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73ª Leva - 11/2012 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Hilton Valeriano

 

Arte: Fao Carreira

 

 

DESFECHO

 

Deveríamos saber de um sentido maior
que justificasse o que somos
feito o vento
ou uma canção reincidente
a trazer-nos luz.

Mais do que esperado,
aceito.
Dádiva consentida
pelas mãos do que supomos
seja a verdade
ou o derradeiro
desfecho
de um itinerário
inconcluso.

Porém mais do que
perfeito.

 

 

 ***

 

 

LUGARES VAZIOS

 

Há lugares vazios em que habitamos
por escolha ou decisões alheias.
Lugares vazios onde não há flores
sejam de plástico ou verdadeiras.

Triste jardim de sementes malsãs
onde cultivamos equívocos
provisórios
ou definitivos.

O que nos faz humanos
em nossa perfeição vã.

 

 

(Hilton Valeriano é professor de filosofia. Edita o blog Poesia Diversa)

 

 

 

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70ª Leva - 08/2012 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Hilton Valeriano

 

Desde as xilogravuras medievais até as famosas iluminuras, o desenho sempre esteve presente na história da arte. O leitor poderia ser levado a pensar o ofício do desenho como uma forma periférica de uma suposta manifestação artística secundária, visto a predominância da pintura, mas nomes como Albrecht Dürer, Gustave Doré, M. C. Escher e Oswaldo Goeldi evidenciam o equívoco dessa perspectiva.

Rui Cavaleiro Azevedo, artista português de Lisboa, em nossa Sabatina, expressa suas opiniões sobre a arte e o ofício do desenho, sua importância estética, suas relações com a literatura, seus projetos futuros. O leitor é convidado a mergulhar no universo expressionista e humanista desse artista, a discorrer sobre a vivência estética de seu olhar, de suas cenas, sejam elas urbanas, naturais ou literárias.

Rui Cavaleiro / Foto: Elsa Vecino

DA – De que forma se deu sua experiência inicial com a arte do desenho?

RUI CAVALEIRO – Durante os meus estudos, em menino e adolescente, eu era incluído entre aqueles que “não têm jeito para o desenho”. Efetivamente, considero que não fui dotado com qualquer prenda divina, nem para desenhar nem para nada mais, e acho que desenho pior que a média das pessoas. Em menino e jovem, os meus desenhos decorativos e geométricos eram invariavelmente sujos, torcidos e distorcidos. Quando o trabalho parecia finalizado e a régua deslizava pelo papel e deixava atrás dela o rastro de tinta da china borrando o desenho, eu tinha a consciência da minha nulidade no mundo da Arte. Por dificuldade visual, ainda hoje não vejo a perspectiva.

Contudo, passava as tardes em casa desenhando personagens e paisagens inabituais, com lápis de cor e manchas de aquarela, copiando livros de comics.

Tenho na memória, mas talvez seja um sonho, que um dia um professor me disse que se eu quisesse candidatar-me a Belas Artes, ele me ajudaria a preparar o exame. Devo ter sonhado. Além disso, por esse tempo já tinha feito exame para entrar em agronomia.

DA – Como você vê o papel do desenho e sua relevância histórica no campo da arte?

RUI CAVALEIRO – O desenho foi uma das primeiras formas de expressão dos homens. Nas paredes das cavernas, na areia, na argila. Seria para representar a realidade do modo que o desenhista a via, para esconjurar medos e fobias, para contar os acontecimentos ocorridos.  Antes da fotografia, o desenho era, para os biólogos, o modo de registrar objetos e seres dignos de nota. Para os arquitetos e cenógrafos, é o modo de organizar o espaço e a realidade de determinada maneira. Para outros, será um modo de tomar notas ou ainda de distrair a mente, como, por exemplo, desenhar flores durante as reuniões profissionais.

Almada Negreiros, um grande artista português que já não se encontra entre os vivos, disse que o desenho é o nosso entendimento a captar o instante.

Agora, uma confidência. Tentei várias vezes fazer pintura. Segui cursos em Academias em Bruxelas, experimentei várias técnicas, fiz quadros abstratos, realistas, tentei reproduzir os meus pequenos desenhos em grandes telas brancas e virgens. O resultado foi sempre desastroso. Eram quadros simplesmente horríveis. O fato de não dispor da liberdade para apagar, alterar, desenhar por cima, rasgar, faz com que a pintura não seja um modo de expressão adequado para mim.

