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119ª Leva - 04/2017 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Sara Síntique

 

Arte: Samuel Luis Borges

 

Seio

 

meus seios estão agora
devorados por tigres
que os engolem
com fome e lascívia

esses pequenos órgãos
não serviriam ao leite
ou à valsa de teus dedos
ou à tua língua
veneno aos mamilos

tampouco seriam acampamento
às guerrilhas da morte

esses tigres estraçalham
as carnes miúdas
e sem pressa
e fervorosos de abundância
se encaminham para o ventre.

 

 

 

***

 

 

 

Revoada

 

amanhã ou hoje
voar ao sol
para sentir o calor
sobre os ossos
esse que eu não encontro
em parte alguma
e que a ausência não consola.

 

 

 

***

 

 

 

Andarilho

 

somente as pernas sentem o gozo
e quando muito
os pés – as pontas dos dedos
adormecem e flamejam.

mas se o cheiro do líquido
chegar à língua
e nela se fizer um gosto:
tua estrada proclamou-se sem fim.

 

 

 

***

 

 

 

Tontura

 

eu queria a insônia de Mekas
e ser com ele
aquele verde
e aquele sol
e alongar o corpo ao chão
dissolver o corpo ao chão
mas a minha insônia
ela só me agarra ao cigarro
e tua companhia não existe mais
há solidão e bagunça
canção alguma a ouvir
a não ser a voz
de um homem
embriagado
na televisão
eu não consigo estar nesse corpo
depois dessa imagem:
a voz dele como reza
e os copos vazios.

Mekas não me dirá mais nada.

eu já entendi o pausar do desejo
já me deitei sobre a náusea
e sobre o vômito
e sobre o som do acordeão
teimo em escrever isso que vai sendo pedido
mas eu me quero sono, me quero silêncio
os membros são pedaços de fúria
e não há controle
todo o meu vibrar em contradição
e ainda existe o teu ciúme
e meus olhos sobre teu dorso inteiro
e um pensar até doer a cabeça
e um desistir de parar ou tentar.

não, Mekas, eu não rezarei ao além.

 

 

 

***

 

 

 

Coração ou fragmento

 

guardo em silêncio feérico
teu corpo viçoso
ligeiro e pesado
no meu corpo em pedaços

guardaria assim mesmo
se fora de leveza e ternura

queria poder fingir inteirezas.

 

 

 

***

 

 

 

Útero ou dissolução

 

escorrega desse sangue
o eco de teu choro.

escorre entre as pernas
a insensatez das palavras –
enquanto escavam o colo
tuas dez garras miúdes,
suficientes e exatas
para bem-aventurar a loucura.

e o útero,
berço nunca plácido,
da rasura,
da sobra,
da secura dos galhos,
dissolve o corpo inteiro,
tua morada.

 

 

 

***

 

 

 

Além da memória

 

A Sidney Souto
in memorian

 

o corpo não zera depois da morte
não estão nulos, os órgãos
eles se arranjam pelo espaço
os processos químicos prosseguem
e ele se entremeia na terra
e dança com ela, em silêncio.

também não zera depois do amor
mas visita um espaço
quase vazio, quase inteiro
e nele é quase místico, quase cético
quase terra, quase céu

depois do amor, o corpo é quase
um entre,
a não caber em escala alguma
como se fora poesia, mas ainda não o é

o corpo, talvez, zere aqui
nas palavras,
nesse dizer, um desdigo
aqui,
no buraco invisível,
imagem e só,
aqui, na palavra,
zero e infinito.

 

Sara Síntique é graduada em Letras Português-Francês e mestranda em Literatura Comparada pela Universidade Federal do Ceará (UFC). Nasceu em Iguatu (CE), em 1990, e reside em Fortaleza desde 2001. Autora do livro de poesia “Corpo Nulo” (2015, Editora Substânsia), também é atriz e performer.

 

 

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119ª Leva - 04/2017 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Hugo Lima

 

Arte: Samuel Luis Borges

 

a linha pensa

 

para edith derdyk
traço a linha
além da página
o que exceder é horizonte

 

 

I.

-meu corpo
atravessa o espaço
com suas linhas-

-na fluidez da passagem
a linguagem retém
o gesto-

-entre cortes e costuras
tecidos e ranhuras
o traço
revela seu avesso-

-no ritmo
i-n-i-n-t-e-r-r-u-p-t-o
do ir e vir
sobre o papel-

-de-se-nho-

-de dentro pra fora
de fora pra dentro-

-remendos
e tessituras
 

 

II.

