Categorias
150ª Leva - 05/2022 Janelas Poéticas

Janela Poética V

Paulo Silva

 

Foto: Yuri Bittar

 

Clau

 

Despeje no beiral do mundo suas crises
Não ouça do espelho nada, pois nada diz
Sobre seu coração e seus olhos ou sua alma
Então, se os quer preencher
Se dê ao luxo de viagens inesperadas
Tome sua nave e explore o que há atrás
Das montanhas que se tornaram sua dor
Para que veja
Que viver é pleno, só requer um tanto de vontade
A SUA vontade
Então, nem a chuva e nem os deuses lhe privarão
De chegar até onde
Os sonhos residem.

 

 

 

***

 

 

 

Doce e triste sonata

 

Passo os dedos levemente
Sobre as sérias cicatrizes em meu peito,
É como se um acorde fosse feito
Em músicas pessoais
Ouvidas dentro da caixa torácica
Em ritmo e compasso
Com o coração.

Na canção há seu nome,
Nela, a cada verso,
Eu a chamo e choro
Sem que termine ainda
A nossa estória.

 

 

 

***

 

 

 

Na esquina do meu coração

 

Na esquina no meu coração
E nas bordas do meu cérebro
Nasce uma flor sem perfume
Lúgubre e espinhosa
Suas pétalas somem em teu perigo.

Meu coração enraizado na flor
Trancado entre cerca-viva farpada
Machucando toda vez que bate
Sangrando manchando a Rosa
Em um vermelho tão brilhante
Que se ascende ao céu nublado.

Guiando as estrelas para que vejam
Minha tragédia mais bela em vida
Que é nascer quando se nasce o sol
E me recolher quando acaba o dia.

Eu estava vencido como um preso
Que se entregou sem crime ainda
E na esquina do meu coração e nas bordas do meu cérebro
Um milagre sem nome acontece
Eu não o vejo, mas o sinto
Então
Ainda na dor
Ainda na tragédia
Vivendo de risos ainda
Eu quero o ritmo e me vou
Cantando na rua
Em meu Carnaval particular
Uma triste marcha
Que se converte em um hino,
Um hino para a alegria!

 

 

 

***

 

 

 

Carta para a minha morte

 

Seja breve e audaz!
Feroz, sem frivolidades;
Selvagem, poética e autêntica
Impassível
Irreversível
Constante
E mordaz:
Traga mais e dê menos:
Saudades. Choro. Piedade.
Sentido.
Para
A carta
A poesia
Minha vida
E mais nada.

 

 

 

***

 

 

 

Liese

 

Grave meu nome no vitral
E
..Na
….Pedra
Para que o tempo
Jamais
…..Me leve
……De teu umbral.

E em fonte entregue minha nascente
Em praça pública
Teu coração
Para banhar o jovem, rir o infante;
Ser fluente para tua gente.

Me forme belo
Tua Palavra
Quente e áspera trova
Para transpor minhas vivências
Como cotidianas coisas novas.

No mais
Peço calma pra alma
Flerte aos olhos
Paixão ao tocar
Pois em ti,
Pequena Liese,
O belo em jardim
Florescerá
E de virtude erguerá
Morada
Para que Paraíso
Eu a chame.

Para teu nome
……………Descobrir
Para teu nome
………Navegar.

 

Me chamo Paulo Silva, 26 anos, nascido e criado em São Paulo-SP. Apaixonado por poesia, crônicas e peças teatrais busco, através de estudos, um maior entendimento sobre essa arte tão bela que é a escrita.

 

Categorias
150ª Leva - 05/2022 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Marília Rossi

 

Foto: Yuri Bittar

 

 

hemisférios paralelos
de linhas próximas

mas vai tão longe o corpo que sai
e cruza o mar
e costura as cicatrizes de séculos
e faz-se cor em meio ao ardor de ser tanto quanto diferente da norma
culta
da língua
que dança no céu da boca

renascer no rio que levou à invasão
da terra da origem do atlântico

da expansão do corte, a água que passa
que liga margens de descobertas outras

estico passos, morro e nasço ocupando espaços
com meu um metro e meio de gente
que ama

se me faço rio
se faleço e recrio foz
na voz de mar carrego corpo-barco
barco-coragem
coragem-amor

e não ancoro corações:
alma à deriva
flutua

é preciso leveza pra luta

 

 

 

***

 

 

 

já sangrei meus mil quilômetros
de mar poeira e poesia
já rodei pelas artérias veias e trilhos
correndo dentro afora
noite o dormente de ferro e pedra
sem luz na cidade
guiada a longo espírito
do mistério da estrada

agora trajeto nenhum me fecha
porteira alguma interrompe
coração aos saltos

voa menina
nos seus sem vírgulas
sem parada e relógio
sem ponteiro ou seta

já escorri minhas mil milhas
suando os olhos
já ardi a pele no sol a pino
já parei excessos à sombra
já perdi demais o ar
já doí demais o timo as pernas a cabeça

e porque há muito a viver
ainda mal cheguei
na metade do caminho

 

 

 

***

 

 

 

tá pra nascer um poema
que me tire a casca
que me mostre a casa
que me arranque a crosta

e nascer o grito da raiz das coisas

carne viva sangrando a seiva
sustento fincado na terra
(até quando ainda?)

tá pra nascer um poema
que cante e dance o entalo na garganta
que floreie a segunda (ainda que chova)
que permute o ar (mesmo que quente)
que me descanse a voz (depois de rouca)

folha verde seca caída
compostagem pra alimentar o que resiste

tá pra nascer um poema
curto denso espesso
e livre

tá pra nascer um poema
de mãos dadas
de olho em frente
de leveza

que me tire daqui

feito galho desprendido
feito carta enviada
feito cordão cortado
feito dente de leão assoprado
feito eu
longe

com minha semente
dentro

bomba explodida
no íntimo de tudo.
 