DA – Mesmo nas cenas naturais ou urbanas, seu traço expressa um olhar que busca a paisagem como dimensão cultural, ou seja, uma vivência humana da perspectiva criadora do artista. Comente esse aspecto de seus desenhos.

RUI CAVALEIRO – Os meus desenhos estão ancorados à realidade. Pode ser uma paisagem, uma pessoa a dormir na praia, uma cena de uma velha fotografia, um cão a brincar. São imagens de outras imagens. É fácil verificar que muitos dos meus desenhos são cópias, reproduções, plágio (!) de outras obras. Parasito, assim, o trabalho de outros criadores.  Contudo, gosto de ser um intérprete da cena, mais do que um observador. Que emoções estão a experimentar os personagens, mesmo sendo eles animais? Esse é um ponto interessante para mim. Se tudo está ligado no universo, se podemos sentir em São Paulo os efeitos de um bater de asas de borboleta, em Lisboa, então, os elementos desenhados numa folha de papel também devem estar relacionados entre eles, com o passado, com o futuro, com o que está fora da folha de papel mas nela está sugerido.

DA – A arte do desenho e a literatura possuem uma longa história. Você tem expressado sua arte também com figuras de escritores e personagens literários, mantendo a relação desenho e literatura.

RUI CAVALEIRO – Esses desenhos são uma simples porta para entrar no Universo do escritor: podem ser uma ilustração da sua obra, como aqueles romances ilustrados do Júlio Verne ou do Alexandre Dumas, que enchiam a adolescência. Eu via o desenho e ia à procura do texto relativo a ele. Ou pode ser a resposta à pergunta: que pensava o criador quando escrevia aquelas ideias, que emoções experimentava ele? A literatura e a poesia são, assim, uma fonte inesgotável para os meus desenhos. Como diria o Mestre Almada Negreiros, limito-me à captação de instantes já passados.

DA – Muitos de seus desenhos expressam no plano figurativo a dimensão estética de poemas de diversos autores. Como é criar um desenho a partir de um poema?

RUI CAVALEIRO – É como entrar no poema e passar para o outro lado. Uma vez mais, é captar, numa folha de papel parecida com outra em que o poeta escreveu o poema, o instante em que o poeta o escreveu. Mas não esqueçamos que, como diz Pessoa, o poeta é um fingidor. Então, o desenho tem que ir além do poema, além do poeta. O desenho pode responder às perguntas: que acontecimento fez com que o poeta escrevesse isto?,  Estaria a chover no dia em que ele escreveu o poema? Estaria ele a falar a sério ou, mais uma vez, a fingir?.

DA – Qual foi a inspiração para a série de desenhos intitulada maternidade? O que você busca como artista ao expressar o nu feminino em seu momento progenitor?

RUI CAVALEIRO – Para o desenhista, o corpo humano é o princípio de tudo, a principal matéria-prima. Na pré-história, desenhavam mulheres grávidas seguramente para compreender o mistério da fertilidade, para agradecer aos deuses o fato da mulher ter engravidado, para assegurar que o nascimento fosse feliz.  É maravilhoso para um desenhista ter como modelo uma mulher grávida, observar as mudanças diárias, do corpo, da pele, imaginar as mudanças do pequeno ser que ela transporta dentro. Sente-se bem? Estará a dormir? O desenhista tem, assim, dois modelos num só e, ainda como brinde, a estória da criação do bebê pelo progenitor, ausente/presente na folha de papel. 

 

Desenho: Rui Cavaleiro

 

DA – Comente sobre a cena artística e os espaços para divulgação de arte em Lisboa.

RUI CAVALEIRO – Confesso que não estou muito metido nos circuitos artísticos lisboetas. Sei que a crise econômica, social, de valores que a Europa está vivendo deixa marcas na produção e comércio da arte em Portugal. O boom criativo e a especulação no mercado da arte terminaram.

Em Bruxelas era diferente. Tenho saudades das pequenas galerias, livrarias de ilustração e banda desenhada, onde ouvia jovens artistas discutirem projetos e outros a explicar os guiões das suas próximas obras. Em Lisboa, nunca consegui apanhar esse ambiente. Porventura, uma dificuldade minha.

Creio que as atuais condições sociais na Velha Europa são o adubo para novas expressões artísticas. As novas tecnologias digitais são um ótimo e eficaz instrumento, mas os grafitis nas paredes das cidades também.