-a linha
do horizonte
é fronteira-

-ao mesmo tempo
aproxima
& afasta-

-agrupa
e separa
minha língua
da sua
meu corpo
do seu-

-a linha
do horizonte
ultrapassa
aquilo que fica
daquilo que
escapa-

-a rasura
no mapa-

-a comunhão
exata-
-entre
meu gesto
e o seu-

 

 

III.

-a linha
intermitente
da leitura-

-a leitura
intermitente
do poema-

-o poema
intermitente
da vida-

-a vida
intermitente-

 

 

IV.

que constelações
desenharão
estas linhas?

que caminhos
revelarão
nos mapas?

que tecidos
formarão
suas camadas?

que estórias
traçarão
sobre as páginas?

que riscos
correrão
sob o nada?

que marcas
deixarão
no papel?

 

 

V.

-a linha
quer adentrar
a memória
habitar
o instante
estruturar a
narrativa-

-a linha
quer inventar
paisagens
desviar
caminhos
conectar
linguagens-

-a linha
quer ser
um pedaço–

–do espaço-

-transformar-se
em estrela
constelar seu
rastro-

-a linha
pensa
o momento exato:

-um
emaranhado-
-de ponto-s-
em nós-

 

 

VI.

——sob a pele tatuada
o corpo tece sua gramática
alinhavando o pensamento
à sintaxe dos versos
fixando-se no desejo
de adentrar a sala
ampliar o horizonte
ser uma e ser mil
tornar-se trama
enredo
fazer arte
tecer o texto
alinhar os livros na estante
os quadros nas paredes
amarrar
uma a uma
as orelhas de cada página
a grande onda dos dias
a geografia das formas
o entorno e suas bordas
s u a s ó r b i t a s
pespontar o destino
pelos fios de Ariadne——

 

 

Hugo Lima é poeta, performer e educador. Tem poemas publicados em diversas revistas e jornais literários, como Dezfaces, Gueto, Mallarmargens, dentre outros. É autor dos livros Nus, Florais & Ping-Pong (2014), Corpo dos Afetos: para Herberto Helder (2015) e Dois Quartos, com Tida Carvalho (2017), pela Crivo Editorial, e Repeats & Bonus Tracks, que integra a terceira temporada da coleção Leve 1 livro (jun/2017). Mora em Belo Horizonte. 

 

 

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118ª Leva - 03/2017 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Sel

 

Foto: Kristiane Foltran

 

 

há tempos
teu nome não
soa em mim
ressumbrando
dores, reabrindo
feridas; o dorso
distante não
abriga mais o
delírio
das mãos que
hoje
apenas
se esquecem no ar
onde tudo me
escapa de ti e
o amor não
forja a lâmina

 

 

 
***

 

 

 
Silêncio

 
Percorri corredores
observando tumbas
com ossos cariados
vislumbrei súplicas
em faces que não se
moviam; carreguei
os mortos e o aroma
pútrido lambia minha
calma. Limpei os seus
dejetos e os dos que
ainda agonizavam
esperando a sua vez…

 

 

 
***

 

 

 
lou.cu.ra. s. f. 1. ferrete, óleo
pedra. 2. ave-langue-sorriso. 3. a
gengiva dura. 4. fulgor que apenas
conserva o hálito aquecido das orações
5. tua voz calma diluída sobre um
tempo queimante

 

 

 
***

 

 

 
Eu caminhei buscando um coração
Desviando-me de pedras e tentando manter meus olhos abertos em meio à poeira
Entretanto, não compreendia que tudo já havia se corrompido
Meus dedos, minha boca, meu corpo
Nada mais sem o fardo essencial daquele que eternamente procura

As luzes piscaram, prenunciando a minha morte
E eu rezei para que alguém me salvasse nestas noites impuras
Mas o que eu apenas pude ver foi a minha própria imagem
Eu em fragmentos, enquanto meus pés seguiam tortuosamente…

 

 

 

***

 

 

 

O cabelo, a princípio, não revelara nada
Fino e negro rio, escondia o marfim e o fruto
Eram apenas linhas que rutilavam na fraca luz
Silhuetas das dunas do Maranhão, eternas fugidias
Névoas e sódio, o grande mistério de Anticítera
Eram membros, tênues movimentos, o tronco
A delgada geografia de sua terra revestida de neve
Era somente um sussurro branco sob véu de chumbo
O revérbero de um astro distante, lânguida paisagem
Eram mãos pequenas, duas conchas à espera do mar infinito

 

 

 
***

 

 

 
é cedo… e tudo ainda arde
a dor não é física, ainda que física
a angústia, a solidão, não são corpóreas, ainda que corpóreas
o vazio, ainda que vazio, é cheio de algo que não tem nome

 

Sel é poeta e artista visual. Possui textos publicados nas revistas literárias euOnça e Benfazeja. É autor dos livros: Autopse (ed. Multifoco – 2012) e [Sel]vageria (ed. Urutau – 2016). Ambos de poesia.

