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137ª Leva - 04/2020 Aperitivo da Palavra Destaques

Aperitivo da Palavra I

Uma leitura de Cinevertigem, livro instigante de Ricardo Soares

Por Geraldo Lima

 

 

Cinevertigem, de Ricardo Soares, é um livro inovador, provocador, escorregadio. Publicado pela Editora Record, em 2005, é obra que cruza a fronteira dos gêneros literários e busca, com certeza, ampliar os horizontes da criação literária. Durante a sua leitura, o leitor provavelmente indagará: isso é prosa ou poesia? É um romance ou um longo poema?

Num primeiro momento, o leitor, certamente, será tentado a ler essa obra como um longo poema, já que o ritmo, as aliterações, as rimas internas e as imagens atestam isso: “veloz dentro dessa noite oriunda quem, quem, quem me acende a boca do fogão que está entupida, quem que me frita um ovo do avesso, quem me paga comida, compra ração para o cão, entende que os livros estão espalhados pelo chão porque assim eles são…” A repetição do pronome “quem” enfatiza e reverbera o desejo do eu lírico [ou seria do narrador?], assinalando mais ainda o caráter poético do texto.  Assim se inicia o texto: “quem, quem, quem, quem, quem é que me cobre de beijos? Quem, quem me lambe a ponta do nariz…?” Essa repetição, que se pode dizer também icônica, já que indica um sentido de urgência, de obsessiva solicitação, aparece ora no início da estrofe [ou parágrafo?], ora no meio, mas sempre introduzindo um novo núcleo de ideias, de pedidos, de coisas desejadas, um novo rol de objetos, lugares, pessoas, profissões etc.

Cabe salientar aqui, e creio que sem perigo de dar spoiler, que estas são, também, as palavras que encerram o texto, expondo sua estrutura circular, ou inscrevendo-o no rol das obras que começam pelo final. O autor, num gesto tipicamente machadiano, marcado pela ironia, parece brincar com o leitor, querendo surpreendê-lo numa falta.  Senão, vejamos: “para os que começam lendo um livro pelo fim devo dizer que morri no meio da história; sou um defunto que jaz e pergunta: quem, quem…?” Há que se observar, também, que “veloz dentro dessa noite oriunda” é uma referência clara ao livro de poemas de Ferreira Gullar, Dentro da noite veloz, publicado pela Editora Civilização Brasileira, em 1975. Aliás, a referência a outras obras literárias, a personagens de ficção [“quem, quem, quem me dá essa vida de Macunaíma, brincando com o pau dentro do jirau…”], a nomes de autores ou figuras de destaque no mundo intelectual [“quem, quem, quem me dá a vida do cabeludo pajé Darcy, boca seca de tanto falar”] será, ao longo do texto, um procedimento bastante usado por Ricardo Soares, mas evitando, sempre, o tom de exaltação ou de discurso elevado.

Mas aí, na ficha catalográfica, diz que se trata de um romance. Entendemos que o romance é um gênero híbrido, que acomoda em sua estrutura outros gêneros, como bem nos mostrou Bakhtin, mas seria esse o caso deste livro do jornalista, diretor de TV e escritor Ricardo Soares? Se formos enumerar nele a presença de elementos próprios de um texto narrativo ou ficcional, talvez nos frustremos. O narrador, no caso, se confunde com o eu lírico da poesia. Há mais uma voz que explicita seus desejos, sua subjetividade, do que um ser fictício que conta uma história. É mais uma voz que clama, como numa oração, ou num cântico pagão, do que uma voz que narra. Não se trata nem mesmo de um poema narrativo, de caráter épico, já que não há a figura de um herói realizando grandes feitos, tampouco o tom elevado do discurso que caracteriza essa forma literária. [Da página 70 à 73 há de fato um poema, com versos, estrofes, rimas e composto num ritmo próprio da poesia feita pelos cordelistas; mas a inserção desse poema, claramente narrativo, no corpo do romance, – aqui admitindo-se que se trata de fato de um romance – encontra-se, ainda, dentro do caráter híbrido desse gênero narrativo.] Os personagens, ou pessoas referenciadas, melhor dizendo, não chegam a mover-se, dando início a uma ação concreta, progressiva. Vez ou outra surgem fragmentos de histórias que poderiam se desenvolver, mas logo se esgotam e somos introduzidos em outro núcleo de coisas evocadas pela voz masculina ou consciência desejosa de experimentar novas vivências. Os espaços são variados, já que há um vagar constante da alma ansiosa desse ser que se agita no texto. Desse modo, a narrativa em si, ou o escoar poético da voz que fala no texto, resulta num amplo passeio por vários lugares da nossa geografia, por vários aspectos da nossa cultura e da de outros povos, nessa tentativa angustiada de alcançar, realizar ou incorporar aquilo que se reitera com a pergunta: “quem, quem, quem, quem, quem é que me…?”

Para ampliar ainda mais o seu aspecto de obra fora do convencional, há a sua aproximação dos recursos da montagem cinematográfica. Cada bloco que se inicia, quase sempre com a pergunta obsessiva “quem, quem…”, parece expor um fotograma que registra uma unidade de desejo ou súplica que vai se desdobrando e agregando outros elementos ao núcleo temático, justapondo sensações ou ambientes, para ser, logo em seguida, substituída por outra, criando sempre uma atmosfera de vertigem. Mas, ainda que aparente ter uma estrutura fragmentária, há um sentido de encadeamento, de ligação, de amarra entre os parágrafos, ou as estrofes, ou as cenas, como queira. Como se dá isso? Às vezes a unidade seguinte ganha corpo a partir da retomada de uma palavra da unidade anterior, sugerindo a técnica de “palavra puxa palavra”. Um exemplo: “… este velho na ativa dava inveja a outros tropeiros…” Inicia-se, então, a unidade seguinte retomando a palavra “tropeiros” no singular: “quem, quem, quem me dá essa vida de tropeiro absoluto…” O vasto painel de realidades díspares que o autor vai agregando ao texto, ora com visão crítica sobre questões sociais e políticas, ora movido pela ironia e pelo espírito de carnavalização, cria a imagem de um mundo caótico, de cinema glauberiano, em que a câmera gira nervosa, registrando tanto o delírio poético do cineasta quanto o seu olhar que desvenda criticamente a nossa sociedade.

Em suma, o Cinevertigem de Ricardo Soares é esse passear delirante, aflitivo, obsessivo, desejoso por vários meandros do fazer humano, da experiência de vida do outro, enfim, da cultura, numa sequência que se processa entre o ritmo e a imagética da poesia e o possível novelo da narrativa ficcional que vai se desenrolando num único fôlego, até desembocar num final que é puro cinema, ou referência/reverência ao cinema.

 

Geraldo Lima é escritor, dramaturgo e roteirista. É autor de “Uma mulher à beira do caminho” [contos, Editora Patuá, 2017], “Trinta gatos e um cão envenenado” [peça de teatro, encenada em 2016 em Brasília] e “O colar de Coralina” [roteiro de um longa de ficção dirigido pelo cineasta Reginaldo Gontijo]. E-mail: gerallimma@gmail.com

 

 

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136ª Leva - 03/2020 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Fabrício Brandão

 

É impossível não carregar os sintomas do mundo. A frase, dita assim num arremedo inicial das ideias, não é algo leviana na medida em que todos nós, de algum modo, estamos amalgamados ao que se chama de vida real. E pronunciar a palavra mundo, como um complexo e vasto território de apreensões da experiência humana, pode aclarar a compreensão dos fenômenos que dizem respeito ao coletivo. Nesse sentido, enxergar-se como sujeito é jamais negar a afetação dos temas engendrados no tecido social, na contraposição de ideias e sentimentos com os demais semelhantes, no conflito que emana das relações entre as mais distintas correntes do pensar.

Não basta a mera constatação de que somos seres políticos por natureza, pois é necessário dar o passo adiante. Reconhecer-se político é mover as forças que vão do pensamento à ação, catalisar revoluções internas e pessoais no sentido de que estas estejam a serviço de uma manifestação de implicações práticas no conjunto da sociedade. No mister da Literatura, por exemplo, a palavra é epifania, gozo, partilha e comunhão de ideais que segue ao encontro de um Leitor, por vezes desconhecido, quiçá ensimesmado nas suas convicções íntimas, mas que pode ser convidado a reagir diante daquilo que lhe é apresentado. Obviamente, no jogo das naturais tensões entre emissão e recepção, há que se considerar a aparição plausível de uma plataforma crítica que pode apresentar consequências imprevistas originalmente. E a virtude de todo esse processo de enfrentamento pode também estar na faísca da provocação e da dúvida.

Falar de uma consciência aguçada de mundo é falar de uma escritora como Clarissa Macedo, poeta investida no percurso lúcido da vida. Na confluência de sensações, a autora é porta-voz de um olhar que se nega a fazer concessões diante do avanço atual e permanente da barbárie que intenta nos devassar. Seu livro mais recente, o instigante “O nome do mapa e outros mitos de um tempo chamado aflição” (Ed. Ofícios Terrestres, 2019), é tributário de um painel de sentimentos que se afiguram revestidos de uma expressão política e filosófica capaz de posicionar os versos na condição de pujante interpelação do mundo.

Clarissa, que também é revisora, pesquisadora e doutora em Literatura e Cultura, faz de sua poesia um instrumento de ação, demandando de seus leitores uma atitude jamais passiva quando o tema é pensar as questões que afetam sobejamente nossas humanidades. E não há, no ofício da poeta, verso algum que corra solto, dizendo algo por dizer, sem a correspondência com uma habilidade de manejar tanto os domínios formais da palavra quanto as ideias e sensações em curso. Dito isso, não é demais considerar que a autora é uma das importantes vozes da literatura brasileira contemporânea, qualificação que também pode ser aferida pela leitura das suas outras obras: a plaquete “O trem vermelho que partiu das cinzas” (Ed. Pedra Palavra, 2014) e o livro “Na pata do cavalo há sete abismos” (Ed. 7Letras, 2014), que obteve o Prêmio Nacional da Academia de Letras da Bahia, tendo, em 2019, sua 3ª reimpressão pela Penalux, além de ser traduzido ao espanhol por Verónica Aranda (editorial Polibea, Madrid, 2017).

Atenta às indagações que lhe foram ofertadas, Clarissa Macedo concedeu gentilmente uma entrevista para a Diversos Afins. No transcurso da conversa, a obra da poeta esteve em evidência, demarcando de modo especial a visão de mundo dotada de uma dicção intelectual que harmoniza inteligência e sensibilidade, ferramentas indispensáveis inclusive na reflexão sobre alguns dilemas da contemporaneidade.

 

Clarissa Macedo / Foto: Ana Reis

 

DA – Não é possível falar do seu novo livro sem primeiro ressaltar essa verdadeira cartografia dos afetos que foi construída ao longo de sua trajetória, sobretudo em cima dos laços estabelecidos através da grande rede. Some-se a isso o fato de você também dedicar a obra a expoentes da resistência feminina e negra, tais como Carolina Maria de Jesus e Elza Soares. O que dizer desse conjunto inicial de sentimentos?

