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111ª Leva - 05/2016 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Wesley Peres

 

LUMA FLORES
Arte: Luma Flôres

 

Segredos para dormir:
ouvi um cão orando para as águas;
meditei chamas para entender o rio;
respirei águas e me parti em dois;
de fora desses dois em que me parti, flutua a coisa que sou.
Também foi ela quem me aconselhou a sonhar em terceira
pessoa.
 

 

 

***

 

 

 
Um grito ou um cisco metafísico:
nítidos lábios se pronunciam.
Úmido o olhar de quem venta,
e a carne de quem olha para dentro,
imensa de almas perdidas.
Se tenho boca, é para vesti-la,
se tenho águas, é para falar-me.

 

 

 

***

 

 

 

Quase espuma

 

Breve, poderosa matéria,
metáfora inconsútil de toda
e qualquer coisa
até o não.

Sua carne é o nada, sabe-se,
assim como de ossos d’água é
a musculatura invisível de suas cores.

O vento não a destrói não a sustenta
nem a habita, apesar de que habita
o dentro e o fora dela, pulsando
o imóvel de suas circunferências.

Limítrofe, essa mais efémera coisa eterna,
pois o que é, é da exata nervura
do tempo que a sua esfera encerra.

 

 

 

***

 

 

Não sou eu aquela máquina — sétima meditação

(sobre a Crueldade Impessoal)

 

 

VOZ 1

De uma fogueira, à beira, tenho nas mãos um papel em branco — e o meu corpo. Vim para onde estou, só. Cansado de verdades. Uma certeza que seja, será pedir muito, Caro-Bom-Deus-Maligno? Uma mísera certeza, é só o que se pede.

VOZ 2

Me deleito em me perder. Me identifico com o que rápido desaparece, as nuvens e o que de negro relampeja no olhar de quem amo. A equação do corpo é um olhar, e um olhar é também a celebração da morte. Deus, Bom ou Maligno, alavancou as engrenagens do mundo e desapareceu, foi cuidar da vida Dele, se é que a palavra vida é aplicável ao Deus.

VOZ 1

Se é que a palavra vida é aplicável ao Deus, há de haver um sol, uma sintaxe dos afetos, chuvas desenhadas pelo som de um sonho nada sonoro, pura forma. Não há lugar na República para a palavra cariada, para o silêncio que não siga o regime dos esquadros. O mundo maquinal, Deus deu o impulso, e se inclui fora dele, do mundo, Deus foi cuidar de sua vida.

VOZ 2

Deus foi cuidar de sua morte, e não o perdoamos por isso. Sonho com o dia que o pensamento terá a curvatura de um vaso chinês quebrado. Faço possível para ver, serei despedaçado em corpo, como agora já o sou ainda que discretamente. O corpo não fala, os átomos do corpo sangram.

VOZ 1

O corpo sangra, como sangra o cérebro de um homem enquanto sonha. O Deus maligno enfeitiça os triângulos e as equações, a certeza e a objetividade só sobrou aos mortos. É preciso morrer, assim: anular o corpo, matá-lo escrevendo-o em fórmulas exatas. É preciso duvidar — sobretudo do que na palavra é pássaro.

 

VOZ 2

Sobretudo o que na palavra é pássaro. “Pensar é estar doente dos olhos” e dos nervos, é infectar o nervo, escavar a nódoa da angústia. A angústia é branca e legítima. Só um homem doente não é angústia a todo instante — um corpo que pensa.

VOZ 1

Não sou eu aquela máquina, digo: esta. Estaquelamáquina, essa coisa externa à coisa-eu que pensa porque não sabe ser outra coisa. Estaquelamáquina: de origem, livre da desinfecção dos relógios. Os relógios salvaram o mundo da repetição. Os relógios orderam os ciclos em tal enlace que retificou o tempo, tornou-o uma seta. A máquina-mundo, eu não sou aquela máquina, não as suas engrenagens. Sou, sim, como a estrutura eólica, o movimento lógico, não-analógico, o alinhave numérico, a configuração por detrás do que você come e voa com os olhos, nada é igual ao que você vê.

 

VOZ 2

Nada é igual ao que eu vejo, o mundo é o cheiro azul-azedo-áspero-e-rouco do vento se destroncando nossa pele pulsando soltando o invisível pó, que é o que de cada humano resta no mundo, pois é isso que resta, e não qualquer número ou lógica que por acaso tenha obturado, escondido os rasgos da tapera que somos enquanto somos.

Enquanto isso, dois tumores (cada um instalado no corpo de cada

uma das vozes) iniciam os trabalhos, nem lógico, nem ilógico,
…………………………………………………………….apenas iniciam seus trabalhos alheio

 

Wesley Peres, autor de ROMANCE: As Pequenas Mortes (Rocco, 2013), Casa entre Vértebras (Record, 2007), finalista do Prêmio São Paulo 2008, vencedor do Prêmio Sesc de Melhor Romance 2006 e indicado ao Portugal Telecom 2008. POESIA: Palimpsestos (Editora da UFG 2007); Rio Revoando (USP/Com-Arte 2003), Água Anônima (AGEPEL, 2002).É também psicanalista, Doutor em Psicologia Clínica e Cultura pela Universidade de Brasilia (UnB); Mestre em Estudos Literários pela Universidade Federal de Goiás (UFG). Mora, atualmente, em Catalão-GO.

