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93ª Leva - 07/2014 Janelas Poéticas

Janela Poética V

Ehre

 

 

bosko admira

 

O tanque de guerra
é uma grande escultura
As armas não disparam sozinhas

Emborca-se o tanque
uma flor de ferro moderna
As armas não disparam sozinhas

Um avião de guerra
pode lançar grãos e lírios
As armas não disparam sozinhas

O ventre da terra
aos corpos, agora serve de abrigo
As almas descansam

 

 

***

 

 

a la carte

 

I

Para seduzir a carne
Jesuína tomava ervas, folhas, azeites
Quando no início da tarde
todos à mesa respiravam a ponta dos dedos
ela salpicava amor pelos olhos
O tempero

II

Para se desfazer dos cortes
entre esperas e descaminhos,
Cecília jejuava relógios alimentando-se de certezas
Havia outro sabor depois da faca
A sobremesa

 

 

***

 

 

júlio

 

A esperança é uma flor desenhada na pedra
É esperança o calor que o inverno não mata

Ele repetia as palavras como um mantra
ensinando os olhos a ver o invisível
ensinando os pés a caminhar sem estrada

Ele, mesmo sem fé, rezava
Deus acreditava nele

 

 

***

 

 

(trinta e dois)

 

Se amanhã não acordasse tarde,
com cheiro de taça
e lista de resoluções,
seria outro ano e seu começo?

Se a televisão não nos contasse
.do primeiro a nascer,
da procissão dos Navegantes,
da queima em Copacabana,
..da São Silvestre rendida ao Quênia,
nem da contagem regressiva da Times Square,
.uma maçã cairia?

Se amanhã acordasse cedo,
feito um ator que esqueceu a fala,
……………………sentiríamos frio?

Uma cortina sobe e não é janeiro.
Improviso…

 

 

***

 

 

nega

 

Na varanda e salas de jantar,
os lábios não negam.

Morenas moram na baía dos santos e pescadores
e vivem banhando-se de sol e canela
ainda que estrelas
ainda que o verão não aconteça.

Negra é morena.

Negros, filhos de negros
e bisnetos de pretos são também morenos.
Pais de negras
e de negro baiano
nem preto ou mulato,
moreno.

Nos quartos e banheiro,
o espelho…

 

Ehre. Nasceu aos onze meses. Aos nove, ainda não sabia que viver era um mergulho para cima. No tempo que tardou para nascer, colecionou espantos. Muitos deles revelados nas janelas dos poemas. A cada dia aprende que escrever é um mergulho para o fundo.

 

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93ª Leva - 07/2014 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Lucas Perito

 

Pintura: Neuza Ladeira

 

Objeto

 

A par entre o pensar e o estar,
Edificado no espaço e feito pelo ser,
Esse objeto sem forma combina com aqui
O marrom da cerejeira
O vermelho e azul da renda
A luminosidade amarela.
Suas setas marcam a língua – sem a qual
Vagaria sem traços que a delimitassem.
Mesmo não mais funcionando é um bonito objeto,
Um enfeite.

 

 

***

 

 

O Inteiro

 

…..Não, eu digo não ao inteiro, eu digo não.

…..Ao captar o seu inverso, algo me escapa; Tanto no tempo das horas de sal ou das horas de mármore. Esticar-me, é apenas tatear o peso de um corpo.

…..Sim, eu digo sim a carne.

…..Entrar nada mais é do que tocar – ou sentir como o gosto de mim escapa e donde minha polpa chega sem nunca saber se doce é.

…..Não, o inteiro não é para nós. Para mim, só – à parte que me toca.

 

 

***

 

    
O Despertar

…..Num entrever de águas pesadas, o nado se torna denso, lerdo,
[perto

…..Nada é torpor, um pulmão que abre e fecha frente o vento que chega

…..Uma montanha de curvas sobre o salgueiro que freme a luz que entra nesse íntimo espaço

…..É um membro que cresce na vista que mais branca se torna

…..O algodão ao lado, o ato em cima,

…..A constatação do terrível despertar dos sentidos.

 

 

 

***

Do Escrever Sobre uma Raposa

É uma presa que marca
Em traços rubros      em meio a folhas virgens
Agudo passar          entre árvores anêmicas
Todo belo                  se encontra nesse andar
Incerto traço          que rasga a mata
Que freme          e fere
Uma marca na presa.

 

 

 

***

 

Entre todas as dores
Que me tocam
A que mais machuca
É a sua.

Sem sangue ou carne

Como uma cor
Que lateja
No compasso
De um coração
Purpúreo
E seu.

 

 

***

 

 

Quatro Formas de Eros
(Fragmentos)

 

À Diana

I
Perder a si mesmo como
Um encontro ansiado

II
Quando nua doura a negra noite
Que guardas em teu olhar

III
A comunhão nasce da morte de nossos filhos
Que tu usas como alimento.
Aos que não nascem
Tu dás repouso no meu desejo;
Engole-os como bebo seus felinos olhos.

IV
Não temos fronteiras.

 

Lucas Perito nasceu em São Paulo em 1985, é graduado em Comunicação em Multimeios pela PUC-SP. Trabalhou na Editora Empresa das Artes. Atualmente trabalha para o Estúdio Anacã, onde produz e publica textos ligados a dança. Tem alguns poemas publicados na Revista Zunái (Volume 1 – Nº3 – Março 2014).