CLARISSA MACEDO – Michel Maffesoli fala que é preciso voltarmos ao coração. Ideia esta, acredito, alojada sob uma episteme que demanda à humanidade reinventar-se, através do amor, para existir. Eu compartilho desta noção. A literatura é meu modo de estar e me reconhecer no mundo; sempre foi assim e o é cada vez mais. Nesta existência por meio do literário tenho colhido mais alegrias do que qualquer outra coisa. Nesse sentido, minha palavra, que em “O nome do mapa…” é empregada, sobretudo, como artefato bélico contra os desmandos destes tempos, abre-se à celebração do amor. Todas as pessoas que ali estão mencionadas contribuíram de distintas maneiras para a feitura do volume e, assim, para minha existência. Não podia deixar de levá-las comigo, de agradecer pelas contribuições afetuosas. Esse conjunto de poemas foi tecido a partir do gesto da inquietação que anseia por uma mudança efetiva, que caminha pela sobriedade e que acredita na capacidade da consciência como forma de revolução. Por isso Carolina, símbolo de resistência e amor à escrita; Elza, maga da música de todos os tempos; e Irina Henríquez, poeta e cineasta da Colômbia, país irmão com o qual temos muito que aprender – vozes negras e indígenas que precisam ser lidas, ouvidas, respeitadas. Então, apesar dos tempos de angústia que o livro aborda, o chão dele é arado pelo movimento do afeto. É necessário guerrear com flores nas mãos.

 

DA – É emblemática sua última frase sobre guerrear com flores nas mãos, ainda mais no estado de coisas atual em que vivemos. Diante de um país e mundo cada vez mais distópicos, o que representa a sua assunção de praticar uma literatura marginal?

CLARISSA MACEDO – A literatura é, por si só, marginal. Por isso cumprir este caminho como tenho feito – estudando, pensando e optando por uma carreira profissional (a de revisora) que está ligada à palavra – requer coragem. Escrever é contornar o mundo com uma faca que grafa sentidos e dissidências; às vezes dói, quase sempre sangra, pois na Terra o capitalismo domina todas as esferas: social, econômica, afetiva, política. Coisa mais esquisita é a expressão “capital humano”, que me recorda Antonio Candido quando este diz que “O capitalismo é o senhor do tempo. Mas tempo não é dinheiro. Dizer que tempo é dinheiro é uma brutalidade. Tempo é o tecido de nossas vidas”. Acessar a literatura é manejar a descoberta, a separação entre Tânatos e Cronos, é celebrar a vida em sua dimensão mais profunda, a dimensão humana, rejeitando o projeto perverso de capitalizar a humanidade. “O nome do mapa…” é, nesses termos, o resultado de minha obsessão em cartografar a palavra poética como resistência à necropolítica – algo totalmente descentrado. Mas quem se importa? Como este livro escrito por uma mulher baiana com cheiro de fábrica pode incomodar o deus mercado? Eu poderia falar sobre o meio editorial e tantas outras coisas, mas só digo que se meu livro puder oferecer a alguém uma alternativa ao “capital humano”, algum tipo de devassamento de fronteiras, tudo valerá a pena.

 

DA – Fazendo alusão ao sentimento que atravessa um poema como “Desconhecida”, a constatação do tempo com status de aflição é verdadeiro desabafo. Acredita na ruptura de nossa inércia estrutural a ponto de podermos mudar as coisas?

CLARISSA MACEDO – No poema, “as utopias acabaram em nome da televisão”, entrecruzadas pelo desencantamento, anunciado por Weber como resultado do avanço do capital para todas as relações – e destaco a esfera religiosa institucionalizada, que seria responsável, a princípio, pela perpetuação da espiritualidade. No sistema regido pelo financeiro, o sagrado, o sonho, o rito, a poesia, em seu sentido mais pleno, não têm lugar. Esvaziar estas categorias é roubar do ser humano a sua identidade, deixando-o à mercê do consumo da matéria como forma de preenchimento, forma esta incompleta e desabitada e, por isso mesmo, mantenedora do sistema, pois se nunca encontra verdade e razão, nunca se satisfaz, comprando e comprando para aliviar uma dor que nem sabe que sente. Ruir com toda essa arquitetura bem projetada é um desafio sem precedentes, sobretudo quando vemos partidos de extrema-direita, defensores do ultracapital, ressurgirem, ganhando espaço no mundo. Por outro lado, isto é reflexo de um maquinário que se sabe prestes a ruir, já que o planeta não poderá seguir caso a exploração continue do modo como está. Para que possamos sobreviver, precisaremos nos reinventar, e para isto a humanidade é qualificada. É frustrante que não mudemos pelas razões certas, por uma ética ecológica e do amor. Mas, talvez, a sobrevivência nos ensine, além de sua própria função básica, a sermos mais solidárixs.

 

Clarissa Macedo / Foto: Ana Reis

 

DA – Em seu livro “O Amanhã não está à venda”, o escritor e líder indígena Ailton Krenak nos lança uma importante provocação, fazendo-nos questionar a nós mesmos se somos realmente uma humanidade diante dos maus tratos impostos à natureza e da ampliação atroz das desigualdades sociais. Acredita que estamos experimentando um largo processo de desumanização em escala global?

CLARISSA MACEDO – Desde sempre nos desumanizamos (ou nos humanizamos?) através da barbárie. Entretanto, com a noção de propriedade, que se estende à mulher, ao outro e à natureza como objetos manejáveis e subservientes, que perdem o status de ser, o processo de desumanizar-se foi intensificado. E são estas noções/práticas que fundamentam o imperialismo e o capital. Portanto, o que vivemos hoje é um processo há muito iniciado, mas potencializado agora porque quanto mais se aprimoram a tecnologia e as ciências mais estas escapam de uma bioética para serem empregadas em nome da dominação. Os povos indígenas vivenciam isso desde que suas terras foram invadidas por navegadores. Hodiernamente, tudo isso espanta porque, após duas severas Guerras Mundiais e tantas outras de independência, além da criação dos Direitos Humanos, dentre outras questões, supôs-se que havíamos aprendido algo; enquanto não descobrirmos a verdadeira matriz do hibridismo cultural, vendido como cosmopolita, mas que, ao fim e ao cabo, serve para a manutenção da colonização (mental, e por isso simbólica e factual ao mesmo tempo), e nos centrarmos numa visão de mundo ecocrítica, geopoética, inclusiva, caminharemos rumo à devastação, ao desumanizado porque extinto.

 

DA – Estarmos imersos hoje num contexto de pandemia expôs mais ainda nosso fracasso civilizatório?

CLARISSA MACEDO – O que direi agora soará como contrassenso se comparado às respostas anteriores: não posso admitir que fracassamos, ao menos não totalmente. A pandemia tem exposto, sim, especialmente no caso “Brazil”, uma feição genocida que parecia irremeável pós-Constituição Cidadã de 1988 e tantos outros avanços globais significativos. Mas cá estamos, sob um governo preocupado com a abertura de shoppings centers (templo-ícone do capital) em detrimento da preservação da vida. Mesmo assim, creio ser possível sacarmos uma lição valiosa disso tudo – e para tanto temos a arte, que, além de grande manifesto sobre esta era (seja no viés político mais imediato, seja na pungência que debilita o humano, seja, ainda, como reino-refúgio), propicia a criação de dimensões imaginárias que podem instituir uma nova cidadania. Permita-me trazer à baila um pequeno poema de “O nome do mapa…”:

Prece

Na vida,
aprendi os salmos perdidos;

são eles que me pegam
quando o continente
cobre os meus olhos
de deserto.

E a literatura é, também, isso, uma acolhida quando o inóspito parece ser o único plano sondável.

 

DA – Em que nível você carrega em si o atributo do otimismo?

CLARISSA MACEDO – Deleuze alerta que migramos da sociedade disciplinar para uma de controle. E, apesar de a engrenagem do capital ser uma obra-prima do ponto de vista propagandista e como sistema de dominação, o pan-óptico não transita imune. Há, nesse aspecto, uma reação, um retorno ao sagrado, ao simbólico, a um estado de poesia, ou seja, uma rejeição ao numerário como forma predominante da existência, delineando a urgência de um reencantamento. Concepções como o veganismo e a crescente de religiões, em linhas gerais, de matriz panteísta demonstram uma demanda pelo telúrico, o seio original de tudo o que pulsa no planeta. Reencantar-se entrecruza, desse modo, a natureza, a arte e a reapropriação do tempo, não mais a serviço do acúmulo monetário e exploração. A vida, em sua definição concreta e inteira, passa a ser prioridade. O reencantamento é esperança: “Às vezes, / fabricamos finais do mundo / sonhando com o próximo passo.”.

 

Clarissa Macedo / Foto: Ingridy Lima

 

DA – Qual a diferença da Clarissa de “Na pata do cavalo há sete abismos” para a Clarissa de “O nome do mapa e outros mitos de um tempo chamado aflição”? 

CLARISSA MACEDO – Toda a diferença (risos) – embora eu mantenha certa identidade de escrita. “Na pata do cavalo…” me parece um livro político; não apenas na acepção de que toda literatura é, em si, um ato político-revolucionário, mas pela abordagem de temas como a dureza vivida na minha infância – e na de tantas pessoas -, o preconceito e o abandono das instituições. E nisto ambas produções comungam. Contudo, estas discussões no livro anterior estão sob a pele de uma metáfora mais incisiva e sob o signo da palavra em uma cariz mais velada. Hoje, sou capaz de reconhecer estes traços, incompreensíveis à época de feitura – uma composição na qual eclodiram várias centelhas que há muito se resguardavam em meu peito. Agora sou outra poeta. Em “O nome do mapa…” optei (inconscientemente, talvez, do ponto de vista estético) por um discurso mais direto, mas não menos imagético, e por um debate imediatamente político. Desde o golpe de 2016, coroado pelo machismo consentido nas instalações governamentais, passando pela ocupação da extrema-direita e desembocando numa ferida quase que total das estruturas democráticas nacionais, tenho sido atravessada pela indignação. E este foi o motor da poética dos mapas. Mesmo nos poemas mais líricos e amenos, por assim dizer, é o traje da tentativa de escape e sobrevivência que me veste. A condição da classe economicamente desfavorecida no Brasil, minha origem, está devassada no livro. Vou costurando os impostos abusivos, a fome, as injustiças, a derrocada da democracia… até chegar ao ímpeto de recontar a história brasileira – é necessário voltar ao início para entender os entre-meios. Admiro autorias que se diferenciam em cada obra mas mantêm uma unidade poético-vocal. Isto é algo que almejo obstinadamente ao construir um trabalho. O próximo livro de poemas que estou tecendo apresenta uma voz completamente distinta da presente nos anteriores.

 

DA – Seria insuportável conceber a realidade sem a Arte? 

CLARISSA MACEDO – Primeiro, é necessário pensar no que “aparta” a realidade da ficção. Muitxs autorxs versaram sobre o tema. Umberto Eco, dentre outros, questiona o que diferencia o universo ficcional (artístico) da verdade histórica. Isto me conduz a refletir sobre o conceito de verdade. Nietzsche me toma pela mão em sua “Segunda consideração intempestiva” para questionar a história e sua definição ao longo do tempo. São diversos pontos de diálogo e indagação. Marcia Tiburi, no prefácio de “O nome do mapa…”, escreveu: “Eu vou me permitir dar livremente esse nome simples e conhecido ao sentimento que emana dos poemas de Clarissa: Luz. Alguma coisa em nós pede essa luz, a luz da poesia como um voo de vagalume no meio do breu.” (Grifos meus). Para mim, não só a poesia, mas toda a arte constitui algo que redimensiona e potencializa o que chamamos de realidade – este fio tênue entre a dita razão e a dita loucura -, guiando-nos com um facho em meio à desesperança. A física quântica indica que o tempo e o espaço como timidamente conhecemos são mais expansivos e enigmáticos. O ponto, para não me alongar, é: estamos longe de saber o que são, ao certo, realidade e ficção. O que sei, contudo, é que a arte, enquanto aparato estético-narrativo…, por fomentar um suprafactual e por dar significado à vida e à história de maneira ampla e surpreendente, torna a existência mais sensível e instigante. Seria insuportável um tipo de realidade sem arte porque esta confunde-se com a própria vida.