 

 

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110ª Leva - 04/2016 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Sónia Oliveira

 

Suzana Latini
Foto: Suzana Latini

 

anamnese

 

sofro
de obstipação emocional unilateral
tenho de fazer um clister a uma aurícula e a um ventrículo
e de laquear a veia do nariz
para me vedar a coágulos e a cheiros espessos
e comer uvas
uvas lavadas na água da chuva
e comer maçãs
maçãs lavadas na água do mar
ir
com as marés
chegar
ao contrário das fases da lua
ficar
onde tudo permaneça em movimento
e
terno

 

 

 

***

 

 

 

tudo

 

tapei-te os medos com ligaduras
embebidas em mel cicatrizante
meticulosamente arrancadas
à minha própria pele
dando nós pequenos
quase invisíveis
que não se prendessem na roupa

sorvi-te os grãos de ansiedade
como pólen que transformava em tempo
bebi-te as palavras ínvias
com os meus lábios feridos
que não chegaste a sentir

ficou-me o travo amargo na boca
a ferida no lugar da pele
e o frasco vazio do mel
que hei-de lavar com água quente
para aquecer as mãos
e reutilizar um dia
sem tampa

 

 

 

***

 

 

 
strawberry passion

 

é elástica a dor
expande-se e comprime-se
de acordo com o seu acordo
mastigo-a compulsivamente
receio perder-lhe o sabor
mastigo-a com os ossos com as veias com os pulmões
perfuma-me
emulciona-me
pre
enche-me

 

 

 

***

 

 

 

janus

 

é estreito o corredor desta casa
há que passar de lado
roçando os ombros o peito
as coxas e os calcanhares

a dada altura o corpo é parede e a pa
rede corpo
como se a verticalidade se impusesse
numa espécie de ética física
talas em vez de pórticos
um corredor sem portas
que desem
boca não se sabe onde

a cal cobre a pele de pó
e os dedos deixam um rasto de estrelas
sem frente nem verso

 

 

 
***

 

 

 
frango com esparguete

 

dois corpos
dois copos vazios
um corpo
janelas fechadas
almas escancaradas
dois corpos
a mesa posta
o jogo na mesa
quatro pratos sujos
a televisão acesa

 

 

 
***

 

 

 
dieta

 

no precário equilí
brio das horas
balanço o meu peso
peso o meu balanço
e não consigo andar direita
a dieta não se compadece
do lastro
e a gravidade suga-me a alma
mais do que devia
de dia
arrasto um saco de sombra
que o sol me impõe
à noite
sou toda sombra
e arrasto-me
saco de pele e s
obras

 

Sónia Oliveira  nasceu em Luanda, em 1972. Estudou literatura na Universidade Nova de Lisboa. Traduz livros e filmes. Tem textos publicados nas revistas online Preguiça Magazine, Minguante, no fanzine suíço Milk+Wodka, na antologia de poesia visual, nas revistas Flanzine e DiVersos, Poesia e Tradução, assim como em vários números da publicação Nem Só de Gin Vive o Pinguim. Participou na exposição itinerante Poesia Quase Anónima – A Poesia na Blogosfera Portuguesa, realizada pela associação Mercado Negro, Aveiro. Mantém, desde 2006, o blogue triplicado. Em 2012 publicou o livro de poesia antenas, uma edição pirata da Palavras por Dentro.

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110ª Leva - 04/2016 Janelas Poéticas

Janela Poética V

Clara Baccarin

 

Suzanalatinibarco

 

Terra de refugiados

 

Refugia-se no coração,
que o amor não conhece fronteiras
Migra para a terra do sentir
que ela sabe acolher
com mais humanidade
Mora num poema
que ele tem raízes
em si mesmo
e fala todas as línguas

 

 

***

 

 

Escracho

 

À mulher resta o escracho
Faca fincada na fenda
da concha fechada
Força de esfacelar a lâmina
na dureza da casca
Cacos líquidos
Sangues ruídos
Nas mãos parir
as próprias vísceras
E ver pérolas se dissolvendo
na raiz do desmistificar
À mulher fica a possibilidade
de uma vida cedida ao escavo
de tudo o que não tem nome
e o que não pode ser
À mulher fica a cruel tentativa
de nascer num mundo de abortados
À mulher resta um desobedecer
macerar no peito e nos olhos
o certo e o errado

 

 
***

 

 

 

Escoa

 

Poesia
Palavras sem rédeas
Delatando sentimentos alados
Forma que deforma e aflora
Deflagra uma substância escondida
No buraco negro do inconsciente coletivo
Susto de uma nudez de alma
Que não se conhece do avesso
Mas, mesmo assim, escoa
Num ato desconhecido
De prazer ou de dor

 

 

***

 

 

Instruções para lavar a alma

 

Lavar a alma à mão
Que é de estrutura muito delicada
E assim, manchada de tantas palavras,
Requer cuidado redobrado
Para voltar a ser quietude

Secar a alma em solidão
Estender na linha do tempo
Do próprio quintal
Na parte que bate
Um sol coado, sereno
E faz pendurar as pálpebras
No sono dos que sabem esquecer

Passar a alma a limpo
Cortando os preciosismos
Os excessos prolixos
O peso dos desnecessários
Acessórios

Vestir a alma nua
Na sua mais nova pele
Nos olhos um brilho tranquilo
E uma vontade recém nascida
De ir brincar na rua

 

 

***

 

 

Porta

 

Viver em paz é saber
Entrar nos corações
Sem precisar bater à porta
E sair dos corações
Sem precisar bater a porta

Que amor bom
Entra sem esforço
E sai sem fazer barulho

 

 

***

 

 

Tirei o corpo fora, mas o coração ficou atrasado.
Dei um passo maior do que a velha alma.
Empurrei minha cegueira atrofiada no precipício
para ver se despertava voo.
Quis atiçar a vida com vara curta,
ela acordou e eu ainda tenho medo.
Meus pés são rápidos para descalçar os sapatos,
mas meus pensamentos demoram a perceber
a se deixarem esparramar na alegria da nudez.
Vestida de felicidade ainda choro.

