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96ª Leva - 10/2014 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Stefanni Marion

 

Foto: Tomás Casares

 

o enforcado

 

me ame ou me enforque
sou o seu bluegrass boy
e esse disco você já tocou
quando cantarolou aquela
triste canção com seu banjo.

com você eu sinto o ritmo
do tilintar do drink no copo,
ouço rifles, vejo a sangria
escorrendo no centro
de minha testa ferida.

me ame ou me enforque
sou seu fracasso favorito
um escombro, um tropeço.

oh baby, não seja tolo
amarre as pernas
de sua calça jeans
em meu pescoço
e tente tente tente.

querido rei, querido réu
os anos fatalmente passarão
feito mariposas no verão
e eu não estarei mais aqui
para amar você tão denso.

querido rei, querido réu
fique no canto da sala vazia
e pela última vez eu peço
cante suas tristes versões
do peter, paul and mary.

sou um cubo de gelo
em seu copo de whisky
vou derreter
e você sabe que será fatídico.

voltarei para casa,
mas não vou contar para deus
que você é meu assassino.

me ame ou me enforque.
me enforque e me ame
frio.

 

 

***

 

 

lana, ele não virá para jantar

 

um dia você cantou
e éramos nós três
em uma king size.

ele foi embora tempos depois,
você tranquei no armário
e eu fiquei só, vagabundeando
com os filmes do john waters.

dia desses li que seu sonho
era ser poeta, seguir a estrada.
uma transmutação lúcida
que tanto me sobrecarrega
da escuridão dos dias.

hoje fiz o jantar em silêncio
tem vodka de cannabis
talvez você goste.
fiz uns quibes,
talvez você os rejeite.

quando libertá-la
talvez eu não suporte a dor
e a jogue pela janela suja
para calar sua voz impudica
nesse intenso verão abatido.

quando libertá-la
verá que eu fiz um ritual
mas a dor ainda rasga
e a casa está triste triste triste.

sua vagina tem gosto de pepsi cola
desande a cantar sufocando
me faça esquecer
vamos soltar
os prisioneiros
às vezes vale a pena
deixar morrer para não voltar.

lana, agora somos só nós dois
ele não virá para jantar.

 

 

***

 

 

beautiful fucker man

 

o amante foi embora
o chuveiro pinga solidão
seus cigarros apagados
ainda ocupam a falta de palavras.
ele deixou mentiras pirotécnicas
espalhadas junto ao jardim
e não quero mais adubá-las.

a chaleira apita três vezes
meu nariz é rabdomante
fareja desafetos um a um
meu desejo é peregrino
onze andares acima
onde meus abismos
não são tão atrativos.

o amante foi embora
e me deixou lamentando
no canto da fétida sala suja
e ele sabe que isso terá seu preço.
meu belo homem filho da puta,
um fodedor, em breve irei enterrá-lo.

meu coração é um arquivo
de cenas perigosas.

 

 

***

 

 

luver, drunk, lover

 

pigalle 303, pernoite
num torpor envelhecido
do motel o desconhecido se foi,
mas dentro de mim mora um outro.
paguei a conta, devolveram meu rg
voltei para casa, tudo de volta
fora do lugar, valkiria 42.

e nesse jogo, quem eu acho que sou
andando por aí ganhando cicatrizes?

coloquei gelo num copo
despejei vodca negra

e escrevi uma linda canção rock ‘n’ roll
respirei fundo, outra vez, outra vez.

se nem deus ou o amor
salvaram e lavaram
minha alma impura,
então não tenho nada a perder.

 

 

***

 

 

dor

 

ingredientes:

01 escroto cozido
01 coração partido
01 escroto cru
01 pitada de ira
02 colheres de solidão
220 gramas de agonia
¼ de silêncio
½ xícara de saudade

modo de preparo: nunca saberemos como temperar a dor. então leve ao forno e deixe queimar queimar queimar…

 

Stefanni Marion é autor dos livros “Temporário”(Patuá, 2012) e “Inventário” (Patuá, 2014). Participou de antologias, teve poema em italiano musicado e poemas em catalão publicados na Espanha. No projeto “Arte na Balada”, expôs seus escritos com batom vermelho nos vidros do banheiro de uma casa noturna paulistana. É um dos organizadores e editores da antologia “É que os hussardos chegam hoje” (Patuá, 2014), entre diversos outros pormenores planetários do universo literário.

 

 

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96ª Leva - 10/2014 Janelas Poéticas

Janela Poética V

Nuno Rau

 

Tomás Casares
Foto: Tomás Casares

 

matiz

 

não dá pra chamar de plúmbeo este céu, tampouco
argênteo, que um
afunda a sua dor num espectro
engalanado e o outro
aspira a um brilho que
não tem e assim
disfarça o céu que é por tudo cinza,
apenas cinza em sua solidez e lixa
em nossos olhos o que a  superfície opaca e rarefeita
aflora  de áspero: resíduo, pó, rescaldo
de um incêndio, também chamado, às vezes,
vida.

 

 

***

 

 

o que é a poesia?

 

depois que os pais morreram
voltou à sua cidade
para vender a casa antiga
onde passou parte da infância

cambiou a quantia obtida na venda
por euros
e transferiu o montante para sua conta
em Bruxelas
onde vivia num pequeno estúdio
alugado, 3 peças dando para os fundos
o que tornava muito silencioso
estar ali, exceto
nos dias de chuva quando as gotas
tamborilavam nas folhas
de zinco sobre a varanda

no ano passado foi encontrado
morto, um assassinato sem pistas que
deixou a polícia aturdida
mas a chuva
nas tardes em que chove
ainda reverbera no telhado
de zinco, a sua música
apenas abafada pelos
relâmpagos, quando isso
acontece.

 

 

***

 

 

loopingsufi

 

o ponto onde você dança é um ponto cego, na roda
do seu rodopio você lança um sorriso
para o mundo e ele devolve
um esgar, o mundo
tem a carne impressa com grafismos
ardentes que incineram
todos os planos quando os tocam, no ponto
onde você dança sua coreografia é a mesma
acupunturamasô em que você
dissimula imóvel as espirais
de seus pés cada vez
mais fundo na lama-glitter
do mundo.