 

DA – Afinal, por que escrever?

CLARISSA MACEDO – Afinal, por que viver?

 

Fabrício Brandão é caótico, sonhador e aprendiz de gente. Se disfarça no mundo como editor, poeta, baterista amador, mestre e, atualmente, doutorando em Letras.

 

 

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133ª Leva - 05/2019 Janelas Poéticas

Janela Poética V

Alex Simões

 

Pintura: Canato

 

um poema para Oxóssi


a Augusto Soledade, a partir da lenda yoruba recolhida por Pierre Verger
 

certa feita, o Rei de Ifé,
vulgo Olofín Odudua,
como era de costume
fez a festa dos inhames,
proibindo que seu povo
comesse desse alimento
antes da celebração
mais esperada do ano

não que fosse um rei cruel.
essa tal interdição
se fazia necessária
garantindo que a colheita
fosse próspera e seu povo
tivesse acesso ao alimento
importante para o reino
que hoje fica na Nigéria.

e eis que chega o grande dia:
Olofín estava sentado,
vestido pra ocasião,
cercado de suas mulheres
– um rei podia ter muitas –
e também de seus ministros
cujos conselhos valiam
tanto quanto uns bons inhames.

como fazia calor
que atraía muitas moscas
os escravos de Olofín
– um rei podia ter muitos –
ao mesmo tempo o abanavam
e espantavam as tais malditas
de modo que o rei tivesse
o conforto merecido

e pudesse apreciar
toda a beleza da festa,
tudo feito em seu louvor:
os tambores que tocavam,
os cantos que entoavam,
os incensos que queimavam,
as mulheres que bailavam,
homens dançavam também.

todo mundo reunido,
conversando alegremente,
fofocando e paquerando,
festejando a vida farta,
comendo os novos inhames,
bebendo vinho da palma,
uma bebida africana,
até não mais aguentar.

só que um fato muito estranho,
antes nunca acontecido
em nenhum reino de África
se abateu sobre essa festa.
de repente escureceu
quando ainda era dia
e quando olharam pro céu
todos ficaram espantados

um pássaro gigantesco
sobrevoando Ifé
resolveu, assim, do nada,
pousar bem exatamente
sobre o teto do palácio
justo no prédio central
onde ficava o pátio
em que a festa ocorria.

acontece que o abutre
lá não estava por acaso
ele obedecia as ordens
das terríveis feiticeiras
as Ìyámi Òṣòròngà
donas de todos os pássaros
que usavam ao bel prazer
pra fazer suas maldades

logo que caiu a ficha
de onde veio a maldição
mais ainda apavorado
o povo de Ifé ficou.
o conselho de ministros
logo se reuniu com o rei
para resolver de pronto
a terrível situação.

matutaram, matutaram
e lembraram dos “odé”
– em iorubá, “caçador” –
que também são os “oxó”
– “guarda”, em língua iorubá,
já que o caçador tem armas
e a destreza para usá-las,
deles vinha a solução.

foi então que convocaram
o temível Oxotogun,
caçador das vinte flechas,
oriundo de Idô,
que chegou paramentado
com uma bela vestimenta,
seu grande arco e suas flechas
miradas ao alvo em vão

mas alguém lembrou que tinha
outro odé mais temeroso.
foram buscar em Moré
o bravo Oxotogí,
o das quarenta flechadas
atiradas para nada.
nem de raspão uma delas
atingiu o grande pássaro.

a terceira tentativa
veio lá de Ilarê:
o das cinquenta flechadas
chamado Oxotadotá.
igual aos anteriores,
chegou se achando o tal,
tirou onda e prometeu
o que não logrou cumprir.

acontece que uma caça
não depende tão somente
de destreza e habilidade
de um nobre caçador
tem de pedir proteção,
saber a quem de direito,
que comidas, que palavras
entoar e oferecer.

foi quando Oxotokanxoxô,
o de uma flechada só,
veio acudir Ifé
ao tempo que sua mãe,
lá na vila de Iremã,
pediu a um babalaô
que protegesse seu filho
e que o mal não lhe abatesse.

na consulta ele lhe disse:
“o seu filho está a um passo
da morte ou da riqueza,
faça uma oferenda e a morte
há de se tornar riqueza”.
ela pegou uma galinha
e a ofertou em sacrifício
às terríveis feiticeiras.

fez a oferta na estrada,
abrindo o peito do bicho.
com o respeito à natureza
e às ordens do Orun,
ela repetiu três vezes
o que o sábio lhe ensinou:
pois “que o peito do pássaro
receba esta oferenda”.

e foi que na mesma hora
que ela despachava o ebó,
seu filho lançava a flecha ,
a sua flechada só.
e eis que o pássaro gigante
abre o peito pra oferenda
feita pela mãe do Odé
de modo que relaxou

e ao invés da oferenda
recebeu de peito aberto
de Oxotokanxoxô
a sua flechada certeira
se debatendo de um lado
caindo pesadamente,
fazendo a terra tremer
e logo depois morrendo.

foi assim que o odé oxó
aclamado pelo povo
foi chamado popular,
que é o que quer dizer seu nome:
“Caçador é popular”
Oxóssi, okê arô,
caçador que é Rei de Kêtu,
viva Oxotokanxoxô!

 

 

 

 

***

 

 

 

sessão de poesia para a tropa[1]

 

a Gilberto Natalini

 

eu era muito jovem e escrevia
poesia e as minhas poesias… tinha
poesias românticas, de protesto
contra o regime. eu era um poeta
razoável. depois eu desisti.
escrevia poemas que cobravam
dos generais, dos coronéis e tal…
escrevia sobre a libertação
do Brasil, sobre a liberdade, sobre
a tal democracia… até que um dia
ele me pegou, que dia foi, não
lembro…me despiu, me colocou
em pé sobre uma poça d’água, o fio
desencapado e atado em meu corpo
foi ligado por ele, que chamou
pessoalmente a tropa, a sua turma:
torturadores, uns soldados que
tomavam conta ali, eis a plateia,
a quem supostamente eu deveria
fazer declamação de poesia.
uma sessão de poesia para a tropa
na qual eu declamasse o que escrevia
contra o regime para os que a favor
me escutassem. e ficou lá por horas
com uma vara na mão que eu não lembro
exatamente o que era: um cipó,
alguma coisa com que me batia,
ele mesmo, pessoalmente, ali,
enquanto coordenava os outros a dar
choque, o fio desencapado e atado
no corpo do que era então poeta
recebendo telefones que não
aparelhos de comunicação,
mas muitos tapas dados com as mãos
sobre os ouvidos em posição côncava
numa sessão de poesia e eletrochoque
em que não declamava, mas ouvia
zumbidos de tortura e as risadas
que hoje só escuto parcialmente.
uma democracia por um fio
desencapado e atado em um corpo
que já não mais escreve poesia,
porém ouve os zumbidos da tortura.

_______________________________

[1] shorturl.at/np489

 

 

 

***

 

 


damarianas

 

 

I

se o habitat faz o monge
quem visitou a oca do poeta
outorga-se o habite-se da taba
onde a palavra mora se não nela
mesma pergunta que outra me deflagra

 

II

se a casa da palavra fica ao longe
lá onde mora agora o que não nela
a moça barda que é uma monja às pressas
se não habita lá a vida é bela
ela inter(p)ela:
longe de onde?

 

III

eu nem sabia nada
nada de onde aquilo ia dar
o que importa é que ele estava lá
antes que eu era
grafando nos cartazes mal me lidos
por entre umas vitrines tinha livros
e uns versos feitos pra dependurar:
deu-me origamis de papéis dispersos
não só suspensos: fáceis de(s)dobrar

 

IV

poemóbiles
orai pros natos nobilis
e as folhas podres dos bares avulsos
postando cibersóbrios veredísticos
sobre a nossa eterna embriaguez
de que só doma a razão em sendo louco
caso algo morra que não seja a plêiade
que só tenho certeza o seu talvez

 

V

e pelo exposto me interessa menos
acertar de onde viemos
do que errar para onde nós v(o)amos

 

 

 

***

 

 

 

pólen de flor

 

para Blande Viana

 

uma vez a
professora de botânica
estranhou
o fato de ter visto
uma placa
que dizia
VENDEMOS PÓLEN DE FLORES.
“de que mais haveria de ser?”,
ironizou.

o que me fez pensar primeiro
em polens das flores de plástico
alimentando gerações de abelhas mecânicas,
substitutas das suas matrizes
em adiantado processo de extinção.
elas, as extinguíveis, vão nos levar a todos,
dizem
.
.
.

um par de semanas depois,
lembrei que livros de poemas
gostam de miolos com papel
pólen
……………………………….soft
……………………………….&
……………………………… bold

nome que talvez se deva a sua cor
amarelada
e que reflete menos luz,
proporcionando uma leitura mais confortável.

oxalá
estas palavras percam sentido
num futuro cheio de
polens
de
flor

abelhas
&
leitores.

 

 

 

 

***

 

 

 

 

era

 

para Antonia Avelina Ninha, in memoriam

era
3 anos mais velha
10 quilos mais gorda
um tanto mais alta
gostava de me pegar pelos braços
girar girar girar
………………………………&
…………………………………..s…………o…… l……t…..a…..r
um dia
……………………..as costas na pedra grande da rua

estrelas piscando num fundo vermelho
soltaram faíscas

e então
perdi o medo
……………………..de
re
……..vi
………….dar

 

 

 

 

***

 

 

 

 

A Educação pela Pedrada

 

para Jorge Augusto

 

Porque a pedrada é pra: pegar visão;
para aprender na tora, é uma bala
a queima-roupa, um cachação verbal
(um cínico litotes, uma fala
neg-afirm-ativa, pedagogia
da dura, do chepo, não burilada,
nem bostética, a ideia reta
sem nada de caô, que vai na lata),
lição da pedrada que vai pro centro
da periferia e a tudo empala.

Outra pedrada educativa: o não,
(do centro pro gueto, bem antipática)
pra aquele que não sabe se ligar
(e talvez não adiantasse nada)
que dar pedrada na selva de pedra
é faísca no paiol da barricada.

 

 

alexsim é um poeta criado na avenida Bahia, número 1, Fazenda Grande do Retiro, Salvador, meu amor, Bahia. é também performer, professor de português para estrangeiros e revisor de textos alheios, entre outros. publicou alguns livros, o último intitulado trans formas são. às vezes traduz, critica, resenha, edita e torna público o que faz. às vezes, troca de pele e de nome.

