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83ª Leva - 09/2013 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Mariana Ianelli

 

Ilustração: Denise Scaramai

 

ANDALUZ

 

Vaga pela terra, filho trágico,
Com as tuas duas mãos livres.
Furta o colo das putas,
Escuta o ventre delas exausto.
O retorno sempre admirável de Sarah
Te conduziria àquela velha madrugada de amplidão.
Mas afasta esta necessidade, filho.
Quem uma vez mudou seus sinais correspondentes
Não voltará de pronto.
Nenhuma reparação, não há nada.
No mundo, cotidianamente, andarás sem teu coração.
Por cinco anos andarás, cismando com tuas faltas.
É preciso que seja assim.

 

 

 

***

 

 

 

REMINISCÊNCIA

 

Esquecemos o tema.
Ele fende a madeira, bordando delicado as arestas,
Eu trato a colheita debaixo do cordão da aragem.
Nada nos pertence – últimos mandamentos,
O dever e o tédio dos dias,
Famílias lendárias, ironia.
Estamos de volta à beira dos mundos
E sob o pano se aquieta a razão
Da nossa continuidade secreta.
A geada bate na terra, desatina as séries da fome
E nós não desanimamos.
Todo o tempo pela coragem da maior renúncia,
Todo o tempo de hoje arrancado de falsas glórias.
Ele talha a madeira, aparando com bom jeito as margens,
Eu escolho as raízes, separo a polpa da casca.
Alguma diferença em nós
Surpreende a imprudência da fuga,
Um mistério não comentado,
Uma ambição impedida de voltar ao passado
Que tínhamos matado no tempo por um golpe de sorte.
Não perguntamos pela mãe deixada na ponta da história.
Assim foi resolvido.
Mortos, quebrados ao meio.
Revemos os exércitos calmos,
A conformação de milhares, o vírus temerário.
E nenhum reconhecimento é nosso:
A cela terrível dos anos, o verbo régio da tradição.
Na tarde isolada do terceiro dia,
Nós renascemos do ácido.

 

 

 

***

 

 

 

Ignoro se tu és capaz de voltar.
Quero a novidade de tua ausência
Com uma paixão sem calor que mais aumenta
Quando tento vencer a realidade.
Sou a paz em que acredito inutilmente
E ainda sou a vertigem desta paz.
O desejo de que tu compareças
Não dura em mim do mesmo modo que tua imagem,
Que tua forma irresponsável de mover-se
E se despir e descansar no meu passado.
Tu permaneces aqui sem teu corpo
E, pensando no oculto, eu abandono a existência
Para me deitar no lago das carpas.
Teria sido o final de um verão
E não o tempo em que te foste
Se em vez de amando eu estivesse louco.
Tu vives no propósito de minhas ficções:
Uma terra deserta, estável e mansa.
Nesta hora em que desapareces do meu sonho,
Também eu, predador de tua alma, vou com os mortos.

 

 

 

***

 

 

 

VÉSPERA

 

Há sinais
Que os teus olhos não veem,
Mas neles já se espelha um rio
Desde a outra margem.

Uma náusea das manhãs
De outras manhãs
Começa a distanciar-se
E o que te parecia imenso
Se acantona
Num espaço mal sonhado
Da memória.

Voragem,
O teu nome se descobre
Feito de estranhas vogais
– Um nome
Que jamais conteve
Toda a tua história –
E o que era eterno se ausenta,
Em tudo à espera
De uma nova eternidade.

Esse tremor
Que o teu bom senso não evita
(Não pode evitar a tempo)
Quando roça o teu braço,
Asa de corvo, um certo hábito
Absolutamente livre,
Morto de significado.

 

 

 

***

 

 

 

MIRADA

 

Uma tarde amarela
E dentro a parede rasgada
Já sem as altas janelas
De onde se via lá embaixo
A conversa das estátuas
Com seus olhos de pedra
Infinitamente ausentes
De se haverem voltado ao passado.

Não ficou uma só alma atrás da porta
Nem as portas ficaram.
Os gradis, as lanternas, os pilares,
Foram-se as barricadas.
A vida agora acontece em outra parte –
Era a mensagem, e parecia leve,
Translúcida na tarde amarela
Feito uma casca de cigarra.

 

 (Mariana Ianelli nasceu em São Paulo em 1979. É poeta e mestre em Literatura e Crítica Literária (PUC-SP). Publicou os livros de poesia Trajetória de antes (1999), Duas chagas (2001), Passagens (2003), Fazer silêncio (2005), Almádena (2007), Treva alvorada (2010), O amor e depois (2012), todos pela editora Iluminuras. Breves anotações sobre um tigre (Ed. Ardotempo, 2013) é sua mais recente obra. Tem poemas publicados em Portugal, Espanha, Cuba e Argentina. Em 2008, recebeu o Prêmio Fundação Bunge (antigo Moinho Santista) na categoria Juventude. Em 2011, obteve menção honrosa no Prêmio Casa de las Américas (Cuba) pelo livro Treva alvorada)

 

 

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81ª Leva - 07/2013 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Alberto Lins Caldas

 

Ilustração: Mario Baratta

 

assim a dor o sofrimento

 

assim a dor o sofrimento
sob a língua é só deserto
entre os dentes o q sobra

se perguntasse – o vazio
se negasse – só o vazio
se dissesse – não sabia

todos esses tão perfeitos
não sentem fome – a fome
essa satisfeita com osso

todos esses são felizes
?os q sofrem são de carne
então por q não se devoram

todos na mesma sombra
todos na mesma crença
uns na brasa outros rindo

só vivemos nessa dança
só bebemos esse cálice
sal q tempera a morte

 