 

 

***

 

 

prosa completa

 

se, como quem não quer
nada, sobre os lençóis (neste momento
os dedos se perderiam na maranha
reluzente e tão negra como o artifício
de um céu noturno um átimo
depois da explosão
dos fogos) fossem mencionadas ruínas
sob o azul, tão brancas
em sua opacidade
aflitiva sem dar
conta do sol
que as ilumina, e explodir (quando os mesmos
dedos se perceberem
úmidos e quentes) a lembrança
do púrpura e do carmim
que as revestia, o que está no centro é a vertigem
do corpo, e isso quer dizer
labirinto, ou a cara do anjo que agora
fecha os olhos, e se uma palavra
comoamorvier à tona
foi por apuro ou mera
distração – não se fala mais
nisso, e agora isto quer dizer clímax,
anticlímax, refluxo das horas,
espera, segredo,
surdina.

 

 

***

 

 

aquelas flores que sangram, se abrindo por dentro da sua carne

 

para helena n.

 

foi numa primavera hostil que deixei de entender você
e semeando ausências nos seus calendários
não vi as flores mortas nos jardins
onde depositei os simulacros de outros dramas
em que anjos distraídos se dissimulavam em pedra
ou no cedro dourado pelos crepúsculos dos adros
em naves escuras e vazias

já não me importa mais que as células sãs enlouqueçam
ou teçam abismos pelo corpo
sangrando névoa e nuvem
e descompassem a música das esferas
nem que o silêncio venha carregado
das palavras
esquecidas num tempo tão antigo
que ainda amanhecia:
foi no mesmo lugar que deixei o mapa
que ia nos levar de volta a um presente que não mais termina

agora
com todas as pontes arruinadas
vi pelo espelho dos metais que forjei um rosto
que representa a ilha
num mar transbordando cinza bruma e gelo

nesta outra primavera
nos acalenta o fio
que abre feridas sem resposta
aquelas em que (lançando imprecisões
nas cartas do destino)
definitivamente não
sei mais

 

Nuno Rau é poeta, letrista, carioca e leitor. Também é professor da Escola de Belas Artes da UFRJ.

 

 

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96ª Leva - 10/2014 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Luciana Marinho

 

Foto: Tomás Casares

 

à margem do caminho

 

vieram de onde o tempo é aragem funda nos olhos.
trouxeram o despenhadeiro ao fim dos pés.
a luz os percorreu e pôs, em suas bocas,
rios afundados em vozes, amuletos.

a terra sangrou os confins de seus corpos,
suas mãos peregrinas dos sargaços de um vento.

 

 

***

 

 

linha do tiro

 

ela caminha na linha do tiro.
sete anos de pesadelos escoados pelo corpo.
ata o ar, com arame, aos fossos de seu vestido.

martelo de pele e cartilagem,
o tempo a trai quando não a envelhece.

ao largo do sorvedouro,
ela resta antiga.

 

 

***

 

 

matéria bruta

 

no fundo das mãos há o ponto cego
em que ninguém pode tocar.
por onde passa a corda usada pelos presos
para a fuga.

posso começar pelo fosso.
pela sombra em que éramos a vertigem do pai.
a luz golpeada nos pés ao nascer.
ao nascer
e não estar na vida.

a água toma o fôlego restante dos dias.

 

 

***

 

 

uma só terra

 

desce-me como uma sede
a réstia do que sou, amortecida, fundida em pedra.
dálias ladeiam os vergões do corpo,
as frestas da casa na abertura dos olhos.
há uma voz que não pronuncia o dia seguinte.
água de minhas mãos
despenhadeiro rodeando
meu pescoço.

 

 

***

 

 

houvera

 

o tempo não se lembra de nós
nem os girassóis nos conhecem mais.
a nossa mão é uma lenda para o fogo
a água
o ar
a terra que não mais nos habita.

desde que as asas morreram no pulmão dos homens,
a esperança migrou para a placenta dos rios
onde seres se curvam às suas fontes
de calcário, erva, peixe, nuvem.

 

Luciana Marinho nasceu em Recife, onde atua como professora universitária e psicóloga clínica. Participou da antologia “Desvio para o vermelho: treze poetas brasileiros contemporâneos” (2012), organizada por Marceli Andresa Becker, em uma produção do Centro Cultural São Paulo.

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95ª Leva - 09/2014 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Jorge Augusto da Maya

 

Ilustração Rebeca Prado

 

 

Postal

 

O
sol eletriza
o corpo
da negra-cidade

recarregando
baterias solares

que a gente daqui
porta:
orgânica e uterina

(africarnada
na alma da cidade)

qual
pilhas de energia
intestina

assim: se
a engrenagem do
dia arde
sua fisionomia

o sol
acende o
cio da cidade

– Em simetria: solamaresia

 

 

***

 

 

Em casa

 

cada dia se dizia menos
o silêncio foi comendo toda palavra
até que não sobrou mais nada
mesa vazia, afeto desfeito
sem tato, sob o mesmo teto
alegria desbotando no porta retratos
estante escorada na parede
tv dizendo o que ninguém mais escutava
aquela ferida aberta no meio da casa
como um buraco negro
uma vala q aberta no meio da sala
cabia qualquer palavra
– boa noite pai.
não havia mais nada

 

 

***

 

 

Open

 

Exit. Êxito. Exílio.
quanto mais digo
me afasto
do que persigo.

palavra por palavra
armo
poemas que hesito

por todas as portas
de entrada saiu
do lugar q não existo.

melhor calar agora,
que ficar
falando em círculos.

o que busco é algo
algum alguém
pra além deste q digo
depois do exit

 

 

***

 

 

Os verões do corpo

 

A madrugada côa,
em seus escuros, ecos de luzes
restos do dia.
…………….. dejetos do dia.

no breu minguante da madrugada,
vagalumiava clarões no pensamento:

A imagem dela se acendendo

Faz a febre,
de um sol aceso dentro do corpo,
com seus todos fogos

a noite escoando seu escuro
surrealiza tuas  pernas abertas na
neblina do sono

a noite, toda consumida
em seus infernos,

me enterra nas cinzas do sono.

