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154ª Leva - 02/2024 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Karine Padilha

 

Foto: Marcelo Leal

 

Quase

 

Estamos prestes a alcançar o fim, num suspiro de quase nunca
Pegando fôlego nos dias de quase lá
Nos sonhos que vem tarde para os sonhadores
Onde o tumulto que fala
É também o que faz calar.
Nas linhas de chegada,
Nos postos de largada,
Um sufoco rumo ao quê.
Estamos prestes a alcançar o nunca, num suspiro de quase fim
Pegando fôlego nos dias abandonados
Nos sonhos que vem tarde para os sonhadores
Onde a mão que toca
É também a que perde o tato.

 

 

 

***

 

 

 

Tudo se consome

 

Negam-nos sempre um pedaço
Falta-nos sempre uma coisa
Extraviam-nos sempre uma parte
Tamanha dor, arrancam-nos sempre um membro:
O tempo.
Os brincos nos assoalhos
Os descuidos
Os anos
Os erros
Esperamos aflitos
Que se desfaçam
Que Deus perdoe
Que não se percam.
Tudo se consome.

 

 

 

***

 

 

 

O que se inscreve também se esquece

 

Deixar escapar
Pela ponta dos dedos
[como quem luta contra a lembrança]
Uma pista qualquer
Que leve de volta
Ao começo do poema:
Sonhar de corpo inteiro.

Sonhar
De corpo
Inteiro.

 

 

 

***

 

 

 

Aqueles que caem

 

Eu escrevo para os homens que não sabem ler
Mas desconfiam
Do que dizem os poemas.
Eu escrevo porque tenho urgência de enunciar aquilo que a palavra não segura
Que não é letra nem vocábulo
Que não cabe no espaço
Que é o outro não visto, e bem conhecido.
Eu escrevo porque há um declive não mapeado no mundo
Não um lugar, mas um jeito de cair
Que derruba os desconhecidos a cada segundo
Eles desabam pra sempre
Desabam a sós
Sem ler os poemas
De boas novas
Por que os poemas
de boas novas
Não são feitos
para aqueles que caem
E é, também, porque posso cair,
que eu escrevo.

 

 

 

***

 

 

 

As coisas do mundo

 

As coisas do mundo estão todas espalhadas cercadas, escravizadas.
Foram cedidas e foram negadas
Negociadas
Esquecidas
Escondidas
Empoeiradas
Incendiadas
Esbanjadas
Suplicadas
Negligenciadas
Os donos das coisas do mundo
A troco do giro da manivela
Apossaram-se do tempo
-Que passa
Da vida
-Que passa
Agarraram-se com as mãos à terra, ao umbigo, às suas mulheres, aos seus pertences, aos seus chapéus e à ventania,
Porque do outro lado do muro os puxava a morte.
O cabo de guerra da imortalidade:
O desespero de provar-se vivo pelo peso que se carrega
O pavor de sentir-se morto pela entrega.
As coisas do mundo,
Toda e cada coisa,
Consumida
Consumada
Não salva o homem do fim do homem
Não salva, no fim, o homem de nada.

 

 

 

***

 

 

 

Distâncias

 

Quão seguro é percorrer a distância de um homem
E que aterrorizante é chegar ao fim do percurso.
Um trilho de trem comprimido por um incidente.
A proximidade de um longo intervalo de tempo.
Um fio de vida
Onde a morte pendura os sapatos.
Tentamos enxergar do outro lado
Tentamos atravessar os lados,
Mas todas as pontes cedem sobre os abismos.
Nunca
Corremos
Por essas
Estradas
Que são os outros.

 

 

 

***

 

 

 

Coragem

 

Enfrentarei a metodologia
A burocracia
As reuniões de trabalho
As oposições políticas
As exposições artísticas
O dólar
A cor dos olhos
O ego
O desencanto
O desacato
Por uma bagatela de quase nada aceitarei de bom grado
A confusão que me causa a felicidade.
Não minto que perdoarei as mentiras
E as dores
Que o ser humano provoca sem admitir que lhe sejam infligidas.
Sobreviverei ao homem que deseja casar-se comigo,
à omissão de minha mãe
Aos golpes de desafeto
Ao tiro disparado em vão contra mim
Pelas mãos de meu melhor amigo
[esfolado pelo ombro daquele que me odeia] Serei acusada
Perdoada
Santificada
Esquecida.
Seguirei em frente, enquanto louca
Sem vias de ida ou retorno
Cheia de ter com o vazio
Disputando um braço de volta.

 

Karine Padilha está no espectro da dupla excepcionalidade (autista com altas habilidades), é artista visual e neuropsicóloga brasileira. Ao longo de sua trajetória escreveu para o grupo editorial multimídia de poesia brasileira Aboio, para a revista nacional de arte e cultura Pixé, e para a revista internacional de arte e cultura Trama. Seu trabalho integrou mostras nacionais e internacionais, entre elas Universidade Federal de SC – UFSC, Art Lab Gallery (SP), Salon Caw (Portugal), CAM (Espanha). Com uma escrita contemporânea, inspira-se em autoras como Ana Martins Marques, Aline Bei e Matilde Campilho para explorar temas existenciais e psicológicos. Seus textos e produções visuais aprofundam-se em questões de identidade, memória, vulnerabilidade, e efemeridade, criando uma atmosfera nostálgica e introspectiva.