DA – Acredita que, no sentido da originalidade, a ideia de aura do objeto artístico passou a ser uma utopia em nossos tempos? 

RUI CAVALEIRO – A originalidade da obra de arte continuará a ser uma exigência imposta aos artistas e o seu exercício de busca permanente. A tecnologia trouxe uma nova dinâmica para a criação artística. Depois, há um aspecto fundamental: as novas tecnologias e a agenda digital permitem ao artista contemporâneo uma experiência global de diálogo e interação com o público. Os jovens artistas aprofundam a relação entre Arte e Tecnologia, de modo a refletir e a fazer-nos refletir sobre as transformações desencadeadas na sociedade e as possibilidades de socialização dos processos artísticos. Isto é magnífico.

Todos os componentes clássicos da Arte continuam presentes, sejam eles estéticos, sociológicos, morais, religiosos, mercantis, pedagógicos. E as funções mágicas e rituais da Arte continuarão igualmente a poder ser cumpridas.

DA – Há muitos espaços de convergência a serem preenchidos através do papel da crítica de arte?

RUI CAVALEIRO – Veremos o que vai acontecer nos próximos tempos. A realidade mostra que grande parte da imprensa de arte que nos últimos anos constituía uma referência na literatura, pintura, fotografia etc., está a perder público, importância e influência. Isto é fruto de vários fatores, nomeadamente da crise nas vendas da imprensa escrita. Não podemos esquecer que os grandes grupos de mídia são propriedade de grandes grupos econômicos transnacionais, todos eles com uma estratégia global. Onde enquadrar aí os críticos independentes que examinam, comparam, enquadram, opinam e doutrinam? É complicado.

Têm que ser encontrados outros espaços, talvez cyber, com os quais as pessoas se identifiquem e colaborem interativamente, gerando ideias e movimentos novos.

Os críticos, como os filósofos, são fundamentais para indicar os vários caminhos que podemos escolher e percorrer…

DA – Vislumbra algum projeto artístico futuro?

RUI CAVALEIRO – Não tenho projetos concretos. Tenho, já prontos ou em esboço, três pequenos livros de ilustração que, porventura, um dia editarei se encontrar editor. Um deles tem o título de “O cabeleireiro de macacos”. Tenho sempre a vontade de ilustrar estórias de outros autores de quem eu me considere cúmplice. Veremos.

Rui Cavaleiro / Foto: Elsa Vecino

 

(Hilton Valeriano é professor de filosofia. Edita o blog Poesia Diversa)

 

 

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69ª Leva - 07/2012 Destaques Olhares

Olhares

Desenho: Rui Cavaleiro

 

 

A APREENSÃO DO MUNDO EM SENTIMENTOS VIVIDOS

Por Hilton Valeriano

 

“O óbvio é tão somente o resultado da cegueira ocasionada pelo desenraizamento poético do mundo.”

Em toda arte autêntica, a realidade não deve ser mostrada, e sim transfigurada em sua representação. Poderíamos dizer que o mundo do artista deve ser manifesto, e a possibilidade de desvelamento desse mundo encontra-se na representação de sua subjetividade, fonte essa, paradigmática de sua criação. Mas não podemos esquecer o centro de referência dessa subjetividade, que paradoxalmente deve ser a realidade, mas transfigurada, e por isso, compreendida como arte. Assim, o óbvio é tão somente o resultado da cegueira ocasionada pelo desenraizamento poético do mundo. A arte evita, ou se contrapõe a esse desenraizamento, ao imediatismo estéril de uma visão pragmática quando se constitui como fonte para o “olhar” apreensivo de dimensões simbólicas, porque humanas, e, portanto significativas da realidade como dimensão existencial.   No livro O discípulo de Emaús, o poeta Murilo Mendes diz:

A realidade deve ser pouco a pouco domada, até ser captada pelo lirismo – para que se opere sua transformação, e elevação ao plano do espírito. Assim se forma a criação artística.”

Podemos encontrar a ressonância das palavras do grande poeta mineiro nos desenhos de Rui Cavaleiro Azevedo, o Ruaz, desenhista de Lisboa, Portugal. Sua obra compõe o exemplo de uma arte autêntica em seus princípios. Traços de uma figuração expressionista, cuja representação artística revela uma imagética dos sentimentos.

