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122ª Leva - 07/2017 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Hilton Valeriano

 

 

UM TESTEMUNHO DE DOR

 

Há um horizonte humano de
esquecimento
onde palavras
não proferidas
guardam o silêncio
de ruínas e lamentos.

Um testemunho de dor
sob o céu da Somália.

Entre a esperança e o tormento,
ruínas e lamentos,

a história aguarda
seu julgamento.

Seu inaudito
veredicto

sob um horizonte humano de
esquecimento.

 

 

 

***

 

 

 

PRIMORDIAL

 

Como as oscilações da chuva
nas alamedas

Eu poderia lhe dizer
sobre o tempo,
sua inconstância,
de palavras ditas
e perdidas
sob o vento frio
de setembro

Mas tínhamos a certeza
dos pormenores da vida

das oscilações da chuva
das alamedas

onde
caminhávamos

lentos passos intercalados
como legítimos filhos
do século passado.

 

 

 

***

 

 

 

NOTURNO

 

As razões de quem ama
não são argumentos.
Estratagemas para sentimentos
no amor não se pode tê-los.
As evidências de quem ama
são fatos secundários
como as alamedas
no mês de maio.

Os amantes sabem
do improviso
– flor casual do destino.

É possível que o amor seja
mesmo sem a convicção dos teoremas.
Leve – como no sono se propaga
o sonho em Marta.

 

 

 

***

 

 

 

ALGO

 

Eu cumpro protocolos
sobre o túmulo das roseiras!

Eu cultivo solos
sem eira nem beira!

Meus sonhos?

Restolhos
de um vilarejo
abandonado

onde olho a vida
e digo algo.

 

 

 

***

 

 

 

LAMENTO

 

Onde posso estar
que não seja
em mim
mesmo?

Parada
tumulto

Avenidas
que se cruzam

Vazio crepuscular
de um vulto

Onde posso estar
que não seja

mendicante argila
sob o firmamento

pó e lamento?

 

 

 

***

 

 

 

PRIMORDIAL II

 

Eu poderia dizer
das circunstâncias adversas
da escassa colheita
do riso sem primavera.

Eu poderia dizer
da dor e da espera
do tempo sem fim
da noite deserta.

Mas seja em Atenas
ou Alexandria

O amor seria

E eu poderia lhe dizer
dos revezes da vida
das coisas que ficam
e das coisas que passam.

Como do tempo sem fim
da noite deserta

Nasce o dia
o riso
e a primavera.

 

Hilton Valeriano é poeta, professor, formado em Filosofia e História. Autor do livro de aforismos “Margens”, publicado pela editora Mondrongo em 2017.   

 

 

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121ª Leva - 06/2017 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Celso Yokomiso

 

Pintura: Cláudia R. Sampaio

 

GAIVOTAS

 

Palavras
não voam.

Se te entendo
não é por verbo.

É por vício
de planar

em teus vales
de voz alguma.

 

 

 

***

 

 

 

PASSEIO

 

alças vôo
no subir
dos pés

e pisas
como pólen
em pouso

faz
dos céus
teu convés

alvoroço
entre pássaros

 

 

 

***

 

 

 

SENTENÇAS

 

naquele nada ainda
coube uma tristeza

naquela queda ainda
coube uma rasteira

naquele incêndio ainda
coube uma centelha

naquela dor ainda
coube uma doença

coube ainda aquela
perda naquela ausência

naquele erro ainda
coube uma sentença

 

 

 

***

 

 

 

A TÚNICA

 

furtar um rosto
por trás da túnica

saber dos vincos
e das surras

colher nas rugas
a verdade

que lhe dói

 

 

 

***

 

 

 

O ERRO

 

calo a conversa
que vem ao caso

castro a vida
que vai dar certo

calco o veto
que vem a acertos

cedo aos erros
que vêm à vista

 

 

 

***

 

 

 

INSOLENTES

 

a sombra
que se faz
ao meio

a clareza do
centeio onde
a luz desvela

— teus seios
são um eclipse

 

Celso Takashi Yokomiso nasceu em São Paulo. Graduado em Psicologia pela Universidade de São Paulo. Mestre e Doutor em Psicologia Social pelo IP-USP. Docente da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Escreveu LIMITES (prêmio Festival Universitário Xerox do Brasil e Livro Aberto, publicado pela Ed. Cone Sul,1998) e HIATOS (prêmio Nascente – USP  e Editora Abril, 1999).