 

 

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153ª Leva - 01/2024 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Julia Sereno

 

Arte: Zô

 

teste

 

meu corpo faz perguntas o tempo todo
mesmo sabendo que as respostas estão escondidas
debaixo do tapete que meu coração esqueceu
na sala de espera.
a visita não veio mais uma vez

 

 

 

***

 

 

 

espelho

 

juntou todos os caquinhos

um
por
um

e com eles cortou o silêncio dos dias

que calados não faziam mais sentido

 

 

 

***

 

 

 

rota

 

suspiro de medo
e alívio

ou será apenas meu ar
comprimido
que escolhe
em silêncio
deixar meu peito doído

e levar um pouco
do tempo perdido

para onde eu consiga
respirar

 

 

 

***

 

 

 

ano-novo

 

fincou os pés molhados no passado.
levantou os braços dormentes de aperto.
abriu as mãos secas de carinho.
fechou os olhos cansados do ruído

 

 

 

***

 

 

 

meio

 

desloco-me e
atravesso

do avesso
retorno e
parto

mas não preciso
chegar a lugar nenhum

o entre-lugar é meu

 

 

 

***

 

 

 

ela

 

a dor escreve o texto
e logo se desespera

desalinhando os cabelos
descamando a pele

a dor exige ser lida, recitada,
engolida

e depois reescrita
pela autora do não

 

 

 

***

 

 

 

pressa

 

hoje a minha espera acordou inquieta.
saiu apressada sem se olhar no espelho.
até o café esqueceu de fazer.
queria encontrar as pistas antes do fim do dia.
mas elas estavam cansadas e não disseram nada.
seguiram caladas sem olhar para os lados.
pois o caminho de casa mudara outra vez

 

Julia Sereno é natural do Rio de Janeiro, mas vive em Lisboa desde 2020. Doutora em Literaturas de Língua Inglesa pela UERJ, é professora e tradutora. Publicou o seu primeiro livro de poemas, “As Outras em Mim”, em 2022. 

 

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153ª Leva - 01/2024 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Camila Passatuto

 

Arte: Zô

 

Enquanto recolho o que é real e apinho esquissos de corpos inconvenientes, a ronda cinza do alheamento contabiliza as dores.
Apesar da infame fuga ministrada a cada conjunto vil de tempo, entendo os meios poéticos dos dias.
Trancam meu eu.
Libertam, dizem,
O que me é espírito.
Café, clozapina, saliva e mulher.
Envolvo verbos por aliterações travadas e ninguém se importa.
E tudo faz sentido
Quando os pulsos
Doem
No apertar
Das cordas.
Recolho o que é real e turvo, amor. Socorro.

 

 

***

 

 

Rupturas, cores quentes, risos hiperbólicos, pálpebras arrancadas.

E continuavam a galopar pela cidade, sem objetivo de ser. Dedos mornos, pele azul, olhos secos, crianças fatiadas.

E a cerveja descia travada, a malandragem apoiada em solavancos de grades-janelas, nada tinha rumo, rima, remo ou graça.

Alguns diziam sábado
Eu gemia quarta
Foi-se dia de fim
Gritou a moça.

Mais um dia.

 

 

 

***

 

 

 

Você disse que meus olhos de exu danam as vielas dos que passam por mim.
Eu recolhi o troco que espalhava um prateado tímido no balcão estreito de um bar caro. Retruquei em dar o último gole no drink exagerado e pueril para meu paladar.
Escorri as mãos para o alto, no percalço de matar a gravidade em ti.
Você, beata dos cálculos imaturos de fim de mês, vênus assustada na cela dos cães raivosos, imaculada na nudez dos seios firmes. Disse que meus freios falham sempre na última curva, no verso exato de salvação.
Os tiros, que nascem no crânio de alguém, longe daqui, batucam em meus tiques nervosos na perna esquerda. E ninguém abençoa os filhos do medo em noites mal cultuadas.
Você insiste em imprecar os maldizeres ao meu olhar.
Das culpas vermelhas que estendo na varanda, os véus que cobrem o descontrole matinal é o que me alinha ao mundo.
Desculpa.
Abandono o lugar que me entedia.
Atravesso ruas avulsas, como quem desbrava o próprio peito à procura de alma.
– Meus fantasmas se afogam na minha bebida. Versam dos meus gritos o gênesis de uma nova era. Ninguém escuta. –
Você disse que meus olhos de exu enxergam a morte em tudo, minha linda.
Ela. Morta em 1937, La Paz. Ainda não sabe do desencarne.
E diz, ao desviar dos carros, que sou sua guia.
Somos a literatura do caos
No ventre das pontes
E gosto de chão
Na boca quebrada.
Na paz
Ralada
Na fuga
Dos torturadores.
Extremos e roucos.
Laroiê,
Meu amor.

 

 

 

***

 

 

 

O zimbro inocente dos quereres, por maviosidade do caos, fez germinar, no antro da civilização seca, um olho em broto, um encabeçamento de era.
E as crianças despertaram mais cedo, os dentes rasgaram a fome de pão, pés tortos marcharam liberdade e senhoras se tocaram rubras em praças públicas.
Um olho em broto, um encabeçamento de era.
E ela fumou um último cigarro, afastou as cortinas como se fossem mechas de moça, adentrou um fino espasmo de nós e foi correnteza por toda cidade.
Meu olho em broto, meu encabeçamento de paz.
E as crianças abriram caminho
E meus poemas ruíram o mal
E tudo era ritmo, aliteração,
desculpa pra mar.

Flufenazina e um tanto
de Rhapsody in Blue.
E tudo começa, amor.

