Categorias
145ª Leva - 05/2021 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Constança Guimarães

 

Ilustração: Paula de Aguiar

 

minha mãe me contou
meu avô guardava
os palitos
de fósforo
queimados
na caixa

talvez a gente lavasse a louça depois
de um almoço em família quando
ela me disse entre
outras memórias
guardo sempre comigo uma caixa
riscada que nunca
fica vazia

 

 

 

***

 

 

 

quero

que me largue de uma
vez de repente………….me abandone

o pensamento os cabelos
num rabo
de cavalo alto………….o diafragma
que soluça………………quero um vento
………………………………………………….forte
norte

note
eu quero ir como uma onça

 

 

 

***

 

 

 

sabe
quando
nada muda
hoje de manhã
teve café
depois
à noite
sopa
o ano que vem
também

teve pernilongos no verão

 

 

 

***

 


para Angélica

 

o sismógrafo ficava sobre a mesa
da sala
no jantar
fora um presente
media a mulher espasmos estouros
a louca
o sismógrafo não media
abalos
abaixo da superfície
onde havia
a mulher inteira à força não media os destroços ela não tinha tempo

 

 

 

***

 

 

 

a náusea
de repente dona
até das minhas costas
envergadas
fecho os punhos aprendi
espanto
o fluxo e seguro
o reflexo
com força dentro
de mim com as mãos
quero expulsar
secar as vísceras o que mora lá dentro
o passado me incha

quando não há meio-termo
não há negócio
arma apontada
pra mim
na mesa posta vazia sem espinhas
quando sento na beirada
escuto a minha voz adulta
que fala alto
gesticula
inventa
com a garrafa de vinho
esvazio
combinações felizes impossíveis
na manhã seguinte
quando reconto com os olhos as taças sujas
e lavo uma por uma no banho
vergada fechei com força os punhos o vidro caiu no chão cortei meus pés sob água represada pelo ralo entupido

 

 

 

***

 

 

 

o que te preocupa?
além da cor negra do céu
estamos em alto mar
você não vê
aqui está muito frio
como as últimas vezes que saímos
fomos àquela festa bebemos muito
decidimos nos casar temos uma casa e viajamos
estamos no caminho de volta

não sabemos para onde
na casa não cabem mais dois quando te digo
seremos três
você deseja a onda imensa vencendo o navio que por fim é soberano
não morremos
seguimos
não sabemos para onde

eu só no navio via o mar aberto meu pulso duplicado

agora soube
o que te preocupa
o que te move ao revés

sabemos
está o caos instalado instalada a noz selada em mim eu a desejo
abandonada por você que me diz
o futuro será sem cais
plataforma ou estrado
decida
você me diz bruto.

minha palavra
final
te preocupa

 

Escritora mineira e jornalista, Constança Guimarães é autora de “Como se fosse possível medir o tamanho do escuro”, (Urutau, 2020), “Ombros caídos olhando pro Inferno” (Urutau, 2017) e “A sereia da contorno e outras histórias” (Leme, 2017). Tem poemas e contos em revistas como a Acrobata, Gueto (especiais Utopia/Distopia e Crianças em Guerra), Ruído Manifesto, Mirada, Germina, Laudelinas e Torquato, entre outras, e participa da antologia “Nao há nada mais parecido a um facista que um burguês assustado”, editora Hecatombe/2020.

 

 

Categorias
144ª Leva - 04/2021 Ciceroneando

Ciceroneando

 

Foto: Lu Brito

 

“O melhor lugar do mundo é aqui e agora”, canta nosso célebre Gilberto Gil em uma de suas mais reflexivas e tocantes composições. Posto assim de imediato, esse trecho da canção acentua o presente como sendo o instante mais precioso de todos, aquele sobre o qual temos a consciência do que estamos vivendo. Daí que está conosco a tarefa de prestar atenção no hoje, nesse agora que acontece e merece nosso cuidado para que se torne o mais pleno possível. E tanto nos convém olhar para tudo daquilo que se coloca ao nosso redor e no exato momento em que pensamos e agimos. No estar presente, interagimos com o Outro e com ele estabelecemos uma ponte de comunicação que também nos auxilia na compreensão do mundo. Diante de nossos sentidos, passam tantas imagens e a todo tempo somos convocados a contribuir com uma parcela de reflexões e ações sobre as coisas. Estar no mundo é, pois, escolher entre ser parte e atuar ou portar-se como um mero observador dos fenômenos que se nos apresentam. Por óbvio, há consequências naturais para qualquer que seja o caminho eleito. Nesse sentido, ter a ciência e a possibilidade de mover as alternativas parece ser a via mais pertinente para os que não temem os mais variados e desafiadores cenários da existência. E o que dizer do quanto aprendemos com todos aqueles que cruzam a nossa jornada? Por certo, o saldo é imensurável, ainda mais se tratando das perspectivas engendradas pela arte. Em nossa edição atual, por exemplo, há um banquete de palavras e imagens encerradas nas contribuições dos que se permitiram trilhar as estradas da revista. É gente como Fernanda Paz, Dheyne de Souza e Wellington Amâncio da Silva, que com suas narrativas em prosa provocam nossas mais aguçadas visões. No norte da poesia, nos alimentamos dos versos de Milena Moura, Carla Diacov, Rafael Nolli, Anna Apolinário e Rafael de Oliveira Fernandes. É Sidney Rocha quem nos apresenta o instigante “Todo suicídio é um homicídio”, novo livro do poeta Lupeu Lacerda. Conduzida por Elis Matos, temos a entrevista com a escritora e atriz Tereza Sá, potente voz da literatura e da arte baiana. Pelas mãos de Guilherme Preger, estão atentas análises sobre o denso filme chinês “Dead Pigs”. Com sua pesquisa musical apurada, Larissa Mendes nos brinda com uma resenha sobre “Você Não Sabe de Nada”, disco de estreia da banda O Grilo. Por sua vez, Vinicius de Oliveira aborda percursos possíveis em torno de “Tudo sobre o amor, novas perspectivas”, importante obra da escritora Bell Hooks. Por todos os recantos de nossa nova investida editorial, temos a companhia especial das fotografias de Lu Brito, cujo olhar atravessa sentidos especiais dispersos em corpos, espaços e cores. Bons mergulhos em nossa 144ª Leva!

