Bebia do Abraço ausente , o calor dos átomos , o frio do vento , a beleza de um mundo sem sapatos.
Bebia do beiço ausente , a pureza do laço cardíaco , a sujeira do caminho , da passagem entre o corredor
e a estrada
perdida
encontrada
Bebia dos lenços a própria lágrima.
De todas as ausências , o cheiro era o que mais falava

 

 

 

***

 

 

 

Olhou pro céu
e reparou que o eterno é uma vulgar onda eletromagnética chamada de luz.
Com forma
amada
Conformada
Sem Theo.

 

Rafaela Ferrari cursa Relações Internacionais na Universidade de Brasília. Natural de São Paulo e parida na Avenida Paulista, começou a se interessar pela arte durante o Ensino Médio, em um curso para jovens escritores (CLIPE) da Casa das Rosas.

 

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122ª Leva - 07/2017 Janelas Poéticas

Janela Poética V

Ana Freitas Reis

 

Foto: Bárbara Bezina

 

Horas doces.
Um segredo, sem som, sem enredo,
Só silêncio segredado num espaço isolado,
Dentro a luz e movimento plano.
Nem um dano, nem um toque, nem uma dor,
O segredo revelador do que se tem suspenso, pontas de voo leve.
Sem greve, sem grave, sem agudos, Só os mudos que se querem em viagem de olhos abertos e fechados,
Sem machados, sem armas, sem pecados, só planície, só paisagem.
Horas de paragem.

 

 

 

***

 

 

 

O tempo suspenso do criador. Sabemo-lo do pássaro a elogiar a horizontalidade. Um gesto que amacia a possibilidade de um longo campo para fertilizar. Junto à montanha a urgência da geração. A homenagem ao minúsculo. O espaço da transformação. Como se apenas fosse necessário permitir que cada ponto pudesse encontrar o seu lugar entre os outros. Regressamos sempre ao encontro.

 

 

 

***

 

 

 

corpos emprestados
em roupas roubadas
de encontros furtados
entre mãos mentirosas
textos perdidos
em prazeres fingidos
bocas enganosas
entre sonhos adormecidos
lençóis mal lavados
em dormidas vazias
dos quartos alugados
entre noites vadias
radiografias marcadas
costelas partidas
pernas engessadas
carnes agredidas

 

 

 

***

 

 

 

Não quero nada mais óbvio do que os azuis de um céu escuro, do que uma casa abandonada e do que um livro que não se sai da capa. Não quero nada mais óbvio do que vozes de cigarros de prata, do que uma passadeira de memórias e do que ninguém que passa por essa estrada. Não quero nada mais óbvio do que uma janela partida, do que os ventos daquela despedida e da morte a assoprar no caminho. Não quero nada mais óbvio do que um carinho, do que ouvidos que se assobiam e de silêncios que não são óbvios.

 

 

 

***

 

 

 

O ser em contração
Sem combustão no interior
Devagar, bem devagar
Lento, bem lento
O calor
Dissipa-se pela luz
Cessa os movimentos
Fizeste de mim o ausente
Estou em vão

 

 

 

***

 

 

 

Vai
e vem
a morte
o ciclo
a espécie
tem contínuo
Norte
O ponto
O repouso

 

 

 

***

 

 

 

Sobressalto
Cada vez que os meus olhos amarrotados se fecham
O preto protege-me da luz
São camadas, muitas camadas.
A porosidade, a cor e a textura fazem parte do nosso solo.
Passamos por ele sem palavras.
Embaraço
Cada vez que os teus olhos espantados se abrem
No campo, a nitidez da profundidade e o encanto na cristalinidade da pedologia.
Esclareço-me
Cada vez que há olhos que se fixam na geografia
Perdemo-nos entre as cortinas meridianas maiores que o território.
Não consigo codificar porque
Distorcemo-nos
Cada vez que os nossos olhos se atravessam.

 

Ana Freitas Reis vive em Lisboa e é criadora. Cria programas de desenvolvimento de pessoas e poemas. É graduada em Psicologia pelo Instituto Superior de Psicologia Aplicada. Há 10 anos que é sócia-gerente da Progma, um projeto para o desenvolvimento de competências comportamentais, onde é responsável pela inovação dos programas e faz a coordenação e produção de espectáculos teatrais e programas de formação para outras empresas. Colabora semanalmente com o radialista Ricardo Mariano e o fotógrafo Alípio Padilha, no programa de rádio Em Transe, onde escreve parte dos seus poemas. 