 

 

 

***

 

 

 

Lama

 

Não quero escovar tempo
ou mesmo injuriar
tuas pernas
alguém tacou fogo
na lixeira da esquina
e vi deus
comburente
afetado
descalço entre as moscas
agitadas pelo calor.
– é outono –
Não quero bravejar
sou cria à toa
de condoimento
exagerado
e quebro os dentes
amarro os dedos.
Ontem
alguém lambeu
minha ira
e vi o diabo
exaltado
colostomizado
aformoseado no brilho
dos destituídos.
Hoje
fodo a testa
no barranco
– é outono –
minhas meninas,
no sustentáculo
de choro, miudam
acalmo o tempo.
escovo palavras frias.
é dia
após dia.
Alguém tacou fogo
na lixeira da esquina…

 

 

 

***

 

 

 

O monstro corre no tosco riso salivado, nos olhares de homens afervorados pela maldade infértil do comum e por vapores de ideias abortadas em assembleia geral.
Oremos.
O monstro instala seu verde ruído em vozes metálicas, nas vagas salinas do bairro médio de uma cidade média capada à miséria de capital lúcido.
Compremos.
O monstro fode a lógica dos desavisados no ritmo de um roteiro aborrecível no ato lânguido de poder.
Morremos.

Postula o que te é rebelde
No verso seguinte
Da escrita
Laica
E mata
O ignavo
Da língua cortada
Pelo homem histérico
Liberta-te
O verbo
Morto
Na manhã
Do teu fim.

Voltemos.

 

Camila Passatuto (1988) nasceu em São Paulo. Autora dos livro “TW: Para ler com a cabeça entre o poste e a calçada” (Ed. Penalux, 2017) e “Nequice: Lapso na Função  Supressora”. Escreve desde os 11 anos e desde 2007 participa de diversas antologias e revistas culturais com seus poemas e textos.

 

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153ª Leva - 01/2024 Janelas Poéticas

Janela Poética V

Christian Dancini

 

Arte: Zô

 

ELEFANTES SONÂMBULOS

 

Não consigo esquecer a faca que
……….rompe o papel para além do obscuro.
……………………….Meus poemas
são a subversão palpável
……..de elefantes sonâmbulos, criando
vasos sanguíneos telúricos.
…..Eu devoro santos e malditos e os trituro em palavras, quase como
…………………um pássaro azul perdendo seu fôlego.
………………………………….À noite, um amálgama de interjeições:
………………………….meu deus! Quem sou eu?
…………..A música é azul, os mares, verdes; inclino minha
………………………………………………………….cabeça em vertigem,
oceanos transbordam da minha
………………………………garganta forrada de espinhos.
……………………………O poema é para ser, longe do sentido.
………………O poema deve existir e alcançar quem precisa.
……..E eu sou um poema tremendamente ensandecido, incontrolável,
tal qual deuses selvagens,
………..que impelem aos milhões para fora da ejaculação precoce
………………………………………..de um espírito em desordem.

 

 

 

***

 

 

 

CRESCER PARA DENTRO

 

Quanto mais cresço para dentro,
………..maior é a luz que eclode do fim;
maiores e mais fortes os ventos
………………— rajadas de fúria e caos.
Porque teus ombros largos,
……….que emudeciam suor e fogo,
……………….embruteceram a casca de uma árvore.
……………………….Porque é um lírio tombando dinamites;
um tornado sem ferro nas estruturas.
………..Abreviar a palavra na velocidade da vida.
Jorro, pelas retinas, malmequeres convalescentes que pretendem
………………oscilar o sereno inquebrável das montanhas.

Bebo um café. Acendo um cigarro.
……………………………………Mais um dia se queimando na ponta
chamejada e cinza do fumo.
……….Passo a caminhar em passos redondos, circulares;
……………….de ponta cabeça, seguro o mundo com as minhas
……………………….mãos, mãos que ardem,
mãos que pesam, mãos enrugadas de tempo,
………desprovida de som, sós.
Até que encontrei teu ermo ser,
…………..vagando pela tempestade do deserto.
Teu corpo inebriante.
…………………..Tua voz intumescida. Tua pele fina, camada de tecido
que cobre a alma. Teu pé, branco, é incapaz de sonhar.

……….Então agora quero inserir a infância na cólera que se expande.
Rosnar para o perigo;
……..dividir o peso do medo com o expansivo amor.
Procuro na madrugada,
…………………………bitucas para acender.
………………………O breu se volta para o silêncio
do abismo;
.crânios humanos esmagados pelo pé sangrento de um demônio que
ri.

Ah, e a melancolia que,
……….muitas vezes, em um amplexo,
……………….acalentou minha sanidade,
……………………….transbordou éter e álcool para fora
……….dos campos verde-palavras, verborrágico.
Para fora, a ideia, o breve dia do pensamento,
…………………o fluxo que corre como sangue nas veias.
Todo o mistério único de deitar
………..ao teu lado no crepúsculo das alucinações.

O sonho termina.

………………….Só se vive para fora
&
……………só se morre para dentro.

 

 

 

***

 

 

 

O TOMBO EM CHAMAS

 

Um dia, tu serás rei.
Por um dia, tu serás rei, Chris.
A gema mole do teu ovo — amarelo tal sol;
as paredes de dentro eclodindo mofo…
tua impaciência prepotente te levará ao cume.
Mas, por apenas um dia,
serás rei. Rei das trevas que te cercam,
rei do campo aberto — qual gritas,
rei do transcendente, rei do ovo
da gema mole — amarelo tal sol,
rei do mofo das paredes de dentro.
………Marinando, marejando, morosamente,
se possui a palavra, tal gota no oceano.
São incorruptíveis, os poros dos peixes-palavra.
É incapaz de erigir uma sílaba no breu da noite.
Nada irá me salvar e eu serei rei!
……..Rei — principalmente — do nada que me aguarda
…………….no tombar para fora desta vida.