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92ª Leva - 06/2014 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Inês Monguilhot

 

Foto: Luiz Navarro

 

Argos

 

A superfície das coisas pode refletir
de volta, concêntrico e ciclópico, o olhar.
Ou, desavisados, os olhos podem,
se não se mantiverem bem presos ao umbigo,
– sem tremular sequer um risco –
romper as superfícies como fossem água ou ar.
E, navalha ou navio,
perderem-se feito pedra
num oceano,
arrastados.

 

 

***

 

 

Antífona

(ao Señor de los temblores)

A tudo agradeço:
raízes,
espinhos,
escuridão,
a pálpebra cerrando o olho cego,
branco de caridade.

Cravos
escorrem largos das mãos;
a misericórdia serpentelínea,
de saia alvíssima.

Em mim os tambores,
terrores,
a carne fria,
uma auréola de suores.
O beijo rente a costela floresce
em descuidada ferida.

Perante a lei
.as  flores são santas e proclamam a inadiável ruína.

 

 

***

 

 

Compaixão

 

No claro de uma selva,
incerto tempo de monções,
um céu verde abre-se apaziguado
das findas luzes amarelas.
Mostra, alta, dissipados os vapores,
uma tigela branca, de arroz.

Ao pé de uma árvore
ele  terá avistado em outros tempos,
assim, solta na seda verde,
uma lua cheia, próxima, feito essa.
Num inspirar ou noutro, quem sabe,
tocou-lhe a falta
da samsara
e das dores humanas.

 

 

***

 

 

Diz a Lagarta a Alice

 

Escuta o germinar
das unhas aos céus, a lenta escalada.
Não, agitam-se as árvores
as setas verdes murmurando:
não se pode crer!
…..Corre nelas um alarido
…..contra o vento abusado,
…..contra tudo.

 …..E se pergunta a dama de copas:
 …..quanto é preciso marchar para permanecer?

Nesta hora,
se vier dar a teus pés alguma lisonja,
um trapo colorido, caco deste mundo sitiado,
deixa que sangre seu perfume, se tiver.
Não te curves, não o apanhes,
já não é.

 

 

***

 

 

…que tanto me doem rosas quanto espinhos…

 

Reis

 

Trancemos uma coroa,
das rosas que já se largam das mãos.
Trançaremos outras mais, mais adiante,
ao calor de outros verões.

Deixemo-nos  a ver-nos nas rosas,
ser carne de rosas.
Desejando, breves, os seus dias
e dar-nos por inteiro aos verões.

Coroas menos belas,
por mais que durem, todas  vão.

 

Inês Monguilhott nasceu em Recife, Pernambuco. Passou grande parte da vida na Paraíba e há mais de vinte anos reside em São Paulo. Publicou “natural” e “de mim”, ambos editados pela Ofício das Palavras.

 

 

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92ª Leva - 06/2014 Janelas Poéticas

Janela Poética V

Carlos Barbarito

 

Foto: Luiz Navarro

 

Esto, y no otra cosa, debe ser la vida…

 

A Albert Camus

 

Esto, y no otra cosa, debe ser la vida.
Un vino agrio para saciar la sed,
un escaso alevino para poblar ríos y estanques.
Nada más. Por qué, entonces,
su obstinación en hablarnos
de las nupcias del viento con el mar y los ajenjos,
del árbol pequeño y aislado
como la más tierna y frágil de las imágenes,
del desacuerdo que sin embargo ilumina,
del canto de las cigarras
a mitad de camino entre el amor y la miseria.
En qué punto, entonces,
ahora se lo pregunto, la pánica divinidad,
el sólido corazón que se abre a la música,
la noche pura que se bebe,
la pasión que se encamina hacia las lágrimas,
los olores de la tierra y la sal,
el verano adormecido, el sereno o voraz decurso
hacia el pavor, el éxtasis, la ira, las uvas.

 

 

***

 

 

A la pregunta no responden…

 

A la pregunta no responden
aquellos que debieran responder
desde el fino apetito,
la conciencia calibrada
a un palmo por encima de la tierra.
Cómo decir blanco
sin quedar desnudo ante desconocidos,
cómo decir negro
sin lastimar lo que apenas admite roce.
En qué lengua hablar.
En qué medida esa lengua
alcanzará oquedades, jorobas, ardores.
Cómo entablar diálogo,
cómo inquirir acerca de pulsaciones
y destellos, la manera
en que el mundo se dispone
para que brote una flor
y en la flor se hagan el color y el perfume.
Hay todavía más. Y más.
Tal vez no alcance para contenerlo
cuanto hay a mano, lo ancho
y profundo, lo advertido
y lo ignorado, cuanto
vibra, fluye, se tensa, sube o se precipita.
A la pregunta, el aire fijo,
la llave de paso bloqueada.
Hacia la luz una polilla,
choca una y otra vez contra la lámpara;
a cada golpe el tiempo
hunde un poco más su aguja,
avanza a través de la carne
hacia el nervio central, la médula.

 

 

***

 

 

Intraducible, incluso para un demonio…

 

A Susana Wald y Ludwig Zeller

 

Intraducible, incluso para un demonio
y más allá del lento agotamiento
de las lámparas, único, permanece.
¿A qué flujo o reflujo,
entonces, encomendarlo
y hacia qué polo sonoro
o con sordina dirigir el magnetismo?
No saber, jamás, si razona
o desvaría, si expresa
una vía de lava, un encuentro de amor,
si anda bajo soles errantes,
bajo la tierra, sonámbulo,
si alcanza la orilla,
si se configura como nube o vértebra,
si habla de yescas,
rayos, traiciones, esquinas,
amparos, intemperies, escudos.

