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143ª Leva - 03/2021 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

JP Schwenck

 

Ilustração: Marjorie Duarte

 

Colapso Central

 

E não há tempo
Para as coisas fúteis
Para as discussões inúteis
Já foi-se letra pra pouco argumento.

Não há mais sentimento
Só se formulam lamentos
Sanidade espalhada no chão em um manicômio urbano
Poesias pisadas até saírem sangue. Esse é o movimento.

E de praxe, eu estendo a bandeira da minha própria sanidade e des-rimo os versos proferidos
Queimo parte por parte
Depois me jogo nas cinzas e rolo
E rio
E choro.

Pois é a vida, não é mesmo?
Após disso morro lentamente nos braços da cidade
E soluçando, clamo à vida, a perda, as perdas.
E apago, acordo e não me encontro.
Vou pra onde não vou e ando por onde não ando.
Morro de novo aos pés da poesia.
E está consumado.

 

 

 

***

 

 

 

Limite

 

a cadência dos clarões fantasmas
os monstros geométricos
a quimera gigante no céu
árvores em negativo fosforescente
um pedaço de sorriso morto uivando no mar.

um trem fantasma só de ida sem nem mais voltar
o sugador de almas com fome
o canibal demoníaco poliquântico
o terror sanguinário de barba e dentes

e os pedaços do espelho que espalharam-se no chão ao atravessar
e as paredes que te fecham pra te esmagar
e o seu corpo que te prende e tenta te devorar
até desmaterializar
prendendo o limite das coisas que trancamos pra não mais lembrar.

 

 

 

***

 

 

 

Barulhos

 

quando se escreve um artifício
o peso das palavras fura o leve do ofício

há quem diga que o poema é feito de ar
eu digo que o poema é feito de alma
de uma alma pra outra alma.

há quem diga que o que há no poema é barulho.
eu digo que o que há no poema é erupção mental.

seja corrosivo, colorido, carnal
matéria visível, palpável e espiritual.

 

 

 

***

 

 

 

Cortejo Fúnebre

 

enquanto todos dormem
nas ruas, fantasmas caminham calados
em pares, braços juntos ao corpo
no meio panorâmico, caixões levados pelos ombros.
os borrões seguem cabisbaixos.
e vão aumentando.

o cortejo assombra a cidade
e vira um carnaval de sombras.

 

 

 

***

 

 

 

Brisas Continentais

 

Mais uma vez não cumpri as coisas que jurei prometer
Tanta coisa na minha lista e eu não sei o que fazer
Tô tentando seguir reto para não enlouquecer
Não gritar de madrugada pra ninguém me ver morrer
Pois até no meu último suspiro só me vem você.

Sua voz no meu lado chamando pra ao seu lado permancer
O sonho é tão real que até posso tocar o céu
De mel são as minhas asas e tão alto eu sei q vou alcançar
Minhas brisas tão inertes me levando de volta para o mar.

E do alto dessa vista, meu impulso me faz voar
No meio da fumaça do cigarro que tenta me cegar
Imerso nas brisas continentais que me deslocam de lugar.

 

 

 

***

 

 

 

Pedaço de Corpo

 

dos olhos da felicidade
nada vaza, nada escapa
pelos vãos, os sonhos vis
as pontes deixadas pela nossa imaginação.

talvez o amor fosse apenas uma invenção
uma história, um peso, um erro, uma superação
nunca escolhemos o que cegos, nós vivemos
apenas temos mudas noções.

e se cegos vivemos, nada faz tão sentido em nossas direções
perdidos estamos, vencidos ficamos ultrapassando nossas próprias invenções.

 

JP Schwenck é um artista multimídia carioca nascido no ano N⁰ II do século XXI. Proveniente de uma geração hiperativa e explosiva, ele escreve desde os 12 e produz conteúdo independente e efusivamente. Em 2020, publicou “Opus”, seu primeiro livro por si próprio e lançou seu podcast experimental “Alma Mastigada”. Inspirado na arte contemporânea e no seu cotidiano, sua missão é expor a sua visão do mundo que lhe absorve e transpor sua liberdade artística.

 

 

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143ª Leva - 03/2021 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Bruna Salgado Baldez

 

Ilustração: Marjorie Duarte

 

Retórica

 

Meu silêncio
é onomatopeico
e sinestésico:

tem som de branco
e cor de léxico.

 

 

 

***

 

 

 

Percurso de um vocábulo

 

Do conceito
nasce a palavra
perdida, indefinida,
sintaticamente
inexistente.

Em vozes vertida
ganha uso, ganha vida,
desfaz e refaz
a sua morfologia.

Variável em geografia
mal atribuída
confundida
semanticamente
dependente.

Evocada por mestres,
Drummonds e Severinas,
enuncia e anuncia
a sua polissemia.

 

 

 

***

 

 

 

Endotérmica

 

Permita-me ser,
na discrição de meu canto,
este pequeno espanto
em velado e tímido pranto.

Aceita-me
na minha inteira delicadeza
no meu balançar modesto
na minha insonora leveza.

Deixa-me
embrenhar-me em meus versos
misturar-me às rimas
metrificar-me
até que eu lhes seja ímã.

Exponha-me
somente em palavras
quando eu não mais houver;
quando as sobras
de mim
forem brasas.

 

 

 

***

 

 

 

Corpo-linguagem

 

Ao mundo abstrato renuncio
para concretizar-me
em palavras.

A todos os deuses renego
para cultuar-me
entre linhas.

Costurei-me poesia
– sou inteira cicatriz.

Eu só existo
por escrito.
Sobrevivo
à flor do lápis.

 

 

 

***

 

 

 

Não quero cantar o medo, não quero cantar a morte. Não quero ser autora deste tempo e espaço. Não quero ser um retrato da época, a cair pelo mesmo buraco.

Quero um corpo transcendental, que exista e escreva d’outro lugar. Quero simular vidas de outrora. Quero narrar memórias de outrem. Quero apartar o tempo vigente da minha palavra inocente.

Quero ser a poeta dissimulada – e não esta (ao chão acorrentada).

 

 

 

***

 

 

 

Meu grito é gravado. Minha luz é elétrica. Planto flores de plástico. Tenho olhos envidraçados.

Meu cérebro tem radares, mas não sente, não reage. Fui cultivada in vitro.

Protótipo da humanidade, sou projeto aplaudido.

 

 

 

***

 

 

 

Às vezes penso que a vida acontecia antes.

Comecei tomando diariamente algumas doses de tempo passado, de forma a anestesiar o presente. Notei que, à medida que as engolia, os membros do corpo lentamente adormeciam. Fui perdendo minha habilidade tátil. Meu olhar passou a beirar pelas laterais, as pálpebras semicerradas. As memórias resistiam e se derramavam, paralisando cada órgão. Um minuto a mais e eu me desacontecia.

Hoje, inebriada de passado, sou apenas uma lembrança ambulante, sonâmbula. Não há mais um corpo presente para morrer. A vida já aconteceu.

 

Bruna Salgado Baldez nasceu em 1992, é natural do Rio de Janeiro (RJ) e reside em São Paulo (SP) desde 2019. É graduada em Letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e pós-graduada em Língua Portuguesa pelo Liceu Literário Português, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj). Atua como preparadora e revisora de textos na Universidade Paulista (Unip). É autora do livro de poemas “Armadura lírica”, recém-publicado pela Editora Patuá (2021). Participou da Antologia “Ruínas” (Ed. Patuá, 2020), foi selecionada no Prêmio Poesia Agora Outono (Ed. Trevo, 2019) e premiada no 1º Concurso Literário AMCGuedes de Poesias e Contos (Ed. AMCGuedes, 2015).