 

Jorge Augusto da Maya publicou poemas no livro “Antilogia” e na antologia “Poesia quebrada de quebradas”. Tem poemas e textos publicados em jornais e revistas, entre eles, Germina Literatura, Revista Cronópios, Revista Diversos Afins, Jornal Bahia Notícias. Atualmente, é docente na Universidade Estadual da Bahia e editor na Organismo editora.

 

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95ª Leva - 09/2014 Janelas Poéticas

Janela Poética V

Cleberton Santos

 

Ilustração: Rebeca Prado

 

Insolubilidade

para Mário Quintana

Da insolubilidade das coisas
nasce uma canção petrificada.

Enquanto a violeta da tarde
agoniza sob meus olhos
fincados no horizonte chumbo.

 

 

***

 

 

Escombros

 

Em cada passo destas horas
a imbecilidade do amor
aguda dor sobre meus ombros.

Em cada escombro desta noite
a terneza do esquecimento
silêncio marítimo que me devora.

 

 

***

 

 

Minotauro

 

Na casa de Asterion
mitos e belas donzelas tramam
contra o Amor.

Esfaqueado, Teseu perambula entre
as muralhas,
inutilmente lúcido.

 

 

***

 

 

Poema Sexagenário

a Antonio Brasileiro, com chapéu

Um poeta caminha sob teu chapéu. É ríspido.
Em passos largos de ternura e demência
caminha sem mapas sem deuses.

Em teu peito ardem solidões esquecidas.
Um poeta é mais que horizontes. É poesia.

Teu canto fere a surdez dos loucos
e embriaga a lucidez dos pássaros.

A poesia renasce na aba do teu chapéu.

 

 

***

 

 

Concerto para ninar calangos

 

Silêncio tecido de dor e violinos
crava em meu peito
concerto estapafúrdio
para ninar calangos opalinos.

 

Cleberton Santos é poeta, crítico literário e professor do IFBA campus Santo Amaro. Foi vencedor do Prêmio Escritor Universitário Alceu Amoroso Lima, da Academia Brasileira de Letras, Rio de Janeiro, em 2002. São de sua autoria os livros de poesia Ópera Urbana (2000), Lucidez Silenciosa (2005), Cantares de Roda (2011) e Aromas de Fêmea (2013). Em 2007, recebeu o Prêmio WALY SALOMÃO da Academia de Letras de Jequié/BA. Tem poemas e artigos publicados em antologias, jornais e revistas literárias. Publicou ainda o livro Estante Viva: crítica literária (2013).

 

 

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95ª Leva - 09/2014 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Willian Delarte

 ADORE AS ALMAS

 

tape os olhos e verá
que o mundo é um mar
de pontos de vistas

torne-se surdo e ouvirá
o que tanto
e tanto
as plantas falam

tente tocar
sem usar os dedos

ouse falar
com mais silêncios

e sentirá o fino sabor
de um deus redescoberto
na fôrma ou na forma
de ingredientes

(secretos)

 

 

***

 

 

SEU NOME

 

os amigos passaram, passou o amor,
a hora de morrer passou. a cadeira de balanço.
a palavra que não veio. a chuva lá fora.
o vento e seu nome.

passou a hora do lamento, a hora da chegada,
o momento de partir.

os olhos se voltam contra si.
há sombras por trás da retina.
há fantasmas corroendo os escombros.
há eco nos escombros. espectros desidratados.
a cadeira de balanço assovia seu nome.
a palavra que não veio.

no piscar dos olhos
passou o tempo de chorar. o sorriso que passou.
seu cadáver maquiado no meio da praça.
a palavra que não veio.

os pombos e a dança dos mortos.
seu nome na boca dos pombos.

 

 

***

 

 

INCENSÁRIO

    “à Fabiana Cozza”

sobe das frestas
das tumbas funestas
dos faraós

mira o ocidente
ó mirra, oriente
as cinzas, o pó

arruda
na porta, espada:
cada muda uma rajada
na lâmina da fé

de queimar, romper, rasgar
a redoma densa do ar –
fumaça imensa da guiné

se debilitado me sinto,
o escudo do absinto
no amor tece uma âncora

tal raio ou faísca
que no amuleto de almíscar
abrasa acácia, anis e cânfora

rosa branca, rosa amarela
erva doce, cedro e canela
defumam quarto e terreiro

irrompem portas do mundo inteiro

queima a dor
– incensa, defuma, queima
cheira a flor
– incensa, defuma, queima

o universo que arde o fim
dilata o cosmos dentro de mim
expande sândalo, cravo e jasmim

(sob as frestas de tumbas funestas
o amor é filho do pó de alecrim,
alfazema, benjoim –

e cheira a flor de laranjeira)

 

 

***

 

 

PAKU-PAKU

 

o santo come
o que é do homem
o homem come
o que foi deus

o céu come
canja
de verme

anjos na terra
quem come é ateu

a morte come
todos os planos

a morte come os anos

come os meus
come os seus

come< come< come< come<

 

Willian Delarte é autor dos livros “Sentimento do Fim do Mundo” (poesia, 2011) e “Cravos da Noite” (contos, 2014), ambos pela Editora Patuá (SP). Premiado no II e III Festival de Literatura da Faculdade de Letras (FFLCH) e finalista da 15ª edição do “Projeto Nascente”, todos da USP. Tem publicações em diversas revistas e antologias. Foi co-editor da revista Rebosteio Digital.

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94ª Leva - 08/2014 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Marina Tadeu

 

Foto Marina Tadeu em Honor Oak Park, Londres
Foto: Marina Tadeu / Honor Oak Park, Londres

 

Todos os poemas escritos na cama
como todos os poemas escritos na cama
até este depois de turno nocturno
de limpeza sem credibilidade teatralizada
pela encenação de um underground
de bom gosto declamatório e lençol revolto familiar
de sangue, não afectam a raposa
correndo ao lado da rata em Camden Town
ou a ave sobrevoando fífias ao piano
ou o basalto de Sir Richard trauteando
“I Am A Rock”, nem extravasam para a carne
todos os poemas de bruços na cama
sem vossos braços dormentes ao longo
de costas vergadas por tantos poemas de lado
como devem ser todos postos instáveis
à superfície, respirando biologicamente ausentes
pelo vento
todos os poemas escritos na cama
aguardam correcção
até se ficarem dispensando
ornamento referencial, diálogo com os que lemos
nossos mortos e vivos sem despedida,
denúncia, homenagem
à dor exclusiva que não nos pertence
a pedir correcção, sim todos os poemas, talvez muitos
meses, anos, o resto da vida a pedir correcção
na máquina que nivela
todos os poemas de beleza e crueldade
incomparáveis como…

 

 

***

 

 

… Peixes vislumbram cores
incapazes de processamento
nas cabeças quadradas
que virão. Milhares
de cores sem nome por debaixo
a que nos cegamos
mais altivos que um polegar à boleia
em isco apanhado pela mão de Noé.

