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103ª Leva - 06/2015 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Samuel Malentacchi

 

Ilustração: Caroline Pires

 

“E sempre no meu sempre a mesma ausência”
Drummond

 

 

Um soco
….na cara do estômago
ele sentiu cedo
….aos três anos da tarde

levantou torpe
….destituído de fins
desastrando goles
….contra a gravidade

pois se sabe grave
….das agudezas císticas,
….rotundas profundezas
das cavernas malabitadas
….que cultivou
….no tempo escorrido
….& sem parentes
….daquilo que foice;

estancado, além
….dos vazamentos rudes
ele se sentou
….& abraçou o estar entre.

 

 

 

***

 

 

 

Variações Grotescas

 

“O poeta canta/mesmo morto/ a carta da morte.”
Eduardo Lacerda

 

 

I

é encaixotado pra dentro
e retendo meus medos
que ;paradoxalmente; exponho
-n’um tipo de tomografia estranha-
a metalinguagem do meu horror,

eu repito repeço reflito reitero
o excesso que repito repeço
reflito reitero; repeadicção
dos repeditos que lambi
durante toda a existência
entesourada dos meus cortes;

 

 

II

/colori o dolorido do mundo
que conheci sem dó alguma,
dolori como que vindo
daquilo que eximi no enigma
colorido de mim, exibido
em noite de fala, na grande hora
da novela que nos enforca\

 

 

III

;algo como foliões desesperados;
………(…)
a folia indo
folha por folha
a outro destino que não
o fruto da fruição multicor;
………(…)
sou o ator doado à coisa carne
caolha, homem clandestino
e refratário de toda conjugação
e traduzibilidades; do molde
rimístico cancioneiro-cansado
ao que multifaceto no ilusório
receptáculo d’um eu que dói,

(tenho noção disso, da
ilusão, nem tanto da dor)

há o depósito,
pandoresco e limitado,
de minhas tripas desditosas;
escrevo com elas agora;

;desespero – algo como folia;

 

 

 

***

 

 

 

Formas de Chão

 

De quando em vez me acode o avesso
e vejo o lado desexposto da existência,
este exuberante erro bem colocado;

nas derrotas que pratico predico pedidos
para, quem sabe, vestir a insistência panta-
nosa e aveludada de todos machucados vivos;

na melhor das hipóteses, sigo; ferido; sibilino,
silabando fulgores cínicos por duro desejo
impuro de destino. Sem cura, cuspido,

(no entanto ido), fragmentalmente .
Em vez dos quandos me veem os prantos,
é no buraco que me atravessa que sou visto.

 

 

 

***

 

 

 

não tenho pretensão de querer saber tudo;
no que me ensinaram |ensimesmaram| não fui cooptado;
eu apreendo das nuances desavisadas,
é na insinuação que desenraizo o mundo;

flerto com a fresta dita em linha reta;
faço curvas na sombra da tarde rubrica;
brinco sedento de morte empoçada para
,quem sabe |quem abre?|, morar na eternidade;

trago comigo um gole de abismo
daqui vejo & vou ao corp’alma do universo;
se volto serei poeira se volto espaço consideral
se vejo: destino sempre em desatino
………………………../mas ainda Destino\

não tenho a ambição de saber querer tudo;
o que sei? desensimesmar versos suores
nudeza lírica duvidosa rima-matriz-lúdica;
& desatar des(a)tinos para o caminhonar-me;

..:laço poesia para fazer instantes no momento do próprio acontecer:

 

Samuel Malentacchi Marques, 30 anos, paulistano, dentre poucas-muitas coisas soul poeta; cometi três crimes de fazser poesia & o quarto está no p(r)elo; ei-los: poemas nortunos/autofagia/minimáximas  & miscelâminas, respectivamente; no maiscommenos: também costumo existir enquanto músico, baterista da banda chalk outlines & psicanalista; e1/2: malentacchi.samuel@gmail.com.

 

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102ª Leva - 05/2015 Janelas Poéticas

Janela Poética V

Michelle Mendonça

 

Ana Pérola
Foto: Ana Pérola

 

Uma breve energia dessas células,
amor, mortas, geneticamente
sua própria eletricidade.

Enquanto

você dizia o gato lambe a pia,
debaixo o porteiro conspira.
Éramos linhas paralelas à espera do infinito.

 

 

***

 

 

 

decidia de vez aquele dia!
na sua melhor roupa
de loucura, enquanto
marcava os passos
de mágoas, e adeus.
do lado montanha,
do lado água,
tudo se movia, e ela parada.

