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99ª Leva - 02/2015 Janelas Poéticas

Janela Poética V

Marcelo Benini

 

Alessandra Bufe Baruque
Arte: Alessandra Bufe Baruque

 

 

Fazenda de cacos (o tempo)

Andemos perdidos por esses campos de flores
Onde a pele roça as pétalas no caminho estreito
O semeador de cacos fez um bom trabalho aqui
Nós, os desfigurados, corremos livres pelas plantações
Pisamos as pontas lavradas pela chuva
A mulher velha se abaixa para colher um souvenir
Em cada casa há um jarro com uma flor da fazenda
Belo mesmo é quando as gotas represam nas arestas
Onde o sol faz seu trabalho de secagem
E a plantação extensa ofusca os olhos
Miríades de pontas verdes, vermelhas, amarelas e azuis
Mar de coisas que já foram obra e adorno
Mas que na próspera fazenda agora semeadas
Aguardam a colheita diária dos cacos.

 

 

***

 

Fazenda de cacos (o trabalho)

Nas primeiras horas da manhã
Chegam para trabalhar os colhedores de cacos

Vão aos poucos silenciando

Enquanto trabalham
Permanecem com os olhos no chão

As rudes mãos escarafuncham a terra
Colhendo flores hialinas azuis, verdes e róseas

Sob o sol a pino se vê um mar de cacos
E alguns homens curvados com os olhos no chão.

 

 

 

***

 

Funcionária pública

Ninguém entendeu quando a moça da seção
Começou o concerto para piano número 3, de Prokofiev
No meio da tarde só ela ouvia clarinetes e violinos
Batia os dedos violentamente no teclado
Tremulando a melodia nos lábios
E jogando os cabelos no ar
As cortinas esvoaçavam na janela
Não houve pausa para o café
No dia seguinte os processos publicados no D.O.U.
Estavam todos em russo
E a moça digitava feliz uma carta de amor.

 

***

 

A caminho da luz

Arrancaram tua roupa de carne
E já não tinhas mais corpo

Eras apenas um olor de jasmim
Perambulando sem pressa

Foste visto no bar de sempre
Mas para espanto de todos
Pediste apenas que te deixassem em paz.

 

***

 

A vida dos obscuros

Os obscuros entram em casa pela fresta da porta
Instalam-se perto dos livros
E só saem às três da manhã
Os obscuros estão sempre atrás das portas entreabertas

Ao moverem-se pela casa
Sabemos que o fazem, pois ouvimos o ruído dos tacos
E muitas vezes sentimo-lhes a respiração
Sobre nossas costas

O tempo todo parecem observar-nos do escuro
Diverte-os que pensemos em coisas como
Vidas passadas

Os obscuros têm a respiração lenta e profunda
Adquirida em incontáveis noites nas bibliotecas públicas

Os obscuros podem ser vistos apenas durante o dia
Sentam-se normalmente na parte de trás dos ônibus.

 

***

 

Quadros em exposição

É sempre noite neste quarto
Onde se cometem crimes de adultério
Mas se da mesma insegura certeza somos feitos
Quem de nós fechará primeiro os punhos?
Se já sabíamos das paredes de caliça
E dos pesados retratos em exibição
Pranteemos não as ruínas
Pois como as tintas derramadas sobre o cômodo secreto
Os laivos também perdem força
Lamentemos apenas a exaustão.

 

Marcelo Benini nasceu em 1970 na cidade de Cataguases, Minas Gerais, e hoje vive em Brasília. Lançou seu primeiro livro em 2010: O Capim Sobre o Coleiro (poesia / edição do autor). Em 2012 lançou O Homem Interdito (crônica / editora Intermeios – SP). Foi publicado na Alemanha pela fundação Lettrétage, na antologia Wir sind bereit. Tem poemas e crônicas publicados em diversos sites de literatura do Brasil, América Latina, Portugal e Espanha. Em 2014 lançou Fazenda de Cacos (poesia / editora Intermeios–SP).

 

 

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99ª Leva - 02/2015 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Ana Farrah Baunilha

 

Arte: Alessandra Bufe Baruque

 

falta

 

quase morro (e não vejo tudo) tenho uma síncope uma febre delirante culpa dessa fome uma fome maior que a do jejum uma secura desértica que é sede de gente um oco buraco negro que ultrapassa a borda desse corpo o meu tão incompleto e aleijado sobra de vazios e partes faltantes (o corpo do outro) pra tapar o sol das minhas carências todas com uma peneira mais que furada.
Eu não me basto.

 

 

 

***

 

 

 

odisséia para diacov

 

Ela diz ser ela mesma. Ninguém acredita mais.
Acordou, se olhou no espelho e percebeu-se de ser ela, sem surpresas.
Mas aconteceu de ninguém mais lhe acreditar.
E já nem os documentos lhe creditam identidade. Perdeu-se.
Sabe de si. Sabe bem quem é, de onde veio, de quê se alimenta.
Os outros é que duvidam…
Em crise de identidade, questionou
as próprias
digitais.