 

 

***

 

 

Um piscar de asas

 

O mundo acaba:
Entre o perigo
E o abrigo
Entre as roupas sujas
E as bem lavadas
Entre os enlaces
E as mãos atadas
Entre as tempestades
E os copos d’água
Nos resta apenas
Um piscar de asas

 

Paulista de Jaboticabal, Clara Baccarin é a moça interiorana e letrada que viajou o mundo e nasceu com a inquietude da poesia nas veias. Escritora assídua nas redes sociais, é colunista de diversos blogs sobre literatura, arte e estilo de vida, escreve crônicas que seguem um estilo livre, despojado e poético. Formada em Letras (Unesp) e mestre em Estudos Literários (Unesp), publicou dois livros, o romance ‘Castelos Tropicais’ (Chiado ed., 2015) e a antologia de poemas ‘Instruções para Lavar a Alma’ (Sempiterno ed., 2016).

 

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110ª Leva - 04/2016 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Mariana L.

 

Suzana Latini
Foto: Suzana Latini

 

DE VOLTA DE SI

 

Eis que aqui de volta
de mim e de si, e os dois já dizem:
(eu)
por onde e longe pari,
uma consciência
de sumidouro
ciência de construir o artefato
– a óbvia arte do inexato –
que exaure a hora em aura
(tão calma!)
do Existir.

 

 

 

***

 

 

 

A MAIS ATADA À TUA PALAVRA

 

Presa dela
Garras que cortam, ventando,
Tua palavra é meu interno labirinto
Onde as sílabas
Sonâmbulas
Implodem, balsas no porto do pesadelo.
Que me doeria mais o passo que tua palavra?
Ora, sabes que sim…
Mas a ideia tão deslizante que em um “nós” é tornada
Retoma a luz do que fora dito:
Aquela luz
Lembra-a para mim, ah,
Como no princípio, em que o Verbo erra!

 

 

 

***

 

 
LUZ DE ESPERA

 

A sala era imensa
E se estendia pela avenida
Onde luzes debruçadas nas calçadas
Moviam-se pela insônia indiscreta do crepúsculo.

O último homem da terra nesse instante
Sorriu para um pretenso deus morto
E o sol se desvestiu de luz
Buscando
Perdida já qualquer possibilidade de lirismo
sua última sílaba de vida.
(Passando de o Beco de Ávila, Tijuca, jan, 2015).

 

 

 

***

 

 

 

CANTO DE VISÃO

 

p/ a poeta máxima Else Lasker-Schüler

 

A voz, mais do que o olhar,
É que é o espelho da alma.

Por isso me calo
Frente ao mundo errático:
Deixo-o soar, enfático
E com meu único existir – sináptico –
Eu Fico.

 

 

 

***

 

 

 

SOUSANDANÇACRUZ

 

Clara, clara, mas de pulsar mortal,
Fria-se o que me dói em tua morte, sem violência
Que a essência é fátua, nua e fantasmal
E tua sorte é dom de ver em sepulcral vidência.

Canto sagrado, rachado ao meio de mim
Teu arado de prata é mãe novata de luzes
Cruzes de vileza
Dorme o sono do profundo sem fim
Sidéria Astarte que nos inocula
Escura luxúria
E Spleen.

 

 

 

***

 

 

 

ALMA-LÂMINA

 

a palavra alma
está estrategicamente (es)contida
na palavra lâmina.

 

 

Marianne Liuba Löhnhoff, que assina literariamente Mariana L., nasceu do Rio de Janeiro. Cursou dois anos de Filosofia na USP e Letras na Universidade de Albstadt-Sigmaringen, na Alemanha. Trabalha como tradutora e professora de Línguas, vive entre São Paulo e Rio. Publicou em revistas como a Germina e a Revista de Artes da Kazuá. Lançou, em dezembro de 2014 pela Editora Kazuá, seu livro “A Mais Atada à Tua Palavra – O Caderno de Mariana L., em Mãos, Seguido de Avulsos do Poeta B”, que tem a organização, prefácio e posfácio do poeta Luciano Garcez. Prepara o lançamento de seu segundo livro para fins de 2016, baseado na lenda de Fausto: “Kleine Faust”.

 

 

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Janela Poética II

Adriana Brunstein

 

Suzana Latini
Foto: Suzana Latini

 

A primeira vez que te vi
não teve a Teresa
de Manuel Bandeira
Eram minhas as pernas estúpidas
Eu andava em L
feito cavalo de xadrez
Eu tava com o dedão do pé inflamado
por conta de um alicate não esterilizado
Eu tava descalça
por conta do dedão inflamado
e do alicate não esterilizado
Eu pensava num roteiro
prum filme de ação iraniano
Eu carregava o cartão de um marceneiro
pra que ele derrubasse as certezas
que eu ninava na parte de cima do beliche
Eu quis te fazer uma carícia pela metade
e te receitar suplementos vitamínicos
aqueles cheios de abecedário
Pra que entre nossas palavras
cruzadas
os espaços fossem grandes demais
para fim