Desenho: Rui Cavaleiro

Ante sua obra, que versa sobre diversos planos do cotidiano, paisagens, retratos de figuras anônimas ou personagens de grandes obras literárias como Moby Dick, de Melville, ou Dom Quixote, de Cervantes, ou mesmo em representações do poeta Fernando Pessoa, somos convidados como expectadores, a integrar suas cenas, pelo núcleo humano que as alimenta, ou seja, a subjetividade de seu criador. Subjetividade marcada – esteticamente – pela transfiguração de uma vivência poética do mundo circundante e suas significações.

Olhar e ver que o sentido que habita o mundo é sempre criação, ou seja, intencionalidade semântica, projeção de um ser que instaura sua existência como dimensão cultural. Olhar e ver que os sentimentos, projetos, ações presentes no mundo podem ser apreendidos e propostos como diálogo intersubjetivo. Olhar e ver os desenhos desse artista da terra das caravanas e ser, sobretudo, comovido por uma poética humanista.

Cito novamente Murilo Mendes:

“O homem terá que fazer tudo desde o princípio; deverá antes de mais nada redescobrir o sentimento.”

E concluo:

Ruaz: apreensão do mundo em sentimentos vividos.

 

 

Desenho: Rui Cavaleiro

 

 

(Hilton Valeriano é professor de filosofia. Edita o blog Poesia Diversa).

 

 

 

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67ª Leva - 05/2012 Destaques Olhares Outras Levas

Olhares

ASSIMETRIA, ESBOÇO E PROJEÇÃO: A ARTE DE FELIPE STEFANI

Por Hilton Valeriano

Desenho: Felipe Stefani

Pode a arte apreender o movimento primevo do nascer das coisas e dos seres, de seus gestos, acontecimentos, vivências? Antes do fato, os sonhos; antes do anseio, os projetos; sempre a possibilidade.  Os desenhos de Felipe Stefani, artista convicto em seu ofício, parecem demonstrar o fluxo premente da existência antes de sua realização nas dimensões da temporalidade. Uma obra marcada por traços assimétricos, onde início e fim confluem, onde o desfecho paradoxalmente inconcluso expressa formas vindouras, repletas da instabilidade característica do movimento, e que revelam um intento permanente de criação. Longe de uma mera abstração sintética, seus desenhos manifestam a forma, isenta de toda matéria, em seu prenúncio. Sua subjetividade de artista busca o instante nascedouro, o esboço humano de concretização, o que nos leva à questão da definição de um ser em sua essência.

Se as ações do homem não o definem como um ser estático, mas sim como um ser sempre projetado, o espaço aberto, espaço esse constitutivo da liberdade em suas múltiplas escolhas, ou seja, o futuro, evidencia o campo de possibilidades nunca definidas, nunca concretizadas, a continuidade da vida como fluxo de projetos a se realizarem como significação provisória.  Assim, podemos pensar os desenhos de Felipe Stefani nas suas dimensões estéticas em três planos analíticos: assimetria, esboço como forma inconclusa e espaço de projeção.

Desenho: Felipe Stefani

Assimetria

Tendo a ação humana como realização de seu intento a possibilidade ou não de concretização, transposta para o âmbito da arte como subjetividade criadora, seus traços, simbolicamente representados como projeções, só podem ter a assimetria como apreensão do movimento intencional característico do humano em sua manifestação.

Esboço como forma inconclusa

A possibilidade de concretização da ação humana revela o projeto como significação, como instaurador de sentido, mas sendo possibilidade, só pode manifestar o esboço em seu anseio de realização, ou seja, sua forma inconclusa porque não determinada.

Espaço de projeção

Apreender a ação humana em seu intento e simultaneamente mostrar toda a dimensão provisória de sua realização, toda a possibilidade ou não de concretização de seus anseios, revela a principal característica do homem: a liberdade. A liberdade como dimensão definidora do homem, como sua essência, só pode ser percebida nos desenhos de Felipe Stefani se prestarmos atenção na relação estrutural, semântica existente entre os seus desenhos e a folha branca, que se apresenta como espaço de projeção. Seus desenhos parecem nascer, brotar da folha branca como um sentido a clamar pelo homem.

A estética de Felipe Stefani ecoa as palavras do poeta Murilo Mendes: “O homem é um ser futuro. Um dia seremos visíveis.”

Desenho: Felipe Stefani

(Hilton Valeriano é professor de filosofia. Edita o blog Poesia Diversa)