 

 

 

***

 

 

 

Eu me mostro assim, um tanto,
por ser tão
fratura exposta
a me sangrar toda
é a minha verve
assim, de se esvair
tenho pressa, sou urgente
derrame sem estanque.
Agradeço a ti, pela coragem de ter
andado por aqui
sem se cortar.

 

 

 

***

 

 

 

praga

 

eu vou estar na costura do teu bolso,
na barra daquela calça
no desfiado da bermuda que nunca arrumei
dentro dos teus potes de becker
na ferrugem da furadeira de mesa
no furo aberto da acetona
na composição do nootrópico
na semente da Argyreia
no rasgo da orelha do gato
no estrago da mesa de plástico
na unha torta do teu pé.

 

 

 

***

 

 

 

a vida arranha,
esfola a gente
esfrega nossa cara
no asfalto e depois
abraça, limpa, cura

 

 

 

***

 

 

 

um abuso
a minha gargalhada
o meu escracho
a minha indiscrição no falar
um escândalo
a minha roupa, o meu batom
meu jeito de andar

acham tudo muito chocante
[eu dançar sozinha sem música chega a ser um ultraje!]
a falta do sutiã, minha fome de dragar
o esquecimento das unhas
a exagerada alegria

me querem como zumbi, igual a tudo
ao meu redor
morto, tristemente morto
irremediavelmente

sem graça.

 

Ana Farrah Baunilha é gaúcha da leva de 81, ano do Galo. Leu muita bula de remédio, vê poesia onde não tem e escreve desde sempre. Escorpiana caverninha, tem um autismo brando. E isto avança.

 

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99ª Leva - 02/2015 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Luciane Lopes

 

Arte: Alessandra Bufe Baruque

 

esquizografia

 

saia por escrito
como se nada
valesse mais
do que a língua
sem concordância
verbal – entre as partes –
se a arte arrebenta feito
um pássaro suicida
sem medo do escuro
sem medo das mulheres
sem medo dos pássaros
saia por escrito
como se nada
valesse mais

 

 

 

***

 

 

 

ora

na verdade
sou um caramujo
eu já fui outras coisas
interessantes:
calcinha, genuflexório
mancebo, guardanapo
todos os apelos passaram
– pelo meu corpo –
ainda guardo marcas
joelhos, bocas, sexos
perdi meu olho direito
numa passagem bíblica
mas o escândalo maior foi
me tornar caramujo

 

 

 

***

 

 

 

sumo

todos os meus
acertos foram aflitos
até o último gole
(até quando morri
em agosto)
todos os meus
sotaques doeram
defeitos
e todos os meus
seios – numa boca só –
sacana é a vida que
te espreme num canto
e te come
miúda

 

 

 

***

 

 

 

dócil

eu brinquei no
labirinto do teu corpo
fui fiel em todas as
entranhas
errei – ao desdenhar –
o passado é um cão
valente, sem coleira

 

 

 

***

 

 

 

o que ela imaginava

ela nunca viu
amores de perto
– vendo um filme
comendo pipoca
e se beijando na boca –
ela imaginava que o
beijo engolia a alma
e que no meio das
pernas das mulheres
havia uma passagem
– secreta –
ela achava que era
coração aquilo
que latejava

 

 

 

***

 

 

 

taurina do primeiro decanato

ela nunca vai
embora
– parece vigia
noturno –
senta na soleira
do mundo
e observa:
saturno
amansar
o touro

 

Luciane Lopes é poeta e letrista, nascida em Mirassol, interior de São Paulo. Seu primeiro livro, “A casa dos sentimentos” aguarda oportunidade de publicação. Escreve diariamente nas redes sociais. Suas poesias já foram publicadas pela revista eletrônica Mallarmargens e também no The São Paulo Times (coluna Poesias para Sexta- Feira) Poética Urbana.

 

 

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98ª Leva - 01/2015 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Alexandre Guarnieri

 

Foto: Pedro Alles
Foto: Pedro Alles

 

o átomo de carbono (i)

 
toda a vida contida numa exígua partícula,
– desdobrável de si própria –, equilibrada
sobre a mesma progressão desenfreada;
deuses ferveram-na numa caldeira aquecida
ante o clarão do big bang / cozendo-a por milênios,
lenta, nas tripas da mais velha estrela / e lá, aprisionada,
como o maior espetáculo da via láctea, além do limbo
centígrado dos organismos bioquímicos,
replicou-se a enzima de sua fina
(e elástica) matematicidade
// até que […]

 

 

***

 