 

 

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142ª Leva - 02/2021 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Maitê Rosa Alegretti

 

Foto: Joice Kreiss

 

distender as próximas
vinte e quarto horas
para que os segundos
esparramem-se de forma
desigual em cada
músculo de carne
morta

 

 

 

***

 

 

 

Titubear é um modo de estar no mundo
quem titubeia passa a conhecer os desígnios da vida
por entre borras de café& quiromancia.

Os passos do ser vacilante são largos
gastos em seus solados inferiores
o torso sustenta-se bambeando seu equilíbrio pelas pontas dos pés.

E ao vacilar
a troca venosa – arterial
é suspendida
para aguardar
um lapso
de
lucidez.

 

 

 

***

 

 

 

Despe o guarda-roupa
atirando todas as
peças
ao chão

……..aparta as cores
……..distantes
……………….seleciona o que cai bem
……………….ao corpo
……………….esguio & pequeno
………………………….acelera sua pressa
………………………….de livrar
………………………….o móvel
………………………….abarrotado de
………………………….segundas-peles
………………………….casacos pouco
……………….usados
……………………falsas
……………………esperanças
……………………vontades
……………………suicidas &
……………………fé moída
…………………………Repara o chão
…………………………………..refém de tanta bagunça
…………………………………………..mas o espaço vazio
…………………………………………………..entre cabides
……………………………………………………………ainda é um caminho
………………………………………………………………………..a começar.

 

 

 

***

 

 

 

Você me acorda de manhã
dizendo que vai fazer o café
ainda com os cabelos desajeitados,
pergunta se eu não vou me levantar

a casa acorda ouvindo os seus passos
pequenas formiguinhas mordendo
o piso já em vias de ser trocado

a casa desliza pelas suas mãos,
um dia o armário da louça está no corredor
outro dia de volta à cozinha

Você me acorda dizendo que vai fazer frio
antes que eu dê por mim
cobre meu corpo esquio com as cobertas
jogadas no chão

no meio da tarde
estica as pernas para cima
se deita com a cabeça
voltada ao chão
vai descansar a seu modo

Você vai perceber o copo quebrado
debaixo da pia
vai protestar pela minha falta de atenção
vai dizer como se fosse pela primeira vez

“Pode juntar todos os cacos.”

 

 

 

***

 

 

 

no apartamento da frente
escuto os berros
de uma mulher chamando outra de burra,
os meus olhos saltam para a janela com os
fogos de artifício,
algum time ruim
ganhou aquele campeonato
de novo,
as pessoas gritam,
os pássaros
amontoando-se na árvore aqui do lado,
voam de cá pra lá,
desorientados
até mesmo os urubus lá das
antenas,
são quase sequestrados
do seu ritual pacato de vida
carnificina,
tento encontrar concentração
queria escrever um poema sobre
alguém que eu gostaria de conhecer
sem ser blasé, sem parecer algo estúpido
o calor deixa as minhas ideias misturadas com a temperatura
Alexa diz: são 29 nove graus
logo depois imagino você traçando uma linha nos cabelos
como se já os tivesse visto,
decido, então, escrever sobre você olhando para os próprios
cabelos

 

 

 

***

 

 

 

eu precisava aprender
que a mesma rua
já não guardava as pessoas de antes
e a cidade se deslocava todos os dias
centímetros abaixo de nós
antes de deixar de me locomover
a cruzar a linha férrea
capital – zona metropolitana
sabendo o impulso preciso a dar
entre o vão e a plataforma
eu precisava desfazer das armações
pequenas, descolorir metade
dos cabelos, amar mais uma vez
& salgar o asfalto
por onde passei.

 

Maitê Rosa Alegretti (1993) nasceu em Osasco, onde atualmente reside. É professora de italiano e mestranda em literatura italiana pela USP. Em 2017 foi finalista do prêmio Nascente/ USP na categoria poesia, contou com alguns poemas publicados na revista Ruído Manifesto, Mallamargens e A Bacana, também participou da antologia “Parem as máquinas” do Selo Off da Flip (2020). “Titubeio” seu primeiro livro foi publicado pela editora Urutau em junho de 2020.

 

 

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142ª Leva - 02/2021 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra II

Formas de Cair: Um Projeto de Não Ser!

Por Rita Santana

 

 

Eu, filho do carbono e do amoníaco,/Monstro de escuridão e rutilância.” Eis a epígrafe do livro Formas de Cair & outros poemas (Letra Capital), do escritor Sandro Ornellas, cujo paradoxo final guiará, sobremaneira, o livro e o sujeito de enunciação, ambos imersos em jogos de luz e sombra. É preciso demolir os velhos paradigmas – quando opressivos – e Sandro os conhece de muito perto, com profundidade porque sabe das suas fundações e dos seus pilares estruturais. Ao trazer Augusto dos Anjos, o maldito, prepara os espíritos leitores para as estranhezas capturadas pela vida afora e trazidas à luz para que nós as vejamos sem filtro, sem maquiagem; na crueza e no malabarismo das desventuras existenciais suspensas aqui. Tudo ornado com apuro e requinte lírico. O leitor, que tenha certa proximidade com o escritor, não ficará imune aos conflitos e dilemas criados para este projeto que temos em mãos. Porém, o precipício será lançado, inescapavelmente, a qualquer leitora ou leitor que o abra: estaremos em plena queda!

 O livro é dividido em três partes: 1. ROMANCE DEFORMAÇÃO, 2. URBI ET ORBI e 3. FORMAS DE CAIR.  Na primeira seção, o Poeta ironiza, questiona, ludibria conceitos e a seriedade do universo em que vive, em que tece existência e criação, o universo acadêmico. Temos expostos alguns procedimentos de desconstrução do próprio cânone e descontração pândega de pilares caros à tradição. O autor já nos lança uma provocação inicial, ao intitular o primeiro movimento do livro, onde aciona um desconcerto entre os gêneros e indica denúncias de “deformidades” ou “deformações” primordiais, de origem, que formam o sujeito do enunciado. O humor é, certamente, um dos pilares da sua obra: o riso, o desconcerto, o sarcasmo e a ironia. Constam desse momento poemas que demarcam o território da Identidade. O sujeito poético está em busca de um eu que se funde em tantos outros e que, juntos, engendram uma unidade absolutamente tosca, culminando em um processo de construção de um autorretrato cubista. Talvez o autorretrato tecido seja um caleidoscópio absolutamente revelador de assimetrias e incertezas. Um Pablo Picasso, demolindo as expectativas em torno do que seria um autorretrato. Diante de uma sociedade cada vez mais ávida por definições identitárias, exigindo que o indivíduo assuma uma identidade definitiva, torna-se um transtorno não ter ou não ser uma resposta. Uma sociedade capaz de reger processos excludentes aos que não estiverem de acordo, aos que não se encontram dentro de um pacote fechado do que seja considerado um modelo identitário, dentro dos padrões, das nomenclaturas possíveis e aceitáveis, em determinado tempo e contexto social específico.  O eu poético, enfático, desilude-nos, de cara, ao negar tais possibilidades, ainda no poema 1. (inquietante rosto):

……………………………  inquietante rosto
……………………………………….que não sabem
……………………………………….nunca saberão

……………………………………..ex-crer-ver

Ao dissecar e expor o ato da escrita, no desnudamento da palavra, ele tenta nos persuadir à desistência: é inútil tentar decifrar palavra e rosto. Enquanto tantas identidades convivem, contaminam-se, flertam com outras, num intercâmbio cada vez mais violento, veloz, fluido ou líquido, pois mediado pelos processos tecnológicos, transcendentais, ancestrais, inauditos e geográficos que seguem o fluxo complexo e mutável da própria existência. Processos que sempre estiveram em nosso/seu âmago e perpetuar-se-ão até a morte do Ser.

