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152ª Leva - 02/2023 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Samara Belchior

 

Foto: Magali Abreu

 

aos ecos há ecos. você os ouve? tranque-se no banheiro, escreva nos azulejos o que ouvir. há mais eco agora, o seu. nós escrevemos para nos ouvir, para tatear nossas experiências de dentro e de fora, para te entregar o convite de ser bicho, ficar com as unhas sujas, lembrar de terra molhada, rodar, plantar lantejoulas, evaporar no chuveiro, sangrar, desenhar camaleões, passar as mãos na ossatura do tórax, deixar-se marcar com tinta vermelha, aportar em silêncio depois de sentir arquipélagos nos cabelos.*

 

* texto produzido a partir de alguns poemas do primeiro livro do coletivo bidê, do qual sou integrante.

 

 

 

***

 

 

 

la cruz

 

o vento
colar na areia um nome santo

a pachamama
o vento nos seios

os continentes
colarem as areias

os capitães
o vento nos veleiros

os pés
dançarem a pachamama

a dança e um veleiro
o santo e um ventre

a pachamama
engravidar de petrolato

a gravidez
um capitão solto no vento

o santo
ser homem na areia

o batismo e o aborto
da pachamama

 

 

 

***

 

 

 

silêncio!

 

a vida como ela é
um arrastão pelo asfalto
porque não há mais terra
……………………………….não há mais pétalas de rosa nem para se bater numa mulher
é tudo plástico
a língua seca
não chove, nunca mais choveu
………………nunca ficamos em silêncio

deixamos
as árvores com troncos deficientes
comemos as omoplatas uns dos outros.
corcundas, nos arrastamos nas calçadas
em fileiras
nosso olhar em cascas

se deus nunca, nunca tivesse existido
no interior dos nossos peitos mancos
………………nunca nos calamos
matamos a semente de mato do nosso parto
estamos à deriva
…..se nunca tivéssemos sido os deuses do nosso peito
…..fomos deuses humanos
…..nosso banho é cinza, pixe
………………nunca fomos peixe e alga
………………nunca nos calamos
…..não chove, nossa voz cobriu o som dos tambores
………………nunca fomos pássaro
…..nossas moléculas endureceram
nem pele, nem pena
…..nem leito escasso nos quer
…..nossas moléculas empalharam a correnteza
………………nunca estivemos tão secos

 

 

 

***

 

 

 

dissecação

 

conhecer um corpo por dent
ro t
er um corp
o a ser conhecid
o por dentro separar as part
es para encon
trar a fisiolog
ia exig
e a mort
e e a mort
e não é bon
ita bonito é o c
orpo desmontad
o

 

 

 

***

 

 

 

australopithecus

 

isto não é uma dança
é o ringue dos tempos
mesmo meus pés com meias

porque você não dá seu
céu?

quando subi
me sustentei nas linhas
pra não te ferir
…..fiz bailarina
tentando equilibrar
meu ponto

você luta
com o quadril
até quando o ponto é meu

quando você subiu
desviei
mordi teus beiços
segurei de novo
de novo

na selva da língua
contra língua
foi um nocaute
você por cima
eu morangos

 

 

 

***

 

 

 

mata

 

à noite
cheira e sua
nome de mulher

na cachoeira
os bichos
não vou
…..vou lá
lisa
no pegajoso
…..a água leva
banha
os meus bichos

na falta do sol um céu
na falta…..o som

não há silêncio na selva
na
…..pedra ensebada
no
…..cabelo córrego
na
…..escama
no
…..musgo de iara

 

 

 

***

 

 

 

desnome

 

"As coisas perdidas ou inalcançadas foram as únicas que possuí"
Maura Lopes Cançado

 

 

eu sou uma data
vasculho o interior dos tempos
em busca desse calendário

eu sou……………………….stella do patrocínio
clarice lispector
maura lopes cançado

sou uma terra…………..a pá
e a escavante
o artefato
a semente
regada das minhas mães
sou solo e indecisão

sou a reta que encurvou na batida
o trauma do acidente
…………………………………………a desorientação

eu sou a gagueira e a palavra nova que sibila
o defeito e ………………………………………… o espelho

 

Samara Belchior (1987) mora na Zona Leste de São Paulo, onde leciona na rede municipal de ensino. Foi aluna do CLIPE poesia (2021) e do poesia expandida (2022) na Casa das Rosas onde atualmente é aluna do CLIPE prosa. Cursou licenciatura em história pelo Prouni, licenciatura e bacharelado em filosofia na Universidade Federal de São Paulo. É autora de “bruxismo e outras automutilações” (Ed. Urutau) e “pra não ser de plástico quero ser bruxa” (Ed. Primata). Compõe o coletivo de poesia “bidê”. Se interessa por bruxaria, anatomia e coisas invisíveis. Tem dois gatos.