 

|( os órgãos internos )|

 
\ ( persegue as vértebras a massa
dos sangues coligidos / ( dentre os quais
há indício, de que alguns ( mais ou menos
líquidos ) \ cada qual a seu tempo, distintos,
consolidem sacos do caldo biológico,
coagulados \ ( carnes que existem da diferença
entre si de seus tecidos / ( se especializaram
as células, em aparelhos e sistemas ) /
delas monta-se um puzzle cujas lacunas
se completam ) \ o corpo expande,
tanto quanto se destrói ( por escasso o cálcio )
no rígido osso que esfacela / ( conforme
a vida lhe habita, o conjunto luta
sob o mesmo pulso \ ( o mesmo insumo bruto
lhe insufla a labuta / ( plantada já
na samambaia dos nervos \ ( enclausura-lhe
a elástica amarra dos músculos / ( a obstrução
sob medida de uma única fornalha viva
) \ trocam fluidos entre si tantas partes
aparentemente separadas \ ( interno
o mar hemorrágico, apenas visitável numa
viagem fantástica / ( mas quando lhe autopsiam
a frio \ ( sangria & bisturis / ( se mostra,
um monstro sob as próprias ataduras \ (
o frankenstein exposto, que, apenas por medo
do escuro, só morto poderiam demonstrá-lo ) \

 

 

***

 

 

(| o crânio humano |)

 
compósito ósseo por sobre cujos orifícios inteiramente
desobstruídos, encaixam-se os módulos dos olhos,
narinas, da boca, e ouvidos; a tampa de louça calcinada
pelo couro (marfim fissurado sob cabelo) um trono
ocupa o topo desta cúpula; uma armadura de juntas,
parcialmente recoberta por ranhuras em cruz, pelas quais,
de sua furna interna (o antro intracraniano), escapam-lhe
tantos juízos – são pássaros em fuga deste recep
táculo craquelado; lacrado sob a caixa manchada do
crânio humano, jaz, moldado aos miolos, à forma de uma
noz que alucina e racionaliza, o gerador unigênito – razão
pela qual congelam o cérebro de um gênio –, de cada
inédita eureka, e de todas as idéias velhas, de séculos,
de décadas, guardadas em antiquíssimas bibliotecas; sob
o palato, escondida, esteve a língua quase retilínea (um
único músculo infatigável para modular todos os dialetos),
a dentição se encaixava, cobrindo-a, esta fila de lanças
fincadas, abaixo das maxilas, e na base da mandíbula.

 

 

***

 

 

[| a pele |]

 
homem-bomba vestindo roupa de escafandrista, seu
neoprene pressurizado capta estímulos, e por entre
pêlos mínimos, válvulas regulatórias fazem-na suar
ou ressecar, contra as condições do habitat (algo
se interpõe aos poros, ou impermeabiliza as fibras);
seus sensores de calor vigiados de uma
torre de comando, enquanto é mantida viva, (hidratado
adequadamente cada intrincado recanto)
como a máxima peça, de uma alfaiataria das mais
complexas: seria tão errado reduzi-la ao tato costurando
ao tecido apenas um, dos cinco sentidos?

 

 

***

 

 

mecânica dos fluidos

/ o suor

 

c a d a   p o r o
u m       e s c o a d o u r o
p e l o   q u a l
c a d a     g l â n d u l a
s u d o   r í p a r a
………….r e s p i r a

s e    r e   p e l e
s e u      l í q u i d o
s e    r e     m o v e
s e u           v i s g o

é     o   q u e
…….p e r         m i t e
q u e      a
……..e p i d e r m e
s e     l i m        p e
e       t r a n s p i r e

 

 

Alexandre Guarnieri (carioca de 1974) é poeta e historiador da arte. Atualmente pertence ao corpo editorial da revista eletrônica Mallarmargens e integra (desde 2012), com o artista plástico, músico, ator e poeta, Alexandre Dacosta, o espetáculo mutante [versos alexandrinos]. Casa das Máquinas (Editora da Palavra, 2011) é seu livro de estreia e está disponível online (no issuu.com). Publicou poemas em revistas e jornais. Em 2014, participou das antologias “Essas águas” (Org. Vagner Muniz, 2014 [ebook]) e “Hiperconexões: realidade expandida, volume 2” (poemas sobre o pós-humano; Org. Luiz Bras, Patuá). Seu mais recente livro, “Corpo de Festim” (Confraria do Vento) será lançado em breve. Email: alex.guarni@gmail.com.

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98ª Leva - 01/2015 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra II

GERALDO LAVIGNE – Ameno e sincero

Por Jorge Elias Neto

 Alguma Sinceridade

ALGUMA SINCERIDADE

Qual a idade do poeta Geraldo Lavigne? Pergunta que fiz a Gustavo Felicíssimo ao receber esses dois livros que se embrincam.  Pergunto-me por quê? Talvez por achar necessário alguma intimidade com o autor para quem se aventura a escrever uma orelha de livro. Talvez pela surpresa da promessa.

A poesia atual, em sua vertente mais celebrada pelas mídias do eixo Rio-São Paulo, se embriaga com o concretismo paulistano. Uma poética que brinca com as palavras, poética da forma, poesia da desilusão, do nada, egoísta, despida do deslumbramento.