 

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121ª Leva - 06/2017 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Tassyla Queiroga

 

Pintura: Cláudia R. Sampaio

 

Vácuo

 

é possível convencer um corpo a entrar em movimento
desde o ventre
e se arrastar pra onde queira
o ponto que divide dentro e fora
é uma órbita
o umbigo é a primeira mamadeira
um oco enfeitado
que nunca se preenche
o buraco
precisa se manter limpo
o conceito de caule e seiva
nasceu da primeira
mãe
feita de instinto
em tempos tão remotos que nada tinha nome
cordão umbilical virou ponte
por onde o fermento entra
a coragem nasce na placenta
e não abandona
o umbigo
feito criança
precisa se manter limpo.

 

 

 

***

 

 

 

Tipo 9

 

da horizontal da cama à cozinha conto 12 metros
de poeira e coisas por arrumar. a vitrola
travada em Caetano denuncia: tudo
fora da ordem. me dissolvo em
preguiça, tal qual prego
enferrujado e da janela
do quarto vejo a
disposição do
vizinho
na varanda
varrendo e fumando
cigarro marlboro às 9 da manhã
acordar cedo no sábado é a nova revolução russa
eu ativista da paz
dissidente volto
a dormir mais.

 

 

 

***

 

 

 

Disparo

 

qualquer palavra é gatilho pro poema
o pensamento-som
viaja na velocidade da luz
e qualquer som é também gatilho
pra trilha sonora do poema
basta um batuque
pra se inspirar basta estar
vivo
e atento
como uma roleta russa
basta um disparo
pra que eu não durma
e o gatilho dos meus sonhos é o teu nome.

 

 

 

***

 

 

 

Terceiro andar

 

construir paredes com fendas
te dar a chave da entrada
empurrar os móveis pro canto
sala palco pra te ver dançar
bolero de frente pro espelho
arrumando a mala ao contrário
todo dia esquece uma peça
todo dia um convite pra aquietar no meu peito
o felino insaciável
leão rouco rindo de velhas piadas
roubando seu lado da cama
e nem existia lado antes da sua visita
você toma muito espaço
mal respiro
o cigarro na varanda é retrato
em preto e branco
do teu corpo
que eu rego todo dia
aluguel de uma história como essa não se paga
conjunto de talheres de prata
bibelôs de porcelana
mobília de dentes expostos
o muro frágil que construímos
entusiasma meu sarcasmo
distribui meu sangue em tua artéria
e veja: a matéria prima
dos encontros
é feita de saliva e cerveja
na calçada suja de um bar vazio
o assunto da conversa é teu nome
pronunciado pela minha boca
doze vezes antes da primeira vez em que você penetrou
a casa onde morava
a velha senhora tímida e seus gatos famintos.

 

Tassyla Queiroga é escritora paraibana, residente em São Paulo. Já participou de alguns saraus e reúne poemas para a publicação do seu primeiro livro.

 

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121ª Leva - 06/2017 Janelas Poéticas

Janela Poética V

Eunice Boreal

 

Pintura: Cláudia R. Sampaio

 

E me disse coisas

 

com o espanto
de quem não sabe
o que diz

Toda vez que tentava falar
Dos seus sentimentos
Sentia serpentes saindo
Dos seus poros
Em gritos contínuos
Enquanto apenas tentava pensar.

 

 

 

***

 

 

 

Elucubrações

 

Prometo apenas ser
Desenvoltura do laço.
Quando não, silencio,
Já não grito. Escuto
Labirintos que me vivem.

Vem! Se aceitas o meu lado secreto
Que nem sempre de encanto se mostra.
Vem! Tu, que sabes da Medusa,
Dos tempos, do grito…
Mas, alto, escutas o amor.

 

 

 

***

 

 

 

Partícula

 

Na origem do mundo
Quem sabe um neutrino
Que agora
Me atravessa
Também tenha
Vivido
Algum
Movimento
De todo
O início.
Talvez alguma espécie
Que me antecede
Tenha lembrado
Do primeiro
Sol nascente.
Talvez algum traço
Da minha pele
Teça o mapa
De todo
O caminho.
Mas
O que importa
A memória
Deste corpo
Físico
Se tudo
É sempre
Muito mais
Belo
Do que a gente
Imagina?

 

 

 

***

 

 

 

Tabuleiro

 

Dentro do jogo

De palavras

Nem todas

As peças

Foram

Dadas.

