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113ª Leva - 07/2016 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Maíra Mendes Galvão

 

Rety Ragazzo
Desenho: Rety Ragazzo

 

o que as mulheres fazem aos domingos?

 

as mulheres
como nós
ocultas
aos domingos

vadiam

o quanto podem
a qualquer hora

e sozinhas

conjuram demônios

se despem das peles

furam bonecos

viram sirenas

arpejam

arrastam móveis

afiam facas

desaparelham-se

criam olhos no rabo.

epopteias,

as mulheres
ocultas

aos domingos
como nós

têm um duplo
que maquia a semana

e faxina

e se esmera

e afaga

e se estupora

enquanto
a outra

bebe
disnômica

iâmbica
da várzea
do lete.

 

 

 

***

 

 

 
a broca

“tenho fome de me tornar em tudo o que não sou” – Waly Salomão

 

 

no meio da tarde li essa frase
no meio da noite acordei brotando
em dada hora da manhã, de novo
havia sonhado com alguém a que doravante chamo “você”
mas você não era presente, nem passado
tinha órbitas encauchadas
pálpebras jamais cerradas
uns lábios mastigados e virgens, quase
e um discurso que saía entrecortado
um arremedo de diálogo
naquele cenário multiverso
naquele mundo subjétil
naquela luz insaturada
não sei se era o que sou
constituo ou sou enervante
de fibrosas correntes
de túnel monóculo fitava
sua boca
que dizia coisas, enquanto
saíam bolos, de uma lata,
de carne moída
mais encruada do que cozida
e você, de mancheias
deglutia
destacado
do gesto em si, até do simbólico
aquela massa aflorada
comia e dizia e era homem, era outro
e o apetite não era impulso
não era reflexo
era artifício, era palavra, era método.

 

 

 
***

 

 

 
(ana)crônica de uma ótica ou a eterna moribunda

 

meu sestrodestro
esturdido véu

nele, tão excentro

olho

os modos
as ameaças
as vergonhas

se concentram.

para enxergar, um
só basta

adestro

– olho de fossa
para escoar bofes

– olho de fumaça
para esconder gafes

– olho de faca
para extirpar bifes

– olho de coxia
para elevar fobos

locus horrendus
donde espreita a impostura

extemporal

olho – orco – ôminos.

 

 

 

***

 

 

 
acuidade vulnácula

 
fibromiasma no lugar de leito
a cabeça de penas e lacunas
um aperto nas conas – a de nervo e a de sangue
– melindroso fez visita
impromptuosa
lancina ancora cona-píncara
e retorna, anacruz.

 

 

 
***

 

 

 

cristalografia

 
no crisol, cristalogia que intento acumular
é o avistado que se embrenha e transforma
nas cristas e crenelagens, grisol
o zênite se espraia e, de gris, tinge
de vez, tudo pré-maduro,
sustentando o suspenso sem fim,
adiando a mundos, afora de resolução,
tateando em letras o vocovocífero
do verde de lastro e pedra.
dos limites das sombras e
de seu deslocamento, vejo,
em quase glaceada órbita,
toda a petrologia
e ignitude
em seus recônditos de cumes geminados,
pretenso planalto,
por isso vivente.
aceito, assim,
a topologia,
que, de rompante, iterativa me acompanha
e reconheço essa face das faces,
cresta em toda volta,
com intenção de ser infinda
crostalogia,
fundante assombração.

 

 

 

***

 

 

 

Ersatzspielerin

 
teimo em não acender a luz, encalhada
sem saber se quem – eu ou o mundo
é suplente de algo primevo
se o que existe é a tensão ou
degrau de recursividade.

o violento da memória é a retenção do vazio.

penso em palavras multiportantes, como não me escapa fazer:
merimnologia, ou: considerar é arder.
mermeridade, ou: ansiar é condenar-se.
metameridade, ou: a parte pelo todo.

palavras me procuram, procuram a nós
porque as salvamos de um desígnio adjunto
nos lançamos aos fins da tensão.

me vejo merócrina, exocito
e a elas entrego
qual impostora estertorada
o grau primeiro das coisas.

 

Maíra Mendes Galvão nasceu no planalto central em 1981, estudou Desenho Industrial e Filosofia na Universidade de Brasília. Depois de formada, morou na Inglaterra e passou a dividir seu tempo entre Brasília, Alto Paraíso e São Paulo (e outras cidades nos interlúdios). Trabalha como tradutora e revisora desde 2004 e foi assistente editorial na UNESCO. Publicou na Revista Geni, na Revista Raimundo e escreveu um poema especialmente para a antologia “Golpe: antologia-manifesto”. Realiza oficinas de leitura e criação de poesia e conversas sobre literatura feita por mulheres junto com Jeanne Callegari.