 

 

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129ª Leva - 01/2019 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra II

ACERCA DO LIVRO CURSIVO MENOR DE ANTÓNIO VERA*

Por Maria Lúcia Lepecki 

 

 

É um caso raro de acontecer. Eu considero ser um privilégio meu estar aqui a apresentar uma pessoa que durante cinquenta anos escreveu para si mesmo, para a gaveta, e eventualmente, de vez em quando, para aqueles que, como o que está lá ao fundo [o editor], o quiseram publicar, não é verdade? É uma vida dedicada a uma fé. O autor acredita na poesia, acredita na palavra. Eu me sinto de facto comovida de poder estar aqui com ele hoje e gostaria de vos explicar com palavras muito simples, e não vou ser longa, o que é a poesia lírica. A poesia lírica é aquela poesia que mais de perto nos fala ao coração. Aquela que nós gostamos de recitar, aquela de que nos lembramos quando estamos a conversar com os amigos: olha, os sonetos de Camões; olha um poema da Natércia Freire… É aquele que se nos entranha por dentro.

A poesia lírica é uma espécie de conversa de uma pessoa com o mundo, é uma conversa quase secreta. Disse um teórico canadiano da literatura, Northrop Frye, que a poesia lírica é feita do eu para o eu, mas ela é feita também para ser dita ao outro, porque é evidente que ela é uma forma de comunicação. Disse o teórico Northrop Frye que, quando lemos a poesia lírica é como se fosse um ato de indiscrição, é como se a gente “tresouvisse” a privacidade absoluta do outro e é como se esse outro generosamente nos deixasse entrar naquilo que nós costumamos chamar, e bem, de “alma”; entramos na alma do outro pela poesia lírica.

Uma coisa que a poesia lírica tem de muito bonito e que nos faz gostar dela, é o aspeto ritualizado: ela tem um ritual, um jeito de dizer as palavras, um jeito de organizar as ideias que faz com que tudo fique musical e não é à toa que ela é chamada de “lírica”. É porque no início ela era acompanhada pela lira, acompanhava-se ao som da lira. Aquilo fazia uma junção da palavra com a pura melopeia que acompanhava essa palavra. O nosso amigo António Vera nos seus cinquenta anos de escrita secreta acompanhado pela esposa, com certeza que era a sua musa, já se sabe. Não é verdade, ou talvez até tocasse mesmo lira. Às vezes, no convívio de um casal, fazem-se muitas coisas ao longo da vida.

O nosso amigo António Vera tem no meu entender uma grande noção daquilo que faz a substância da poesia ocidental e da lírica ocidental. Essa noção é, em primeiro lugar, a da musicalidade. Ele tem música nos poemas, ele trabalha muito bem nas retomadas dos mesmos sons dentro do mesmo verso ou entre versos. Ele trabalha muito bem no ritmo, como é que ele quer que o leitor leia, com que pausas, com que forças, com que subtilezas de voz. Ele precisa disso, ele sabe fazer isso e, sabendo disso e precisando disso, ele se enquadra de pleno direito na tradição da poesia em que nós vivemos. Aliás, ele se enquadra também porque revisita formas da poesia. Ele faz, por exemplo, uma linda cantiga de amor, neste livro, como faz também sonetos, que são formas particularmente difíceis. O Couto Viana** e o Nogueira*** dirão: “mas o soneto é uma forma exigente”, o soneto pede uma disciplina mental muito grande para você construir uma ideia e chegar àquilo que se chama “chave de ouro” e, portanto, não é qualquer um que faz um soneto. António Vera tem preciosos sonetos e, daqui a pouco, lerei um deles.

Queria falar ainda um bocadinho, que eu não quero tomar muito tempo. Nós temos que pedir ao Papai Noel para trazer ao Fernando**** umas cadeiras de presente para o Natal para os próximos lançamentos, para podermos explicar melhor as obras literárias. Temos que explicar depressa [pois] com o pessoal de pé, não dá. Mas eu queria dizer uma coisa para vocês que é o seguinte: eu, no começo, disse que o lírico é aquele que se encanta perante a variedade do mundo. O mundo é variado, o mundo é diferente, o mundo é bonito, o mundo nunca é igual. O mundo é sempre uma provocação e o lírico sabe disso, e ele dialoga com o mundo e dialoga através de determinados temas que são também revisitados em toda a tradição cultural europeia e talvez mesmo universal, e que são os temas revisitados também pelo António Vera. Por exemplo, um tema fundamental é o tema do tempo. O tempo passa. Ele tem imensas poesias sobre o tempo que passa. E aquele tempo que passa e que ele retrata nos poemas é um tempo que simultaneamente dá a vida, porque evidentemente nós vivemos no tempo, mas traz a morte também. Porque o tempo é aquilo que nós vamos caminhando através de, não é verdade? E vamos chegar ao outro lado. Então nesse tipo de temática vocês encontrarão laivos de melancolia muito bonita, uma melancolia por vezes muito discreta, muito subtil; ele é muito discreto, ele não é um homem do dizer com muitas palavras, ele não é um homem de muitos adjetivos, ele é um homem do pudor do sentimento.

Um outo tema que ele tem, é o tema da morte e outro tema é o tema da natureza. São todos três temas privilegiados na nossa tradição. Quando ele trabalha esses temas, obcessivamente ele fala uma vez naquilo, depois ele torna a falar, depois no poema seguinte toca noutro assunto, depois retorna ao primeiro, vai revisitando a mesma preocupação, que é uma preocupação humana. O que é que ele está fazendo? Ele está fazendo aquilo que todo o poeta faz e que se não se faz isso não se é poeta. Ele está a estabelecer um lugar da sua reflexão sobre as coisas, ele pensa sobre as coisas, ele vai refletindo e quando nós refletimos sobre as coisas, é evidente que nós não pensamos nelas uma vez só. Para a nossa medida precisamos voltar ao mesmo lugar, tornar a pensar, ver como é que é, contar de novo. E quando ele estabelece esse espaço de reflexão e o revisita, ele então inocula na sua poesia aquilo que eu gostaria de chamar, António Vera, de dimensão filosófica. É a dimensão do pensamento que se constrói sistematicamente, retornando aos mesmos temas e tentando ver até que ponto aqueles temas pesam ou não pesam dentro do imaginário do ser e dos seus livros. Eu vou dar para vocês alguns exemplos, vou ler para vocês alguns poemas do António Vera:

 

4

da talha benta da senhorinha morta,
vazio o bojo de pedra, polido.
o rosto deitado da senhorinha morta,
cobre-o um lenço de linho.

quem foi o rosto copiado em cera e lírio
da senhorinha morta?

responde (o que responde?) o bojo polido,
o bojo da talha benta da senhorinha morta,
com uma lágrima de vidro:
conta de um terço rezado à senhorinha morta,
em tempo ido.

 

17

crepita um vento fraco
na crista lúcida da onda.
colada à sombra do barco
desliza na água minha sombra.
planície, verde várzea,
móvel e falso espelho de deus,
retém a quilha, gela a água!
que vento, quilha, mar e sombra
sou eu.

 

38

verde o reflexo na folha iluminada.
sobre ele adeja a minha nostalgia.

agora lembro aquele antigo dia
feito de som e água.

e um quase nada
daquela cor
aflora aqui a relembrar a minha vida
que se esbate no ar
como o vapor da madrugada.

 

68

a solidão alonga pelo rio,
direita à barra, seu ventre de metal.
presa a estibordo, a dor, que vai partir,
tenta ficar soldada àquele pontal.
manhã nascente, é noite noutro rio.

passos nus, vacilantes, de um arrais,
timbram o silêncio de um som mole e cavo,
e um grito de sereia põe um travo
de acre certeza num manar de ais.
os sinais amarelos das vigias
abriram rumo sobre o rio plano,
enquanto em nós se abre um oceano,
em que naufragam terras e alegrias.

 

Ele tem espírito de humor também. De vez em quando os poemas dele são poemas de espírito de humor:

 

75

à mulher que mais amei
levou-me o vento um recado:
— perdoaste?
— perdoei!
ó vento, muito obrigado!

 

E agora é a revisitação, noutro poema, da poesia medieval da cantiga de amigo:

 

94

ai flores, ai flores do rosmaninho,
se sabeis novas de outro olor amigo,
trazei-mo de volta, de sândalo ou trigo,
trazei-mo de volta, que de respirar vivo,
que de amigos vivo,
que de respirar vivo.

trazei-mo de volta, fazei-mo vizinho,
trazei-me um amigo, que não um cativo,
livre como o vento, vivaz como um vinho,
que de amigos vivo,
que de respirar vivo.

ai flores, ai flores do rosmaninho,
partiram as barcas, eu fiquei sozinho,
salsugens, madeiras de pinho e de azinho
zarparam pelos ares, foram-se os amigos,
fiquei no azul, suspenso, sozinho…
trazei-mos de volta,
que de amigos vivo,
que de respirar vivo.

 

* Texto que serviu de apresentação da obra quando do seu lançamento em Lisboa a 17 de dezembro de 1998, na Livraria Colibri da Universidade Nova de Lisboa.
** Referência a António Manuel Couto Viana (1923-2010), notável poeta português, dramaturgo, ensaísta, ator e encenador.
*** Referência irónica a um dos apelidos de Fernando Pessoa: Fernando António Nogueira Pessoa.
**** Referência a Fernando Mão de Ferro, primeiro editor deste livro.

 

 

ONZE POEMAS DE ANTÓNIO VERA

 

[sem título]

 

da talha benta da senhorinha morta,
vazio o bojo de pedra, polido.
o rosto deitado da senhorinha morta,
cobre-o um lenço de linho.

quem foi o rosto copiado em cera e lírio
da senhorinha morta?

responde (o que responde?) o bojo polido,
o bojo da talha benta da senhorinha morta,
com uma lágrima de vidro:
conta de um terço rezado à senhorinha morta,
em tempo ido.

in cursivo menor, 2000, pág. 20.

 

 

[sem título]

 

a morte é um planeta inabitado,
donde partiram quantos ali foram
ou voluntariamente ou enganados,
buscando alojamento, paz, alfombra,
descanso para a alma, ou magoados
por não haver onde esconder a sombra.

tal planeta lá para oeste fica,
bem para trás do sol posto, onde se expande
o raio verde, com o fim do dia,

sarcástica mansão dos desenganos
dum mundo atafulhado só de vida,
mas que à vida responde só com vida
e aos desenganos só com desenganos;

onde o tempo-matéria se desfaz
com presteza contrária à da luz
e os calendários giram só pra trás

 

in palavras com rosto, 2000, pág. 75.

 

 

roleta

 

uma fonte, dois cântaros:
em um deles, veneno;
de um só tu beberás.

a tua sede aperta.

alguém te diz “és livre”;
alguém te diz “és cego”.

a tua sede é muda.

acerta ou desacerta,
mas beberás com pressa.

e, certo, serás livre,
nesse momento eterno,
que tu decidirás.

 

in as pestanas de Afrodite, 2001, pág. 29.

 

 

torre do bugio, pau de água

 

à beira de um tejo azul,
grosso pau de água soluça
verdes folhas enlaçadas
em forma de coração.

chora a tepidez dos trópicos,
chora por chica da silva
que lhe afagava o formato
de pau-brasil em ereção,

e os quindins de sinhá-moça,
ao passar por ele as mãos,
duas mil léguas pra lá
dum meridiano a oeste
deste que o ata por cá.

ai! porque as mãos de sinhá,
palmas de leite de coco,
levam-no ao bugio mirar
como se ele fosse um sinal:

a torre sendo um pau de água,
prantado à barra do tejo,
pelas águas enlaçado…
e as dobras das ondas fossem

as lamas das mãos de iá-iá.