 

 
***

 

 
Esse teu gosto por contravenção
Teu talão de zona azul escondido
entre dobras de bebês recém-nascidos
Tua impressão digital no copo de isopor
que apita ardido quando mastigado
Teus retalhos disfarçados
num tom Flicts do Ziraldo
Tua costura remendada
com fios de pescar tainhas
que antes nadavam na banheira
dum velho militar aposentado
Tua mais bonita caricatura:
a loucura
me disse um dia:
eu te amo
Eu não acreditei

 

 
***

 

 

Tenho o nome de outro cara
tatuado no cóccix
caso você queira saber
antes de tirar a minha roupa
que as coisas pra mim
mesmo as que não se apagam
não duram muito tempo

 

 

***

 

 
De esquinas engarrafadas de guarda-chuvas
De porteiros noturnos sozinhos em guaritas
De famílias de policiais abatidos
De trincheiras incorporadas a mapas
De sofás lotados de manifestantes
De máquinas de pinball ao som do The Who
De bilhetes só de ida
De divãs lotados de arquétipos
De roupas pingando no varal
De cem flexões em espreguiçadeiras
De chaves rodando em falso
De sessões da tarde sem Ferris Bueller
De índices bovespa de dores crônicas
De garotos café-com-leite em jogos de queimada
De novas grafias para palavras em desuso
De radares avariados por pedras
De best sellers sem Peter Sellers
De Bruce Willis desistindo
de uma vez por todas
de salvar o mundo

 

 
***

 

 
A gente envelhece
dormindo às dez
acordando às seis
ameaçando pernilongos em voz alta
antes de errar o tapa
A gente envelhece
medindo a circunferência do braço
evitando usar regatas
se cadastrando em site de receitas
e consultando horóscopos
A gente envelhece
dormindo de meias
falando pra manicure
no pé um rosinha básico
A gente envelhece
cantarolando a música
de Ao mestre com carinho
descobrindo na wikipedia
que o sidney poitier
ainda tá vivo
A gente envelhece
recusando convites
lembrando que piqueniques
eram chamados de convescotes
nos clássicos que não lemos
A gente envelhece
gerundiando
esperando uma oferta incrível
da garota do telemarketing

 

 

***

 

 

Os primeiros planos
para saídas de emergência
traçados ainda
nas barrigas de nossas mães
falharam
E completamos
diariamente
40 anos
ou mais
em meio à multidão
que corre
sabe-se lá para onde
nos labirintos arquitetados
da estação
sem luz

 

Adriana Brunstein é PhD em física, escritora, dramaturga e roteirista, com trabalhos em várias vertentes e meios da comunicação. Ganhou o prêmio HQMIX 2008 de melhor roteirista nacional pelo roteiro da Graphic Novel Prontuário 666 – Os Anos de Cárcere de Zé do Caixão e foi contemplada no 13º Cultura Inglesa Festival pelo roteiro do curta-metragem Olhos de Fuligem. Publicou o romance Estado Fundamental. Vive em São Paulo.

 

 

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Janela Poética V

Patrícia Laura

 

Helena Barbagelata
Arte: Helena Barbagelata

 

solidão

 

precisa-se de uma solidão escolhida
uma bem vinda solidão vivida

precisa-se de uma dor incrustada na vida
vinda desde sempre e não tendo previsão
nem modo nem como sair

precisa-se de uma respiração divina
uma mão que pousa por cima
e escreve por mim

precisa-se enfim
de um começo
jamais de um fim

 

 

 

***

 

 

 

náufrago

 

num barco
q começa a afundar
o pânico ameaça

porque todos e sobretudo
os marinheiros só falam

obstinadamente
a língua das navegações

e nenhum fala
a língua
dos afogados

 

 

 

***

 

 

 

lázaro

 

incinerado
em segredo
sem amigos
em lugar
desconhecido

sem família
sem cerimônia
sem público
sem privé

a morte reinventada
parte imensa calada
queima sem alarde
sem brasa

o amor nunca precisou
de terra nem de fogo
nem de olhos ou choro

o amor
pó enraizado
esfumaçado em canto e mãos
de lázaro
cobriu as pálpebras
e se transformou

 

 

 

***

 

 

 

bambu

 

na altura do coração
nos tornamos surdos

relva bambu vento
surdos fomos o mundo

o templo a areia o irresoluto
semelhantes de esquecimento e ilusão

 

 

 

***

 

 

 

escuro

 
no escuro
tirando
o sapato
meio caindo
abrindo a porta
com cuidado
embriagada
falando baixinho
tropeçando e rindo
chorando um pouco
limpando o rosto
fazendo shhhhhh
com o dedo
no movimento
do corpo
no escuro
da madrugada
me flagrei
irremediavelmente
só e descalça
voltando
pra mim mesma

 

 

 

***

 

 

 

 

em segredo

 
que algumas coisas continuem
nos acompanhando em segredo
que a água entre nossos dedos
que o gesto desamparado
que o murmúrio derradeiro
que o medo o medo o medo

que a recém inaugurada
livraria da cidade
que a ternura do banco
que o desbotado do traço
que o pacto com o silêncio
que a praça a praça a praça

que algumas coisas continuem
nos socorrendo caladas
que a voz enrouquecida
que a vida despreparada
que o beijo que desafia
a infância abandonada

que a fala a fala a fala
que algumas coisas continuem
na coragem da viagem
no encontro com si mesmo
na aliança com o pequeno
na certeza do improvável

que algumas coisas permaneçam
nos guardando em segredo
nos dedos nas águas nas praças
nos gestos na entrega na fala
no consolo do vento
na miséria que apunhala

que a vida que não existia
que a neblina na vidraça
que o papel preto ardendo
que o lamento o lamento o lamento
que o que continua é o efêmero
no anseio no quarto desarrumado