Se ao menos tivéssemos chegado atrasados como o unicórnio, o
ciclope, o centauro, pegasus, hidra, esfinge e tantos outros. Se ao
menos a barca se tivesse afundado e nós mais impressionantes.

Já por cima a luz difere
dobrando tempo em quartos
com idades de massas,
ordeiras evoluções
hierarquias
preponderâncias sobre outras
de modo a que o tempo tenha até o seu tempo
metido no lugar.

A responsabilidade de habitar
a caixa de buracos é a ventilação
mas sempre que pedimos ar
explicam-nos tudo com a
convicção de uma auréola
de iluminura atmosférica.

Mas o brilho também vem dos nossos olhos
molhados como peixes sem leme
num aquário com espaço
delimitado, fácil de governar
como quem está mais à vista
que o lugar que habita
e onde mesmo impressões
de vossos dedos nos vidros
circulam, digitalizadas
embaciando visões.

Por ora, é científico.
Estamos mais dependentes
de regras e sentidos
do que o orfanato da espécie.

 

 

***

 

 

Querem ganhar ignorando
os sublevados os rebaixados as moscas
e provam nas normativas bocas
os mesmos gostos mastigados
em círculos omnívoros
a rebentar por todos os lados
e para disfarçar sempre rezam
a mesma cantiga de escrúpulos
no terreno empapado
fedendo a músculos
azedados ajoelhados
querem ganhar querem sumo
sem retorno à fruta descartada
para a frente se acotovelam
à porta de Maggot’s
clube subterrâneo
para agradar encantar
com evidência selectiva
uma raça bichosa aparte
querem ganhar defendendo os úteis
que os desdizem e os mordem
como pulgas em vertebrados
amestrados na clausura da arena
querem ganhar com o ganho
com os restos com os trocos
a sair-lhes pelos poros
perdoando e derramando
de olhos baixos lágrimas
que não lhes salguem as feridas
e sobre palavras em chama
metem a mão que afoga
enquanto brilham
e já nem respondem
os querem tanto ganhar a vida
como quem não ama
uma causa perdida

E são de uma certeza espantosa

 

 

***

 

 

Fado consolado

 

Muito tempo a tempo perdido
mas ainda o mesmo ar respiramos
esse milagre digamos amigo
já não é mau.
Nesta moleza de tudo o frio é limpo
nos dedos voltados para dentro
amigo
o toque com que afinamos o tempo
já não é mão.
Em breve sabes visitarei nossa cama
em terra violada a querer mais violão
acordando esta lágrima que em chama
já não é mar.
Só me sobra perdição
pois sabes
meu tempo é mau
não tenho mão
não sei nadar.

 

 

***

 

 

Imóvel

 

estupor como te quero escorrendo
miudinho pelos telhados à luz
para a cabeça debaixo da pedra
arrefecida mas voando
inabalável pelos pássaros
que nela estanque pousam
fugindo à bola passada por
pés pequenos entre ruínas

pelo ar fora imobilizada
cabeça rompe a pedra
sem um grito

e passada a atmosfera
não dói
no cristal gelada

a mão aberta
ao aranhiço

a estrela

 

Muito prazer, sou Marina Tadeu dizendo coisas como você.

 

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94ª Leva - 08/2014 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra II

É PRECISO…

Antologia Cosmopolita de Oleg Almeida: uma leitura crítica

Por Marcelo Moraes Caetano

 

Antologia Cosmopolita

1

“O público justifica, em si, o trabalho do escritor” − alerta-nos, no pré-texto, ainda não apócrifo sob o talante mascarado do sujeito poético, Oleg, em primeira pessoa não lírica.

“O público justifica, em si, o trabalho do escritor.”

Mas o que é este “trabalho” do escritor? E, ainda mais sibilino, o que é o “público”?

O que é o trabalho do escritor é uma pergunta cuja resposta, se existe, até hoje não logrou ser satisfatoriamente empanzinada, como gostaria de ser. Sísifo (perpétuo), metonímia de todos os trabalhos das tripas (de que é cognato o substantivo assustador) que se expressaram após a expulsão do Éden, se me perdoam o hibridismo de mitologias aqui perpetrado com insídia. Tântalo famélico e sequioso, o escritor oferece aquilo que, muita vez, não possui. Rabelais sem banquete, Petrônio desprovido de Trimalquião, sussurrando loquaz a pergunta: “… quid putas inter Ciceronem et Publilium interesse? Ego alterum puto disertiorem fuisse, alterum honestiorem. Quid enim his melius dici potest?”ii

 O que faz um escritor, do nadir ao zênite das suas façanhas, talvez possa ser bosquejado em desterradas linhas: ele transita. Desenraizando-se a cada palavra que expele, o escritor não procura verdades: procura aventuras. Mundos, vastidões, confortos passageiros, mares e marés (trocadilho duplamente acentuado), navegar é preciso, viver não é preciso.

O escritor é o Odisseu que foi à guerra de Troia. O escritor aposenta-se ao tornar-se o Ulisses que retorna do repto e do libelo em busca do regaço do lar de Penélope e Telêmaco. Ílion é o palco do escritor; Ítaca, sua insopitável sepultura. Lembraram-me aqui as últimas palavras evoladas do grande Edvard Grieg, em seu berço de morte: “Bem, já que deve ser assim…” Trata-se praticamente do suspiro de um Mozart estepário de Hesse com quem Oleg, aliás, dialoga conflitantemente sob a polifonia de seu antípoda prototípico, Salieri.