Dado

A essa

Partida

Nada volta

Tudo é

(A)I(N)DA.

 

 

 

***

 

 

 

Sentido

 

todas as estações revelam
os filhos e as flores dos fractais.
pedir licença ao novo e ao velho
não te invalida em nada
pois os sábios não precisam
se impor nos degraus imaginários.
há muito que o tempo sabe
todos dançam
circulares
mesmo enquanto se levantam.

 

 

 

***

 

 

 

Fronteira

 

O corpo é o único território
Que não precisa de cercas
Elétricas.

Mas também é possível
Você diz
Que alguns sons cheguem
Ao seu pé
Do ouvido
Como palavras-bomba.

Sim
Mas diferente
Da política
O corpo ainda está vivo
E permite reações diversas.

 

Poema-imagem de Eunice Boreal

 

Eunice Boreal é uma Poeta Multimídia. Começou os estudos da arte aos 9 anos de idade. Desde então, realiza trabalhos com a escrita, o desenho, a música, a interpretação e as filmagens. Além disso, une a sua prática artística aos estudos filosóficos, realiza palestras sobre a arte e também já trabalhou em parceria com o Cnpq. Parte da sua obra está presente na internet, em exposições individuais e mostras coletivas, como por exemplo a Vídeopoéticas II, que aconteceu no Centro Cultural São Paulo.

 

 

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121ª Leva - 06/2017 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Lilian Sais

 

Pintura: Cláudia R Sampaio

 

três da madrugada
amplia tudo

conheço de cor
o silêncio

palavras batem
no fígado

e estouram no céu
da boca,

mas não ultrapassam
a barreira

dos dentes
cerrados.

como larvas,

sambam sobre tumba
pretérita.

bebo uma taça
de vinho,

profundamente,

e meu olhar agravado
denuncia:

esse inventário
não está

completo

 

 

 

***

 

 

 

apenas por hoje:
não existir.

todo hoje é
provisório,

todos os dias
é excessivo.

os apelos são sempre
abandonáveis

mas quanto pesam as presas
do elefante?

as pálpebras pesam
o inverossímil

das manchetes.

apenas por hoje:
calar as urgências

e adormecer
(quase) em paz.

 

 

 

***

 

 

 

nascer em são paulo
sempre é prematuro,
começo da ponta
de um peso, buraco
que não é túnel,
que chuva não
inunda, que cheiro
de café não
preenche, edifício,
fístula, santo:
quanto maior a pedra,
maior o câmbio, traste,
a vida em ricochete,
uma cadeira vazia na sala,
uma corda que pende
(e a cortina
do quarto
está sempre
fechada)

 

 

 

***

 

 

 

não foi em troia
nem na rússia:
quando sucumbi
de grandioso só
havia mesmo
solidão & silêncio.
restava tão pouco de mim
que nem era possível
sair à rua.
três toneladas o cigarro
entre os dedos,
e nenhum choro ou grito
na despedida.
desisti de tudo, salvo
da saudade:
quando sucumbi
soletrei infância
em maiúscula.

 

 

 

***

 

 

 

todo dia acorda todo dia toma banho
todo dia escova os dentes todo dia a comida
e o barulho todo dia o despertador tiro certeiro
certeiro o tiro todo dia existir ser gente
existir todo dia deixa para amanhã todo dia
ler todo dia os índices mas não os capítulos todo
dia toma omeprazol em jejum toma fluoxetina dá azia
todo dia toma ácido valpróico pra ficar boazinha
todo dia toma risperidona que é antipsicótico
remédio de louco mesmo você toma
remédio de louco mesmo o psiquiatra disse
todo dia 2 mg antes de dormir todo dia
toma o remedinho que é pra você ficar boazinha filha
não achar que o quadro da sala tá te perseguindo
na rua todo dia não achar que você vai morrer
todo dia conseguir sair da cama todo dia
o dia começa com tiro certeiro todo dia
o despertador toca com urgência todo dia
todo dia hoje parece demasia todo dia a mesma coisa
nenhuma o despertador tiro de trinta e oito todo dia
todo

 

 

 

***

 

 

 

eis a vida: produzir,
primeiro apenas fluidos, dos olhos,
sistema excretor,
para depois mais,
produzir objetos, relatórios,
projetos, máquinas,
massa, fumaça,
nota fiscal paulista,
e inequivocamente produzir
também paixões, declarações de amor,
laços, lágrimas, silêncios,
e se nada mais der certo,
produzir poemas,
esse vício, essa mácula,
esse consolo torto
ao qual me rendo
enquanto em algum ponto
entre o quarto e o sofá
você exerce seu pleno direito
justo, inteiro e irritante
de não mais se lembrar de mim.

