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90ª Leva - 04/2014 Janelas Poéticas

Janela Poética V

Ozias Filho

 

Foto: Nathalia Bertazi

 

nenhuma pedra

(lugar comum
……do poeta)

sufoca a tampa
detém a cavilha
sustenta a pressão

tudo vem à tona

quando os dedos
vão à garganta

 

 

***

 

 

verdade submersa

 

trabalhar incessantemente a mentira da palavra
o discurso viola a abstracção
da boca que o pronuncia
a língua (precoce) permanece hipnotizada no seu túmulo
pelo encantador de serpentes
enquanto a verdade é só saliva no fundo do cesto

 

 

***

 

 

Génesis

 

e no princípio
era o silêncio

e Deus
criou o verbo

e aprisionou para sempre
o silêncio dentro do homem

 

 

***

 

 

as estradas sulcadas na fronte
canais que interrogam
o curso do rio de sal
que não mais turvará o que é cru

enxergar ao longe
remoça a vista
e abre fístulas no peito

 

 

***

 

 

a árvore

 

cai por terra a promessa
de mantermo-nos rijos e inalterados
defronte ao assalto da saudade

cai com a lentidão do frio
quando a roupa é parca para impedir
que a pele queime e estale como as velhas madeiras
na memória das gavetas
casas com prazo de validade

que promessa poder-se-ia manter fiel
diante do perfume suspenso
e que não avisa a hora em que descerá
à memória olfactiva?

que compromisso matemático
podemos assumir com a rectidão dos dias
quando basta uma pedra fora do lugar
uma nota dissonante num trilho de comboio
o ranger dos dentes de alguém a dormir
ou o gosto agreste de um beijo que escrevemos
num argumento
para que se desça do pedestal que nos impusemos?

cai por terra a soberba
a árvore que não tem hipótese
face ao predador

 

 

***

 

 

Liturgia

 

mesmo que seja eu,
no auto-retrato,
à frente do espelho

é no olhar do outro
que determino
a passagem das horas

 

 

***

 

 

o calcanhar na língua

 

a Adriana Calcanhoto

 

eu vou arranhar
o calcanhar direito
de Adriana
tirar o verso da perna

amanhar o verbo da pedra
conjugar o calcanhar
no presente do futuro

eu vou mastigar a palavra
no lado esquerdo da alma:

a cal que desce
o sal que escorre
das palavras
caídas

o calcanhar que fala o silêncio de
Adriana

ela brinca ela brinda
introduz
o verbo que sabe a chão

 

Ozias Filho nasceu no Rio de Janeiro e atualmente reside em Portugal. Sua produção poética contempla obras como “Poemas do Dilúvio” (Ed. Alma Azul), “Páginas Despidas” (Ed. Pasárgada) e “O relógio avariado de Deus” (Ed. Pasárgada), dentre outras. Atua também como editor e fotógrafo.

 

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90ª Leva - 04/2014 Janelas Poéticas

Janela Poética VI

Susana Szwarc

 

Foto: Nathalia Bertazi

 

Uno de otro

 

He visto a la naturaleza complicarse
entre mis piernas,
a la lluvia entrar por mis agujeros e irse
ajena
hacia mares que visitarán los sueños.
De esa agua espesa como lágrima de totem
desparramé algo en mi boca
para que su palabra
“esplendor”
hiciera luz sobre otra.

Hija de mí
había sido la otra y entonces, por más nueva,
más hermosa que retoños florecientes —para mí—
tan amada como el Libro
se fue.
¿Un resguardo para él esa insistencia del don:
su propia letra en la espesura?

He visto a la naturaleza complicarse
entre las ruinas y la propia rabia de perra
entró en mi sueño.

En la fiesta del exilio
—mucho después de la ciudad bombardeada—,
se amparan el lirio, el ojo,
la trama.

 

 

***

 

 

Bárbara

 

Ese cuerpo excesivo
aún después del strip-tease
es tan leve como el mejor
afiche ante mis ojos.
La estética del poster
me hace sonreír
y mecerme en la silla de mi casa
(al compás del ritmo ajeno).
¡Ah! es exactamente igual
que ofrezca Bárbara su carne
-de verdad, de mentira-
para mí.
Su nombre acerca a mi memoria
el poema de Prevert
aunque ella insista: “mirá, también me llamo Sonia
y no hay en mis manos ni crimen ni castigo”.