Desenraizado que é, o escritor só pode vir a ser um eterno viajante cosmopolita. E cosmopolita dos mais graves: habita não apenas os ecúmenos, mas também os inóspitos. Não apenas as pólis e as urbes do orbe, mas também as quimeras e as fendas do cosmo. O escritor é antológico necessariamente, porque vive “Antes” (e “Diante”) do “Logos”. Habita enquanto houver diálogo, dialética, duelo, dualidade, desestabilidade concertante. Ao se instaurar a paz, irmã da pasmaceira, o escritor arruma novamente sua mala parcimoniosa e retira-se com pouco pão e muita mão para outros campos nunca idílicos, mas (com o outro inevitável trocadilho) campos ilidíacos. Ilíada é a terra do escritor, esteja ela onde estiver. O escritor vive em busca de Ílion. A Ilíada, e não a Odisseia, configura o tipo de Odisseu-Ulisses que o escritor consegue (nem sempre sem sofrimento) ser. James Joyce talvez nem desconfie da superficialidade intrínseca ao labor poético de escrever que fulgura em sua sado-masoquista novela gigante.

O escritor é um dos livros perdidos da Poética, de Aristóteles. Ponto de lacuna entre o Fedro e seu desprezo platônico-socrático pela escrita e a Gramatologia desconstrutiva de seu epígono, Jacques Derrida, amante da luxúria da letra grafada.

O trânsito que se instaura sob os pés e as talarias do escritor poderia dardejar-se do esquecimento à memória; e da memória ao esquecimento. Como um pêndulo de Foucault que Umberto Eco prognostica, muitas vezes mais cartesiano do que assume ser, o escritor viceja as antíteses resguardadas sob a campânula do ser humano. O símbolo inevitável que a palavra (sobretudo a palavra escrita) alberga em seu imo existe tão somente como síntese entre a tese da memória e sua fatídica e feérica antítese, o esquecimento. Croce e Cassirer diziam, de modos diferentes, que somos, afinal, “animais simbólicos”, sintagma que, francamente, me soa como o atestado derradeiro de que somos, em resumo, seres como centauros, sereias, reais e fantásticos.

 Fato e fada se casando qual Oberon e Titânia, rei e rainha dos seres mágicos, todos eles, de Shakespeare. Lembrar e esquecer, morrer e viver, Eros e Tânatos, Mnemósine e Letes. De tudo bebe um pouco o escritor, Orfeu em busca de sua Eurídice.

Mas muitas vezes é preciso frisar que se fala, aqui, do escritor, não do homem. O homem pode ser um perfeito Odisseu beijando a fiel Penélope com um púcaro de vinho adriático avermelhando rechonchudas azeitonas jônicas. Certamente Homero previa a dualidade (a dicotomia?) escritor/homem nas duas obras que deixou como legados maiores à humanidade. Feita a ressalva, sem mais haver o que se fale acerca dela, sigamos.

O escritor estabelece-se entre a desconfortável posição alçada pelo cientista e a mais desconfortável ainda composição alçada pelo artista. Já disse eu e aqui repito, para cravar uma vez mais o que é este lugar de buscas: o cientista observa para ampliar fronteiras, e o artista amplia fronteiras para observar. E vice-versa.

O responsável por este pêndulo incessante é precisamente o escritor. Não o filósofo, o trovador, o menestrel, o aedo, o bardo, o rapsodo, o orador, o sofista, o retórico, o músico, mas o escritor. Aquele que empunha a pena e grafa, como o bico de um corvo de Edgar Allan Poe, as negras letras plúmbeas e emplumadas sobre a palidez impávida e imaculada de Palas Atena. Há mesmo uma gota de sangue em cada letra, parafraseando a Bandeira manuelina.

O escritor é um eterno retorno. Por isso antológico inelutável. É o infatigável forjador de trocadilhos entre a ciência e a arte. O trocadilho é a arte da vida. Já dizia o Millôr, tão Fernandesmente quanto o Pessoa, que até Jesus se curvou ao trocadilho e mais de uma vez foi jocoso, como na epigramática sentença que estabeleceu: “Tu és Pedro e sobre esta Pedra edificarás minha comunidade”. Com efeito, diga-se em tempo, assim como nem Sócrates nem Buda, Jesus tampouco escreveu uma linha, porque todos esses queriam que coubesse ao escritor, posteriormente, a arte de criar ciências, com seus símbolos eivados de memória e esquecimento, daquilo que seus mestres falaram, apenas falaram, o fôlego da posteridade. Antologia cosmopolita acerca-se desse fôlego a que somente se acorre quando há o intercurso entre o escritor e seu leitor, cheios de cumplicidade. (Ah, sim, há outra ressalva: consta que Jesus uma única vez escreveu, mas inexatamente na areia, para que sua escrita gratuita fosse apagada pelas dionisíacas ondas do mar de Tiberíades ou da Galileia. A maré esqueceu aquela escrita).

Bernardo de Chartres, arquiteto da proverbial igreja (talvez basílica) com cujo topônimo compartilha o sobrenome, dizia: “Somos anões empoleirados nos ombros de gigantes. Assim, vemos melhor e mais longe do que eles, não porque nossa vista seja mais aguda ou nossa estatura mais alta, mas porque eles nos elevam até o nível de toda a sua gigantesca altura…”

O escritor, posto que é chama, é um alquimista: eterno enquanto dura.

Aqui talvez tenha eu respondido, de modo momesco e muito despretensioso, a segunda questão aberta há momentos, não sei se com tal intenção, por Oleg: o que é o “público” vertido por nosso autor ora esquadrinhado?

O público é tão pouco, tampouco, dizível quanto o é o trabalho do escritor. “Trabalho” e “público” permanecem, para deleite da imortalidade, irrespondíveis. Se a entropia do homem é muito menor do que a entropia da humanidade, dir-se-á sem exagero que a obra escrita é o fuste que toca a trave entre a eternidade e o tempo. Sabe-se, desde Jorge Luís Borges e antes, muitos séculos, dele, antes mesmo de Hermann Hesse ou de Nikos Kazantzakis, que o público sabe da eternidade do escritor, porque o público sabe ler.

E ler − alerta-nos Oleg ainda sem o cinzel que nos emprestará − “ler é regar as sementes da imortalidade”.
Dito isso, prossigamos à Antologia cosmopolita que temos em mão, em que as diversas línguas com que foi escrita acusam não o homem de gabinete, senão sim o boêmio passarinho que voa de Victor Hugo à América num estado eterno de alquimia, transe, libertinagem e ebriedade, loquaz e tímido como um Deus, intocável e gentil como um Sátiro.