O dialogismo ainda nos atravessa, durante a leitura do primeiro poema.  A Terceira Margem do Rio de Guimarães Rosa nos chega, através da primeira estrofe: “terceira via/terceiro homem/terceiro olho”. Aqui, já temos uma condição existencial que transpõe a lógica regente do universo dos homens. Transitaremos numa terceira margem, alargando nossos limitados horizontes, nossa visão, nosso olhar, num sentido holístico sugerido pelo próprio Poeta. O eu da escritura deixa-nos com o indecifrável que é: “inquietante rosto/que não sabem/nunca saberão.” O tom profético já aniquila qualquer esperança de compreensão futura. Mais que um rosto, uma identidade impenetrável. Descrever, “ex-crer-ver”, virar o avesso da palavra, separar-se dela, da crença, apartar-se para, enfim, compreendê-la, ampliá-la. Descrença, abandono, desistência, ceticismo, estamos diante do inescrutável que habita a busca do que somos. Quanto de significados ele nos impõe na ludicidade com a palavra refeita, numa anatomia que esmiúça e refaz sentidos contidos no ato de escrever? A partícula ex atribui um caráter pretérito à crença, à visão e à escrita, pois desarticula, desestabiliza e põe tudo em estado de evidência e questionamento. Tudo foi ou terá sido. O campo semântico ainda nos liga ao que foi separado, apartado. Ornellas nos traz a ludicidade como uma de suas características. Bella Josef assinala o caráter lúdico da escrita:

 “O jogo da linguagem é o da busca do sentido, não encontrado no objeto, mas armado na própria linguagem que o constrói. A arte literária passa a ser o espaço privilegiado da “doação de sentido”, através do inter-relacionamento de todos os elementos do texto.”                     

E completa:

“A linguagem lúdica é a mais significativa, no sentido da expressão do homem como ser simbólico, e, portanto, criativo, e a mais adequada à construção do pensamento autônomo. A comicidade e o humorismo atuam como catalisadores numa tentativa de diminuir a separação entre objeto e sujeito, recuperando a natureza lógica da arte. Se o humor matiza, o jogo liberta”.

Em 2. (arte do autorretrato), vemo-nos diante da representação de um rosto, num autorretrato que poderia elucidar uma identidade, já anteriormente negada e anunciada como inviável. A busca frustra-se novamente, ao percebermos que o sujeito do enunciado deixa pistas de que não há vestígios. Antes, o que há é: “uma montagem adúltera de tudo/ uma mistura muito funda/muito bruta muito puta”.  Percebemos uma revolta, forjada no emaranhado de origens, além de misturas e etnias que convergem para o projeto de não-ser que se monta diante dos nossos olhos: “monturo que dá em nada/em noves fora/projeto sem forma/projeto de não ser/face mestiça/etnia postiça/massa de tudo.“  Uma confusão descomunal com um suposto pertencimento que não se realiza e não se realizará. Lembro do entre-lugar do discurso, hibridismos e uma série de estudos identitários que se fundem diante de um eu em vertigem, turbulento, entre as buscas ou desistências do ser. Diante de tamanha liquidez, trago Bauman:

“Tornamo-nos conscientes de que o “pertencimento” e a “identidade” não têm a solidez de uma rocha, não são garantidos para toda a vida, são bastante negociáveis e revogáveis, e de que as decisões que o próprio indivíduo toma, os caminhos que percorre, a maneira como age – e  a determinação de se manter firme a tudo isso – são fatores cruciais tanto para o “pertencimento” quanto para  a “identidade”. Em outras palavras, a ideia de “ter uma identidade”, não vai ocorrer às pessoas enquanto  o “pertencimento” continuar sendo o seu destino,  uma condição sem alternativa.” 

Estamos diante de um autorretrato com a orelha cortada, um Van Gogh que se procura e denuncia desilusões, imperfeições, perdas. Ou uma Frida Kahlo, que também se expõe em dores, aflições e pensamentos, através dos seus autorretratos. Ornellas, que assina o livro utilizando um pseudônimo, Sandro So, destitui-se, despe-se de tudo e nada lhe pertence. Um ser poético que busca formas de cair. Um sujeito desalojado, desencontrado: “Em todo e qualquer lugar eu estava – algumas vezes ligeiramente, outras ostensivamente – “deslocado””. Aqui, o nosso eu lírico também se mutila em exposições, desnudamentos, em cortes profundos diante de todos nós, seus leitores, suas leitoras, e nos entrega – em nossas mãos – reflexões que geram perplexidades.

Há uma constatação, em Formas de Cair, sobre a impossibilidade de conseguirmos atingir esse retrato indefinível. Ele prossegue: “projeto de não ser/face mestiça etnia postiça/massa de tudo/rebarba caliça resto rebite/que não existe/bricolagem de branco com-banto/neto-de-filha-de santo/linhagem de negro e galego”. Um sujeito inautêntico, um terceiro homem indefinido, exposto à terceira margem. Eis o fio condutor deste livro: um sem-lugar, um sem-jeito. Desfazer-se de si mesmo ou assumir a sua especificidade de ser, que carrega em si tantos outros seres, além de também habitar uma canoa que segue o curso da água, sem aportar em margem alguma, sempre em trânsito. O não ser é a loucura. É não ter digitais, nem face. E o ex-eu declara: “falsa persona do próprio rosto”.

Um homem imerso em teorias, pelo ofício que exerce, tem pleno conhecimento das distorções e indefinições de uma identidade e, por isso, a persegue, não em busca, mas em caça, em perseguição acusatória, persecutória; em denúncia de si mesmo e de suas farsas ou revelação do que em sua história fictícia pode sugerir farsa ou inautenticidade, quando, na realidade, é o que é e é o que não é. O desconcerto e o desassossego estão instalados. Detetive e criminoso ou inocente, Javert e Jean Valjean. Enquanto nós, leitoras, talvez sejamos testemunhas do seu processo de anunciar a ausência de digitais autênticas para a carteira de identidade. Nós, leitoras, estamos a acompanhar o indigitado nesse descampado solitário; desnudo campo do corpo, da cidade. Ele, o eu, descreve e revira o avesso da palavra. O terceiro olho e a terceira via atuam em todo o percurso do desconcerto, enquanto outros caminhos apontados pelo Poeta surgem. Uma terceira margem da imagem, da representação semiótica do rosto; uma persona que não se decifra e que se torna a obsessão do eu- lírico desiludido, nesse escrutínio por uma decifração da identidade. Há, em quase todo o livro, uma dramaticidade niilista, um olhar agudo para a sociedade; a escrita busca uma identidade que ele percorre apenas para, ao final, desmascará-la.