 

in escrito na margem, 2003, pág. 43.

 

 

Esta apagada e vil tristeza
(agosto, 2003)

 

entre a piedade e o desalento
revejo monte e vale:
queimado quase tudo
sujos rios
pobres
desempregados
traficantes
bêbados de poder
e de arrogância
ou de mau vinho.

e indigno-me sozinho
comigo e o nosso mal:
terem-nos roubado
o gesto e a sanha
o número e a vontade
as luzes do saber
sequer a manha
de dar sentido e nome
a Portugal.

 

in sons que falam, 2004, pág. 100.

 

 

Flor de sangue

 

caem sonhos no poço onde cai sangue
arterial, contigo misturado,
como um pastor no meio do seu gado
segue o expirar da tarde estreme e langue.

e no poço flutua a flor do mangue
que no líquido vive – é o seu fado –
e no líquido morre: lado a lado,
vida e morte excessivas, força exangue.

é nesse espaço rubro, em quatro quartos,
que a terna flor, vivendo as estações,
dá sustento a nós dois, tornados plasma,

a circular no corpo, em sonhos fartos
de posse, de avidez de sensações,
ébrios da fina dor que entusiasma.

 

in de amor e desengano, 2005, pág. 108.

 

 

O Lacrimensor

 

chora-me ainda hoje
a minha morte breve
para eu saber
se ainda me memoras

medir-te as lágrimas
no rosto
bebê-las a correrem
plo teu corpo

tocar a minha vida e morte
em trasladado gozo

e evaporada a alma
dessas lágrimas
tomá-la dos teus olhos
tão bem vivos

in estrofes elementares, 2007, pág. 102.

 

Esconjurando o inverno

 

desde a raiz da minha vida
uma seiva de fé e de certeza
me sobe ao coração
e a tenho presa
no estame desta flor
que a ti entrego

põem-na entre os teus seios
…………esses meus amores
…………como os teus olhos
…………boca
…………quanto és

porque dessa união
nos nascerá um filho
primaveril e doce
a esconjurar invernos

 

in amor sempre e a seguir, 2009, pág. 31.

 

Português meu amor e língua minha

 

minha língua-mãe
confusa e linda
relampejas de luz
e crias trevas

onde flutua a tua omnisciência
que é dos nossos sonhos

o mar onde nos levas
a descobrir o mundo
o mundo avassalado
por capitães do lucro
e da ganância

esfarrapada e bela
velha e jovem
que outros irmãos te vistam
e alimentem
onde eu falhei vestir-te
de rainha

e te peço perdão
por esta minha torpe
insanável e tola
inconfidência

 

in folha a folha os dias, 2010, pág. 73.

 

Os pólos sensíveis

 

coração foi-me guitarra
quando coração havia
e o céu enchia e vazava
de meu amor e alegria

por isso eu pra ele olhava
e a melodia nascia

e havia uma pedra rara
que dentro de mim caía
e com ela me arrastava
a dias sem sol de luto
onde ninguém habitava
senão a mágoa sem fruto

mas sempre havia a guitarra

pra quem a tocava havia
dois mundos que se fechavam
mas que alternados se abriam
agora sonho o meu nada
cordas guitarra partidas

 

in o frio das metáforas, 2011, pág. 84.

 

Veleiro

 

qual a vela
salgada de um veleiro
enfuno e vou direto aos horizontes
sem escolher nenhum

eles que me escolham
extinto o raio verde da memória
a estrela da manhã
e a sua história

tanto que o vento sopra
sopra hinos
todos sacros de adeus

não voltarei

voltar é renegar o tempo ido
e isso eu não farei

 

in apostila (2015, edição póstuma), pág. 55.

 

 

BIOGRAFIA BREVE DO POETA ANTÓNIO VERA

 

Antonio Vera / Foto: divulgação

 

[José] António Vera [de Azevedo] nasceu em Lisboa, na freguesia das Mercês, a 22 de junho de 1923, e faleceu na mesma cidade a 26 de dezembro de 2012.

Trabalhou desde muito novo: foi empregado no comércio, agente de seguros, funcionário da Contabilidade Pública. De 1958 a 1987 trabalhou nos Serviços da Emigração como representante do governo português para os assuntos da emigração nos países de acolhimento e, já no final da sua carreira, como técnico superior, veio a aposentar-se da ex-Secretaria de Estado da Emigração e das Comunidades Portuguesas. Ao serviço da Emigração fez inúmeras viagens, tanto por Portugal como pelo estrangeiro, entre os quais se contam a maioria dos países americanos, vários da Europa, assim como no Irã, tendo-lhe sido necessário dominar fluentemente o Francês, o Inglês, o Castelhano e o Italiano. Completou diversos cursos, entre os quais o Curso Complementar dos Liceus (secção de Letras), o Curso Complementar de Comércio, o Curso do British Council, o da Alliance Française e o Instituto de Estudos Sociais, tendo‑lhe sido conferido o diploma de Política Social pelo Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa. Também frequentou a Faculdade de Letras de Lisboa, onde não concluiu estudos devido ao facto de não lhe ser permitido faltar ao trabalho para frequentar as aulas e por não existir ensino noturno. Entre 1947 e 1951 colaborou em várias publicações literárias, nomeadamente na Távola Redonda, fundada por António Manuel Couto Viana e David Mourão-Ferreira, nas revistas Seara Nova e Atlântico, e fez parte dos amigos da Árvore. Exemplos de alguns textos publicados nas revistas citadas acima: Seara Nova: 13/9/47; 1/11/47; 24/2/49; Távola Redonda: 5.º e 7.º fascículos; Atlântico: n.º 5; e revista de Outono de 1951. Foi citado como um dos seus amigos no número da revista Árvore – Primavera e Verão de 1952.

Inscreveu-se como sócio na Sociedade Portuguesa de Autores sob o n.º 4824. Conviva e amigo dos poetas Daniel Filipe e Raul de Carvalho, confraternizou também com José Osório de Oliveira e José Terra. Mas, por dever de ofício e contínuas viagens, não lhe foi possível manter contactos estreitos com estes amigos e outros cultivadores das letras portuguesas. De 1972 a 1974 foi o principal compilador e redator de uma revista informativa editada pelo então Secretariado Nacional da Emigração, o Correio do Secretariado, e de uma revista para jovens filhos de emigrantes, o Boletim da Amizade. Em fins de novembro de 1975, numa viagem de serviço no navio Eugénio C, que fez escala por Génova, e em consequência de uma atribulada mudança de camarote, perdeu uma volumosa coletânea de poesias que tencionava publicar no ano seguinte. Ao empenho extremadamente dedicado de sua filha, Maria José de Azevedo, se deve a publicação da sua obra poética, a qual compreende onze volumes: dez publicados em vida e um volume póstumo. António Vera é também contista e publicou um grande número de artigos ao longo de toda a sua vida.

Da bibliografia ativa do autor contam-se os seguintes volumes: cursivo menor (1998); palavas com rosto (2000); as pestanas de Afrodite (2001); escrito na margem (2003); sons que falam (2004); de amor e desengano (2005); estrofes elementares (2007); amor sempre e a seguir (2009); folha a folha os dias (2010); o frio das metáforas (2011); apostila (2015, edição póstuma). Está em perspetiva a publicação da obra do autor nos países de língua portuguesa.

 

Maria Lúcia Torres Lepecki nasceu em Araxá, Minas Gerais, em 1940. Licenciou-se e doutorou-se em Filologia Românica pela Universidade de Minas Gerais. Foi docente na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa desde 1970 (Professora catedrática em 1981). Membro do CLEPUL (Centro de Literaturas e Culturas Lusófonas e Europeias), membro da Associação Portuguesa de Escritores (1975-1977), vice-presidente da Associação Internacional de Lusitanistas (1984-1986), conferencista e professora visitante em várias universidades (Salamanca, Oxford, Budapeste, Varsóvia, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Brown). Investigadora, crítica literária, ensaísta e infatigável divulgadora das literaturas e culturas de expressão portuguesa.

 

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128ª Leva - 06/2018 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra I

O mundo é uma roda e nós no meio ou como se deu minha Trans forma são

Por Mayana Rocha Soares

 

 

Platão tinha mesmo razão em temer a presença de poetas em seu projeto de pólis. É gente perigosa, que faz movimentos curandeiros com palavras. É brincando de transmutar que o poeta Alex Simões ginga formas, palavras e sentidos, em seu recente livro de poesia Trans Formas São, lançado em 2018, pela editora soteropolitana Organismo. Esses giros de poesia não foram por mim lidos na racionalidade pretendida de uma crítica literária, mas atingiu o corpo. Taí o seu perigo! Atingindo o corpo, ela (a poesia e seu efeito alucinógeno) tem o poder de agir como feitiço e reorganizar sentidos, desejos, gestos de afeto. Alex nos deu um roteiro de transmutação. E mudar é perigoso para os desejos da nação. Há sumários por todos os lados como bússolas para gente poder se perder à vontade. Há o sagrado “no meio do caminho, entrelugares”, entrecaminhos, encruzilhadas tecnológicas, cantos, sons, Exu, ebó, padê. Sem eixos centrais de sustentação. “Mas há um centro?” Só o habitar do fora.

Alex Simões é poeta, professor e performer baiano. Além de muitas outras publicações em livros e coletâneas, realiza no próprio corpo a experiência literária, através da performance. O livro é composto de 37 poemas. Por meio destes, Alex Simões expõe o mundo através dos olhos apaixonados de quem não apenas observa a vida passando, mas a vive. Por quem atravessa a vida transformando e sendo transformado por ela. Trans Formas São é um livro de performances artísticas das palavras, das formas e sentidos todos, reorganizados a partir do que sentimos, de como amamos e de como seguem nossos desejos e afetos.

O poeta admite fingir, mas não só como o Pessoa, o português. Melhor. Não finge só a dor. Ele diz: é que “me faltam boas ideias e tendo a apelar para grafismos”, há que “fingir que já li muitos calhamaços, roubar, plagiar, sempre negar”. É que “a vida sem sentido dá avisos / há vida pulsando / o tempo urge e às vezes dói lembrar”. Eu também roubo suas palavras agora, mas não sou poeta. Me permito transbordar nessa lama de palavras. Mergulho nela e me transformo também. Aquela mulher que abriu a primeira página do livro não é a mesma quando encerrou a leitura. Alex é modesto. “embora não despreze o métier, e seja mau poeta, é de outra subárea: dos que temos alguma vocação, não pra poesia, mas pra gambiarra”. Acha que é um poeta ruim. Se ser ruim é cumprir essa difícil tarefa de trans forma são, sem controle de como isso é possível, sem reconhecer seu alcance, então, fique satisfeito: você é muito ruim nisso! A gambiarra é que salva! “Toda/o poeta é experimental / obcecado por buceta” [de minha parte, também gosto] / transgênero por vocação / híbrido por definição / fundado na incerteza”. A gambiarra é essa arma que faz da literatura ser aquele menor, conforme Deleuze e Guattari nos ensinaram.