Os Leveiros

 

Categorias
144ª Leva - 04/2021 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Rafael Nolli

 

Foto: Lu Brito

 

Obituário
(ano da peste, 3 de abril de dois mil e vinte e um)

 

1
Em algum momento
(o nome certo é passado)
Reclamávamos das correntes infindáveis
Das mensagens – tão automáticas – de bom dia
Ignorávamos, dávamos deslike
Protestávamos com efusivos textões
(os tempos eram outros
havia tempo para isso)

Em algum momento
(o nome certo é passado)
Reclamávamos das fotos bonitinhas
– de peixes, de pássaros, de flores, de jardins –
Emolduradas com frases bíblicas
Ou enfeitadas com poemas de péssima qualidade
(os tempos eram outros
havia tempo para isso)

Hoje – não há como chamar de presente –
As fotos postadas vão mudando de cor
(um inverno terrível se alastrando)
As imagens coloridas – antiga regra –
Vão dando lugar a outras tonalidades

Os registros sorridentes – nas fotos de perfil –
Sendo trocadas pela bandeira negra da dor
E só a palavra LUTO prospera entre as postagens

 

2
“o sofrimento maior
na maioria dos casos
é não poder fazer nada”
– alguém postou hoje, de manhã

E tudo que nos cerca
– em qualquer uma das redes sociais –
É um imenso obituário

 

3
Riscar a palavra futuro dos dicionários
Como se apaga uma ilha do mapa
(a bomba derradeira, armada ali
em uma de suas mais belas praias)

O que se divisa no horizonte
– daqui de onde falo
até onde a vista alcança –
Tem o cheiro sombrio da morte

E os maus ventos
– que nunca foram tantos –
Não se furtam em propagá-lo

 

4
Não há casa que ela não tenha sondado
Não há família em que ela não tenha rondado
Não há perfil em que ela não tenha visitado
(mesmo que distante, só de passagem)

Incansável a sua mão, incansável a sua pena
Infinitas as florestas (sombrias) de onde vem o seu papel
Infinitas as usinas (sombrias) de onde vem a sua tinta
Infinitas as fábricas (sombrias) de onde vem os seus livros

Que as pessoas – memento mori –
Que tiveram o nome escrito nessas páginas
Descansem em paz

 

5
Os aliados da morte
Sorrindo, enchem os pulmões de ar
E cada uma de suas palavras
É uma nova vala que se escava

Os entusiastas da peste
Sorrindo, enchem os pulmões de ar
E cada uma de suas palavras
É uma nova vala que se escava

Os capitães do mato do caos
Sorrindo, enchem os pulmões de ar
E cada uma de suas palavras
É uma nova vala que se escava

(dizer que falam, obviamente
É um erro crasso, um exagero:
Urram, mugem, guincham, relincham)

E cada uma de suas palavras
É uma nova vala que se escava

 

6
Có có có corvos grasnam
(os aliados da morte)
E cada grasnar có có có corvos
É uma nova cova que se abre

Có có có corvos grasnam
(os entusiastas da peste)
E cada grasnar có có có corvos
É uma nova cova que se abre

Có có có corvos grasnam
(os capitães do mato da morte)
E cada grasnar có có có corvos
É uma nova cova que se abre

 

7
À sombra circular dos abutres
Descansam, exaustos, os coveiros

 

Rafael Nolli é natural de Araxá, MG. Professor, formado em Letras e Geografia. Publicou livros de prosa e poesia, com destaque para “Isca” (poemas, lançado em 2020) e “Gertrude Sabe Tudo” (obra infanto-juvenil de 2016).