 

***

 

 

 

minha poética cíclica
de umbigo chão e ar
desmorona mas recria
o coração que pula
a rede que balança
e não caio mais – só tropeço
nesses pedaços
partes de súbitas margens e cantos de folha
……..e opa
era mais palavra vindo que arquivei na pasta “não-abra-agora”
extensão “risco-de-explodir-ponto-rar”
porque a gente nem sempre sabe
o que se cria
o que se nasce
o que se brota
o que se penteia das letras todas
e o que se pesca
em rio de sumidouro
mar bravo
açude fundo
essa coisa toda cheia de água, dor e vácuo

mergulho mas nunca sei
(sempre me devolvo em vinte-e-sete-algumas-coisas
que num dá tempo de separar antes do próximo deslize)

pereço de verdade e findo (de mentirinha)
mas dentro da cabeça e do peito continua rodando
sabe-se-lá-onde é o eixo
escondo as beiradas
nem reparo as rebarbas
tem um monte disso aqui – inda agora –
mas deixo lá

um dia acesso
e me perco
e num volto mais

labiríntica fuga
entre osso seiva músculo veia da palavra
corto recorto colo sangro estanco

sem anestesia

 

 

 

***

 

 

 

o que fica dos rasgos
ao invés de perseguir-se em círculos
caminhar os ciclos
desaprender as horas do dia

ensinar-se os reinícios

 

 

 

***

 

 

 

a força dos dias ergue-se dentro
sob qualquer causa contrária
amplia-se a extensão dos alcances

o que é bravio
abre-se na potência primitiva das coisas

travessia interna exposta
desde a raiz
mira profundo em vista bordada de infinito

rompe muros
extrapola janelas
vem de semente que brota em terra batida

eu moro aqui
e não saio mais de mim

 

 

 

***

 

 

 

eu não caibo
não caibo
se eu coubesse, seria maior
se eu coubesse, faltaria espaço
se eu coubesse, sobraria eu
mas não cabe
o dia
o lugar
o entre
mas não coube
no sofá da sala
na cadeira do escritório
na sala de estar
nesse negócio de ser

uma
nesse caber
que não é de tamanho
nesse caber
que não é de ficar
nesse espaço
de ir
não cabe.
não coube.
não acabo.

 

Marília Rossi nasceu na primavera de 1988 em Poços de Caldas-MG, Brasil. Aprendeu a ler cedo e desde pequena escreve, desenha, recorta, cola, enfeita e brinca com as palavras. É autora de uma coleção de postais poéticos autorais (2015); das zines “partida” (2016); “o que você leva na sua mala” (2017); “corte e sutura” (2018); “quase30” (2019); “tecendo vazios” (2020/2021) e do  e-book “galeio” (2022). Finalista do VII Festival de Poesia de Lisboa (2022), teve seu poema publicado na antologia “Corpos de amor e luta” (Helvetia Edições). Atualmente vive em Lisboa, Portugal.

 

 

Categorias
150ª Leva - 05/2022 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Rita Isadora Pessoa

 

Foto: Yuri Bittar

 

síndrome de circe

 

Por baixo da face lisa e superficial das coisas, 
há outra que aguarda para rasgar o mundo em dois 
(Madeline Miller)

 

 

por trás de um rei ou governante
há sempre seus conspiradores

dentro de um cavalo………. já coube
[disseram]
a queda de uma cidade

………………………….no focinho subterrâneo de um panteão
rela,,,,,outro ………………..adormecido
………………………………….mas não vencido
…………………….e por trás de um olimpiano
-quem sabe-uma titânide….com planos insondáveis

….dentro de uma horda de porcos
pode habitar uma comitiva de tripulantes
em lenta metamorfose anacrônica

a história se repete …..veja bem
se repete…..se repete…..se repete
….. ….. ….. ..só não se repete mais
do que os homens…..e os deuses
….. ….. ….. repetem a si mesmos

 

 

 

***

 

 

 

devagar

 

com o pensamento em Ana C.

