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148ª Leva - 03/2022 Janelas Poéticas

Janela Poética V

Drika Prates

 

Foto: Gilucci Augusto

 

 

culpei-me
como se fosse meu o controle do tempo
culpei-me até por não morrer
culpei-me pelas dores do mundo
e pelas minhas próprias
desculpei-me por ser maria
e também quando não fui
como quem entende que não existe tempo, nem controle
desculpei-me da desculpa por envelhecer
desculpei-me pela vida e por amar o mundo, ainda que cheio de dores
desculpei-me, arranquei a culpa do amor-próprio
e ele próprio me desculpou

 

 

 

***

 

 

 

Sujeito é verbo

 

Não soube não ser anônima
É homônima

Homófona

Não sabe ser hegemônica
Quem é de escola antropofágica

 

 

 

***

 

 

 

note minha natureza morta
esqueci de abrir a porta
e de nós surge a revolta
impedindo aquele sim

veja a muralha que nos cerca
é o medo da poeta
ainda há viga entreaberta
concreto que esgota em mim

se já não entendo o que me importa
e desconheço minha resposta
natureza viva ou morta
com visão um pouco torta
percebo o mundo à minha volta

mas se me prende ou se me solta
se me sente ou se desloca
se me vende ou subloca
se me entende ou acha louca
se me quer ou me conhece
se me mente ou se me esquece
se projeta o meu alcance
não sou boa nesse lance…

a linguagem que me livra
de confusão desmedida
incompleta a minha obra
e o que é que de mim sobra?

a reforma que me cobra
quem sou eu para mim?

note a minha natureza torta
nossa vida em minha porta
o que não sei não me solta
o que sei sempre se esgota
quem me salva da revolta?

me interessa aquele sim.

 

 

 

***

 

 

 

sou produto do hoje (com memória)
precedida a história
sou produto do hoje (com medo)
precedido o enredo
sou processo lento (contento)
resultado do tempo
procuro o presente
-no limiar do sentimento-
precedidas posturas
procuro não procurar futuro …
ai.

 

 

 

***

 

 

 

a real tem idade
e são anos luz
sem tempos de agora
(nem depois)
nem olho que vê
nem cheiro que sente
nem tato que esbarra
um tropeço no real, para,
do chão passar
rejeição é doença que sara
ao lembrar de olhar pra frente

 

 

 

***

 

 

 

Kafka

 

eu aspirei esse ar pirado
fiquei asfixiado
e aficcionado
por qualquer tipo de enredo e qualquer tipo de estado
passei pela rua e sorri
fui filmado
passei da linha e recebi
importante papel timbrado
no documento li “fichado”
caí nas lentes, fui logrado

 

Drika Prates trabalha como ilustradora, designer gráfica e, de vez em quando, pinta murais. Seu trabalho com as imagens é retroalimentado por sua escrita, que vai das crônicas aos poemas. Vive em Portugal desde 2018, quando resolveu fazer um mestrado em História da Arte Contemporânea e participou de residências artísticas locais, como o Festival A Salto e a Bienal de Coruche. Nos últimos anos, ilustrou dois livros de poesia: “Exposta”, de Marina Vergueiro e “Aorta”, de Rani Ghazzaoui. Acredita que um dia vai ilustrar um livro próprio, integrando suas palavras e imagens. Sua escrita reflete cartografias que vão do micro ao macro, do corpo(natureza) à cidade, além de transitar por inquietações feministas.

 

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148ª Leva - 03/2022 Aperitivo da Palavra Destaques

Aperitivo da Palavra I

O livro azul de Wesley Peres – Apontamentos sobre O corpo de uma voz despedaçada

Por Wilton Cardoso

 

 

O livro azul

 

O corpo de uma voz despedaçada, de Wesley Peres, trata-se de um pequeno e impressionante livro sobre o trágico acidente do Césio 137 em Goiânia, ocorrido em 1987. É impresso em letras azuis (como o pó radioativo) numa ótima edição da editora Martelo, que vem se notabilizando pela qualidade gráfica e poética de seu catálogo de poesia. As letras-partículas azuis remetem à irradiação da palavra e da memória, ressoando o acidente que, ao que parece, a cidade quer enterrar (recalcar) no esquecimento, como enterrados estão os seus mortos e os detritos radioativos. A tarefa do poeta é recuperar, com sua máquina tormentosa de palavras, essa incômoda memória, em luta com os mecanismos de recalque da cidade:

 

[…] É preciso dar corpo à voz eviscerada em pedaços, o corpo recalcado pelos sólidos mecanismos da cidade goiânia. […] É preciso construir a máquina palavra girândola repetitiva não de estrelas, mas de  tormentas. […] (p. 43)

 

O corpo da voz: título

 

Wesley Peres é um poeta rigoroso e experimental, que costuma torcer e distorcer a linguagem até os seus limites sonoros, sintáticos e semânticos. O título do livro não foge à regra e já apresenta ao leitor uma paradoxal construção metafórica, ao atribuir à voz, signo da palavra, da linguagem e do simbolismo, a materialidade do corpo.

O que se quer, afinal? Explorar e dar corporeidade à voz despedaçada (ao sofrimento silente, inarticulado) das vítimas? Dar corpo no sentido de recordar e expor a tragédia social e individual ou no sentido mais ambicioso de re-presentificar o vivido com a poesia?

Poesia que, costuma-se dizer, é o lugar onde a linguagem deixa de ser apenas céu significativo e se torna também terra significante, concreta e material: locus em que as alturas do sentido entram em simbiose com a matéria sonora e (no caso do livro) visual da palavra falada e escrita.

Parece-me que o poeta opta pelo caminho mais ousado de (pelo menos tentar) corporificar de fato a voz, re-vivendo a tragédia com o experimento material e simbólico do poema, mesmo sabendo que acabará num beco sem saída.

 

O corpo da voz: do livro e para além do livro

 

Este dilema entre corpo e alma, ou corpo e psique (já que o poeta é também psicanalista), que se desdobra no dilema entre vida e linguagem, não é uma questão apenas deste livro, mas perpassa toda a obra de Wesley Peres. Trata-se, portanto, de uma obsessão do poeta.

Assim, a rememoração ou re-incorporação do acidente radioativo se torna também uma oportunidade para o autor exercitar suas obsessões acerca da tensa relação entre matéria e espírito, corpo e mente, vida e palavra, existência e sentido, plenitude e vazio. Obsessão que é também a do Ocidente desde que este se define como tal, ou seja, desde a Grécia pré-socrática.

Wesley Peres é, portanto, o que se poderia chamar de poeta existencial ou filosófico, sempre pensando enquanto canta, fazendo a re-flexão no mesmo ato da flexão poética da linguagem. Outra tensão em sua obra: pensar e cantar, significar sobre a linha sonora e imagética do jogo poético. Um poeta cerebral e construtor, sem dúvida, mas que deixa transbordar um lirismo que pulsa sob o árduo trabalho de linguagem de seus poemas. O que implica numa terceira uma tensão atravessa sua obra, entre lirismo e construção.