As certezas todas foram embora. Em Trans Formas São nos instalamos no oblíquo, na experiência do quase. “é quase um manifesto / por um quase negro / que é quase um homem / quase filho caboclo eké orixá santo sem base”. “O mundo é uma roda e nós no meio” e a “minha vida é um baile entre seus braços”. Transmutei seus versos para senti-los, novamente, dentro de mim de outros modos, em outras velocidades. Eu também não sei ao certo “que porra é mesmo o contemporâneo”. Mas sei que a poesia underground não tem limites temporais, porque vive nos subterrâneos. Depois discutimos “se houve mesmo uma autoria ou criação coletiva”.

Walter Benjamin, sabiamente, uma vez disse assim: “Nunca há um documento da cultura que não seja, ao mesmo tempo, um documento da barbárie”. Ainda bem que não estamos tratando de um documento, mas dá sua potência significativa, da poesia em seu estado de resiliência. Em sua formulação viva e pulsante nos corpos. “então pergunto: memória e corpo / há distintos um do outro?”. Recortes palavreiros de uma nação colonial em ruínas. Alex dispara um ciclo de notícias: das desalianças internacionais à barbárie da civilização. Em terras brasilis, “Aqui tudo parece que era ainda construção, e já é ruína”, como cantou Caê. Alex nos joga na parede e nos constrange a pegar visão: “em suspenso ninguém vive nem se acerta sem medida”. Vê isso? É o sangue das ossadas da barbárie ainda fresco batendo nas paredes da memória. Afrodiasporicidade. Ancestralidade. Abre o olho, é preciso ver: “escravizados desembarcaram de navios negreiros / morrendo por maus tratos e/ou de orgulho, talvez numa recusa por servir, morrendo como parte de um processo histórico e de resistência em luta”. Marielle, quem matou? David? Luana? Dandara? “escondemos de nós mesmos trezentos anos de escravidão”. Mas de lá dos escombros nos assombram com seu sangue, sua ossada e sua vingança, “enquanto segue o porto maravilha / com o futuro museu do amanhã / o que fazer dos crimes insepultos?” É verdade, “a gente tem de dar uma de louco porque senão ninguém presta a atenção”. É Grada Kilomba que diz “corpos brancos são sempre corpos que pertencem a algum lugar”, posto que nossos corpos negros foram desterrados e mal enterrados pela colonialidade. Acredito que Trans Formas São territorializa, em alguma medida, esse nosso cuíerlombo, para usar uma expressão de Tatiana Nascimento, de gente preta, insubmissa, dissidente e selvagem.

Trans Formas São também são formas trans, trocadilho barato, mas tem seu efeito. Entre cores e amores, essa poesia carrega uma inquietação, um não sei bem o que de agonia. É por isso que “meu coração não tem memória / nem sabe decorar / então decola”. Corpos trans que nos transmutam, pois se “a moda agora é ser sóbria, nós não podemos ser”. É porque “é uma questão política: o contraste é estratégia de quem milita a alegria”.

Trans Formas São é também leveza e beleza, “com os dois pauzinhos, que às vezes se esfregam aligeirados e outras que se atravessam como pontes”, criando conexões, rasuras e misturas no “perder-se entre outros corpos”. Sem esquecer de “respeitar o tempo”, lograr o tempo e aquela “puta censurada suposta martelada”.

Bom, nem todos os poemas couberam nessa leitura, mas como abarcar toda essa imensidão?        “e para amarrar essa corda / andorinhas passarão” – Mas #elenão!

 

Mayana Rocha Soares é feminista interseccional, decolonial e sapatão. Doutoranda no programa de pós-graduação Literatura e Cultura (PPGLITCULT/UFBA). Mestra em Estudo de Linguagens. Graduada em Letras e Ciências Sociais.

 

 

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116ª Leva - 01/2017 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra II

Dois Argumentos para o espanto

Por Jorge Augusto

Na história e na crítica literária, tradicionais, há certa expressão comum que defende dois tipos básicos de produção literária, uma voltada para as preocupações formais, a qual é creditada à experimentação e à evolução das linguagens e formas artísticas. De outro lado, estaria a literatura engajada, de cunho exclusivamente discursivo e voltada quase sempre para discutir ou expor questões sociais contemporâneas de seu autor.

É desnecessário demorarmo-nos na fragilidade dessa dicotomia, são muitos os exemplos que embaralham e refutam essas afirmações, pois existe na cultura brasileira uma sofisticação estética de manifestações e linguagens tidas como marginais pela cultura canônica e hegemônica.  Uma imensa genealogia pode ser listada nessa proposição, que poderia ser brevemente desenhada, partindo dos Racionais Mc´s e Gustavo Black Alien, no rap, Pedro Kilkerry, no Simbolismo, e Arnaldo Xavier na Literatura Negra, Glauber Rocha no cinema, só para citar alguns e poucos nomes de artistas que produzindo fora dos lócus hegemônicos empreenderam experimentos em suas respectivas linguagens.

Porém, sobretudo na literatura, a experimentação parece ser sempre creditada a movimentos que priorizam sempre a forma em detrimento da discussão social e política, fazendo funcionar a frágil dicotomia exposta acima, entre marginal e canônico, como sinônimos de engajamento e experimentação, respectivamente.  Sem dúvida, um problema historiográfico que poderia ser resolvido facilmente com uma crítica que se propusesse a uma metacrítica.

É esse gesto crítico que o livro “A notícia plena ou Argumentos para o Espanto”, do poeta e rapper Robson Poeta Du Rap, possibilita ao leitor atento. A obra embaralha os gêneros letra de rap e poesia e, se podemos afirmar que a discussão sobre rap como poesia é antiga e “consolidada” em alguns meios acadêmicos e dispõe já de bibliografia significante, talvez o mesmo não possamos dizer sobre pensar a poesia como rap, ou seja, pensá-la e construí-la dentro de uma estrutura rítmica pautada nos tempos do rap, como podemos ver no poema “poesia nenhuma no verso”, que diz: o rap é ódio/a vontade de subir num pódium/nem que seja pra cuspir/a condição de não mais existir/poesia nenhuma no verso/ o rap é cuspe/ esse país que não sabe pra quê que serve a USP/ pra quê que serve a USP? – Me parece esse um dos gestos de rasura impressos no livro.

Além deste gesto, um outro, quiçá mais radical e ousado, aparece no livro, a saber: o esgarçamento do rap enquanto forma, a partir da proposição de letras de rap mais curtas e densas, construção denominada por alguns leitores e algumas vezes pelo próprio poeta, não sem ressalvas, como poema-rap-síntese.  Nesse sentido o livro tem uma proposta estética específica e se insere numa genealogia de obras que propuseram experimentações formais, a partir de lugares não canônicos, no cenário da cultura brasileira.

O livro interessa a todo leitor que gosta de poesia, e ou se importa em discutir e ou acompanhar a produção literária baiana e nacional, como também aqueles que pesquisam a relação que pode ser desenhada entre rap e poesia. Robson Poeta Du Rap tem poemas publicados na Revista Caros Amigos, na edição “Ato II” coordenada por Ferrez, e no Jornal Bahia Notícias, além de participações em saraus como Dominicaos e Pós-lida. Seu livro de estreia foi lançado pela Organismo Editora.

Jorge Augusto é poeta e professor. Doutorando em Literatura e Crítica da Cultura, pela UFBA. Publicou textos e poemas em revistas e jornais, como SUL21, Germina Literatura, Cronópios, entre outras. Participou de Algumas antologias como a Enegrescência, publicada pela editora Ogum´s Toques. É editor na Organismo editora.

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93ª Leva - 07/2014 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra

Jorge Elias Neto: breve panorama

Por Marcos Pasche

 

Jorge Elias Neto / Foto: arquivo pessoal

 

Em A ideia de Brasil moderno (1992), o sociólogo Octavio Ianni (1926-2004) diagnosticou com rara acuidade um dilema central do País: o todo é desarticulado de suas partes. Passadas duas décadas, a observação do sociólogo paulista permanece atual, tornando-se até mais expressiva, pois há pouco o Brasil alcançou o patamar de sexta economia do mundo e agora assiste à pior seca das últimas seis décadas que mumifica a região Nordeste.

Diferentemente do que se possa imaginar a partir do exemplo, a desarticulação vai além das vetustas antíteses de riqueza e miséria, centro e periferia, sul e norte. Mesmo no Brasil metropolitano há distâncias simbólicas inimagináveis para a contiguidade geográfica. Essas considerações me ocorrem ao pensar no Espírito Santo, uma das quatro unidades da região mais rica do Brasil (a Sudeste), que parece pagar pelo pecado onomástico de integrar um Estado laico. Para se ter ideia de sua dissonância em meio à região, basta verificar que o Espírito Santo é desprovido de universidade estadual, e que foi o único dos “sudestinos” a não receber jogos da Copa do Mundo. Pelo vínculo com Minas, Rio e São Paulo, o Espírito Santo está no Centro, sem, com isso, possuir centralidade.

O efeito disso para a cena literária é bem conhecido: uma nuvem encobre escritores de real interesse, os quais precisam fazer malabarismos diários para ter vez mesmo em sua região, quase sempre condenados ao apressado carimbo de provincianos. Só que autores como o ficcionista Reinaldo dos Santos Neves, o poeta Waldo Motta e o ensaísta (também poeta) Wilberth Salgueiro (nascido no Rio e radicado em Vitória há mais de vinte anos), dentre outros, demonstram que a produção literária local em nada deve ao que de mais representativo se publica no País, e isso se aplica igualmente ao poeta Jorge Elias Neto.

Capixaba, médico cardiologista e membro da Academia Espírito-Santense de Letras, Jorge Elias é autor de três livros: Verdes versos (2007), Rascunhos do absurdo (2010) e Os ossos da baleia (2013). Conjuntando variação formal e temática, o poeta vem desenvolvendo um trabalho que requer atenção, seja por aquilo que o associa a significativas linhas de força da contemporaneidade, seja pelo que o coloca em certo afastamento, quando as linhas da mesma contemporaneidade revelam fraqueza e desinteresse.

Já em Verdes versos, o volume de estreia que agrupa quatro livros (Versos verdes, Viajante lunar, Vegetariano e Querença), esse movimento de pertença e refração se torna visível quando, por exemplo, alguns poemas fazem referência à verdade, essa palavra-conceito tornada tão espinhosa com a emergência do pensamento moderno. Tomado pelo caráter problematizador próprio do discurso poético, o poema “Desejo” não dá à ideia de verdade qualquer chancela de firmeza, o que corrobora um princípio intelectual contemporâneo: “Grito enlouquecido as minhas trôpegas verdades,/ para que se faça cruel o teu destino.// Imagino e sorrio como o falso profeta,/ para te ensandecer com verdades distorcidas”. Entretanto, noutros momentos não haverá titubeio para afirmações convictas, como se nota em “Pau a pique”: “Na alucinação de minhas necessidades,/ encontra-se a verdade”.

E qual será a verdade do poeta? Ele não o declara abertamente, o que induz à procura de pistas. Arrisco-me a dizer que a verdade de Jorge Elias Neto é a poesia, o que em tese é algo óbvio demais ao se falar de um poeta. Mas o que destaco na ideia da poesia como verdade é que, diferentemente do que se banalizou na pós-modernidade, a poesia de e para Jorge Elias Neto não se afigura um amontoado de palavras inócuas e inúteis, e por isso os poemas carregam o verdor consciente do que pode e deve significar o verbo para o mundo. Assim, o poeta aposta no sonho alvissareiro de estrato familiar e artístico em “Vó Bela” –

Usou o apoio imprevisto das estrelas e se fez poetisa.
Recitando os versos de seus heróis sertanejos,
embalaste o sono do pequeno ávido,
e plantaste o sonho que agora luto
para não se esvair.