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113ª Leva - 07/2016 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Rita Isadora Pessoa

 

renata-ragazzo
Desenho: Rety Ragazzo

 

“a paixão segundo”

 

mordo e observo partes duras
movendo-se na oscilação entre
luminosidade e desaparecimento.
mordo,
em busca de algo que reflita luz, sem
pontos de interferência, sem
sobreposição de planos sensoriais,
essa sinestesia opressiva que anuncia
que toda alegria é temporária.
ando mordendo a ponta dos dedos,
mordendo as páginas estrategicamente
abertas
e a essas alturas do quase verão
do rio de janeiro,
eu preciso de neve como quem precisa
acordar de um sonho excessivo,
lindo sim, mas
com a beleza descomunal
dos colapsos e vulcões despertos.
tenho sentido uma compressão lenta
da alma, como se estivesse me tornando
uma pessoa pequena aos poucos, diminuindo
milímetro por milímetro, ainda assim
mantendo as proporções,
como uma anã liliputiana de Rosa Montero,
aguardando o eventual desaparecimento.
“é um engano”, é o que você diria,
e eu ainda estou esperando,
estou esperando que você me diga
“sim, você está enganada”, mas eu não estou.
sim, pequenas surpresas ardem na virada do dia,
mas não estou enganada quanto a isso:
hei de inventar um outro nome para isso que morre
na virada do dia e renasce bicho difuso, ainda sem
penugem, sem consciência
da metamorfose que guarda em si.

 

 

 

***

 

 

 
“síndrome de estocolmo”

 

[ …..isso é o ensaio de algo?…… ]
, você me pergunta na porta
………..do quarto – os hiatos
em meu discurso abertos à tua
observação, ao teu toque ruidoso.
…….centro ….e margem dispostos,
como num jogo de tabuleiro
e eu peço um tempo para responder,
pois não sou boa com cenas, com cri-
anças ou fogões, você sabe e sorri teu
sorriso netuniano. eu meio que desvio
o olhar e busco, nas paredes de cal,
por um orifício, um traço que turve
………o teu corpo solarizado, bruto,
logo você me pergunta, irisado
de repente:
[….. mas isso, isso tem nome?….. ]
……………..não, eu digo.
volto-me para a cama, desolada, pois
estes lençóis freáticos de crisálida
…….em desalinho, desaguam
…….no mar
…….e não retornam jamais.
………………………e esse é o ponto angular
da tua célula terrorista, amor,
cá estamos a lutar pela terrível liberdade
de bater os dentes , tremer de fome,
sede, amor,…………………. hipnotizados
[…. e agora, ainda é um ensaio? ….]
…………….pela oportunidade
de morrer, amor,
de morrer de medo.

 

 

 

***

 

 

 
“nascimento de vênus”

 

 

……primeiro
……………hei
……de lavrar
esse teu mar
guardando
……..na terra
.o que funda
……..o seco

…….é preciso
toda uma era
para indicar
….o nascimento
…………..da ilha
………..e seu eixo

…..imprimo
de ….leve
na tua imagem
.ossos inteiros
…..e tua dupla
Exposição
…..emerge
…….óbvia
..tal qual paleta
…..de cores
….primárias
no auge do verão

cai a tarde
e circulam
..silêncios
como aves
em torno
…….de um
coração
que parte
…..à vela

inteiriço
………ainda que
……curvo

 

 

 

***

 

 

 

“diário do ano da cabra”

 

{caro centauro}

 

decidi ignorar
solenemente
o som de seus
…………cascos

soterrar
essa mulher
de mistérios
alagados
bárbaros

porque isso
NÃO É
um poema

porque o ano
da madeira
[suas lascas
goivas foices]
termina aqui

~lembre-se
de que isto
não é um poema~

………………é que
………………morrer
d.e.v.a.g.a.r.i.n.h.o
……exige fleuma

delicadeza suprema
.uma certa finesse
..que não possuo
…………………:….não é
…………………..fácil cair
…………em…. câmera …. lenta

 

 

 

***

 

 

 

“dos rumores que se instalam”

 

….não posso dizer que
..ignoro com seriedade
a consciência do medo
……………nas gengivas
e a eletricidade que alimenta
o corpo venoso brutal
da vergonha porcamente
equilibrada nos joelhos.
………como é possível
que a despeito de tudo
………as gentes sejam?
que sejam com pavor,
e dentes caninos a mostra,
……………..mas que sejam.
a mim, é impossível
deslizar com graça
por essa existência
de pequenos naufrágios
de impossibilidades rotundas
de quebra-mares.
ouço um fino assovio
…………..que assegura
o cativeiro de muitas feras
nos porões deste navio
……..e sei dos rumores
instalados, pesando sobre
grossas cordas e velas içadas:
o coração batendo vivo
no fundo desta caixa.