Pode-se, então, dizer que Wesley Peres transita entre as ‘tradições adversárias’ do lirismo de Bandeira e do engenho de Cabral, mas numa linguagem que recupera uma terceira tradição, onírica e a-lógica, que é a do simbolismo e surrealismo mais experimentais e construtivos, como em Manoel de Barros. Este último, aliás, seria a ‘filiação poética’ (na falta de expressão melhor) mais próxima e visível de Peres, como pode se perceber em suas desconstruções sintáticas e semânticas da linguagem.

Manoel de Barros promove uma desconstrução da linguagem que remete a uma crítica também desconstrutiva do mundo moderno. Sua poesia é atravessada pelo desejo de uma regressão primitiva não reacionária e não autoritária à infância, à tradição popular, ao mundo animal, vegetal e até mineral; e é uma celebração desse ‘mundo puro’ dos primórdios. Puro não no sentido ascético do termo, mas concebido como um caos primordial intocado pela ordem, desmedido e sem hierarquias, prenhe de novas possibilidades de mundo. No fim das contas, a poesia do mato-grossense, sob a superfície de um regionalismo e um naturismo ingênuos e lúdicos, é uma crítica aguda à modernidade e, em consequência, ao capitalismo.

 

Palimpsesto e origami: tensão entre o sem sentido e o desejo de sentido

 

A desconstrução poética de Wesley Peres, ao contrário da de Manoel de Barros, não resgata nem celebra os primórdios e o caos como uma nova possibilidade de mundo, mas costuma se deparar com o vazio de sentido e a ausência de saídas para a ‘alma humana’ e o ‘espírito do mundo’. Exemplos desse ceticismo em relação à transcendência e até à magia são a presença de duas imagens recorrentes neste livro, e em outras obras suas, que são o palimpsesto e o origami. O primeiro remete à impossibilidade da origem e do fundamento, enquanto as complexas dobraduras do segundo nos diz que o conteúdo e o sentido não passam de puras formas, dobras e redobras de uma matéria/substância indiferente e inerte.

Palimpsesto e origami remetem, portanto, a uma poética agnóstica e desencantada, descrente das possibilidades utópicas de uma regressão aos caos primordial ou mesmo de uma ultrapassagem emancipatória das sufocantes coerções da sociedade (pós)moderna. Este agnosticismo de fundo às vezes emerge límpido no livro:

 

(O homem crê em Deus e nas pedras. Sonhou a clareza de seus olhos implodidos densos de um imenso sol soletrado pelo calmo ninguém que habita o homem só com o seu corpo). (p. 21)

 

A poesia de Wesley Peres é, portanto, anti-mágica e anti-lírica. Mas ao mesmo tempo, as pessoas amam, sofrem, desejam, vivem, morrem e formam a teia desejante e coletiva da sociedade ou, no caso do livro em questão, da cidade de Goiânia. E a poesia cética de Wesley Peres se inquieta (se espanta, se comove?) com as paixões humanas e seu desejo de sentido.  O poeta procura, então, expressá-las contra o pano de fundo da perspectiva agnóstica, que não vê na realidade social e biopsíquica do mundo humano nenhum fundamento ou possibilidade de transcendência. É nessa tentativa de exprimir esse desejo de sentido, tão constituinte do humano quanto o seu não sentido, que o autor deixa transbordar um lirismo que o agnosticismo construtor de sua poesia aparentemente não possibilitaria.

Esse transbordamento lírico, embora intenso e carregado de afetos, não descamba para a pieguice ou o confessionalismo, nem mesmo quando o eu lírico se expressa. Talvez porque o fundo agnóstico e o rigor experimental, que constituem o pano de fundo poético do qual o lirismo transborda, tornem impossíveis qualquer espécie de derramamento sentimental. Emergindo do pano de fundo agnóstico, o lirismo perpassa todo o livro (e toda a obra que conheço do autor) e é nítido, por exemplo, no poema em prosa “1987”, um dos pontos altos do livro. Em meio a várias referências intertextuais, como à Lautréamont e Deleuze & Guattari, emerge, de forma comovente, a dor e o sofrimento das vítimas de acidente radioativo:

 

[…] Lautre, era setembro, Lautre, era o sol e era menos de duas décadas para o fim do século. era no Novo Mundo, Lautre, e o mal e o horror amoral e sem nome eviscerou a menina, era o seu cão do terceiro canto, Lautre, sob ordens maldoronianas, o cãoazul m u l t i p l i f l o r a n d o inchando as células multiplicando-as rizomaticamente em era de politicoeconomia e esquizofrenia entrelaçadas. […] (p. 36-37)

 

No trecho acima, a indiferença e o sem sentido do mundo físico e biológico, representados pelo césio em ação no corpo humano, se chocam com o sofrimento físico e psíquico das vítimas – e dos que se compadecem por elas. Contradição expressa em belas e terrificantes metáforas como “cãoazul” e “o mal e o horror amoral e sem nome”. Do fundo agnóstico e indiferente da física e da biologia que constituem o mundo e o homem, emerge o sofrimento e a dor, assim como o desejo de dar sentido a estes afetos e os compartilhar pela comoção. Os poemas do livro encontram-se, portanto, num campo de tensão que oscila entre a percepção do sem sentido da vida e o desejo de sentido, que constituem de forma contraditória o ser humano da modernidade.

O palimpsesto e o origami são metáforas agnósticas do sem sentido do mundo, como já foi dito anteriormente, mas não apenas isso, pois remetem também ao seu oposto, ou seja, ao desejo de sentido. Palimpsesto e origami são, portanto, metáforas da tensão, tão cara ao poeta, entre ausência de sentido e desejo/construção de sentido. Tensão que atravessa a vida humana, suas memórias e a própria escrita poética, que também quer significar o vivido:

 

No palimpsesto da memória fiz dobras em vértice
e horizonte.
e também: ideogramo origamis para
a linguagem que se fala nas ruas sem nome
(p. 62)

 

As sucessivas escritas sobre o pano de fundo insondável do palimpsesto e as intrincadas dobraduras da matéria inerte do origami são (desejos de) construções de sentido que o ser humano empreende, muitas vezes de forma inconsciente, a partir e contra o sem sentido do mundo e da vida. E no trecho acima o poeta nos alerta que sua escrita poética devém como palimpsesto e origami para resgatar e ressignificar a memória. Ora, como nos ensina a psicanálise e a história, a rememoração afetiva e consciente do trauma passado é o fundamento da reconstrução do sentido da vida presente, de uma forma mais sã e humana. Processo de ‘cura’ e humanização que se aplica tanto ao indivíduo quanto à coletividade.