 

–, e, mesmo que desapegado de ícones tradicionais, reitera sua crença no afeto: “Cérebro ateu,/ em minhas mãos já/ não cabe uma cruz./ Mas em meu coração/ insisto em manter uma rosa” (“Oração de um urbanoide”).

Um olhar unilateral e incauto poderia apontar nos destaques exemplos de pieguice, derivados “naturalmente” de um poeta provinciano. Mas os olhares unilaterais e incautos não enxergam nos outros senão aquilo que caracteriza sua estreiteza de visão. Dito isso, verifica-se em Rascunhos do absurdo a confirmação da tônica dual da obra em análise, obra essa construída pelo olhar crítico que não prescinde da candura, pelo tom fagueiro avizinhado à abordagem do que fere e destrói. Assim, se “Régua quebrada” traduz uma arte poética singela e crente – “Insisto na ingenuidade da metamorfose/ (só sei transformar sapato em borboleta)” –, “Céu de bombas” evoca a realidade terrivelmente atual da Faixa de Gaza: “Em cada criança morta, sacrificada,/ um objetivo insano.// Despeço-me do dia/ sob flashs e bombas”.

Em nenhum momento a escrita de Jorge Elias Neto privilegia o formalismo, mas em Os ossos da baleia é evidente a meditação constante acerca da estrutura dos poemas, pois todos, embora nem sempre concisos, são grafados em discurso enxuto (Cf. “Uma carteira e seus sentidos”). O objetivo é dizer apenas com “O liso da casca”, para “despertar do torpor…/ A linguagem” e, além, “Revolver o leitor/ no espaço-tempo” (“Poema justo”). Como estamos procurando destacar, em Jorge Elias a afirmação de algo não ocorre sem que também se afirme um “outro algo”, até mesmo contrário ao afirmado anteriormente. Assim, se a economia verbal é a intenção do discurso preciso, não deixa de ser também a constatação de um impasse aflitivo para os poetas, isto é, o referente aos limites da linguagem e à impossibilidade de dizer: “Trago interrompidas/ as melhores frases” (“XXIV”, 2ª parte).

Como estamos traçando um breve panorama da poesia de Jorge Elias Neto, percorrendo a bibliografia que, até o momento, simboliza começo, meio e fim, convém rematar com um dos mais interessantes textos do último livro, justamente aquele que o encerra: “Dispo-me dos pés./ A liberdade essencial/ se aproxima…/ Finalmente,/ me chamarei:/ ninguém” (“XIV”, 3ª parte). Só que, dessa forma unitária, poderíamos incorrer em inconveniência, obstruindo o diálogo de crítica e poesia. Portanto, o espaço do fim faz-se o do começo e o do recomeço, e é por essa razão que retorno a Verdes versos – livro primeiro – e ao início desta intervenção – com seus comentários sobre o Espírito Santo – para evocar o alto canto de comunhão entre o poeta e sua terra – canto que, menino, denuncia a dissonância no presente e, maduro, faz coro com a fé no futuro:

 

Ilha, tua essência é verde;
teu maciço é verde;
a maioria de teus séculos foram verdes.
Verde é a esperança de teu ressurgimento.

 

Marcos Pasche nasceu e vive no Rio de Janeiro. É professor de Literatura Brasileira da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro e crítico literário, autor de “De pedra e de carne” (Confraria do Vento).       

 

 

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90ª Leva - 04/2014 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Fabrício Brandão


No hiato que perpassa silêncio e criação, um vasto acervo de percursos da memória vivente constrói seu íntimo habitat. O estágio silente é o preceptor de ímpetos criativos que tanto edificam imagens quanto palavras. E o tempo que maquina os pensamentos enclausurados na inquieta mente de um autor sabe de lapsos e intervalos ansiosos de virem ao mundo. A gestação de um trabalho textual, por exemplo, abriga sua conturbada miríade de abstrações de toda ordem. O que dizer também da perspicácia necessária a quem deve reproduzir com agudeza de espírito instantânea aquilo que a existência lhe oferta?

Assim, fazer coabitarem, num mesmo ambiente de percepções, letras e imagens parece ser missão das mais intricadas. Tudo ganha especial dimensão quando o elo que une aquelas duas partes consolida seus movimentos na via da poesia. Munido dessa convergência que se faz tão marcante, o escritor e fotógrafo Ozias Filho empreende sua rota de vida, mostrando-se um ser comprometido com um repensar de cenários. Para Ozias, dedicar-se à literatura e à fotografia demanda uma busca essencial, qual seja a de empunhar como bandeira maior um olhar poético sobre tudo que o cerca. Nessas suas duas frentes de atuação, o criador se depara com a idealização de sua própria Pasárgada, lugar em que a perspectiva do humano é elevada a um grau máximo de apreciação. Trata-se de um território onde se almeja uma catarse capaz de forjar uma compreensão ampla a respeito de certos fenômenos do mundo em que habitamos.

Ozias Filho nasceu no Rio de Janeiro e, num período complicado da trajetória política e econômica do Brasil, teve em Portugal a oportunidade de um recomeço. Dentre outras obras, publicou Poemas do Dilúvio (poemas – Ed. Alma Azul), Páginas Despidas (poemas – Ed. Pasárgada), O relógio avariado de Deus (poemas – Ed. Pasárgada) e Ar de Arestas (poemas e fotografia – Ed. Pasárgada), este último em parceria com o poeta mineiro Iacyr Anderson Freitas. Como editor, fundou as Edições Pasárgada e, mais recentemente, a Aldeiabook Edições de Autor. No diálogo que agora segue, Ozias fala sobre como sua trajetória foi especialmente marcada pela literatura e fotografia, revelando aspectos sensíveis de seu percurso pelos ambientes da arte, tudo sedimentado por um desejo poético irrefreável.

Ozias Filho / Foto: Leonor Rego

DA – Há em seu trabalho com a fotografia uma sensação de desterritorialização muito forte. Ali, a noção de pertencimento aparece com uma considerável amplitude e sinaliza espaços de construção notadamente subjetivos. Diria que seu olhar concebe o mundo como um organismo amalgamado e sem fronteiras visíveis?

OZIAS FILHO – De fato, o meu trabalho não tem fronteiras visíveis, mas existe a questão do território, por mais indefinido que seja ele, pois eu faço parte dele, do local em que me insiro e que escolho como objeto da minha fotografia, da minha arte. E neste meu lugar eu incluo o outro, o observador, não um observador que precise definir o território daquela imagem, mas sim aquele que queira construir o seu próprio território, o seu não-lugar poético, talvez a sua Pasárgada onde ele pode tudo, onde ele É. Esta quasinvisibilidade, onde as fronteiras não estão definidas, está por todo o lado à espera que lhe prestemos a atenção devida. Contudo, para que isto aconteça, torna-se necessário que reaprendamos a ver.  Melhor: que seja hábito daquele que observa desconstruir cenários.

DA – O termo Pasárgada ocupa um lugar de destaque em seu trabalho. Em meio ao bombardeio imagético ao qual estamos submetidos hoje, acredita que esse lugar idealizado sugere uma via de transcendência necessária?

OZIAS FILHO – Não é só necessário este lugar. Pasárgada, ou outro local mítico que queiramos eleger, é vital para a nossa sanidade intelectual. Talvez seja um exagero o que acabei de dizer, mas eu comparo este meu lugar imagético em Pasárgada, através de todo o trabalho desenvolvido nos últimos anos, com o espaço etéreo da minha Pasárgada poética. Eu preciso deste espaço de catarse, este lugar de transcendência que tu sugeres e tenho a certeza que outros também necessitam do mesmo! Não é apenas um refúgio do bombardeio de imagens que nos povoam os dias, mas também uma forma de perceber o processo de significados destas mesmas imagens.

DA – A série “Quasinvísivel” percorre de modo sutil as paisagens urbanas, captando elementos despercebidos pelo olhar imediato de quem habita as cidades. De que modo você reflete sobre a constatação desses, digamos assim, lugares de ausência?

OZIAS FILHO – Reflito pedindo armas emprestadas à poesia, ao lírico, ao velado. Estou nestes instantes como se defronte de um texto complexo me encontrasse. Mas apenas os lugares são de “ausência” do ser humano físico, real, como o conhecemos. Contudo, esta ausência é metafórica, pois ele se encontra lá representado. A minha reflexão, enquanto artista, quando busco esta quasinvisibilidade, tem a ver com um certo olhar leviano que todos temos… acordamos todos os dias, abrimos os olhos e…. está tudo à nossa frente, tão fácil, tão disponível, tão sem esforço que é abrir os olhos e olhar o que nos cerca. Mas será que de fato compreendemos o que os nossos olhos nos dizem? Olhamos, é vero, mas vemos com precisão, conseguimos desconstruir este mundo do imagético fácil? Ou de tão habituados que estamos ao massacre das imagens diárias, assumimos um papel de autômatos, com a visão preguiçosa.  Quem não exercita a sua visão consegue ver o seu semelhante, o outro, para além da superfície? Consegue ver a si mesmo para além do espelho?

DA – No seu caso, essa questão da alteridade, do olhar sobre o outro, encerra também um caráter antropológico de observação?

OZIAS FILHO – É apenas um olhar de poeta, com todas as dúvidas e contradições que esta forma de ver traduz.

DA – Em um determinado momento de sua trajetória, você deixa o Brasil e elege Portugal como nova morada. Como se deu essa transição e de que forma ela influenciou suas perspectivas de criação tanto fotográficas como literárias?

OZIAS FILHO – Desde o início da adolescência, sempre tive um fascínio muito grande pela imagem. Quando consegui o meu primeiro emprego, aos 16 anos, numa empresa de relógios, o sonho ganha uma dimensão mais definida. Com o passar do tempo e algum dinheiro, finalmente veio a primeira máquina fotográfica. E com a primeira ferramenta o primeiro erro. Como até então o meu sonho com a fotografia espelhava-se nas imagens que os outros tiravam, não tinha me dado conta que para chegar àquela imagem não bastava só ver o cenário que me cercava, mas também uma técnica à altura, que me permitisse concretizar determinada visão. Daí, eu não ter a mínima ideia que não se podia tirar o rolo da máquina com a tampa detrás aberta. Conclusão: de um rolo de 36 imagens só sobrou uma em condições de ser utilizada. Passados alguns anos, muitos erros mais tarde (mas também acertos), cursos de fotografia, faculdade de Jornalismo, aparece outro objetivo: seguir a carreira de fotojornalista. Mas o sonho fica na gaveta e o que surge é o texto como uma outra paixão. Sem, no entanto, perder o contato com a fotografia, e junto com três outros colegas, dirigi um cineclube na faculdade. Após um período de indefinição profissional, sigo para Portugal (graças à politica recessiva do Collor de Melo) à procura do tão desejado Eldorado. O Brasil, nesta época, vestia-se de pesadelo. Na cidade do Porto, a escrita e a fotografia continuaram a ser as minhas armas diletas e através delas consegui os meus primeiros trabalhos nos jornais portugueses. Publico em jornais, revistas e até mesmo em folhetos publicitários. Em 2005, crio as Edições Pasárgada, publicando poetas portugueses e brasileiros (onde também me incluo). Neste selo editorial, tive a oportunidade de ter algumas das minhas imagens mais emblemáticas nas capas de alguns livros. Seguiram-se outros livros, revistas de arte (algumas publicadas na Alemanha, EUA, Brasil e Portugal, para além de outros países de expressão e língua portuguesas). O prêmio por estes anos todos se traduziu em 2013 com as fotografias do livro Ar de Arestas, com poema de Iacyr Anderson Freitas e a primeira exposição no Museu de Arte Moderna de Juiz de Fora, ou seja, o regresso ao Brasil pela mão da fotografia/poesia. Portanto, a fotografia e a escrita que hoje desenvolvo são frutos do caminho percorrido. Não existe um Ozias Filho do Brasil ou de Portugal na minha criação, mas sim este ser híbrido de duas pátrias e as respectivas influências. Contudo, para mim, a grande mudança no rumo do que fotografo hoje (antes uma fotografia mais generalista e hoje mais conceitual) está intimamente ligada à poesia, mas é uma relação dialética, pois quer a poesia influencia a poesia, como esta tem o seu peso de silêncios nas minhas imagens.