 

 

 

***

 

 

 

SUSPENSOS NO AR EM SILÊNCIO POR UM INSTANTE

 

Eu olho para as fotos como que procurando o destino.
Não sei exatamente onde eu me perdi.
Não sei exatamente onde a encontrei.
Não sei sobre o pavio aceso do tempo que nos esmaga como insetos.
Eu olho nos teus olhos e te procuro.
Em todos os olhares eu te perco.
Porém, eu prometo, que na noite mais escura, do céu mais vazio,
das estrelas mais fustigantes, fugidias, eu estarei segurando a tua mão,
suspenso no ar, em silêncio, por um instante.
Eu procuro tua mão à noite, ao amanhecer e ao entardecer.
Em todas as cordas me emaranho, enrosco o pescoço na forca.
Entretanto, te perco, nas lâminas de aço pungentes,
no segredo que o céu não soube guardar.
Eu escrevo poesia para alcançar o teu nome, que já diz tudo.
Eu olho para as fotos como que procurando a ti,
mas encontro as tuas últimas palavras cravadas em seda:
“tu jamais alcançarás a lua se não saltar o precipício”.

 

 

 

***

 

 

 

NO DIA DO ANIVERSÁRIO

 

Escrevo palavras de ordem inatural.
……….Quando deixei tua vertigem alumiar meu corpo inteiro,
banhei-me em chuva dourada.
………Seria capaz de vórtices, de fome voraz. Assim que teu negror
intumescia meus olhos, uma luz pungente descia dos céus,
…….e eu continuava seco em todos os membros, em todos os órgãos;
um corpo vazio vagando na cólera da noite. Úmido, apenas nos olhos.
.Escrevo como caio, de peito aberto ao mar, como se o sal fosse fogo.
Invoco das palavras soturnas um instante de graça; um instante
………afastado da beleza do dia, qual eu mijo em cima.
Tua beleza é carnívora, engole minha luz feito fotossíntese.
……Beligerante, destemida, aprazível apenas pelos lobos taciturnos que uivam.
É distante a água salgada que corre em tuas veias; implodir para dentro
……do mundo inteiro, um maldito homem,
………com a cabeça estourada por uma espingarda,
……………às 7h da manhã, aos 27 anos,
………………………no dia de seu aniversário.

 

 

 

***

 

 

 

NA DANÇA XAMÂNICA FRENÉTICA DE CRISTO COM LÚCIFER

ao poeta Antônio Cícero.

 

1.

Edifícios tombam, ferozes.
Uma criança a sonhar estrelas.
Céu de anil, boca bocejante de cachorro negro — Anúbis.
Escuridão escorrendo nos dentes podres.
É inerente às plantas, o outono. Assim,
a asa de um anjo está vulnerável; minhas
palavras dão rouquidão aos cavalos, a sonhar
com centauros dançando pow wow ao derredor,
como se fosse o suficiente para ser feliz.
Paredes de concreto árido, com rachaduras secas
de poros nasais. Um raio esparso perpendicular,
perpétuo socorro de uma constelação que
brinca de faz de conta no dilúculo pulcro
do sorriso das camélias, das putas que balançam
a bunda ao som do funk e ao Cristo que habita
todos os portões do inferno,
exatamente como deus o fez: embriagado de crepúsculo,
atônito…

……………..e demasiado humano.

 

Christian Dancini de Oliveira é um poeta nascido e residente de São Roque, São Paulo, que escreve poesia desde os onze anos. Com 15 anos lançou a obra “Fragmentos de uma aurora” em PDF para baixar gratuitamente através do site Projeto Livro Livre, de Iba Mendes. Aos 22 anos, publicou seu primeiro livro chamado “Reminiscências”. Além deste livro, que lançou de forma independente, ele já lançou pela editora Opera o livro “Pleroma” e pela Patuá “Dialeto das Nuvens”. Christian Dancini já publicou na revista portuguesa Quiasmo, na Mallarmargens, Ruído Manifesto, Acrobata, pela revista espanhola Kametsa etc. Seu livro “Dialeto das Nuvens” foi semifinalista do prêmio Oceanos 2024.

 

 

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153ª Leva - 01/2024 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Nívia Maria Vasconcellos

 

Arte: Zô

 

o corpo é uma foto no escuro

 

meu corpo
desumanizado
de impossibilidades

meu corpo
recomposto
na postagem

meu corpo
desfeito
pelo seu olhar

é escrito
com luz
porque tudo é escuro

 

 

 

***

 

 

 

maremoto

 

sophia mello breyner andresen
me sopra versos sobre o mar
enquanto o oceanário se distancia

o dragão-marinho-folhado
veio comigo na porção de coisas
que não se podem esquecer

seu corpo carnívoro
não é folha
não é cavalo-marinho
não é peixe-cachimbo

é uma das criaturas
que vieram desestabilizar
o que parecia pacificado no mundo

[como meu amor por ela]

 

 

 

***

 

 

 

3Poema

 

poema
é
..
de diferentes tipos

com
diferentes
modos
……de des/amarração

 

 

 

***

 

 

 

pequenas violências cotidianas I

 

cadê o namoradinho, minha filha?
entre uma colher e outra de sopa
indaga minha mãe
que faz parecer isso
uma mera curiosidade
olho para minha mulher a seu lado
largando o talher sobre a mesa
a sopa esfria em segundos

/numa pergunta tão simples
a negação de um mundo/

 

 

 

***

 

 

 

memento

a sónia brito

 

tudo se vai no
esquecimento

tudo nosso
tão digno
de lembrança

estilhaçado

ainda temo
cada tremor
de tua memória
que tropeça

o terremoto destruiu
a biblioteca real
e mais de 70 mil volumes
lá armazenados

por aqui também
presencio destruição

sou tirada
……..do corpo
de minha mãe
mais uma vez
todos os dias

como poemas que
se atiram aos cães

 