 

Categorias
144ª Leva - 04/2021 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Anna Apolinário

 

Foto: Lu Brito

 

Quaerens Quem Devoret

 

Panteras em transe
Dançam sob minha pele
Cerro meus olhos e sinto
A furiosa partitura nas artérias
E a sinfonia dos caninos acesos
Lacerando a carne
A febre cresce e decifro
A fábula canibalesca

 

 

 

***

 

 

 

A Carne Flamante das Metáforas

 

Irmã fronteiriça
Alia bestial delícia
Ao seu léxico luxurioso
Colhe especiarias na mata
Tece um amuleto de enigmas
Sangria de grafemas e signos
Rumorosa raptora
Transita e transborda
Salta entre as páginas

 

 

 

***

 

 

 

A Doçura Peçonhenta dos Feitiços

 

Meus seios sussurram preces em tuas mãos
Rosários lambem teu espírito enfurecido
Os meus feitiços roçam os céus de tua fome
Sílaba a sílaba, sacrílega
Tempero um apocalipse
Com a tempestade dos nossos nomes

 

 

 

***

 

 

 

As Mil Portas do Poema Ardem

 

Cinco voltas
Ferozes
À fechadura

 

 

 

***

 

 

 

Códex

 

Uma canção toma de assalto a minha boca
e estilhaça a paz que não queremos.
Dentro da casa que erguemos,
não há mordaça que baste:
o sonho cresce selvagem no sangue.

Um verso acende molotovs na língua,
verve virulenta inventa a rebelião.
Um gatilho para o tumulto,
entre corpos pacatos e obedientes,
um acorde eriça a revolução.

 

 

 

***

 

 

 

Teia

 

Francesca Woodman desliza
por dentro das fotografias.
Com olhos aranhiços,
a face sublime suicida.
Francesca dança
nua
levita e tece.
Penélope suspensa
espreita,
espera.
De súbito, o rapto
Francesca nos dilacera.

 

 

 

***

 

 

 

O balanço do fim do mundo

 

Um céu deliciosamente louco nos convida
ao beijo vertiginoso do abismo.
Ardilosos feiticeiros, driblamos a morte
e nos encontramos como dois pássaros infinitos
em cósmico voo.

 

 

 

***

 

 

 

Talismã

 

Nas mãos de um anjo
o mineral mistério
onde o desejo se enraíza
e diabólico, floresce
cruel e escura ferida
no coração de Deus.

 

Anna Apolinário (João Pessoa – PB, 1986). Bruxa, poeta, produtora cultural independente, organizadora do “Sarau Selváticas”, co-fundadora da “Cia Quimera”  – Teatro & Poesia, colaboradora da Revista Acrobata – Literatura e Artes Visuais. Autora dos livros “Solfejo de Eros” (CBJE, 2010), “Mistrais”  (Prêmio Literário Augusto dos Anjos – Funesc, 2014), “Zarabatana” (Patuá, 2016), “Magmáticas Medusas” (Cintra/ARC Edições, 2018), “Las Máscaras del Aire” (Poema Colectivo – Cintra/Arc Edições, 2020), “A Chave Selvagem do Sonho” ( Triluna, 2020), “Furor de Máscaras” – Poemas automáticos em coautoria (Cintra/ARC Edições, 2021).

 

Categorias
144ª Leva - 04/2021 Janelas Poéticas

Janela Poética V

Rafael de Oliveira Fernandes

 

Foto: Lu Brito

 

As horas

 

Uma trilha de formigas
sobe a parede
parecendo um ponteiro.
Sai de trás de um relógio
e cada uma
parece um segundo
em direção ao poço do prédio
onde só há o esquecimento.
Vão fugindo tão devagar
que é possível fechar a janela
para que o tempo
não escape do quarto
Para que as formigas deem voltas
e mais voltas ao redor da gente
como se o tempo parasse.
Ou para que retornem ao relógio
como se o tempo retrocedesse.
Voltasse ao ponto
em que instantes antes
uma formiga andava pelo chão
e você, numa cena linda
com um copo de plástico
retirou-a dali
colocando-a nas plantas
para que aquele pequeno segundo
jamais
se perdesse

 

 

 

***

 

 

 

Cena

 

Ver você através da janela
como se os limpadores de para-brisa
fossem os pincéis numa cena
que vai virando passado
à medida em que o ônibus
se aproxima.
Como uma pintura que vemos na sala
e imaginamos apenas
os movimentos do pincel
atrás das cores.
Ou uma música em que imaginamos
o que fazíamos e onde estávamos
ao ouvi-la da primeira vez.
Como se no ônibus eu estivesse
com fones de ouvido
e assim que chegasse,
a cena do encontro já estivesse
em um dos seus desenhos.
E tudo que parecia acontecer
pela primeira vez
os sons, as cores, as lembranças que teria
quando chegasse
fosse algo que eu apenas recordasse
pois você já teria me mostrado
no caminho
há muito tempo

 

 

 

***

 

 

 

Viagem dentro de um quadro

 

Ela olhava pra fora
do carro como se houvesse uma pintura
que ia se fazendo aos poucos.
Então passava os dedos no vidro
como se fosse ela
que pintasse a paisagem.
Primeiro pintava as árvores, contornando-as,
ou as rosas, cujas pétalas
pareciam sair da tintura vermelha das unhas,
e um lago aparecia conforme a respiração
embaçava o vidro e ela murmurava o barulho das águas.
Depois, era a paisagem que entrava pelo vidro aberto,
na luz que coloria a pele,
no vento que trazia os cheiros das flores
e desenhava seus cabelos
como se fosse ela que estivesse dentro do quadro.
Ela parecia dormir encostada no vidro,
sonhar com a paisagem
que aos poucos se formava.
Por isso, ao atravessar um longo túnel,
a lua aparecia como um olho brilhante que investigava
tudo. E quando uma montanha na forma de
menina enrolava toda a pintura,
parecia ser ela se preparando para dormir
do outro
lado