 

troco o hímen
por um homem
como quem troca
um fonema
………..por outro

………..a pele
………..por outra

flor

escrita nas imediações
…………….das catástrofes naturais

 

 

 

***

 

 

 

prece para acelerar o fim do mundo

 

senhor, fazei com que eu evite a caixa. eu quero abri-la.
quero abrir, mas não posso.
penso que há qualquer coisa de luxuriante em caixas
e não sei o que fazer com as minhas mãos

senhor, que eu mantenha distância segura.
que eu mantenha as minhas mãos longe dela. da caixa.
de dentro vaza um zumbido,
como se vespas estivessem esperando
apenas uma breve oportunidade para escapar.
a caixa é quadrada e hermética,
como um experimento de Haldane.

peço que eu mantenha as minhas mãos pousadas sobre o colo.
mas, senhor,
os meus dedos passeiam pela caixa,
pela rugosidade de sua tampa, por seus sulcos e reentrâncias.
sinto que são sinais, símbolos que não compreendo.
não sei decifrar.

ela queima ao toque, a caixa.
no seu verso há uma inscrição onde lê-se:
“propriedade de pandora.
abra por sua própria conta e risco”.

senhor, fazei com que eu não abra a caixa.

sim, sei que vou abrir.

 

 

 

***

 

 

 

duas árvores

 

a árvore relembra …..o tropismo
primordial……do broto pela luz

como a madeira antecipa tambémna lenha
a brasa …….. e o metal deseja no fogo….a forja

 

 

 

***

 

 

 

primavera autocrata politeísta apocalíptica

 

deixem a primavera para bandini
e para keats com seus pulmões em colapso
os girassóis para van gogh
e pelo amor dos deuses, se falarem de andorinhas
que elas sejam radioativas
………e não melancólicas

porque aqui não aceitamos mais andorinhas
e nem albatrozes brancos
……………..anacrônicos
apenas os sanguinários

homicidas.

 

aqui nos movemos
………..na sombra

e cultuamos
tudo aquilo que é
suavemente
~gótico~
[e portanto
deslocado
nos trópicos]

então desliguem
os holofotes
e apreciem
aquilo que cresce e goteja
úmido entre as frestas.

 

 

 

***

 

 

 

jantar com panteras

 

estar com você e seus comparsas
era como jantar com panteras
a consciência
do risco
sempre presente
nos dentes faiscantes
um gesto em falso
[ um movimento abrupto ]
e o cardápio muda de direção

estar com você
como quem observa
a barba de um homem
crescer
o milagre de uma barba
a barba deste homem
despontar
ao longo do dia
e das semanas
no aprendizado de um tempo outro
[ um tempo medido na grandeza
de capilares quebrados e brotos
recém rompidos
de sementes
e afluentes
um tempo medido
na velocidade de gotas
forjando um novo estuário ]

estar com você, criatura dupla
habitante de dois mundos
o estuário….o mangue….a encruzilhada
metade homem metade cavalo
no galope compassado dos alagadiços
entre juncos cobertos de sal e mel

você me interrompe
e diz ‘ela não gosta de leite vaporizado’
é preciso que seja líquido
‘também não sou fã de expresso’

amor é quando eu o observo
do outro lado
diretamente do mundo dos mortos
a reler todos os meus livros
mesmo os digitais
memorizando
cada passagem sublinhada
criando um novo texto
no qual reconta
a história da minha morte

 

Rita Isadora Pessoa é uma escritora nascida no Rio de Janeiro. É Mestre em Teoria Psicanalítica (UFRJ) e doutora em Literatura Comparada (UFF). Publicou em 2016 seu primeiro livro de poemas, “A vida nos vulcões”. Foi vencedora do Prêmio Cepe Nacional de Literatura 2017, com o livro “Mulher sob a influência de um Algoritmo” e seu terceiro livro, “Madame Leviatã”, foi lançado em 2020 pelas Edições Macondo. Participou da antologia organizada por Heloísa Buarque de Hollanda, “As 29 poetas hoje” (Companhia das Letras, 2021).

 

 

Categorias
149ª Leva - 04/2022 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Letícia Carvalho

 

Ilustração: Drika Prates

 

casa

para Maria Cristina

 

carregar até a porta dos fundos
os livros
as mensagens
todos os pensamentos em suspenso

sentar-se no batente
aproximar os joelhos do peito
mirar os pés do lado de fora

as patas que se aproximam
oferecer o rosto
e as mãos para carinhos
permanecer ali
falar com os cachorros e gatos

entender a razão daquele
ser o lugar favorito de sua mãe
na casa de Vila Isabel.

 

 

 

***

 

 

 

diário (2014 – 2018)

 

escutei os estalos de vidro
fotografei gente em automóveis
aprendi a desenvolver
bons raciocínios
mesmo que apressando o passo
pela Rio Branco
entendi o tempo
de se estar sozinha
em uma cidade grande
sinto saudade
daqueles ponteiros
por mais estranhos
que pudessem ser
seus arranhões.

 

 

 

***

 

 

 

pugilista heartless

 

eu pensei
nunca ser possível sofrer um golpe
digo
eu
nunca sofreria um golpe
com exceção do fatal
acredito
morremos em golpes.

eu sempre pensei
nunca ser possível sofrer um golpe
e permanecer
de pé ou sentada
com mais ou menos cabelo
com os olhos abertos ou fechados
com a boca seca
ou com saliva brilhante
com todos os balões
que habitam um corpo
ainda firmes.

é possível
sofrer um grande ou pequeno
golpe
perder os móveis da sala
os eletrodomésticos
o licor do avô
a coleção de imã de geladeira
o gosto pelos livros ilustrados
os melhores amigos
perder o colchão
as maçanetas do apartamento
os tapetes em que pisamos
e continuar aqui.

falamos do país e de golpe
certamente
em outros territórios
se fala em pancada e política
aqui também
trauma e economia.

mas a verdade
sempre tive a convicção
de nunca poder sofrer um golpe
eu mesma
apesar de já ter sofrido antes
(a memória se perde na lacuna exata entre um murro e outro)
dessa vez
repeti surpresa:
“não vi a mão ossuda chegando!”