Ouço ecos de João Cabral de Melo Neto na cadência do poema 3. (dialética negativa), onde, além do ritmo marcado, de uma métrica permanente, versos talhados, aqui, em redondilha maior, observamos a musicalidade, o ritmo dos versos que percorrerá todo o livro. O poema é a pontuação musical dos desencontros cravados nas identidades dissolvidas em nossa sociedade brasileira, baiana. Assim, prossegue em poemas como 4. (mito) e 5. (clandestino), onde podemos vislumbrar origens, causas do desconforto étnico que perseguirá o eu lírico, durante toda a queda.  O vocabulário transita entre palavras do universo afro-brasileiro, como forma de encontro, semelhança, familiaridade, pertencimento: “ela é meu horóscopo/meu ouro meu ori/ meu faro/ meu anjo…”. O eu do poema prossegue em processos antitéticos luminosos e obscuros, que são suas pérolas barrocas perenes. Há ritmo, dança de sons, aliterações, métrica na seleção e organização das palavras, primor no artefato poético. O rosto, o autorretrato busca por si mesmo e pela definição do outro: personas em busca. Desconstrução, desnudamento arqueológico da palavra e das identidades. Há uma exposição de não seres que nos jogam em questionamentos sobre as exigências sociais por definição, pertencimento.  A mestiçagem está na roda das suas preocupações e de suas consequências na existência; danos, dores, medidas, questionamentos em “suas funduras suas fissuras/as origens duplas/do atravessador”.

Confessa-se clandestino e atravessa fronteiras, ainda fixado em seu rosto com e sem barba, partido em dualidades, num jogo de desconfiança, de quebra de ilusões, ilusionismos; como se não fosse possível mantermos expectativas em torno de um apátrida, um pária, um aventureiro clandestino, em constantes migrações, além fronteiras. A própria convivência é redimensionada diante das flutuações, viagens, inconstâncias do ser cujo trajeto e travessia acompanhamos. Um ser transitório. Um sujeito sem teto, sem lar, sem casa, sem porto. Incapaz de se fixar em qualquer parte e que insiste em reafirmar sua natureza peculiar de homem em constante trânsito, em constante queda e que nos apresenta suas formas de cair. Talvez assim, possamos nos aproximar dos seus descaminhos:

“Estar total ou parcialmente “deslocado” em toda parte, não estar totalmente em lugar algum (ou seja, sem restrições e embargos, sem que alguns aspectos da pessoa “se sobressaiam” e sejam vistos por outras como estranhos), pode ser uma experiência desconfortável, por vezes, perturbadora. Sempre há alguma coisa a explicar, desculpar, esconder, ou, pelo contrário, corajosamente ostentar, negociar, oferecer e barganhar.” (Bauman).

O amor perde-se em lapsos barrocos que se jogam em versos modernos rapidamente, como se fosse preciso estar no aqui e escapar da linguagem rebuscada, elaborada com certa sofisticação e exasperação dos rococós. Mas ela está presente: a arquitetura que propicia à linguagem um tratamento envelhecido, como uma pátina capaz de cobrir com camadas de tempo o verbo e dourar – ainda que em gotas – as páginas que escapam às permanências e ao conforto do íntimo, ao conforto do que vigora e persiste. O sujeito do enunciado nega-nos qualquer acomodação ou facilidade: escapa, foge, nega-se a nós! Aventura-se em mil rostos para dissolver, definitivamente, qualquer esperança de encontro, de busca. E percorremos o suaveduro de suas histórias de desistência, enquanto paroxismos nos atravessam.

Parece que estamos numa ficção, narração das origens. Perambulamos por esses cobogós sem encontrarmos o todo, pois o sujeito está perdido no princípio e nos precipita em sua própria queda vertiginosa e dura. A desconstrução e o desnudamento da palavra, a fragmentação da ideia causam um efeito de transe, como se o Poeta  nos desse um quebra-cabeça, faltando peças para decifrarmos sua angústia existencial, seu olhar agônico diante da consciência do que somos, sua náusea. Orpheu e Heuterbise de Jean Cocteau percorrendo os labirintos de Hades em busca de Eurídice, mas também em busca da Morte sedutora, intensa, bela, a sua princesa. A vertigem da caminhada, a vertigem do atravessamento dos espelhos, calçando luvas que são o passaporte para a viagem, o atravessamento do Tempo. Assim, também o nosso Poeta desfila suas inquietações existenciais.

A dimensão da beleza das imagens apresenta-se corajosa e intensa no poema 10. (corpo sem pouso) que desenlaça no trágico, afinal, não há pouso, repouso nem refresco na queda em que estamos imersos, num gerúndio que se reafirma a cada página aberta, durante o processo de leitura. Vejamos o desfecho do poema: “na hora das coisas cruéis/decisivo é ultrapassar/ a planta carnívora da história/para flertar/ com a beleza do mundo/em fulgurante desaparecimento.” Sem dúvida, um dos poemas mais belos do livro, composto de uma tragicidade final, pois, agora, todo o mundo desaba. A queda sobrevoa todas as espécies, como se estivéssemos atravessando um longo plano sequência que, velozmente, percorre o planeta. E nos atinge: “um zangão à beira do gozo/à beira da abelha-rainha/agoniza em seu amor à morte.” Mesmo trágico, encanta e arrebata por sua beleza, por sua construção imagética, capaz de provocar suspiros estéticos. Mas a leitura nunca está imune a desdobramentos, ela sempre nos suscita lembranças, complementos e elos com o que estamos vivendo ou lendo, num dialogismo inesgotável. Assim, surge Simone de Beauvoir, no início do Segundo Sexo, capítulo Biologia, onde a autora discorre, com o seu estilo vigoroso e belo de filósofa e escritora, um pouco sobre o quanto a abelha e o zangão estão atados à espécie.

“O mesmo ocorre entre as abelhas: o zangão que se une à rainha no voo nupcial, onde levam uma existência ociosa e embaraçante. No início do inverno são executados. Mas as fêmeas abortadas, as operárias, pagam seu direito à vida com um trabalho incessante; a rainha é, de fato, escrava da colmeia: desova incessantemente. E, quando da morte da velha rainha, várias larvas são alimentadas de maneira a poderem disputar a sucessão; a que nasce primeiro assassina imediatamente as outras.”

Assim, descortina-se esse aspecto de sacrifício do zangão, como se fosse ele o único a sacrificar-se pela espécie. Mais adiante, ao abordar a espécie humana, ela dirá: “… ao passo que a humanidade está em permanente vir a ser”.

Ou ainda:

“É somente dentro de uma perspectiva humana que se podem comparar o macho e a fêmea dentro da espécie humana. Mas a definição do homem é que ele é um ser que não é dado, que se faz ser o que é. Como o disse muito justamente Merleau-Ponty, o homem não é uma espécie natural: é uma ideia histórica. A mulher não é uma realidade imóvel, e sim um vir a ser; é no seu vir a ser que se deveria confrontá-la com o homem, isto é, que se deveria definir suas possibilidades.”

O fio que tento estabelecer aqui é exatamente o olhar existencialista para a transcendência, ”este ultrapassar de uma situação presente por um projeto futuro”, segundo Sartre. Trago para estas reflexões o vir a ser que é constante e que toca também uma identidade que não é estática e talvez nunca tenha sido tão velozmente mutável, influenciável: líquida!

O poema 11. (travessias) irrompe cruzamentos inúmeros com dores e confissões cotidianas, de quem se perde em ressacas, em portas, numa convulsão de desencontros, situações sem saída. Mas ali, há a quimera e isto restitui o caráter onírico do nosso sujeito de enunciação, que sofre o desterro em que vive, em que delira em estado bruto de consciência; um eu cortado por desencantos, empurrões do destino. Um ser tortuoso de onde conflitos abundam. Com o poema 12. (inverso), fecha-se a primeira parte com uma tentativa metalinguística de organizar o caos.