Pero ninguno de estos recuerdos
sirve esta noche,
ella está allí, quitándose siempre
su ropa dorada, justamente para llevarnos al olvido
y su cuerpo es un mapa perfecto,
un territorio para abrazar,
arrojar monedas,
atrasar relojes.

De pronto ya no sé qué sucede.
No hay ruido de pulseras en la habitación de al lado
y la música que sale de la radio,
la música que despierta a los vecinos,
me afecta el sentido del gusto, la clarividencia.

Un hombre, otro hombre,
abraza a Bárbara.
Bárbara tristeza la del hombre
que la abraza y no apaga así
sus lágrimas de carne.
Pero el llanto es de los dos
y valen nuestras monedas.

 

 

***

 

 

Desvelos

 

Debería estirar la mano y retirar el ojo.
Hablar del cansancio.
Dejar la estación de trenes.
Alzar el velo y llorar.

No reír en el centro del llanto
si tirada en el mar se dejara
en cualquier orilla.

Pintarse la cara con tiza.
Abrir la sombrilla de terciopelo.
Desteñir el vestido.
Desplumar las almohadas: no mirarlas
caer infatigables
desde el vidrio.

 

 

***

 

 

Mas lejos

 

¿Nos bastarán los ojos? ¿Sí?,
¿para decir: hacia dónde (dónde)
va la historia?
Una ventana, sí, un ojo, sí,
para mi pura protesta o tu demanda:
querer más
y el espacio ampliado del libro
la fruta en las bocas.

¿Recordás?, diremos: juntas
hemos visto -y eso es seguro-,
moverse las piernas
de las paralíticas
del malecón.
Milagro de una revolución, dije.
País donde hasta el mudo ( )
mientras me acusan: chiste
histórico, dije.
Y hablaba de otra grandeza.

(Sin embargo, el agua está quieta
y mis muertos miran tu pregunta preferida)

Hacia la piedad mis ojos,
allí donde injusticias
ya no abundaran,
ellos, pobrecitos, daltónicos,
no dejan de avisar.

 

 

***

 

 

Entonces

 

Soltamos las hebillas (del cabello),
de a una
nos soltamos y llega,
ultraleve, desde distintos lugares,
una música que cada vez que se despliega,
abarca el punto de partida.

(El miedo cambiado por otra obsesión.)

-Pájaros en la cabeza- habremos de oír,
habremos de reír, aún después de los Campos,
aún después del Matadero.
En la casa de citas.

(¿Cuántos años hacen falta
para hacer romántico un crimen?)

Un vestido rojo vuela por el aire.

Bárbaras somos
en este anonimato del murmullo.

Porque nos reconocemos, bailamos.
Entonces se olvida el frío.

 

 

Susana Szwarc nasceu em Quitilipi (provincia del Chaco), Argentina. Dedica-se tanto à poesia quanto à prosa e, dentre outros livros, publicou: “El artista del sueño y otros cuentos”; “En lo separado”; “Trenzas”;  “Bailen las estepas”; “Bárbara dice”; “El azar cruje”; “Una felicidad liviana”. Poemas e contos seus têm sido traduzidos em idiomas como o francês, inglês, alemão, catalão, romeno e mandarim.

 

 

 

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89ª Leva - 03/2014 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Adri Aleixo

 

Arte: Leonardo Mathias

 

Dois

 

Por favor,

desta palavra
só o sumo
o gozo
e  o ritmo.

 

 

***

 

 

Lady Godiva

 

Gostava de seguir tendências
leu certa vez em uma vitrine
: menos é mais!
despiu-se do cavalo.

 

 

***

 

 

Rotas

 

Eu seguia rio lento
de certo, meio assoreado
mas manso profundo calmo
conhecidas encostas.
De repente você vem
me irrompe em fúria
me alaga em púrpuras.

 

 

***

 

 

Fonemas

 

Ele inaugura linguagens
no percurso do meu corpo
língua
morfemas
cartografias
e eu sou toda epifanias.

 

 

***

 

 

Leitura

Eu nunca soube de bússolas ou distâncias
nem sei contar luas
apenas aprendi que elas
vociferam
e sinalizam
o corpo:
seio
calafrio
cio.