 

Um poema palimpsesto para lembrar de Leide

 

palimpsesto nº 1 para piano e pássaro morto

Era uma vez uma menina. Era uma vez ela e um quarto. Num quarto hospital ela rodeada de bonecas. E o invisível azul mastigava ela por dentro e por fora. Estava cercada de flores, e depois cercada de chumbo e pedras. Era uma vez uma menina que irradiaria por séculos o seco silencioso som do sono. (p. 29)

 

O “era uma vez” do conto de fadas se refere a fatos fantasiosos mas que, em geral, possui um fundo de realidade social, como a fome, os dilemas morais, a sexualidade etc. Ao tentar desvendar o real na origem dos contos, o exegeta se depara com essa realidade difusa que as fábulas significam e ressignificam sem cessar, como num palimpsesto de camadas sucessivas de sentido.

Mas o acontecimento do poema acima, a morte de Leide das Neves, não é fantasioso nem indeterminado socialmente, e mesmo assim o autor se refere a ele com um “era uma vez”. Talvez esse recurso à retórica da fábula denuncie um esforço da sociedade em esquecer (indeterminar) o acidente radioativo e suas vítimas, ou talvez porque mesmo o mais documentado dos fatos, quando rememorado, acaba por se turvar e se misturar à imaginação. Rememorar, portanto, não deixa de ser um ato de ressignificação, sempre, ainda mais quando se trata de uma memória traumática que se quer esquecer.

Então, o poema rememorativo é uma camada significante a mais e em meio ao palimpsesto de sentidos que todo ato lembrado (e esquecido) é. O “era uma vez” do poeta nos alerta que lembrar, mesmo que seja o fato real da morte de Leide, é fabular, ressignificar, construir sentido, um sentido a mais que se acrescenta à multiplicidade irredutível do palimpsesto do que se é narrado/rememorado. E alerta ainda que há uma enorme liberdade em fabular, mesmo sobre, fatos reais. Pode-se escolher esquecer, aludir, refratar, relatar os fatos objetivamente etc. Ou se pode optar por uma lembrança afetiva que reavive o acontecido para que ele nos afete novamente. É este tipo de lembrança que este poema (e todo o livro) procura re-construir, tornando o leitor um contemporâneo e um vizinho da tragédia, como se fôssemos testemunhas do sofrimento de conhecidos nossos.

Assim, o sentido a mais que se fabula, que constrói a partir do “era uma vez” é o da comoção e (porque não?) da compaixão por Leide, acometida do mal amoral, invisível e cego. O poema rememora os dias finais da menina, enclausurada num ‘quarto hospital’, rodeada de bonecas e cercada de flores e doença (“o invisível azul mastigava ela por dentro e por fora”), e depois cercada de chumbo e pedra. A partir do contato com o césio, a vida de Leide se torna uma sucessão de dor e clausura, até o cerco final da morte, que a encerra num caixão de chumbo dentro de um túmulo de concreto. O procedimento anafórico de repetição de sentidos (num quarto, rodeada, cercada) conduz a fábula, de tom aparentemente singelo, num crescendo espiral de horror até o desfecho trágico.

Ao final do poema, há outros dois tipos de repetições, desta vez sonoras, que são a aliteração em ‘s’ e a assonância em ‘o’: “Era uma vez uma menina que irradiaria por séculos o seco silencioso som do sono” [grifo meu]. Um arremate que faz ressoar na matéria-forma sonora do poema a radioatividade do corpo contaminado de Leide e a própria morte. Mal radioativo que persiste mesmo depois da morte: “irradiaria por séculos”. E esse mesmo ressoar sonoro forma, em termos semânticos, uma bela, e trágica, metáfora para a morte: “seco silencioso som do sono”. Não é apenas a radiação, mas também a morte da menina que ressoa (irradia) de forma comovente na sonoridade final do poema.

As repetições do poema (anáfora, aliteração, assonância), bem como o ritmo e a metáfora são procedimentos que dão ao texto o seu aspecto poético, (re)dobrando a linguagem no canto silencioso do poema. Mas a repetição é também um recurso mnemônico, um artifício para o leitor, e o poeta, relembrar o poema, o que ele diz e como o diz. No caso de um poema rememorativo como o “palimpsesto nº 1” – e, na verdade, todo o livro – lembrar do texto é relembrar da vida e da morte de Leide, é explorar suas dobras recalcadas (de origami?), expô-las e ressignificá-las, acrescentando sentidos e afetos a mais no palimpsesto da memória coletiva dos fatos.

O poema (todo o livro) é uma exploração, exposição e ressignificação da memória para resgatar, compreender, se indignar e se comover com o sofrimento da menina, vítima de um mal impessoal e indiferente ao sofrimento: o Césio 137, mas também o Estado e boa parte da sociedade. Essa comoção da rememoração, que nos leva ao compadecimento (padecer junto) para com as vítimas, nos lembra que ainda somos humanos carregados de afetos, lembrança que já nos humaniza em meio à fria impessoalidade do mundo moderno e seus “sólidos mecanismos da cidade goiânia” (p. 43), que quer moldar a existência humana apenas com a razão instrumental dos seres úteis e funcionais.

 

Um livro necessário

 

Nem Goiânia nem o país querem relembrar o acidente radioativo de 1987, mas é necessário remexer essa ferida mal curada da sociedade, que trouxe dor e morte a pessoas simples e sem voz. O livro é uma tentativa de falar, não por, mas junto com essas pessoas e a partir de seu sofrimento que, afinal, é o sofrimento humano diante da doença e da morte, agravado por uma sociedade cuja mecânica fria e utilitária (“as engrenagens da cidade”, p. 24) esquece os desimportantes desde o nascimento e tenta esquecê-los ainda mais quando se tornam um problema para seu funcionamento e sua autoimagem.

Wesley Peres empresta sua voz poética, sua perícia experimental e seus dilemas existenciais e filosóficos para seus concidadãos anônimos que pereceram diante do mal invisível e amoral da radiação. Se a vida humana, em essência, não tem sentido nem fundamento, esse generoso ato de rememorar, se comover e se compadecer pelo outro, e também de se indignar com a indiferença de boa parte da sociedade diante do sofrimento alheio, ato literário-afetivo que é do poeta mas também do leitor, talvez este ato construa para a vida um significado, não metafísico, mas mundano, que faça o ser humano ter sentido não como ser em si transcendental, mas como ser social, fundado no chão histórico do mundo.

Assim, a comoção do autor e do leitor com as vítimas faz com que suas vidas não tenham sido em vão e sem sentido, assim como as nossas. Enquanto guardarmos vivamente na memória a tragédia e os que a sofreram, estaremos salvos, nós e elas, não para o Reino de Deus, mas para a humanidade ‘demasiadamente humana’ do humano, com suas alegrias e sofrimentos, sua fragilidade, finitude, contradições e imperfeições. Salvos como humanos, como seres sociais contra a indiferença da natureza e da sociedade (pós)moderna que nos objetifica e instrumentaliza e, em consequência, nos des-socializa e desumaniza.