 

 

 

***

 

 

 

além high tech, tele transporte, e ciborgues,
chipes, discos rígidos e vigiam;
escrita dura sobre a vida, surras de
realidade, doenças progressivas.
o material humano. subempregos, chefes
hostis, acabou tomando água do banheiro.

 

 

 

***

 

 

 

pulsação, sangue e respiração nunca saberei o
que se deu em minha garganta a maré se
fechou em um abismo de pedras da onde as
folhas caem das árvores e a areia dança para
o fim.

 

 

 

***

 

 

 

vazio entre os móveis
as ausências passeiam
é o que essas páginas
sabem há várias tardes.

 

 

 

***

 

 

 

Assim a superfície se via
Tomada de antíteses num
mergulho retilíneo.

 

 

 

***

 

 

 

Poema de pedra
Pedra restante de espera;
do tempo que se imagina
de alma habitada, viva!

Você é Pedra estendida
esfera larga em sorrisos
para o céu em seus aclives/declives.

O que há em mim de minério é você,
pois pedra há de estar no céu e no mar.

 

Michelle Mendonça (São Paulo, 1983) é licenciada em Letras e Estudos Literários. Técnica em Processos Fotográficos. Já participou das exposições Casa Mafalda, Parque Gabriel Chucre, Mostra Samsung SP 2013. Publicou dois títulos literários independentes: Intervenção Urbana e Fotografia de Paisagem e Arte Urbana. É colaboradora da Revista Escrita Pulsante.

 

 

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102ª Leva - 05/2015 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Susanna Busato

 

Ana Pérola
Foto: Ana Pérola

 

 

Cindida no tempo resgato o meu rumo no passo a descoberto das pegadas sempre invisíveis que faço nas pedras. Caminho rota entre as rotas que traço louca no papel de riscos: linhas sobrepostas às margens violadas pelas letras, sempre enormes, abastadas de esperança. Cindida pelo tempo do fim gasto meu rumo descompassado às margens frescas da próxima folha de papel, namorando a tenra superfície de pedras invisíveis para as pegadas dos trilhos que me levarão a você.

 

 

 

***

 

 

 

Socorro

 

Ao menos uma fresta,
um ar, uma réstia,
uma salva de promessas.
Qualquer coisa qualquer
que salve bem
depressa.

 

 

 

***

 

 

 

A aguda serpente finca e dobra o corpo dormente nas tramas da pele fina e branca, linho de algodão, leve no vento e no roçar da fria camada serpentina da agulha que se finca a cada hiato da pele, dócil trama que plasma o leve e a aspereza do toque e se entrega à aguda e violenta investida do seu roteiro de estradas e trilhos a céu aberto.

 

 

 

***

 

 

 

on part

 

 

part
ida

à espera e à deriva
como um lenço ao longe
a cena assina

sino úmido
lusco-fusco
som pregueado no branco
punho abrupto de pedra

réstia de tempo
que se engole
sem pressa

 

 

 

***

 

 

 

Éramos nós em cada ponta do lençol. Nas dobras, as sobras de nossa pele. O dia ia longo e o branco do tecido cada vez menor. O gesto repetia o compasso. Olhares de corpo. De um avança o segundo que retorna. Lento o lance das mãos. Leve o lençol entre os dedos. Nas dobras feitas, o tecido de nós.

 

Susanna Busato é uma gaivota no rastro do rasgo roto da palavra. Com a poesia na rota da vida, constrói seus voos e só consegue aterrissar nas pedras, única terra firme que lhe oferece a verdade de que tudo é fingimento até mesmo a realidade. Deixou suas pegadas no livro “Corpos em Cena”, Patuá, 2013, que lhe valeu figurar como finalista do Prêmio Jabuti de Poesia em 2014. Deixou rastros em outras terras como nas páginas da Revista Cult, Revista Brasileiros e nas revistas eletrônicas  Zunái, dEsEnrEdoS e Aliás.

 

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101ª Leva - 04/2015 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Leonora Rosado

 

Victor H. Azevedo
Desenho: Victor H. Azevedo

 

Há um alçapão no fundo do mar
Subsolos imaginativos de orquídeas
Que ardem e submergem ainda
Mais fundo
Onde a luz é dilatada pelo rumor
De algas mortíferas peixes ferozes
Ao brilho gasto de cada grão
A areia traça nas mãos um indelével
Golpe
O sangue emerge
E o mar incendeia-se
Num sobressalto
Ecos vindos das planícies sob
Dunas marítimas
Dizem que há pássaros
Mais além e que ainda se pode voar.