 

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118ª Leva - 03/2017 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Nuno Rau

 

Foto: Kristiane Foltran

 

 

73.
Certas tardes de verão (ou seria
daquele tipo de inverno onde o sol
ainda se esmera em grafar na pele
flores rubras com sua luz de agulhas
todas em brasa e imateriais) banidas
agora para um limbo que tantos
nomeiam (pelo mecanismo turvo
dos sentidos) de passado, limbo
que concentra, entre outros, o instante
em que talvez confuso, talvez
indiferente, você percorria a orla
do primeiro verso, que é
um território raso onde tudo
se desfaz, se confunde e nunca
mais retorna (o que lhe deu prazer
ou desespero), mesmo que em
seu mundo imaginário, você
projete o corpo imerso
num rio sem fluxo onde
as águas estanques apodrecem
seu melhor sorriso, seu gesto
mais luminoso, seu maior ardor
e, claro, de todas a mais infundada
(como de resto cabe a qualquer
formulação) fé, cicatriz
da esperança.

 

 

 
***

 

 

 

77.
Outono ardente (tantos anos
depois de outro verão, gelado
até a medula, mas como se
coladas, por um estranho salto
da história, uma estação
na outra), pura sangria, ainda
que não se saiba se haverá
espetáculo todo dia em seu
circo particular de horrores,
os olhos querem desgastar
imagens, repetir, repetir,
no disco arranhado do tempo
em que a lua gira sem eixo
e você pretende, mais uma
vez, desarmar a metafísica
por dentro e expor a carne
à sua natureza e seu destino.

 

 

 

***

 

 

 

81.
Mundo estranho, miragens
em movimento sob o sol
natural, vasto mundo plano
e você deu tantas voltas ao redor
sem perceber qualquer falha, seguindo
sem cosmologias no universo
circunstancial, acidental (“se calhar,
se calhar”, alguém disse), restando
amorfo como este século de luzes
intermitentes, ou como quem errou
de endereço indo ao lugar
certo, ou devorando miragens
à margem de todo sentimento,
em larga escala, em alta
rotatividade, ou bancando
um vinho forte para cada alma
que sobrou dentro de sua cabeça
depois da grande
explosão.

 

 

 

***

 

 

 
82.
Estende um infinito entre você e a paisagem, tão perto,
cortinas de vidro se liquefazendo à frente
dos seus olhos e os dias decapando camadas de asfalto: cada uma
contém em seus mapas impressões do absurdo
que teve por destino transportar, surdamente,
na treva ou sob o sol – “um corpo”, ele disse,”e não ouviu
as coisas todas gritando
à sua passagem, as coisas
aturdidas diante da agressão
de seus olhos”. Limites, exílios, silêncios,
viagens sem volta, abismos
entre as coisas e as palavras, você
pulou porque quis.

 

 

 

***

 

 

 

84.
Nenhum amor pela cidade, muito
pelo contrário, rancores
cuidadosamente cultivados como
flores, feridas
expostas ao mesmo ar que alisa
a superfície de tudo, contínua,
como se a beijasse, ar
que nunca ampara ainda que envolva
gelado ou turvo, tanto faz, no mundo
estreito – você formula
absurdos como erguer paredes contra o ar
tornado vento quando imagina
ele trazendo mensagens do passado em forma
de lâminas ferozes, mas lembra
que paredes são memória
dura; formula então
torná-las labirinto, emaranhado
onde se possa encapsular
a brisa que lhe arranha
a pele, e pensa mais, grafites
que apontem miragens onde perder
o corpo,
grafites por toda a superfície
alçada contra o ar, pura
vertigem, nenhum
amor pela cidade, nenhuma cidade
possível.