 

***

 

 

é preciso

 

é preciso
muito mais superfície
pra dizer o essencial

mais ondas
e em todas essas ondas
o mar

não o ruído
mas todos os ruídos
enfim o tecido e o rato

jamais o silêncio
mas todos os silêncios
só assim o não

é preciso esquecer
tão completamente
q  nem sei

depois estarrecido
tocar a máscara nua
assim o corpo sabe

não apenas o entre nós
o jorrar dentro e além
mas a ferida e a hora

agora é sempre
por isso não se afaste
não há tempo a perder

 

 

***

 

 

não sabemos eu e o imperador

 

não sabemos eu e o imperador
como tudo isso começou
como brasas pegam fogo

como nossa paz nosso bem
nossos servos se transtornaram
e tudo quer nos destruir e apagar

não sabemos qual a hora o lugar
o momento preciso em q a onda
a onda se tornou esse mar

não sabemos eu e o imperador
se haverá futuro ou bem querer
pros nossos os nossos bem amados

temos medo dos metais afiados
enquanto escondemos os pesados
bem longe desse mundo q aderna

não dormimos há tanto tempo
q o sono nos domina e prende
enquanto eles devoram tudo

 

 

***

 

 

correr pela treva

 

correr pela treva
chamando o q passou
é fogo morto é fogo fátuo

chamar os vivos os homens
por um desejo q não é deles
é fogo morto é fogo fátuo

querer a clara chama
quando tudo é escuridão
é fogo morto é fogo fátuo

admirar essas coisas
o q se dispõe como gente
é fogo morto é fogo fátuo

gritar assim tão infeliz
quando ninguém pode ouvir
é fogo morto é fogo fátuo

o q não jorra da violência
essa bruta potência entre nós
é fogo morto é fogo fátuo

 

(Alberto Lins Caldas publicou os livros de contos “Babel” (Revan, Rio de Janeiro, 2001) e “Gorgonas” (Cepe, Recife, 2008); o romance “Senhor Krauze” (Revan, Rio de Janeiro, 2009), o livro de poemas “Minos” (Ibis Libris, Rio de Janeiro, 2011) e colabora em várias revistas literárias e blogs de literatura e arte)

 

 

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81ª Leva - 07/2013 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Iolanda Costa

 

Ilustração: Mario Baratta

 

De joelhos

 

O amor cãibra sobre o assoalho
dá voltas em torno da sua inadequação
e rala os joelhos.
Não transita. Não se ergue.
Não se transforma em a asa ou em barco.
Da porta mesmo volta
e macera.
Ele é aprisionado no corpo, o amor
e quase nunca conhece
a maneira dos pássaros.

 

 

***

 

 

Subtraído

 

teu coração de exíguo
e indefinido amor
descansa entre um domingo e  outro
põe a água para ferver
e esfria.
não espera o equinócio, o saldo
o próximo aniversário
o cabelo crescer pelas costas
enquanto vaga nas proporções
e quedas previstas pela exaustão.
meu coração
sobrancelha sobressaltada
no teu vulto
“cogito, ergo sum” sem a prova dos nove
meu batom terra glaise 74.

 

 

***

 

 

Acordo

 

não lhe faria mal algum pela manhã.
deixaria o saldo
………………. ….o ocaso
o escaldo da colheita
………………….tardia e enunciada
e a centena de mal-traçados
escritos em breves
e em permanentes polissílabos.
me devolveria o livro
…………………………….o centauro
a minha concuspicência.
sem olharmo-nos.
com o distanciamento
recomendável
aos que se amam em demasia
e se arremessam.

 

 

***

 

 

Anímico

 

anuncia o princípio anímico
e todas as coisas se enchem
de alma.
vela o Verbo
espia a pena
ratifica as Escrituras, o Talmude,
………………………………………………o Tao.
Deus imana e eu amo as hortaliças
de verde enluarado.
e o centeio e o peixe e o orvalho
e  a pedra e  a trovoada e a magnólia.
tudo exala. nada transcende.
o vácuo é composto de falenas.

 

 

***

 

 

Vigília

 

Havia ternura:
a cor da fruta
sombreava as palavras
o cavalo-marinho
ia de amarelo
e sem ver
todos os nossos braços
suspensos em tempo irregular
de afago e festa.

Então, reiventarei
por necessidade
novas guardas.
Trazes o crisântemo
e a ófris esquecida
e a alma
desalinha-se no leito:
minhas horas são feitas
de inseguro tear.
Antecipas o agosto
em tempo hábil
e o talha em jaspe:
a melifluidade
do amor raro
resvala na pedra.
Tuas mãos cheiram
a silício e abandono.

Nenhum louva-deus.
Nenhuma flor imprevista
salta das letras.
De madrugada
assim tão tarde
nem as tangerinas maduram
e nem o céu responde.
Tua metafísica monitora
o fólio, a promissória
e a minha poética insiste, azul
como anil dissolvido na água.

 

 

***

 

 

Amarelo Por Dentro

 

A tua letra é amarela
como a nêspera, a gema
o fruto em véspera e ocre
saltando da árvore, da página
da costura no dobrado do paletó.
Devolveu-me a vida enquanto escrevias
e sublinhavas o termo, a epígrafe
a semântica clara de cuidados.
Trouxeste o castiçal, o sol
a lâmpada
a última literatura.
O teu amarelo a escorrer-me, por dentro.