 

 

 

***

 

 

 

Caixa de sapatos

 

Ela guardava suas fotos
numa velha caixa de sapatos.
Mas o olhar que a câmera
capturava era o olhar que
eu via todos os dias.
Aquela doçura já lhe servia
quando criança.
E as olheiras lhe serviam
à medida em que o corpo crescia.
O olhar mais lindo que eu
vi era como uma roupa
que sempre a acompanhava
e através dele eu podia imaginá-la
ao meu lado mas também
no corpo de antigamente e nos vestidos
que usava naqueles dias.
Era como um tênis
cujo número nunca mudava.
Que ela guardava numa caixa
como se aquele tênis fosse também
uma espécie de fotografia

 

Rafael de Oliveira Fernandes nasceu em São Paulo, em 1981, é autor dos livros de poesia ”Menino no Telhado” e “Cadernos de Espiral” (ed. 7letras), e dos romances “Vista Parcial do Tejo” e “Baseado em Fantasmas Reais” (ed. Patuá).

 

Categorias
144ª Leva - 04/2021 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Milena Martins Moura

 

Foto: Lu Brito

 

milena esconda essas vergonhas
limpe dos olhos dos pios a presença na casa

escórias
o sujo

paredes molhadas
de cheiro vivo

guarde no armário a presença na casa milena
guarde nas gavetas
debaixo das roupas proibidas
que roçam na umidade

sobras à beira do canal
dobras
na ponta dos dedos

é suja a presença na casa

a terra sob os peitos qual serpente
e outros castigos pelos feitos de eva

maçã vermelho-sangue salivando gênesis

 

 

 

***

 

 

 

terra sob as unhas,
sob as solas,
sob o ventre.
eu rastejo.
e o frescor do solo
contra a pele
conhece apenas
quem tem a minha sede.
tantos milhões de anos dedicados
a levantar a criatura humana
em duas pernas
e eu prefiro ver o mundo
desde o chão,
de fora, de frente.
contrariando o igual dos dias.
aqui, desse lado da lida,
todo e cada corpo
é um querubim rebelado
ainda acometido
pela dor da queda.
aprendendo passos senoidais.
aqui, desse lado da lida,
os ciclos se fecham
qual mandíbula nas caudas.
passamos bem, provando o proibido,
que não é tão saboroso quanto pregam uns
tampouco põe as malas na porta.
passamos bem, mas nos botaram
a cabeça a prêmio
num livro famoso
e agora estão querendo nos queimar.
não se vê piedade
para as que preferiram
abandonar pelo caminho
braço e pena,
rito sagrado e doutrina
em nome de um ângulo primevo
que nenhum ser
jamais verá
na vertical.

 

 

 

***

 

 

 

tenho uma dobra vermelha na pele do rosto
como um corte

entranha

……..você viu

a marca vermelha da cama no meu corpo
branco
onde dói o sol

……..você viu
os meus sinais em coleção
imitando a pose ereta de órion

ombro em rigel pé em betelgeuse

as partes proibidas à mostra
faz calor
e eu tenho sede

todos os tabus desnudados

……..constelações

e eu ariadne corpo celeste
vindo jantar nos escombros

as pontas dos seus dedos mastigando os meus contornos

entranha

todos os lábios
mordendo
a fraqueza da carne

 

 

 

***

 

 

 

suas mãos em expectativa
vinham me manter acordada
era hora do sol
…….isso tem que ser visto
o primeiro é o raio das promessas
que se fazem por medo
o segundo é o raio das mentiras
que se contam por amor
os que vêm depois são para aquecer a culpa nos ossos
…….isso tem que ser visto
a manhã é a hora de uma verdade
que não desce com água
nem harmoniza com vinho
hora do lugar da língua que ocupa o sabor do erro
salgado demais para o sangue]
…….em gota
…….em gota
vem ver
já vai nascer
vamos ter certezas
e as janelas ainda mostravam a cidade alagada

 

 

 

***

 

 

 

o reles ato
de atar
os cadarços
……..o inacabado
e a boca continua aberta em suspenso
……..eu respiro
o reles ato
de pés e mãos
……..atarefados
feito o sapato em tropeços
……..desatado
e eu sou inábil em usar as mãos
servem-me à inutilidade
de não arrematar o rosto
……..o inacabado
do ano de quem morreu
dos planos de quem surtou
dos meus dentes que eram tortos
e continuaram tortos
dentro apenas do limite do ignorável
o final da chuva em que eu dancei pequena
tomei bronca
mas não gripei
mamãe estava errada
……..você não é todo mundo
e quem não é todo mundo
é ninguém
e eu ainda tropeço nos pés
e sujo a blusa da escola de sangue
……..eu respiro
e o calor de madureira lateja as minhas veias de infância
o mundo passando
na telefunken
1984
que já estava ali quando eu nasci

 

 

 

***

 

 