 

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122ª Leva - 07/2017 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Teresa Coelho

 

Foto: Bárbara Bezina

 

estarei distante nos próximos 100 dias

 

[sem magia]
crio rituais para ser sozinha
como se a solidão
quisesse jantar
todas as noites
mas nunca chegasse a tempo
ela encontra meu corpo
recolhido
e
deita
em silêncio
como se cavasse uma cova
para uma multidão

desconhecida.

 

 

 

***

 

 

 

Construção

 

Este é o corpo
que funciona com
cordas suturadas
por andaimes
imaginários

o aço o sonho
o esquecimento
o sol o quadrado
o dia o estômago
o sexo o suor
as flores do outro
lado da rua
dançam todos
pendurados
sem grandes
promessas

—- Ouve o teu corpo
nascendo dos arcos inflamados
do fim de todo caminho
—- Ouve o teu corpo
nascer

Somente o que é possível
ser criado no vazio

– recitar poetas vivos
– boicotar o sex shop
– pular de viadutos esquecidos
– expectativas alcançadas.

 

 

 

***

 

 

 

a apoteose dos anos é o silêncio.

 

a última partida

quando soltei
a tua mão
descobri que nunca
gostei de futebol

perguntar sobre o jogo
era uma forma de
te amar
longe de mim
– hoje vago
como se estivesse
numa arquibancada
vazia –

[aquela escada
já desmoronou
pensei que tuas costas
fossem minha babel]

o último letreiro da partida:
“a felicidade é uma arma quente”

quando subi no ônibus
vi as janelas todas
decidindo
a loucura
o desastre
o grande desencanto final

rezei com todos os idiomas
do desespero
“protège moi
protège moi”

despi a cidade
com a violência
de uma criança

destroçada.

 

 

 

***

 

 

 

Isabel é codinome para partir

 

08h ela me acordou
08h30 eu assoprava o café
o café
doce demais
fraco demais
ausente
08h35 ela ajeitava a toalha da mesa
repetidamente
08h46 eu respirava mais baixo
09h ficaríamos em silêncio
perpetuamente

09h43 ela me comeu

11h57 eu ouvi o portão
gritar
entendi todas as cores
do mundo
todo o cheiro
desapareceria
todo o céu
seria uma parede rachando
uma rua em desencontro
um vulto do futuro

11h59 ela havia partido
definitivamente.

 

 

 

***

 

 

 

o outro lado do mundo alguém acerta sem saber

 

o amor devia ser assim feito preparar cuscuz
a gente mede a quantidade
com a xícara preferida
tem gente que nem precisa mais
mede pelo olho
pela boca
pelo cheiro
vai molhando aos poucos
e aperta
aperta
fica com a mão toda cheia de pequenos
cuscuz
porque antes a gente não podia
tocar
primeiro a gente molha
e desmancha as partes brutas

daí precisa esperar

porque o amarelo não vai brilhar
só vai absorver aquela água
não me pergunte como

a gente prepara a cuscuzeira
deixa uma outra água separada
porque o tempo vai fazer a gente
esperar
que essa outra água se transforme
mude de corpo
e encontre o cuscuz
para aquecê-lo

porque o amor deveria ser
o cuscuz na cuscuzeira
porque a gente sabe que não pode sufocar

o jeito que ele cai
nessa cuscuzeira
é determinante

não pode apertar desta vez
presta atenção
às vezes ele fica seco
às vezes ele fica molhado
às vezes ele vai embora
pelo ralo
porque

veja só

é muito complexo
encontrar alguém que acerte
pode ser a senhora da barraquinha de café
pode ser uma estrangeira
pode ser a sua vizinha

mas é muito difícil.

 

Teresa Coelho é recifense criada em Bonito (PE). Acredita no vulto dos desconhecidos, gosta de beber cerveja sozinha e lê poemas para as paredes. É graduada em Letras – Português/ Licenciatura pela UFPE. Publicou poemas na mallarmargens revista de poesia & arte contemporânea (RJ), no livro A TORRE: antologia de poesia confessional, cartas e diários íntimos (Castanha Mecânica, 2017), nas revistas Malembe (PB) Garupa e nos zines NAUvoadora (PE) Lambadaria (PE).