 

(lolanda Costa (Itabuna-BA) é graduada em Filosofia e especialista em História Regional. Editou, artesanalmente, folhetos de poesia Às Canhas as Palavras Realizam Mil Façanhas (1990), A Óleo e Brasa (1991) e Antese (1993). Tem poemas publicados em jornais, antologias e blogs. É autora de Cinema: Sedução, Lazer e Entretenimento no Cotidiano Itabunense (2000), Poemas Sem Nenhum Cuidado (2004), Amarelo Por Dentro (2009) e Filosofia Líquida (2012))

 

 

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81ª Leva - 07/2013 Aperitivo da Palavra Destaques

Aperitivo da Palavra I

SUTILEZA ARDILOSA

Por Rejane Machado

 

 

A poesia de Oleg Almeida, belíssimo texto, fluente como o rio de Heráclito, no qual homem algum se banhará duas vezes, permite muitas interpretações: é difícil. E difícil não quer dizer hermético, o sentido desta longa e informal reflexão, na qual afloram lembranças de que não se pode libertar, que cortam como estilete agudo e incômodo, e cada vez que se move enterra mais fundo e sangra, inundando o coração de imagens dolorosas. Ao tentar livrar-se, muito mais se maltrata, magoa-se, acordando recordações vivas de vozes e gestos perdidos na distância dos tempos.

No íntimo vive ainda – e viverá para sempre, pelo milagre da permanência da palavra – o herói que foi, de quem sente saudades. Deslocamentos constantes trouxeram-no para nós, sempre em busca da terra ideal, da pátria perdida e distante no espírito do homem que é salvo pela poesia, mas incapaz de esconder as cicatrizes das quais jamais se libertará, porque foram impressas na alma a ferro e a fogo.

Texto belíssimo, que não se oferece fácil, ou melhor, que permite muitas leituras, entre elas uma aparente, e outra, mais difícil ou impossível de ser desvendada, sob o signo de uma tristeza mansa.

Perpassa uma poderosa imagística nessas cores que desdobram imagens nítidas. “Uma gota de tinta lilás”, na ponta de uma pena, abre um portal para a filosofia com seus questionamentos sobre um tempo que não pode ser medido convencionalmente. Cerejas e papoulas vermelhas, o amarelo, o verde, o preto, o azul nos olhos da inesquecível avó, e finalmente o branco, a fusão de todas as cores, colocando num mesmo plano imaterial toda a massa pesada das experiências que moldaram sua personalidade final, motivo da sua indefinição enquanto indivíduo.

Numa primeira e superficial leitura observa-se explícita memorabilia. Sabendo-se que veio de longínquas paisagens, de frias e intensas névoas, que não foi capaz de “abdicar do sonho em prol da memória”, isto permite ao analista vários caminhos de abordagem. Confessa trazer dentro de si um mundo: um sítio impossível de localizar no meio de uma campina – cujo nome a memória rejeita – coberta de flores exuberantes. Mais tarde identificaremos essas flores que enfeitam esse espaço sem nome, onde viveu sua infância e começou a plasmar sua personalidade. São papoulas vermelhas. E saberemos: há frutos também; cerejas maduras, suculentas, pretas e vermelhas. A se destacarem como mancha colorida sobre este campo impossível de nomear.

“Quem sou?” – questiona-se, indaga em longas lucubrações mentais, em muitos e profundos mergulhos interiores, num corte vertical à procura do verdadeiro eu. E o encontrará? Homem algum é singular, e ele se reconhece múltiplo. Definir-se é importante, lhe concederá segurança. Chão para pisar. A infância é o território mítico que dará suporte à envergadura do jovem, do guerreiro que é preparado para as lutas que o esperam e não o pouparão na escalada em busca de sua realização humana. Mas essas vivências intensas serão sua reserva e segurança quando tiver que deixar o espaço protegido para enfrentar os mares bravios que o aguardam ao Norte, nas tentativas de regressar a Ítaca, ele, um ser hiperbóreo. Na alma levará marcas indeléveis. Adquiridas nessas excursões comandadas por Khronos X Kairos em confronto, meditando, em consequência, longos poemas intimistas. Como se cavando fundo na memória, material de que se utiliza para uma viagem ao âmago de si mesmo em busca de claridade para ver a luz (para ficarmos no clima filosófico que será sempre a sua escolha de voo). Não qualquer luz, mas uma luz “olímpica”, clama ao Senhor, porque deseja iluminar grandes feitos, e pede lhe conceda calma; talvez para organizar o grande conteúdo mental que guardou de uma vida rica e descuidada, incapaz de prever a hecatombe que daria fim ao seu amável mundo (Khronos em atividade).

E, através de uma caminhada existencial por estes dois tempos completamente antagônicos, descobrirá sua vera persona. Em oposição estão o tempo do não-ser e o tempo da realidade transubstanciada em experiências do possível imaginado, enquanto ente movido por várias dimensões que correspondem a toda sua trajetória humana.

 

Oleg Almeida / Foto: arquivo pessoal

 

E então já dispomos de alguns elementos para o esboço que perseguimos: é alguém que diz chamar-se Crates e ser natural de Tebas. Entretanto, mostra-se um desconhecido (pois indaga sobre quem é!). Insatisfeito, procurando definir sua identidade, realiza um longo mergulho interior à procura da sua verdade: a meninice feliz, as figuras inesquecíveis, marcantes, deixando na alma, impressas, influências benfazejas que formarão o arcabouço desta definição e o farão concluir – sou um homem. E um homem, sabemos, é a medida de todas as coisas. Mas para que o desvendemos, é dizer pouco.