 

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152ª Leva - 02/2023 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Vivian Pizzinga

 

Foto: Magali Abreu

 

fato

 

é o aço do fracasso o que entope a goela nua.
tusso.
é erro crasso tentar
continuar.
vilipendio a sola do pé toda vez que ando.
raspo a pegada do chão ralo.
cuspo meu passo e manco
engulo o choro rascante ácido.
paro.
olhos bordejam o fato
pulmões inférteis sem ar.

 

 

 

***

 

 

 

viga-mestra

 

coleciono noites. olho aberto deslizando impune sobre prateleiras, livros, cinzeiros, hélices de ventiladores, olho aberto avançando sobre os escombros do que sobrou do dia. há certa mudez ressoando nos quadriláteros adjacentes à sala estupidamente calada. coleciono delinquências íntimas no caminho do baixo ventre, eloquência insuspeita que não deixa pistas, caminho borrado das 3 da manhã ou mais. coleciono horas mortas em dias úteis, escassas tardes no que há de ar nos pulmões, e é quase nada. coleciono asfixias, apneia viga-mestra num punhado de hesitações, olho aberto percorrendo a dúvida, vida esporádica percorrendo o chão. na contabilidade dessa vigília endêmica, é dia sim, dia não que se dorme. coleciono olhos abertos em seu escrutínio pela noite desprovida de bordas, avermelhadas pupilas de quem há muito se perdeu do caminho do sossego. e note: nenhuma gota a mais resolve o impasse. coleciono solilóquios. deslizes. dias amanhecendo em qualquer época do ano.

coleciono ecos.

 

 

 

***

 

 

 

alameda

 

entre o núcleo rugoso da dor e o outro,
surdo interlocutor,
quilômetros.

mas não só:
gargalhadas genuinamente alegres
preenchem uma alameda insuspeita.

o que se mostra é parcela ínfima
de um território sombreado.
geringonça parcial,
simulacro de fatiada existência.

o que se mostra é nada.

 

 

 

***

 

 

 

noite

 

é que somos todos contradições, impossibilidades, limites. fajutos recortes, terreno infértil, dores que galopam o corpo.
é que somos todos as lacunas que tapamos com a mão e alocamos no diâmetro da penumbra.
é que somos todos penumbra e caminho aberto, bocas conversando entre si (você no escanteio), bocas discutindo entre si, quando o mais certo seria fechar os olhos e dormir, à noite.
é que somos todos noite que não acaba nunca.

 

 

 

***

 

 

 

cerco

 

rasga a carta.
garrancho fronteiriço concebido no instante do esquecimento
desmemória ficcional
união estável entre certa saudade
e obtuso perdão.
palavras entupidas no aparelho fonador
discurso desgrenhado entre a garganta
e o sopro
semanticamente está perdida
destroçou glossários
estourou as últimas canetas bic pretas rolando por aí.
a noite ecoa na casa vazia
tabefes de lucidez espantam o sono
lista de arrependimentos arranham sua voz enguiçada.
nos intervalos da vida
persegue as respostas
fantasmas sem rosto ainda promovem o cerco.
é tarde na noite baldia
rastreia os últimos instantes de paz que rolaram por ali.

 

 

 

***

 

 

 

lógica imberbe da vida

 

os dias desagregados,
lógica imberbe da vida,
faziam-lhe mossa nos olhos e dentes.
lonjuras de desânimo vencido
curtido
desenhavam-se no semblante planície.
o desespero da alegria alheia
excesso de cores e gestos
lanhavam a superfície preguiçosa da casca.
cansara, enfim, da faina
e de certa loucura embevecida
sob medida.
cansara
e era preciso admitir.

 

 

 

***

 

 

 

parêntesis

 

quero entrar entre parêntesis, ficar ali de butuca, desviando da vida, driblando os fatos. dar uma parada no giro ao redor, espiar (imune) os quiproquós. quero respirar sem ruído, evitar os perigos, ser distante de mim. quero voltar atrás e pular etapas, desenhar meus dias, colorir a semana inteira, pendurar a arte no mural. antes que não dê mais tempo, quero um parêntesis sabático.

 

Vivian Pizzinga é escritora e psicóloga. Lançou Ruído nos Dentes (Urutau, 2022, poemas), A Primavera entra pelos pés (Oito e meio, 2015, contos) e Dias Roucos e Vontades Absurdas (Oito e meio, 2013, contos), além de ter participado de outras coletâneas de contos e prosa poética. Tem doutorado em Saúde Coletiva pela Uerj.

 

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151ª Leva - 01/2023 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Tom Santos

 

Ilustração: Viola Sellerino

 

Mar negro

 

A noite desabou no cais,
engoliu as estrelas
e nuvens cintilavam fogo
contra as ondas.