 

 

***

 

 

Etéreo

O poeta sabe
que todo
verso
tem
fome
de gente
e epifanias.

 

 

***

 

 

Corpo

 

É sempre inverno em mim
e tudo são sinos, tambores
sina
querência de toque
Coisas que
arfam chispam
olhos que leem
regaço
remanso.

 

Adri Aleixo é poeta mineira nascida em Conselheiro Lafaiete, mas hoje vive em Belo Horizonte onde presta consultoria em Linguagens. É graduada em Letras pela UEMG. Possui textos publicados em outros sites e revistas literárias. Escreve também contos e literatura infantil. Publicou em 2014, Des.caminhos, pela editora Patuá.

 

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89ª Leva - 03/2014 Janelas Poéticas

Janela Poética V

Luís Filipe Marinheiro

 

Arte: Leonardo Mathias

 

Devorei pulsos em chamas.
Amplamente o rosto envolto por coágulos de sangue luzidio
a trespassarem as veias estanques como a enrolar
as cores existentes
por dentro.
Certo é percorrerem
todo esse ar
que engole o corpo celeste mergulhado
na textura do nosso corpo temporal.
Fico com as mãos
cheias de ossos trancados.
Levanto
a cauda de um espelho
e alongo as vísceras astronômicas,
com bastante força química,
a dilatar numa circulação sanguínea
até a leveza
da garganta se alagar
na sombra líquida
das artérias
contra o alto esquecimento das coisas profundas,
contra os tendões severos a racharem a boca desvairada.
Relembro quando adormecia
sobre todas as
coisas vivas ou mortas
por fora.
Submetia os lábios
a girarem a voz louca
ao lume pedestre
e ardia pelo estremecimento terrível
dos nervos cabeça adentro,
donde múltiplas
estrelas demoníacas
a baterem-se em mim longamente
param, a pouco e pouco, a potência que nunca me sorriu
e vago ou inocente deixo de caber
nos sítios superficiais
à minha volta.
Releio todas as cumplicidades translúcidas
a moverem toda a pele num feixe de pérolas
das salgadas mãos,
aos braços a escorrerem aquele alimento
metidos nas águas sentadas
no túmulo dessas estrelas tubulares.
A destreza deste poema extingue-se quando as unhas
tocarem na carne abaixo, rompendo,
com sinceridade,
a desvastação simbólica
da escrita furibunda
ou silêncio furibundo
a pesar com delicada melancolia.
Ouço o rasgão
do corpo a sangrar
com os tecidos dos versos
a palpitarem porque se nomeiam
e se escrevem dentro
da pulsação ininteligível.
Por cima,
devoro os pulsos em chamas.

 

 

 

***

 

 

 

fecho os olhos
abro-me nos teus como uma balada impune no seu sangue
oscilante

entretido percorro-te, estremeço-me nas veias singulares
depois com a ponta da língua
afável caligrafia reponho as cordas giratórias

e andas no meu imenso chão
um chão embalado p’los nossos sorrisos de cetim
só teu, só meu a transformar-se

porém nunca a concluir ou terminar salvo esse romance
nada súbito a apertarem violetas durante
jactos perfumados

decerto uma bondade eterna
eis donde chegam os meus afetos

e nas artérias de seda cristal
crias novas meigas cores novos ligeiros ares
novos amantes tons
novos endurecidos ruídos
novo auroreal amor para eu continuar a ver

a ver-te debruçada sobre mar transparente
com veludo de orvalho entre os poros
a ver-nos encalhados continuando a moldar
brancos banhos

como numa nossa gargalhada
a dormir no cume de videntes astros adentro
só dessa maneira
estaremos destinados a tais grandes coisas

 

 

 

***

 

 

 

Uma vez
atei lençóis ferrugentos
aos membros lisos
da claridade daquele céu tatuado,
como deslizava lasso ao longo
da corrente sanguínea
de um qualquer envenenamento.
Após sobrepostas vibrações
retalharem a sombra da minha fechadura.
São terríveis os afetos.