Já a poesia de Lavigne ―… ―, ele mesmo a define “com alguma sinceridade” ao nos dizer suas meias verdades, já não escondidas atrás de uma máscara. E vai dizendo que “é no âmago que reside a centelha”, na “seiva que corre o motivo do visgo”. Lembra-nos que vivificamos o mito de Sísifo e nos avisa sobre a falácia de quem joga o bilboquê de pedra neste “mito de democracia”. E é enorme a generosidade do poeta ao nos alertar da “tirania maior” – o que nos faz recordar de Montaigne quando disse do medo dos homens que leem sempre um único livro.

Mas o “eu lírico” se percebe diferente, pois ser afeito ao silêncio e a contemplação é ser um transgressor, ser anacrônico, neste Mundo multimidiático. O homem não se irmana na globalização e sim no reconhecimento de que o “normal é diferente”. Compreende leitor?

E que bela imagem, a do coração, palimpsesto de pedra, onde é preciso “muita água da rara fonte dos olhos” para apagar o já escrito. Vejam a seriedade de um poeta jovem que se propõe buscar a síntese, o esmero técnico, sem que para isso necessite prescindir do coração. Um “eu lírico” que mantém a esperança de na busca ilusória do poema definitivo, perpetuar um coração minúsculo onde seja possível se escrever “com diminutas palavras”. Que bela imagem poética!

E o que dizer da ironia em Lavigne ― algo raro e necessário no enfrentamento das verdades ― quando no poema “aturdido” nos diz que “quando a água do chuveiro afaga meu corpo, posso ver, através da densa cortina, a minha vida com você é um filme de Hitchcock”.

Sim, a vida também é feita de perdas, e como emociona – e este é o maior objetivo da poesia – o poeta ao nos dizer da dor, no poema “meu velho”: “Faltam poucos dias para quatro anos nesse tempo dos homens que meu coração não reconhece”. E, consciente diante do absurdo do nada ― “a morte te espreita vereda por vereda” ―, ensaia o renascimento, um retorno mal sucedido ao ventre da inocência, pois já se impregnou com a verdade e se encontra “cheio de dentes e fantasmas”. Ressurge mais forte dessa viagem pela introspecção por ter “o gérmen do verde que brota quando o céu desaba”. Após o processo necessário de desconstrução, entende o silêncio, ergue os braços, toca as nuvens e “conversa com os anjos”.

Já no lúdico poema “Ocaso” Lavigne se questiona: “será que cupins alados pousarão sobre o lastro que me sustenta?”. Mas rebate, agudo, “ talvez seja mais um poente, talvez o ocaso seja o acaso em mim”. E acaba por definir ser o poeta o “tutor das plumas solúveis, que pousou altivo no patronato das aves domesticadas” e atinge a perfeição ao reconhecer que “a gota d´água não se sustenta nas asas do pássaro silvestre”.

Por fim, o poeta desafia os “borbotões de vento” que nos desfolham e nos tombam, ensaiando a transcendência “desafiando a longevidade dos ciprestes milenares”.

Agora, só nos resta tratar das amenidades …

Amenidades

AMENIDADES

O poeta do ameno deixa aqui seus fragmentos luminosos.

Toda singularidade do olhar lançado sobre o cotidiano pessoal traduz seu povo e sua terra.

Poemas imagéticos, sem dúvida; poemas de uma lentidão contemplativa, de saber de sua insignificância relativa e da importância de prosseguir no sem sentido, pois, “perfeição na terra – não há exceto o amor”. Para o ser imperfeito e portador do “fardo da consciência” o amor é “semidivino porque tem um quê de pecado” no lado debaixo do Equador…

O “chegar e partir, são dois lados da mesma viagem” nos diz Bituca, e também o fez Lavigne, autêntico poeta Grapiúna (confesso aqui minha admiração por esse nome e seus poetas) ao apreciar o entardecer neste “paraíso dos anjos”.

Como disse Ildásio Tavares: “Nada penso. Estendo os braços e curvo no meu joelho minha linha do horizonte”. Não será também esta atitude de Geraldo Lavigne nessa Ilhéus onde o céu se abre imenso, idílico, onde o “carvão abraçava a lua. A lua fogo abrasava o céu”?

Dá vontade, poeta, de apreciar esta “primeira claridade da manhã, com sabor de fruta madura, café coado em pano e tapioca”. Ver “as gotas caírem qual sais de banho” e, por saber-se nada, caminhar descalço sobre os seixos na ilha da Pedra Furada. Pois Cipango fica logo ali, onde aportou o sonho, que persiste e “cresce ao redor” e, apesar “do Mundo”.

Sabe, Lavigne, já “bebi menino as águas frias da mata” e meu mundo “era tão curto e tão vasto”… “mas o tempo dissipa as palavras como a aura dissipa a fumaça da lenha”. E por isso, também, sinto saudades de Senô, pois desejo a benção com água de coco, para quem sabe, também tornar-me doce…

É isso, leitor, já que me foi dado o privilégio de recebê-lo, o convido a entrar. O poeta é generoso, lhe oferece duas portas – dois livros: um que diz do homem como objeto refletido e repisado; outro mais ameno e bucólico, impregnado de memórias e imagens da bela região grapiúna.