 

 

***

 

 

Tal vez toda la luz del mundo…

 

Tal vez toda la luz del mundo
sea sólo el reflejo de un sol entre nubes
contra el cristal oscuro de un cuarto vacío;
quizás el que, en busca de agua,
cava tras la orden del rabdomante
no guarda dentro de sí
más esperanza que aquella que se quita,
pliega su vestido sobre una silla,
y espera cada día la llegada del desconocido
en una casa plantada en el desierto.
¿Y la constante mudanza
de la piel y las plantas,
la hora en que a tientas la beso y la penetro,
el tosco florero vacío
ante la colmada vastedad de la muerte,
el vuelo de la polilla de cuarto en cuarto?
Ahora que la hija del sueño se consume
y un único pájaro canta
desde el borde de una larga rama inclinada,
quema la lágrima y el río
no se convierte en mar ni lo que hablo
en idioma exacto y puro.

 

 

***

 

 

Bebe agua ajetreada, descompuesta…

 

Bebe agua ajetreada, descompuesta
y el gusto es como una sensación
de un mal futuro, extenso y enceguecido.
Escucha: un sonido sin húmero
ni sustancia. Acaece un descolorido meteoro
donde debiera haber caos de muslos,
cavidades húmedas a un paso
de la gracia y del abismo.
Sosténganme – pide. Piel
de ofidio, frío
contra el que la vigilia se disemina
en actos repetidos, sin significado;
¿y el sueño? ¿Escena
que aguarda su idioma amplio,
su desnudo? En el centro
de cuanto ocupa la mirada,
un animal huele un poco
y luego, antes de que pueda gritar,
se convierte en aire.

 

 

***

 

 

Trakl

 

Antes que yo, en cólera y sangría.
Como yo, un ojo hacia los próximos ramajes
y el otro hacia las remotas estrellas.
Antes que yo, en dolor sin anestésico,
a la luz de lámparas agónicas,
cerca de los caballos, sus cuartillas y antebrazos.
Como yo, ante el entierro del sol,
el negro vuelo de los pájaros,
la hermana en otoño, el purpúreo sueño.
Después que yo, en cuanto pulse,
respire, pernocte, se despliegue como un mapa
o se contraiga como una santa,
en la flor de artificio, en la flor verdadera,
en el abrazo de los amantes,
en los insectos sobre la carroña.

 

 

O escritor Carlos Barbarito nasceu em Pergamino, Buenos Aires, Argentina. Dentre outros livros, publicou: Poesía quebrada (Mano de Obra, Buenos Aires, 1984), Caballos y otros poemas (Hojas de Sudestada, La Plata, 1990), El peso de los días (Ediciones Electrónicas Altamira, Buenos Aires, 1995), Puntos de fuga (Colectivo ZonAlta, Toluca, 2002), Cenizas del mediodía (Praxis, México D.F., 2010) e Paracelso (Excodra Editorial, 2013).

 

 

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92ª Leva - 06/2014 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Regina Azevedo

 

Foto: Luiz Navarro

 

Mãe Terra

 

seu corpo finda em raízes
sempre.

a gente olha e procura
os pássaros, as margaridas
e tudo acaba em raiz, nó, recomeço.

não tem problema
só correria na floresta
os índios montados em seus cavalos
com suas lanças, caras pintadas
e todos os animais
correndo sempre no mesmo círculo
como se o mundo estivesse
des
c
e
n
d
o
pelo ralo.

ainda bem que nós
estamos grudados
nalguma coisa
e morremos, morremos
lenta e infinitamente
juntos.

 

 

***

 

 

o rio tigre
castiga feroz a minha cintura
numa tarde corajosa
de respiração firme e
precisa
mergulho
sem visão do mundo
apenas imagino os peixes e
plantas na água que
é quente e ao mesmo
tempo fria
água morna que às vezes congela
a espinha dos homens
e dos peixes
me afogo
porque mais pro fundo
o oceano é ainda mais bonito
e azul

 

 

***

 

 

você quebra o aquário
de peixes pretos que me atormentam
em pesadelos eu te
agradeço e você me diz que
o amor é um experimento químico
eu me viro rio e digo
baby eu curto toda essa explosão
outro riso quebra os outros
aquários e eu salvo a vida
dos peixes salvo
a vida das baleias que encalham
na areia da beira do
forte e a gente chora, se
molha, mergulha gostoso

o amor também é aquático
de carne e osso

 

 

***

 

 

nove entre os dez
batimentos cardíacos
são vestígios
do seu corpo inteiro

 

 

***

 

 

de que tens medo?

o tempo corre e a gente perde
uma parte de si que fica
refugiada num canto
INALCANÇÁVEL
chega o dia
e nem a chuva fina açoitando
o corpo
causa qualquer
sensação.
você se sente
humano
cem por cento cada poro
do teu corpo precisa
de outro
vê vivo
e pulsante
sabe
que é animal & monstro
ao mesmo tempo
chega o dia
em que escrever poesia é
sangria na esperança
de continuar mesmo que a vida
tatue uma ferida na alma
do seu
corpo
a mesma alma
que se perde e fica num canto
inalcançável

 

 

***

 

 

muita gente não sabe.
mas o amor é simples,
victor.
o amor é só um limite
rompido no ventre.
o amor é aquilo que você
não me diz
nunca.
o amor é tudo que ainda não
descobrimos.
o amor é o calor que escapa
do corpo e explode
a terra
o amor é o coração
que fica na boca
o amor é o coração
que foca na cama
o amor não é só coração
amor é
a porta aberta
que você chega
e a fechada
que nós chegamos.