 

 

 

***

 

 

 

85.
O números das casas, dos carros, os números
dos telefones, números
dos anos cifrados sob os poemas,
na imagem das ruas traçar rotas
aleatórias conjugando
os números em camadas de uma pele
sobre a cidade, você
tenta decifrar sem bisturi tudo que não sabe, ou seja,
isso que um dia alguém ousou
chamar de real.

 

 

 

***

 

 

 
86.
Cidades são reais, o pensamento
não se sabe, cidades são
reais, meu chapa, sejam fossas
geladas ou panelas de pressão, chapa quente,
tanto faz, ruas emaranhadas ou largas
avenidas são labirintos (“toneladas
de pedras ao alto”, ele disse)
porque espelham o que se forma
por dentro, em precipitação (aqui você
repete o delírio recorrente
de encontrar a explicação
que não existe, de arremessar fora de si
paisagens da imaginação – não, estas
paredes que o pensamento ergueu
por dentro são outra
formulação alucinada
do seu desespero, o mesmo
que arriscou metamorfoses, uma
atrás da outra, até
desembocar no espanto de ser
de novo não mais
que o mesmo
-“agora, agora”-
do começo).

 

Nuno Rau é carioca, arquiteto e professor de história da arte, mestre em história da arquitetura, e tem poemas publicados em revistas e sites como Cronópios, Germina, Sibila, Zunai, Mallarmargens, Diversos e Afins, RelevO, em diversos blogs e nas antologias Desvio para o vermelho (13 poetas brasileiros contemporâneos), pelo CCSP | Centro Cultural São Paulo, Escriptonita: pop/oesia, mitologia-remix & super-heróis de gibi, que co-organizou, e29 de Abril: o verso da violência, ambas pela Editora Patuá e, em fase de organização, a antologia Poemáquina. Autor do livro Mecânica Aplicada (2017). É um dos editores da revista eletrônica Mallarmargens.

 

 

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Janela Poética V

Muna Ahmad

 

Foto: Kristiane Foltran

 

Arthur

 

romper a casca

procuro a eternidade da hora no céu estrelado

atravesso desertos com água na boca

sonho que sou um náufrago

me salvei no barco bêbado

tempestades passam

volto pra casa

ponho no colo o gato

maciez e silêncio

imagino um caminho pra tocar seu coração

 

 

 
***

 

 

 

Porangatu

 

crio gato em
telhado de vidro
na casa que
existe sozinha
à beira da
estrada
jardim de
violeta mistério
fragilidade pura
halo de lua
córrego no
fundo do quintal

 

 

 
***

 

 

 

Sherazade

 

céu aberto
cáfila silenciosa
cruza o deserto
sete véus
dança do vento
serpente subindo no bastão
olho abre e fecha entre mundos
tapete voador
amor pedra branca
sorte na borra do café
Ali Babá e os sorridentes bufões

 

 

 

***

 

 

 
Bolero

 

noite alta
cachorro latindo na rua
meu amor foi embora
levou o frio que eu sentia na barriga
levou fotografias
anel pendurado no pescoço
meu amor dente-de-leão soprado
levou dor e alegria
luva e guarda-chuva
jogo de botão

 

 

 

***

 

 

 
Quaresma

 

guardei a fantasia
lavei a casa
fiz novos canteiros
semeei
papoulas e dálias
cortei os cabelos
lavei a alma
comprei lanternas e lupas
fiquei nua na janela
olhos postos no céu

no fundo de mim
passa um rio
adolescentes de seios duros
bocas ruidosas
banham-se de manhã

 

 

 

***

 

 

 
Do esquecimento

 

sapatos pisam fundo nos dias
tardes desiguais:
tem as de vento
que fazem carnaval nas saias da gente.
Tem as que escurecem rápido
como coito de alguns animais.
Tardes quentes
banais
cada beduíno em seu pedaço de deserto.