Jorge Elias Neto é poeta, médico, ensaísta e membro da Academia Capixaba de Letras. São de sua autoria os livros: Verdes Versos (Flor&cultura ed. – 2007), Rascunhos do absurdo (Flor&cultura ed. – 2010), Os ossos da baleia (Secult – 2013). Recentemente, lançou seu mais novo rebento poético, Glacial (Editora Patuá – 2014).

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98ª Leva - 01/2015 Janelas Poéticas

Janela Poética V

Mariana Fernandes

 

Foto: Pedro Alles
Foto: Pedro Alles

 

Colheita

 

Aquieta-te,
ainda é tempo de molhar a terra
Das raízes ascender
para desafogar-te
em mar de espera
De pastorar os lobos
que correm em teu peito
Inundar-te do sabor afável
que é esvair-se
De amar-te
como se outra fosse
Apressa-te,
enquanto a água não seca.

 

 
***

 

Percurso

 
Premido pela falsa couraça do corpo
inutilmente domável
entre labirintos singelos

Prepara incessantemente,
em que pesem os festejos da carne,
o sumo que conduz em fragilidade
o fio da vida

Escorrem-te pelas frestas,
ávidas pelo encontro tardio,
lágrimas tingidas em vermelho ocre

Pois divido contigo o grande fardo
que me trazes a cada ausência vivida
A longa espera do silêncio absoluto
em que te firmas e consome o todo.

 

 

***

 
Sobreviventes

 

Espesso,
grita o vento a galope
envoltos de orvalho
talvez cinzas
deitamos sobre a terra
nossos sonhos

Noite densa, pungente
corta a carne, estanca a fala
no olho do silêncio
dividimos a escassez
de nós mesmos

O riso, a cólera
e o estatelar dos ossos
contra o mundo

Fomos tanto de nós

Somos outros
Somos os muros
e queremos ser água.

 

 

***

 

 

Recorte

 
Como um sopro frio
que se prolonga por tempo demais
Da tua companhia
ficaram os copos vazios, lírios
Os punhos suaves cerrados em prata
estendendo-se timidamente
à noite branda que se inicia
Adivinhamo-nos invisíveis
e cedemos em vertigem
às estrelas
do caos a complacência
da língua a mudez
dos pés o cansaço
da lucidez o desatino
dos olhos caleidoscópios
no canto da memória
giram.

 

 
***

 

 

Outra e Nada

 

Debruçada sobre
as águas de vidro,
vejo-me turva
Borrões não
decifrados em traços

Ilusionista, o corpo
Dentro do vazio constrói
a tua casa para desmoroná-la
sem alarde

Restam dezenas de mim,
mas nenhum pedaço
me veste com agrado

Não sou aquela de quem falas,
Não vejo o que vês
Fui lapidada na tua mente

Pluma sobre a água
ou pedra lançada

Que se faça esquecer
a memória de mim.

 

Meu nome é Mariana Fernandes, tenho 27 anos, nascida em 22/01/1987, na cidade do Rio de Janeiro, onde vivo até hoje. Sou estudante de Direito, graduada em Letras – Português/Inglês, funcionária pública, tradutora e ex-professora de língua inglesa. Escrevo para preencher silêncios, vazios, abafar vozes e enfeitar a realidade.

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98ª Leva - 01/2015 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Carla Carbatti

 

Foto: Pedro Alles
Foto: Pedro Alles

 

tremulações do azul

 
os carros e os pensamentos passam
tão ilógicos
agora demoro o corpo numa canção do Miles
all blues
bebo água viva
………………………………para fluir
………sua presença
escorre pelos órgãos
pelas avenidas
os carros e os pensamentos passam
na contramão
dobrar a esquina exige uma força extraordinária
sentir o tempo, fibra por fibra, muscular a solidão
mas eu pertenço a uma geografia frágil
às modulações de calor dos seus braços
às nuvens, aos orgasmos,
………………………………………….ao húmus, aos ismos
a todas as viscosidades e inconsistências da carne
não defino, não explico,
compartilho
o outro não é meu objeto
aquilo que digo e domino
ao contrário
o outro é o que me expande
que faz outros mundos possíveis
kind of blues
têm tons que só existem nos seus olhos:
love: agitation: tremulações do azul

 

 

***

 

 

bailarina

 

antes que eu ponha meu exército intelectual
para invadir e sitiar um texto
antes mesmo de capturar e enclausurar o sentido
o próprio texto me envolve
num exercício respiratório e rítmico
como se soltasse pássaros nas minhas artérias
como se elas
as palavras
fossem música

 

 

***

 

 

diário do silêncio: a palavra

 
[ ]: penso na primeira vez que alguém disse: palavra. o silêncio seco do seu sopro sussurrando a solidão. o cheiro vermelho do nascimento. havia um abismo pintado sobre um mapa. um espaço infinito aberto pela curva. aos poucos, os pássaros e as crianças ocuparam as praças, as esquinas e uma mulher montada num cavalo negro estilhaçou a vidraça: ¡palavra!:
inventa-me este lugar, esta distância. cria-me o mundo a partir deste vazio: [ ]