 

Wilton Cardoso (Morrinhos/GO,1971). Graduado em Jornalismo (UFG) e doutor em Estudos Literários (UFG). Poeta e ensaísta, publica seus textos em seu blog pessoal. É funcionário público e mora em Goiânia.

 

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148ª Leva - 03/2022 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Laura Assis

 

Foto: Gilucci Augusto

 

Chão

 

O silêncio
não é o melhor meio
de conter acidentes.

corpo escolha luz sorte
detalhe perda relógio tudo
existe além da linguagem

(seu nome:
serial de rumores
que nada diz
sobre seus gestos)

Talvez ler
o livro do mundo
seja também
saber perdê-lo.

Antes do ruído
a vida é.

 

 

 

***

 

 

 

Passo

 

Ainda que isso seja
inversamente proporcional
(pode ser que eu me perca
no meio do passo
e tudo acabe
antes de você chegar)
quem não dança,
esmaece:
gira
mais devagar.

 

 

 

***

 

 

 

Oberkampf

 

Nossos pais morreram
no mesmo acidente estúpido:
vimos o sangue,
vimos os corpos.
E você me fez prometer
que jamais
te deixaria

Morávamos
no mesmo
prédio,
no mesmo
andar.
Sua porta era colada
à minha porta e
entrar no seu quarto
ou no meu
era igual,
mas ao contrário.

O metrô passava a cada
três ou quatro
minutos
a estação era a cozinha
da sua casa,
parecia Oberkampf
mas com menos
azulejos amarelos.

Sua voz ainda era
uma força da natureza
que me alcançava
na sinestesia
dos sonhos.

E dos sonhos
acordei
e nunca mais
escrevi sobre cadernos
folhas
em branco
desertos

palavras escondidas
atrás de
palavras escondidas

E as coisas passaram
a ser como antes eram:
as coisas,
só as coisas
pouco importa a ênfase
pouco importa a verdade
o que importa é a vida
(e a vida
não cabe).

 

 

 

***

 

 

 

O desamparo é um labirinto perverso.
Onde nunca se imagina a saída,
é justamente o lugar em que ela está:

…………………………………………………………na entrada.

O princípio é isso:
duvidar de tudo sem saber
de nada.
Não alcançar o interruptor,
um vislumbre de móveis
e mágoas.

Crianças crescendo no escuro.
Perséfone
descendo
escadas.

(mas só bem mais tarde elas entenderiam essa metáfora)

 

 

 

***

 

 

 

Uma década com os olhos
cheios de névoa
e as mãos

tomadas por livros
errando

por corredores
onde as mulheres que se pareciam comigo
falavam baixo pediam
desculpas

…………………………………………………………………..sumiam

 

 

 

***

 

 

 

I
Nunca estou sozinha nos corredores
de lojas e supermercados;
isso poderia ser uma história de amor,
mas é exatamente o contrário.

 

 

 

***

 

 

 

II
Existem várias maneiras
de se livrar de um corpo:
obrigue o corpo
a esconder
seu corpo;
olhe pro corpo
como quem vê
outra coisa
no lugar
do corpo;
ensine ao corpo
que tudo bem
ser ferido e morto
por outro corpo;
convença o corpo
de que ele é
apenas um corpo
e nada mais.

 

Laura Assis (Juiz de Fora, 1985) é poeta, tradutora, editora e professora, com doutorado em Literatura pela PUC-Rio. É autora dos livros “Depois de rasgar os mapas” (Aquela Editora, 2014) e “Parkour” (Edições Macondo, 2022). Integra o coletivo editorial Capiranhas do Parahybuna, edita a revista ADobra e dá aulas de Língua Portuguesa e Literatura no CAp. João XXIII/UFJF.

 

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148ª Leva - 03/2022 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Lucio Carvalho

 

Foto
Foto: Gilucci Augusto

 

Mergulho

 

Tão poucas chances de entender
como os animais escolhem aonde ir
– mas é tão bom não saber
o que o vento é e senti-lo –
nem como a água molha e banhar-se
num silencioso e profundo mergulho
de onde não houvesse retorno
e ser peixe como num sonho
em que fosse apenas questão de escolher
entre o retorno e o borbulho.

 

 

 

***

 

 

 

Chuvisco de inverno (kanakana shigure)

 

Por muito pouco tempo,
tudo faz sentido.

É quase impossível saber
que tudo se dissolve

qual um arco íris
que não se alcança,

num jardim pleno
onde nada grita, nada urge

e nada é maior
que estar ali.

E logo somos tão velhos
até para erguer as patas…

Será bom que outros animais
possam levar-nos

e ainda é melhor
que nos acordem mais cedo.

Sou movido por um livro
cujas palavras estão soltas.

Se me pegarem pelo alto
então posso rir à toa,

mas mesmo isso dura pouco
e nem faz tanto sentido.

O acorde no piano me acorda
ou é esse chuvisco eterno?

Não devo mostrar meu rosto
até que termine o inverno.

 

 

 

***

 

 

 

Não importa o que leve dentro,
quanto mais toco em meu centro

o sal entra em mim e determina
o que sou, me contamina

de sódio, como ao mar,
até matar.

Ser afogado até era melhor,
mas a isso não poderia chamar: amor.

 

 

 

***

 

 

 

Zazen

 

Se a queda não
continua nas
folhas
e tanto a nitidez
absoluta
da noite
quanto o rumor
perpétuo
da água
jamais
sobrevivem
ao instante,
para o que
é que
olhas?

 

 

 

***

 

 

 

Revoada

 

Lendo assim,
desde a primeira letra
o poema é relâmpago
sem trovoada.
Voz absurda
e dissonante,
pássaro avulso
na revoada.

 

 

 

***

 

 

 

O sul

 

Deste braço até a Ásia,
são dois oceanos
de monstros decepados.

Da cabeça até o norte,
há um palhaço
de pernas para o alto.

Do lado em que o sol se põe
até o fim (anoiteceu),
não há ninguém.

E aqui, até você (Vésper insone)
já esqueceu
meu nome.

 

Lucio Carvalho nasceu em Bagé (RS), em 1971, e reside atualmente em Porto Alegre (RS). Foi por uma década (2008 – 2018) redator e editor do portal e revista Inclusive, premiada em 2010 com o Prêmio Nacional de Educação em Direitos Humanos, pela OEI/SPR. É autor do livro de contos “A aposta” (Ed. Movimento, 2015), do livro de artigos e ensaios “Inclusão em Pauta” (Valentine, 2017), do romance Trapézio” (Valentine, 2019) e outros. Em 2019, cursou a especialização em Literatura Brasileira pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e publicou “A crise da representação rural na literatura rio-grandense” (Editora Fi, 2021). É editor no selo Valentine e edita a revista literária Sepé.