A partir daí será um fugitivo, concluímos, que se acoberta sob uma personalidade angustiada que sofre “saudades de um Éden desmoronado”. E uma ligeira vista por outras páginas desvendará a razão do seu estranhamento: as muitas lutas, as imensas perdas e por isso “a morna tristeza que (o) borrifa”. Que perpassa esse texto sutil e fortemente marcado por melancólicas e pungentes lembranças. Ao acaso, deslindamos outros enigmas. Sua origem longínqua, vindo de um país ao Norte, razão por que se denomina “um hiperbóreo”; habitou, crédulo, uma cidade varrida do mapa pelos romanos, na exacerbada ambição por aumento do Império, apesar dos avisos do onisciente pai que previu a derrocada da Grécia. Viu ruir o mundo antigo, seus habitantes feitos escravos, cerca de dois séculos a.C., e no retorno a Corinto atravessou o nebuloso período da juventude, viveu sagas que lhe permitiram ingressar no mundo adulto (Kairos, um tempo sem medida).

Sob forte clima sinestésico, onde as cores e os gostos têm papel predominante, desfilam visões nas telas do espaço vivido e projetam-se para o futuro, quando suas lembranças habitarão o território do que foi. Assume-se um heleno, habitante de Corinto, já sabemos, e vivencia experiências fabulosas, patrocinadas pelo próprio processo de existir: a ilusão da maturidade, incluindo armadilhas; incorporando Midas, sentindo o poder da posse material com toda sua carga de equívocos não estranhos ao amadurecer. São indícios ainda nebulosos para nós que buscamos conhecer este que se oculta por trás dos disfarces da poesia. O poeta, afinal, segundo Fernando, o Pessoa, é um fingidor.

Teimosamente procuramos acompanhar essa trajetória poética inteiramente marcada pelas referências eruditas de um mundo perdido, entretanto real a partir de figuras míticas, de aventuras de antigos heróis que, a bordo de antigas embarcações, cruzavam o Mediterrâneo, levando um jovem. Que, deixando a segurança da torre onde guardou o que de mais caro a vida lhe deu, sabe cultivar aquele tesouro que é a fonte de toda sua inspiração neste novo tempo (Khronos) em que se define como Oleg Andréev Almeida e escreve um poema único em quase setenta páginas, tentando livrar-se do peso memorável. Dividindo a emoção que do contrário o subjugaria irremediavelmente. Nesse território onde a morte não tem poder, as coisas em sua frescura e nitidez se oferecem, “o vinho caro na geladeira, a mesa e a poltrona de palha” do tempo de agora, como também a lembrança viva das pessoas que se preservam para sempre. O acesso é restrito, entrada negada a estranhos, mas ele, parte deste mundo preservado, poderá voltar quando queira, e encontrará um riso amigo da avó, um companheiro sempre disposto a embarcar numa trirreme ou fazer velas, chegar a cidades perdidas – através dos livros, através das grandes epopeias, ir e regressar de acontecimentos que revivem etapas, seja no Egito, na Grécia ou noutro lugar qualquer ao longo do Mediterrâneo, integrar-se nelas, ser um natural e praticar atos comuns à época, tais como comerciar com grandes capitalistas de épocas remotas, gastar sua bolsa em tabernas vulgares com bebida e jogo de dados, desfrutar de prazeres baratos e sem poesia com hetairas vulgares, passar por sustos e perigos de salteadores que por sorte o libertaram, após despojado daquilo que o fazia sentir-se dono de metade do mundo e em seguimento o reduz à expressão mais simples do despojamento e da carência. Sempre os dois tempos em luta a determinar o destino de um homem.

Empreender batalhas, desbravar espaços desconhecidos, desvendar territórios ignotos, tudo são experiências a somar e refinar o espírito, ritos de passagem para a madurez. Algumas vezes vence, noutras é dominado pelas Fúrias atentas ao pêndulo da sorte. Mas estes confrontos com o lado sórdido e sem poesia da vida o fizeram crescer. E sempre regressará à sua Ítaca, ferido, coberto de cicatrizes, mas de alma íntegra, porque foi bafejado por Orfeu que lhe ofertou, ao nascer, um presente inestimável: uma lira de onde tira as mais belas notas. Isto o defenderá do canto das sereias que não conseguirão distraí-lo da rota que traçou, passando ao largo da ilha maldita onde perderia sua alma, mas que o surpreendeu quando ali encontrou, deus que era, uma bela mortal que o fez desistir da sua condição divina e o trouxe para “um país singular”, terra dominada por Phebo, cuja bandeira reproduz “um losango e uma esfera”, a qual assumiu para sempre.

E a nós cabe lamentar pelo fracasso em desvendar esta poesia belíssima quanto estranha. Difícil, havíamos dito…

 

(A carioca Rejane Machado é romancista, professora e crítica literária. Com Licenciatura em Português/Literatura (UFRJ), Mestrado em Literatura Brasileira (UFF) e Doutorado em Linguística e Filologia Românica (UFRJ), também atua como revisora e colabora com diversos jornais e revistas do Rio de Janeiro. Dentre seus livros publicados, estão: “A dimensão das Pedras” (Contos/1973), “Réquiem para Mário” (Romance/2010), “O médico das Flores” (Infantil/2013), “O Momento mais bonito da Literatura Brasileira – Gonçalves Dias e outros” (Ensaio/2013), “Contando até dez” (Crônicas/2012))

 

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80ª Leva - 06/2013 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Ana Peluso

 

Anna O.