 

Rita Isadora Pessoa nasceu no Rio, em 1984, é graduada em Psicologia e não graduada em Estudos de Mídia. Estudou a poeta Sylvia Plath, no mestrado em Teoria Psicanalítica (UFRJ), e é atualmente doutoranda em Literatura Comparada (UFF), onde estuda o duplo em sua modalidade animal. Trabalha como tradutora, revisora, astróloga e taróloga. Seu primeiro livro de poesia, “A vida nos vulcões”, foi lançado no final de agosto de 2016 pela Editora Oito e Meio.

 

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112ª Leva - 06/2016 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Romério Rômulo

 

Patrick Arley
Foto: Patrick Arley

 

sinto, marília, dizer

 

se eu caminho, marília
nas estradas de ouro preto
sinto teu olho rasgar
o lacre da minha carne

sinto o duro e permanente
viés com que interrogas
meus estratos seminais
que só pulsam do teu lado

sinto, marília, dizer
que no teu olho apagado
acabo de anoitecer

num mundo vitrificado
na morte mais indizível
de que alguém quer morrer.

 

 

***

 

 

fragmento de desarmar a morte

 

se todos morremos na estrada
o que fazer dos caminhos?

vou desarmá-los, amada.

 

 

***

 

 

tão bêbados de tudo, estes poetas

 

poetas são malditos e no espanto
de revelar limites se martelam
há um poeta assim em cada canto
no redemunho do espanto que revelam.

poetas são em pétalas, cruéis
com tintas destiladas pela mão
seus dedos se arrebentam em pincéis
drogados pela cor da solidão.

tão bêbados de tudo, estes poetas
de ansiedade e insônia vão tomados
ao percorrer a noite pelas frestas
poetas são destroços renegados.

 

 

***

 

 

equação

 

eu sigo puto.
reajo em fogo:

viver é bruto.

 

 

***

 

 

Fragmentos, 12

 

1.
trago comigo
uma batalha solta
uma revolta puta
uma babel envolta.
2.
um anjo me parece pouco e lento
pra todas as batalhas que sustento.

 

 

***

 

 

chame qualquer coisa que me caiba

 

se eu brotar do silêncio
chame a vida
chame qualquer coisa
que me caiba

seja poesia, mulher ou desavença.

 

 

***

 

 

quando as tripas da noite me inventam

 

quando as tripas da noite me envolvem
sou um homem retinto de pavores:
30 colunas perdidas me comovem

quando as tripas da noite me arrematam
e sou um peso morto das palavras
30 colunas tortas me chibatam

e se as tripas da noite me embriagam
30 vozes me ardem o sossego
pelas 30 colunas que me vagam

quando as tripas da noite me arrebentam
e 30 corvos me roem a carcaça
são as tripas da noite que me inventam.

 

Romério Rômulo é professor de economia política da Universidade Federal de Ouro Preto, UFOP, MG. Poeta e editor, publicou vários livros de poesia, entre eles “bené para flauta & murilo” (1990), a caixa “tempo quando” (4 livros em 2 volumes, 1996), “matéria bruta” (2006),”per augusto & machina”, 2009, “i ah, si yo fuera maradona!” (bilíngue português/espanhol, 2015).Escreve semanalmente uma coluna de poesias no Jornal GGN, editado pelos jornalistas Lourdes e Luis Nassif. É um dos fundadores do Instituto Cultural Carlos Scliar, com sede no Rio de Janeiro.

 

 

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112ª Leva - 06/2016 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Márcio Leitão

 

Patrick Arley
Foto: Patrick Arley

 

Avesso

 

Na luta feita de pó
Todos os dias
Prometo cura
Por sobre meus ombros

Todo dia contagio
A liga delicada
Dos sonhos e dos dentes
Mas a tontura do corpo
O sol se franzindo
Devagar
Os ossos roendo
A carne
As carnes
Cavando
Os ossos
E o zumbido
Vívido
De marte
Não silenciam nunca.

Adoecer
É como rasgar o ventre
No meio
Da vida
Tentando escorrer
Por sobre a falta
Cotidiana
Dos sentidos.

 

 

***

 

 

Coro

 

Perfilados
Artífices
De notas
Que roem
Cada caule
Nosso
Que cospe
No céu

Embriagados
De perfeição
Cantam
As pétalas
Anoitecidas
Sem nenhum
Gole
De um tempo
Gordo
E moído.