 

 

***

 

 

 

vascular

 

tenho que andar ainda que a casa não tenha água e o suor escorra em meu corpo ainda que o sol nunca vá embora mesmo à noite a secar a lagoa e suar o meu rosto tenho que andar ainda que cansada esteja ainda que não tenha pernas e acabe o fôlego ainda que os quilômetros nunca cessem ainda que a boca seja seca tenho que andar ainda que me faltem passos ainda que os líquidos a percorrerem meu corpo não matem minha sede ainda que o rio que ladeia minha casa não mate minha sede ainda que eu seja secura tenho que andar ainda que ao meu redor tudo que açude seja miragem tenho que andar pois a casa não tem água e meu lar está distante

 

Nívia Maria Vasconcellos é artista da palavra, atuando como poeta, ficcionista, letrista e declamadora. Entre outros livros, publicou A paixão dos suicidas (Selo João Ubaldo Ribeiro, Ano II), Cãibra de Nó (Prêmio Jorge Portugal, 2020) e OCORPOÉUMAFOTONOESCURO (Patuá, 2023). Lançou o álbum A Vênus de Willendorf com o grupo Mousikê, com o qual realiza apresentações literomusicais. É doutora em Literatura e Cultura pela UFBA e realiza pesquisa sobre poesia brasileira contemporânea, autoria, campo literário e oralidade.

 

 

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Janela Poética II

Constança Guimarães

 

Arte: Zô

 

sapiens

 

um homem é preso
arrastando crânios nas ruas de belo horizonte

errantes quatro crânios humanos amarrados
numa corda de varal azul
o homem andava pelo bairro da saudade à luz do dia

no inverno mais quente da capital mineira
o homem preso em flagrante está
à disposição da justiça
os crânios
foram recolhidos
dizem os jornais

 

 

 

***

 

 

 

engrenagem

para Flávia Péret

 

ela amarela quando dia quando tarde quase noite de repente. escuro quase depois escuro total. de noite caldo grosso sono forte. azul claro ainda sono ainda leite café pão café. trabalho trabalho trabalho. mão nas costas nas cadeiras pescoço dor. ela amarela tão forte o sol muito forte mão na testa suor. de repente chuva muita água a rua cheia de poças sombrinhas guarda-chuvas. esbarrões muitos esbarrões pisões tropeções. sapato molhado fila no mercado almoço atrasado. trabalho trabalho trabalho. mão nas costas cadeira velha o chefe. tarde amarela ela tão cansaço. a rua cheia ônibus cheios pessoas cheias dessa vida. azul quase escuro ela quase forte ainda respiro sapato molhado ainda gato no telhado suspiro. todo dia todo dia. gato cinza bobo pra dentro gato pra dentro. azul escuro quase noite depois noite quase alta caldo grosso cama corpo esticado exausto sem dormir.

 

 

 

***

 

 

 

Inventário

 

parafusos franceses com porcas sextavadas, quarenta
parafusos e roscas soberbas, quarenta
soberba
dobradiça
ciúme
remova as películas de proteção
puxador com parafuso philips, quarenta
os nervos cardíacos formam um corpo neural com quarenta mil neurônios
vai me matar
a medula espinhal comanda os atos involuntários, eu obedeço
abaixo cedo sofro vergo
sistema nervoso autônomo

autômato
ele me esmurra na cara
me atira ao chão
chuta barriga pernas costas
verifique todos os componentes
eu tenho dor
parafusos franceses com porcas sextavadas, quarenta
parafusos e roscas soberbas, quarenta
roscas
aorta arritmia válvula batimento martelo

meu coração vai parar de bater
bate em média oitenta vezes por minuto
quatro vezes mais quando me assusto
eu me assusto o tempo todo.

me assusto com o ar que passa gentil, eu desconfio

tenho dor
metros de conduíte
rejunte rebite de alumínio. dejeto

eu me ajeito me ajeito não há
desisto verifique todos os componentes
prego telheiro, quarenta
parafuso atarraxante, quarenta
remova as películas de proteção
ele vai me esmurrar de novo
autômato
rejunte rebite de alumínio
rejeito

 

 

 

***

 

 

 

plantei uma cebola envelhecida

 

a descobri
no fundo da gaveta na geladeira
numa limpeza feita entre reuniões
o tempo passado
tão rápido

a cebola velha babada
no fundo da gaveta tinha raízes enormes

 

 

 

***

 

 

 

em gavetas não se morre de frio

 

moramos em gavetas
você tem razão, wislawa
gavetas com divisórias
mas veja há teto
e o vento circula quando deixamos
as janelas abertas
também há banheiros
e podemos nos limpar
morei em espaços
de engenharia primária
ou negligenciada
construções planejadas
por quem nunca habitaria
um quadrado de poucos
metros divididos

em quadrados menores
de tamanhos diferentes
ali também havia teto
e banheiro e janelas
que eram fechadas no frio

um lar com sol e afeto
encanamento e telefone
hoje o quadrado é um pouco maior
com recortes internos mais ou menos diversos
uma gaveta divertida em família
que chamo lar e assim ele se faz
caixas de papelão
não são gavetas
cobertores rotos
tampouco salvam
o sol quando vem
não é belo queima

 

 

 

***

 

 

 

dulce veiga meu bem, fala comigo

para as mulheres que eu amo

 

ninguém contou para o sol
que hoje é sábado e não vale a pena
queimar o quarto a tarde toda
estou empenhada em não arder mais

por enquanto
deixei o pó nos móveis
o chão todo marcado
roupa de cama na máquina
fiquei de pijama velho
aquele que não usava mais
com medo de ser internada

 

 

Escritora mineira e jornalista, Constança Guimarães lançou em 2024 ”Não quero morrer enquanto durmo” (editora Urutau).  Autora dos livros “Como se fosse possível medir o tamanho do escuro”, (Urutau, 2020), “Ombros caídos olhando para o inferno” (Urutau, 2017) e “A sereia da contorno e outras histórias” (Leme, 2017). É coautora de “Aleatórias” (plaquete ilustrada por Sofia Nabuco, Leme, 2022). Tem poemas e contos em revistas como Rascunho, Gueto (especiais Utopia/Distopia e Crianças em Guerra), Diversos Afins, Ruído Manifesto, Acrobata, Mirada, Germina e Laudelinas. Participa da antologia “Não há nada mais parecido a um fascista que um burguês assustado” (Hecatombe/2020).