 

 

Bertha Pappenheim não se contorce à toa, perdeu-a / a língua // Freud diria que Bertha Pappenheim ainda não sabia, mas quando seu pai não prestou atenção no casal que formou com suas bonecas, perdeu / -se-(a)tempo // A Grande Mãe levou o pai de Bertha Pappenheim, perdeu / -à morte // Bertha Pappenheim fez um filho imaginário com Josef Breuer e, perdeu-lhe / a imagem // O clima em Viena nunca foi dos melhores para Bertha Pappenheim, perderam / -lhe a senha // Bertha Pappenheim acredita na pureza que seu pai e Josef Breuer desconheciam mas perderam / e sabem // Ninguém está a par de como Bertha Pappenheim curou-se / Sabe-se que ela sorria quando emulava palavras de segunda mão com o nunca encontrado / Paul Berthold

 

 

***

 
a esperança respira Zyclon B

 

eu vivo dentro de um presídio chamado Nothingtrix
todos os dias judeus-coreanos azuis-royais me acordam
com toda a conta do mundo débito
préstima a pagar
creditam em mim as falácias do comando
em cinza neon sobre a pele
e eu saio por aí cor análoga
de brilho fosco
coração pequeno
que ainda abate
por cima os sonhos
porque é obediente ao comando
é rocha em vez d’água
quando água era sereno
sempiterno-romântico
só reconhecia o cinza na vitória vã
agora é tic-tac sem ruído
cor de sangue vencido
e nem um agosto é próximo

 

 

***

 

É produtivo fabricar tijolos. Um tijolo sozinho é obra de arte, com mais alguns é parede, é quarto, sala, é banheiro. Raro dizer poesia a céu aberto. E só bate sol quando se atravessa tijolos e é você do outro lado. Não me lembro de já ter visto tantos tijolos. Nem de nada como quando você perguntou o nome de uma estrela olhando diretamente pra ela.

 

 

***

 

 

Sentado o poeta torce pela chuva que não cai/ em sua manga guarda a relíquia dos dias/ em forma de pergaminho bruto/ couro de pele/ de um árcade nômade/ feito de horas mornas e cansadas/ que o poeta lê em livros de ciências e encíclicas/ Em sua casa ouro de Jeslade/ o poeta bebe siderado/ o sonho de amanhã/ era mesmo amarelo laranjal/ Suas entranhas não carregam mais os dias/ seus olhos não lembram do presente/ abotoados em um sonho soturno/ encontram as mesmas natividades festejadas/ Sentado o poeta suspira/ saudade inaudita/ logo esquecida/ O que seria mesmo a relíquia em qual manga?/ O poeta sonha

 

 

***

 

 

Cada um tem seu limite
De fundar uma âncora
Uma terra no fundo do mar
Pernas pra cima sentindo o mundo
Pernas sentindo o mundo
De água
O peso do mundo nos ombros
De ossos carne sistema nervoso
Boca aterrada
Ouvidos mucos
De areia
Cada um tem em seu limite aterrar a cabeça na areia
Seu limite de não voar
Daí advém o surto
Etimologicamente falando

 

 

(Ana Peluso, paulistana, experimentadora da palavra, participou de algumas antologias, não possui livro solo)

 

 

 

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80ª Leva - 06/2013 Janelas Poéticas

Janela Poética V

Neuzamaria Kerner

 

Foto: Peterson Azevedo

 

 

LILITH

 

Mostro-me para sair do exílio
onde me colocaram
e tiraram minha voz:
eu feria os princípios do recato,
assim foi o relato dos escribas
que me condenaram
a ser poeira no livro oficial.

Fui tida feiticeira
de energia visceral
que consumia a paz do meu companheiro.

Queixoso, dizia-se prisioneiro
dos meus afagos.
É certo que o envolvia, não nego!
mas o que ele não admitia
era estar sob o meu comando
ou ter-me como par.
Rebelei-me, afinal fui feita livre
e queria iguais direitos.

Vingou-se e cobriu-me de defeitos
diante do Pai.

Excluída
fui mandada para a treva do mar profundo.
De lá,
gerei desejos
e os enviei para queimar
o corpo de Adão.
Sua carne reclamava e desesperado gritava
por clemência.

O Criador cientista
rápido como a  urgência de um raio
trabalhou à luz de vela,
da criatura tirou uma costela
e fez o primeiro teste de clonagem.

 

 

***

 

 

PASSAGEIRO (NAS CATEDRAIS)

 

Tenho viajado de catedral em catedral
vezes silencioso
outras barulhando sinos
para dizer da minha presença;
vezes pagando dívidas
outras contraindo-as
mas sempre honrando palavras
para dever menos.

Tenho viajado de catedral em catedral
e quando estou no centro de suas naves
vejo como funcionam engrenagens humanas
que mesmo solitárias não funcionam sós:
……..peças por peças movem-se dependentes
……..e independentes das minhas próprias.

Quando iluminadas as catedrais
……..uno fios
……..reparo molas
e tiro seus rangeres com óleos das lamparinas
que mesmo quando sem chamas
é o bálsamo que encontro – somente nas catedrais –
para os consertos precisos.

Os talentos para o sustento de cada hora
são extraídos das catedrais invisíveis
mas vistas apenas em presenças sentidas no interior:
…………………tão poucos talentos!…
…………………tão tantos haveres!…

Sou viajeiro
passageiro nas catedrais
que permanecerão nas lembranças
……..nas ruínas
……..nas reformas
dos tempos que me levam para a próxima catedral
até quando for mudado
o meu estado de matéria

……..não sei quando
……..porque velho
……..porque manco
……..porque falho
……..quase cego
……..canso fácil…

Mas sei que a distância entre as catedrais e meu destino
se encurta e me alonga por igual…
afinal é para isso que tenho viajado
de catedral em catedral.