 

 

 

***

 

 

 

No começo
De um luto
Lavado,
Impuro,
Tecer
De pano
As cinzas
De uma
Teia,
Há flores
Vindas
De longe
Que escutam
Os meus passos
Em branco
Como o assentir
De outras mortes,
Que inclinadas
Sobre vidro,
Quebram-se.

 

 

 

***

 

 

 
Ficou do meu corpo
Apenas o ensaio das curvas
A pressa de ir ao fundo
Onde a porta se fecha
A boca de anzol
Onde morrem as perguntas
Translúcidas e vazias de vago
Em cada respirar.

 

 

 
***

 

 

 
No começo da linha
Há uma curva imaginária
Uma sombra incendiada
Um sofisma gritante
Uma estrofe muda
Um desistir veloz
Que nos perpassa
O ponto de início
É uma flor em cinzas
É o amor essa emergência
Que pulsa
Veias para o garrote
Estreito
A linha perde-se no contexto.

 

 

 
***

 

 

 

As mãos descuidadas
Os dedos mordidos
Como um Inverno quente
Em que estalam as folhas
O corpo uma extensão de areal.

 

 

 
***

 

 
Na pressa de queimar cicatrizes
Deixo-me ficar na penumbra.

 

 
***

 

 
Só tenho um sentido de vida:
O do caos.

 

Leonora Rosado nasceu no concelho de Sintra em 1971. Desde muito cedo revelou interesse quer pela leitura assim como pela escrita, poesia, sobretudo. Teve o privilégio, de ainda em criança, cruzar com poetas nomeadamente, Ruy Cinatti, Joaquim Ferrer entre tantos outros… A escrita é a sede que ávida tenta saciar incessantemente em eterno retorno. Insaciedade de Tântalo. Em vertigem constante.    

 

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101ª Leva - 04/2015 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Paola D’Agostino

 

Victor H . Azevedo
Desenho: Victor H. Azevedo

 

Esta esplanada não existe
é mais um sonho marcado
para acontecer talvez num Setembro
mas entretanto avista faróis
do último piso de um estacionamento.
Clandestinidade de luxo
que a cidade sabe oferecer
ao delírio de sair de si
nas horas mortas
encontramo-nos aqui
em lugar abusivo
o único sítio onde te consigo

Quando arrancares
o relógio da carne
não te esqueças de sorrir
ao virares
a clepsidra do oblívio.

E depois lava bem as mãos
que está um tempo sujo cá fora.

 

 
***

 

 

A vida às tantas se parece com aquela grande loja de artigos para o lar
que toda a gente conhece na Baixa mas entretanto
alguns sobem ao último piso para aproveitar a vertigem do panorama
e beber uma imperial no reino das águas furtadas
enquanto outros só procuram mesmo a secção das flores de plástico
e compram cascatas de glicínias
para enfeitar a sala e eventualmente um gancho
que prenderá o cabelo em dias bonitos

e todos juntos
uns e outros
encontramo-nos no espelho do elevador
e sorrimos.

 

 

 

***

 

 
Vício, forma mais violenta de estar vivo

 
A lei do espanto mandava em tudo
e nem tudo obedecia às leis.
De resto nada tenho a assinalar

Eu quis
voltar a entretecer-me de raiz
com outra curiosidade.

 

 
***

 

 

Um lugar ao sol e um tempo na sombra

 

Eu vim pactuar com o crime a esta praia
porque a geada aperta no hemisfério
do continente gasto
aqui no cérebro.
Porque sair de casa a meio da noite
em busca de sacrilégio
é arte
de aventureiro
que se deve provar
uma vez pelo menos.
Por essa gota de adrenalina suja
que fomenta a inconsciência
de Prometeu
como um revérbero
ao sair de si.
Eu vim
desafiar a imortalidade
do mal
que havia em mim.

 

 

 

***

 

 

 

Quantos cais este oceano permite?

 
Como um papel de parede
que descolando amarrota na queda
todas as vidas anteriores
e repõe no espaço dos fantasmas
a candura das paredes nuas
perfeita casa
como
tabula rasa.

 

Paola D’Agostino aprendeu a caminhar por volta de 1976 e desde então nunca mais voltou para casa. De momento reside em Lisboa. Seus livros chamam-se “Largo das Necessidades” (2006), “Este Frio e Outras Histórias de Amor” (2011), “Dançam; Dançam” (2014) e o mais recente “Catar Catataus”, um diálogo ideal com o Catatau de Leminski (três últimos poemas desta seleção). Tem textos espalhados por revistas e antologias em Itália, Portugal, Alemanha. Um dia tocará acordeão, talvez.