 

Lilian Sais é doutora em Letras e pesquisadora e tradutora da área de grego antigo. Paulistana de nascença e fumante assídua por opção, é também leitora voraz da literatura brasileira contemporânea e coeditora da revista Libertinagem. Tem poemas publicados em Mallarmargens, Revista Gueto, Saúva e Zona da palavra. Gosta de samba, cerveja e poesia e é defensora da boemia, de piadas ruins e das conversas descompromissadas de mesa de bar. Os amigos dizem que é uma peste, mas que cozinha bem. Ela nega.

 

 

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121ª Leva - 06/2017 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Helena de Andrade

 

Pintura: Cláudia R. Sampaio

 

Sangue

 

Essa urgência
acomodou-se ao redor das unhas
nas costuras de todas as roupas
paira como poeira levantada
Goles de ansiedade pela manhã
excretadas pela urina à noite
o motor é a esperança de que nada permaneça
mas os pés cimentados
Cinco litros bombeados
oxigenando cada partícula cismada
Universo derramando-se sobre a cabeça
escorrendo pelos braços
pingando dos dedos

 

 

 

***

 

 

 

Insones

 

É tarde
Enterraremos um ao outro
à sombra do esquecimento
Teu universo aflige
atordoa as certezas
Quisera a sinceridade ampla
É tarde
o tempo haverá de fechar as noites
Desejo que parta imediatamente
furte a ousadia
Aceito o desamor
à luz do passo do teu compasso

 

 

 

***

 

 

 

Pele

 

Atrai o que há por baixo da pele
Entre ossos e músculos
raivas incontidas
prazeres descabidos
Atrai o passado
martelado na cabeça
imoralidade dos erros
ideias frouxas
O que desejo está onde reside
a tua vontade
por dentre entranhas
Anseio pelo que vai atrás dos olhos

 

 

 

***

 

 

 

Trem em curso

 

O trem leva ainda que eu resista
Quando desce o morro desvairado
por pouco não me cospe janela afora
Cabelo ventado vedando a boca
fiarada adentrando as narinas, pintando o rosto de caracóis
por vezes, súbita felicidade
mas vertigem
Será implacável o tempo
há tantos cursos entrelaçados, vias cruzadas
se você fechar os olhos escutará a onomatopeia do riscar nos trilhos
A viagem, curta
morro a cada estação, deixando os meus pedaços
e colhendo cactos
certeza de que o florescer não dependerá de nós
Quanto à história, esta sim, cobre-se de nossa pele e suor
Impõe-nos um mundo e nos exige a coragem para movê-lo
O trem nos corta ao meio

 

 

 

***

 

 

 

Cavalo tonto

 

Esse desejo soa como cavalo em disparada
Trota tonto
Nada dito dará cabo ao frenesi
O coração à altura da cabeça
flor roxa tatuada no peito
e no sexo
O que fazer com a tua humanidade?
Não o selei, nem alisei teu pelo grosso
Arrebata meu sossego
atordoado, entorpecido
Arrebata-me

 

Helena de Andrade, fotógrafa amadora, montadora de vídeos, poeta, feminista. Trabalha no terceiro setor e é formada em Ciências Sociais, com Mestrado em Sociologia da Educação.

 

 

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120ª Leva - 05/2017 Janelas Poéticas

Janela Poética V

Ana Pérola

 

Foto: Angelik Kasalia

 

EL CAMINO

Para ler ao som de Chango Spasiuk

 

I

Esse caminho infinito
Que rodeia ausências
E só me traz uma saudade do que não

 

II

Mal amanheci
Nem me avistei hoje
E já te penso

 

III

O espelho vazio
E na banheira do meu peito
Inundação

 

IV

Percorre no meu corpo
Adentra a intimidade
É só a água do chuveiro, Querida

 

V

A memória, mais tarde
É uma cabeça encostada
Na janela do ônibus

 

VI

Enquanto a vida passa lá fora
O amor em estagnação:
O meu melhor fado.

 

 

 

***

 

 

 

CONFISSÃO

 

Um barulho na cozinha
A desconfiança de uma descendência italiana
Meus pais, um caos
Quebrantes
Eu, caquinhos.