Temos, então, o segundo momento do livro, intitulado URBI ET ORBI, em que os poemas tocarão a cidade, o corpo inserido no mundo, nas ruas, em outros continentes, na órbita universal.  Em 1. (carteira de identidade), vemo-nos às voltas com os complexos psicanalíticos que trazem a presença do Pai e da Mãe, em seus arquétipos, para a cena: “esta cidade não me salva/nasci fora de suas fronteiras/pai e mãe são meu medo/dupla derrota/tatuada em meu corpo/como cicatriz da história.” Mais uma vez, a origem umbilical dos dramas ou dos traumas; a busca por seu território ou a constatação de estar ausente do seu lugar e a circunstância de não ter lugar: “esta cidade não me basta/sou bastardo em sua memória/tenho um não-lugar além/sou estranho a toda estória/irredutível ao que se exprime/em seu fado/em suas horas”. Um inadequado, um inadaptado numa cidade, onde ele se sente – como tantos de nós – um estrangeiro, um estranho, um forasteiro, em situação incômoda de bastaria. A única forma de subverter o estranhamento é pular seus muros e desafiar suas fronteiras, como um clandestino em travessia, em fuga. Assim, o livro trafega entre o abandono em que nos encontramos na cidade que nos vigia, a nós, estrangeiros, e entre o sentimento de nomadismo muito presente no livro. Temos ainda as especulações sobre o tempo, que chegam através de rugas sobrecarregadas de significados. O eu do poema critica a oligarquia que preside o ritmo da cidade. Sutilmente, aponta a cartografia do lugar dividido em andares, elevadores e elevados. Entre arrastares de pés que caminham e percorrem a cidade, vemo-nos atravessados também de amores frustrados. Há desilusão e pessimismo nestes versos que caem. Marcas de uma cidade bem distinta daquela encontrada pelos turistas. Há uma desconstrução ou exibição e desnudamento de mazelas e odores de uma cidade que não acolhe. É o que pontua o olhar e as idiossincrasias do eu poético desencantado, devido ao abandono em que nos encontramos na cidade, devido à solidão e à estranheza que sentimos.  O poema 4. (Casa corpo cidade) traz, em seu título, invólucros que nos resguardam e nos massacram aos olhos do Poeta, que sente ímpetos terroristas: “a sanha por penhascos/o desejo de explodir /o centro em pedaços/ a convivência com o tráfico de afetos e fracassos/e vício compartilhado”.  O Poeta revela-se personagem que vive a crueza da cidade; alguém que a sofre porque está nela e não apenas assiste, distante, aos acontecimentos. Ele, transeunte, vive a cidade. Seguimos em encontros remotos com Gregório de Matos, num diálogo de denúncias comuns das mazelas da cidade, enquanto o próprio leitor é convidado a entrar em sua festa de desencantos, cúmplice, seguindo memórias machadianas: “Estranha virtude nos une/ hipócrita leitor/ meu igual meu irmão”. Assim nos sentimos atravessados pelo mesmo desencanto e amargura, diante dessa fera que nos devora, também a nós que, hipócritas, fingimos que tais dramas não são nossos! Fingimos ler o outro! No entanto, o Poeta nos convoca à Consciência, à Cumplicidade irmanada.

A partir daqui, invade-nos uma atmosfera de sensações, onde a solidão e a estranheza permeiam as páginas do livro. A queda intensifica-se vertiginosamente, pois a insatisfação e a crítica invadem todos os espaços, poros, pele do papel. O tempo e a constatação da impotência diante da vida. A presença do corpo. Lugares. O lugar da Poesia. O contato, a proximidade, os contratos sociais, as redes familiares, o país: “Algo de podre parece viver nesse país de fácil sorriso”. O que um livro traz, o que ele nos ensina. Migrar, migrações transmigram, identidade em vertigem: o lar, a família, o corpo, a cidade, o país, o mundo. A cidade personificada urra e todas as suas imundícies são compartilhadas conosco: família, amor, tesão, fracassos, tudo se mistura e é observado pelo Poeta, em delírio, em vertigem, em queda. Há a presença do corpo que sente e cheira todas as sensações, numa atmosfera sinestésica, apocalíptica, feroz, mortal. Todas as memórias estão impregnadas de fracassos e, mesmo quando vislumbramos um oásis de amor, a penumbra cerca aquela paisagem onírica, permeada de beleza, como acontece no poema 8. (memórias dos carnavais): “o Jardim que você prometeu matou meu serafim.” Ouço bandas de rock de Brasília presentes no poema, consigo ouvir toda uma geração 80, entremeada nesses versos tristes. Em outros momentos, sentiremos ecos de Augusto de Campos em tentativas do Poeta  de explorar imagens, linguagens, sons, experimentos.

Viajamos por lugares especiais, enquanto experimentamos o abandono. De que trata o poema? Memórias de amores, de outros carnavais? Memórias literárias que atravessam oceanos e deixam marcas na pele do Poeta? Do que se trata? A atmosfera nos penetra em interrogações e nos perdemos em devaneios; nos movemos em dúvidas, desejos que já são nossos e perdas que também são nossas. Uma viagem de ônibus é matéria de reflexões tão filosóficas e tão amplamente profundas que mergulhamos com nossas bagagens na viagem, com o eu do poema, sem que ele o saiba. O amor está presente nas páginas deste livro com ares de melancolia. Entanto, há prazeres pelo instante vivido, pela alegria de viver o cotidiano simples e grandioso de conversar, durante o trajeto do ônibus, ao lado de quem nos ama: “íamos no ônibus e falávamos e o ônibus ia em nós/e viajávamos acompanhados de quem nos ama/na solidão do grande rio que margeamos” (11. (intermunicipal)). Aqui, um momento lírico-amoroso, pleno de beleza, de amor e de juventude, onde uma outra margem surge, sinto desejo de permanecer no poema!

O Poeta, que confessa viver, estar num supersonho, trafega por outros continentes e traz aspectos dos povos que frequenta, traz o outro e suas influências; modifica-se com o outro, torna-se outro, numa geopolítica íntima que traz leveza à leitura: “carrego comigo/ muitas outras viagens/ do atlântico sul” (13. (geopolítica íntima)). Viagens como busca de possíveis identidades perdidas, que trazem histórias inscritas na própria pele, em suas origens, mas também trazem as marcas de outros povos, outras culturas que permanecem. A África faz-se presente, assim como Lisboa e Brasília também delimitam influências.  Quando dialoga com Drummond, deixa na página a ausência da cidade; ausência espacial, que, no entanto, está lá, marcada pelo vazio. Tal dispositivo estético-semântico pontua a importância do signo cidade, corpo, cidade-eu no livro. Busca por uma identidade atmosfera de desencanto, de ausência, desesperança; um olhar que perscruta o mundo. Migrações internas e externas, identidade em vertigem. Encerramos a segunda parte do livro com uma sensação de encontro, movimento e busca de possibilidades dentro das linguagens urbanas de expressar e imprimir a si mesmo em seus muros, suas paredes, numa queda mais branda.