 

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147ª Leva - 02/2022 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Elton Uliana

 

Ilustração: Bianca Grassi

 

ausência

 

o corpo

imperceptível
em sua
palpável
totalidade

ali

esparramado

entre
o que a tela
faz
presente

e

o que
deixa
………………….de lado

 

 

 

***

 

 

 

vazio

 

no som insistente
dos pés

o desejo

delinear
a física solidez
de uma figura
fantasmagórica

andando
sem rumo
para cima
e para baixo

nunca sucedendo
em produzir
um ser de sentido pleno

um ser todo

pendurado
…………….pelas
…………………próprias
…………………….palavras

 

 

 

***

 

 

 

razão insatisfatória

 

…………………….a questão

sobre
o que está envolvido
na leitura
de um poema

conecta-se

com
…………………a questão

…………………………………….central

sobre a qual
este poema
medita

nomeadamente

……………….a questão

 

 

 

***

 

 

 

uma sensação de abismo

 

entre a altura aérea
da torre
e
o pesadelo inconstante do poço

a mesmice incessante dos aeroportos

 

 

 

***

 

 

 

contínuo

 

a narrativa
é o impedimento da morte

tomando refúgio
na fantasia de uma ilha
como uma curva fabular
dentro do tempo comum
da extinção

a narrativa
do fim
da narrativa
é ela própria
fechada
dentro
de uma narrativa

adicional

o fato da aniquilação
mantido no futuro da narração

ou

consignado
ao passado
da sobrevivência

 

 

 

***

 

 

 

realidade bruta

 

esfregando os narizes
no fato de que
aconteça o que acontecer
no poema
acontece
em termos da linguagem

mas
linguagem
assim
carece
de espessura
de textura

separações tempestuosas
colapsos trágicos
conjunto de marcas pretas

palavras enviadas
em uma farra

estendendo-se por meia página

com

becos labirínticos
e
alamedas sintáticas
impulsionando o significado
da passagem
por meio
de cantos gramaticais apertados e
curvas fechadas

 

 

 

***

 

 

 

uma sentença

 

 

uma sentença
de estilo fraturado em sua itinerante tipografia no espaço branco serpenteando em uma névoa de metáforas evitando o verbo com as ferramentas da gramática e do léxico suas consoladoras repetições de som e palavra refletindo sobre a força de produzir imagens e sua frágil linguagem figurativa adulterando os esforços da prosa denotando com suas descrições elusivas e seu tom portentoso e seu registro petulante e suas arritmias sintáticas e seus digressivos complementos permanentemente deslocando-se protelando-se oscilando eternamente entre domínio e acidente até que de repente uma virgula um pivô
um ponto

 

Elton Uliana é escritor, tradutor e crítico literário brasileiro radicado em Londres. Ele é o coeditor do Brazilian Translation Club da University College London (UCL), um projeto criado para a disseminação de escritores brasileiros no mercado literário anglófono. Atualmente trabalha com o Laboratório de Antropologia Multimídia da UCL, desenvolvendo um Museu de Patrimônio Cultural em Realidade Virtual para e junto com os povos Guarani e Kaiowá do Brasil, uma parceria entre a UCL e o Museu Britânico.

 

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147ª Leva - 02/2022 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Manuella Bezerra de Melo

 

Ilustração: Bianca Grassi

 

A pele, uma vez que habita o sal
assume posição protocolar de felicidade

Os povos dos trópicos são luminosos,
tem o coração cortado pela linha do Equador

Uma flecha acerta-lhes como alvo
e assim despejam-se nas águas mornas

O corpo em feridas que sangra se cura
se levanta em sal pra render a vida vindoura

Os povos dos trópicos são mumificados para que
durem milênios, tornam-se pais e mães de todos os povos

A pele, uma vez que habita o sal
assume o estatuto da eternidade

Espera o seu retorno
Esperam a chegada do seu reinado

 

 

 

***

 

 

 

Envenenei o céu pra que você
não visse morrer a segunda filha
o socialismo é um programa
é uma fenda no meu umbigo
é uma pasta de grão de bico
sob uma torrada com azeite
cancelei o café diário
que equivale ao suicídio sem extremismos
quantos estômagos são necessários
pra digerir a graxa que você passou¿
quantos fígados precisas
pra filtrar todo álcool necessário
de seguir viva?
Perguntam-me como estou?
efetivamente viva
por vezes, nem tanto
quase sempre
esta parte, omito
omissão é a caverna eficiente dos ineficientes
não se compartilha maledicências
dores amargores brotoejas
feridas abertas são constrangedoras
e já não há mais ninguém em condições
tenha selfies sorridentes e esbeltas
braços abertos, rei do mundo
as minorias se adequam
ou desaparecem

antagonismos a parte
o socialismo é um programa

 

 

 

***

 

 

 

soou-me o alarme às seis
soa tal o uivo de uma cadela
guindasteei-me na força de uma mãe
servi melão pão café leite
ele partiu porque filhos partem
e levou a matéria orgânica dos dias
esvaziei-me e vazia dei a mim
trinta convalescentes minutos
curei-me da morte numa pilha de pratos
uma típica manhã: caríbdis no inox

 

 

 

***

 

 

 

enxergo através dos muros
embebida em sangue vermelho
me afundo em sede espessa
enquanto passeiam gabirus
em fuga dos cozinheiros e serventes
com suas vassouras sujas
não interfi ro: observo acompanho
e
pra que não adentrem meus sonhos
cerro as janelas

 

 

 

***

 

 

 

Tereza olhou-me
meteu medo até em xangô
como um rio e seu poder
adentrou em mim
aventurou-se de mim

Nos olhos lustrados de Tereza
centelhas podem ferir

seu flanco não é mais o mesmo
não é mais do mesmo
seu flanco é todo ele meu flanco
meu flanco nunca será o mesmo
depois de suar sob o teu

pelo cabelo aproximei-me
ajoelhei, pedi uma benção

Tereza, isto é uma carta:
– Quero beijar-te agora.
Salva-me!

 

 

 

***

 

 

 

sobre janelas
e casas grandes
[coloniais]

desconforto é aquilo que se sente
quando cortam sua língua

desconforto é aquilo que se sente
quando te arrancam de uma zona
que você não planejou sair

território
ocupação
produção
distribuição

Liberdade é campo de batalha

todo corpo é uma
metáfora bélica

 

Manuella Bezerra de Melo é uma jornalista, investigadora e escritora brasileira residente em Portugal. Autora de “Pés Pequenos pra tanto corpo” (Urutau) e “Pra que roam os cães nessa hecatombe” (Macabéa), “Um fado atlântico” (Urutau) e “A Fissura” (no prelo pela editora Zouk), é organizadora e curadora da coleção de antologias VOLTA para tua terra de escritores estrangeiros. Pós-graduada em Literatura brasileira e interculturalidade (Unicap), é mestre em Teoria da Literatura e Literaturas Lusófonas (Uminho) e bolseira no Programa Doutoral em Modernidades Comparadas; Literaturas, artes e culturas da Universidade do Minho.