2

Como anunciado no meu prólogo sobre esta Antologia cosmopolita, Oleg incute em seu estro dois elementos ora dicotômicos, ora dialógicos: o trabalho e o público. Incessante é o diálogo entre essas duas instâncias da criação artística; onipresente, a disputa de forças − por vezes empatada − dessas duas realidades.

 A obra transita, como aliás disséramos sobre o próprio poeta, pelos dínamos inquietos do desenraizamento, pelo “enérgon” e pelo “érgon”, ”Tätigkeit” e “Werk”, como diria Humboldt, “Processo” e “Produto” numa Estrada mestra em que a Questão crucial não se estagna nem na “infância”, nem na “paciência”, nem no inferno, nem mesmo no “clímax”, mas numa nostálgica Rapsódia outonal, em que a vernaculidade de Oleg transborda inexorável na esperança, na convicção e na ousadia de que

 

“[….]
tudo ainda está por vir,
e o futuro não fica longe demais,
e tu ainda retornarás para mim,
minha Musa indócil!” (Do poema Rapsódia outonal).

 

Há certo conflito temático, petardo do livro, que nos torna cúmplices do estranhamento tão ao sabor russo de Chklovski, em que a arte, como procedimento que é, guinda-se aos foros da mimese aristotélica em convergência com a “différAnce”de Derrida (palavra que sói ser traduzida como “diferência”, mas que eu, com anuência de duas de minhas orientadoras, Julia Kristeva e Élisabeth Roudinesco, traduzo com o blasfemo e herético vocábulo, qual o é em francês derridiano, como “diferenSa”).

 Esse conflito temático, que, por sinal, é também formal (isto é, fundo e forma encontram-se numa arena incessante, como a “serpente que morde seu rabo” do poema Estrada mestra), chama, clama e reclama à luz a necessária polifonia que Bakhtin atribuiu como elemento intrínseco não apenas ao texto literário, mas a todo e qualquer gênero discursivo cuja (tautológica) missão seja comunicar e expressar.

 Assim é que o desabrido e inocente sujeito poético pode sofrer por uma Musa indócil que ainda não retornou eternamente de vez, ou padecer a saudade de seu único amigo brasileiro, que na verdade é portenho, indefeso e frágil. Mas também não é paradoxal que desse mesmo sujeito poético evolem críticas acerbas e cínicas sobre o mistério da gênese bíblica entre o macho Adão e a fêmea Eva.

 Nem são gladiadores inférteis aqueles que voejam sobre os Alexandrinos (aliás, os primeiros gramáticos a coligar as engrenagens de funcionamento de um idioma à estética da criação literária, pois antes deles a gramática não passava de “speculum” ou “modus” do pensamento humano) e The american night, pragmática como uma “latrina” e uma latinha de “coca zero”, porque, afinal,

“[….]
tudo ainda está por vir,
e o futuro não fica longe demais,
e tu ainda retornarás para mim,
minha Musa indócil!” (Do poema Rapsódia outonal).

 

Por outro lado, somos cooptados a estranhar semioticamente o rigor parnasiano, quase beatífico (com a precisão de uma “beata Suíça” prenunciada em poema anterior), de uma Profissão de fé, poema em que há rimas, muitas vezes esquemas rímicos (o AABB) e estrofes isométricas de quatro versos cada uma, numa metalinguagem digna de Bilac, Alberto de Oliveira, Raimundo Correia, Vicente de Carvalho, Teófilo Dias, Francisca Júlia, Lisle, Banville, Gautier, Cesário Verde… Aqui, a metalinguagem, como ocorre com a franquia das “profissões de fé” parnasianas, tergiversa sobre o ofício de escrever, lugar provisório de que se falou tanto no prólogo a esta pequena leitura crítica, lugar entre o esquecimento e a memória, de onde emerge o símbolo que nos molda como seres quiméricos, animas divinos, céticos e místicos que somos.

 Sobre o estrato tecnológico do uso da palavra, pode-se observar uma tríade presente na obra. Trata-se de um sistema poético em face dos postulados de três epistemes linguísticas distintas e complementares que perpassam a história da linguagem e da literatura: a estrutura da “língua comum” ou logocêntrica; o avanço proporcionado à concepção de língua e linguagem que o advento e desenvolvimento dos estudos em Estilística fomentaram com seu novo foco; a revolução da visão de língua e linguagem como “forma de vida” e de semanálise da própria natureza humana.

 As epistemes acima mencionadas podem ser resumidas respectivamente como 1) teoria representacionista ou logocêntrica (em que a língua é vista como objeto dissociado do sujeito, precipuamente, instrumento unívoco de comunicação deste último); 2) língua com intencionalidade estética ou estilística (em que objeto e sujeito, no ato linguístico, já não se distinguem com tanta contundência) e 3) língua como “forma de vida” (em que sujeito, discurso e objeto já não se dissociam).

 Salientamos como exemplos da episteme 1) poemas como Grande elegia portenha, Palestra de botequim e The american night. Ilustram a episteme 2), dentre outros, Balada da minha infância, Ladra d´almas e Balada duma casa antiga. A episteme 3) se deixa representar pelos três poemas sem título da obra, e por outros como a Rapsódia outonal, os Cyberpoèmes/Ciberpoemas, Questão crucial.

 Explicitemos um pouco cada uma dessas três epistemes, buscando deixar clara a perspectiva de leitura crítica empreendida nesta resenha, no plano da forma e do conteúdo, expressos na linguagem, cujo centro será ora perquirido.

 Em primeiro lugar, a teoria representacionista, ou perspectiva semântica clássica da língua, é aquela que a observa como instrumento nomeador, logocêntrico, unívocoii, de que são expoentes nomes como os acima citados, além de Aristóteles, Santo Agostinho, o Wittgenstein 1 (autor de Tractatus Logico-Philosophicusiii) e outros.