 

Patricia Laura Figueiredo (pat lau), entre São Paulo, onde nasceu e se dedicou à poesia e ao teatro desde cedo, e Paris, onde mora desde 1990, amadureceu seus poemas numa vida dedicada a tornar o poema uma experiência essencial. Publicou o seu primeiro livro de poesias, “Poemas sem nome” (Ibis Libris) e seu segundo, “No Ritmo da Agulhas” (Patuá) em março de 2015. Participou de várias antologias, no Brasil e na Alemanha e também em diversas revistas digitais de literatura e poesia. Acaba de publicar, pela Editora Dasch, seu terceiro livre de poemas  “Poemas Bebês”.

 

 

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Janela Poética I

José Carlos Brandão

 

Helena Barbagelata
Arte: Helena Barbagelata

 

A ARANHA

 

A aranha fia o fio da minha vida
com paciência e luxúria, com seu próprio
fio finíssimo e puro, atrás de mim,
não à frente, por onde vou. A origem

é o meu fim. Na minha própria teia
eu me enleio: de angústia e de beleza
é tecido o meu leito, leve, no ar
suspenso, no equilíbrio em que se libra,

caminho frágil para si voltado.
A luz do alto ilumina o precipício
e se me perco em sombras e delírios,
mais me encontro na senda do real.

O claro-escuro se articula, e lúcido
sigo, sem extravio. O mito lírico
revela e esconde o ser que já não sou.
Na minha teia um cego vê o abismo.

 

 

 

***

 

 

 

 

A CABRA

 

A cabra pasta a estrela na montanha.
Bem mais nova que o lago e que o pinheiro
na encosta, o seu balido como um guincho
é um grito perplexo contra o abismo.

A cabra é negra como o carvão negro
das entranhas da terra, funda, seca.
Cega, a cabra resiste digerindo
as pedras do caminho. A cascavel

é um alarme contra o espaço exíguo
no infinito da tarde. Uma águia vê,
de cima, a solidão da cabra, a lâmina
da dor nos cascos, com a luz, que quebra,

de chofre, a árida terra, de metal,
com sua pétala esculpida em pânico.
A cabra fende em duas a montanha,
alta e lívida, sob o sol do eterno.

 

 

 

***

 

 

 

O LEÃO

 

O leão ergue as garras contra as grades
e ruge e urra, com a garganta seca
da espera inútil. De onde vim, para onde
vou? Mais nenhum destino, mais nenhuma

porta. Sem perspectivas, eu caminho.
O meu reino se estende ao horizonte,
onde a terra se encontra com o céu.
Vou quebrar os limites com o meu grito,

vou quebrar os rochedos com o sangue
do meu rugido. Vou romper a prata
do infinito com as chamas dos meus olhos.
Quem sou o céu traiu o sonho vão.

Sou um cego na areia do destino.
O mistério repousa em minhas fauces.
No enigma do deserto e das estrelas,
cavalgo impávido com Deus no lombo.

 

 

 

***

 

 

 

O ELEFANTE

 

É preciso matar o elefante.
A fábula da vida é muito breve,
a viagem é longa, e pesa tanto.
Giram os girassóis entre as montanhas

e gira um sol só, no alto, atormentado.
As madressilvas sangram com a dor
do mundo. E o elefante, as patas no ar,
ergue a tromba ao azul como um anzol

de angústia. Chora sob um mar de lavas
aos borbotões caindo sobre o mundo.
São muitos os trabalhos da existência,
muitos e inúteis. Para que sofrer?

Por que viver? Por que mistério ansiar?
Desci os sete círculos do inferno,
devagar, carregando a minha sombra,
e entoando a minha súplica: me matem!

 

 

 

***

 

 

 

O CAMELO

 

Atravesso o deserto com a areia
nos olhos. É meu lar a noite fria,
com suas sombras e com suas trevas.
Vejo quem sou no espelho do deserto.

A mim próprio carrego nas corcovas.
Que viagem viajo? Que universo
percorro? O meu tamanho no tamanho
do espaço que demarco. Na memória

do que sou, as estrelas e o retorno
do escorpião. Eu sou escuro e concha.
Se a mordida me fere o calcanhar,
indigita-me o rumo, concludente.

Estou aberto para a tentação:
o delírio me cega e me ilumina.
O deserto convoca as demais formas
e eu escrevo na areia o poema-cinza.

 

 

 

***

 

 

 

O TOURO

 

O touro é uma rocha na lua. As janelas floridas
gemem na escuridão, os pássaros da noite
farejam a dor queimando as asas doloridas.
Quem conhece, da dor, a face e a foice?

Os cães latem atrás das pedras em flor.
O louco na estrada sufoca e grita contra a treva.
É estar longe, mutilado nos mares da dor.
A febre do pântano estrangula as meninas de névoa.

A agulha do suicídio dói no ventre do mundo.
A dor é um touro no trânsito, em silêncio profundo.
O touro marcha devagar, construindo o seu caminho
com as patas sangrando, cravejadas de espinhos.

A nuvem oxida a rosa na escada, piche e cimento
nos olhos profanados, antes da lava dos vulcões.
Ainda se ouvem os cavalos, e o touro nos grilhões.
Eu amamento a dor nos cascos do esquecimento.