 

Muna Ahmad nasceu em Porangatu, GO, vive atualmente em Brasília, DF. “Cidadã do mundo, assim se define: Goiás-Ceará-Palestina lugares de nascimento.” Licenciada em Artes Cênicas pela Fundação Brasileira de Teatro, trabalha com educação ambiental na estação Ecológica de Águas Emendadas, Planaltina-DF. Em 1997, participou da antologia Mais uns – Coletivo de poetas, org. pelo poeta Menezes y Morais. Já em 2015, publicou seu primeiro livro de poemas, Muxarabi (Supernova Editora). E-mail: munayousef@gmail.com

 

 

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Janela Poética I

Ingrid Morandian

 

Foto: Kristiane Foltran

 

O quarto

 
I

ausento-me do teu silêncio
da folhagem áspera
da angústia
forjar enganos
em contraponto ao vazio
sobrepele
descasca
o fulgor na cama
nos lençóis
um pretérito mais que perfeito
ouço tua boca
no murmúrio daquela noite

 

II

luz decomposta nas lacunas
dedos infligidos
unhas cruas
na boca
me pertenço em palavras
as palavras depõem contra o coração
que cala, assume os verbos inativos
as palmas voltadas para baixo
papéis, tropeços, letras
me desfiz em nada
tudo é único
nos móveis o pó
na amargura o gelo esvazia
em palavras

 

 

 
***

 

 

 
Solarius

 

entre escolhos
o retumbar de cornetas-buzinas
mármores, bronze e concretos
fundidos no nada
escadaria belas artes
a florescer em você
matronas urbanas recolhem o sol
salgado
as vigas, pilares conduzem
a um remanescente dia
na voragem cotidiana
deslumbram-se rostos cinzentos

 

 

 
***

 

 

 
Azuis

 

da outra margem do mundo
apaguei a paisagem de dentro
coube um olhar cinza
o arrastar de coisas intempestivas
a vida finge
absoluta no cálice
um tempero de sangue
nuvem coalhada
esquecimento fora do prazo
e os olhos aguardam azuis
segredo

 

 

 
***

 

 

 
Rescisão

 

Era um livro
Eram páginas movediças
Eram dedos em descaminhos
Eram trechos descosturados
Eram tão jovens
Eram a prova do todo
Eram o início da noite
Eram o fim do dia
Eram o sopro grifado
Eram o resto das cinzas

 

 

 

***

 

 

 
A porta

 
ouvia a batida cadenciada na porta
cansada de recolher cadáveres na geladeira
alfaces escuras
carnes e frangos podres
cheiro de morte malpassada
persistem nas batidas
alguém reclama do outro lado
tapo os ouvidos do corpo
não aguento o espanar de dúvidas
a família junta-se aos cadáveres amontoados nos quartos
a matriarca morreu
quem sentirá falta do café fresco
do arrastar de chinelos
armazenei as mágoas roxas
o prazo foi embora
não permitem o saque dos links de felicidade
deixo que continuem a bater
e mantenho trancada a in-solidão

 

“Como titereiro, no silêncio, brinco com as palavras na composição de textos. Estanco na fronteira do real e da ficção, e esvazio de todo eu através da escrita.” Ingrid Morandian publicou: Água Terra Fogo Ar – Crônicas elementais, Ed. Uapê, 2011 – História intima da leitura, Editora Vagamundo, 2012 – Revista Plural 1900 e Revista Plural La barca, 2016,  Ed. Scenarium Livros Artesanais, Senhoras Obscenas, 2016, Editora Benfazeja, Revista Mallarmargens.

 

 

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Janela Poética II

Iolanda Costa

 

Foto: Kristiane Foltran

 
sortilégio

 
Um geômetra dos sólidos, vago
gira, embaraçado
à linha, ao diâmetro da carne:
suas figuras vazadas de plano e espaço.

Não vê a mulher, a ruína
a doce espádua nua e coruscante
das que copulam
as sete luas que lhe fulguram o pescoço.

Ela quer o testículo, o seminal
o esfero contíguo e providencial
das Causas Primeiras
transubstanciado.

O colo ungido em ceia mística.

 

 

 

***

 

 

 

brasil

 
A rã do ar invertido
de teu nome não salta:
coaxa como rãs, anãs
a fêmea muda que não coaxa
a língua longa que não alcança
o acento, o inseto, o insulto.

Teme o enxame, órbita-cócora
de brejo em brasa:
sapo sapa sepo
ipiranga tímida que não asa
itininga fúlgida que não flora.

 

 

 
***

 

 

 
ófris

 
do aéreo ao mediterrâneo
sibila a orquídea
seu voo de sépalas.

também a palavra
tem formato de moscas
e zune

sibila em sépia poesia tinta
sua escritura rumorosa:

asa-fulva-flor
de céu interior.