Tento me ancorar,
viver a finitude dos dias,
erguer faróis incandescentes
e guiar embarcações.

A vida marinha recua
formando verbos
no céu da minha boca
e sigo navegando
sobre o mar
de lágrimas
negras

 

 

 

***

 

 

 

Cais

 

Na noite acidentada, traço rotas
na tumultuosa viagem
para cantar à cega paixão
………………………………….[ dos dias
entre naufrágios.

Diante do leme, verso notas
perdido no mar
…………………….[ sem mapas

na busca pela face
do Orfeu Negro.

 

 

 

***

 

 

 

Naufrágios

 

Erguido no silêncio absoluto,
navegando a tempestade
da minha existência,
tenho medo.

Expatriado dos instantes,
contando os minutos,
sem destino

Abandono meu lastro,
e o tempo passa
sobre o escuro
do porto.

 

 

 

***

 

 

 

Dia de chuva

 

A chuva saliva
tua severidade azul
em paixões úmidas.

Enquanto os peixes
mergulham a face secreta
das palavras
para velejar
seu riso ameno.

 

 

 

***

 

 

 

Gaivotas

Para Jeferson Tenório

 

As gaivotas desviam
caravelas ao mar
e meu corpo arcado
esqueceu-se a voar

O céu padece
em rochedos pontiagudos
e formações salinas
vão te saudar
no silêncio

Vejo-te bruto a morrer,
enquanto os abutres
rasgaram fendas
na tua carne
revelando amor
ao avesso
da pele.

 

 

 

***

 

 

 

Autorretrato I

 

O espelho deforma tua imagem
ramificando os horizontes pretos
que contornam sua nudez
tornando-o livre de fronteiras.

Tua face estilhaçou
em mil pedaços
as extremidades
do corpo.

 

Tom Santos é natural da região metropolitana de Salvador, Bahia. Escritor, ator e graduando em Letras Vernáculas, pela Universidade do Estado da Bahia. É colaborador do coletivo Espaya,  e suas apresentações abrangem performances, recitais, monólogos e experimentações artísticas.

 

 

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151ª Leva - 01/2023 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Thais Campolina

 

Ilustração: Viola Sellerino

 

DEVER DE CASA

 

mesa sem poeira
pia seca
privada higienizada
roupa limpa e dobrada
cama feita
papel em cima de papel
dentro da gaveta
livro empilhado na estante
algumas canetas guardadas
outras, soltas
sempre sobra uma
alguma coisa

um objeto
de uma casa habitada
circula
como se vivo fosse

é carregado
pego
jogado no chão pelo gato
quebrado
colado com cola quente
guardado
até que esteja de novo
no lugar errado

 

 

 

***

 

 

 

TRANSILVÂNIA

 

as pessoas costumam comentar que eu viajo muito. não entendem que meu trajeto quase sempre é o de casa para casa. quem mora em duas cidades não mora em lugar nenhum. a estrada é um limbo. a outra cidade, em que você não está, age como uma sanguessuga. te cobra, te cansa, exige e barganha, te dá e te tira. precisa de você. não aceita que você se afaste por muito tempo. rosna para seus desgarrados.

a outra cidade é uma casa que você já não conhece bem, mas ainda assim sempre volta

 

 

 

***

 

 

 

CAIXA DE FERRAMENTAS

 

a mão cheirando a alho
cebola e refogados
também tem o odor
da tinta da caneta
ela mexe no detergente
liga computadores
digita 40 palavras por minuto
faz bolo
despedaça o pão
recorta cola rasga
e se toca
sem nunca esquecer de fazer exercício para evitar ler
o acidente de trabalho da modernidade
e da escritora

 

 

 

***

 

 

 

ESQUEMA DE PIRÂMIDE

 

vou ter que dizer
o tempo é outra parada
um verdadeiro massacre
às três horas da manhã

o auge da neurose
a metade da besta
a matemática pura
a assimilação do fim
de um pedaço de bolo
guardado tempo demais
na geladeira

 

 

 

***

 

 

 

BACKLASH

 

desaprendeu a engolir sapos
rãs e salamandras
a perereca agora possui caninos
e ataca
sem pudor
quem avança

 

 

 

***

 

 

 

de cor

 

escrevi esse poema de memória
porque eu ainda estava dormindo quando ele surgiu
anotei cada palavra no reino dos sonhos
como cecilia pavón me ensinou
tomei cuidado para mantê-lo curto
o acordar é abrupto
e sempre há risco de esquecer

a poesia é sonolenta e tem bafo matinal

 

Thaís Campolina nasceu em Divinópolis – MG em 1989 e, após 8 anos morando na capital mineira, recentemente retornou para sua cidade natal. Bacharel em Direito, pós-graduada em Escrita e Criação, medeia, organiza e faz curadoria do Leia Mulheres Divinópolis e é a criadora e faz-tudo do clube de leitura online Cidade Solitária. Após ganhar o 2° lugar no concurso Poesia InCrível de 2021, estreou na poesia com o livro “eu investigo qualquer coisa sem registro” pela Crivo Editorial. Também publicou o conto “Maria Eduarda não precisa de uma tábua ouija” em formato e-book na Amazon.