 

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101ª Leva - 04/2015 Janelas Poéticas

Janela Poética V

Vander Vieira

 

Desenho: Victor H. Azevedo

 

Parece-te mais uma faca cravada em meu crânio

 

Parece-te mais uma faca
cravada em meu crânio.
Quando levanto-me do teu sonho
não ouço o rumor dos
………………………. [pássaros.
Como beijos embotados,
tua boca lança silêncios ao vazio;
palavras morrem antes que tu as balbucies.
Parece-te uma avó desalmada
com o agravante do assassínio letral.
Estavas ontem mesmo em minha estante;
eu a fitar-te e tu, brilhante, de soslaio,
a comer-me a visão.

Se plantasse cheiros nenhum deles daria em ti.

 

 

***

 

 

O espantapássaros

 

qual o lar do espantapássaros?
quem sorri a ele? os senhores? os vermes? as viúvas?
se ele trocasse de roupas, nós o reconheceríamos?
na capa do jornal de domingo
escondido entre as feras, alheio
ao reto do caminho, caminha
o espantapássaros.
mastiga ele a areia fina dos temporais
e sua caixa de fósforos
está encharcada de visões solitárias.
alguém ouve o espantapássaros? suas fendas?
seus fecundos sonhos intranquilos?
as sensíveis assembleias camponesas
ouviram seus apelos por um guarda-sol?
se a solidão torce os ossos dos não-vivos
o que faremos com quem tem coração?

 

 

***

 

 

Levarei ao chão todas as bicicletas cor de fogo

 

Levarei ao chão todas as bicicletas cor de fogo.
Jogarei no lixo os buquês de flores cor de vinho.
Apagarei todas as imagens coloridas.

Nada disso, no entanto, afagará a ferida aberta
pelo escoar do tempo no corpo.
Um corpo todo desmedida,
todo bifurcação de possibilidades,
todo abraço dado ao acaso.

Nada disso dá conta das fissuras vazias na tal parede
do tempo – nem mesmo mil pás de cal estancariam essa hemorragia.

Passo em frente a uma boutique:
manequins me olham e seus olhos não guardam expressão alguma.

(Uma mesa diante de mim expõe uma laranja partida em duas)

 

 

*** 

 

 

O espantapássaros II

 

O espantapássaros pendurou seus ossos
nas janelas ocres do seu passado.
Longamente meditou sobre a dor que o crucia.
Um escravo tísico, desses sem-vida,
perguntou ao espantapássaros
em qual braço do horizonte o sol faz a curva
que nos queima a pele eternamente?
Um homem comeu minha língua, ele disse
enquanto volvia os olhos às colinas
que mantinham entre os seios hirtos
os últimos dedos de luz.
Sem os acenos da noite, em qual cômodo da casa
o espantapássaros chora seus dias?
qual a sua bússola? e seu relicário?
sobra-lhe mãos e tempo para espantar as moscas
que lhe cobrem a face lúgubre?
ou seu senhor lhe ordenou que mantivesse
os braços abertos mesmo em dias sem abraços?

 

 

***

 

 

Parassempre

 

Hoje eu quero apenas uma pausa de mil compassos
Paulinho da Viola

 

 

Enquanto vivermos
seremos parassempre
bem como as canções, o engano e as pedras.
Pedras não são provisórias.
Tudo o que se pode ser, um pouco menos,
um pouco além, um pouco lago, é
impreterivelmente no tempo, que alumia.
Não se vê só com os olhos
mas só com os olhos é que se vê.

Rebento incréu, pobre e
marginal
lodo e nicotina
vias falais meio entupidas.
Por vezes
um entardecer.

 

Vander Vieira é poeta, mineiro do interior do estado e tem 25 anos. É bacharel em Filosofia e vive em Vitória/ES desde 2009. Venceu o prêmio UFES de Literatura Portuguesa 2013/14 na categoria Coletânea de poemas, tendo 10 poemas publicados na coletânea de mesmo nome, oriunda do prêmio. Tem também poemas publicados em revistas literárias como Samizdat, Desenredos e Mallarmargens.

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100ª Leva - 03/2015 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Demetrios Galvão

 

Foto: Gabriel Rastelli Quintão

 

palavra-mágica

 

quando os pés adoecem
e esquecem os caminhos
o corpo precisa inventar voos.

os peixes nadam na profundidade da costela direita
na obscuridade do entre-ossos
migrando para o aconchego do litoral carnudo.