 

 

 
***

 

 

 
ceifa

 
não pinta tanto o lábio
a morte desfaz a boca, a cor
a escarlata do fruto
o rosa encarnado nos sexos

cuida da mortalha, do feno
a vida, bem se vê
não é uma gramínea
de flores nuas
abertas ad infinitum

arranca, do quadril
o colar de absinto

 

 

 
***

 

 

 
outono

 
arde em folha
seus degredos:
casco fóton salso
ulvas-vulva
céu sargaços

quisera do amor
a mão sobre o sexo
a textura do véu
a blusa florada
o indie folk de sais

renascidos ares, abril
onde a pele propulsa
encardida
e a tudo o sol ilumina

 

 

 
***

 

 

 

tear

 
meada
entre
meada

o algodão em flor

gosma, do liço
seu amarume
de estames

 

Iolanda Costa (Itabuna-BA), graduada em Filosofia, é arte-educadora e especialista em História Regional. Editou, artesanalmente, folhetos de poesia “Às Canhas as Palavras Realizam Mil Façanhas” (1990), “A Óleo e Brasa” (19991) e “Antese” (1993). Tem poemas editados em jornais, antologias, revistas eletrônicas e blogs. Participou do Livro da Tribo (2013). É autora de “Cinema: Sedução, Lazer e Entretenimento no Cotidiano Itabunense” (2000), “Poemas Sem Nenhum Cuidado” (2004), “Amarelo Por Dentro” (2009), “Filosofia Líquida” (2012) e “Colar de Absinto”, no prelo. Coordena a Coleção de plaquetes “Pedra Palavra” (2012 -2017).

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118ª Leva - 03/2017 Aperitivo da Palavra Destaques

Aperitivo da Palavra

A busca de si e as formas fixas, a Mecânica Aplicada de Nuno Rau

Por Roberto Dutra Jr.

 

Veio o pós-modernismo e nós nos fragmentamos em tantos pedaços quanto uma tela cubista comporta. Surgiu a world wide web e nos fragmentamos mais ainda em avatares e perfis, redes sociais, raves cibernéticas e encontros virtuais. Uma nova realidade abraça a todos nós e a cidade em que circulamos circula em cada dispositivo móvel em níveis que nos viciam sugando o nosso tempo como vampiros instalados nos chips.

Estas imagens e outras povoam irremediavelmente a minha mente quando carrego as páginas de Mecânica aplicada, o novo livro de Nuno Rau, que saiu recentemente pela Editora Patuá. Façamos o reload.

Nuno Rau faz uma mescla de imagens e narrativas versificadas, surgindo rápidas como flashes entre um fluxo de consciência que também engloba samplers de outros poetas e compositores. A desapropriação de um verso alheio é a identidade de um novo poema. O indivíduo entre estas páginas, que vaga numa polis cyber-punk perdeu as ilusões e dialoga ora com um outro, que pode ser ele mesmo ou um sampler de um poeta (ele mesmo se constrói? Ou uma voz do cânone?). Não temos certeza de quem está lá, à solta; quem é este observador do fluxo de informações, desolado em reflexos de si mesmo que não reconhece. É preciso quebrar os espelhos: “… erradicar / os artefatos / da ilusão”. Fica no ar sempre a pergunta se o indivíduo é o sintoma ou a doença de si.

Uma máquina do mundo revisitada não seria uma leitura extrapolada de Mecânica aplicada. Entretanto, os poemas de Nuno Rau, com um ritmo ainda mais fragmentado, comunicam-se com suas referências drummondianas e haroldianas (de Campos) e revelam uma profunda angústia de ser no século XXI um homem (poético) sampleado.

Ora com modos de graphic novel, algum desvio surrealista e certamente impregnado de distopia, os poemas de Mecânica aplicada não encontram caminhos nessa cyber-cidade, a única fuga é a para dentro de si, como nos versos de “por dentro, por fora”: “vivendo pela margem, neste exílio / de uma pátria que não existe, a não / ser na mais absurda alucinação, / nenhum dia me abre o seu sentido; / … / além do corpo, / … / as coisas seguem normais / … / sob a pele das coisas arde um tal incêndio”.

Mecânica aplicada tem uma unidade conceitual dividida em cinco partes, sendo Subversio machine, Imago mundi, Fenomenologia dos materiais, Opera mundi e Mecânica aplicada. Os poemas “Fragmentação”, “Romantismo mode on mode off” e “Ars poetica” são o ponto de convergência deste eu fragmentado do poeta (sua consciência dentro da máquina do mundo) e dividem o livro em uma tomada de estilo e de forma.  As duas seções finais são compostas de sonetos. O caminho para dentro de si é o encontro de uma forma fixa tradicional da literatura. Seria um retorno à infância ou à infância cultural de um ser poético desiludido num mar de informações e referências, impossível de ser filtrado?