 

comecei no mundo com um grito de dor
……..o primeiro ar

comburente universal
……..fogo no peito

a minha história
que nasceu do grito
sucessão de notas descolocadas
em sol maior

fogo grave
……..queimadura

a minha história
escrava no fogo da forja

molda o passo torto
com que tento dançar
……..na ponta
……..do lápis

nanquim luz e sombra
todos os fados padecendo ao sol

o meu deposto aos pés do fogo
gota de sal na pele nos pelos

……..cai o pano

eu seco os olhos com o desfecho inesperado

eu seco o corpo da impureza nos poros

 

Milena Martins Moura é mestre em literatura brasileira e tradutora. É autora dos livros “Promessa Vazia” (2011), “Os Oráculos dos meus Óculos” (2014) e “A Orquestra dos Inocentes Condenados” (Primata, 2021, no prelo). Integra a equipe de poetas do portal Fazia Poesia e de colunistas da revista Tamarina Literária. Publica suas produções em diversas esferas artísticas no Instagram @oraculos_dos_oculos. Contato: milenamartinstradutora@gmail.com.

 

 

Categorias
144ª Leva - 04/2021 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Carla Diacov

 

Foto: Lu Brito

 

x
sobreviventes deitados trocam
figurinhas repetidas
experiências amorosas repetidas
de bruços trocam
feito meninos que tocam trocar
sorrisos enigmáticos repetidos
trocam até cascalhos repetidos
balançam os calcanhares no ar repetido e trocam
viram as barriguinhas para o céu
trocam o curso das nuvens repetidas
trocam andorinhas repetidas
repetem TROCO NÃO TROCO TROCO
trocam as pernas de lugar
trocam o lugar de estado
os joelhos com os joelhos dos joelhos mais jovens
o de joelhos tortos repetidos
trocam hálitos repetidos
trocam ar
sobreviventes trocam tudo
apontam calor nós nos cabelos
trocam fluidos inevitáveis repetidos
furos de guerras ecoadas
trocam repetida a terra de lugar
dormem com raízes parecidas a joelhos
sobreviventes dormem repetidos
de repetidas mãos dadas a sonhar
incertas repetições mais
exatos epílogos mais

 

 

 

***

 

 

 

:
não me sinto tão
bem nunca me senti tão capada
não tenho a memória de estar
vibrante “As they say on my own Cape Cod”
sinto que deveria ter me dedicado ao
arco e flecha como dediquei o pescoço
à leitura de teorias UFO
acordo com essa pança cheia de melancolia
olho minha mãe me olhando
minha cachorrinha me olha olhando minha mãe triste
já fui pega olhando uma lata
de molho de tomates no lugar errado
o rapaz me pegou pela mão perguntou meu nome
perdida mora por perto está sozinha
entre ervilhas eu disse
o molho entre ervilhas
comprei caqui mole e bistecas de porco
comprei a serralheria dos ouvidos açougueiros
nunca me senti tão amputada
o caminho me levou até minha mãe
minha cachorrinha olhando minha mãe triste me olhando morta
acho que seu pai tinha isso que você tem
e isso veio da conversa com a psiquiatra
isso não tinha CID e eu tenho pensamentos mágicos
trocamos a cidade a psiquiatra
me sinto bem pior
agora que sei ser vibrante com a não compreensão
do tigre CONVIVER
sei e posso e alcanço falar sobre minhas deficiências
sobre meus distúrbios
e isso assusta muito quem não me vê babando
errando as pernas letras assusta não conhecer
devo ser mesmo esse caqui mole olhando
a lata errada nos mercados
carla
ninguém fala moléstia no poema
carla é só uma lata fora do lugar
carla
“As they say on my own Cape Cod”
a vida é bonita e cheia de coelhos com trevos entre os dentes
o rapaz mais famoso da minha estante
me puxa pelos cabelos
perdida mora por perto está sozinha
uma lata errada
“a loucura é portátil”

é claro que a lata não é errada
carla e a lata
“As they say on my own Cape Cod…
partners in prosperity.”

 

 

 

***

 

 

 

x
o sobrevivente estende as mãos à estátua
o ritmo dos joelhos
o pão ainda cru
obscenidades
algumas razões
quinas duns pensamentos
mas chora
o sobrevivente estende as mãos à estátua
mas chora
o sobrevivente teme o caminho da lágrima na mão embrutecida
chora toda a sede da goela
mas estende as mãos
mas contorna
um ponto além do contorno duro
contorna
imita
estende a biografia do nariz
o sobrevivente afia a moela e cisca o assoalho
ESTOU PERTO ESTOU BEM PERTO
o sobrevivente e algumas razões
o pão ainda cru
mas pão

 

 

 

***

 

 

 

:
estender a asa norte e
sair feito uma garça rodada
eriçar a última pluma e sair
feito uma pavoa mentecapta
esticar as unhas e sair feito
um galo tarado espichar o sal
e sair feito um flamingo excessivo
arrepiar o bigode e sair
da moita em espasmos apaixonantes
o pescoço é o pêndulo da coisa penada
abraça um queixo meu peito pombo
bica uma pena que me coça a chaga da coisa penada

mania ave
de quantos bigodes precisa uma mulher para sair?