……..(a língua quando bem plantada
……..atinge veios profundos
……..manancial voluptuoso de fabulações)

busco então, a sobrenatural beleza:
as ancas africanas, a envergadura monárquica,
a anatomia incendiária.

me visto de asas e de lâmpadas
e vou ao teu encontro
com uma palavra-mágica adornando os olhos.

 

 

 

***

 

 

 

pescaria noturna

 

olho tua pele como uma estamparia do infinito.
Floriano Martins

 

 

embarca tua forma épica
……..– delgadas linhas-curvas de alumbramento.

……..era de gozo que teu olho escorria
……..o perfume do primeiro encontro aniversariando
……..eram as terras novas: anônimas: sendo conquistadas.

……..nossa pescaria na madrugada
……..e o alimento festivo armazenado por anos na memória.
……..o tecido-de-peixes nos fez cardume na fileira dos meses,
……..nos fez náufragos de carnes unidas.

infante, tu me aprisionou no baralho como carta-salva-vidas.
tuas armas são atalhos úmidos
teu vocabulário: indomável:
…………………..revolta de mar solto.

o que se escreve do teu corpo não tem nome:
…………………………..esôfago de veludo
…………………………..onde me dissipo por tuas cavernas-entranhas.

……..se usasse brincos eles seriam satélites
……..rodopiando em volta de tua existência celeste.

teu peito-abajur vibra uma luz rara:
……………………cor de céu medular.
teu riso é vitral bizantino flamejante
……………………na arquitetura dos gestos translúcidos.

………………– ainda te guardo nos dedos daquele dia –

 

 

 

***

 

 

 

o silêncio, o barulho

ao som de philip long

 

para assis, lara e hilda

 

o silêncio do sono é trabalho de imagens profundas.
o barulho das ruas são palavras praticando o alfabeto.

o silêncio da menina lara é uma ideia danada sendo gestada.
a cor do sol faz um barulho que arde na pele.

quando o violão toca, estremece o silêncio que vive dentro do peito.
o barulho é bom quando feito com amor.

o silêncio das fotografias traz um passado que, às vezes, amansa a alma.
o ronronado da hilda é um barulhinho que traz felicidades.

o silêncio de um olhar perdido ecoa na orelha do espectador.
o barulho é gostoso quando estala no rosto.

o silêncio do escuro é um segredo em absoluto.
o barulho do alfaiate é roupa nova no armário.

o barulho do menino assis é
o silêncio que vazou da barriga da mãe.

 

 

***

 

 

 

esticar o mundo

 

para marcelino freire

 

ainda é possível esticar o mundo com a palavra poética

se aliando ao balé das arraias
aos porteiros que abrem os caminhos do mundo
às armas de misericórdia dos infames
aos livreiros da diáspora
às mercearias que sediam confrarias fugazes
aos tuaregues mensageiros dos ventos-suburbanos
aos engenhos e cachaças mágicas
aos taxistas sobrenaturais que detêm a arte dos atalhos
ao cinema do oriente abandonado
às musas que habitam os labirintos da memória
aos andaimes dos cemitérios da carne
aos carteiros que espalham pontes silenciosas
às chuvas que inventam estradas aquáticas
aos jardineiros que curam e fazem partos nos canteiros
aos gatos que amaciam os recantos da cidade
aos pintores alados que enfeitam os muros
aos bem-te-vis arquitetos do assovio
às crianças que dominam gramáticas horizontais

é possível esticar o mundo.

 

 

***

 

 

 

para uma criatura encantada vol. 5

 

hoje o carteiro entregou infâncias na casa do poeta.

 

era cedinho quando inaugurou existência cremosa
fez apostas e arremessou expectativas
gastou verbo edificando mansidão
……..– seu perfume é como o som perdido que enche a casa.

é de uma timidez imperial
carrega um mapa de 2 pintores – encontro difícil de avaliar
sabe um pouco sobre receitas, vive pela cozinha entre temperos
……..– seu mundo é vocabulário em aprendizagem.

não manipula números, mas inventa sorrisos particulares
desde muito cedo aprendeu a domesticar cactos
provinciano é seu esconderijo infantil: o casulo mimético
……..– seu rosto é lua-cheia-de-poesia.

não tem tias ou avós, pertence a uma família incomum
do pai, herdou os sons graves e, da mãe, o gosto pelo efêmero:
são gestos refinados e aconchegantes
……..– sua herança é um limiar tênue na percepção.

é sempre mais afável pela manhã
momento em que enterra segredos em cofres vigiados por bromélias
e ensaia uma virgindade aristocrática sem tradução
……..– sua beleza é violência estalando pelas praças luminosas.
em seu canto arrebata o sentimento das palavras e lança:
………………………………….a felicidade é uma invenção macia.