 

 

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153ª Leva - 01/2024 Aperitivo da Palavra Destaques

Aperitivo da Palavra I

notas dispersas e submersas com alguns grãos de areia colhidos no bolso*

Por Alex Simões

 

 

não, não é de agora que poesia e poetas nadam sobre o mar e passeiam sobre e sob as águas doces e salgadas. Homero e Caymmi cantaram seus  mares respectivos, Sapho tirou sua  própria vida se atirando ao mar Egeu e Camões salvou os Lusíadas nadando com apenas um braço livre sobre o mar da Cochinchina, após o naufrágio ter levado sua Dinamene embora. Alfonsina Storni submergiu as saudades de um grande amigo no Mar del Plata, Waly Salomão tomou o mar de  sargaços de Ezra Pound e o ofertou a Maria Bethânia, que canta “Eu e água”, de seu irmão Caetano Veloso, que junto com Gilberto Gil compôs “Beira-mar”.

Matheus dos Anjos traz um livro de poemas encharcado de água do mar, do rio, da chuva e das lágrimas, com cheiro de salitre e uns grãos de areia, pois o “solo de praia cabe no bolso” (limo dos dias).  seus versos passeiam sobre e sob as águas, doces e salgadas, e lançam mão de diversas estratégias formais para imprimir movência em meio à “liquidez  farta – diferenciada / negando Bauman com a força / de sete mares” (menino da costa do dendê). temos haikais e  outras formas curtas da lírica e outras formas com versos tomando mais fôlego a ponto de plasmar-se em um poema em prosa cheio de memórias de uma infância em um certo “paraíso alagado”.

aqui alguns topônimos e gentílicos escondem água dentro. há água em todos os cantos deste livro, inclusive nos títulos, inclusive em outras línguas que não a portuguesa. se Kirimurê é “o mar interior” – como assim os tupinambá denominavam  a Baía de Todos os Santos –,  é com este título que Matheus nos apresenta uma cartografia de uma Salvador muito nos moldes oswaldianos e nos dá a primeira pista para vislumbramos aonde nos quer levar o título enigmático deste livro: “o côncavo onde a água sempre faz a curva”. “axiluandas” significa “homens do mar” e é como os portugueses chamavam os falantes de quimbundo, os ambundos, grupo étnico que, por uma dessas etimologias mitológicas, ao responder sobre o que estavam fazendo, lançaram um “trabalhar com redes de pesca”.

“um marinheiro ao contrário” vive em exílio em seu próprio apartamento no 5o andar de onde recolhe areia guardada nos bolsos. o tema do marinheiro exilado presente em Álvaro de Campos e em Sophia de Mello Breyner Andresen, e não só neles, ressurge aqui plantando o mar numa horta vertical. neste, que talvez seja meu poema predileto deste livro, a segunda parte de um tríptico, encontramos outras pistas para entendermos o que faz Matheus escrever o que escreve e como escreve: “a natureza do mar é não ter paredes” e “[…] a revolta é / estender os formatos” (II – plantei o mar na minha horta vertical).

um marinheiro ao contrário vê as coisas fora de lugar porque despatriado. algas são vomitadas, o tempo deve vir sem relógios e o corpo é “bom de bagunçar”. o erotismo passeia pelas formas estendidas às vezes nada discreto, como em “prepara tua canoa/ se pretende me cruzar” (igarapé).

leia esse livro como quem nada ou sobe uma ladeira durante uma chuva torrencial até passar por uma curva cheia de água que atravessa o teto de uma casa e pinga sobre sua cabeça. tudo nele é água, doce ou salgada, em estado líquido, sólido e gasoso. leia movendo-se entre o mar exterior e o mar interior, não só Kirimurê. se, por um lado, “cada banho leva em si um cadáver” (renovo diário); por outro lado, há um clima de intensa umidade provocando esse mar de dentro a emergir pelos poros, como o poeta, que se equilibra em uma corda bamba e bomba, nos canta e conta em “mormaço”:

 

“se escrevo
é pra fazer meu sertão de dentro
virar mar”

 

* Este texto era para ser posfácio do livro a pedido do autor, mas, por algum mistério da senda literária, ficou inédito.

Alex Simões é poeta e performer.

 

 

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152ª Leva - 02/2023 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Wesley Peres

 

Foto: Magali Abreu

 

NA ORIGEM, SABIA-SE O NADA,
e saber era nada, e não havia véus,
e, por isso, tudo estava oculto.

E ocultuava-se o corpo com o corpo,
e o corpo, enrolado em papiro,
sendo o papiro feito do corpo.

Sendo o corpo feito papiro:

planura de inscrição de coisas,
das coisas, das fímbrias oscilações
constantes
da textura das águas
dos corpos, seus extratos de ares
ásperos.