 

 

 

***

 

 

 

:
tenho uma memória inquieta
tenho um pescoço de criança
conforto em lã com cheiro de avô
lavanda
canela com leite morno
nada mau
diriam
para uma casa abandonada
nada mau
dizem
nada nada mau
comenta quem acabará por morder meu pescocinho mofo

 

 

 

***

 

 

 

:
no inverno
vou jogar meu pescoço para trás
largar um pensamento horrível no cúmulo
de uma pedra sob o sol
faço por você
mostro um pedacinho da minha arquitetura
por você
para que você não fique com a impressão
e sim com a certeza:
não sei lidar com meu próprio sumiço
com a destruição
palmo a palmo
daquilo que em nós dois
soma estações tectônicas com
flores daninhas entre os desencaixes

 

Carla Diacov [@diacovcarla] nasceu em São Bernardo do Campo em 1975. Lançou os livros “Amanhã alguém morre no samba” (Douda Correria, 2015/Edições Macondo, 2018), “A metáfora mais gentil do mundo gentil” (Edições Macondo, 2016), “Ninguém vai poder dizer que eu não disse” (Douda Correria, 2016), bater bater no yuri (livro online pela Enfermaria 6, 2017), “A menstruação de Valter Hugo Mãe” (editado pelo escritor português, no projeto não comercial Casa Mãe, Portugal, 2017) e “A munição compro depois” (Cozinha Experimental, 2018). Os poemas aqui apresentados estão no próximo livro de Carla Diacov, : “pescoço x sobreviventes”, que sairá pela Garupa. 

 

 

Categorias
143ª Leva - 03/2021 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Anna Clara de Vitto

 

Ilustração: Marjorie Duarte

 

arrebentação

 

o mar
vindo desmaiar aos nossos pés
o sangue do sol se dissolvendo
nos beijos salgados d’água na areia
onde um olhar mais cuidadoso
desvendaria pegadas
apagadas
porém ainda minhas

procuro inutilmente
na fotografia recém tirada
um pedaço de felicidade
sobrevivente

 

 

 

***

 

 

 

atenciosamente

 

antes que os caminhos
desapareçam sob a chuva,
olha-me de perto

à luz das pedras, sou outra
olha-me mais uma vez:
ignora as lamparinas falsas

sou medusa vitoriosa
se não te pareço monstro,
olha-me de novo

mais sóbrio

 

 

 

***

 

 

 

qual o foco exato
do sismo definitivo?
qual a linha entre imensos
tectônicos?
qual a linha da vida
na palma das placas?
qual sua parte e
qual a minha?
seremos nós
a ameaça ao mapa?

 

 

 

***

 

 

 

a mulher sem mãos conta os dias
em comprimidos
e no crescimento dos fios de cabelo
diligentemente arrancados antes
do colapso dos sistemas de saúde
bonito é quando cicatriza — ela repisa
e se contenta: não sabe mais do passar das semanas
bonito é quando cicatriza — reprisa
e mede as horas nas unhas que se refazem
após os cortes programados
os minutos na tampa do dedo arrancada
durante o preparo do jantar
os segundos nas gotas do ansiolítico
e sobretudo nos mantras mentalmente entoados
enquanto a mulher sem mãos ensaboa
cotovelos
antebraços
punhos
palmas
parabéns-pra-você
enquanto isso
ossos expostos
sob a água pandêmica da torneira
inauguram
novo calendário

 

 

 

***

 

 

 

142ª

 

que cor tem o tempo ido?

salpicos que cirandam no fundo branco
retratos mortos de olhos postos
nas paredes à espera de retornos

na noite enorme do porto
cargueiros e transatlânticos
lançam preces aos práticos

amanhã
a certeza do sol
ao leste da orla

amanhã
não haveria chave
que abrisse a mesma porta

 

 

 

***

 

 

 

o olhar amansado
por pedras
as pedras
antes dos poemas
os passos
antes do caminho
eu ainda penso
eu ainda penso
eu ainda penso
penso nas pedras
e levanto o olhar com ânsia
para me certificar de que as pedras
ainda são pedras
já não tropeço

uma mulher entre pedras
vestia a camiseta:
“e agora
que você sabe?”

 

Anna Clara de Vitto (Santos/SP, 1986), é poeta e autora de “Água indócil” (Urutau, 2019) e MEADA (ed. da autora, 2019). Desde 2017, integra  coordenação do Clube da Escrita para Mulheres, fundado pela escritora, cordelista e poeta Jarid Arraes. Possui poemas publicados nas revistas Ruído Manifesto, Mallarmagens, Germina Literatura, Plural, Fazia Poesia, Literatura e Fechadura, Escrita Droide, entre outras. Além das publicações esparsas, ministra oficinas de poesia e participa de saraus, performances poéticas, podcasts, leituras e mesas de debate.   

 

 

Categorias
143ª Leva - 03/2021 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Helena Aranha

 

Ilustração: Marjorie Duarte

 

Meus ouvidos são copos de vidro
bacias onde escorre pra dentro
água salgada
– ao passo do conta gotas
da gravidade –
nascida do lençol freático
que me corta.

Dentro da noite
há pontilhados
no teto, que me fogem
dançando o ronco das motos
O eterno ruído da boca
do estômago
arranca.

Dentro da noite
há algo que me escapa
ou me consome. Dentro
da fronha do travesseiro
Dentro
do café que tomei mais cedo
Dentro
não.