 

 

 

***

 

 

 

A CASA

 

Esse fantasma
Que me atormenta
E desmorona no meu sobrenome.

 

 

 

***

 

 

 

CATARSE

 

Aquele copo cheio de veneno
O gesto mal intencionado
O corpo tomado por crença.

O espinho liberta.

 

 

 

***

 

 

 

ARMAÇÃO

 

Essas espumas que explodem
As rochas cobertas pelo desejo
De tanto (a)mar.

Sem nenhuma dúvida
Se deixar molhar.
Depois secar, desconheço.

 

Ana Pérola (RJ – 1988) mora em Florianópolis, é poeta, fotógrafa, tem ensaios publicados na Revista Ellenismos, exposição fotográfica e conto na Revista Cruviana. Além de escrever em redes sociais e em seu blog Sentidos, é colaboradora no Poesia: Falsidade Ideológica  e no projeto infantil Para Qualquer faz de Conta e atua também na área de Recursos Humanos na qual é graduada.

 

 

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119ª Leva - 04/2017 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Morgana Adis

 

Arte: Samuel Luis Borges

 

[indizível]

 

Como contar o que devo?
Da sordidez dos beijos.
Da miséria, da fraqueza.
Das línguas que espalham espaços- espasmos-líquidos
por onde podem escorrer as paredes
viscosas e róseas, ignorando tudo,
em órbita desgovernada,
e com o peso na linha tênue?

 

 

 

***

 

 

 

[juro]

 

Continua a vontade
de saber: sem
machucar os peitos do pé.
Na convicção ínfima de
imediato é extinta,
a mente.

Sentir o estalar pelos
ecos pintados nos ossos.
Triste em sensação,
persiste pelos séculos…
em sobras de tinta.
Amém!

 

 

 

***

 

 

 

[imaginário]

 

Atas meu cavalo alado
às nuvens secas e parcas.
Rendo a parte mais fraca
ao difuso, e no movimento
me junto às patas.

Patas que, em repente estranho,
cavalgam plenas e fartas
o desejo escuso do uso da faca,
cravada no exato momento
para que de mim partas.

 

 

 

***

 

 

 

[tatear]

 

Proponho sentir às cegas,
palpitar: sem desfecho!
De súbito, o arrebato
da silenciosa vigília-terna,
ecoa em repousos arredios
– na caligrafia que
se fez soar.

Miúdas cintilâncias
recortam a ausência
que se impõe sem dor;
aos corpos-folha: flores
e aromas presentes:
sob crianças noturnas
só-risos ecoados em fé.

Da seta cravada na espinha
lateja um unicórnio insólito.
Mergulha em sombras
transparentes ao fazer
da teia o orvalho
que quebra o espanto:
com acalanto nervoso.

Em piscadas bem abertas
recobramos a vigência
dos tempos retorcidos.
São constelações de letras
explícitas: transbordadas
pelo nado tateado, do vagar
ensandecido-errante.

Retido o encontro: sanar
em falares notívagos
delirantes, ínfimos percorridos,
enraizados no raro:
em pleno pulso
do absurdo-mágico:
quimeras do inerente-errático.

Presságio estático
caiu entre as nuvens: que
fitam angústias desde o véu
da caverna confidente.
No centro dos sempres
estamos libertos da
instância, mas não da infância.

Por dentro – o inequívoco:
convicção primal e surda
que impõe ritmo e cor
ao ser-sentir. Estampa
nas veias o cósmico grito de duas
esferas feitas do mesmo pó e
das constelações dos medos.

 

 

 

***

 

 

 

[quero ser]

 

De súbito, uma mui
pequena falta de atenção,
provoca o toque inestimável
entre elementos então
transmutados em respiro
sem piedade.
Quem disse? Meu corpo…
em resposta à língua
que bem preciso entender.
Como se pensa algo que
nem corpo é? Onde o
nunca é matéria! Tem enfim
uma centenária no jardim e veste
as sandálias da compaixão, pois
só assim consegue pisar o chão.
Compaixão por quem?
De mim é que não.