 

 

***

 

 

TEREZA D’ÁVILA

 

No quadradinho de tua cela
vi teu êxtase tanto pedido
também a seta partida
do peito do anjo divino.

Da minha própria cela, Tereza,
volto os olhos para ti
e digo com toda certeza:

também fui alvo, Tereza,
também fui alvo, Tereza!…

pois que tenho a seta inda presa
preenchendo meus dentros vazios.

De tu
– não sei bem o que querias –
mas meu coração, Tereza,
não pode ser só de Jesus
e nem quero por alegria
as dores da Santa Cruz.

Sei que me sabes, Tereza,
pois que me vistes mergulhar
em olhos de mar nascidos
nos claros da luz solar.

De um outro anjo lanceiro
– qual teu poeta João –
recebi o que poucos entendem:
o prazer de ficar na prisão.

Tu que estiveste comigo, Tereza,
quando a espada do destino
pendeu para a minha cabeça
a tua estendida palma
desviou-a  suavemente
para o centro da minha alma.

O teu destino, Tereza,
no teu dia foi consumado,
mas o meu ainda não sei…
só sei que me foi ofertada
num copo do anjo a bebida
aquela água, Tereza,
que mata todas as sedes
e dá vida a quem quer vida.

Tim-tim!

 

 

(Nasci no século passado com fome de palavras e até hoje vivo desse alimento que ainda me sobra para adornar o espírito de quem tem o peito aberto. O teto que me foi dado para viver é dividido com 7 bilhões de pessoas de todas as cores, de todas as falas, de todas as caras, de todos os credos; com todos os que vivem na carne e os que vivem em forma de fluido cósmico universal. Sou feita à imagem e semelhança da humanidade porque dentro de mim cabe a mais doce ou a mais vil das criaturas. Troquei, doei e recebi saberes com estudantes de vida assim com eu. De certa forma ainda vivo assim porque trocar e doar são atributos da generosidade, menos que da justiça. Dentro desse esquema (trocas, doações, recebimentos) escrevo porque na medida em que faço isso me somo e me divido neste mundo que é nosso)

 

 

 

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80ª Leva - 06/2013 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Leonardo B.

 

 

Foto: Peterson Azevedo

 

 

Du Coeur (incompleto)

 

Disseste ou escreveste milhões ou muitos milhares de palavras.
E deve haver nessa nebulosa uma estrela que seja a tua. Não a saberás nunca.
Vergilio Ferreira

 

Vai e diz
do quanto sopro morno dito em vão
[e de acordo com a ciência houve
por breve sopro no peito astro!],
da parte, da cor
dos quantos quatro cantos do dia
que não te inventam já
não combinam,
como à dor do dente sem raiz
como à ilha que te represa
ao sol posto sobre a mesa, envenenado
sem país, sem sul norte, vai
antes que seja interminável a manhã,
vai, parte
parte a parte que te condena
já veneno do sabor
da cor do coração,
já tremor
da terra que te atrapalha, e parte
o passo onde o pé te tropeça,
antes que seja dia de mais, a mais.
Deixa para trás
o dia, voa, cai
vai e diz, e

faz do traço do giz o tronco
da voz, a quase fronteira
quase pressentimento
dum eu inteiro, corpo presente
estranho equinócio de ninguém,
vai, vem, diz ou

como quem diz,
parte!

 

 

***

 

 

Já fui astro sem abrigo

 

Para Helena Terra

 

Sabem-me a mar as mãos que em mim derramam
o traço de giz, o fecho do circulo que me abriga
repousado na terra, o corpo do corpo recolhido no chão

[e que não se faça dia, ainda não!]
que cuidam-me da luz que se adentra em astro que já fui
pela porta no sol alinhada, bordada raiz onde também se envelhece o coração.
Sabem-me a manto, as emendas provisórias na linha da vida
essas rugas mãos de tecido frágil e fugaz,
que apesar do silêncio, quase murmúrio, quase espinho
do eu que em desalinho, não finjo, não sou capaz.

Já silêncio, ao primeiro canto da terra, às raízes do chão em giz derramado
no círculo que me adormece,
[talvez luz, talvez dia o dia que acontece]
sabem-me a mar essas mãos, eu não.

 

 

***

 

 

Instante

 

Ainda há tempo,
ainda há barro e pedra,
grão da negra terra feita chuva,
para construir,
a tão urgente, a grande nuvem
de papel vegetal,
agora
que ainda há vento
e aprendizagem do caminho
que invento, devagar.

Ainda há tempo,
ainda há por cosmo um lugar
um peito adivinho e teimoso
na pegada do primeiro chão
que invento
devagar,
nas formas do céu em linho
o corpo da ave, o movimento
do rio que na nascente se demora
em água anis,
e também
o que no mundo se faz ventre,
a nuvem dum céu que não erra,
que havemos ainda
por tábua, por vidro, por pedra,
aqui e todo o lugar, o mais além
onde ainda há tempo

para construir, a tão urgente
a pedra mole
que bate dentro,
desigual
e para tal, haja a vontade
porque ainda há tempo.

 

 

***

 

 

Um Anjo Nasce

 

Para André Mehmari, com admiração

 

Em certas manhãs que na medula
dum espinho
na água e no sal,
no linho
remendado no sopro das cinzas

revolvo do chão
como se fosse corpo,
o canto da terra
e então um anjo nasce.

Em certas manhãs
e apesar das águas abruptas, tão calmas
como palavras
da palavra, da raiz o saliente silêncio
primeira comunhão

antes que se faça azul
o dia coração
branco ou negro, cinza rosa velho baço,
devolvo insignificante, o corpo
ao nome que me já não sei

e ao mundo, e no mundo
quer eu queira, quer não
um anjo nasce.