 

 

***

 

 

diário do silêncio: a jardinheira

 

… então o rio. a solidão fluindo no mês de junho, em tudo. eu sei, escrever é isso, este infinito diálogo íntimo. talvez, entre uma sílaba e um desconforto, pudesse sentir suas mãos narrando o silêncio no meu corpo. as digitais desenhando nuvens no mapa da existência. o amor é uma tênue penumbra presente na película da palavra. inventou o rio e noite que molham meus olhos. por onde andávamos antes das margens e o medo indicarem o caminho? agora passam aves e frases no descampado do pensamento. dilatam o tempo, os objetos, os lugares. eu construo janela para estender o olhar e as viagens. é verdade que somos só uma tremura na entranha de deus? noite alta, vejo o vento esvoaçar a saia da madrugada. um relâmpago fugaz fulminar o verso. cato as fuligens vermelhas e deixo as azuis para os vermes. as águas da chuva iniciam seu percurso pela memória do rio.
eu remo rimo regresso, rego as raízes das plantas

 

 

***

 

 

unreal letter

 

escrever a palavra cansada
o amor em cartas registradas
nos abismos da pele

trago na boca
borboletas e vermes – selados em saliva
numa caligrafia de haver reticências
cartão-postal
rascunho de poesia
viagem pro Nepal
disco do Pixinguinha

tome nota: [nasce um pedaço de eternidade]:

é preciso catar parafusos em noites de chuva
e nem me venha com sombrinha!

 

sou qualquer, carla, como tantas Carlas que há, filhas de Marias. nasci onde brilham as estrelas de Três Pontas e jorram luz até BH. disse amor e atravessei o Atlântico.  hoje habito um Campus Stellae. amo, amo demais duas menininhas de olhos acastanhados, mais brilhantes que o sol. nos feriados solto pipas e escrevo com todos os átomos. nos dias de feira faço um mapa losing steps das heterotopias de Clarice, pra isso que chamam de tese, mas eu chamo mesmo é de saltar no abismo com um verbo infinitivo nos lábios …

 

 

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98ª Leva - 01/2015 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Roberto Dutra Jr.

 

Foto: Pedro Alles
Foto: Pedro Alles

 

Acaso ao horizonte
as linhas se perdem
nos homens.

Linhas
e horizonte de homens.
Homens:
linhas e horizontes
do tear.

Ao acaso as linhas cruzam-se.

A velha fiava ao sereno
linhas, horizontes e homens.
Ao cerrar-se o fio
quiséramos todos, ser
carretel.

 

 

***

 

 

QUANDO FIZER UM POEMA:

 
desfiar pedras
alimentar tigres
ordenhar deles
o medo
e constelar
ar
……….a
……………….ar
o frêmito febril
em alumbramento

 

 

***

 

 

JANELA

 
Preso no horizonte
eu mesmo
Não sei se te vejo
ou às próprias grades
da cegueira.

O sol se pôs
Vivi na sombra
do não ser-me.

 

 

***

 

 

POEMA ÁRIDO

 
Persigo as palavras
fundo, na memória das pedras,
ruído dos pássaros.
A pele descarnada das botinas
traduzindo-se em deserto.

Quando há um poema
o deserto sou eu.

 

 

 

***

 

 

NUDEZ

 
A cada minuto
perder o fio
diáfano da manhã
contemplando
sua
lânguida luz

 

 

***

 

 

O PEIXE

 
não tem nome

………………………………..[o peixe]

assim o chamo
contrário à sua vontade
escorrega das mãos
a verdade de escamas metálicas
um salto apenas

………………………………..[o peixe]

pura profundidade
tudo mais é engano
infenso drama
mergulha além do olhar
longe demais – fria chama
sem voz
nada diz

………………………………..[o peixe]

flutua
essencial e inominável.

 

Roberto Dutra Jr. é um neurótico social como todo brasileiro de cidade grande. Adora literatura, mas as palavras não fazem mais sentido. Mestre em Letras, tem um livro publicado e diversos artigos de caráter acadêmico e crítico publicados. Foi editor de revista acadêmica, contribuiu para jornais e revistas literárias no Rio de Janeiro e tem um seríssimo flerte com a música. Adora gatos e poemas, que movem-se na penumbra e nunca revelam-se inteiramente.

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97ª Leva - 11/2014 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Carolina Calvo

 

Arte: Cristina Arruda

 

Tradução: Floriano Martins

 

COMPAÑÍA REMOTA

 
Sombras que sin ti
caminan conmigo.

Ecos del ayer
golpean desafiantes las nuevas huellas.

Su presencia pendular en el aquí y en el allá
– en el allá y en este aquí sin ti-
acalla todo intento de palabra naciente,
desdibuja con pincelados recuerdos
bocas que quieren ser una.
Siempre así, oscilante,
tu ausencia se derrama como lágrima contenida
sobre inexploradas formas que quisiera besar…
pero nunca puedo.