 

 

 

***

 

 

para uma criatura encantada vol. 7

 

não viveu na companhia de uma única pessoa
tinha uma movimentação instável.
seus meridianos quase sempre desalinhados
não favoreciam um mapa astral seguro, solar.

de personalidade selvagem, demonstrava uma simpatia sussurrada
frequentou uma escola nômade-heterodoxa
colecionava sermões do sub-mundo e liturgias marginais
quase nunca tinha bagagem e nem falava de sua família.

só teve lares de fantasia e uma casa que existia em sonho,
que lhe visitava com frequência, aquecendo sua esperança.
exibia um olhar ansioso e uma tristeza erosiva
se gabava das cicatrizes eloquentes.

em conversas, pronunciava sons graves, dissonantes.
nem sempre tinha razão
sabia quase nada de poesia, era displicente com as palavras
não se interessava pelas intimidades desbotadas dos outros
vivia a ambiguidade de um passado caótico e de um presente incerto.

foi a festas que tocavam david bowie, lou reed e se embriagou
sua gentileza insólita era uma marca latente
carregava um fogo indolente como amuleto protetor
nunca foi a um médico. tratava suas dores com solidão-analgésico.
antes de desaparecer, comentou que a saudade é
………………………………….privilégio dos que amam.

 

Demetrios Galvão é habitante da província de Teresina (PI), historiador e poeta. Publicou os livros Cavalo de Tróia (2001), Fractais Semióticos (2005), Insólito (2011) e Bifurcações (2014). Participou do coletivo poético Academia Onírica e foi um dos editores do blog Poesia Tarja Preta (2010-2012) e da AO-Revista (2011-2012). Tem poemas publicados em diversos portais e revistas. Atualmente é um dos editores da revista Acrobata.

 

 

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99ª Leva - 02/2015 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra

Palavras bailarinas na sala de leitura

Por Neuzamaria Kerner

 

Profundanças

 

Aprofundamento no sentido mais vertical da palavra. Abundância do profundo no mais profundo da alma. Isso deve ser a Profundança. A alma aqui é o livro perpassado pelo filtro da poesia que habita nessas páginas de poemas e imagens femininas. As imagens, representações da psique das 13 escritoras que partiram de vários lugares e caminharam até o ponto de encontro: esta antologia. Elas desfilam vestidas de poemas, sendo vistas desde a apresentação do livro feita pela organizadora Daniela Galdino.

Profundanças: antologia literária e fotográfica em sua 1ª edição virtual, Voo Audiovisual, 2014, vindo de Ipiaú (BA), pousa nos campos virtuais para espalhar poesia.  Na imagem de abertura uma mulher sobe degraus de uma escadaria como que simbolizando o progresso, a realização de desejo consubstanciado no livro pronto. 13 escritoras desengavetam suas palavras para que povoem o universo; 13 escritoras tratam de recolher as mazelas desaprisionadas da caixa de Pandora para que sejam reconfinadas até elas aprenderem com a Esperança – que havia ficado no fundo da caixa – sobre a importância da arte como elemento que transubstancia palavra em alimento para a alma.

Belisa, Brisa, Calila, Celeste, Daniela, Fernanda, Lorenza, Márcia, Potira, Raquel, Renailda, Say e Valquíria misturam suas experiências individuais e apresentam um modelo de pertencimento a uma comunidade artística de alto gabarito que interage com um público leitor que lança sua rede no mais profundo mundo virtual para buscar o melhor pescado.

A distribuição dos textos é feita com mistura de versos e prosas onde as autoras puderam expressar suas profundanças com muita leveza e liberdade, incluindo a apresentação de fotografias delas mesmas como extensão da palavra escrita. Elas estão presentes. Os textos têm a cara das donas e é muito interessante observar como cada palavra escrita identifica cada uma delas.

As fotografias vão como que revelando o cotidiano das moças e ilustrando o espírito do livro na medida em que o olhar dos fotógrafos vai capturando as profundanças dos momentos e perpetuando os movimentos das escritoras. Assim acontece o entrelaçamento das palavras e imagens quando Martinho, empunhando a câmera, olha o olhar de Valquíria que fala:

Empunho o que sou,
porque o ser que me habita
não quer o que esfria,
ao contrário,
pede o que borbulha.

 

Fafá surpreende Say entre panelas – dispostas no altar para o banquete – grafites, flores e estampas na saia. Mais uma vez a imagem casa com a poesia:

Escondo, na parte de dentro,
Do estampado florido de minhas saias
Um respiro calmo no altar de mim.