 

 

Regina Azevedo nasceu em Natal. Publicou Candura (conto, online), Das vezes que morri em você (poesias, ed. jovens escribas) e Carne viva o amor estanca (poesias, ed. tribo). Além do blog, escreve prosa jornalística para O Chaplin. Mora em Natal, ainda não está no ensino médio e já quer o mundo.

 

 

 

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92ª Leva - 06/2014 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Paulo Sérgio Lima

 

Foto: Luiz Navarro

O costureiro e a toalha de retalhos

 

São profundos
os cortes nas noites,
e não se diferem
dos cortes nas tardes
nem cortes nas longas
madrugadas.

Volta e meia
surgem novos cortes
mínimos; disfarces
envolvidos, sedas,
afins. Pormenores,
mas profundos.

 

 

***

 

 

Mapa em alto-relevo

 

Eu não sei, das mãos,
qual leva, enraizada,
pena ou espada.

Soubesse: tatuaria o então.

 

 

***

 

 

De cifras e ações

 

A José Inácio Vieira de Melo

Guardas nos instantes
de harpa e dicionário,
castelos e pedras,
cactos e cavalos.

Escombros de árvores
revelam as mãos
que bate e que escreve
cinzas do ser tão.

Pássaros da mente,
pardo missionário,
são as soluções
do teu boticário.

Pianos e aboios
ao verso, sons dão,
e inscrevem no vento
a continuação.

Duradouro arder
de ausente ocaso,
são tuas solidões
as que, em mim, disfarço?

 

 

***

 

 

Para depois de dezembro

 

Um bilhete pontiagudo –
agulha no corte da carne,
explodira o desejo proibido
de pérola do seio da primavera.

Amor – olho que tudo desenxerga,
reivindicara, à lucidez do papel,
uma fresta, uma linha, mais nada.
As palavras atravessadas
calaram-se atravessadas.

Um caminho de boninas,
canas, rosas – deusas raras;
as duas cabeças de girassóis
encantando a praça;
os peixes cantando borbulhas,
mesmo na fumaça do balé;
ou, então, o aconchego
das folhas verdes sobre a terra úmida:
o verde que tingira de um belo
o cinza,
como papagaios e periquitos
em dias de criança.

O bilhete – porta para o que há de ser,
em sua frase única, fora claro:
pela palavra,
tudo há de nascer.

 

 

***

 

 

Pontas

 

E fez-se um labirinto
cheio de assombro e luz.

Do nada, nada pôde ser gerado:
até a sombra nascia de um estalo.

Em busca da ponta da ponta,
empenharam caminhadas,
declamaram evangelhos
que, no fim, inventavam caminhadas.

Do outro lado do labirinto,
alimentados de milho e feijão
– alunos do colégio solar –
dedilhavam no instrumento do chão
as escrituras mais que encantadas.

De cá ou de lá,
ninguém notara um certo velho.
Não… Ninguém notara…
Porque se entendessem o rubi
sem fim ou começo que era o amor
nos olhos daquele cego,

abririam pico no mundo;
acertariam os provérbios.
Finda caminhada.

 

Paulo Sérgio Lima, antes de ser baiano, é jequieense e brasileiro – a Bahia está no meio. Nasceu em 1989. Só em 1998 conheceu uma sala de aula e seu universo de letras. A universidade chegou em 2010 – Licenciatura em Letras Vernáculas pela Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia – UESB/JQ. Acredita que a paixão pela leitura, pela poesia, tenha surgido do ato de folhear livros didáticos de Língua Portuguesa na adolescência. Tem poemas publicados na revista virtual Verbo21 e no blog Clandestinos.

 

 

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91ª Leva - 05/2014 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra

Memória e rasura: a “Pedagogia do Suprimido” de Zeh Gustavo

Por Leonardo D’Avila

 

Um poeta não se forma sozinho. Ao mesmo tempo, não há pedagogia ou maneira de ensino que dê conta dessa tarefa. Não apenas por uma questão de intersubjetividade, mas principalmente porque, paradoxalmente, a poesia não surge das conclusões, porém das passagens, das metamorfoses. Assim, a artimanha poética precisa de algum tipo de fetiche para que alguém se coloque nas fronteiras do funcionamento da linguagem. Quando o poeta não conta mais com alguma aura de heroísmo ou prestígio social, atividades muito mais corriqueiras podem ser o impulso inicial da escrita para o vates contemporâneo. A cena do escritor perante a máquina de escrever para ver o que simplesmente “sai de dentro dela” é clássica, mesmo ao se saber que a máquina em si seja vazia de conteúdo. Suponhamos, pois, que o poeta tenha perdido seu objeto-oráculo, esteja ele no teclado do computador, no papel A4 ou na caneta “bic”. Sim, a poesia é queda, mas que se tente imaginar por um momento o que acontece quando o poeta já não está tão afinado com seu instrumento de trabalho, isto é, toda a sua parafernália, que já era frágil. A “Pedagogia do Suprimido”, livro mais recente de Zeh Gustavo, põe o leitor diante dessa tentativa. Enquanto em seu trabalho anterior, intitulado “A Perspectiva do Quase”, havia uma boa dose de recursos que demonstravam erudição, metaliguagem e experimentalismo, em uma tentativa de evidenciar a potência vazia que tece o fazer poético, em “A pedagogia do Suprimido”, editado pela Verve no final de 2013, o foco não é mais esse. Pelo contrário, nota-se um menor comprometimento formal acompanhado de coloquialismos e pensamentos que fluem de maneira direta até serem violentados com as palavras, a exemplo da proliferação viral de neologismos, e da impressão forçada de sons rompendo com o sentido que seria esperado, como já se anuncia no título.