 

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151ª Leva - 01/2023 Janelas Poéticas

Janela Poética V

Alexandre Guarnieri

 

Ilustração: Viola Sellerino

 

transduzir-se

apud Ferreira Gullar

 

acaso vença, por mera conve/
niência, da teoria oposta ao mi/
to, este conflito – da sã ignorân/
cia das crianças sob o severo jugo
das réguas de estudo -, do utili/
tarismo sucessivo, puro e simples
sobre a Cultura vista como circo
(supérflua/ nula), sem conciliar
à velha luta a mesma desavença,
desde sempre, entre a fantasia e
a crença na verdade da essência,

……………………será Ciência ?

 

se uma parte de nós é retrô
e outra parte é avant-garde,
ao recapturar toda estranheza
na fronteira mesma em que
beira a familiaridade – como
um experimento de linguagem –
no exato ápice dessa passagem
para legá-la à posteridade,

……………………será Arte ?

 

ante a violência do combate
das Ciências sobre as Artes
e vice-versa, destarte, espe/
remos sem alarde (e antes que
seja tarde) pelo com/provável

……………………EMPATE !

 

 

 

***

 

 

 

novena do filamento [fragmento]

 

neste aparato sacro,
– um arcaico astro –
cada rastro o rapto
de seu arco voltaico;

cada curva rejeite
o velho ponto médio
por engenhoso e novo
desenho periférico;

e toda a pira fugidia
que no dínamo irradia
surja e fulja, na al/
tura, rútila fagulha;

em cores, do ouro ao
ocre, flua luminoso or/
be à vultosa dose de
um fiat lux no cobre:

bendito é o fúlmen no
filamento da lâmpada;
o lume mantenha-o bem,
“liga/ desliga/ religa”

……………! AMÉM !

 

 

 

***

 

 

 

o templo da técnica

 

na glândula de eurekas
onde nervos se acercam

o miradouro do inédito/
halo por sobre a névoa

há alvéolos & células
nos favos do encéfalo

à revelia do secreto –
o alvo da descoberta!

úvula além da medula/
o novelo que elucubra;

pulsa descarga elétrica
no interior desta cela;

 

……> ( * ) <

 

numa arca de faiança/
ou gaiola de estanho

onde encaixa o fórceps
ante a ameaça do dano

nesta caixa ou antro
que chamamos “crânio”

: voz atrás dos olhos
– cosmo neurológico –

a noz/ o cofre de inox
para o lógos de Nikola;

e veja aqui, sob a testa,
este mistério inconteste!

 

 

 

***

 

 

 

o castelo da estética

 

a massa cinzenta: sêmola
de toda sentença,

nódulo neuronal das lendas
que relembra

ao abrigar em cada uma
de suas células

da aspereza das pedras
à leveza da pétala;

primeiro e último sítio
de qualquer mito e espírito;

sede do novo e do velho,
do crente e do cético

cujo pejo é o desejo
pelo tal “juízo estético”;

eis o cérebro de Tesla
em seu par de hemisférios!

um abismo aberto
entre a euforia e o tédio,

ao aludir do lúdico
utilitarismo (no mistério)

ao surgimento súbito
dos surtos psicodélicos;

seu lar de cálcio e ferro
lacra a mandala

no Cáucaso ático
dos cálculos matemáticos;

o miolo tônico
sob o osso poroso/ o mar

do sonho sob o
solo do corpo; no crânio

está assentado
o seu castelo hermético,

da larga borda de Abraxas
a ágora da Via Láctea!

 

 

 

***

 

 

 

os despojos de Ajax

 

o que será do Sr. Tesla,
vagará no éter sem casa,
órfão da ciência exata?

enfrentará algum perigo,
sob o limbo, a destruí-lo
(do atma sem sua causa ao
último salto, ao abstrato)?

ou terá finalmente conjugado
as complicadas escalas aná/
logas [esquadros], as tábuas
sagradas da sua matemática
do caos, ao mapa da sua alma?