 

José Carlos Mendes Brandão nasceu em Dois Córregos, SP. Vive em Bauru. Publicou sete livros de poesia e um de crônicas. Ganhou vários prêmios literários, como o da Bienal Nestlé e o Cidade de BH.

 

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109ª Leva - 03/2016 Destaques

Janela Poética II

Adriana Versiani

 

Helena Barbagelata
Arte: Helena Barbagelata

 

Misericórdia

 
Jandira sorri para os meus olhos opacos.
Abstraio.
A..M.A.R.E.L.O:
a cor preferida de Van Gogh.

Toda manhã,
Ameixa esquecida na árvore à espera do vento,
..Ela.
Palavra antiga brotada sozinha na terra do quintal,
curiosa dos meus sonhos,
Vem
saber da algazarra das cigarras, dos girassóis da Holanda,
do pigmento que colore a tela.

A escrita racional de Jandira arranca o mato que cresce no canteiro de hortelã,
mata todas as formigas do formigueiro e não gosta de metáforas.

Jandira oxigena o ar do quarto com a serenidade de seus dentes brancos
Os dentes brancos de Jandira não querem saber da morte.

Meus olhos opacos boiam na água da pia,
quando Jandira fecha a porta.

 

 

 
***

 

 

 

A Louca e o Cinzel

 

Para Maura Lopes Cançado

 

 

Mais uma vez, uma voz doce convida para a descida:
– Venha Maura, você é linda é uma flor, é minha menina!
Venha me beijar a testa e aquecer com o bico do seu seio o dorso da minha mão fria!
Venha Maura, você é linda, é uma flor, é minha menina!

Primeiro o crepúsculo, depois a angústia:
De onde veio a palavra
Hos-pí-cio?
Nem quando tudo manifesto:
os muros, o arame farpado, os azulejos brancos da enfermaria,
nada sossega a falta que ela resume.

O nome, a noite, o sexo.
A pedra da loucura tocou de leve minhas têmporas, desceu pela maçã do rosto e com som oco perfurou minha clavícula.

O gosto do álcool experimentei na sua boca, pai!
Devagar tirei das casas os sete botões.
Depois vertigem e o desejo de manga madura roçando a carne dos meus dentes.
Mais álcool, mais sete casas se desfazendo dos botões.
Sei o travo do sal na língua quando penso a palavra hospício, mas ela não diz os azulejos brancos da enfermaria, as injeções, os remédios coloridos.
– Venha Maura, venha caminhar no pátio e ouvir comigo o som dos bichos!
Você é linda, é uma flor, é minha menina!
O ritual da morte do porco não me diz.
Os guinchos que ele solta sua pele rosada, as marcas de sangue na faca, a separação dos pertences, a sobra…
N A D A
A concretude da palavra
CITO,
não
DIGO.
Para além das grades da janela,
NADA

Os azulejos da enfermaria guardam a suprema forma de escrever.
Sufoco minha vítima com o travesseiro:
o poema escolhe para si a melhor forma de morrer.
Pedra da loucura que dobro e é recortada, que afio e pelas coisas é afiada.
Raposa nos campos do Senhor.
Gozo no tatame,
grafito o tapume,
escondo as provas,
dentro dos sacos de lixo.
-Venha Maura!
– Ambígua, sou prosa e sou poema.
– Venha Maura!
– Sou força e sou sistema.
– Venha Maura!
– Eu , Maura, sou escrava da sintaxe e do desejo.
– Venha!

A etimologia, o sentido, o equilíbrio, mais uma dose,
sou escrava.
Além das grades:
mar sereno,
relva,
alimento.

Eu , palavra impura
Eu, meu delírio
Eu, matéria turva
– Venha Maura!
Venha memória, crista do cristal, carne da carne da palavra hospício, carne da carne da palavra sentido, carne da carne da palavra palavra, carne da carne da palavra ofício, carne da carne da palavra azulejo, carne da carne da palavra .
Venha !

O real não me substancia,
sou Maura,
a fibra que envolve o fio no poste que ilumina a rua.
Enredei-me de Deus, estou nas vísceras do porco.
Peço vistas ao processo que se dobra sobre mim.

Eviscerada, não ouço o meu próprio guincho, não vejo dor no sacrifício, quero jogar esse avião no chão e ser terra, verme, adubo nas plantações do meu pai. Meu pai, corda tênue, casa dos sete botões que me alimentam. Por isso fico nua. Já me foi concedido falar, então FALO. O resto é a pele rosada do porco e o mistério refém dos azulejos. CALO.

Palavra por onde desliza frenética a minha língua má que anseia por seu guincho.
Escrevo com tinta e vomito sobre a textura do que foi dado.
Sei bem o travo do sal nos lábios.
Descortina-se o mar e o mar é dentro de mim.
Bato com a mão no fundo e bebo os organismos minúsculos que vivem nos arrecifes.
Não era minha intenção despertar.
A vida tornou-se grande e apertou o nó da corda que trago presa ao pescoço.
Por amor sou capaz de matar.

Matei.