Iniciamos o movimento final do livro com tons de metalinguagem e questionamentos acerca do lugar do poeta no mundo, onde a “tradição” entra na mira do eu lírico. Em Formas de Cair, terceira parte do livro, encontramos uma epígrafe que simboliza e sintetiza todo o projeto, pois é o título de um texto da Poeta portuguesa Luiza Neto Jorge, “O poema ensina a cair”, que será  imediatamente mencionado no segundo poema, indicando que,  apesar da queda, o poema cumpre uma função  importante  em nossas vidas e é uma Poeta quem nos sinaliza, como nos informa o nosso sujeito de enunciação: “É é bom saber que se/ocorrer de nós cairmos/e não  nos ferirmos é/porque o poema ensina/ a cair – conforme Luiza/ categórica explicou/ e que humilde subscrevo/ ciente de que neste jogo/erro, vertigem e queda/são as verdadeiras vitórias/que o poema pode pode ter”. Permanecerão os dilemas cotidianos, mas serão iluminados pela máxima deixada pela Poeta e o poema guiará o eu vertiginoso que acompanhamos até aqui. No poema 5, teremos uma exposição  mais íntima do eu lírico, pois o contato social, o estar com outras pessoas na sociedade será tratado com extrema delicadeza e profundidade, dando-nos um retrato mais nítido do ser que enfrenta a sociabilidade, como tantos de nós, com extrema dificuldade, quase sempre disfarçada. Ele traz no desfecho ao poema: “As convenções são o trono/ das perversões mais severas“. Os embates permanecem, mas há uma outra respiração  musical nos textos; momentos onde o arrebatamento poético nos toma e sentimos vontade de dançar, como no poema 7. O Poeta segue desenhando desejos, sonhos, paixões com mais suavidade. O cinema se apresenta como uma força que move o eu lírico. Estamos aprendendo a cair com seus textos, com suas perdas. O Poeta nos deixa uma interrogação, antes do seu posfácio aos pedaços:

“Mas afinal quem juntou os cacos
dessas histórias de erros e quedas
que tanto lemos?”

 

Rita Santana nasceu em Ilhéus, Bahia, a 22 de agosto de 1969. É graduada em Letras pela Universidade Estadual de Santa Cruz. É atriz com trabalhos em teatro, cinema e televisão; escritora e professora. Em 2004 ganha o Braskem de Cultura e Arte para autores inéditos com o livro de contos Tramela. Em 2006, Tratado das Veias (poesia) é publicado pelo selo Letras da Bahia. Publica Alforrias (poesia) em 2012, pela Editus. Em 2019 publica Cortesanias (poesia), pela Caramurê, e participa do Festival Internacional de Buenos Aires.

 

 

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142ª Leva - 02/2021 Janelas Poéticas

Janela Poética V

André Siqueira

 

Foto: Joice Kreiss

 

Quarentena

 

Os objetos conhecem
os quartos, partes, cômodos,
extensões de remansos
que abrigam toda a gente
íntima do silêncio
isolado na espera
de cada ser fechado.
Testemunhas ocultas
mesmo que emudecidas,
hospedeiros de gente
no vírus desse mundo.
Sem luva sinto, pálido:
os objetos na casa
prosseguem retesados
e infectados de gente.

 

 

 

***

 

 

 

chuviscou nos telhados simples
as gotas dançavam dulcíssimas
trespassando os pedestres rápidos
indo e voltando pelo asfalto
empoçado numa renúncia
de quem cansou de tanta gente
que passa e não percebe os cacos
de esmeraldas nos velhos ombros
dos muros plantados nas terras
abertas pelas mãos passadas
silentes no canto da casa
erguida no solo tocado

chuviscou nos telhados simples
as gotas acertavam como
barcos de papel naufragando
no mar de imagens chuviscadas

 

 

 

***

 

 

 

o silêncio quebrado apenas
pelo pernilongo da casa
mata o tempo das horas moucas
horas corredoras da noite
enquanto na parede o dono
é o relógio cafona como
a minha cara malpassada
nos ponteiros do meu relógio
sedento e sisudo conduz
a bocarra que enruga e cospe
os detritos vãos da memória

 

 

 

***

 

 

 

20 de julho e o tempo

 

O tempo.
Aplacá-lo, interrogá-lo,
inquiri-lo, investigá-lo.
O relógio de antanho.
O de agora pende sobre mim.
Sou deitado assombro.

O tempo (esse clichê avolumado)
perpassa espectralmente.
Fui digerido, digeridos fomos.
Fica esse arroto do tempo.
Verdugo taciturno em horas.

 

 

 

***

 

 

 

Breve cafeína

 

Começo o dia com café
Nas ruas o verde das folhas grita
delicadezas
Espero o ônibus de reminiscências
que mornas ainda excitam. Temo
a velhice e os frutos podres
Pessoas passam em águas turvas. Uma
gota ferida.
Termino a noite num riso sarcástico
de fé.

 

 

 

***

 

 

 

Recuperação do cansaço

 

O grande som do avião atravessa a noite.
No sofá, à meia-luz, enquanto o macarrão
não fica pronto, velo a vida ancorada nos
quartos vazios, engolindo coaxos longos
e maduras ventanias.

 

André Siqueira é poeta, mora em Jacareí, interior de São Paulo. Cursou a faculdade de Letras pela UNIP, mas não concluiu. Publicou em 2020 seu primeiro livro de poemas “As Manhãs Fechadas” (editora Gataria). Já colaborou em diversas revistas, jornais, blogues e antologias de poesia. Atualmente participa de eventos, palestras, oficinas e saraus, além de escrever regularmente para a revista de literatura e arte Pixé.

 

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Janela Poética I

Marize Castro

 

Foto: Joice Kreiss

 

[…]

 

 

De aço e seixos são meus lábios.
Misturo-os com os lábios do homem-mulher
e da mulher-homem

Giramos na mesma rotação até rompermos
o que de mais precioso possuímos

Então a miséria nos suspende
O amor se espalha em nosso sangue
e segreda: não se imobilizem

Daí a luz entra e já somos outros:
subterrâneos para os subterrâneos
translúcidos para a ternura

A coragem se mostra entre plátanos e feras
(na estranheza a bondade ancora)

 

 

[…]

 

 

A verdade é mesmo só um grão nunca visto?

 

 

[…]

 

 

Sonhei com o céu azul em meu ombro
e nele o meu rei estava
Suas árvores e seus segredos agora são meus

Tudo dele irradia e sobrevive em mim

Aonde ele foi?
Aonde irei?

Nenhum e todo lugar te espera
diz o meu coração enquanto se entrega
ao enigma mais distante

 

 

[…]

 

 

À luz de spots pavões esperam, o desejo lateja
Seivas de dríades deslocam-se

Na ilha de Circe, redefino-me

Em páginas secretas escrevo o que me golpeia:
terra e céu clareiam quando me esqueço
terra e céu agonizam quando te esqueço

Ouço os olhos do silêncio:
aquela mulher te ama porque te quer míssil
aquele homem te ama porque te quer pântano

Mãos imperfeitas libertam sépalas
Mulheres mancas e macias espraiam-se em areias remotas
Elas sabem: nada terá tido lugar senão o lugar

Em amor, território primeiro e último, vigio a morte
Ergo-me queimada entre campânulas
e restos de êxtase trazem-me de volta
(aprendi a deixar nascer as coisas)

 

 

[…]

 

 

Depois procurar o céu e exigir uma saída
para este país de sol e morte

Eis que com a tempestade a delicadeza surge
e guarda em cântaros de aço palavras como
pélago, guirlanda, alabastro

À noite lembro que a poeta Liu Xia
continua presa e seu homem amado está morto
lembro que Marielle está morta
e permanece sendo assassinada
– nove balas não são suficientes –

Monstros nos gabinetes ordenam:
destruam o êxtase e a verdade
São eles os inimigos, gritam os atrozes

 

 

[…]

 

 

À margem e sempre abismada, pergunto:
quem ouve e beija minha alma neste tempo
de enorme gravidade?
o garoto que no trânsito se banha em cristais?
a amiga que no alto da colina sorri, estratosférica?
o menino despido na casa que alcança o céu?
a  outra miga que se afoga no mar?
o rapaz trans que me oferta o sexo?