A supressão que nomeia o livro não cabe na dialética entre oprimido-opressor (com uma alusão clara a Paulo Freire), pois não persiste a esperança de sujeito emancipado, formado, lúcido ou qualquer coisa do gênero para sustentar utopias como a emancipação ou a desalienação. Os prefixos são extremamente significativos para entender essa mudança de sujeito oprimido para suprimido. Na (ob)pressão ainda existe olho no olho, combate frontal no qual um leva a pior. Na (sub)pressão, não existem dois sujeitos de mesmo nível num confronto. Há apenas o resto da tentativa de formação do impossível, um vestígio de sujeito que nunca consegue se estabelecer, que nunca se forma de maneira definitiva. Na verdade, diferentemente da opressão, na supressão já não há nem mesmo confronto, senão uma miríade de pisadas tão vertiginosa que já torna impossível a separação daquilo que pisa daquele que sofre. Em suma: quando o tédio ou a descrença chegaram em palavras e em coisas, “neste giro sem sina / sem sal nem viço”, não há mais um privilegiado: principalmente a função “poeta”, afinal, o artifício já se emancipou. A face daquele que escreve está na perda dos dispositivos (de máquinas de escrever a princípios poéticos) e não mais apenas na do sentido.

 

CONTO FUNESTO

Perdi um som quando ele tava a se encostar
Na ponta da minha língua
Perdi depois a língua.

Perdi uma palavra quando ela pendia já do traseiro
Para a ponta de minha caneta.
Perdi depois a caneta.

Achei um cinzeiro desbarafutado de utilidades.
(Eu que achara tão-cedo as inutilidades!)
Despejei as minhas cinzas
Que não havia visíveis.

Achei minha face.  (p. 47)

 

Zeh Gustavo demonstra que o desespero de um mundo pré-governado por dispositivos só não é maior do que o de um mundo no qual já nem mesmo haja a interação com os dispositivos. A perda da língua, da caneta e da urna funerária para depositar as cinzas chegam a dar um tom nostálgico do momento em que as coisas tinham função, seja a palavra para escrever ou o caixão para sepultar. Contudo, o poeta não quer uma volta à funcionalidade. Apenas constata que, por mais que as coisas continuem a fazer sofrer, pois talvez até não tenham nunca deixado de operar, não é mais possível interagir com elas. Por isso, neste seu último livro já não há um escrever sobre o escrever ou um escrever sobre o não-escrever, como acontecia em “A Perspectiva do Quase”, já que os instrumentos, se não se perderam, estão completamente desafinados. E não há nem corpo, nem linguagem nem inconsciente suficientes para acalentar o suprimido.

O principal gesto que se destaca em “A Pedagogia do Suprimido”, diante dessa condição da supressão, está no fato de que quem perde a sua caneta “bic”, seu mecanismo de escrita, arranha com prego mesmo. A grande força da lírica de Zeh Gustavo está na rasura, procedimento indeterminado, porém teimoso daquilo que descreve como “ânimo-vândalo”. Se são observados traços da inventividade de Paulo Leminski no autor, este, ao brincar concomitantemente com o som e a escrita das palavras, já não causa a mesma liberação de tensão típica do cômico. Neologismos como “teimoazia” ou “autoboicorte” imiscuídos em variações de tons menores, expressam-se na recorrência do grito, do rabisco. Rasuras insistentes de um livro de poemas com um forte teor autobiográfico, sem velar sua ficcionalidade, sendo, possivelmente, “desmemorialístico”, à maneira de Manoel de Barros. Nesse sui-gênero, o autor até consegue prender a atenção do leitor a ponto de fazê-lo acreditar brevemente, como em um sonho, na investida introspectiva, fazendo jus a uma pedagogia apenas por um lapso, em uma prosa-poética de formação. Isso se reforça ainda mais pela coloquialidade e pelo descompromisso de muitos pensamentos, os quais, muitas vezes fazem parecer que há perante o leitor um sábio contador de histórias. Porém, o próprio texto se assume eventualmente como nada mais que um texto, e todo um hermetismo que parecia surgir entre os poemas sem mais nem menos vai ser comparado, de uma hora para outra e sem aviso prévio, por exemplo, a uma tela de pintura, uma justa superfície mais a ser observada do que propriamente lida. Eis que surge para aquele que lê um autoarremeter, uma troca de olhar para destacar a pura tipografia, meros caracteres sobre uma tela, antes de ser um fluir da imaginação proustiano sobre papel A4 ao qual o leitor fora previamente induzido. É o que discretamente se declara no poema “Na gare, com Delirium Tremens”: “Eu me exprimo em papel-tela / Qual prosa já sem contador nem / Personagem / Só fatos tortos jorrados em borro tarde morta / Tetos em desabares sob picotes-edifício do céu / Texto surrupiado”.