Só líquidos
Inundam o ar
E os estômagos
Pás se levantam
E cobrem
Os cortes
Sem capuz
Que só lambem
O Canto do mármore
E das costelas.

 

 

***

 

 

Se duas toalhas…

 

Se duas toalhas
se entrelaçam
Molhadas com o prazer
das sombras que enxugaram
Nelas há algo de carne e espuma
De resto e de rosto.
Nelas convergem-se olhares
Perdidos de seus olhos,
Caídos de seus ventres.
As toalhas completam o balé
Das formas
Assim como um talho humano
Completa as almas.

 

 

***

 

 

Como?

 

Como prever a medida das distâncias
sem que ande por algum caminho?

Como perceber as luzes que brilham pouco
se a nova lua que não se faz redonda,
se faz presente no mistério?

Como chorar procurando um desabafo de cores
se todos os choros são vestígios
que reconstroem o triste arco-íris?

Como encontrar a direção
se todas as direções são ilusões,
miragens de caminhos solitários?

Como perder as amarras
se todos os passos tocam o chão
e sentem o perfume das correntes?

Como envolver os pássaros
que ainda pousam
se pensam eles ser livres?

Como contar os degraus
se os desníveis estão nos olhares?

Como desperdiçar os segundos
se cada segundo que contas
perdes, apenas, seu tempo?

Como responder essas perguntas
se perguntam para dizer
e não para perguntar?

Como?

 

 

***

 

 

Silêncio na Boca

 

Palavra torta
embaixo da língua
contorce o dorso do céu
palato perdido e surdo
pedido de arranhão velar
pedido de toque ligeiro
de língua sem sapatilhas
dançando no véu inquieto, no céu duro
e no macio dos alvéolos
fazendo chão
o som da minha carne.

Márcio Leitão é professor de Linguística, pesquisador em Psicolinguística (UFPB); tenta entender os processos mentais relacionados à linguagem. Poeta e escritor de livros infantis, escreve pra poder imaginar como é ter liberdade, respirar sem amarras. Escreve também pra se divertir com as palavras e com o que pode construir com elas. É editor da zonadapalavra, onde também publica, geralmente, aos sábados.

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112ª Leva - 06/2016 Janelas Poéticas

Janela Poética V

Líria Porto

 

Patrick Arley
Foto: Patrick Arley

 

espantos

 

muitas caras
uma da infância outras da juventude
inúmeras caras maduras e agora
a da velhice
todo dia a cara muda
:
e cega
e surda

 

 

***

 

 

maríntimo

 

desde ontem
uma onda rebenta em meu peito
traz à tona o que vem lá de dentro
e me tinge de urgências

desde sempre

 

 

***

 

 

suburbano

 

meio sábio
meio cético
meio cínico
meio sóbrio
:
e cheio
de empáfia

 

 

***

 

 

herege

 

não caio nas malhas de deus
mais fácil me prenda o demônio
o céu não é lugar para gente
como eu
anjo não é santo
e nem faz milagre

 

 

***

 

 

frappé

 

nem nas horas tristes
foi infeliz
nem na mais alegre
sentiu felicidade

(viver é corriqueiro
um rato a roer queijo
um gato a perseguir passarinho
um cão a rosnar no portão
a levar pedrada de moleque)

 

 

***

 

 

desvios

 

primeiro enfiou-lhe um prego
depois um fósforo aceso
e ao final um saca-rolhas
(torceu e puxou)

seus olhos brilharam
sempre gostou de
ver-me-lho

 

 

***

 

 

monstros

 

a lagartixa me olha
a lagartixa me fita
eu na cama fico rija
lá no teto ela se move
e faz isso lentamente
como a medir o perigo

eu temo que ela despenque
mas não sei o que ela pensa
eu sou tão inofensiva
:
nós assim passamos horas
a temer a morte
a vida

 

Líria Porto, mineira de Araguari, professora, poeta, dois livros editados em Portugal (Borboleta desfolhada e De lua) e dois no Brasil (Asa de passarinho e Garimpo – finalista do Prêmio Jabuti 2015), autora do blogue tanto mar, participa de vários sites, jornais e revistas na internet, entre eles Escritoras Suicidas, Germina Literatura, Zunái, Blocos Online, Considerações do Poema, Poesia Perfeita, Mallarmargens. Reside em Araxá, interior de Minas Gerais.

 

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Janela Poética II

Lívia Natália

 

Patrick Arley
Foto: Patrick Arley

 

Eu nadaria no teu suor

 

e seria sereia encantada.
Eu, montada no lombo do seu grosso navio,
meu Odisseu,
nada em ti cessaria de querer,
nem tuas mãos atadas.