Márcia e Jéssica se encontram num diálogo aparentemente desencontrado. Só na aparência mesmo, posto que da cor seca do sertão brota a florada de quem, como num ato de contrição, escreve poemas:

Meu sertão tem a cor amarela
Como as folhas no outono
E a minha saudade tem a cor sépia
Como numa fotografia
uma saudade assim
envelhecida.

Uma árvore prenha guarda águas sertanejas para matar as necessárias sedes. É assim a natureza: resistente e adaptável porque criativa. Como um útero aconchegante carrega dentro de si a poesia que germina e se desenvolve pela palavra forte de Celeste e pelo gatilho da câmera de Ravena. Belo encontro!

É dispensável neste momento escrever sobre as autoras, posto que no final do livro a organizadora teve o cuidado de apresentá-las numa Mini Bio d@s participantes de um jeito muito mais interessante de forma que o leitor poderá conferir e entender o porquê dessa ausência de explicações nesta resenha. Além da apresentação das escritoras, Daniela Galdino abre espaço detalhado para mostrar quem fotografou e quem ajudou na produção do brilhante material que a partir de agora está no mundo através da boca e da pena das autoras deste livro.

Olho-me no espelho nua por dentro

porque

Fui nomeada no esteio do vento.

Sou eu, ácido, violão sem cordas

E me extasiando com sua música surda

tenho medo dos sussurros das palavras

e

começo a pender para direções esquecidas

buscando os caminhos que

as quinas das portas cortam meus passos.

Há mofo no teto e gotas de chuva nas cortinas

e a minha saudade tem a cor sépia

na presença do enxofre envelhecedor de fotografias… mas

prometo gozar o atraso dos dissabores

sintomas de precipício/ predicados de botequim

Ah!… O que tenho?

Tenho tanto medo de deus / que até fraquejei com esta caneta,

porém depois de cada inverno inscrito

eu sempre voltarei para o verão dos teus braços

porque é neles que

os meus cabelos / escondem navalhas errantes

mas que não podarão a profundança de cada palavra poemada.

* Os textos em itálico são os títulos das falas das autoras deste precioso livro.

“Profundanças” está disponível para download no site Voo Audiovisual.

Neuzamaria Kerner, baiana de Salvador, é professora e escritora. Tem publicados os livros: “Fragmentos de Cristal”, “Eu Bebi a Lua”, “A Presença do Mar na Prosa Grapiúna”, entre outras publicações em revistas literárias. Seu mais recente rebento poético é “O Livro-Arbítrio das Evas – Dentro e Fora do Jardim” (Ed. Editus – 2014).

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99ª Leva - 02/2015 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Geraldo Lavigne de Lemos

 

Alessandra Bufe Baruque
Arte: Alessandra Bufe Baruque

 

sentimentos gravados

 
meu coração é de pedra
porque o que nele se escreve
não se apaga
………………ou, para tanto,
precisa de muita água
…………….muita água da rara
da fonte dos olhos
que mine, escorra e lave,
………lave,
…………….lave
até que gaste
………………..o escrito
e reste menos uma camada
………………….volte a ser liso
…………..como em meu primeiro dia
e possa ser reescrito
………………………..em pedra
com esperança de ser definitivo
pois a cada vez que é polido
meu coração fica menor
…………………..e
……….inscreve
….diminutas
..palavras

 

 
***

 

 
o mesmo

 
eu quis renascer.
deitei em posição de feto,
mas não adiantou.

já não caibo mais
no ventre

já não tenho mais
a permissão
da inocência

não consigo
sequer
prolongar o sono

estou cheio de dentes
e de fantasmas

 

 
***

 

 

chronos e kairós

 
a segunda estrofe
lê-se como se vive:
em um segundo

breque
capô
……para-brisa
………asfalto

a quarta estrofe
vive-se como se crê:
o tempo de Deus

Nenhum dos seres
está esquecido
diante de Deus.
E até os cabelos
das nossas cabeças
Estão todos contados.