 

 

 

***

 

 

 

houve uma ensinada tarde
em que a luz se esticava dentro de mim

agitava-se cruelmente longamente
e eu expandia sem parar

quando subi demasiado humano
por entre avenidas de escadas povoadas
vizualizava esquecidos sábios
quem seriam? quem serão? existirão?
depois da meditação sentado na última abóbada do planeta
descobri a diferença entre a palavra origem e proveniência

essas asas d’ouros em tudo bizarras
acorreram-me uma a uma amando o vento
retina de minha oriunda consciência

outros arrastaram o espaço do meu concreto corpo
e a profundeza do mar a avistar as feridas palavras

eis que me amarram de ponta a ponta
uma infinita espuma movida por rostos

meu coração recluso do impróprio choro doce
contempla o tempo desafinado por raros
perfumes deslizantes
dessas hirtas pétalas ligeiramente oblíquas
e noctívago danço a sinfonia em que morro loucamente

 

Luís Filipe Marinheiro nasceu em Coimbra, 30 de Julho de 1982. É natural e reside em Portugal, Cidade de Aveiro. Poeta.

 

 

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89ª Leva - 03/2014 Janelas Poéticas

Janela Poética VI

Vanessa Carvalho

 

Arte Leonardo Mathias

 


no inverso da pele,
o universo.

 

 

***

 

 

olhos de sertão:
nunca mais
choveram.

 

 

***

 

 

sobre telhados,
entre pipas e casas
os meninos
sem morada
querem
estar mais perto
de um céu.

 

 

***

 

 

partem
e nos
partem.

 

 

***

 

 

só,
desabotoa a pele
e fica
alma.

 

 

***

 

 

o verso
riscado no chão,
era pisado,
ninguém via.
até
que um cabisbaixo
o leu um dia.

 

 

***

 

 

havia saudade,
mesmo estando
na mesa,
sentados
frente a frente.

 

 

***

 

 

o jazz
que toca
o toca

sozinho
na mesa
não está
tão só:

saudade
no mesmo tom
do sax
que entra e
percorre
sem pressa
toda a
anatomia intergaláctica
do interior

e não sai

saudades
deveriam ir
na bagagem

 

Vanessa Carvalho mora em Recife e às vezes no Filosofia de quinta.

 

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88ª Leva - 02/2014 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Ana Peluso

 

Foto: Ozias Filho

 

Narrar os pequenos acontecimentos do dia
uma lâmpada que queimou
um conceito lógico sobre a fofoca
cheiros e temperos
a salvação da humanidade
se um novo mar abriu
-se em óleo
os erros mais comuns da ortografia
se os pássaros aprenderão a fugir
se a ciência chega a tempo
se virão tropas de choque
e colidirão imagens sobre todas as cabeças
o ouro das imagens sobre as cabeças

em um dia comum de pequenos acontecimentos
homens negociam
ideias de enriquecimento

homens como novelos
de uma lã tão tosca

 

 

***

 

 

Muros gelados
como aqueles que separam almas
muros gelados
na polônia gelada
na pelada gelônia
no meio de auxivitiz
no meio de nothingtrix
no meio do nazix
morto – ?
ora, não nos condene por perceber

 

 

***

 

 

Não fiz as unhas esta semana
gastei-as
percorrendo teclas eternas
formulando perguntas
serrei-as
clicando em cores
formatando
a métrica
da ideia
da busca
de soluções

montei estruturas sem luxo
anéis de saturno
circulares
paralelos
em eterno movimento
olhei-as buscando a palavra
o sentido exato
risquei a pele
na ânsia por respostas

apoiei-as na língua
entre os dentes
e meu olhar se congelou num ponto
o limite

indignada, cortei uma delas
com uma mordida

 

 

***

 

 

Refém do primeiro verso
a palavra não encontra mais caminho
verbo
não concretiza mais destino
ponto
não aborda reticências
vírgula
não carrega interjeições

não há sujeito
nem provas que houve
o artigo não define mais nada
ou indefine

metáforas
métricas
rimas
elipses
são só dores fantasma

estrofe perdeu a língua
ninguém cogita resgate

 

 

***

 

 

A incapacidade de compreender o furacão
quando falta o ar
e a devastação é a respiração da terra

 

 

***

 

 

Fizeram do poeta uma estátua
parada na orla de uma cidade
que não é Itabira

fizeram do poeta uma pedra
parada numa rua
que não é um caminho
fizeram do poeta um ser calado
como sempre fora
e sozinho

agora repouso metamórfico
metálico
de partículas filosóficas do ar
que o rodeia

ele não ri nem de soslaio
antes odeia

 