Eu cantaria macio,
com a carne da minha entrega
uma canção de fêmea na sua orelha
e das águas de teu suor geminariam insutilezas.

Na deriva de um quarto enorme,
navegaríamos a cama pequena.
Enquanto os lençóis, de pura onda,
Imitam o tecido das estrelas.

Sem rota, bêbados de maresia
nos acharíamos pelo cheiro
no faro puro de que é feito o desejo.
Eu cantaria esta canção antiga,
encantadeira,
enquanto destroços de sua boca caminhariam
……….pelo meu corpo
tangendo novos naufrágios.

 

 
***

 

 

Confissão

 

Tenho medo deste meu coração de Água.
Há nele tanto peixe ligeiro,
Miuçalha de ondas por cima.
Tenho medo, por que as ondas param,
E eu mato, sem medo, o ligeiro dos peixes
Devorando suas guelras.

Tenho medo deste meu coração de Água
Que molda pedras macias.
Temo pelas pedras que moram nele,
Por que sei que viro lâmina afiada
Que fere a pedra.

Tenho medo pelas plantas pequenas que se trançam nas bordas,
Pelos peixes famintos que atravessam minha pele
Até pelas oferendas que colocam a meus pés,
Eu temo.

Temo por que sou rio, e meu caminho é desaguar.
Penso nas embarcações que me atravessam,
No pescador todo feito de peixes
que eu conquistei sem nem cantar
Penso em virar seu barco no meu meio mais profundo
Lacerar sua pele de homem, com meus dentes de nada,
Dar a ele a respiração de afogado, que só eu sei dar
E seguir, andando sobre meu próprio corpo
Com os meus olhos prenhes de mar.

 

 

***

 

 

Desamparo

 

Os filhos são feitos de partir
e toda casa é feita oca para sua ausência,
e grande, para que se percam

Parido, o útero silencia,
implode,
e das constelações que abrigou enorme,
nada vive que tenha sido estrela.

 

 

***

 

 

Ausência

 

Como se tece o amor, este manto fino?
Que fazer dos dedos feridos pelo gesto repetido de amar?
Quarenta dias acordaram para o vazio,
quarenta noites abrigaram silêncios.
Nenhum barco atacava, nenhum trazia você.

Sua alma dura

Meus dedos finos, de carne e sangue vivos
Os olhos secos: lágrimas impossíveis.
Que fazer do amor, deste sacrifício,
desta faca pura lâmina que morde minha carne?

 

 

***

 

 

Antes que chova
(Último poema)

 

Antes que ele venha eu já sou feliz.
Se ele vem às três da tarde,
eu já amanheço iluminada
pelo por vir do tempo,
e as horas caminham languidas enquanto eu me banho,
perfumo e me preparo
para sua chegada.

Ainda antes que ele chegue
Meu corpo está calmo e prenhe de sua presença.
E quando ele chega, eu já estou
Luminosa pelo fim da espera.

Antes que ele chegue eu já sou mulher,
Sou inteira e nada me aparta de mim.
Ele a mim se acrescenta,
onde nada falta.
E este excesso de aço e negrume,
estes brancos que se desenham
em barbas no seu rosto
esta boca de libélula nas minhas madrugadas
a mim se somam.

E apenas por que sou inteira
ele vem completar-me ali,
onde nada falta.
E o afeto que tange nossas almas
nos emancipa e dilata
como se o amor pudesse

 

 
***

 

 

Insurreição

 

seria mais fácil não amar os pessegueiros macios
e nada sorver do seu perfume,
mas os meus dentes querem a carne do seu corpo,
minha língua deseja lamber do seu sumo.

O certo seria plantar a semente e esperar,
dos laços e nós dos caules finos,
aspergir-se o perfume da fruta vindoura.
mas meu corpo tem pressa
e não respeita os relógios que inventam o tempo.

Minha natureza é temporã.
Eu sou das fêmeas que vão!
Ficar é para quem tem raízes,
ceder é para quem deseja morada: eu sou o desabrigo.
quero a fruta furtada do pé.
comer seu gosto ainda verde,
morder suas entranhas ainda duras.

não sou das que esperam,
Sou das que não querem nem chegar,
Sou de partir e, no precipício, ainda ser silenciosa,
inteira.
Sou uma destas mulheres que vão.
ficar é raiz.
partir é imensidão.

 

Lívia Natália, sou baiana de Salvador, poeta e contista. Escrevi o livro de poemas Água Negra, 2010 (Prêmio Banco Capital de Poesia) e Correntezas e outros Estudos Marinhos, 2015.  Sou doutora em Teoria da Literatura e professora do curso de Letras da Universidade Federal da Bahia.