 

Clamo por concentrar
nas mãos o bem que desejo.
Seria como tocar o nada. Olhar
fixamente as lambidas de luz que
emanam o pulso intermitente e intuir
a força que emerge de todas as veias
conjuradas nas artérias,
num latejar mínimo,
que passaria incógnito se não fossem
as arteiras meninas dos olhos que,
pensativas, seguem de perto
o movimento da carne
que envolve o vulto oculto
e sem pele. Inconveniente
momento de perceber que
basta oferecer o intento para
escorregar pelos sistemas de
sóis e luas invertidos,
reconfigurados e ativos, recuperados
pela calma do respirar inteiro e… ser
ar para tocar as claves do íntegro
sabor e do suave brincar
das pontas.

Morgana Adis é a assinatura de Claudia Aguiyrre com as letras. Leitora antes de nada. Deixou de ser jornalista e professora de cinema, por uma vida mais integrada aos quatro elementos. Mantém-se documentarista e editora. Em ambos ofícios,  sente que o importante é ouvir. Orientada a escrever com mais regularidade pelo poeta Leopoldo Comitti o faz entendendo cada vez menos de tudo: desta vez com mais propósito. Nasceu em Santiago do Chile e vive o Brasil há quase quarenta anos. É uma das idealizadoras do Epigrama Coletivo Editorial e do Koletivo Artístico Nukanal.

 

 

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119ª Leva - 04/2017 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Helena Zelic

 

Arte: Samuel Luis Borges

 

meninas

 

faz tempo
um poema que expresse
amor
só o amor, sem tempos duros
sem pratos quebrados na parede
e a angústia das lâmpadas

pensei
que estivesse o corpo intacto
que já não sentisse nada mas
o amor, esse escafandro
escancarado
crescendo as plantas marinhas

a gente deu as mãos
pensei de brincadeira
não consigo escrever esses versos
sem pensar em seu rosto
e seus cabelos
alguma coisa aconteceu
no meu organismo
não consigo imaginar alguém
que leia este poema
e não veja nele
o seu rosto e seus cabelos
meu rosto
meus cabelos.

 

 

 

***

 

 

 

cidades perdidas

 

existe são paulo e as multidões
a garoa e a chuva ácida
sobre os capôs, chapéus e cabelos.
aquela são paulo que,
dizem,
não existe mais
existe em santos
nas praças do centro
e nos tijolos das velhas indústrias
em meio ao fogo
dos despreocupados.

não tenho conhecimentos
químicos ou de vida
para saber se o tijolo,
no fogo,
derrete
ou vive.

minha tia anda pelas ruas
de santos
e se entende nas calles cubanas.
as vielas de salvador
têm as formas de Cuba,
para ela
todo lugar é a saudade de La Habana
e das casas de andares altos
que o tempo cortou no meio
para caber mais habitantes.
por fora, as portas são altas,
ainda são.

nenhuma cidade deixa de existir
quando se torna exemplo
dos postais, das réguas
da arquitetura
das utopias.
a memória nunca pode ser
armadilha das mudanças.

 

 

 

***

 

 

 

os clássicos

 

quem sabe quais seriam
as palavras de Safo
censuradas pelo tempo
[pela igreja católica]
abarcadas como ilhas mudas
pelos colchetes e chaves da história?

quantos beijos na boca
quantas bocas
[quantas? como?]
a despeito de menandro e apolo?

o que sussurravam as mulheres
nos ouvidos?
um mundo em festa.

os fragmentos das letras
são lacunas do encontro
entre uns corpos e outros.

há amores como há embarcações
e somem no mediterrâneo,
enormes e invisíveis.
[um mundo em festa!]
mais que ilhados,
subaquáticos.

 

 

 

***

 

 

 

um narrador que grita

 

nunca, nesta vida ou nas próximas
poderei escrever como uma poeta portuguesa.
posso imitar os versos grandiosos
de uma poeta portuguesa
posso copiar os sentimentos precisos
de uma poeta portuguesa
posso falsificar documentos
como faz a decadência das fronteiras
sem pátria e sem trabalho
duas casas e nenhuma.

posso dizer que sou
e assim chegar ao limite
convencer alguns católicos
não-praticantes do ofício da fé
andar nas ruas como uma poeta portuguesa
erguer talheres como uma poeta portuguesa
falar dos mares e do amor infinito e súbito
como o faria uma poeta portuguesa;
como se sozinha o detivesse
no centro do corpo
contra os monstros marítimos.

posso fingir que compreendo e que me espanto;
posso escrever como uma subdesenvolvida
a fingir que conhece a solidão do hemisfério norte
e os cânones das bibliotecas
que nomeiam ruas, escolas e tentativas.

posso esculpir um pássaro e narrar seu voo
como se voasse.
como se existisse para tal fim.

posso contar as pérolas
dos pecados da ave maria
(em segredo sepulcral).
mas nunca, sob hipótese alguma,
poderei escrever como uma poeta portuguesa.

são outros os meus heróis.