 

Alexandre Guarnieri, carioca da Zona Norte, nasceu em 1974. É historiador da arte (UERJ), mestre em Comunicação e Cultura (UFRJ) e servidor público federal (INPI). Integra, desde 2012, o corpo editorial da revista eletrônica Mallarmargens. Ganhou em 2015 (com seu segundo livro, “Corpo de Festim”), o 57o Prêmio Jabuti na categoria Poesia. Estreou com “Casa das Máquinas” (Editora da Palavra, 2011), seguido por “Corpo de Festim” (Confraria do Vento, 2014), “Gravidade Zero” (Penalux, 2016) e “O Sal do Leviatã” (Penalux, 2018).Em 2016, foi coorganizador da antologia “Escriptonita – pop/oesia, mitologia-remix & super-heróis de gibi” (Patuá). Em 2019, a antologia “Arsênico & Querosene” (Kotter) apresentou, além de poemas inéditos, seletas de seus 4 primeiros livros.

 

 

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Janela Poética I

Maraíza Labanca

 

Ilustração: Viola Sellerino

 

O lá do Sim

 

Vive nas matas, selvagem, forma
preferível das florestas, que tem
por objeto o assobio das serpentes;
voz em que há sim, hiato – de ato de ferir.
Alia povos de plantas cujas cascas, amargas,
tem por tipo o silvestre, também
cipó; dois vivos em que há
aderência da pálpebra com a nota
musical, de uma época remota, lá, alhures,
sem verbo, que começa; ou poética
do fim, iniciada por eles,
pelo som das palavras –
funda natural nome de coisa por oficina
e encerra a outra inconsciente
divisa: certas combinações
que têm triz. Sim
em que há coisas santas ou,
como sejam, sagradas.
Sim: aquele que cometeu Sim,
a primeira folha,
Sim.

 

 

 

***

 

 

 

Poema II

 

De pequeno tamanho, foi um
dos fatores de expansão
do mundo, porque era nome
amorfo, pedra ou granada,
a cabeça encarnada,
fundamental
abertura superior do coração
absoluto.
Carrega-se
no dorso de animal:
mecha de fogo,
chuva muito forte,
por que motivo desconhecido.

 

 

 

***

 

 

 

Tormenta

 

Ela vem torta, de óculos escuros,
cabelos despenteados, vestido em desalinho;
sobre a tormenta, ela vem de botas altas,
com marcas no rosto, uma, resultado do tempo,
outra, de um acidente de carro;
sobre a tormenta, ela vem quando a calmaria
era já a sua companheira de quarto, quando
já até morava ao lado de uma praça
e se nutria bem, para evitar a tormenta;
sobre a tormenta, ela vem tonta, trazendo sua angústia
no peito, no peito de quem não quer
mais ir embora, tragando-a para dentro dele;
sobre a tormenta, ela vem e parece te querer, mas veja, olhe,
escute, antes de atravessar a linha do trem;
sobre a tormenta, um dia ela vai embora e
você, como a criança diante do circo que baixa sua lona,
desejou imensamente ser levado em seu vórtice.

 

 

 

***

 

 

 

Noite branca

 

Olho as janelas que ainda estão acesas,
como fazia em outro país: a insônia
aproxima anônimos em sua distância,
como se de longe partilhássemos
o mesmo cigarro, a mesma ausência.

Há, agora, uma jovem que trabalha.
Um homem sem camisa que vê tv.
Um que vagueia, sentado sobre o próprio desespero.
Um cão que, no meio do silêncio, abana o rabo para ninguém.

Uma mulher que absolutamente não sabe o que fazer.

 

 

 

***

 

 

 

Brutal

 

onde a luz nasce palavra
obscura,
discreta a morte: a vida retina.

delicadeza ao morrer é
tortura.

 

 

 

***

 

 

 

des corps

 

embrulha, compacta
palavra – revela-
se
cruel, crua
entre a fuga e a cura, cheia
de cor a sua escrita pura,
a sua escrita cria

luz

– candeia.

 

Maraíza Labanca é poeta, ensaísta e doutora em Estudos Literários pela UFMG; oferece oficinas de escrita no Espaço a’mais; é uma das editoras da Cas’a edições. De sua autoria, publicou os livros “Refratário” (2012), “Rés” – livro das contaminações (2014, com Erick Costa), “Partitura” (2018), “Exceto na região da noite” (2019) e “A terra O corpo” (2021).

 

 

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Janela Poética II

Fábio Pessanha

 

Ilustração: VIola Sellerino

 

 

que seja assim um abrigo
onde pés e mãos se cruzam
mar e sol se miram em
miragens faísca e nuvens

seja assim a sinfonia
que se quebra em tornozelos
que se torna o zelo por
joelhos cheios de terra

um amigo que no peito
abriga um abraço enquanto
a noite escurece no
leito escuro de um afago

 

 

 

***

 

 