 

 

 

***

 

 

 

Herança

 

 

I

Tudo que havia para ser dito, já foi dito.
Sentada em frente à escrivaninha que pertenceu ao seu avô, Adriana dos Anjos pensa na palavra vísceras.
Na biblioteca as flores são trocadas todos os dias e não importa se crisântemos ou rosas. Flores continuam flores e o importante é que estejam frescas.
Adriana dos Anjos tem paladar apurado e está sempre atenta ao movimento dos insetos e ao cheiro de mofo que os livros exalam.
Com muito esforço consegue se lembrar da salada de frutas que comeu ao meio dia, mas exposta, é capaz de sentir o cerne da palavra vísceras.
Sentada em frente à escrivaninha, diariamente, vê as flores serem trocadas e ouve o som das traças desenhando mapas em antigos romances.
Não vai dar em nada, a Adriana dos Anjos.

 

II

Vivo nesta casa com Adriana dos Anjos.
À minha frente vejo um vaso de ervas mergulhadas em água.
Sonâmbula, Adriana dos Anjos fala em línguas:
há três séculos acordo assustada com seus gritos.
Ela está sempre comigo e ontem parecia feliz.
Hoje, dorme para sempre.

 
III

Envelhece Adriana dos Anjos, em meio à azáfama.
Engole o turbilhão e transpira o líquido da sua má digestão.
O vento depois da vidraça e tudo que havia antes já foi dito.
Sobre ela, a única coisa que precisamos saber é que a encantam as pontas dos lápis.

 
IV

Neste quarto onde me visto com Adriana dos Anjos, volto ao sonho de intuição e beleza.
Com um caco de vidro, disseco os músculos do seu pescoço.
Sou as flores mergulhadas no vaso e ela, seiva indeterminada em minhas veias.
Sei que tudo que tinha para ser dito, já foi dito.
Restam-me apenas cem palavras.

 

V

Desde que desistiu da multidão, Adriana dos Anjos se finge de morta no coreto da praça.
Escondidos no vestido, guarda as agulhas de tricô que recebeu de herança de sua bisavó e um estilete para apontar o lápis.
Enquanto sonha, bebe água da poça e come as folhas amargas do cipreste.
Fingindo-se de morta, Adriana dos Anjos dança descalça sobre as brasas.
Os mendigos se recusam a beijá-la.

 

VI

Com Adriana dos Anjos busco pelo escritor americano no parque da cidade.
Suas pegadas nos guiam.
Paramos uma ao lado da outra, em frente à sequoia gigante.
Eu não vejo Adriana dos Anjos.
Adriana dos Anjos não me vê.
Nenhum som nos nossos corpos.
A “sequoia gigante” é apenas uma palavra composta por duas imagens.
O escritor americano segue pela trilha armado com o estilete que Adriana dos Anjos usa para apontar o lápis.
Grafo esse bilhete na carne da árvore, para que o veja o escritor americano que está aqui, atrás de mim:

“A canção da sequoia, estranhamente, mesmo que muito antes, não me remete ao escritor americano.
A canção da sequoia, estranhamente, mesmo que muito antes, esquenta meus dedos na brasa do fogão.”

 
VII

Por algumas horas, olha para a xícara que sua mãe trouxe da Jamaica.
A xícara que sua mãe trouxe da Jamaica é de louça japonesa e nela há a imagem de um camelo e de uma pirâmide.
No pires que acompanha a xícara há a imagem de um camelo, de uma pirâmide e de um coqueiro.
Adriana dos Anjos aponta o lápis faber castel número dois com o estilete que guarda dentro do vestido e despeja leite na xícara.

 

VIII

Nesta escrivaninha onde sinto meus nervos a flor da pele, Adriana dos Anjos folheia o antigo livro de química orgânica que herdou de seus ancestrais e escreve compulsivamente.
Não se lembra da última vez que lhe beijaram a testa antes de dormir.
Tem ossos de vidro Adriana dos Anjos, que tenta afinar a ponta do lápis para que fique da espessura de uma agulha.
Teimosa, fere o pulso com o estilete e não derrama lágrima.
Ao meio-dia, abre a porta da geladeira.
Tem muita fome a Adriana dos Anjos.

 

(Adriana Versiani dos Anjos é mineira de Ouro Preto. Tem cinco livros de poemas publicados, dentre eles, A Física dos Beatles (2005) e Conto dos Dias (2007) e o virtual Explicação do Fato (2008 – Germina literatura – Revista Virtual) e Livro de Papel (2009). Foi co-organizadora da Coleção Poesia Orbital e do Jornal Inferno. Fez parte do conselho editorial da Revista de Literatura Ato. É editora do Jornal DEZFACES)

 

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108ª Leva - 02/2016 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Leandro Rodrigues

 

Ricardo Laf
Foto: Ricardo Laf

 

1915

 

desconheço cada resistência/ os golpes em vão
o grito amargo dos cavalos ao meio-dia
a impressão inexata do que é cáustico
louco
a inexpressiva exatidão do que é risco
sombra/ espasmo
livre ressonância do espelho fragmentado
opressivo/ esfacelado
mil cacos pontiagudos na face do nada
na face do nada

e em frente ao rever os cavalos & seus gritos
o meio-dia fragmentado exposto cru entrelaçado
corte recorte sombras opressivas
gritos despojados em arestas.

 

 
***

 

 
ESPECTRAL XV

 

Poucos espelhos se mantêm intactos
e em cada rosto que se quebra
a marca fria da cicatriz disforme
caleidoscópio antigo em que outras faces
se cruzam como espectros soturnos

Apunhalei girassóis com minhas palavras trincadas
e os dentes servis degustaram ódios e crimes
com pompas de quem salpica a noite com versos do mais impuro sangue

mas estive mesmo pleno – em vôo e concisão
nessa lua avulsa e desmedida:

traga teu punhal para desferirmos juntos os golpes precisos
nessa poça avermelhada em que todo sangue derramado
encarna a luminosidade branca do satélite rústico
que paira inútil sobre nossas ocas cabeças tristes
como a demarcar as imaginárias fronteiras.