 

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111ª Leva - 05/2016 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Bruna Mitrano

 

LUMA FLORES
Arte: Luma Flôres

 

da janela, aparávamos a água com as palmas em concha – serpeava prata nos antebraços. duas vezes, ela juntou os dedos e fez como se lavasse as costas dum recém-nascido. abaixávamos as cabeças e víamos a chuva de onde deus a vê, umas linhas semiperfeitas a estrelar no chão. nossos ombros unidos, sua pele lisa e negra. no meu rosto, o vapor frio do seu sorriso sem palavras. não olhávamos pra trás – o quarto branco, a cama ao centro, os lençóis usados. não nos olhávamos. (eu esperava o sol, quando a morte me tocava).

 

 
***

 

 
já não alcançava seu sono
lembrava de quando podiam ser tristes juntos.
soubesse a hora de ir, calaria
e encolheria o corpo raquítico sob a coberta embolorada.
por outro extremo, lacunava-se em palavras rasas,
entregue, farta, extasiada –
que não pesasse ser pó, havendo mãos.

 

 
***

 

 
o ruído dos dedos esfregando a barba
os olhos inarticulados dos pesadelos diurnos
as luzes fragmentadas nas paredes exaustas de tantas
falas – era quando fingíamos ser livres
desconjunturando a barbárie
desses tempos inaudíveis.

 

 
***

 

 
o sangue no antebraço
que a luz baça faz preto
punho cerrado
uma lasca de vida agarrada como última –
nada importa se há dor.

 

 
***

 

 
o cobertor no chão
invólucro seguro que não se ousa enjeitar
abraça uma ausência morna
fora, o dedilhar contínuo de quem olhando a tela teme –
absurdos Morte muxoxa bate de leve o punho na perna direita –
o imponderável particular.

 

 

***

 

 

já não sabiam se temiam por si ou pelo outro. a cabeça de lado, o pelo na língua, os roxos na pele. aqueles homens apaixonados pelas coisas erradas, pelas pessoas erradas. estive muito tempo dentro dos dias, e não olhar pra trás era o mesmo que pedir não me deixa ir. mas há beleza no hálito doente, nas vicissitudes dos corpos, no rasgo imprevisto na carne, e não tão só, quando a espera é o grito imanente, irreversível.

Bruna Mitrano (1985) é favelada, professora da rede pública e mestre em Literatura Portuguesa (UERJ). Em 2010, esteve entre os vencedores do Prêmio Off-Flip, na categoria Conto. É autora fixa na revista Mallarmargens. Tem textos e desenhos publicados nos: Contemporary Brazilian Short Stories (Califórnia), Flanzine (Portugal), jornal Plástico Bolha, revista Germina, Zine Joia, blog da Confraria do Vento, blog da Editora Oito e Meio, Fórum Virtual de Literatura e Teatro, revista Tlön (Portugal), revista Diversos Afins etc. Participou das antologias “Algum vazio nesta paz fajuta” e “Clube da Leitura Vol. III”. Seu primeiro livro de poemas e desenhos – “Não” – será lançado em breve pela editora Patuá.

 

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111ª Leva - 05/2016 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

L. Rafael Nolli

 

Luma Flores
Arte: Luma Flôres

 

Paraíso

 

1
muito além das plantações de agrotóxicos
esquecido depois da derradeira ponte

do último homem que por ali passou
não resta o menor vestígio

o que ele viu – há tantos anos atrás –
é o mesmo que um satélite vê agora
da imensidão do espaço sideral

nenhum dos dois sequer suspeitou

 

2
onde hoje a árvore produz sombra
o prédio da prefeitura se erguerá

o rio prateado pelo sol
escorrerá
sinistro & pesado
dentro de uma galeria

pouco depois da colina
um sinal de trânsito determinará o fluxo
para o que agora é só vale e vento

 

3
sobre esse chão as pessoas
conhecerão fome e sede
e lutarão até as últimas forças

onde hoje prospera a grama miúda
a estátua de um boçal apontará o dedo
para a imensidão do espaço sideral

 

 
***

 

 

Hefesto/Vulcano/Völundr

 
Era um deus, no entanto.
Porém, não o poupavam. “Coxo Coxo
…………………………………………Coxo”
sussurravam pelas ruas.

Nos inferninhos e na boca do lixo
o consenso era geral:
“feio como um beliscão no cu”
“a própria mãe reconhece a merda que fez”
& demais despautérios.

Entre os seus, em língua grega
– ou naquela que lá se fala
& tampouco compreendemos –
a fama de corno corria aos quatro cantos:

“vencido por um amor de espuma”
“enfeitiçado pelos olhos de cigana oblíqua…”
& coisas do tipo.