Nuno Rau não reinventa o soneto, mas utiliza o recurso como uma oposição à fragmentação. Se havia uma busca, esta deveria ser por concisão e a aplicação da mecânica surge no verso e sua prática. Versos como: “a forma fixa: o conteúdo, não. / A mente é livre, o pensamento inquieto, / e exposto a mais esta contradição / cometo – extemporâneo – outro soneto”, demonstram o jogo metalinguístico montado.  Tendo a língua como referência na busca de uma possível identidade, este indivíduo, que pode não se perceber na polis cibernética e sampleada, encontra dentro de si uma sample anterior e nela tenta se elaborar, reconhecer-se como tal. A reflexão seria um questionamento constante de muitos autores: existimos apenas enquanto linguagem?

O emprego do soneto dá um frescor no texto, embora fique também outra pergunta latente na leitura dos poemas de Mecânica aplicada: o pós-pós da linguagem literária é a forma fixa? Ainda: a resposta da fragmentação de si na linguagem é o retorno ao cânone? Incluso das alegorias da infância, do amor, do encontro do outro e demais temas que podemos considerar como universais. Creio que faço perguntas demais nessa resenha, isso me intriga, mas também elucida algo muito claramente: uma das funções da arte é nos compelir ao questionamento, além de conformismos, certezas e confortos. Tendo isto em mente quero finalizar dizendo que Mecânica aplicada, de Nuno Rau, acima de tudo, deixa claro que: reload>code = poesia.

Boas leituras.

Roberto Dutra Jr. é um carioca, suburbano e deslocado. Escritor em resistência, mestre em Letras; foi editor da Revista Escrita e contribuiu para o jornal Panorama da Palavra, e escreveu artigos acadêmicos. Atualmente oferece consultorias literárias, e leciona quase na clandestinidade. É colunista regular do blog literário Zonadapalavra, resenhista da revista de artes Mallarmargens e usa o Instagram para experimentos fotopoéticos. Foi recentemente publicado na antologia Escriptonita (Patuá).

 

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117ª Leva - 02/2017 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Nayara Fernandes

 

Ilustração: Bianca Lana

 

Vésperas de um acontecer

 
não sei se sei, serei
no fim, talvez, eu seja
concreta o que não sei
sendo, melhor, o que nunca pensei
sem passado passeio nas paisagens das surpresas
sem futuro flutuo nas justaposições dos agoras

às vésperas d’um acontecer
sou tudo o que não foi.

 

 

 
***

 

 

 
Pele, à flor da carne

 
o vazio
no torso da poesia, o infértil
rubra vastidão de boca surda
rouco vão de olhos mudos –

a pele
à flor da carne do cerne do
excesso

quente doce inacabada
certeza do nada
quente doce inebriado
certame do tudo
um parto rasgado de vício
viço e delírio.

 

 

 
***

 

 

 
Ontens afins

 
uma vida curta
para dias longos
sonhos selados
para destino sem rédeas
a realidade me atravessa

num tráfego de segundos
sentidos me atropelam
sem defesas nem definições sigo – às cegas
não mais espero respostas
respondo as perguntas que me interrogam

todo o agora me define
todo o depois me duvida
todo o antes me recorda
todo o futuro me esquece
sou ontens afins de hojes infindos.

 

 

 
***

 

 

 
Já não sinto

 
já não sei mais
já não sinto quem sou
já não sinto quem soou
sou corpo que chama
suo poros em chama
sou inteiro alma queimando

na pele, em toque, o arrepio
na pele, em frio, o calafrio
na pele o fogo – (a)brasa viva

já não sei mais
já não sinto quem sou
já não sinto quem soou
já não sei dizer

o que sou
o que soou
onde estou
o que sobrou

de mim mesmo acabou
acabou de acabar
foi embora pr’um mundo imenso
o mundo intenso da tua alma
um mundo onde imerso emerso em mim

peno sem tua doçura
peno sem tua ternura
te preciso como cura
te preciso como escudo contra meus eus fantasmas
te pertenço inteiro pra me pertencer em parcelas suaves

sem ti não sou comigo
contigo sou inteiro
sem ti sou metade ignorada de mim
contigo meu sentir não mente
sentimento em suma transborda:
bordando em mim o amor que me salva com glória.