 

***

 

 

Intergentes falais
por códigos análogos
semiólogos espiais
pela espinha e sob o dorso
do dragão
a curvatura de um código-fonte
subdesenvolvido para ser manipulado
num grande laboratório de códigos-fonte

epistemólogos e matemáticos decifrais
se o movimento
qualquer movimento
é concebido a priori
se for
e de fato parece ser,
juristas compadecei-vos
das inúmeras rédeas sem dono
que constam nos autos

e
poetas
afundais
porque já é ávida
e movediça
a lavra da palavra
cuja grafia começou
ontem

 

Autora do livro 70 poemas, Ana Peluso, 1966, abandonou Letras e Psicologia pelo Desenho Publicitário. Não deu certo. Aos treze anos sonhava ser Alquimista. Aos cinco, Bailarina, Pianista, Pintora. Aos sete, Professora. Costumava reescrever Novelas mentalmente. Livros, jamais. Catalogava Folhas colhidas na Rua. Esculpia Bonecos em borracha, Papel e batata. Imaginava um mundo feito de Palitos de Fósforo. Escrevia Diários. Hoje faz Sites em html1, retrô-total. Sempre foi Pisciana, só Parece que não. O livro 70 poemas integra a Coleção Patuscada, premiada com o ProAC – Programa de Ação Cultural da Secretaria de Estado da Cultura de São Paulo.

 

 

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87ª Leva - 01/2014 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Fernanda Pacheco

 

Ilustração: Vera Lluch

 

prazer, você

 

dentro de mim mora o infinito
e dos olhos pra fora,
um íntimo enquadramento
do desconhecido,
da ilusão condicionada
e consumida pelo hábito do absoluto
que desobedece minha imaginação,
tão genuína e desabitada.
isso me acostumou a ignorar os detalhes,
fez do meu corpo aliado do tempo,
calou meus sentidos
me colocou os olhos de outro
que nunca me reconheceu
e eu solucei por isso:
por ter me reconhecido
como se eu tivesse nascido postumamente.

 

 

***

 

 

marcha da cronocracia    

 

as árvores de raízes velhas
marcham na pista molhada.
as velhas cobrem o rosto,
viram as costas pra puta calada.
a intransigência disputa espaço
com o bafo do inevitável disparate,
do desassossego que me aponta o dedo,
que me crava a alma no ponteiro.
cada moleque de pé no chão
já me afronta com a rouquidão de um reencarnado
enquanto eu deformo meus dedos
com golpes de ansiedade.
por mais que viver seja um alento em hipótese
o regresso do mundo cão é evidente:
agora parou um homem cego
me pedindo em nome de deus uma aguardente,
implorando por um sono que dure pra sempre.

 

 

***

 

 

Em nome do santo

Meu desejo é a falência do tempo,
A cristalização do escorrimento da vida,
O estancamento dos passos dados absortos no fim,
A conformidade com as injustiças do tédio.

Multiplicam o silêncio em troca de conhecimento
E alcançam o fundo do poço num grito errante
Que não satisfeito com a agonia de ser sozinho
Cava ainda mais fundo com as mãos o prelúdio da morte.

Não há crítica que perfure tal desolamento.
A dor deixa de se superar para virar rotina
E o que ultrapassa a retina cansada
É o reflexo de uma luz incompleta.

Imagino a solidão como a finitude do mar
Num dia frio de abandono da vida
Deitada na fronte encolhida
Aguardando a eternidade do ponto final.

 

 

***

 

 

sem título

 

de copo
em corpo
amo
e sofro.

 

 

***

 

 

A culpa é do Chet Baker

 

Seu rosto é todo neblina.
Apaga esse cigarro.
Deixa que eu me apago
Sozinha.
Agora vê se destoa de mim
E não me encare à toa.
Que embaraço essa coisa
de ter que amar como quem adivinha.

 

 

Fernanda Pacheco é professora, tem vinte anos, mora em São Paulo e é formada em História. Seu primeiro livro de poemas, “A culpa é do Chet Baker”, será lançado pela Editora Patuá em fevereiro. Admira a crueza, o desequilíbrio e o improviso da poesia. Sua primeira publicação saiu pela revista Mallarmargens.