Em seguida, a língua analisada segundo a intencionalidade autoral de se propugnar pela estética ocorreu com a intermediação proporcionada pelos estudos em Estilística. Aqui, a língua possui objetivo literário, poético, há predomínio da parole sobre a langue (de onde provém a noção básica de “estilo”) e funções que vão além da comunicação unívoca (que é a função referencial, de uso congelado, denotativo, como ficou acima explicitado), partindo-se, também, à concepção da língua como elemento de polissemia, afetividade e expressividade (cf. Bally), estranhamento (do russo ostranenie, cf. Formalismo Russo). A língua apresenta, nesta episteme, pois, outras funções para além da meramente referencial, como funções de “manifestação psíquica”, “apelo” (cf. Bühler)iv, que foram depois renomeadas como, respectivamente, “função emotiva” e “apelativa ou conativa”, e mais as funções “poética”, “fática” e “metalinguística” (cf. Jakobson), com expoentes do Círculo de Praga, da Escola de Genebra, Martinet.

Por fim, a terceira e última episteme que parece subjazer de modo sucinto à obra é a que advém do movimento mais incisivo e revolucionário na língua, um corte teórico, metodológico e epistemológico em que se observa língua/linguagem como “forma de vida”, proveniente do Wittgenstein 2, autor das Investigações Filosóficas, ou de Benveniste, quando afirma, por exemplo, que a língua não é uma invenção humana, um instrumento, como a roda, que auxilia nas tarefas da natureza, mas é a própria natureza humanav. Ademais, essa concepção de língua em que objeto, discurso e sujeito estão intrinsecamente ligados, aponta, também, para a importância tão proeminente na fala quanto na escrita, com ênfase no fazer poético-literário, focalizando, ainda mais de perto, a emergência e preeminência de significantes que, por exemplo, Derrida lhes atribui ao valorizá-los como os elementos por onde se deve iniciar a análise da língua ou langue. Aqui, destacam-se nomes como o Wittgenstein 2, Nietzsche, Kristeva, o último Barthes, autor de Elementos de Semiologia, Benveniste, Foucault, Deleuze, Auroux, Todorov, Silviano Santiago, Sartre, além dos teóricos da psicanálise ou da psicologia analítica, como Freud, Lacan e Jung.

 Em Oleg Almeida, a longa narrativa épica com laivos poéticos, ou o longo poema narrativo com laivos épicos, como salientou Affonso Romano de Sant´Anna ao sopé da obra, de fato se mescla, em sua liberdade libertina, ao ourives meticuloso e obcecado em seu sacrossanto espartilho de aço e seda. Assim é que, mais uma vez, na Balada de uma casa antiga, vai-se-nos deparar o proverbial “vaso chinês” e o mesmo ofício parnasiano que requer e solicita “caneta, tinta e papel!”. Em seu irmão, à moda de Esaú e Jacó, a Balada de minha infância, no entanto, há um sujeito poético municiado de crítica e agudeza, em cuja alma não reside o batel de ingênuos artífices da palavra e do remate d´ouro, mas sim a centúria dos cínicos à maneira de Maquiavel e Diógenes, ressentindo não a perda do sonhador e ledo Púchkin, mas a perda da leviandade capaz de digerir o escárnio alheio, talvez…

Enfim, os vinte e um poemas (desdobrados em outros tantos) que constituem a obra não se atrelam ao compromisso com um lugar fixo, nem no que tange ao tema, nem no que tange à técnica, nem no que tange ao papel epistêmico da linguagem. Há em comum entre eles apenas a paternidade de Oleg e a maternidade da palavra escrita.

 

i … qual é, a teu ver, a diferença entre Cícero e Publílio? A meu ver, um deles é mais eloquente, o outro mais honesto. Pode-se dizer algo melhor que isso? (Petrônio, Satíricon, LV).

 

ii “Assim, a vontade de clareza perseguida pela comunicação humana a exigir que ‘a um signo dado não correspondesse mais que uma significação e que, inversamente, uma ideia não se traduzisse mais que com um signo’” (Charles Bally apud Costa Lima).

 

iii O fato de se fazer a menção, no corpo desta resenha, dos títulos de obras somente de alguns autores se dá pelo fato de que são autores que mudaram radicalmente as concepções filosóficas em suas obras, verdadeiros Arquitextos, como diriam Charaudeau e Maingueneau. Assim, por exemplo, é comum falar-se em Wittgenstein 1, o autor do Tractatus Logico-Philosophicus, que via a língua como Aristóteles, Frege, Santo Agostinho, i.e., logocêntrica, nomeadora. Já o Wittgenstein 2 é o autor das Investigações Filosóficas, em que a língua aparece como causa e consequência, a um só tempo, do que o autor chama de “jogos de linguagem”, numa acepção muito mais próxima da perspectiva literária, pragmática, observadora da linguagem, pois, como forma de vida, intrínseca à natureza humana e de nenhuma forma dissociada desta como no par sujeito (homem) versus objeto (língua), o que será apresentado com mais detalhes neste projeto.

 

iv O austríaco Bühler foi além da função nomeadora ou de representação ou referencial da língua (Al. Darstellung), chegando às funções de apelo (al. Appel) e manifestação psíquica (al. Kundgabe), a que foram acrescidas, pelo Círculo de Praga e os semanticistas das escolas de Estilística (a partir, por exemplo, da Escola de Genebra, fundada por Charles Bally, aluno de Saussure e um dos compiladores do Curso de Linguística Geral, e outros), as funções fática, poética e metalinguística.

 

v Segundo Benveniste, coube a Freud o mérito de unir sujeito, objeto e meio numa só fonte: o paciente. Assim, o objeto do analista é o sujeito, e a análise é feita por intermédio do discurso, que é o meio pelo qual sujeito/objeto se apresenta. Essa concomitância de sujeito, objeto e meio (discurso) é, para Benveniste, uma das provas de que a língua é a própria vida do ser humano, e que não há nada que não seja subjetivo no objeto homem-língua, e que, portanto, já não se podem distinguir três categorias distintas no ato discursivo, senão uma única, que é a própria vida.

 

Marcelo Moraes Caetano é escritor, cientista e músico profissional, premiado no Brasil e no exterior. Doutor em Língua Portuguesa, professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e da rede universitária transnacional IBMR Laureate International Universities. Autor de 21 livros publicados: A clara de ovo (2003), Romances de entressafra (2005), Gramática normativa da língua portuguesa (2007), Cemitério de centauros (2007), Gramática reflexiva da língua portuguesa (2009), Caminhos do texto: produção e interpretação textual (2010), entre outros. Titular da Comenda e Medalha de Vermeil (2011), atribuídas pela Academia das Ciências, Artes e Letras de Paris.