Distraído, no cômodo do fundo
iluminado pelo fogo da fornalha
ele nada ouvia
senão o som do martelo malhando o metal.

 

 
***

 

 
23 horas 56 minutos e 4,09 segundos

para Érico Baymma

 

 

1
dias ruins
por coisas pequenas
quase-nada
pingo no i na letra errada
tropeço no cadarço desamarrado

dias ruins
por grandes problemas
estouro de boiada
um caminhão entalado bloqueando a paisagem
azia no banqueta das musas

dias ruins
por bobagens corriqueiras
coisas banais
azar no jogo
– dardo, RPG, carta –
ter que repetir a frase
(quando não se disse nada)

 
2
dias bons
por coisas pequenas
ou por nada
um sorriso (alado)
um pássaro pousado no retrovisor do carro

(ou por qualquer coisa fugaz rápida
como a queda de um meteorito
o bote de uma naja)

dias bons
por coisas grandiosas
que tomaram tempo
& cansaram o espelho
que consumiram a tinta do calendário

dias bons
por coisas improváveis inesperadas imprevistas:
encontrar um novo amor
ao pegar o caminho errado

(ficar perdido
até ter que mudar de casa)

 

 
***

 

 
O vendedor de algodão

 
o vendedor de algodão doce
se anunciava com um apito

senhor de diversas cáries
distribuía nuvem cristalizada
tingida de azul ou rosa

aceitava cascos de cerveja
que guardava em um saco de batatas

quando passava por uma criança
que não atendia ao seu chamado
ou simplesmente não se interessava
saía resmungando

curvado sob o peso do fardo

 

 

 

***

 

 
Cidade dos sonhos

 
1
Antes do amanhecer
estarão tomando a praça central.

A imensa cavalaria
sedenta pelos jardins

arqueiros posicionados
no alto das colinas

a infantaria
dinamitando as pontes.

Pé ante pé, rua a rua,
as posições sendo tomadas.

No entanto
antes que declarem o seu triunfo

um golpe decisivo dissolve o inimigo.
Abro os olhos: acordar basta.

 
2
Um dia a guerra estará perdida
e o povo daquela cidade
que só existe em meus sonhos
ficará entregue a própria sorte.

Um dia, quando eu não acordar mais,
a cidade se extinguirá
com todos que por lá transitam –
ou eles migrarão para outros sonhos?

Quem sabe, enfim,
esse seja o dia em que terei que defendê-la
de corpo presente
com as próprias mãos…

 
3
Saberei eu no sonho de quem?

 

L. Rafael Nolli nasceu na cidade de Araxá, MG, no ano de 1980. Publicou Memórias à Beira de um Estopim (JAR Editora, 2005) e Elefante (Coletivo Anfisbena, 2013).

 

 

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111ª Leva - 05/2016 Janelas Poéticas

Janela Poética V

Geraldo Lavigne de Lemos

 

Luma Flores
Arte: Luma Flôres

 

a meu tempo

 

faço muito uso do quando
porque o tempo me parece inconstante

às vezes é água represada
por outras, atira-se como cachoeira

sabido desta verdade
não costumo confiar nas máquinas
pois meu tempo confunde os relógios

confio, sim, na linha da vida
que, tesa, dispara o carretel
e, frouxa, para-o

 

 

***

 

 

poeira iluminada

 

o inverno desce
……………..pelas galerias

nada mais o tempo tece

em minha terra,
neve é poeira iluminada

………….fato perene
………….na calçada

 

 
***

 

 
Cachoeira

 

louvo o curso deste rio
pela mensagem silente
de amar o inimigo

espumo palavras
entre meus dentes
: leito calado
e impotente

espero um dia
poder vomitar enchentes
como fez o rio em 67

 

 

***

 

 

magarefe

 

eu não descabelo mais o porco
na água fervente
enquanto ele sangra pelas ventas
e grita os meus pesadelos

não marreto mais o carneiro
para deixá-lo demente
e colher-lhe o sangue
entre os espasmos

nem trespasso mais a lâmina
na garganta do garrote
apeado aos meus pés

hoje, o máximo que me ocorre
é ver um frango
circular sem cabeça
tingindo o piso

sento em minha cadeira de couro curtido
e da varanda vejo as moscas
cobiçarem o meu jazigo

peço às larvas
que esperem meu corpo esfriar
antes de me terem engolido

 

 

***

 

 

melodia sazonal

 

o capim verde expõe as sementes
no alto de seus dois metros

o campo contrasta a cor do céu
pousa uma dúzia de cardeais

o vento enverga os talos
e todos dançam
…….folhas ornadas com vestes santas

aguardo para ouvir o canto do bando
…….coral de notas fartas

 