 

 

 

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87ª Leva - 01/2014 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Carina Castro

 

Ilustração: Vera Lluch

 

Cartográfica

 

de distâncias traçadas entre sonhos
passos e pousos
redimensiono o interior do meu interior
e a brevidade entre pensamento e pensamento
não acompanha o vagar do corpo
entregue ao manejo da maré
nem o vagar da garrafa ondulando sobre os dias
entre soluços de bêbado e pranto
encontraste a carta, mas não entendeste a letra
e não há legendas, coordenadas, vozes,
mapas para minha memória
dói fundo a longitude de meus garranchos
perdidos no efêmero de um idioma
ilegível entre latentes caligrafias, alfabetos
e não vês no céu
a constelação com meu nome
não podes ler minhas mãos
e latejando minhas letras dizem
teu futuro, te dão leme
leem tuas digitais
no leme, no copo, na garrafa
só não traduz a lancinante latitude
do teu entendimento

envias de volta um papel em branco

 

 

***

 

 

Esfinge

“es el espejo que devora espejos”
(Octavio Paz)

 

esfrego entre minhas mãos a memória,
e ela não se esfarela

avisto o abismo, mas ele não cabe em meus olhos

minúscula perante a esfinge, circundo-a
e me perscruta a sensação de que desmoronará
sobre mim a qualquer momento

erige-se um rosto em meu destino,
um rosto ancestral e desconhecido
tateio de cisma embotada

afunda-se um corpo estranho
em meu pensamento

entra-me pelos olhos signos minerais,
ciscos na alma

por que o vento não te leva?
que raízes invisíveis te prendem ao tempo?

move-se a paisagem frente seus olhos fixos
mas é sempre a mesma a paragem
de onde repousa, reina e observa
não sei o quê

uma boca alada se aproxima

minha boca está muito seca
me dissolvo em sua saliva

 

 

***

 

Miragem

 

podem-se alongar as retinas ao infinito
e ver a estrela que brilha no peito de deus que nem existe há tantos anos luz
ver a poeira cósmica se levantar sob os pés rachados na fenda de uma ilusão
arder nas têmporas o desejo que a vida seja leve e se satisfazer com o silêncio

não notar o peso da bagagem, ter as mãos livres, ter os sonhos pássaros
ter os pés náufragos num mar de bálsamo, afogar as mágoas num mar de rosas, beber a                                                                                                                                                                                                        [sede

cair como pluma, ancorar o corpo às nuvens, e no impacto com a terra abarcar o universo

ir além
ver poesia

 

 

***

 

 

Caravana

 

homens e mulheres
passaram pelo buraco da agulha

e a caravana percorreu os tempos
os solos
as línguas
os olhos

no infrutífero de sombras, quedamos plantados
esperando a queda dos frutos
o repouso dos corpos

esquecemos os pés

pelo túnel  da garganta
perpassavam vozes velhas
memórias amornadas

arrefece-nos as pálpebras

os retalhos estão impecavelmente membrados
e as mãos já esperam por afagos e fuga do trabalho

mas de longe se vê que não se trata de apenas
um tecido

[o sol levou o calor consigo, e a noite
nos impõe cobertos]

e que importa se somos indistintos?
na beleza nos atemos

 

 

Carina Castro (SP, 1988) é poeta e pesquisadora na área de Literatura Comparada. Escreve também Literatura Infantojuvenil, com um conto que recebeu o Prémio Lusofonia de Portugal (2012). Estudante de Língua e Literatura Árabe na USP. Assina a coluna Infante Ingente na Revista Ellenismos. Reminiscências do mar a embalam a estar perto da poesia, do canto, do sopro, orientar-se pelo que diz o desconhecido. Estes poemas integram Caravana (Editora Patuá, 2013), seu livro de estreia. Coleciona e escreve algumas coisas em Tudo é Coisa .

 

 

 

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87ª Leva - 01/2014 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Ana Elisa Ribeiro

 

Ilustração: Vera Lluch

 

 

Peças em pau-marfim

 

A linha dos olhos
faz flechas
da cor de futuros

As mãos formam conchas
de pegar contentamentos

Os pés são grandes
como as telas
holandesas realistas

O corpo inteiro
é um tabuleiro
de jogar jogos de azar

As costas quadriculadas
As coxas quadriculadas
A boca quadriculada

Onde eu me finjo
de dama

 

 

***

 

 

Raso

 

Não me movo
neste espaço
por acaso.