 

por se romper o chão nos nervos das
manhãs por se querer um horizonte
ruindo nos cabelos encrespados
da melancolia e se desejar
o gosto pesado e duro de deus
resgatam-se as vozes guardadas na
arquitetura do silêncio por
se destruírem os baques em minhas
costelas rumo à forma das raízes
por se alimentar o céu mais que o ventre
por se beijar o rosto das avenças
em disputa aponto o dedo para o
cansaço das flores nas falhas do
teto por se ruminar o vestígio
dos lábios por se levar o destino
dos fatos em procissão sinto o vento
lamber o barro onde moldei os meus
castelos de ossos por se calarem
as pedras encontradas no refluxo
das topadas por se andarem os galhos
na voraz verticalidade do
assalto devolvo os ombros ao luto
no incansável espanto por se inventar
a fuga das mãos sobre aquilo que
não posso agarrar cravando meus dentes

 

 

 

***

 

 

 

de repente
é quando a
gente acha
que já foi
e é quase

de quando em vez
a causa fosse
a minha dúvida
que sempre é tanta
mas sobre o dia
nenhum espanto

 

 

 

***

 

 

 

assim como se desfizesse
por inteiro esse dia ingrato,
essa hora vã. como se

se apartasse o calor de mim,
em mim aportasse o pavor
nascido além do próprio corpo

o fogo, o afeto, a foz dos meus
desertos. quero tudo, até
os restos do que odeio. como

decerto, o acerto. como se
para o sim, um não; o equilíbrio
como fuga do incerto erro

 

 

 

***

 

 

 

lua

 

aqui estamos. sob o peso do mundo,
que é acima e entre nós, abaixo e
na medida das imperfeições. não
sei dizer se criação tem a ver
com um sujeito pleno de potência
ou se talvez mais perto esteja do
ínfimo do qual somos comunhão.
não sei dizer a exatidão do que
é enquanto sou. não sei o sabor
preciso do que experimento ou do
que deixo quando parto do lugar-
comum de onde penso. mas aqui estamos.
como um satélite, que gravita em
torno de outro corpo, e brilha

 

 

 

***

 

 

 

anomalia

 

combinamos assim: você vem pela
via das ruínas e eu permaneço
fluido na anomalia dos relógios.
ficamos cientes de que hora
alguma precede o delírio, ou
ainda que a pontualidade dos
martírios esteja firmada no
que sobrou das mãos. no peito, contamos
com outras penitências para então
ficarmos dubiamente consagrados

 

 

 

***

 

 

 

adverso

 

gosto do barulho do vento nas
árvores. do modo como ele diz
fica parado, escuta. gosto de
como ele vem sem permissão e leva
a pele morta do corpo, os cabelos.
o jeito como ele tenta tirar
minhas roupas (mas elas continuam
agarradas, como se houvesse um mastro
de ossos elevado ao longo do tempo)

 

Fábio Pessanha é poeta, doutor em Teoria Literária e mestre em Poética, ambos pela UFRJ. Publicou ensaios sobre sua pesquisa a respeito do sentido poético das palavras, partindo principalmente das obras de Manoel de Barros, Paulo Leminski e Virgílio de Lemos. Articula oficinas de poesia e atualmente tem estudado a obra de Orides Fontela em função da pesquisa que desenvolve em seu pós-doutorado no PPG em Estudos de Literatura, na UFF. É autor de “na escuta o gatilho” (Rizoma, 2023), “A forma fugaz das mãos” (Patuá, 2021), “A hermenêutica do mar – Um estudo sobre a poética de Virgílio de Lemos” (Tempo Brasileiro, 2013) e coorganizador do livro “Poética e Diálogo: Caminhos de Pensamento” (Tempo Brasileiro, 2011). Assina também a coluna “palavra : alucinógeno”, na Revista Vício Velho, e tem poemas publicados em diversas revistas eletrônicas.

 

 

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150ª Leva - 05/2022 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra I

Outros campos de visão

Por Helena Terra

 

 

Ruído nos dentes. Embora, no título, a provocação seja à minha arcada dentária e ao meu maxilar que, volta e meia, expressam minha pulsão de vida e, volta e meia, meus picos de raiva e desconforto, quem, de verdade, se exalta diante dos versos e da prosa deste livro, estranhíssimo no melhor sentido, da Vivian Pizzinga, são os meus olhos.

E o que leem os meus olhos que embaralham os meus pensamentos como se eu estivesse sem óculos ou dentro da dissonância de um sonho permeado pelos poemas e histórias que leio e que, então, recrio e reescrevo enquanto durmo? Sim. Reescrevo o que me absorve, quase sempre com as mesmas palavras que suas autoras e autores, nas horas que eram para ser de repouso. Horas destinadas a regeneração do meu corpo que acabo por usar em favor da minha imaginação.

Imaginação. Eis algo que se multiplica e transborda em grande escala e ressonância no Ruído nos dentes. Imaginação construída em cima da linguagem, dos versos em ruptura com sua própria natureza e em conluio com a prosa, híbridos e livres além do conceito de versos livres. Insubordinados. Desobedientes.