[ de vidro ]

 

 

 

***

 

 

 

Percebi que nós pode significar nós como os nós de uma corda de uma corrente
nós podem(os) barrar a fluidez de um movimento de um peso
obstruir a entrada de certas coisas
nós de uma armadilha nós de dedos apertados e nós juntos nós
não necessariamente somos bons mesmo quando pensar em nós é bom
nós somos ruins atados ou quando um dos nós se prende
nós sugerem uma ligação feita à força e não se questiona
à quem ela pertence à quem interessa estes nós tão presos e dados
nós talvez se desfaçam com paciência e com jeito
mas para tanto nos deixam machucados, tanto que desistimos dele
não como quem se conforma mas como quem se cansa e larga
com as mãos ocupadas

 

 

 

***

 

 

Esquecer tem uma manha, uma regra,
consiste numa fórmula que todo mundo conhece,
da qual por algum motivo fui alienada?
Esquecer tem textura de pele,
ou gosto de cigarro,
seu cheiro fica impregnado nos dedos?

A língua amarga e inchada dentro da boca,
os olhos vermelhos e apertados,
tentando enxergar na claridade branca do mormaço?
O som da espuma iluminada e efervescente
que interrompe o ensurdecer calmo do mar,
a onda que atinge sem aviso?
E que te puxa para onde quiser,
em uma dança descoordenada
que te engole por inteiro
e você não sabe mais se faz algumas horas, um final de semana,
ou uma vida toda em que a ardência do sal na garganta
se esgueirou em direção ao peito
se expandindo até explodir em um rasgo,
num ciclo onde as histórias se repetem
sem platéia e sem voz.

Seria o suor escorrendo pelas costas,
a tatuagem desbotada,
o calor abafado, a voz que grita e ri,
um cinema abandonado na República?
Seria o amigo que te beija a bochecha,
afundar em um abismo de almofadas,
a dor que vem tirar o sono?
Ou seria cantar baixo acompanhando as curvas da estrada?

Quantos copos de café tomar até esquecer?
Quantos goles, quantos dias, quantas manhãs em silêncio,
quantas vezes chegar em casa, o tilintar indiscreto das chaves no escuro,
caminhar às cegas pelo corredor memorizado,
fechar a janela do quarto como um ritual de encerramento
que se repete toda noite e finda absolutamente nada.

Penso tanto nessas 8 letras, uma de cada vez,
uma memória por vez,
separo em sílabas à medida em que também divido as horas,
três sílabas, três horas, três meses,
a semântica não me parece inteligível
pois só me vem à cabeça o antônimo que é lembrar a todo segundo
e quase implorar para alguém me ensinar
como se faz para esquecer o que é gostar de você.

 

 

 

***

 

 

 

sombras teu contorno cobre páginas as palavras falam sobre ele
ou sobre nós é difícil ter certeza sobre mim e sobre o que são apenas
sombras observo tudo o que há em nós sob uma camada de sombras
sombras na esquina da loja me assusto com algumas sombras
e de volta para casa corro sozinha pois me vejo envolta por sombras
no frio do apartamento não te enxergo em meio às sombras e pela janela
o gato branco se perde sorrateiro entre sombras sua bicicleta me corta
jogada em sombras num emaranhado de cacos e roupas e lixo e tantas
outras sombras mentiras e sombras a corda despejada me amarra
e me revela minhas próprias sombras o escuro e o som da chuva
me confundem pois seu rosto está repleto de sombras sombras
quando caminho pelas ruas vejo apenas sombras sombras e na mente
de cada pessoa sombras sombras no metrô prevejo abismos onde
potencialmente existem sombras sombras ou apenas sombras
até que ponto há sombras há profundidade nas sombras e as sombras
e os planos são apenas sombras se os pensamentos tão escuros
estão apenas no meio das sombras sombras quanto mais a sombra
é difícil de entender nas sombras que caminham ao meu lado
e se são sombras ou apenas sombras.

 

 

 

***

 

 

 

Nessas férias comi bem.
Estive ocupada, te garanto,
por isso não respondi nenhuma das suas mensagens.
Perambulei por lombadas diversas que me chamaram,
sem rotina, sem dever. Li o que meu professor
escreveu sobre sexo e mais um tanto
de introduções e coisas incompletas.

O noticiário estava difícil, as noites às vezes
mais, o vinho intragável embora delicioso.
Matei a curiosidade ao quase me afogar
entre ondas que, ao se partirem ao meio,
acariciaram minha bochecha esquerda.

Encontrei no céu um laranja tão aberto
que não podia ser verdade; na mata,
o sopro da noite; na água, a divisão do mundo;
vi ao longe (não tão longe) uma mulher
de maiô branco e me vi de maiô preto.
Lembrei de você e de você e de você,
meus pés às vezes emergiam e avistei
até um caranguejo sendo levado pela maré.

O pêssego estragou, mas comi alguns,
o maracujá que ia virar bolo também.
Tudo bem; tenho o corpo abastecido,
minha barriga se dobra em conforto,
meu coração saciado
pois nessas férias comi bem,
embora você não tenha me comido.

 

 

 

***

 

 

 

Hoje em dia é com o coiote que transo,

embora haja ainda um resquício
a memória de canto de olho
das chaves lubrificadas pelo frio
escorregando no bolso do peito
da respiração que pintava o escuro
dos pelos eriçados
e meus passos que lambiam gelo.