Entre um lado e outro
destes braços
tem um raso.

Ímã, fivela, argola,
nada disso
cola.

 

 

***

 
Desvão

 

desvão esconso
tonto

cérebro torto
corpo oco

seu rosto flagrado
no topo
no cume mais morto

do meu próprio
torso
em fogo

 

 

***

 

 

Crise

 

É sempre por dois trizes
Que desistimos dos passos
Dos dias, das tentativas

Sempre por um triz de perder
E outro de ganhar
e não saber manter

 

 

***

 

 

Foram pingando umas estrelas no céu preto
Pintando umas nuvens no céu breu
Uns desassossegos, entreveros
Você, o abismo e eu

 

 

Ana Elisa Ribeiro é mineira de Belo Horizonte e faz 39 anos em 2014. Publicou Poesinha (Poesia Orbital, 1997), Perversa (Ciência do Acidente, 2002), Fresta por onde olhar (InterDitado, 2008) e Anzol de pescar infernos (Patuá, 2013), todos livros de poesia. Tem poemas em diversas antologias, no Brasil, em Portugal e no México. Na crônica, publicou Chicletes, Lambidinha & outras crônicas e Meus segredos com Capitu, pela editora Jovens Escribas. É professora do CEFET-MG.

 

 

 

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85ª Leva - 11/2013 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Fred Matos

 

Arte: Julia Debasse

 

 

cangalha

 

jamais me perguntei
porque tenho apascentado esta manada
cujos olhos perfuram meus silêncios.

gostava que não me apertassem o pescoço
nem que me exigissem manter limpos
os meus sapatos de mármore.

mas nunca, jamais, nenhum pio.

caminho ereto e sorridente como um asno
cuja felicidade é a ausência da cangalha.

contudo, tenho intimamente gritado
que todos os meus sonhos se diluem
como a neblina após a alvorada.

mas não.

estão todos surdos
nunca serei ouvido
exceto na opacidade dos meus olhos
cobertos de musgos.

 

 

 ***

 

 

balada para uma advogada

 

imagino-te imersa em códices
e que enquanto o cérebro decodifica
as filigranas de um processo insosso
a alma mergulha em outro vocabulário

as páginas voam
uma mão rascunha o contraditório
a outra, cotovelo sobre a mesa,
apóia a levemente inclinada face

há que verificar jurisprudências
precedentes que se ajustem à tese
e que tudo se cumpra no devido prazo

a alma, contudo, alheia, tece
sonhos, poemas, outras doutrinas
contraponto ao que o cérebro messe.

 

 

 ***

 

 

 entre mim e mim

 

“Entre mim e mim, há vastidões bastantes
para a navegação dos meus desejos afligidos”.
Cecília Meireles

 

não sei quem destes
tantos sou agora
se o que ri,
se o que chora,
se o que não chora nem ri,

mas pouco importa porque
qualquer deles sou passageiro
tenho neles
a dimensão do mundo inteiro
tendo todas as idades percorrido

 

 

***

 

 

balé

 

tenho um mundo sobre os ombros
e ânsia de navegar
mas rasgaram-se as velas
e sobre pálpebras de pedras
sal sol suor
mas não há mar
mais não há
apenas este peso nas pernas
e ânsia de caminhar
mas quebraram-se meus ossos
e sobre as nossas cabeças
um balé de poréns
senões e todavias
e girando como um pião
na velha arca de vidro
uma constelação de sins
uma nebulosa de nãos.

 

 

***

 

 

o verbo

 

a percepção é farol
devassando mistérios
palavras são silhuetas
luzes bailando nas trevas
o poeta um velho cego
tropeçando substantivos

e o verbo…

ah! o verbo
um tirano sem coroa
sem trono, manto ou cetro
e que, no entanto,
voa.

 

(Fred Matos é baiano, casado, três filhos, dois netos, três livros publicados: “Eu, Meu Outro” (Poemas – Editora Poesia Diária, 1999); “Anomalias” (Editora Kelps, 2002 – Poesia) e “Melhor Que a Encomenda” (FUNCEB, 2006 – Contos), além de outras participações em antologias)