 

 

***

 

 

Como quem diz um homem, por vezes poeira frágil

 

Em cada homem
há uma viagem para um planeta longínquo…
(Para os pobres é a Terra.)
Em cada homem, José Gomes Ferreira

 

 

o que haverá de prender o homem ao chão que pisa, quase nada
ou como quem diz um passo de passo, já da brisa vento breve sobre a terra, quase

fronteira, quase fronteira, quase nada
ou como quem diz da viagem, a poeira frágil quase pegada

do astro que no homem se teima, chão momento, vão finito
como quem diz corpo urgente, corpo do dia madrugada, quase

tinta clara na página breve do mundo, diria, esboço primeiro
ou como quem diz, um homem por vezes poeira frágil
guardador de infinitos, margens e ventos, como quem diz
se há outro eu, eu sou a viagem.

 

 

(Aquele que se assina como Leonardo B., nasceu em Lisboa. Sem “linhas mestras” bem definidas, construiu parte da obra poética sob o apelido de Ricardo S. Desse período constam colaborações irregulares com o DN Jovem. Mais tarde colaborou no das artes e das letras, suplemento cultural de O Primeiro de Janeiro, até à reformulação daquele suplemento. Só em 2009, com a criação do seu primeiro blog, Na Linha das Fronteiras, e mais tarde a Barca dos Amantes, chega a uma mais ampla divulgação, e por opção, não editou até esta data em formato de livro… o que crê que possa acontecer no próximo ano)

 

 

 

 

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80ª Leva - 06/2013 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Edson Bueno de Camargo

 

Foto: Peterson Azevedo

 

 

as pálpebras

as pálpebras
alquebram
em sono senil

as sombras
são pedras duras
de quebrar
em sonhos

o pão
não alimenta
a mão
que morde
os dentes da fome

a palavra vai
para além
destas fronteiras agudas
repousam na língua

ali se cristalizam
em gotas calcárias
e músculos

 

 

***

 

 

todas ausências

 

1

o menino
seus olhos de pires
emulando uma coruja
e o brilho de pios agourentos

facilmente se assusta
e o tempo todo
foge do dia

dentro de seus sonhos
todas as noites
cobras engolindo pedras
digeridas
carcomidas
defecadas
em limpos diamantes

tudo sob um céu azul cristal
dia eterno
e os olhos bem abertos

2

a menina tímida desengonçada
tem os olhos
rasgados no rosto
trabalho de arado cirúrgico

o útero
sempre à luz do dia
a luz do mundo
à vista de todos
aos que quiserem ver
e aos que não

não se admira
ter tido cria tão cedo
a crianças semitransparentes
que nunca tiveram
solidão ou escuridão

sonha com serpentes
vagando em desertos vermelhos
o cheiro de sangue nas ventas
e o rosto materno nunca visto

3

à noite
menina com lágrimas e espigas
senta-se sob a grande árvore
sob a sombra da noite

chora por todas ausências
os filhos
sempre alçam voo
assim que nascidos

 

 

***

 

 

a fome

 

recobrou o olho
e este tinha fome
a fome insaciável dos olhos

e o olho cobrou a fome
desde os tempos imemoriais da fome

o quanto dar de comer ao olho
se este não se sacia

quanto de velhas fotografias
tanto de livros amarelos
jornais dobrados até se tornarem quebradiços
cartas de amor não correspondido
e flores e frutos secos guardados em gavetas

quanto de moedas antigas
de quinquilharias

a fome voraz de papéis velhos
e dedos envelhecidos
óculos para miopia

de tantos e todos tempos e temperos
que calaram em renascimentos

e aí se destilou o dia
com a luz coada
de olhares furtivos pela janela
e seus vidros ensebados e turvos
………………………………………………..cor que se esmaecia

 

 

***

 

 

a parte que te cabe

 

para o amigo Celso de Alencar

 
Circe
amarrou a Ulisses
não com correntes
usou os músculos de sua vagina

mesmo estando em êxtase
a saudade de seu chão
e do cheiro do esterco das ovelhas
o chamavam para casa
e se libertou

Circe disse fica
mas Ítaca clamou mais alto

o esperava em casa
uma vagina mais mansa
e doméstica
sem grandes bailados
e malabarismos
mas que demonstrou um furor selvagem
ao se fechar aos machos
que não eram para ela

e na vingança e na morte
se abriu em sorriso
enquanto seu homem
trespassava seus adversários com flechas

nas noites que se seguiram
Ulisses não sentiu saudades
da insaciável bruxa deusa

Penélope
cansada de tecer
exigiu a parte do homem
que lhe cabia

 

 

(Edson Bueno de Camargo foi operário da indústria, dentro de uma realidade suburbana. Muitos de seus primeiros poemas foram escritos no “chão da fábrica” com cheiro de máquinas. Escreve desde muito jovem, sempre muito prolixo. Na maturidade, passou a ter uma relação com a poesia que vai para além da literatura, a poesia é sua experimentação do sagrado. Escrever poesia é seu tempo do sonho. Os poemas aqui presentes fazem parte de seu mais novo livro, “a fome insaciável dos olhos”, recentemente lançado pela Editora Patuá)

 

 

 

 

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79ª Leva - 05/2013 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Stefanni Marion

 

Desenho: Bárbara Damas

 

 

consolidação

 

o balouçar dos tempos está rangendo
o escárnio surgindo frio pela manhã
dentre vogais que se misturam
nasce a doçura rasgando ingênua.
armadura ginasial nunca polida
dentre dissipados olhares se abrilhantam
sem rumo levando ao descobrimento
degelando essas sensações estupefatas
numa consolidação platônica dominante.

se eu tivesse um sonho
ele seria o pesadelo.
moeda em cobre fundido
no fundo da bolsa
nunca trouxe sorte.
se eu tivesse um pesadelo
um dia seria sonho.