E imaginação construída também em cima da vida no que ela tem de trivial, com suas repetições quase necessárias, no ato de se tomar um café e de pegar o metrô e de tirar a remela dos olhos porque a rotina tem encanto. “A rotina tem seu encanto”. Adoro essa frase. É o título de um filme do Ozu. E falo sobre um filme aqui porque o Ruído nos dentes é muito visual e entrou em cartaz no meu cérebro faz semanas.

Faz semanas que escuto e vejo os seus poemas. Todos em movimento. Em várias sessões. Os meus favoritos são aqueles à beira da crueldade, um tanto malignos, que se movem rasteiros pelo lado mais de dentro de tudo que há de mais inquietante no meu lado de dentro. E que aí me machucam enquanto transformam as minhas percepções em memórias e em elaboração e resistência estéticas. O Ruído nos dentes é um livro sobre resistir. Resistir de verdade.

“A verdade raramente é compreendida por pessoas sem imaginação”, uma personagem de um outro filme, Os inocentes, dirigido pelo Jack Clayton, diz. Livros também raramente são compreendidos por pessoas sem imaginação, eu digo cá com o meu teclado testemunha das tempestades que atingem os meus neurônios. O livro da Vivian Pizzinga é uma. O Ruído nos dentes é uma rota elétrica, de energia. Quanto mais a gente o lê, mais forte ele se torna e indecifrável e inalcançável como devem ser as obras de arte.

 

Helena Terra é de Porto Alegre. É jornalista, criadora e coordenadora do Grupo de leitura e escrita A palavra tem nome de mulher, dentro do presídio feminino Madre Pelletier, com as mulheres privadas de liberdade. Faz leitura crítica de originais e mentoria de escrita com escritores iniciantes. Cursou a Oficina de Criação Literária, do escritor Luiz Antonio de Assis Brasil, na PUC/RS, e frequentou os grupos de produção e de leitura crítica da professora Lea Masina. Em 2013, publicou o seu primeiro romance: “A condição indestrutível de ter sido”. De lá para cá, participou de antologias e organizou, com o escritor Luiz Ruffato, a antologia “Uns e outros”. É coautora na novela “Bem que eu gostaria de saber o que é o amor”, publicada em 2020, com o ator e escritor Heitor Schmidt. E lançou o seu segundo romance “Bonequinha de Lixo”, em 2021.

 

 

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150ª Leva - 05/2022 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Rani Ghazzaoui

 

Ilustração: Drika Prates

 

Aorta

 

entendo pouco de anatomia
sei da distância dos meus dedos
da densidade dos meus pelos
de quando em quando vêm os meus respiros
em todos os meus apelos
observo meus músculos
ora robustos, ora murchos
o músculo rubro
que bombeia até todas as minhas veias
cada uma das minhas linhas
absolutamente todas
as minhas histórias
não entendo de biologia
mas sei o gosto das minhas lágrimas
a espessura da minha saliva
(ainda mais quando misturada noutra)
sei da minha matéria
sei conversar o amor
por culpa dessa artéria
que me inunda
que me transborda
não me interessam as outras partes
(preciso delas, mas não me são essenciais)
o que me importa é uma saudável aorta
robusta, potente, pulsante
esse túnel que leva a tudo
essa latejante porta
que me deixa sobreviver
que me previne de escrever
morta

 

 

 

 

***

 

 

 

O Pêndulo

 

se eu vier balançando
me fazendo de pluma
ou de pêndulo
por cima da crosta
deslizando
um tiro no escuro
gemendo
te peço que não me segure
que não abafe em mim
qualquer sentimento
não cerre meus punhos
nem imobilize meus membros
preciso de espaço
para ouvir a vida dizendo
deitar num abraço
(ainda que eu gostasse)
não funciona para quem vive
tremendo

 

 

 

***

 

 

 

Só Sei Saber De Mim 

 

não sou uma especialista
em coisa alguma
que não seja
relacionada aos meus próprios sentimentos
não sei construir prédios
as plantas da minha casa sempre morrem
coleciono desamores ao redor do mundo
os amigos que sobraram cabem nos dedos
não sou uma sommelier
de qualquer gosto
que seja assim
tão refinado
me finco nas certezas do meu ofício
de conhecedora das travessas de mim mesma
sei de cor a cor de todos os abismos
que moram dentro do meu peito
não tenho ambições além dos muros
pra fora da minha mente desvairada
jamais quis saber de outros edifícios
menos ainda de qualquer outra fachada
há muitos que usam a vida
pra juntar conhecimento
e saber de um tudo o que há
além das fronteiras do sujeito
eu que não sou mestre em nada
sento na frente do espelho
e num plano de vida traçada
vou decifrando a minha esfinge
do meu jeito

 

 

 

***

 

 

 

Amor E Literatura

 