Dizem que, na origem,
o corpo era todo línguas e lábios,
e havia matérias espécies, especiarias
cortantes, capazes de gravuras
sobre superfícies águas do corpo
e suas abismas quedas d’aves
estroçadas de tal modo que
até mesmo os antepassados
d’águas se arrepiavam
qual nuvem desaba do oitavo
andar d’algum sol há muito
nem servindo mais
a título de ocidentações
nem de orientações.

Na origem, sabia-se o nada,
e o destino é o outro nome para origem,
e origem é o outro nome para o destino.

 

E origem e destino são nomes outros
para esse imenso outro da palavra: o corpo.

 

 

 

***

 

 

 

ERMO DE UMA VOZ SOMENTE, O CORPO.

Inscrita no corpo
a palavra erra
os enormes abismos,
os entres do corpo:
aqueles que sim,
aqueles não
— são bocas.

Mesmo no beijo, há ínsulas,
mandíbulas sereias,
ruínas ruidosas,
pedaços, areias
de civilizações inteiras.

…….Anômalo orifício no silêncio do corpo, a boca

 

 

 

***

 

 

 

POR MAIS QUE PULSE,
a palavra,
trêmula pedra,
pulsa embaraçada na lei mosaica,
a que proíbe o derramar-se dos olhos.

A imagem denuncia o tempo no corpo,
enquanto, na palavra,
o tempo se redime,
conserva-se,
neste resinífero reino humano,
conserva-se palavra, apenas.

 

 

 

***

 

 

 

NO ENTANTO, HÁ MORTIFICAÇÃO
também na boca e na língua,
a palavra, quando preserva,
preserva porque mumifica.
Adivinha-se isso entrando
num estranho quarto
em que corpo e palavra frequentam-se
e frequenciam-se, imperativamente,
desde o final dos tempos.

Neste quarto, a lógica das paredes
— símile ao que um arquivo morto
sabe do mar —
pensa as papilas dos corpos,
pensando-as, sonha o sonho
de torná-las recortes de um sistema
nervural de conexões entre estrelas
e os ambíguos lábios do chão e da chuva.

 

 

 

***

 

 

 

AS PAPILAS DAS COXAS:
trilhamentos de vozes
chamando e soprando chamas
da carne, tremeluzindo,
como tremeu e luziu a carne
quando nela a vida soprada
qual a vela soprada pelo vento,
movendo os traços traçados
pela madeira riscando
a moura musculatura dos mares.

 

 

 

***

 

 

 

MORREMO-NOS, IMPERATIVAMENTE,
com nossas impérios de bolso,
com nossos deuses enrodilhados nos cabelos,
ou em pequenos códigos sensórios
qual um marinheiro suspenso
em dúvida
quanto a existência de céu e mar,
qual um homem indeciso
quanto a qual primeira parte olhar
do corpo da mulher que lhe
desloca a retina e as vértebras dos lábios.

 

Wesley Peres é psicanalista e escritor. Autor do romances Cartografias de um Doente dos Nervos (7letras, 2022), publicado com apoio financeiro do Itaú Cultural; Casa entre vértebras, (Record, 2007), vencedor do Prêmio Sesc de Literatura e finalista do Prêmio São Paulo – 2008, e As pequenas mortes (Rocco, 2013). E dos livros de poesia: Palimpsestos, vencedor do Prêmio Coleção Vertentes em 2007; Rio revoando (ECA- USP, 2003); Água anônima, vencedor do Prêmio Cora Coralina 2002 e O Corpo de uma Voz Despedaçada (Martelo, 2019).

 

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152ª Leva - 02/2023 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Aline Aimée

 

Foto: Magali Abreu

 

gira

 

entender que a função
do giro
é a propulsão ocasional
para fora da órbita

…………..mas também

aprender a me mover
fora da febre
das apostas

dentre aquilo que gira:
mais que roleta,
ser engrenagem

mais que engrenagem,
……………..ser móbile

 

 

 

***

 

 

 

não sei dar forma ao cristal

 

minhas mãos cansadas
acompanham mais
o ritmo frágil
quebrável
dos grafites,
a intimidade
do borrão

decerto minhas prendas
te parecerão precárias
perdidas em folhas vadias
……….,…que aspiram à aderência de tuas costelas
……….,…que aceitam a destruição
……………………………………………………….no calor úmido
……………………………………………………….de tuas palmas

………….que admitem inaugurar funções:
marcar as páginas
dos teus segredos
(confissões expiradas
em dobras-cicatrizes)

manejo grafites para que
ao te furtar um instante
…… a suspensão de um ou dois
…… pensamentos
…….(talvez a sorte de uma lembrança)
meus rabiscos se percam
na paisagem do teu caos
expondo-se ao risco
de um resgate:
………………………………uma nota apressada
………………………………um abano
…………………………….. um corte no dedão

………..o mistério de uma mancha indecifrável

[uma virada de tempo
uma mudança de estação]

preferíveis à dignidade imóvel
do totem sempre à vista
na prateleira alta
…………….translúcido de costume
…………….empoeirado de apostasia

 

 

 

***

 

 

 

devora-me

 

sustentar os ouvidos aos uivos
deixar-me emudecer pelos enigmas

parasitar o labirinto das entranhas
que me devoram

ofertar os braços aos ecos
que me cravam as unhas em atrasos:
aprender a costurar a sombra
em lugar de cinzas

 

 

 

***

 

 

 

um sopro para Emily Brontë

 

o céu é pouco
e a relva é rara

a noite se fantasia
entre ruídos mecânicos
e luzes frias

resoluções se iluminam
na escalada
……..de degraus
………..e de aparelhos aeróbicos
onde murmuram
joelhos e manivelas

sei que palavras imortais
enchiam os sussurros dos teus sonhos

mas se quero interceptar
a síntese dos tempos
preciso filtrar
ladainhas elétricas
que não me resfriam
a pele
e que só me arrepiam
por estática

preciso lembrar que por trás
dos pixels
também se sangra

 