Fatos tortos e desafinados porque estão borrados pela superposição de sílabas a surrupiar o texto a todo momento. É bem notável a esse respeito que o título convidativo do livro já na contracapa vem como “Pedagogia do Suprimido”, o que também acontece na subdivisão interna, onde os capítulos aparecem tachados. Essa rasura, também mostra seu incômodo e sua força, desmontando um fluir lírico, nos inúmeros neologismos e paronomásias, através dos quais o poeta é pródigo ao rabiscar sufixos e prefixos constantemente. Como ele mesmo superpõe, a escrita da rasura no “ânimo-vândalo” vem em conjuntos notáveis de experimentação, por exemplo, quando o autor aproxima as palavras descalamento, desrecalcado, dessupressão, desvio, desafogo e desabrigo. O uso do prefixo des-, entre muitos exemplos, prova que aquele que escreve não se interessa mais tanto pela linguagem como promessa de desconstrução (diferença e adiamento), tendo em vista que faz dela um vírus, uma des-qualquer coisa. No vaivém de cair no poema e grifá-lo, para logo acordar do sonho, é provocada uma imersão em uma experiência expressionista que parte de uma autobiografia declaradamente ficcional, mas muito envolvente, que é logo marcada pelas repetições dessas rasuras, em que os sentidos são concentrados até a estafa sem que se consiga fazer uma transubstanciação. Qualquer tentativa de heroísmo se esvai quando Zeh Gustavo arranha o disco com suas repetições de um experimentalismo despretensioso, porém de extrema sensibilidade, algo que se relaciona com o que o autor chama de “alto exaustão”.  Paralelamente ao rumo da introspecção que não chega nunca a formar um personagem, manifesta-se o gesto deformador (mas não formalista) da rasura, como de um vândalo que descobriu que todo objeto à sua volta lhe pode lhe ser útil como projétil quando abre mão de encontrar a marreta perdida. O risco de prego, a escrita que grita com o rabiscar sobre o sentido, é capaz de concentrar toda a dúvida, a agressividade e a impulsão dos que assumem que já perderam a caneta ou o papel, isto é, que há força, mesmo quando se põe em dúvida a formação, esteja ela em entusiasmo ou em procedimentos poéticos.

Doutorando em literatura pela Universidade Federal de Santa Catarina, Leonardo D’Avila é tradutor da poesia latina de Arthur Rimbaud, publicação do editorial Cultura e Barbárie (no prelo).

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91ª Leva - 05/2014 Janelas Poéticas

Janela Poética V

Winston Morales Chavarro

 

Arte: Marcantonio

 

ABEL

 

Caín
Hermano de vientos, nubes, diluvios y ríos
Un mar de luces opalinas gravita en los guáimaros de la ciénaga
Y se aglutina en mi espejo
Como un prisma que nos dice:
La muerte es una puerta
Y el tiempo una ventana
Por donde nuestros pasos presurosos
Perciben otras cosas, otros mundos.
Bello Caín
La quijada de burro con la cual me mataste
Tenía el olor de las encinas y los pinos,
De tus labios venían hasta mi norte
Unos chopos amarillos
Que enhilaban mis pétalos melancólicos
En el hilo de la muerte.
Hermano profanado por los cielos
El dolor de tu hacha cavernoso
Penetraba mi topografía más remota
Mi geografía y mi valle más sagrado.
Ante el golpe subceleste
Que yo he encontrado sutil y generoso
Y que tú asestaste con una sabiduría infinita
Yazgo en la orilla de tu río, pensativo.
Oh, amado Caín
Tus huellas de madreselva
Van decorando mis entrañas,
Van vistiendo de semillas, de hiedras y resinas olorosas
Mi cuerpo fatigado por los viajes.
Mi sudor se impregnaba de tus frutas;
Tus piñas, toronjas y zapotes
Decoraban mi cabeza
Con coronas tejidas por cientos de cuchillos.
Nada soy sin tu golpe
Herrero milenario;
Tus manos son el yunque
Que moldean, a la sombra de estas islas misteriosas,
La herradura, los cristales y los cuarzos
De otras Islas en el hado de la muerte.
Caín
Hermano de mis antepasados
Hay en ti un pretexto para silenciar la historia
Como si la memoria de las dagas
No aceptaran la muerte de Goliat
Como una templanza de David,
Mi muerte es una templanza tuya.
Amado Caín
Por tu golpe y tu palabra
He conocido el paraíso.

 

 

***

 

 

A EVA EN EL DESTIERRO

 

Qué hermosa es Eva
Qué hermosa la serpiente que le rodea
El árbol que crece en su talle
El fruto carnoso que despliegan sus labios
Al posar sobre la ocarina
Su música en las orillas del bosque.
Qué hermoso su cabello
-Grajillas oscuras que caen sobre sus hombros perfumados-
su nariz que respira otros mundos
y crea para tantos laberintos
el azahar y las guirnaldas que los sustituya.
Qué hermosa es Eva
Qué hermosos sus tobillos
Las huellas que dibuja sobre la arena
Para marcar el camino hacia la luz y hacia las sombras.
Qué hermosos los hijos que le ha arrojado al mundo
El río que desciende por las colinas de su vientre
El volcán de sus ojos de fuego.
Qué hermosa esta costilla pensante
Este polvo sagrado
Esta caña aromática
Que guarda en sus pechos fragantes
Otra manzana para las épocas de lluvia.