 

 

 

***

 

 

 

a vista superior
da sua escápula
é onde nosso
gato
se aconchega
de manhã cedo
e também em dia de
trovoada
eu li que existe
um sentido figurativo
para esses ossos
apoio
esteio
como o fêmur
estirado em travesseiro
suporta todo
o meu peso
nos dias em que
fechamos as cortinas
para não ver
o dia virar noite
eu escondo vagalumes
pelo apartamento
como aquele retalho
bom de encontrar
na gaveta da sala
você tenta
um sorriso
de quem não tem jeito
para cortar cartolina
e nunca foi de chorar
mais do que nossos
joelhos
em queda no calçadão
o protetor solar
perdido
sua coluna tem algo
de triste
como os filmes
que assistia no
ensino médio
e gosto que você
combine perfeitamente
com os papeis de carta
que escolhi
para te mandar poemas
de amor
ou despedida
(as conjunções
quase sempre
permanecem)
mesmo que eu confunda
e deixe algumas
no envelope
sem correio.

 

 

 

***

 

 

 

Rio São Francisco

 

para Cely

 

a pequena carranca
que guardo ao lado
do bolo de contas amarelas
em um desaviso
pode parecer apenas um souvenir
mas cuido e encaro com precisão
essa companhia

você trouxe a miúda madeira esculpida
e mais alguns anos de sua vida
a amizade é uma proteção
envolve muito trabalho manual.

 

 

 

***

 

 

 

para planejar a tomada de uma casa

 

sua avó foi vista
na China do séc. XXI
com o casco fluorescente
os olhos vulcânicos

sua avó foi vista
no Haiti do séc. XXI
o alargamento das costelas
e da coluna vertebral resultou
no que hoje
é a sua casa

– botânica e política
concluíram que o perdão não é matéria de livro
esculpido em pedra –

esta casa que emerge
de água doce ou salgada
guarda em si
todas as substâncias do tempo
pode nos parecer eterna

é muito
para animais da terra
como eu ou você

o olhar penhorado de sua avó
caminha do céu até o fundo do oceano
sustentando a certeza de que nada retorna

de que não é possível sair ilesa
de tais eventos
extremos.

 

Letícia Carvalho (Barreiras, Bahia, 1994) é formada em Letras Vernáculas, pela Universidade Federal da Bahia. Mora em Salvador, onde trabalha como educadora e poeta. Publicou seu primeiro livro de poemas em 2020, “eu devia ter visto isso chegando”, pelo selo editorial Paralelo13S. 

 

Categorias
149ª Leva - 04/2022 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Marcelo Benini

 

Ilustração: Drika Prates

 

Flores de Kafka

 

As cores sequestradas
Mistificadas em jardins
Ciano, magenta, amarelo e preto
Adesivos, banners, catálogos, prospectos
Brindes, camisetas, painéis
Uniformes anunciam a impossibilidade
De não estar mais dentro daquelas cores
De viver além do azul ou do vermelho
De fugir da identidade
De jogar o corpo fora da escala.

 

 

 

***

 

 

 

Passarinho

 

Só sei fazer poemas com passarinho
Todas as palavras cabem em passarinho
Dor, por exemplo, é uma palavra que
A gente não pensa em passarinho
Mas dor é passarinho
Na palavra gaiola
Saudade é uma palavra passarinho
Que procura terras distantes
Deus é passarinho no mamão
Amor é a palavra passarinho disfarçada
De passarinho.

 

 

 

***

 

 

 

Degredo

 

Deste país nada sei
Nele não respiro
Moro no país das árvores caídas
Dos banheiros sujos
Das escolas que enganam
Tropeço nas manhãs sóbrias
E infames deste lugar
Que não reconheço
Quero as noites sem pátria
Dos copos vazios
Do país de ontem.

 

 

 

***

 

 

 

A visão iletrada

 

Leio meu país
Com a visão iletrada
E o sorriso envergonhado
Faltando dentes

O país onde só as solidões
Grandes podem existir

A dos meninos
Das estatísticas
E a das fronteiras
Distantes
Em territórios vazios
De país

Leio meu país
Com o coração dos que
Nada sabem
Trancados neste lugar
Imaginário

De montanhas para baixo
E cidades desabitadas

Na posta-restante dos extravios humanos
Nasci neste país
Imenso e imerso
Em mim.

 

 

 

***

 

 

 

Palíndromo

 

Encontro sombras nos olhos negros
Sob a copa da árvore
No fundo do rio
Posso sair do rio
Mas estaria sob a copa da árvore
Posso cortar as árvores
Lá estariam os olhos negros
Posso fechar os olhos
Só restariam sombras.

 

 

 

***

 

 

 

Retrato com abelha no cabelo

 

Escrevo o lado oposto de quem me lê
Nunca pensei ser compreendido
Senão por passarinhos e saguis
As frutas me ajudaram mais que os
Dicionários de verbos e regimes
E as gramáticas
As palavras com as quais me importo
Ciscam
O vento que escrevo está nas folhas
Dos buritis
Só faço versos que têm sopro
No coração.