Impiden tus sombras
…siempre así, oscilantes,
mi tránsito por caminos luminosos.

Seguiré entonces permaneciendo a tu lado sin ti
hasta que el mismo sol, compasivo,
baje y queme sin herirme
la oscura presencia de tu ser en mi ser.

 

COMPANHIA REMOTA

 
Sombras que sem ti
caminham comigo.

Ecos de ontem
golpeiam desafiantes as novas marcas.

Sua presença pendular aqui e ali
– ali e neste aqui sem ti –
desfaz com pinceladas lembranças
bocas que querem ser uma.

Sempre assim, oscilante,
tua ausência se derrama como lágrima contida
sobre inexploradas formas que quisera beijar…
porém nunca posso.

Tuas sombras impedem
…sempre assim, oscilantes,
meu trânsito por caminhos luminosos.

Seguirei então permanecendo a teu lado sem ti
até que o próprio sol, compassivo,
desça e queime sem ferir-me
a escura presença de teu ser em meu ser.

 

 

 
***

 

 

 
LEJANÍA

 

Tras la remota contemplación
de tu sonrisa en el firmamento,
sólo me resta
reordenar las estrellas
y seguir viviendo.

 

DISTÂNCIA

Após a remota contemplação
de teu sorriso no firmamento,
apenas me resta
reordenar as estrelas
e seguir vivendo.

 

 

***

 

 

AUTORRETRATO SIN MÍ

 

Tal es la ausencia
de mí esta noche,
que me conformo
con lo que
éstos versos
puedan decir
de lo que soy.
Punto.

 

 

AUTO-RETRATO  SEM MIM

 

Tal é a ausência
de mim esta noite,
que me conformo
com o que
estes versos
possam dizer
do que sou.
Ponto.

 

 

***

 

 

PUNTO MUERTO

 
Este ir sin mi,
este recorrido pendular
entre el suspiro y el silencio
¿Acaso es por repentinos tropiezos
con el polvo enrarecido del ayer?

¿Acaso envejecí antes de tiempo
y fueron inútiles los intentos
de borrar las líneas de mis manos?

No lo sé.

Sólo miro por la ventanilla del bus
las calles, semáforos, casas
y todo me es ajeno.

Recorremos sin sentido los caminos
sin nosotros
sin los otros,
siempre son miradas pasajeras
las que se posan sobre quien duerme en el asfalto.

 

PONTO MORTO

 
Este ir sem mim,
este percurso pendular
entre o suspiro e o silêncio
acaso é por repentinos tropeços
com o pó raríssimo de ontem?

Acaso envelheci antes do tempo
e foram inúteis as tentativas
de apagar as linhas de minhas mãos?

Não sei.

Apenas vejo pela janelinha do ônibus
as ruas, semáforos, casas
e tudo me é alheio.

Percorremos sem sentido os caminhos
sem nós,
sem os outros,
sempre são olhares passageiros
os que pousam sobre quem dorme no asfalto.

 

 

***

 

 

LLUVIA

 

Estos objetos que no escapan del dilatado suspiro
observan sigilosamente mis movimientos,
ante ellos
llovió esta tarde

No fue una lluvia simple. No.
Del ayer vino.

Azotó mi rostro con una danza
que aturdió mi alma
e inmovilizó mis pasos
sobre la cabeza de las piedras.

Socavó mi piel
con sus finos hilos contundentes
y abrazó mis huesos con ansías de calor.

Quise también abrazarla toda
curar su tristeza
bajo un manto de palabras
resistentes al agua de lluvia triste.

Pero las vocales necias
se ahogaron en su grito,
mis manos abrazaron mi espalda
y las piedras abrieron su coraza
para calentar mi cuerpo
con un calor escondido.

Allí comprendí
que era yo
la lluvia triste
y que son estos observadores
mi eterno invierno de diciembre.

 

CHUVA

Estes objetos que não escapam do dilatado suspiro
observam sigilosamente meus movimentos,
diante deles
choveu esta tarde.

Não foi uma chuva simples. Não.
Veio de ontem.

Açoitou meu rosto com uma dança
que aturdiu minha alma
e imobilizou meus passos
sobre a cabeça das pedras.

Escavou minha pele
com seus finos fios contundentes
e abraçou meus ossos com ânsias de calor.

Quis também abraçá-la toda
curar sua tristeza
sob um manto de palavras
resistentes à água de chuva triste.

Porém as vogais imprudentes
se afogaram em seu grito,
minhas mãos abraçaram meu dorso
e as pedras abriram sua couraça
para esquentar-me o corpo
com um calor oculto.

Ali compreendi
que a chuva triste
era eu
e que estes observadores são
meu eterno inverno de dezembro.