 

 

***

 

 

CARTA  DE UN ESCRIBA A MAGDALENA

 

Yo no sé de dobleces de campanas
De sanear o purificar sepulcros
Pero un torbellino de hojas secas me conduce hacia tu vientre
Y alguna parte de esa música secreta
Que tú reinventas y traduces.
Yo no sé de multiplicación de pájaros y peces
Ni siquiera escanciar las ánforas de vino
Pero busco tu cuerpo Magdalena
Como si fuera ese santuario
Donde redimir mis carnes y mis velas
Agobiadas por los golpes de las sombras.
Yo no sé de resurrecciones
-Acaso mi carne no soporte tantas instancias-
No se perdonar las querellas con el polvo
Pronosticar las épocas de lluvia
Pero estoy seguro Magdalena
Que mi amor te reivindica de las culpas
Y talla en tu ofertorio
Una parvada de pájaros azules
Donde sopesar tus deudas y tus vinos.
Yo no sé de estrellas y ovellones
De esferas cuyo fin esté más allá del cosmos,
Pero mi conocimiento en tu cabello
Quiebra los mapas
Y mis manos no poseen otro lenguaje
Que el mismo que tú diagramas
En el río de la muerte.
Desde las selvas sirias
Hasta el mar occidental,
Desde el monte Nebo
Hasta el río Rogitama
Irá mi ancho y dulce amor, bella Magdalena,
Revestido de luz para tus hombros
Y un collar de caracolas
Hará tejido con peces de distintas geografías
Para adornar tu pubis
Y tus cabellos crispados por los astros.
Yo no sé de oratorias y viejas enseñanzas
Mi lenguaje no supera los silencios de la tierra
Pero acaso me domina la palabra
Y un Te Amo
No sea otra respuesta
Que el peso enamorado de esta cruz.

 

 

***

 

 

LÁZARO

A Jader Rivera Monje.

 

Ahora que soy tantas cosas al tiempo
Ahora que asumo mis vidas pretéritas
Y las lanzo a la carne o al barro
para que se vuelvan poemas
o pequeñas hojas que se enfrenten
al aire rizado del Zaire
me llaman Lázaro.
Soy Lázaro
El hijo de Betania
El hermano de Martha y de María
He conocido la muerte
Su río de rosas, gladiolos, violetas, mirtos y lirios
Que he transitado, navegado y respirado
En los cuatro días que duró
Esa odisea por el mundo fascinante de las sombras.
Soy Lázaro
Tengo setenta nombres
Música, viento, pájaro, buey, lluvia
Son algunos de ellos
Creo en la resurrección
En la pervivencia
En el soplo cálido que trasciende
Más allá de estas tribus.
Me he levantado del barro nueve veces
Y ahora
Soy el polvo que no vuelve al polvo.
Mis manos y pies
Todavía están atados con envolturas de entierro
Pero también es cierto
Que bajo mi cuerpo crece la hierba
Circundan el gusano, el ciempiés, las calambrinas olorosas,
La gaviota que remonta su vuelo
En busca de otras corrientes de aire.
Soy Lázaro
Habitante de Betania
Amigo de las sinagogas
De Canaám, de Cafarnaum, de Nazaret, de Galilea
Y de otras tierras lejanas
Cuyos nombres no entenderían
Tengo el rostro cubierto con un paño
Pero cada vez que me levanto a la vida
Cada vez que una mariposa
Me recuerda que he nacido de nuevo
El paño va cediendo paso
A otras estrellas, a otras luces, a nuevas especies de animales,
A otros caminos.
Soy Lázaro
Y en este viaje al final de la vida
Me sentaré sobre otra roca
A hilar el cordón sagrado
El pedazo de río
Que me devuelva a otra corriente
En donde todas las voces clamen,
Todos los músicos canten,
Todas las lluvias digan:
“Lázaro, levántate!”

 

Winston Morales Chavarro nasceu na Colômbia, em Neiva. É jornalista e professor universitário. Seu trabalho poético logrou vários prêmios dentro e fora de seu país. Dentre outras obras, publicou: Aniquirona (Trilce Editores, 1998), De regreso a Schuaima (Ediciones Dauro, Granada-España, 2001), Memorias de Alexander de Brucco (Editorial Universidad de Antioquia, 2002), Camino a Rogitama (Trilce Editores, 2010) e La Douce Aniquirone et D’autres Poemes, Somme Poétique (Editorial Gente Nueva, 2014).

 

 

 

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91ª Leva - 05/2014 Janelas Poéticas

Janela Poética VI

 

Pedro Du Bois

 

Arte: Marcantonio

Paredes

 

Ficamos juntos
….na indivisibilidade dos opostos:

………..anéis de casamento
………..filhos da mesma casa.

O corpo banhado sobre a cama
e a janela entreaberta: a justeza
da imaginação prisioneira
entre quatro paredes frágeis.

 

 

***

 

 

Textos

 

Sonâmbulo
…..perambulo textos

…………….navego pessoas
…………….e me oriento
.……………em ícaros
…………….de asas cortadas

tudo feito
na minha passagem.

 

 

***

 

 

Igualdade

 

A igualdade sonhada
.não se revela
.no que mostra.

…..A conquista
…..é passo inicial
…..na desigualdade.

…………O caminho
…………percorrido em entregas
…………e o desmoronar
…………do corpo no ferimento
………………………….aberto.

 

 

***

 

 

Grandeza

 

Fui começo
…….sou metade
….fui princípio
……sou continuação

o final se oferece
em lendas
e o mito
perde sua grandeza
na igualdade do mistério.