 

Marcelo Benini nasceu em 1970, na cidade de Cataguases, Minas Gerais. Publicou “O Capim Sobre o Coleiro” (poesia/2010/edição do autor); “O Homem Interdito” (crônica/2012/Intermeios); Fazenda de Cacos (poesia/2014/Intermeios); “Currais Concretos” (poesia/2018/Intermeios); “Poemas do Núcleo Rural” (poesia/2022/Penalux). Vive em uma área rural próxima a Brasília/DF.

 

 

Categorias
149ª Leva - 04/2022 Janelas Poéticas

Janela Poética V

Leonardo Bachiega

 

Ilustração: Drika Prates

 

Nua

 

nada sabe esgotar
que este mistério de corpo
em volta de mim
beijado
inicia

um texto
de inseparáveis linguagens

 

 

 

***

 

 

 

Tatuagem

 

nos descosturamos
para fazer a água dos mares
a razão dos lugares
por explorar
e hipnotizar o mundo
dando nossos avisos

eu me divido
entre suas penínsulas desertas
e suas praias
desenhados por sereias

 

 

 

***

 

 

 

pequenas jornadas

 

1.

ninguém sofrerá tanto quanto uma mãe
a separar-se de sua terra

tarde ela busca alfazemas
que ora se desfaz

para desmanchar-se em vida como um dente-de-leão num sopro

2.

deito esperando debruçar-me
como uma criança desajeitada
dormindo numa nuvem improvisada

3.

remendando a túnica
meia-lua
a folhas de bananeira

no que a sua sombra
engolia o deserto
fazia um novo filho
na alba
uma mulher

4.

a palavra ajoelha-se no leito
como fora um amigo
como se um rio passasse no pensamento

5.

nos perguntamos sempre próximos
dos nossos povos o que vocês são
mesmo que nossos povos
não sejam mais que pedra

6.

está o homem parado
pelo agreste que o atravessa
nessa carne sol
nos dias quando celebra a solidão igual a uma amante
as voltas das folhagens são assim as mais nuas

7.

a mulher procurou uma clareira para beber
como se definhasse palavra por palavra
largou o corpo na primeira esquina
deitou-se como numa pintura de schiele
entendia o espaço
como o carinho de um ser amado

8.

vivi em outro tempo longe
acordava com a planura da mulher
e cantigas de uma ave
era outro o que em mim curvava
como a madrugada do itálico de uma letra
hoje ajudo o silêncio
para me desfazer lentamente

9.

o que é a cólera
perguntou certa vez o monge

são as campas oferecidas
que segredam às mães…
separação

10.

um pouco triste
levo meu pensamento
num caminho cercado
por relíquias amorosas

que monge fez da terra crucifixo
para a alma
criar um agricultor
prestes a plantar orações

 

Leonardo Bachiega é arquiteto, urbanista e escritor, nascido em São Paulo, hoje reside na cidade de Carapicuíba. É autor de alguns livros de poesia e um de dramaturgia e no momento se dedica a um livro de contos e mais uma peça. Possui poemas publicados em diversas revistas literárias do Brasil e Portugal, e também possui poemas em diversas antologias, entre elas a antologia da off flip. É criador do podcast “Proximidades do Acaso”, onde recita poemas. Essa leva faz parte do livro “ A cidade é o céu”.

 

 

Categorias
149ª Leva - 04/2022 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Geraldo Lavigne de Lemos

 

Ilustração: Drika Prates

 

 

DL50

 

busco a poesia
…..capaz de sepultar o que somos

caracteres de toxicidade aguda
letras de paralisia
……………de asfixia
………………..e de coma

a palavra
em dose
e efeito

semântica sem remédio

que o primeiro verso baste
…..e o último
…………………………..vague

 

 

 

***

 

 

 

mal tempo

 

quero inquietar,
incomodar o recôndito.

causar desassossego
naquilo que descansa.

o engano flore e frutifica
no paradeiro.

sopro a tormenta,
com raio, chuva e trovão.

provoco o desastre
que varre as encostas.

inicio tempestades de areia,
transporto dunas
e cubro ruínas.

que venha o novo.

o efeito perturbador
elimina o status quo.

 

 

 

***

 

 

 

atrito

 

seguro o jornal como quem apanha a notícia.

o movimento que faço com os dedos
mancha-os com a tinta. borro palavras
e aquela informação me suja.

a notícia parece volúvel, da mesma qualidade
da impressão. letras de contornos frágeis,
que qualquer fricção deforma.

abandono o jornal como quem recusa a notícia.

 

 

 

***

 

 

 

fluxo

 

a árvore não guarda a semente,
nem o faz a flor.

quem vive ensimesmado
não dá fruto,
tampouco amor.

 

 

 

***

 

 

 

vilania

 

podes voar alto,
mas tua sombra anda rasteira,
acorrentada ao teu corpo.

pesado como a noite,
o teu decalque
esfrega-se nas imundícies do chão.

mesmo que ligeiro,
arrastas-te sobre cuspes
e vidas extintas.

cobres os seres vis
que um dia te cobrirão,
no ciclo eterno da natureza.

o carbono que ora te compõe,
já foi húmus, árvore, fruta
e podridão.