 

 

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147ª Leva - 02/2022 Janelas Poéticas

Janela Poética V

Priscila Branco

 

Ilustração: Bianca Grassi

 

nunca controlei meu suor
minhas fezes, minha urina
o sangue menstrual
os surtos psicóticos
a raiva ao capitalismo
a pulsão da morte
os pelos desgovernados
as unhas rapideiras
a respiração acelerada
o odor do trabalho

já não suporto
o grito controlado
a lágrima domada
o soco parindo
um livro inteiro

 

 

 

***

 

 

 

é preciso falar com portas
imaginando o outro
lado um mundo inteiro
submerso em labirintos
pontes entre portas
guardando carros
carroças e andarilhos

é preciso bater em portas
aceitar o silêncio
como resposta
aguardar bocejando
uma vigília
sem pressa e sem prece

é preciso derrubar portas
chutar até cair
abrir estradas
descosturar suturas
inventar saídas
para vencer os abismos

 

 

 

***

 

 

 

só mais um dia de fracasso
o acaso me diz
és uma máquina de fazer ossos

como meu grande ofício,
reparo no verbo antepassado
gosto de carne queimada
churrasco mal feito
respondo teimando:

não sou nada disso
tu que é chato.

 

 

 

***

 

 

 

…sempre à beira
o poema é um salto
quebrado

por outro lado,
ler poesia é voar
num barco

depois de alguns anos, está tudo no lixo.

 

 

 

***

 

 

 

eu bem gostaria de uma surpresa
às três da tarde de uma segunda
terceira opção
no meio do ano
quando o frio parece feio
porque acontecido
e a saudade não suporta mais
o real.

 

 

 

***

 

 

 

basílica à noite

 

no corpo, um corte profundo
como uma cena de filme bem feita
como um take da sua câmera quebrada
um corte religioso
que nem o cabelo de maria
madalena
ou judas
quem sabe a gente reescreve a história
beijando na boca.

 

Priscila Branco é poeta, mestre e doutoranda em literatura brasileira, pesquisadora da poesia contemporânea escrita por mulheres brasileiras fora do cânone, editora da Revista Toró e da Macabéa Edições, além de ser colunista da Revista Cassandra. Também faz parte do Núcleo Interdisciplinar de Estudos da Mulher na Literatura (NIELM-UFRJ) e do grupo de pesquisa Mulheres na Edição (CEFET-MG). “Açúcar” (2021) é seu livro de estreia, acompanhado pela plaquete “Pitada de prosa”.

 

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147ª Leva - 02/2022 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra II

DA DOR AO AMOR À LIBERDADE

 Por Vinicius de Oliveira

 

 

Dentro da gramática dos tambores das escolas de samba, existem, em geral, três surdos que marcam o ritmo binário do samba. O surdo de primeira marca o tempo forte do segundo tempo do compasso; o surdo de segunda marca o tempo fraco no primeiro tempo do mesmo compasso. Como o samba é um ritmo sincopado, o surdo de terceira preenche o espaço entre o primeiro e segundo tempo, conferindo o balanço sincopado que move o corpo.

Na década de 30, as escolas de samba, que eram comunidades predominantemente negras, contavam a história de gente branca. Isso porque o regulamento previa enredos de interesse nacional, os quais eram compostos por temas de grandes personagens pátrios, de feitos extraordinários do Brasil e de natureza exuberante, todos eles dialogando com a história oficial.

O historiador Luiz Antônio Simas chama o fenômeno do surdo de terceira de “adequação transgressora”.  O enredo contado através da palavra, que narrava a história de “gente branca vencedora”, era contraposto pela gramática dos tambores, que entre a normalidade da primeira e da segunda batida, surge o surdo transgressor que vai estabelecer contraponto entre os sons previsíveis. Um outro exemplo de transgressão é o toque de base da Portela, que enquanto o enredo exaltava os grandes vencedores, a bateria tocava o Aguerê, que é a marcha para Oxóssi.

É nessa disputa de vozes que Levante, de Henrique Marques Samyn, nos fornece versos potentes que narram a dor de um período da nossa história que parece que ainda não passou.

O livro é composto por 75 poemas, dividido em cinco partes: Desterro, Cativeiro, Ancestralidade, Resistência, Herança e Liberdade, todas dialogam, a um só tempo, com o passado e com a contemporaneidade, e também com o projeto gráfico do livro, que começa com tons escuros em desterro, vai clareando até atingir tons amarelados em Liberdade.

Em Desterro, Samyn conta em versos o horror da travessia do Atlântico. Se os livros de história e pesquisas arqueológicas contam, documentalmente, que o continente africano exportou, durante séculos, pessoas para servirem de mão de obra escrava para o mundo, o poema Cria penetra no horror do subsolo imprimindo luto ao verso. “Embarcai também as crias: as de peito e as de pé. Pouco é o espaço que ocupam. Pouco valem – estas, de peito, costumam morrer facialmente; as outras, que podem andar, talvez sobrevivam. Que seja: pouco é o espaço que ocupam. Pouca a nossa despesa”.

Talvez o termo mais correto para falar da história do povo negro é o silenciamento. Termo mais adequado do que apagamento. Se a história oficial não conta, não significa que um determinado fato não tenha existido. Nesse sentido, não há de se falar em dar a voz, mas sim em dar visibilidade. Henrique faz mais do que isso: ao dar visibilidade, reverencia aqueles que transformaram a dor em direcionamento para seguir. “Não mais somos vossos cativos, mas nada esqueceremos – nossa memória é profunda: fazemos da nossa dor nosso alento”.

Na terceira parte do livro, intitulada Ancestralidade, o poeta homenageia nomes que fazem parte da resistência do povo negro ao longo de cinco séculos. Samyn, que é professor de Literatura da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), onde coordena o Grupo de Estudos Letras Pretas, abre e fecha a parte Ancestralidade, homenageando Aquatune, a princesa africana e avó de Zumbi dos Palmares, sem a qual não existiria Zumbi dos Palmares. “No início estavas. E sem ti, rainha, que seríamos nós? Por isso, agora, a teus pés prostramos: nossas vidas a ti devemos. Ouve, nesta hora”.