 

 

 

***

 

 

 

um lugar no mundo

 

que aquele rasgo na noite
seja um astro satélite
parece impossível

a distância tamanha
aproxima água e minério
a perder perspectiva

no meio do caminho
um abismo de sombras
pedágios, cavaleiros e dragões

o medo de altura
da humanidade visível
nas pedras que cortam a China.

 

 

 

***

 

 

 

mitos

 

como um país que não se esquece de seus mortos e seus vivos
como um povo que resguarda a língua anterior às fronteiras
porque são eles mesmos a língua,
a língua é eles
como tua capacidade de amar novas pessoas
e reconhecer perfumes antigos
e querê-los, porque assim respira mais.

como a dura revolta de nossos ossos,
como as multidões que se levantam,
tu tem direito à tua história.

 

Helena Zelic tem 21 anos, é estudante de Letras, comunicadora, militante da Marcha Mundial das Mulheres, coordenadora de literatura da revista Capitolina, poeta e autora de “Constelações”, publicado em 2016.

 

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119ª Leva - 04/2017 Janelas Poéticas

Janela Poética V

Luís Perdiz

 

Arte: Samuel Luis Borges

 

MIGALHAS

 

os monumentos são zoológicos do medo
violentas cortinas rasgam a noite

preciso de distinção nos dentes
instantâneos que não mordem

………..o jardim de apuros
onde nossas garras desaprendem o espaço

 

 

 

***

 

 

 

TEMPLO

 

nunca intacto
repouso nesta superfície de cascalhos
sonhos aprendidos ao hálito da terra
lágrima primata incrustada na labareda
planície viva do princípio
tarde marmórea por onde encontro

suas coxas quentes
secretamente solares

 

 

 

***

 

 

 

A HORA DA PANTERA

 

I

……………o meu amor meu bêbado amor que ruge
na órbita tenaz de cabelos e orquídeas
no subterrâneo vicejante da floresta do tesão
a argyreia dos olhos trespassa a senha dos ciclones
……………desarma o fogo e o laser dos saguões cinéticos
e com seu batom negro devora o próximo planeta

 

 

II

………….o meu amor meu vertiginoso amor que salta
pelos viadutos abismos arvoredos farpas
dilacera o aro do tempo com patas atômicas
arranha verbos vorazes na espinha das almas
……………ressurge ofegante no sofá-cama escarlate
luzente entre gozo e caos

 

 

 

***

 

 

 

BANQUETE

 

estirados sobre uvas e fogueiras
oferendados aos olhos do dragão
adormecidos em tambores e maços
devorados na miragem nupcial da ordem

as fábricas nas unhas crescem

 

 

 

***

 

 

 

UMA PRESA FÁCIL

 

o mínimo possível
estancado com zelo
ruidoso fêmur

pesar o pesadelo
de tantos ossos
a feroz visão
em limiares doces

nervo e seiva
laborioso istmo
maravilha consternada
porém viva

uma presa fácil
habita aquela antiga e frágil cama
onde os livros doem mais

 

 

 

***

 

 

 

INSTANTE ESTRANGEIRO

 

a tradução nuvem diamante em língua
uiva ausente sobre o telhado escandaloso

convites dispersos ressonância incógnita
gestos indecifráveis de rubi tráfego

tração fútil aos volts de neurônio
retrógrado na distância

trilhos devoradores
despedida de maquiagens áridas

navego nu em mim
estrangeiro náufrago

 

 

 

***

 

 

 

NOS CORRIMÕES DO SILÊNCIO

 

enxágua esta espera
desespera frenética
aranha indeferida

do impresso
chovem granadas

 

Luís Perdiz é poeta, compositor e editor do portal de literatura “Poesia Primata, voltado para a degustação e difusão da poesia brasileira contemporânea. Faz parte do projeto musical autoral “Estranhos no Ninho, do coletivo Ocupecompoesia e colabora regularmente em revistas de literatura e antologias. Com poemas de Saudade mestiça (Patuá, 2016), seu livro de estreia, foi agraciado com  menção honrosa no Programa Nascente USP. Atualmente vive em São Paulo.