 

 

***

 

 

 

legente

 

sei que tardo
que insisto
em fazer morada
no fundo
onde espáduas tantas
deslocam-se
inermes à minha leitura:

curvaturas apontando
as variações
dos sonhos

 

 

***

 

 

 

exercícios de pouso

 

baixar num canto
à sombra
minha bagagem
deixar que o vento
devasse
os umbrais
que restos repousem
no encontro
cada qual
com seu anteparo

deixar no abraço escuro
da crisálida
delicadamente
os nós que me
sustentam

desatar
membros frescos
para novos
movimentos

 

Aline Aimée é carioca, servidora pública e mestre em Literatura Brasileira pela Uerj. Publica poemas e fala de livros no Instagram e no Youtube, é mediadora em clubes de leitura. Tem textos publicados em sites e revistas literários, é autora de “Doze pétalas, nenhuma flor” (edição independente) e “Uma reserva de sutilezas” (Editora Patuá), participou das coletâneas “Leia Mulheres – contos e Prêmio Off Flip 2021”. “Exercícios de pouso” (Editora Patuá) é seu livro mais recente.

 

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152ª Leva - 02/2023 Janelas Poéticas

Janela Poética V

Tallýz Mann

 

Foto: Magali Abreu

 

Arquitectônica

 

Essas paredes brancas
tangíveis e mudas
haverão de tergiversar
sobre o futuro do mundo

Cal e superfície
na fundação permanente
de faces nebulosas
ocultai vossas fissuras!

Padecerão atônitas
vendo tão necromantes
esporófitos e poros
anunciarem o fim dos tempos

E ainda temerosas
ouvirão o (com)passado
líquido invasivo
a corroer a matéria das certezas

Orbe de destruição
contra a face insuspeita
por dentro a fisionomia
a máscara atravessada

À ruína anunciada,
fragmentos orgulhosos
cantam a supremacia
das paredes brancas
e suas texturas
ultrapassadas

 

 

 

***

 

 

 

Terraplanário

 

Extinguiu-se a órbita
do geoide farsante
nessas ilusões geométricas
de bestas quadradas
a Verdade virá

Fomos todos precisos
à beirada do mundo
e caímos nos abismos
abismados da constatação

Planos sinistros
na planície terrestre
planaram proféticas
anunciações
jamais em nenhuma circular

Esféricos delírios
postos à prova
pelo incrível
homem Chato

Compacto
nivela todos os seus
à mesma superfície

 

 

 

***

 

 

 

Lembre-se de não viver

 

Desinstalar a vida
já que a morte
não nos constrange
e nada do que ficar
será nenhuma lição
apenas acumularemos
ossos frios e apatia
a certeza da crueldade
de um rebanho irascível
pisando firme
na borda do abismo

Desinstalar a vida
já que a morte
é nossa rotina
e jantamos na sala
com o cheiro de defuntos
devotos devorando
a carne podre do salvador

Desinstalar a vida
já que a morte
é o que capitaliza
e toda nossa ruína
é a ferrugem
que corrói
a efígie de prata

 

 

 

***

 

 

 

Radícula

 

Laboras a terra
doando de si
tudo em solo e ternura

Revolve pedras
e guarda seixos
pavimento de caminhos
sinuosos

Dança das raízes
no absoluto desejo
ramagens violentas
intromissão e segredo

Aragem promissora
pois deita as sementes
envoltas de futuro

Tão logo rompe
numa brecha arriscada
broto vacilante
dizeres de planta
utopias sazonais

 

 

 

***

 

 

 

Aquarius

 

Sombras da morte
noite dorida
sob corpos já cansados
atados vigilantes
guardam as portas
dos templos de outrora
tão poucos esperam
vivos e resilientes
nascituros da aurora

Um raio de luz
pois age certeiro
gume radioso
ferindo espessa escuridão

Faz ansiar pelo dia
banha os espíritos inquietos
na trilha do tempo
ritual da memória

Deságua na força do ser
águas de outros riachos
aquosa revolução
tudo destrói e cria
na dinâmica do mundo
animal que crê e luta

 

 

 

***

 

 

 

Liturgia das Horas

 

Para meditar ao som
de Ventura Profana

Dayse
por aqui se fechou tudo
os goles de concreto
descem rasgando
a garganta
& dilata-se
cotidianamente
a abertura ao horror

Dayse
por aqui se queimou tudo
terra bruta e quente
na qual nenhuma raiz
rizoma ou sortilégio
passará pela brecha

Dayse
por aqui se aniquilou tudo
com palavras de benevolência
que aninharam
serpentes sacerdotais
chocadas no ninho
do Pai Eterno

Dayse
por aqui se viveu pouco
choveu sangue massivo
retinto, pobre, dissidente
desembocando
na voz da violência

Dayse
por aqui ainda se luta
quando uma trava
desce o morro
para sovar o pão
nosso de cada dia

& o reparte
com as outras
discípulas do sangue
& corte

 

Tallýz Mann é uma byxa-travesti não-binária, natural de Jussari, cidade que fica no litoral sul baiano. Licenciada em Letras Espanhol/Português, é Mestra e doutoranda em Letras pelo PPGL: Linguagens e representações, da UESC (Universidade Estadual de Santa Cruz). Atualmente tem pesquisado sobre as escritas de si de autoras transvestigêneres brasileiras contemporâneas. Escreve versos desde os nove anos. Participou de antologias poéticas e recentemente publicou PoemAtos & outras: inscri(a)ções (2023), pela editora Patuá.