 

 

 

***

 

 

 

contra o medo

 

o medo, este fantasma
que se materializa
na fraqueza.

ele se alimenta
da coisa evitada
e dessedenta-se com lágrimas.

vencê-lo
é penoso
– exige matar sozinho
um parte de si

ou, a dois,
apertá-lo entre as mãos dadas.

 

 

 

***

 

 

 

o tempo de conversão

 

as evidências da razão
depõem a favor da probabilidade
para abordar as premissas do acaso
em discursos impalpáveis e falíveis

os dados lançados
fora do tabuleiro de Deus
submetem-se à álea da gravidade

 

Geraldo Lavigne de Lemos é poeta e advogado, membro da Academia de Letras de Ilhéus, autor dos seis livros de poesia.

 

Categorias
149ª Leva - 04/2022 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Cristina de Souza

 

Ilustração: Drika Prates

 

Soterramento

 

Soterro a voz.

Aterro meu corpo
A um espírito mudo.

E em tudo que escuto
Só há silêncio

Marcado na ausência,
Na vaga.

No luto profundo
Pelo morto não morto,

Pela onda não quebrada,
Por esta maré vazante

Onde me afogo
Na terra,
Na areia
No nada

 

 

 

***

 

 

 

Identidade

 

Escondo-me
Por horas a fio
Enquanto me busco no espelho.
Finjo serem meus olhos,
Os olhos que me fitam
Sem me reconhecerem.

Hiberno
Dias inteiros
Em pelos que não são meus,
Em ossos que se fraturam aos poucos
Sem que eu os perceba.

Durmo
Numa caverna escura
Chamada quarto,
Aonde jaz uma cama branca,
Onde morro todos os dias
E moro todas as noites.

Risco
meu nome na identidade
perco
a foto na carteira
Apago
Minha face com a manga puída de um casaco velho

Esqueço-me
Numa gaveta.

 

 

 

***

 

 

 

Farpa

 

Descubro-me num
verso aberto, na
farpa do mundo.

Traço meu rastro
no deserto mudo.

Cactos secos em
solo rude e
céu vermelho.

Eu piso em pedras e
cascalho, madeira ressecada,
casca de árvores mortas.

Cabelos misturados à areia,
olhos que suam, sal rolando
de poros e escleras.

 

 

 

***

 

 

 

Cantiga

 

Sou feita de ecos
E ocos.
Sou filha da noite
Escura e sem luar.
Sou a santa pecadora
De palavras extintas
Coleciono preces que invento
Sem saber orar.

Sou cheia de ocos
E desfeita em ecos,
Canto uma canção de ninar.
Fogo brando é chama e vela,
Minha vida paralela,
Projetada numa tela,
Eu que já nem sei chorar.

E esta espera pelo amor
que não vem,

nunca vem.

Dias contados, rosto
marcado por rugas
que não tenho.

Noite cadente,
vida vertente.

A verdade é um soslaio,
enquanto a farpa enterra
a esperança na pele quente.

 

 

 

***

 

 

 

Invenção

 

invento a madrugada.

planto a manhã
com dedos hábeis e

do espelho azul do céu
minha espera germina.

minutos e horas
se vão,

cedo ou tarde
a luz confunde
o sol
com a lua cheia
prenha de prata.

arranco
a erva daninha
que brota dos meus pés,
raízes
me imobilizando:
cresço árvore

dos galhos do meu corpo
braços se movem
ao balanço do vento,

e minhas folhas dançam
em seda verde,
ondas sem mar.

espreito o poente,

recolho-me na noite,

o orvalho me abraça,
estrelas brincam.

durmo e amanheço
flor aberta
entranhas à mostra
corpo exposto

renasço
sou apenas eu
ser sem espírito
ondulando
meus espinhos secos
ao sabor do dia

 

 

 

***

 

 

 

Sem Rumo

 

sinto-me oca,
vazia
até a boca,
sigo só
a esperar.

espero
pelo nada,
tua risada,
meu medo,
nosso desencontro
e este desespero
de chegar

em qualquer lugar.

aterrizo
dentro de mim
cansada
e faminta
de luz

o escuro pinta
a noite sem fim
enquanto desperto
onírica
no azul profundo
deste meu
quase mundo,
onde meus olhos
se desvendam
nus.

 

Cristina de Souza é médica e poeta, vive em Fênix, Arizona, onde escreve e pratica medicina. Ela já teve vários poemas publicados em revistas literárias nos Estados Unidos e Europa (Inglaterra e Alemanha) e outros publicados pela revista Mallarmargens no Brasil. Em 2016, obteve um mestrado em literatura e composição literária pelo Vermont College of Fine Arts  e em 2019 teve um livro de poemas em inglês publicados pela editora Main Street Rag, intitulado “Grammar of Senses” (A Gramática dos Sentidos).  Seu email para comunicação é: colo2309@gmail.com. Seu livro “Quase Azul” está no prelo e deve ser publicado em novembro de 2022 pela Kotter Editorial.