 

 

***

 

 

entre minhas frestas

 

um tanto irritante
deitou-se no tapete da sala
sorvendo o cheiro da geladeira
precisando de limpeza.

um tanto amável
acendeu as velas
iluminando os poros
em meu corpo ácido.

um tanto irritante
reclamou das manchas
negras e antigas
no fundo da banheira.

sol nascente
um oriente
plantado feito arroz desnudo,
ficou irritando e doendo por dias,
guardado entre meus dentes
feito massinhas mastigadas
de bolachas japonesas.

 

 

***

 

 

flamejante

 

o início perde o rumo
quando lanço chamas
nesse abismo inflamado
em devaneios bucólicos
flamejantes feito ritos
sarcásticos esmorecendo
gota a gota no quintal.

o nariz?
o que é o nariz?
– sentença em riste
buscando amadurecimento.

 

 

***

 

 

temporário

 

os trilhos da cidade esperam
minha cheia sangria.
às sete da manhã
vem o primeiro trem
e sua sonora carga amarela
invade as ruas do arpoador.
desaparece nos trilhos,
evade meu pranto sem crenças
e volto pra vida com cheiro de morte
temporário.

 

 

***

 

 

sóbrio

 

arfar e sentir o drama inveterado
gota a gota retratando as lágrimas
sóbrias nessa madrugada mnemônica.
não nasci ou amadureci neste nevoeiro
entre discos e canções dos bandoleiros,
odeias tudo em mim e não sentes nada?
sem sol, lua ou cartolinas recortadas
para meus primeiros trabalhos escolares.
nessas madrugadas apenas vício e chamas
me afastam e não sou parte dos seus sonhos.
desconexo nessas pequenas noções de vida
sôfrega voltando a destruir tudo outra vez.
pai, não há mais lamparinas nos cômodos:
sou seu sexo violento sem revide,
a placenta que caiu e não alimentou
em seu nome e do filho que se fez.

 

 

(Stefanni Marion nasceu em 1981, no dia do aniversário de sua mãe e no meio do caminho entre cidades do litoral sul de São Paulo. Já se envolveu com teatro, cinema, curadoria artística, mas acabou rendendo-se ao encantamento pelos livros e graduando-se em Biblioteconomia. “Temporário” (Editora Patuá) é seu primeiro livro de poemas)

 

 

 

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Janela Poética IV

Fabiana Turci

 

Desenho: Bárbara Damas

 

QUEDA

 

I.

te sonhei Dionísio
em teu abandono.
e te esperei,
lasciva,
por três ciclos lunares.
é a inteirez da tua presença,
quando me tomas,
que guarda o corpo
nos enquantos.
é esse estar
inteiramente
em mim mesma
e ainda assim alheada
que faz com que eu construa,
do meu corpo,
tua morada.

 

II.

e por te querer Dionísio
fiz-me templo
de chorar e louvar
loucura e grandeza.
os olhos, arrebatados,
não inventam:
é o peso de quem se fez
máscara e Deus
o que, ao corpo-casa,
retorna, refazendo-se.
por ti mesmo ocupas
desde o pequeno eu
ao universo meu ampliado,
entoando cantos de recusa
enquanto invades,
com tuas palavras,
o que as mãos do deus
já não tocam.

 

III.

te exigi Dionísio
em teu rigor.
meu ventre suplicando
fluxo, a por em curso
vento e águas.
da minha lucidez
fingi voo cego
abrindo campo para o mergulho,
de um outro azul, mais intestino.
fechava os olhos para os teus escuros
fazendo-me noite e esquecimento.
da tua dor, fui o gesto mesmo,
suspenso em teus extremos.
e dormi sobre a tua vergonha,
mesmo me querendo
sol e grito.
pensava-te assim,
inteiro,
descortinando o teu pior
entre a cama
e o ocultamento.

 

IV.

te percebia Dionísio
em cadências.
tu devolvias o olhar,
sendo.
e porque não te quis fixo,
modulavas existência,
passeavas sentimento,
em melodia densa e vivaz.
conheci fugas em
fragmentos escalares.
nos instantes, fomos
tempo
e contratempo.
do teu corpo, toquei
desníveis, falésias, falhas abertas
como se o próprio som
do terrível anjo.
do labirinto,
veio à tona
a tensão latente
e me percebi
versão pulsante
do teu tema.
queria ter sido uma nota
menor
entre a tônica e a dominante.
quem sabe o corte nas incumbências.

 

 

***

 

 

NOTURNO

 

o chão da casa range
os dentes da noite.
tábuas, esquadrias,
abrem frestas vagueando
vozes melancólicas: uma
composição. o vento
por trás das estantes
a folhear palavras
imprecisas ditas na mudez
dos toques. A noite
e suas bocas enormes.

o prédio respira o mesmo sono
dos bichos adormecidos
de humanidade. o céu caído
sobre o mundo, sem promessa.
e o mar distante ainda farfalha
o tempo, que progride como o som,
entre o que não se vê, até
amanhecermos.

 

(Fabiana Turci é formada em Filosofia e mestranda em Educação, Arte e História da Cultura. Presa entre a palavra e o silêncio, escreve para incomunicar. Publicou o livro de poemas Desobjetos (Ibis Libris, 2009) e organiza a coletânea História íntima da Leitura)