 

 

***

 

 

Janela

 

Nada me vale a janela
se não posso
ver as construções
de igualados prédios
em vistas circunscritas
aos arredores: a janela
…………………..do novo prédio
…………………..me contempla.

 

Pedro Du Bois é natural de Passo Fundo e reside em Itapema, SC. Escreve poemas e contos. É editor-autor, com livros feitos em casa, em tiragens mínimas, não comercializáveis. Foi vencedor do 4º Concurso Literário Livraria Asabeça, categoria poesia, com “Os Objetos e as Coisas”. Em 2009, “A Criação Estética” foi publicado pela Editora Corpos, Portugal. Em 2013, seu livro de poemas “O Senhor das estátuas” foi publicado pela Editora Penalux (SP) e “Iguais” pelo projeto Passo Fundo.

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91ª Leva - 05/2014 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Juliana Krapp

 

Arte: Marcantonio

casa

no teto um alçapão
madeirame entrecortado de conduítes
onde o escuro nasce
e os ratos passeiam

a noite exibe as evidências
não há fantasias não haverá mais
reviravoltas possíveis
sobre nossas cabeças sob a cumeeira
….em casa
…….vibra
a clausura dos ratos

não estão em nós
….– vivem além
de nossos crânios
à revelia
dos emaranhados de beleza ou pavor que se enroscam ao sono

entretanto nossas coisas são suas coisas
e delas fazem ninhos
onde se embaralham
e proliferam

sobre nossas cabeças
sem asas sem remédio
respiram conosco
……….guincham
e permanecem

não estão como nós
…..baratinados
porém sua verdade
é nossa verdade – mesmo eles
……..têm um corpo quente
……..a carne magra o esqueleto oblíquo que guarda um único coração
……..exausto ao cair da manhã

mesmo eles
morrem e então fedem
sobre nossas cabeças

quando isso acontece
em alguns domingos
abre-se a portinhola
e a pá retira do escuro um volume flácido
..– a infância estranha
a falta de sangue

à noite voltamos a mergulhar
juntos
na viscosidade cada um em seu avesso
da casa apartados
pela irmandade impossível

um pai uma mãe tentam ordenar
que torne surdos os ouvidos
que estanque a todo custo
a corrosão da pureza

querem dizer
que há simultaneamente
o alheio que é o do outro
e o alheio que nos é
indiferente
– ante a opressão das paredes
…..sobre nossas cabeças
…..a alteridade se excita

os ratos passeiam
e vem a época de nos caírem os dentes
estranhos inexplicáveis núcleos sem dor
que precisam ser jogados para o alto
para o teto da casa
como indica
a etiqueta doméstica
e o folclore desta parte do mundo

ainda estão úmidos
mas não parecem
saídos de uma boca
– talvez de uma fenda ou concha de alguma
…..cavidade morta

serão lançados
à zona secreta onde agora prevalece
o silêncio
após o êxtase desconhecido
……– e para sempre irá nos assombrar a extravagância
……..dessa inútil oferenda

 

 

***

 

 

tipografia

 

às vezes
em geral domingo
eu o vejo: coágulo
escuro massa estanque que se instaura
pedra singrando
ao redor da qual o dia vai crescendo
e apodrece

porque no centro da verdade há um viço
e eu olho simplesmente olho impossível não reparar camada
após camada a casca reluz seu calcário arregalado e já não somos mais
eu e você mas sim espessuras
singulares silhuetas de arvoredo passando em velocidade difícil
distinguir as formas por trás do vidro quando somos apenas
duas melodias ou melhor duas
ênfases de melodia como se disséssemos sempre
um píer não é uma margem um píer é o ponto
de ver o estuário de esperar o espalhafato
com que a água ameaça a membrana que é este domingo um posto
de observação onde a ideia de arbítrio extingue os procedimentos
familiares a esta cama e você se torna fantasmagórico com sua espessura tão
diferente da minha já que estou só
com esse coágulo na mão uma substância órfã que aninho enquanto
temo o viço da verdade a mentira que não se insinua apenas passa
em sua marcha secreta um novo ponto agora talvez mais claro
não o coágulo em si só outra fruta
inútil apodrecendo na correnteza

 

 

***

 

 

Roteiro

 

O vaivém das galés contracenando com os diques
A emboscada da neve ao redor das vidraças
As nervuras da pedra
que enregelam o olho da atriz
– Essencial mesmo é o cenário
onde tudo acontece
foi o que ele nos disse
antes de partir

Arranje um lugar
para que o salto das feras
fuja aos radares
Para que as escarpas acobertem
a possibilidade do crime
– A cidade, muito ao longe
apenas reluz

Para contar uma história
uma savana
deve parecer um insulto:
arvoredos esparsos
sob o risco constante de incêndio
O incômodo do barro contrastando
com a arruaça da topografia

Uma nevasca
é sempre um bom começo
Por detrás da janela há uma garota
mordiscando o próprio coração
Um bicho dorme, uma tevê
silencia. A paisagem inibe os loops

Ou um lugar conveniente pode ser apenas
massa de negrume condensado
Um buraco no meio da testa
Uma angra escura
onde a sujeira
se enrodilha à superfície
e o herói morre
num tenebroso acidente

 

Juliana Krapp é jornalista e vive no Rio de Janeiro. Publicou poemas em revistas como Inimigo Rumor e Modo de Usar&co. Teve poemas incluídos na antologia espanhola Otra línea de fuego. Quince poetas brasileñas ultracontemporáneas, com organização de Heloísa Buarque de Hollanda.