 

 

***

 

 

matéria e antimatéria

 
eu sou assim
porque o mundo ingrato me cuspiu assim
seco, direto,
………….irônico quando preciso
sarcástico ou perscrutador

se foi a conjuntura cósmica
………..eu não sei
o fio de prata, o espírito,
a fumaça lânguida baforada

mas tenho a impressão
de ter trazido comigo
esses sentimentos extremados
essa angústia inafastável
e algumas coisas mais
………..que não compreendo

 

 
***

 

 

primeira impressão

 
as ditaduras se nutrem
da hegemonia

entre as mais cruéis
……..a da cultura

ervas daninhas
………………….trepadeiras
enramam
…………..sobre nossas cabeças

tirania maior:
…….a sombra
…….do conhecimento

aplicam:
quem pouco lê,
ao ler o primeiro livro que o impressiona,
toma-o como dogma

 

Geraldo Lavigne de Lemos é natural de Itabuna-Ba e radicado em Ilhéus-Ba, bacharel em Direito e escritor, membro da Academia de Letras de Ilhéus. Em 2011, publicou o livro “À Espera do Verão” (Mondrongo), inserido na série Diálogos. Os poemas aqui selecionados fazem parte dos seus novos livros, “Alguma Sinceridade” e “Amenidades”, ambos lançados pela Editora Mondrongo em 2014.

 

 

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Janela Poética IV

Márcia Barbieri

 

Arte: Alessandra Bufe Baruque

 

O desencaixe do Sol

 

Há milênios a pedra descansava embaixo do seu nariz
sem desgaste, sem musgo, sem vinco,
uma memória esquecediça
Mas Estela estava ocupada demais
desacoplando seus membros
Desencaixava pacientemente peça por peça
Levantava e abaixava as pernas
Escutava atenta os ruídos da rótula
Escondia os olhos das luzes da tarde

Eu a observava da janela verde e seu corpo não passava
de uma carcaça adormecida pelo tempo
Ela repetia esse ritual todo domingo
O crânio era deixado em cima do ventre vazio
As bifurcações do cérebro eram confundidas
com os pensamentos
Ela continuava lindamente viva

Tentei alcançar sua mão, no entanto, eu era só um velho
Pelancas despencavam das minhas extremidades
E a carne de Estela não possuía nem riscos
nem linhas nem ranhuras
Sobre a cabeça de Estela repousavam nuvens,
Sobre a minha, pássaros moribundos de origami

Há milênios a pedra descansava embaixo do seu nariz,
Sem desgaste, sem musgo, sem vinco,
uma memória esquecediça
Estela sussurrava para seu crânio
Haverá um tempo em que a pedra será irmã do homem
E toda substância disputará um sol sobre a mesma pele

E eu gaguejo para Ninguém:
Não creio na onipotência da pedra
não creio em neutrinos
não creio em quarks
não creio no bóson de Higgs
não creio na nanomemória das coisas
E ainda assim a existência enferruja
igual a um parafuso espanado.

 

 

 

***

 

 

 

Não sou homem
sou uma matilha
dividindo-destroçando o mesmo fêmur

Não sou nem esse lobo
que crava os dentes no osso
nem esse osso perfurado
estou entre um e outro
sou essa membrana, essa baba branca, esse órgão acoplado,
essa partitura de mandíbulas desencaixadas
– caótica e ruidosa.

 

 

 

***

 

 

 

Escamas

Ressoa a pele verde e incrustada de mágoas – clave de sol –
um verme se espreme entre as circunvoluções do meu cérebro
Respiro aliviada porque meus pelos têm a cor dos cachorros magros
Respiro aliviada porque minha alma tem a candura das tardes longas de solstício
Respiro aliviada porque minha boca perdeu o fel de antigamente.

A língua salivante de lagarto passeia abstrata nas minhas gretas
Geme meu quadril curva desalinhada
Quero desentristecer
mas olho de soslaio as venezianas
e vejo-me encarando seu sorriso entre muralhas.

 

***

 

Manhãs em migalhas

Só por hoje
Rasgarei meu peito
E arrancarei flores de vidro,
pássaros de origami e velhas mágoas

Picaretas dançam entre minhas vértebras
E eu toco calma a flauta de MAIAKÓVSKI
Nunca acreditei que gangrenas devorariam meu corpo
Pedaços de sorrisos caem desconexos da minha boca
E eu que imaginei morrer um dia de cada vez – Morte Súbita.Sair

Caminho sobre os muros e observo pipas
Losangos e ilusões em perfeita sintonia
O sol explode amarelo em minha mente
E eu penso: deixa-me tocar os lírios – Só por hoje…

 

Márcia Barbieri é paulista, mestranda em Filosofia (Unifesp) e formada em Letras (Unesp). Publicou os livros de contos Anéis de Saturno, As mãos mirradas de Deus, e os romances Mosaico de rancores (no Brasil pela editora Terracota, e na Alemanha pela editora Clandestino Publikationen) e A Puta. Participou de várias antologias e tem textos publicados nas principais revistas literárias.