 

Categorias
148ª Leva - 03/2022 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Julia Sereno

 

Foto: Gilucci Augusto

 

Barro

 

O céu laranja empoeirado
traz o deserto que meus pés
ainda não conhecem
para meu inverno particular

A areia do Saara paira
e move
deixando uma cor diferente
na minha pele península

 

 

 

***

 

 

 

Mulher locomotiva enlouquece
e esquece e repete e comete
um crime sem arma ou morte
apenas um ato ou seria
um pacto
de sanidade
com a própria
liberdade

Ela escreve
a mulher

 

 

 

***

 

 

 

Palavras puras
não existem
só com as híbridas
escrevo
e recito
os segredos
que desencontro
no caminho

 

 

 

***

 

 

 

Despertar

 

vento frio na pele
respiro sem deixar
o medo amanhecer
junto ao meu
despertar repentino

não sei se este dia
será como um dia
qualquer ou como
o outro que deixei
sem terminar

aquele que passou
horas a fio
desencapado
doendo pela
ponta que esqueci
de cortar

 

 

 

***

 

 

 

Um mapa

 

Fui nascida em dezembro, abaixo daquela
linha imaginária que corta o mapa
desenhado nos livros
por quem?
Fui ensinada a reconhecer as fronteiras,
mas depois aprendi que as bordas
desaparecem e se desviam do rumo
para onde?
Fui crescendo no território sem limites
dos meus medos e sonhos
misturados na geografia
de qual país?
Ainda não sei.

 

 

 

***

 

 

 

A minha revolução
acontece em silêncio
dentro do coração

e meu texto
busca derreter
os gritos congelados

que se forem ouvidos…

sinfonia

 

 

 

***

 

 

 

Aqui moram…
uma verdade que arruma a casa
e nunca recebe visitas
um desejo que deixo escondido
e esqueço de vigiar
umas dores de criança pequena
uns sorrisos de mulher adulta
e alguns livros que nunca li

 

Julia Sereno nasceu em 1978, no Rio de Janeiro, mas atualmente mora em Lisboa. Mestre e doutoranda em Estudos de Literaturas de Língua Inglesa pela UERJ, é professora e tradutora. Em 2022, publicou seu primeiro livro, “As Outras em Mim”. 

 

Categorias
148ª Leva - 03/2022 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra II

POEMA SEM FIM

Por Sandro Ornellas

 

 

1/6 de laranjas mecânicas, bananas de dinamite (2021) é o mais recente livro de W. J. Solha, publicado pela editora paraibana Arribaçã, e é o quinto poema de uma série projetada para seis livros do poeta, romancista, cordelista, artista plástico e ator (cf. O som ao redor). Dos cinco volumes publicados até agora, conheço outros três – Trigal com corvos (2004), Marco do mundo (2012), Esse é o homem (2013) –, mas comentarei apenas esse quinto, embora o diálogo com os demais esteja claro desde o início, por exemplo, na montagem do texto através de referências históricas, culturais e artísticas que fazem da série um grande painel intertextual da história.

Não me parece, no entanto, esta a sua vontade primeira – ser um painel –, mas o resultado da sua organização discursiva (ou “poético-filosófica”, como afirma). Todos os quatro volumes que li são longos poemas costurando referências que formam uma malha dramática de personagens, eventos e reflexões representando nosso esgotamento contemporâneo. De um lado, esgotamento da possibilidade de se fazer algo de novo em arte; de outro lado, esgotamento do próprio discurso histórico, esgotamento do futuro. Em 1/6 de…, à contemporaneidade só restaria repetir a história moderna como farsa, tragédia ou, como é dito a certa altura, comédia chapliniana (p. 46). Mas, nesse texto, o motor da história parece ser mesmo a farsa, particularmente no entrecruzamento desses diálogos dramáticos com a narrativa e as interrupções líricas.

É também como farsa que o discurso começa e termina re-citando-se ab ovo – “Perfeito desde o começo, / ab ovo, / o poema não teria um primeiro versículo como o do Velho Testamento…, / mas do Novo” (p. 09). Desejando-se perfeito, no poema de Solha – na longa viagem inventariando referências, eventos, obras e nomes – tudo não passa de desastre, erro e decepção na busca de uma impossível perfeição humana. Isso é percebido principalmente como falência da ideia de progresso, que se insinua sub-repticiamente, tanto em certos instantes do seu discurso, assim como na própria discursividade do poema.

A ideia de progresso é transformada em mito falido na impossibilidade do poema fazer seu próprio discurso progredir e avançar, mesmo quando de modo não-linear. Todas as dezenas de referências históricas e estéticas parecem repetir o mesmo princípio de impossibilidade, ilusão e falha de um discurso que conduza a história para um futuro melhor, mesmo como profecia: “Tudo / …velho / …como o evangelho” (p. 42), ou “Poeta / não é / P(r)o(f)eta. // Mas em tudo / há uma meta” (p. 43), ou “Tudo… anseio puro / de adiamentos do / …futuro” (p. 54). Não há no poema futuro melhor. Nem passado. A sua narratividade não avança, mas vai e vem, perdida entre referências labirínticas de uma história exemplar em decepções e catástrofes. Diferente da burguesa forma do romance, 1/6… descrê de qualquer aprendizado possível, de qualquer retórica aquisição de consciência – o que se deduz do arco histórico e geográfico que ele abrange e do modo como costura liricamente tudo.