Busco a lanterna mágica de Tsvetáieva
Aquela que amou loucamente as palavras
seu aspecto
seu som
sua inconstância
sua imutabilidade

Sim e sim: amar com o mesmo amor
– nossa bênção e nosso anátema –

(tudo suave e ácido, cintilação e sombra)

Em mútuo desamparo, amantes sussurram:
…………………………………………Tânatos é puro

Um claustro se abre
e línguas de argila e ardor são arremessadas
na superfície do mundo

Seu coração em minha boca, minha boca em seu coração:
sorvo e ascendo

 

Marize Castro (Natal-RN, 1962) é autora dos livros de poemas Marrons Crepons Marfins (1984); Rito (1993); poço. festim. mosaico (1996); Esperado ouro (2005); Lábios-espelhos (2009); Habitar teu nome (2011) e A mesma fome (2016). É graduada em Jornalismo, tem mestrado em Educação e doutorado em Estudos da Linguagem. Editou nos anos 1980 o jornal O Galo e, nos anos 1990, a revista Odisseia. Edita seus livros por sua própria editora, a Una, que define como deliciosa e desamparada viagem.

 

 

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Janela Poética II

Wilton Cardoso

 

Foto: Joice Kreiss

 

Rio do esquecimento

 

a vida escorre pelo ralo dos relógios
no inferno de cimento e piche
gases e automóveis

os sonhos derretem no asfalto
o alto dos edifícios é um abismo
no fundo: rio do esquecimento
em brancas nuvens

cocô de cachorro pedaços de
copos plásticos folhas secas
rolando sobre a grama seca
no ar quente e seco de setembro
canteiro
no meio da avenida
o sol martela a pele manchada
a imundície dos cabelos
a cara-cadáver noias
putas mendigos (de)ambulantes
viajam as vias (s)em volta
da rodoviária

 

 

 

***

 

 

 

Haicais crepusculares

 

folhas secas
bailam no asfalto
ao ritmo do vento

ruído
fiel companheiro
por horas a fio

é tarde
só poentes
brotam no horizonte

 

 

 

***

 

 

 

Paisagem muda
Rua 57, C 137

 

O lote limpo dos detritos:
retângulo de concreto
entre três muros
e a calçada.

Quem quer se lembrar
da dor que irradia
da cápsula ao corpo,
do corpo à alma?

Do muro dos fundos
um grafite grita
a dor soterrada
no concreto do lote.

Um grafite grafa
as letras de Leide
que não vai mais andar
em nossa cidade.

Só um grafite
(arte de negros)
corta o silêncio
de concreto do lote

e desenterra a dor
(grito invisível)
dos que não têm voz.

 

 

 

***

 

 

 

A alma podre do poeta

 

Do lado de dentro da máscara
burocrata, um solo putrefato
gesta uma flor feia e ex-
uberante, um poeta etílico
de rosto lúcido, límpido,
barbeado e banho tomado.

Do lado de dentro uma flor
suja, um olor fétido, enraizado
na face sombria da alma e, mais
ao fundo, se afunda no lodo
podre da cidade, alma de asfalto
e cimento, vidro e plástico, corpo
atravessado de horários e cifrões.

Do lado de dentro da fantasia feliz que desfila
no carnaval do dia a dia (de patrões
e labuta, dos negócios, do gozo
cinza e furioso do consumo) se dis-
semina a onda bacante, a erva
daninha, praga sem serventia,
a poesia.

 

 

 

***

 

 

 

A noite que vem

 

A noite tem a cor do medo e do ódio
A noite cheira à tristeza e vingança
A noite com sangue nos olhos
é mais escura que o breu
O coração das trevas da noite
exala um hálito verde-oliva
A noite e seus campos ressequidos
na terra que definha
A noite e seu rebanho de bestas-feras
A noite dos chicotes
tangendo o rebanho ao abismo
A noite dos pastores ensandecidos
À noite
o pastoreio da morte

 

 

 

***

 

 

 

Alguma coisa

 

Alguém
presta atenção às folhas
na praça dançando ao vento, ao vento
que entra pela janela e acaricia
os poros, na memória lenta dos mortos,
no emaranhado de fios sobre a avenida,
no vai e vem sem sentido das formigas
humanas, às ruas do dia cheias
de carros, nas ruas vazias
da noite, à noite de luzes
e gatos da cidade, ao mendigo
que dorme na calçada, à letra
da música, em alguma
poesia?

Alguém consegue………..prestar atenção
……………………………….em alguma coisa?

 

Wilton Cardoso nasceu em 1971 em Morrinhos-GO. Formou-se em Jornalismo e cursou pós-graduação em Estudos Literários pela UFG. Trabalhou como programador de computadores e professor de língua portuguesa e literatura. Atualmente é servidor público do Estado de Goiás e mora em Goiânia. Além de poemas, escreve ensaios e mantém o blog pessoal O engenheiro onírico, onde disponibiliza as suas obras sob licença copyleft.

 

 

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Janela Poética III

Bruna Mitrano

 

Desenho: Geometria da palavra

 

 

tem espinhos na língua.
o encontro é quando lambe o racho da minha sola.
até que o primeiro lapso nos levante às pressas –
ensacamos entulhos com sutilezas de rancor.
nada que despossuímos sobrevive ao que gestamos.
é nesse escuro lúcido que soldamos as carnes?
sim, estaremos sempre sozinhos –
guardo nossos segredos com muitas mãos,
seu sangue seco nas minhas coxas.

 

 

 

 

***

 

 

 

 

você não sabe se enxugar,
eu disse rindo.
das suas pernas encharcadas brotavam poças escuras
que no corredor escuro
pareciam buracos –
eu não desviava,
espalhava seus abismos.
até que ficava insuportável te ver escorrer
e eu me agachava e lambia dos seus extremos até o pé,
a língua desmoronando em cada dobra,
enquanto você ardia por toda a dor do mundo.

e foi por ela,
foi por toda a dor do mundo
que chorei em seus pés
e supus as linhas do seu rosto quando minhas águas,
lágrimas, coriza, bichos,
tanto amor,
amornaram seus dedos.

 

 

 

 

***

 

 

 

 

ainda falava em reparação
o nariz bicando a asa de frango frita
boca e mãos luzindo engorduradas –
meu bem, seu amor é patético ao meio dia.
e a cara amarela desde a manhã
se havia
um grito vinha da cozinha
geladeira velha
bebo água e a voz grave do vizinho me treme
outro copo quebrado
varro mal
esqueço e
ah esse calor terrível
deito no chão –
você acha que vai chover?

 

 

 

 

***

 

 

 

 

choque
uns passos
segundo plano
acho que vi um milagre!
acho que vi!
as mãos estavam vazias
quando o homem louco
aos berros no meio da rua
esclareceu
o último gole
a raiva ainda alinhada –
é difícil, ele disse,
morrer.

 

 

 

 

***

 

 

 

 

rasgava a camisa com os dentes
a raiva desnudada de pavor
e se deixava à beira –
como adestrar a mão convulsa?
o mijo morno entre as cobertas era como peitos grandes pietá
aninhava-se no turbilhão do que era
reconhecia
seu corpo
erguendo à boca a própria armadilha
e lembrava das frutas que nasceram podres
as que nasceriam pra sempre.

 

 

 

 

***

 

 

 

 

deito, abro as pernas em pássaro e curvo a cervical pra, daqui, te ver. no centro, os lábios úmidos do animal todo boca devoram a sua imagem diminuída pela máxima distância suportada – sobre o corpo inerte, não obstante o grito esmurrar a película que encobre o peito, no golpe extático da pequena morte, dançam o líquido branco espesso e meus muitos coágulos – emaranham-se, escorrem. as mãos, não soltamos.