 

 

 
***

 

 

 
Pecados líricos

 
quero-me
embebecer do não sabido
pecados líricos – benditos
verbos versos vícios
ilícitos líquidos explícitos

quero-me
embebecer do não sabido
pecados líricos – benditos
sedes súbitas
securas sólidas
alma insana

que nunca me nega
um verso santo
: milagre de um peito morto
ateu na santidade – atado no amor sacro
que me salva das misérias interiores.

 

Nayara Fernandes nasceu em Teresina, PI, em setembro de 1988. Tem poemas publicados nas revistas Germina, Alagunas, Mallarmargens, Escritoras Suicidas e The São Paulo Times e nos sites LiteraturaBR e Livre Opinião – ideias em debate. Participou da coletânea Quebras – uma viagem literária pelo Brasil, lançada em novembro de 2015.

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117ª Leva - 02/2017 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Diego Vinhas

 

Ilustração: Bianca Lana

 

VISITA

 

da mesma matéria
de que são feitos
os domingos
– tédio e vapor em pedra-sabão –
compunha-se a espera
num gesto mais
branco

 

 

 

***

 

 

 
DE UM CALENDÁRIO

 
as coisas, depois, têm o tamanho da bagagem.
cada um sabe o peso das alças, a medida do que
escorre. e comungam, além do instante e das
coordenadas, a dose de um tédio que rumina e
aprende a doer,
depois.
primeiro, as coisas morrem.

 

 

 

***

 

 

 

BENFICA

 
das guerras que sempre respiram
em algum lugar do mundo,
pousa aqui este
atrito
contra a tarde pronta para
esmurrar meu abraço
na lembrança de você dizendo caminhar
por uma cidade
desconhecida é tomar a vida
de alguém,
emprestada,
contra a luz (e seu monólogo,
esta milonga), esta
bela infelicidade a jogar
ligue-os-pontos
com cumeeiras, árvores
e sombras do bairro
unidas sem voz
como em uma
língua
de estátuas

 

 

 

***

 

 

 

NADIR

 
uma vez no terraço do plano mais erguido
(céu e teto justapostos)…. da graça

você desce um degrau

até a próxima nuvem, e sem que perceba
…………………..o chão se aproxima

a viagem vertical

….corta o arranha-céu
….atravessa o solo
….no eixo negativo
….do inframundo

sonho abaixo

em
mácula anátema opróbrio vendeta
doença vileza repulsa infâmia
fel ira joio malícia dissenso
flagelo mania engulho falência
e quando não for mais possível
— baque seco —
significa que você chegou.
este é o grau zero da queda.
agora comece a cavar.

 

 

 

***

 

 

 

BABEL

 
dentro da pós-verdade

rostos geminados
sorriem (saliva e
peçonha

) apontando a culpa da vítima
a culpa pós-
morte

cozida por indicadores em riste
na longa noite
dos amoladores de facas.

dentro da pós-verdade ainda
o pós-trabalho: a rês livre
para os negócios
(as cláusulas e caminhos
do abate).

agora pós-tudo

a legião de pais da velha família

vomita em novilíngua

a redução de um país
ao plural de pó

 

 

 

***

 

 

 

MINHA SOMBRA E EU

 
1. tropeçamos muito – isso
não é engraçado.

 
2. gostaríamos de menos luz
ou nenhuma:
ela também precisa dormir.

 
3. desconfiamos de romances
de formação ou do fim
da História, mas estamos
esgotados
demais para debater.

 
4. adoramos, sem razão
aparente,
bancas de revistas
padarias
e aeroportos.

 
5. ouvimos nossa tradução
simultânea
mesmo que entre o
vão das vozes algo
escape para nunca
mais.

 
6. preferíamos afastar a
intimidade forçada (creio
que a ela incomode
que meus gestos sejam
sempre
spoilers dos seus).

 
7. continuamos sós.

 
8. também não sabemos
bem
o que fazer
com os nossos mortos.

 

Diego Vinhas nasceu em Fortaleza/CE em 1980. Publicou os livros de poemas “Primeiro as Coisas Morrem” (2004) e “Nenhum Nome onde Morar” (2014), ambos pela editora 7 Letras (RJ). Coeditou a revista de poesia GAZUA e organizou a antologia “Meio-dia: alguna poesia de Fortaleza”, publicada em edição bilíngue pela editora VOX, de Bahía Blanca (Argentina). Participou de diversas antologias no Brasil, EUA e Portugal.