O texto, portanto, ratifica essa falência do discurso também pelo que possui de lirismo poético. Por exemplo, o modo como as rimas são compostas – como aparecem em versos de grande oscilação rítmica – reforça a inércia do discurso. Rimas associando palavras, ideias ou nomes que parecem girar em falso, não por mero gosto de ludismo verbal, mas de uma sequência gaguejante, de interrupção em interrupção do que poderia ser dito, refirmando a crise do progresso do discurso e da ideia de progresso. Exemplo: “travellings… em Toda a Memória do Mundo, / glória do cinema francês, / de 56, / nos… desfiladeiros – entre estantes… da Bibliotheque Nationale – com o final … em nada transcendental, / tipo A idade da Razão ou Finnegans Wake: / numa pilha de / … Mandrake” (p. 14-5). Solha espalha rimas como pequenas bombas que vão explodindo ao longo, à medida em que caminhamos por seu texto. São rimas que impedem o discurso de avançar ou recuar, mantendo-se suspenso entre repetições fonéticas e diferentes referências, como pede qualquer lirismo forte. Eles chamam muitas vezes mais a atenção para si do que para o que se diz, roubam a atenção, vão para o primeiro plano. Isto é: a discursividade se encontra interrompida por um lirismo antidiscursivo nas rimas: “e a mente, / a que nada, / jamais, / diz “Basta!” / se verá, / então, / …vasta, // … como o fundo falso das poças rasas, / com o céu, o sol e a lua, / estrelas, / nuvens, / e tudo que tem / … asas // coisas que …persistem, / mesmo que se saiba que – em sua transmissão ao vivo, quase / … subjetivo – apenas de certo modo / existem” (p. 58-9). Esta última passagem é também exemplar de outro recurso que reforça o ímpeto interruptivo: as reticências, que parecem nesse livro carecer de maior funcionalidade pelo seu uso excessivo. Embora o excesso também esteja nas referências, nas utopias, nas rupturas e nas esperanças e nas frustrações, que a certa altura impõemRemover imagem destacada um “etc etc etc” (p. 36) para se referir a Picasso, como se o excesso de informações na contemporaneidade exigisse do poema apenas o ato de dar a referência, sem precisar de maiores reflexões. Nada mais. Nada além.

O poema vai, em sua progressão narrativa, sofrendo todo o tempo com quedas líricas que põem por terra qualquer maior ordenação de sentido. O texto sempre parece retomar essa ideia de falha no progresso. Aproximando a arte moderna da bomba atômica, Solha explicita: “ou entre as… obras… de cubistas… e abstracionistas / do século seguinte, / o XX, / em que essa… premonitória desintegração… culminaria em sua obra-prima: / Hiroshima, // depois da qual / a arte / de Picasso, / perderia espaço” (p. 61). O mito do progresso estético precede o real progresso técnico e prepara a destruição potencial do fato da vida humana. Qualquer semelhança com a pandemia não é mera coincidência.

Mas se tal raciocínio sobre o progresso como mito conduziu vários contemporâneos nossos ao reacionarismo que vimos brotar na última década brasileira, ele conduziu o poeta justamente à constatação do fim dos anseios modernos, não à sua conservação ou, pior, regressão política. Qualquer projeto moderno hoje (da “democracia” à “individualidade” ou à “autonomia”) é uma gigantesca “work in progress” que nos mantém programados e engajados em metas impossíveis, mas que simulam desejos divinos na criação humana: “mas… o que seria, / então, / a soma dos objetivos, / que nos mantém / vivos / … no engajamento… programado, / compulsório, / … a um work in progress permanentemente / … provisório? // Falha das mitologias (da grega e hebraica à tupi-guarani), a de nos terem dito… coisas dignas de Dali: / que Deus teria feito o homem do barro, / como o oleiro faz o jarro / …e a vida, / em nós, / teria sido inserida – por uma das generosidades divinas – através do sopro nas …narinas, / ou a nós teria sido dado o fogo dos deuses, roubado, // […]” (p. 26-7). Aqui o poeta enuncia com todas as letras o progresso e o destino humano como mitos, a exemplo de Prometeu buscando propósitos em se estar vivo. Disso, só teria restado um discurso religioso laicizado na forma de um progresso histórico que nos legou a bomba atômica, o controle tecnológico e a catástrofe ambiental.

Paro por aqui, e sem concluir, pois que comento apenas o quinto dos “seis tratados poético-filosóficos” de W. J. Solha. Se 1/6 de laranjas mecânicas, bananas de dinamite é de 2021, falta o sexto e último livro a completar a série e apontar para algum fim. O próprio pensamento do poema não se conclui, pois o texto se fecha como começou, “ab ovo”, cobra mordendo o próprio rabo e girando em falso pela história como poesia, história cujo impasse hoje percebemos com clareza cristalina diante de nós. Pedimos apenas ao poeta que o fim da série chegue antes do fim do mundo, já que o poema não tem fim.

 

Sandro Ornellas é poeta, escritor e professor de literatura da Universidade Federal da Bahia. Autor de Dói-me este mundo de violentas esperanças (Patuá, 2021), Em obras (Cousa, 2019), Linhas escritas, corpos sujeitos (LiberArs, 2015), dentre outros.