Derrama em mim teus medos
Conta pra mim teus segredos
Ensopa-me com tuas lembranças
Penetra-me as tuas esperanças
Aloja em meu ventre teus sonhos
Permite-me gerar teus inconhos
Afaga aos meus problemas
Me deixa te escrever em poemas

 

 

 

***

 

 

 

Desastrosa Queda

 

se estamos nos matando
acontece a quatro mãos
em velocidade cronometrada
com capacidade mútua
de execução

sua boca presa à minha
não há registros de ar algum entrando
veias não bombeiam
nem oxigênio
nem sangue

se estamos no buraco
caímos aqui de empurrão duplo
tua mão na minha nuca
o meu pé na tua bunda
um tombo assim cinematográfico

 

 

 

***

 

 

 

Absorta, Semimorta

 

olho
para baixo
vejo meus pés
ensanguentados
já não sei
de quem é esse sangue
se vem de dentro de mim
ou se saiu de vasos seus

o azulejo branco parece pulsar
estamos à deriva
vivendo nesse mar de amar
desço minha mão com delicadeza
coloco o dedo no coágulo
e, antes mesmo de pensar,
levo meu dedo à boca

sugo
chupo
devoro

esse sangue que não sei se é meu
esse sangue que eu sei que é nosso

 

Nascida em São Paulo e naturalizada australiana, Rani Ghazzaoui é escritora, comunicadora, atriz e poeta. Começou a escrever muito jovem — “desde que conseguiu segurar corretamente a caneta” — como ela mesma diz. “Aorta” (Lyra das Artes), seu livro de estreia publicado em março de 2022, é uma antologia de poemas escritos num espaço de quatorze anos, entre 2007 e 2021.”Aorta” está à venda nas maiores livrarias do Brasil, em todos os e-commerces de livros e no formato Kindle através deste link.

 

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150ª Leva - 05/2022 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Julia Bac

 

Foto: Yuri Bittar

 

este poema é sobre uma mala. na verdade, este poema é sobre uma mala que cansei de carregar. talvez este poema seja sobre o peso da mala talvez este poema seja sobre a falta de espaço pra guardar esta mala talvez este poema seja sobre o dono da mala talvez este poema seja sobre as coisas de dentro da mala talvez este poema seja sobre as lembranças que tenho ao ver os objetos de dentro da mala talvez este poema seja sobre as rodinhas da mala que não funcionam talvez este poema seja sobre a minha vontade de não ter mais esta mala. te entrego a mala agora. acabou o poema.

 

 

 

***

 

 

 

como é que eu não vi o espelho quebrado eu não vi o sofá rasgado eu não vi não vi o queixo que se deslocava sem controle eu não vi a euforia não vi as compras exageradas eu não vi não vi a pupila dilatada eu não vi a água do chuveiro que não parava de cair mais um banho eu não vi não vi a nota de dez enrolada eu não vi como é que eu não vi quando esvaziei um papelete cheio na privada eu não vi as ligações fora de hora a voz molhada eu não vi o dinheiro que sumiu alguém me roubou eu não vi a insônia eu não vi como é que eu não vi eu não vi eu não vi eu não vi não sei eu não vi.

 

 

 

***

 

 

 

como Klein
cada poema
é um salto no vazio,
mãe.
cada ano
mais alguns
“o que acharia disso”,
mãe.
há 5 anos
a cada enjambement
celebro o silêncio
como Klein
no seu salto no vazio,
mãe.
continuo sendo aquele
bicho híbrido
meio pato meio pássaro,
mãe.
é isso
por enquanto
é isso,
mãe.

 

 

 

***

 

 

 

a imagem é
de um touro
imenso
nem seu peso
seu porte
ou força
são maiores
que a agilidade
da alcateia
queria ser um
dos lobos
hoje tô mais
pra um touro
sozinho
imenso e frágil.

 

 

 

***

 

 

 

apesar de gostar
de saber o peso
dos alimentos
aqui já não se
compra nada a granel
não vale a pena
também não se
pede porções grandes
nem nada que
dure muito tempo
não levo promoção
2 a preço de 1
aqui é só
pra 1 mesmo.

 

 

 

***

 

 

 

corto um tomate
ao meio fazendo
uma incisão perpendicular
abro a fruta
e vejo que parece
um pulmão
e o que me diferencia
dos tomates
entre outras coisas
é que respiro.

 

Julia Bac (1982) nasceu em São Paulo. É formada em História (PUC/SP, 2004), em Artes Visuais (Centro Universitário Belas Artes/SP, 2009), e mestre em Arte e Patrimônio (Maastricht University, Holanda, 2011). Na área literária, se formou no núcleo de ficção do Curso de Formação de Escritores do Instituto Vera Cruz (SP/2018) e no CLIPE/Poesia da Casa das Rosas (SP/2017). Publicou o livro “duas mortes” pela editora 7letras (2021).