 

 

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93ª Leva - 07/2014 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Juliana Amato

 

Pintura: Neuza Ladeira

 

trilha sonora
Liszt
por Gyorgy Sandor
minha velha amiga, estamos em 1946

 

agradeço sem palavras sua aparição
a lembrança do meu nome
agradeço as gravatas
as admiráveis gravatas e lamento
a sua ausência

aqui tudo vai intranquilo
mas me acalma o instante
ver sua alma disposta
ao vento que passa

(sua alma
nebulosa)

é verão na borda do atlântico
faz sol e mar mas não podemos
não, não podemos agora

 

 

***

 

 

hace um año que te fuiste
tan pronto irás, una vez más

neste exato momento me vejo num quarto
fechado
frestas abertas, a janela
você ainda criança atrás da cortina
observa

você, observo seu olhar
compreende:
não existe mãe no brasil
não existe casa, essa casa, aqui

há o futuro e há tudo
há milhares de rochas
pedras pontiagudas
traiçoeiras

pensa na sua casa
sua casa tão longe, aqui,
uma pedra quente
e lisa

 

 

***

 

 

de M. para F.
inverno, 2011

 

assim recomeço depois da demora
culpa do A aberto
do caos, da casa
do novo fôlego

continuo longe as roupas estão
no devido lugar
(é possível sim dividir com
estranhos, e sonhos, oui)

no vagar, nunca fui a porto alegre
sequer ao porto
mas às montanhas
ao novo ano
ao branco puro aos amigos fui
à irremediável fronteira
da língua:

randonné significa
escalar a neve
descobri a 2 mil metros do chão
e alguma ideia na cabeça
para um papel

DEZANOTAÇÕES SOBRE A POESIA
assim recomeço, me perdi
vi Baudelaire milimétrico, construído
pela primeira vez
pois bem há os que ganham
por pontos
os de nocaute
e os momentos amargos
que já passei

projetos poéticos passam a perna
p-p-p-p
o projeto poético, um enganador
eu, um muito menor (debutante
no auge da hysteria – saltinhos)
um projétil, nenhum rimbaud
nem meio rilke
muita potência, pouca questão

as solas dos pés ardem no chão
os olhos não estão prontos
para rever

o resto desse que se vai
fica e lança um abraço
demasiado
apertado

 

 

***

 

 

DE V PARA M

 

saudade

é você
fumando pela sala
e falando espanhol
tudo errado

 

 

***

 

 

: )

 

saudades da nossa voz jovem
há meses por aí e eu aqui
é mais difícil pensar em você agora:
você, difuso, seu corpo, eu e você
não lembro
mas lembro

como era fácil
como era possível
como eram as noites
as manhãs enfim

bom saber, você ainda existe
e sabe que eu existo
à nossa maneira

é tão bom saber:
você ainda existe
que mando lembranças
e espero que goste

 

Juliana Amato é paulista. Edita, traduz, revisa e escreve. Publicou em sites, coletâneas de contos, de poemas, de traduções – reais e virtuais. Tem muitos projetos que ainda não saíram dos planos, mas entre os que já existem estão: Brevida (EDITH, 2011), diário aleatório – site/livro em parceria com Thany Sanches e JEZEBEL, ilustrado por Mariana Coan, integrando o projeto Boca Santa. Os poemas selecionados fazem parte de correspondência, seu primeiro livro de poesia, a ser lançado em agosto pelo selo Poesia Menor. Escreve há algum tempo no microclima, que está um pouco abandonado, mas pretende renascer dos escombros.

 

 

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93ª Leva - 07/2014 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Gustavo Petter

 

Pintura Neuza Ladeira

 

Disse lâmina,
mas querias
ouvir morfina.

Não lhe dei esperanças:
provavelmente vais morrer
e não sei o que há além.
A ideia de paraíso muda
de cultura para cultura.

O que esboçou-me alguma fé
foi ler Dostoiévski:
Se Deus não existe tudo é permitido.

Mostrei-lhe as unhas
roídas até a carne.
Ardem.
Impedem-me penetrar o ânus azul
do futuro.

Acaso sobrevivamos
prometo
acariciar teus cabelos
com dedos
e alma
intactos.

 

 

***

 

 

ver o cadáver
emoldurado por corolas.

o cão enterra os ossos
para roê-los outrora.

quereria em chamas
às margens do ganges
ou mumificado sob a neve,
a caminho,
cume
no ar rarefeito.

o cão desenterra os ossos
o homem relembra
na solitude
olhos fixos num lume:
navio
astro
ou
ponta de cigarro.

 

 

***

 

 

Na órbita de veludo
naufragam
locomotivas insones.

Em voz noturna
sussurra-se o nome:
cu
astro obscuro.

Leito desfeito,
rascunhos,
livros e copo vazio
no criado mudo.

Sanatório dos arcanjos,
café da manhã até as nove,
após as onze
cobra-se outra diária.

Quem decretará imóvel
o poema?
Gema lapidada?

Não há término:
ininterrupta
temporada no inferno.

 

 

***

 

 

Os olhos de outra
não capitu
contemplam
a ressaca.

Dentro do crânio
ritmo
tão convulso
quanto.

Os olhos de outra
quiçá capitu
capturam
cores e curvas
em busca
de alguma
cura.

Os olhos de outra
também capitu
decapitam o mar.
Movimento
de guilhotina.

Recapitulando:

A face
desfaz-se
em branca
espuma
(disfarce?)

 

 

***

 

 

I

Não movo um músculo
Só outra pedra na praia
Pousa-me o crepúsculo.

II

Súbito ilumino-me
São moluscos os sapatos
Calço-os e parto.

 

Sou Gustavo Petter, nasci em 1984. Moro em Araçatuba/SP. Para mim signos eróticos e obscenos, anti-religiosos, meta-poéticos e associações livres coabitam com a materialidade da palavra e uma contemplação oriental no corpo do poema. O poema não admite policiamentos morais, estéticos. A liberdade possível é a linguagem.