 

Bruna Mitrano vive na periferia do Rio de Janeiro. Filha de camelô e neta de lavadeira, é mestre em Literatura pela UERJ, professora, escritora, desenhista e articuladora cultural. Publicou poemas, contos e desenhos em jornais, revistas e antologias no Brasil e no exterior. É autora do livro Não (Ed. Patuá, 2016).

 

 

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Janela Poética IV

Mírian Freitas

 

Desenho: Geometria da palavra

 

Instante

 

Mas para que serve o instante?
Na sobrevida do momento íntimo
flâmulas acesas chamuscam
no escuro da parede de tijolo cru
pavio insano aceso
entorpece os olhos nus
duas biroscas matizadas
no reflexo da luz e da sombra
–fotografia nas instâncias letais
do corpo—
infinitude
incompletude
o instante se faz ausente.

 

 

 

 

***

 

 

 

 

Solidão

 

Olhe para dentro,
há o turbilhão das vozes,
íntimas raízes, mortos que falam.
O solitário não fala, mente.
Traduz de si para si
o calendário da alma.
Dentro
–realisticamente–
ninguém
ninguém.

 

 

 

 

***

 

 

 

 

À flor da pele

 

Labaredas da alma acesas
como fogueira incessante
a queimar os poros
as células viciantes do corpo
a vicissitude do instinto
o bojo dos lábios,
o fogo,
incêndio no pedestal da cabeça.
Fogo!
respira fundo,
o fogo nos ossos
a crepitar no instante do último fôlego.

 

 

 

 

***

 

 

 

 

A Morte dos bois

 

Os bois antes de morrer, choram.
Cabisbaixos,
lagrimejam os grandes olhos
sabem que vão ser mortos.
A caminho do matadouro,
em fila indiana,
os mais delicados sussurram seu pranto triste.
Outros, ao berros, urram de medo
e desespero.

Quem, afinal, gosta de morrer?
Quem, afinal, vê na morte uma necessidade?

Sofridos, desalentados,
os bois choram.
Inútil chorar.
As algemas da morte estão atadas
não perdoam.

As lâminas afiadas cortam,
o sangue escorre.
Lágrimas, gemidos, sussurros tristes

de nada adiantam.
Morrer é preciso.
Morrer é urgente.
Os bois suportam o mundo.

 

 

 

 

***

 

 

 

 

Come in

 

Cultiva-te em mim as tuas mãos
como se fossem galhos apressados, firmes,
molhados pela doçura do orvalho noturno.
Despoja-te em mim teu corpo
como um barco náufrago, afogando-se
no pranto da multidão
no poço das águas revoltas.
Mergulha-te em mim como um peixe
a esfregar tuas escamas no meus pelos negros
insanos
— rebeldes–.
Transborda-te em mim como um líquido
assim,
gotejando em silêncio, sem dizer palavra,
apenas abraçando-me na mudez
como a planta que ama
sem necessitar do verbo.

 

 

 

 

***

 

 

 

 

Os que nascem em abril
comem maçãs vivas
enquanto pensam escuro lá dentro
na terra e nas folhas

relâmpagos sopram faíscas
luzes solitárias—vivas como os invertebrados,
além das luzes, o arfar do vento acende o termômetro
da vida pulsante
que não se atrasa para partir—.

Partir-se infiel a um outro
no escuro atrás das coisas
serpente nos olhos
–vibrantes— a vida no centro
submerge como os submarinos,

bolhas na água límpida flutuam espumantes
vozes indefinidas atrás das estâncias líquidas
naufragam o poema.

 

Mírian Freitas, mineira, reside em Juiz de Fora, doutora em Estudos de literatura (UFF), lecionou em Massachusetts,  EUA, por quase 10 anos e atualmente é professora do Núcleo de Línguas do IFSUDESTE/JF. Autora de “Intimidade vasculhada” (contos- Editora 7  Letras/Imprimatur), “Exílios naufrágios e outras passagens” (poesia- Editora Patuá), “Caio Fernando Abreu: Uma poética da alteridade e da identidade”- no Prelo- (Ensaio), foi uma das autoras da Antologia Lusófona I (poemas- Folheto Edições&Design, Leiria- Portugal). Possui textos espalhados em  revistas como CP Literatura (Editora Escala), Revista Cult, blogs e sites de literatura como o Releituras, portal Cronópios e outros.

 

 

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Janela Poética V

Cristiano Silva Rato

 

Desenho: Geometria da palavra

 

Venha até mim

 

Como é ridículo falar amor
E, belo, falar dor.
Ah, duas palavras, rimam,
mas uma é água
e a outra é lama sufocando lentamente o rio.

Ah! Por que querem que eu fale sobre o ódio?
Quero dizer coisas ridículas,
que esta raiva passe
e gritar pelado, pelas avenidas, ruas e becos
Amor,
Amor, venha me salvar da selva,
venha salvar meu corpo caído
estancar o sangue que corre como lama
por este buraco de bala.

 

 

 

 

***

 

 

 

 

Sem resposta

 

Sei, estou fora do tom,
do dom
da porra toda.

Recomeçar é difícil
como uma cãibra
no meio da madrugada
enquanto se dorme.

Mas não movo
um dedo.
Observo
toda a velocidade
os amigos que saem,
as pessoas que se vão

Estou no centro
não sou ninguém.
Quem é você?
Me perguntam.
Eu sou uma selfie muda.

 

 

 

 

***

 

 

 

 

Para os fracos

 

Nesta época
não se pode fazer poemas de amor,
temos que ser fortes
e sentimentos não combinam com a luta.
Tempos de guerra,
tempo líquido, gasoso, sem piedade.
De venenos destilados,
jogados em passeatas.
Mas me recuso, tudo me afeta,
a falta, a presença,
os raios de sol,
os sorrisos que não tenho mais.
O amor é para os fracos,
para os pobres,
para os que perderam,
para quem nunca teve,
aqueles que não conseguem dizer uma palavra
sem lembrar da sensação de um beijo.

 

 

 

 

***

 

 

 

 

Dormente

 

Outra noite, e algo estava perdido,
minha consciência já não existia mais,
não era eu.
Você pode me odiar
me ridicularizar,
mas minha mente se foi,
eu não lembro.

Outro dia,
o álcool já não fazia mais efeito,
a cocaína já não era tão boa assim,
o thc já não me acalmava,
minha alma já não era minha,
eu não lembro,
minha mente se foi.

 

 

 

 

***

 

 

 

 

… 1

 

Não me agradeça
repetidas vezes.
Não diga obrigado
quando eu lhe entregar as chaves.
Não diga obrigado
quando eu lhe der uma palavra.
Não diga nada,
não me olhe nos olhos.
Não ouço mais as revoadas de pássaros,
os latidos.
Eu não tenho mais que levantar,
não consigo mais.
Não me agradeça,
eu sinto um grito agudo,
uma canção de Dylan
e lágrimas,
acho que estou mole,
hoje em mim bate um silêncio,
não quero mais poesia e
palavras em
primeira
pessoa.

 

Cristiano Silva Rato é autor de “Todos que conheço são suicidas” (2019, Editora Caos & Letras) e “Sentido Suspenso!” (2012, Multifoco), tem diversos textos espalhados pela internet e em antologias. Documentarista, ajudou a criar e dirigiu o programa de websérie Literatura no Boteco. É Coordenador do Coletivo Terra Firme, responsável pelo selo editorial e agência multimídia Marginália Comunicação, locutor e produtor do programa Cemitério dos Vivos, na Matula Web Rádio, co-fundador e editor na Editora Caos & Letras. cristianorato@caoseletras.com