O poeta lança mão do horror como matéria poética, para nos lembrar da dor de quem experienciou a escravidão. Mas não apenas.  A potência dos versos do poema Senzala mostra, como talvez não se encontra em nenhum livro de história, espaço de geração de vida, de amizade e de resistência na senzala, espaço onde só deveria haver dor e sofrimento. “Nessa casa sem janela, com as portas bem trancadas, habitam muitas famílias – muitas vidas amontoadas. Aqui se houve muitas línguas, aqui histórias são narradas, amizades são tecidas, aqui vidas são geradas”.

A última parte do livro, intitulada Liberdade, é composta por poemas que são numerados: se nas partes anteriores cada poema era identificado por um título, seja para nomear personagens importantes, seja para dar pistas do que o leitor encontrará ao longo da leitura, agora, os nove poemas que compõe a seção Liberdade são apenas numerados, indicando tempo presente que, ao mesmo tempo que dialoga com o passado, constrói o futuro. “No deserto que nos deixaram, verdejaremos – dos espinhos que nos rasgaram, floresceremos”.

É nesse diálogo temporal que o livro Levante conta a história do povo negro, do desterro imposto pelo horror do tráfico negreiro, passando pela resistência de heróis negros ao sistema escravista, até ancorar na contemporaneidade, apontando não um repouso, mas sim para a permanente memória dos que deram vida por liberdade e apontando, também, para a luta por libertação.

Vinicius Gaudêncio de Oliveira é carioca formado em Letras/Literatura.  Atua como crítico literário nas temáticas sobre produções literárias e culturais cariocas.

 

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147ª Leva - 02/2022 Aperitivo da Palavra Destaques

Aperitivo da Palavra I

O TESTEMUNHO QUE RESTA

Por Sandro Ornellas

 

 

Os vivos (?) e os mortos (2021) é o último livro do escritor, poeta e cineasta pernambucano Fernando Monteiro, publicado pela potiguar Sol Negro em uma cuidadosa edição, que também conta com a apresentação do poeta e professor Sergio de Castro Pinto e ilustrações de Chico Díaz, reconhecido ator de teatro, cinema e televisão. Confesso ser o primeiro livro de Monteiro que leio, malgrado sua longa produção, que, conforme Marcio Simões na orelha, tem nesse livro a continuidade de um projeto com “longos poemas temáticos”. E qual o “tema”, se pudermos assim designar, desse último livro? A chamada “casa da morte”, residência na cidade de Petrópolis, no Rio de Janeiro, usada nos anos 1970 como centro de tortura do Regime Militar. Casa conhecida por dela ninguém sair vivo.

Dividido em seis partes, o poema deixa claro esse “tema” sem meias palavras, como convém a um texto que começa denunciando o não tombamento dessa casa: “Até hoje não tombada / como tenebroso patrimônio / daquela parte horrenda / que por dentro habita no fundo / da nossa falta de alma”. Poema denúncia, diriam os incautos apressados, por desconhecerem a existência passada e história da casa. Mas arrisco dizer se tratar de um poema testemunho, por se esforçar em enunciar o horror inenarrável do que se passou naquela casa e conseguir articulá-lo à atualidade de ascensão de Jair Bolsonaro ao poder no Brasil. Ou seja, se a denúncia de um acontecimento cabe ao texto jornalístico, que pode até optar pelo verso só para melhor enfatizar uma certa expressividade do autor na persuasão afetiva do leitor, o testemunho sempre se dedica a falar do silêncio traumático deixado pelo horror e pela catástrofe quando se abatem sobre uma coletividade. Esse esforço em falar de um silêncio traumático que resta e pode ser entendido como o lugar da poesia.

Por isso, na minha opinião, a opção de Fernando Monteiro em escrever em versos. E, por isso, também coloquei aspas na palavra “tema”: o poema é muito mais do que “apenas” sobre a “Casa da Morte”. Ele é sobre o silêncio instaurado pelo sofrimento e pelas mortes, ele fala sobre os mortos, com os mortos e pelos mortos que ali tiveram seu fim: “falo do esgoto que pode ser / levantado / [e foi] / naquela rua / ARTHUR BARBOSA, / NÚMERO 668 / – BAIRRO DE CAXAMBU, PETR… / *** / Minuto de silêncio. / *** / Minuto por todos os conduzidos / pelos carros militares / para a Casa hoje pintada de branco / e quase disfarçada sob o número / novo (…)”. Embora fale para os “vivos”, que no título são seguidos por uma interrogação, questionando se de fato estariam/estaríamos vivos. Isso porque o poeta amarra aquele tempo de horror ao nosso tempo cotidiano, com nossos contemporâneos mais prosaicos: “Assim Lustradas as paredes, / ela nos observa com os mesmos olhos / de frieza da gente que nos examina / e dá ‘bom dia’ nos elevadores, / debaixo de rilhados dentes, / as covas de olhos velados / pelos óculos escuros dos coronéis / Ustras e outros diabos / malditos para sempre, / mas compartilhando elevadores / e ruas com a gente”. Sim, os “vivos (?)” são os que elegeram um cultor – “bozo maldito” – da memória de um notório e assumido torturador como o Coronel do Exército Brasileiro Carlos Alberto Brilhante Ustra. Mas eu diria também que “vivos (?)” somos todos nós, que não o elegemos, mas que durante trinta anos silenciamos o período sobre o qual Monteiro fala. É como se o peso daquele momento fosse tamanho que esse país só conseguisse tratar dessa medusa sem olhá-la de frente. Por isso, Giorgio Agamben diz que “a estrutura do testemunho e a possibilidade do poema” e esse livro de Fernando Monteiro fala justo disso: da possibilidade de tratar do intratável, de falar do silêncio calado fundo – e que nos trouxe até aqui como coletividade. Os “vivos (?)” somos todos nós. E diariamente nos confundimos com “os mortos”. Só que fingimos não nos confundirmos, através de tantos jogos de linguagem e consumo, de consumo da linguagem dos memes nas redes, e antes disso das tevês, ao invés de aprendermos a dura linguagem do poema que enuncia o silêncio.

É afirmando justo isso que Monteiro começa a parte 4 do poema: “Foi por nós, / por essa gente assustada, / por este país doente / que assim desapareceram / tantos & tantos ‘desaparecidos’ / durante os anos que mataram / o Brasil também a golpes / e golpes?”. Isso depois de inscrever os nomes de “Carlos Alberto Soares / FREITAS, / o nome do preso apagado / que aparece aqui quase com a anomia / dos sobrenomes brasileiros de rotina, / embora Carlos fosse ‘um dirigente do VAR-Palmares’ / (eu cito a sua ficha ensanguentada) / guerrilheiro ‘interrogado’, / esquartejado e depois sepultado / nas proximidades (?), / em fevereiro de 1971”; “o meu colega de classe Humberto Câmara / está listado como um dos mortos do abismo / da diferença entre estudantes da década / de mil novecentos e setenta / (…)”; ou ainda “Eu tento ser igualmente direto / e claro no extremo desconforto, / embora não queira ser torturado / e assassinado conforme PPP / (aqui no Brasil significa / Pobre Padre Preto como Henrique, / o sacerdote eliminado / no Recife de Dom Hélder / pela ditadura das casas dos mortos). / Quem foi esse padre? / Não foi ninguém, / para os tempos de Agora.” São alguns dos nomes em nome dos quais Monteiro fala para “os vivos (?)” de hoje.