 

 

***

 

 
SIN ALCOHOL

 

Mala elección
pedir coctel de estrellas muertas
en esta noche sin luz

El hielo de mi vaso no se derrite
y la vela de la mesa se extingue
sin que sacie mi sed

Silente,
observas desde la otra orilla
la fría levedad del trozo transparente, sólido,
flota como tus pasos
sobre ruinas de papel.

 

SEM ÁLCOOL

Péssima escolha
pedir coquetel de estrelas mortas
nesta noite sem luz

O gelo de meu copo não derrete
e a vela da mesa se extingue
sem saciar minha sede

Silencioso,
observas da outra margem
a fria leveza do pedaço transparente, sólido,
flutua como teus passos
sobre ruínas de papel.

 

 

***

 

 

ECO

 

Grité olvido al eco
para que retornara
el sonido de paz perdida…
para que regresara sin Él.

Y nítido oí tu nombre.

 

 
ECO

 

Gritei esquecimento ao eco
para que retornasse
o som de paz perdida…
para que regressasse sem Ele.

E nítido escutei teu nome.

 

 

***

 

 

CLAVANDO CLAVOS

 

Sigo allí en esa pared
esperando que un clavo para retrato nuevo
perfore mi frente,
sangre tu nombre por la herida
y despierte pensando
que sólo fue un inquietante dolor de cabeza.

Sin embargo,
la casa se cae a pedazos.

Por misión,
orificios en cada muro
buscan inútilmente aquel lugar
dónde sonámbulas levitan tus palabras.

Ojalá no sea otro clavo
el que despoje a mis poemas
de tu sombra,
no quiero barrer
las ruinas perforadas de mi poesía

 

CRAVANDO CRAVOS

 
Sigo ali nessa parede
esperando que um cravo para retrato novo
perfure minha fronte,
sangre teu nome pela ferida
e desperte pensando
que foi apenas uma inquietante dor de cabeça.

No entanto,
a casa cai aos pedaços.

Por missão,
orifícios em cada muro
buscam inutilmente aquele lugar
onde sonâmbulas levitam as tuas palavras.

Quisera não fosse outro cravo
a despojar meus poemas
de tua sombra,
não quero varrer
as ruínas perfuradas de minha poesia.

 

 

***

 

 
CÁRCEL

 

Turbia es la mañana,
………………..  la tarde,
…………………………..la noche.

Veladas siempre las horas mientras duermes
y no me dejas escapar de tu sueño.

Despierta ya,
¡Qué se acabe la pesadilla!

 
 
CÁRCERE

Turva é a manhã,
…………….a tarde,
…………………….a noite.

Veladas sempre as horas enquanto dormes
e não me deixas escapar de teu sonho.

Desperta já,
que tenha fim o pesadelo!

 

Carolina Calvo-Pérez (Bogotá, Colômbia, 1988). Poeta, inédita em livro. Integra a oficina de criação poética da Universidade Pedagógica Nacional, coletivo que dirige o jornal Aldabón, publicação com destaque para as novas vozes da poesia colombiana, incluindo a poesia étnica de diferentes nações indígenas. Participou do Festival Internacional de Poesia de Bogotá e do Festival Internacional da Cultura, em Tunja. Neste último evento acompanhou o poeta brasileiro Floriano Martins em uma leitura de poemas incluindo vídeo, música e fotografia. Participa ainda do grupo de pesquisa Merawi, cuja linha de trabalho é a interculturalidade e seu reconhecimento em espaços educativos.

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96ª Leva - 10/2014 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Marilia Kubota

 

Tomás Casares
Foto: Tomás Casares

 

não consigo ficar livre
do gosto dos outros
o meu e o teu rosto,
superpostos são um ? sol impostor
ou vestígio de algum sentido
pedaços indefinidos
do todo invisível

 

 

***

 

 

metamorfose

 

sob a casca
a lagarta da seda
arredonda a redoma
e sonha asas.

a sombra do luto
anuncia:
breve aqui
mais um fruto

a metamorfose

 

 

***

 

 

imensidão

 

escalar montanhas
que só o silêncio influencia
reencontrar nas primeiras cavernas
vestígios de eternidades antigas
descobrir novos sentido e limite
além de sombras conhecidas
buscar sonhos que foram
mais que vento um dia:
alimento que a boca queria

 

 

***

 

 

acordar, susto único
súbito sol subindo o peito
no púlpito de agosto
sob estandartes de luto.

eliminar a dor
do pensamento, um minuto,
o isopor do silêncio,
branco absoluto.

a alma, mesmo fora
desse sol, estala
a um toque de luz. e agora,
acesa por dentro, exala.

 

 

***

 

 

folha a folha
destruir o vestígio
do gafanhoto
na rosa verdejante
que sóis salvam
e a palavra mata.

 

Marilia Kubota é escritora e jornalista, é mestre em Estudos Literários pela Universidade Federal do Paraná, em 2012. É autora dos livros de poesia Esperando as bárbaras (2012) e Selva de Sentidos (2008) e organizadora da antologia Retratos Japoneses no Brasil (2010). É editora do MEMAI – Revista de Artes Japonesas e colaboradora do site Interrogação.