 

***

 

 

somos da linhagem do pau-brasil

 

temos o lenho
….duro
………bravo
…………..e resistente

….espinhos firmes
……..como dentes

nosso colorido sumo
…..denota o calor
………das nossas entranhas
enquanto as folhas miúdas
….relatam o minucioso
……. – e permanente –
………esforço

não esperamos piedade

ouçam apenas o ressoar do violino
……..através de nosso cerne

 

Geraldo Lavigne de Lemos é natural de Itabuna e radicado em Ilhéus. Membro da Academia de Letras de Ilhéus, autor dos livros À Espera do Verão (2011), amenidades (2014), alguma sinceridade (2014) e Massapê: Solo de Poesia (2016), todos de poesia e pela Editora Mondrongo. Integra a antologia Diálogos – Panorama da Nova Poesia Grapiúna (Editus / Via Litterarum, 1ª ed. 2009; 2ª ed. 2010). Realizou a Exposição Interativa Tempos Invernosos com poesias na galeria do Teatro Municipal de Ilhéus em 2008, remontada no Instituto Nossa Senhora da Piedade como parte do Ano Ibero-americano de Museus. Foi membro do Conselho Municipal de Cultura de Ilhéus no biênio 2011/2012.

 

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111ª Leva - 05/2016 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Micheliny Verunschk

 

LUMA FLORES
Arte: Luma Flôres

 

Um Klint

 

A cor falsificada,
a textura
imprecisa,
o nome esquecido
entre sinapses.

Talvez chame-se espelho
isto o que vejo.
Talvez chame-se afeto
isto o que quebro.

As cores,
ruivo,
laranja,
castanho,
branco azulado.

A palavra se perde,
mas era eu
em lâminas de ouro.

 

 
***

 

 
Naturezas-mortas

(a propósito de uma série de poemas de Robert Melançon)

A Jerusa Pires Ferreira

 

I

Emana da pele
vermelha
das maçãs
uma luz plácida
e persistente:
seis pequenas estrelas
dentro de um cesto de palha.
A cozinha
(por um instante)
suspende
seu movimento contínuo
e as maçãs reverberam
explosões mínimas
dos centros de si mesmas.

 

II

As frutas ciosas
dos seus açúcares
emudecem
sobre a mesa,
galáxia escura
de madeira velha.
Concentradas
nos próprios cristais
nas cisões e trocas moleculares
amadurecem
silenciosas.
Um pássaro depenado e triste
será a próxima refeição
e por um instante
nenhuma nobreza na morte.

 

III

Maçãs
pêssegos
laranjas.
A cabeça de São João Batista
num prato de porcelana.
Os olhos
pequenos frutos imóveis
condensados
no trabalho das cores.

 

 
***

 

 
Quadro

 

Ao centro da mesa
o pão
de sementes de girassol
compacto e luminoso
como a estrela
escondida no fermento
ou na palavra
orbita
denso
e leve
enquanto suas migalhas
faíscas
inventam novos mundos.

 

 
***

 

 
Balada

 

quando paquito guzman morreu, seu corpo estendido na mesa, a toalha de renda, a mulher chorosa, dez velas acesas, uma rosa entre os dedos, no bolso, um bilhete, na lapela, um lenço, dois dentes de ouro, um tigre no peito, el guapo chorou. um choro moído, um choro sentido, da boca, um soluço, da carne, um gemido. quando paquito guzman morreu, el guapo, uma gota de sangue no lábio mordido, el guapo, coitado, moço tão bonito, perdeu-se a si mesmo, a lua nos olhos, o norte esquecido.

***

 

 

Desenho

 

A axila nua
e o cheiro quase doce de suor.
Os gatos não sabem do medo,
só do desenho e simetria
dos seus pares.
Álacre,
o salto é resina
e o gato…………………um risco.

 

Micheliny Verunschk é autora de “Geografia Íntima do Deserto” (Landy 2003), “O Observador e o Nada” (Edições Bagaço, 2003), “A Cartografia da Noite” (Lumme Editor, 2010) e “b de bruxa” (Mariposa Cartonera, 2014). Foi finalista, em 2004, ao prêmio Portugal Telecom com o livro “Geografia Íntima do Deserto”. Publica em 2014 seu primeiro romance, “Nossa Teresa – vida e morte de uma santa suicida” (Editora Patuá, com patrocínio do Programa Petrobras Cultural), vencedor do Prêmio São Paulo de 2015. É doutora em Comunicação e Semiótica e mestre em Literatura e Crítica Literária, ambos pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.