Percebe-se nas palavras de Monteiro algo daquela vergonha que Primo Levi identifica nos sobreviventes de Auschwitz e que para ele são o maior motivo para se escrever. Vergonha por sobreviver ao horror diante do qual tantos tombaram. Vergonha sobreviver mesmo que em estado de penúria moral, que parece ainda restar daqueles tempos: “Pois o nosso é um tempo de morte / na consciência que se aplana”. É, portanto, por isso que Monteiro escreve, para nomear quem não é ninguém “para os tempos de Agora”, dirigindo-se a nós em nome do que não são “ninguém”, dos que não podem falar, silenciados e/ou mortos. Seu texto é esse ritual de exumação dos ossos. Não o rito jurídico dos homens, mas aquele – mais fundo – da memória inumana que teimamos em matar e que, quando emerge, é violência intestina. E está aí. Ao nosso lado. Em nossas mãos. Em nossa voz silenciosa: “Por que estou escrevendo / um poema que não é um poema (repito) / apenas para que se entenda / que estamos numa época muitíssimo dura, / nesta dobra de dois-zero-dois- / zero de coragem temerária / dos que foram caçados e transportados / para a Casa da Morte”.

São muitas as passagens desse poema que – oscilando entre a poesia e a prosa, o sublime e o grotesco, o raro e o comum, o discreto e o clamoroso, o vivo e o morto – desafia “nosso ânimo que resta” e que “parece ser de recuo / e recusa de morrer para escapar / de viver apenas e tão somente / por nada / ou quase nada / na espuma dos dias apagados”, jogando na nossa cara nosso “mal bem às claras” e “retrucando a Adorno: / não, Theodor, não se tornou / ‘impossível’ / escrever versos para os vivos / que não estejam mortos / *** / Poesia ainda supera os fornos / e pode romper o jogo / dentro do logro / de jovens distraídos / pela dança do Ogro”.

E para quem conclui essa catábase de Fernando Monteiro, resta ainda um suplemento para reabrir a ferida incicatrizável nesse livro de tantas mãos, bocas e olhos abertos pelas janelas, portas e brechas dos desenhos de Chico Díaz. Refiro-me ao Anexo com “Matéria de Chico Otávio e Marcelo Remígio publicada no Jornal O Globo em 17.03.2014”. São apenas dois parágrafos em que os autores listam a identidade de alguns dos torturadores da Casa da Morte, graças à memória da sua única sobrevivente, a ex-presa política Inês Etienne Romeu, que “registrou os codinomes de 19 torturadores durante os 96 dias de seu martírio”. Na matéria, o que diz o coronel reformado Paulo Malhães não é somente um sintoma, mas a prosa cotidiana que faz de nós, “os vivos (?)”, tão mortos quanto os mortos em nome dos quais Fernando Monteiro desce aos infernos com as palavras que Inês Etienne Romeu usa como o testemunho que resta.

 

Sandro Ornellas é poeta, escritor e professor de literatura da Universidade Federal da Bahia. Autor de “Em obras” (poesia, Editora Cousa, 2019), “Linhas escritas, corpos sujeitos” (estudos, Editora LiberArs, 2015), dentre outros.

 

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147ª Leva - 02/2022 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Clarissa Macedo

 

Ilustração: Bianca Grassi

 

Rejeição

 

Teu olhar ginecológico
habita o meu aquário
de usuras e medos.

Profissional, asséptico e vidrado
o deslocar dos teus olhos
ofende o meu útero,
cansado da espera.

Enquanto me curo da tua ausência
da tua face clínica e distante,
que jamais arranca o chamado do meu apelo,
bordo a falsa flor,
laureada de armadilha,
clandestina
como a agulha que não soube usar
e que espetei na casa mais alta do teu coração.

 

 

 

***

 

 

 

Surpresa

 

Não fui a garota que todos esperavam
[porque a mim nada foi creditado]
— “Será igual ao pai”, diziam
[aquele que me foi(-se) tirado].
Não fui a boa menina,
mas uma paisagem caricaturada:
por fora, o avesso, a penúria, uma linguagem muda
por dentro, um cacto de selênio e violência.

(Uma poesia autoafirmativa como esta não pode valer a pena).

Uma menina, inesperada;
uma mulher, horizonte irrecuperável.

 

 

 

***

 

 

 

Endereço

 

Minha casa é uma ilha
Um mar que secou há tanto
Onde os pássaros bebem a bile dos meus sonhos.

 

 

 

***

 

 

 

Cenáculo

 

para Lílian Almeida

 

Ao pé das Oliveiras,
um alaúde queimava
e ele via as cordas.

Sob a árvore do deserto,
uma lágrima de pudor
e a fuga ao coração do incerto.

Judas, o mais amado,
sem prata, um sopro,
um engano à mercê
do medo –
do Senhor, um olho.

 

 

 

***

 

 

 

Perpétuo

 

Uma encosta
um leme de celas
que sobrevive
à interrupção do tempo.

Um salário de medos
veste a carapaça,
tigre de oito metros.

No infinito,
um relógio esquivo permanece.
Na intermitência,
o cortejo dos solos que deixaram
dos deuses que temeram.

 

 

 

***

 

 

 

Espículo

 

Onde eu estava?
Quem era quando, desavisada,
olhava de longe o percurso dos anos?

Todos sabem da morte,
e dizem dela com intimidade.

Hoje eu a topo de frente,
como um cão olha a tarde
como um pássaro que, sísmico,
pousa nas remotas asas.

 

 

 

***

 

 

 

Do abrupto

 

Molhar as plantas
Comprar sabão
Depenar as frutas
Saudar os óculos
Amarrar sapatos
Limpar os poros
Minha mãe é morta.

 

Clarissa Macedo (Salvador – BA), doutora em Literatura e Cultura, é escritora, revisora, agente cultural, pesquisadora e professora. Apresenta-se em eventos pelo Brasil e exterior. Integra coletâneas, revistas, blogs e sites. Publicou “O trem vermelho que partiu das cinzas”, “Na pata do cavalo há sete abismos” (Prêmio Nacional da Academia de Letras da Bahia; traduzido ao espanhol), “O nome do mapa e outros mitos de um tempo chamado aflição” e “A casa mais alta do teu coração” (Prêmio Biblioteca Digital do Paraná). É a idealizadora do “Encontro de Autoras Baianas” e do “Sarau Cartografias”.