De noite
o olho do coiote brilha
milhares de vezes em cada folha úmida
estrelas negras flutuantes
na rua que tentava ser uma velha amiga
onde uma mulher emergia dos arbustos
onde um homem deslizava de bicicleta
onde eu caminhava sem querer ser vista.

Hoje em dia estou na mesma rua
hoje em dia o corredor não se esquece
hoje em dia a casa não chega
as chaves estão perdidas
no pega-pega infinito de uma caçada

e meus passos doem

e meus olhos ardem.

Naquela rua não havia um coiote
Ele não se escondia
Ele não me enganava.

 

Helena Aranha (1991) é designer, nascida em São Paulo, onde reside atualmente. Em seu estúdio na capital paulista, desenvolve experimentos artísticos com poesia e artes visuais, além de projetos de design gráfico e ilustração.

 

Categorias
143ª Leva - 03/2021 Janelas Poéticas

Janela Poética V

Ilza Carla Reis

 

Ilustração: Marjorie Duarte

 

Poesia silenciada

 

O silêncio da poesia ecoa
pelos muros da cidade
Seu silêncio ensurdecedor
Gritou em meus tímpanos dormentes
e calou…

Mesmo calada, reticente,
posso sentir sua respiração em minha respiração
e o seu pulsar em minhas veias

Os versos insistem em viver
no deserto da minha sobrevivência…

Fatigada pela indiferença dos homens
e sufocada pelo concreto
a poesia reclina-se em meu peito.

Mesmo reclusa, ela continua a bradar
com sua costumeira altivez!

 

 

 

***

 

 

 

Certezas utópicas

 

Ilusão pensar que se vê
Engano pensar que se sabe
Porque vemos apenas a sombra
Sabemos do todo uma parte
Apenas a parte que nos cabe!

 

 

 

***

 

 

 

Raízes profundas

 

Fincada em meu chão
e injetada de ânimo,
sobrevivo à aridez das minhas perdas!

Em meio ao cinza da paisagem dos dias
insisto, verdejante, renascendo
tal como a flor do mandacaru
que desfila sua beleza em cores!

Espero, serena e forte,
que a paisagem que me cerca se renove.
E ela sempre se renova…

A vida é mesmo feita de paradoxos
e há um tempo pra cada coisa:
tempo de acinzentar e tempo de verdejar!

 

 

 

***

 

 

 

Avesso das coisas

 

O universo quer voltar ao princípio
porque tudo está demasiadamente duro
demasiadamente perverso

A borboleta deseja voltar ao casulo
porque, lá, ela se sente protegida
da excessiva dureza da vida
da descomedida perversidade dos homens

A criança chora com saudade
do ventre materno
onde ela era livre
onde o cordão umbilical
era laço que unia…

Aqui fora, a criança chora
e reclama a ausência
infligida pela pressa das horas
do tempo que nunca sobra…

É preciso colocar, de novo,
as coisas no prumo!

Vai, criança!
Não dá mais pra voltar pr’o ventre
Então, segue em frente
e desavessa o mundo!

 

 


***

 

 

 

Parto

 

Para Clarissa Macedo

 

Não quero ter
de escrever este poema
porque ele dói em mim
e não quero que doa
também em você

Não quero
escrever este poema
porque seus versos
diluem minhas certezas que
mesmo aleijadas
me sustentam
e
como não posso
viver sem elas
imagino que você
também não possa viver

Já disse!
Não quero
escrever este poema!
Só de gestá-lo
em meus pensamentos
sinto que me falta
o ar nos pulmões

Suas metáforas amoladas
cutucam minhas feridas que
pensava
já estariam saradas
mas elas sangram
novamente

Teimoso poema!
Mesmo contra a minha vontade
teima em nascer
teima em vir ao mundo
a este mundo que não o quer

Pois bem!
Nasce logo de uma vez
bendito poema
e me livra das dores deste parto!
……(
………………………….
…………………………..)

Já posso senti-lo
saindo de minhas entranhas
consigo vê-lo
esborrachando-se no papel,
sujo de sangue,
do meu sangue,
………………e
ainda dói
agora
uma dor mitigada
por tê-lo parido
por vê-lo nascido
……………….[finalmente

Entorpecida
ouço seus primeiros gemidos
e antes mesmo de respirar
………………[ele chora
Pobre poema…
parece já saber
que viver neste mundo
não será nada fácil

E a dor que doía em mim
agora dói nele
………………..[mais uma dor parida em versos…]

 

Ilza Carla Reis, escritora, mãe, professora, é natural de Euclides da Cunha (Cumbe), Bahia, Brasil, onde trabalha e reside. Professora do curso de Letras do campus XXII da UNEB. Autora do livro de poesias “Poemeadura” (Mondrongo, 2018) e coorganizadora, ao lado de Luís Felippe Serpa, da coletânea em prosa “Histórias pra quem gosta de aprender” (Darda, 2019). Integra os coletivos “Confraria Poética Feminina”, pelo qual participa de diversos projetos e coletâneas, “Mulherio das Letras” e “Coverso19”. Considera-se, ousadamente, uma mulher que faz “peraltagens com as palavras”.