 

 
***

 

 

RAÍZES

 

Escrevo torto em desmedida decomposição
Não tarda abreviarmos tudo
Reinvento desenhos com simetrias descentralizadas
Não descendo de nada
Agora apenas traduzo as formigas e o que mais arrastam
Ciprestes imóveis em horas mudas
Descascados túmulos em que os insetos adentram
Para criar raiz nos mortos.

 

 
***

 

 
MORDAÇA

 

Sem cor, sem tez, sem pulso
Rareiam as palavras
Mas não os golpes/ a tortura
Receio
Cada outro porto que não se atraca
Cordilheiras de um fauno intacto
Despojados de sua carne e vísceras,
Como outras requentadas agonias fúnebres
Homens chegam sedentos, cuspindo fuligens-terçãs
Em San José um mártir recita versos e se cala subitamente
frente ao muro caiado
Em San Martín uma camponesa estende a sopa rala
para quem puder pagar
Depois recolhe a toalha, pois a noite já vem.

 

 
***

 

 
METODOLOGIA DO NADA

 
estendo as palavras no curtume
as que ainda respingam sangue
servem para o poema.

 

 
***

 

 
ESTETINO (OU NO CAMINHO COM BUKOWSKI)

 
Anoiteço
Com longos versos de bukowski
Num caminho aberto
de chumbo e cipreste,

Com a boca turva/ calada
mortalha desfiada
pelo uivo da matilha,

Nos golpes precisos/
aniquilada-
matéria finda.

Todos sabem quem são os ladrões
desse inverno.

Quem furta a noite, o soco
E vomita seu limbo
na fresta da lua às mínguas/
lua restrita/ dura,
exilada no porão.

Todos sabem.
Ou fingem saber
dessa tragédia monótona/ manchada
desprovida de carne/ esfacelada
pelo antepassado açoite de metal,
ranhuras profundas/ espirais de aço
jardins de fuligens.

dos galhos secos enfeitados
o grito aflito-presente/ ressente
poema torto – em alto-relevo,
desdobrada agonia/
………….. ..corrosivo-desprezo,

………………………..nas obscuras pétalas de óleo
………………………..improváveis marcas de sangue
………………………..da cidade muda/ disforme.

 

Leandro Rodrigues nasceu em Osasco, São Paulo, onde reside. Formado em Letras – Pós-Graduado em Literatura Contemporânea. Professor de Literatura Brasileira. Sua poesia busca traduzir parte da fragmentação e fuligem de uma São Paulo sombria, opressora, mas efervescente. Também é autor do blog poético nauseaconcreta, e um dos autores da Revista Zona Da Palavra. Possui poemas publicados em diversos sites e revistas literárias.

 

 

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106ª Leva - 09/2015 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Roberta Tostes Daniel

 

Sinisia Coni
Foto: Sinisia Coni

 

Deus me abre a corcova de pregador
esqueço parábolas.
O ódio acumula no tempo, nos móveis pesados.
Tudo perdi. No entanto, o amor das coisas breves.
No entanto, a ancestralidade.
Com os olhos desfolhados, as mãos cheias de feitiço
póstumas as mãos, a rondar o real além do real.
A neve suja do sol, Simenon, três vidas
a mancha o eixo infinito
do homem ordinário.
Quisera esvair o deserto
chamar de norte o começo
traficar palavras.
Tornei-me a arma
que me cala.

 

 

 

***

 

 

 
Uma casa perto
de um vulcão
pode ser
um rastro da gente
jamais extinto
a ciência nega
mas a lógica subvulcânica
do povo sustenta
evidências de nós
uma casa-oferenda
há quarenta milhões de anos
lava oceanos
e um barco de orixá
faz a vez de vaso
de planta
subvertemos o risco:
imergir e germinar
são movimentos
inerentes às casas
às gentes
e aos vulcões
um subúrbio ou iguaçu
nada é novo no epicentro
desse rio
que não nos suplanta
somos o alicerce
a planta da casa
nasce dos pés.

 

 

 
***

 

 

 
Rio-Niterói, 1973

Os senhores me veem derrubando pistas
como se desmonta estrada
como se inventa ponte
emerjo de nada a nada
cresço com minha surdez.
Feita desaparecida
santa metálica
dos lábios de esterco
baía, vem me dizer
por caminhos de resvalo:
uma mulher ou uma cidade
se arrastam por enigmas.

 

 

 
***

 

 

 
Retrato

 

Algo da dureza dos séculos
lança sobre meu rosto
os faunos da tarde.
Lívido ante laranja
mágicos, incautos
traços – traçantes.
Sabem sazonalidades
zonas de sombreamento
contornam o queixo
regam a fome –
entorta a boca.

 

 

 

***

 

 

 

Escrevo para satisfazer o desejo de Deus.
Este que aponta – Nonada.
Escrevo para ser Deus.
Com a fortaleza dos dedos fracos.
Dos dedos sós, dedos de vício
dedos brincantes.

 

Roberta Tostes Daniel é carioca nascida em 1981, cursou jornalismo, mas se formou em Letras. Escreve em blogs há mais de uma década. Já colaborou com diversas revistas literárias pela internet e participou de algumas antologias. Não tem livro publicado. Mantém o blog Sede em frente ao mar.