Ozias Filho / Foto: Arquivo pessoal

DA – Em “O Relógio Avariado de Deus”, você se aproxima muito das questões sociais do Brasil, sobretudo no que se refere à violência urbana, sem se portar como um mero observador dos fatos. Há alguma espécie de chamado embutido nesse percurso que se consolida fortemente existencial?

OZIAS FILHO – Há um chamamento da terra, mais do que tudo. Esta terra bonita por natureza, mas que é tingida de sangue por anos e anos de descaso do poder público com as populações. Um poder que foi, em certa medida, conivente com o crime organizado, já que ao longo do seu percurso, sobretudo democrático, não cuidou dos aspectos básicos, tais como a saúde, a educação, a melhoria continuada da vida das pessoas. O Rio de Janeiro, minha terra de nascimento, e onde me inspirei para escrever o meu “Relógio”, é talvez o maior reflexo deste descuido do poder, a sua maior vitrine para o mundo. Não quero dizer que o que se passa no Rio não aconteça em outras partes do globo. A voz que empresto ao livro em causa pode e deve ter leituras mais abrangentes neste mundo que todos os dias é regido pelo Senhor Dinheiro. Contudo, neste relógio – constantemente avariado – há outros tipos de violência menos visíveis. Por exemplo, aquela violência de crescer, de se libertar e de trocar de pele, de enfrentar dia após dia os nossos pequenos fantasmas ou pequenos carrascos.

DA – Em se tratando de Brasil, podemos também falar numa memória afetiva a permear seus versos?

OZIAS FILHO – Os meus versos estão contaminados por variada memória afetiva. Mas ela não se encontra apenas no Brasil (talvez no livro O relógio avariado de Deus estas memórias estejam mais à flor da pele), mas também estão por muitos cantos desta memória coletiva de imigrante que ora tem pátria, ora tem mais de uma pátria e, também, por vezes, não tem pátria nenhuma, ou seja, memória afetiva de lugar nenhum ou lugar indefinido, talvez Pasárgada.

DA – A forma como você engendra a poesia é algo que chama a atenção de quem se aprofunda em seus versos. No livro “Páginas Despidas”, por exemplo, há um poema, intitulado verdade submersa, cuja imagem maior deriva das múltiplas apreensões do verbo, principalmente das esferas percorridas em torno da abstração. No seu caso, a gênese da palavra vem orientada por um sentido total de libertação?

OZIAS FILHOSó a palavra quebra o silêncio, uma das epígrafes deste livro, traduz em parte esta minha relação entre palavra e silêncio. Contudo, não é uma relação de iguais, mas sim de dependência, na qual a palavra sempre sai desfavorecida, já que só consegue o estatuto de igualdade quando encontra no silêncio do outro, de quem lê, a sua cara-metade. Acredito que cabe ao leitor o papel de traduzir (com as suas leituras e os seus silêncios) o que a palavra não conseguiu cumprir, na sua totalidade, nas mãos do escritor. Há uma defasagem entre este enorme mar chamado silêncio (que não é pacífico) e aquilo que conseguimos produzir com a palavra libertada. Portanto, para mim, esta libertação total não existe e – utilizando uma reflexão do escritor Eduardo Galeano acerca da palavra UTOPIA – é como o horizonte; pois o conseguimos nomeá-lo porque o vemos, sabemos que ele não existe para além da visão, mas mesmo assim continuamos a caminhar na sua direção.

DA – Como poeta, você se considera um transgressor?

OZIAS FILHO – Penso que ser poeta é exercitar o ato da tolerância. Contudo, nos dias que correm, vê-se esta apenas na retórica… e talvez no passado ainda tenha sido pior neste capítulo. Se ser tolerante (e eu busco isso como cidadão) é uma transgressão, então sou um transgressor. Agora, se pergunta se a minha transgressão reside na construção da minha poesia, o que posso lhe dizer é que não sei. Não sei o que é isso. Esta é uma leitura que cabe aos leitores, aos críticos, uma observação externa.

DA – Muito se fala sobre a questão da leitura no Brasil, evocando-se a máxima de que somos um país de escassos leitores. Em Portugal, você leva a cabo outra feição sua, que é a de editor. Qual reflexão você faz do comportamento do leitor português e o que, na sua percepção, caracteriza marcantemente o mercado editorial lusitano?

OZIAS FILHO – Penso que o comportamento dos leitores cada vez mais é uniformizado e parecido, aqui em Portugal e no resto do mundo. Boa parte dos leitores procura aquilo que mais se vende: os livros de alta rotatividade nos escaparates das estantes e que na maioria das vezes são lixo com capas apelativas visualmente. Na parte que mais me toca, a Poesia e as Ciências Sociais, o espaço nas livrarias é cada dia menor. A minha esperança reside na Internet/Redes Sociais, como forma de divulgar os livros dos novos autores que, definitivamente, têm que matar um leão por dia. Primeiro, para chegar e convencer as editoras do seu talento; segundo, para que depois os seus livros consigam entrar no circuito das livrarias e lá permanecerem com a constância suficiente para que tenham visibilidade perante o público.  Acredito que a Internet, através das redes sociais, blogues, páginas de literatura e tudo isso conjugado por contaminação em escala, acabará por permitir que cada vez mais autores saiam do limbo do desconhecimento e que criem o seu próprio público. Confio também nos projetos alternativos, como aqueles que desenvolvo nas Edições Pasárgada (edições numeradas, assinadas pelo autor, primeiras e únicas edições, mas com um preço agradável aos leitores). E esta filosofia de voltarmo-nos para o meio virtual a cada dia ganha mais consistência, pois podemos dar visibilidade aos nossos livros (com algumas vendas), alcançando novos leitores, por um lado, e fugindo ao circuito habitual do comércio de livros. Utilizar a virtualidade como suporte à função editorial. Contudo, sempre que pudermos estar presente nas livrarias, assim o faremos, pois o contato com o livro físico tem também os seus apelos.

DA – O resultado do seu caminhar tanto com a literatura quanto com a fotografia lhe permite concluir que você encontrou respostas para alguns cruciais questionamentos?

OZIAS FILHO – A resposta (se é que existe de fato) é o próprio caminho, mediante as perguntas que fazemos no seu percurso. Para quem cria (assim vejo) não existem certezas em coisa nenhuma, pois a pretensa resolução de um “problema” hoje se desfaz na espuma do próximo questionamento. É sempre um recomeçar ad infinitum ou, para usar um pensamento atribuído a Sócrates, sobejamente conhecido, só sei que nada sei …. não obstante… À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo (Álvaro de Campos). O que sei, e posso afirmá-lo com propriedade, é que tanto a poesia, como a fotografia ou a arte, num sentido lato sensu, fazem-me sentir um ser humano melhor, mais liberto, mais tolerante, mais consciente da existência do outro.

DA – No eixo que vai do homem ao artista e vice-versa, o que Ozias Filho espera de Ozias Filho?

OZIAS FILHO – O que espero de mim próprio é nunca deixar de questionar o que me cerca e, apesar das minhas pequenas certezas, ter a capacidade de mudar o curso do rio em que me navego.

 

 

 

 

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88ª Leva - 02/2014 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Fabrício Brandão

 

A primeira coisa que nos vem à cabeça quando pensamos em maturação é todo um conjunto de mecanismos e processos que dão suporte ao ato contínuo de um amadurecimento. Ao longo da vida, somos tomados, mesmo que forçosamente, pela necessidade de empreendermos passos decisivos rumo a algum tipo de evolução. E evoluir seria apenas uma das facetas da maturidade, embora nem sempre signifique uma renovação completa daquilo que supomos, sentimos ou desejamos. É de se desconfiar, então, que a transformação substancial do ser humano surge à custa de rupturas tanto no campo do pensamento quanto da ação.  No que se refere à literatura, alguns percursos próprios se apresentam. Um deles está na capacidade que um determinado criador tem de vislumbrar sua obra como uma janela de projeção para o mundo. É o caso de gente como a escritora Ana Peluso, que, profundamente envolvida pelas marcas de seu tempo, faz de sua expressão literária um voraz instrumento de lucidez.

Companheira inseparável do espanto e do estranhamento, Ana faz com que sua poesia transite por um lugar onde muita coisa pode ser posta à prova. Desde os sentidos mais elementares até os mais complexos, a autora revela-se intensamente movida pelos signos da inquietude. Seus versos movem moinhos de indagações, chacoalham as fronteiras do óbvio e, ao mesmo tempo, refletem uma sutil busca pela delicadeza oculta das coisas.  Sem sucumbir a bandeiras da moda ou apelos ideológicos voláteis, essa paulistana se vê agora diante de seu primeiro rebento poético, o livro “70 Poemas”, publicado através da Editora Patuá.

Nascida em 1966, Ana Peluso, além de escritora, agrega em sua trajetória os perfis de jornalista, editora e web designer. Integrou diversas antologias, dentre as quais: deZamores, pela Editora Escrituras em 2003, resultado do encontro de alunos de diferentes oficinas literárias virtuais do SESC SP, sob orientação do escritor João Silvério Trevisan; É que os Hussardos chegam hoje, também pela Editora Patuá, 2014; e de Hiperconexões : Realidades Expandidas, primeira antologia poética sobre o pós-humano, com organização do escritor Luiz Bras, pela Editora Terracota, 2014.  Tem textos publicados em diversas mídias impressas e eletrônicas, como é o caso do extinto jornal O Pasquim, revistas Coyote, Germina, Musa Rara, Cronópios e outras mais. Aqui na Diversos Afins, Ana é uma velha conhecida que, tendo participado com seus escritos de várias edições, agora retorna à casa para falar um pouco sobre o seu momento de saberes e sabores em torno do nascedouro de seu primeiro livro. Como se não bastasse, desfila também algumas pungentes opiniões acerca do laborioso e nada facilmente exprimível ato de escrever.

 

Ana Peluso
Ana Peluso / Foto: arquivo pessoal

 

DA – Sua trajetória é íntima das palavras, sobretudo pelas feições de jornalista, editora e escritora. Depois de um bom tempo, seu primeiro livro vem ao mundo.  Quais travessias foram determinantes nesse lapso temporal? 

ANA PELUSO – Eu não chamaria de travessia o que me levou a publicar, mas de incursão interna. Hoje em dia se escreve muito para o outro, para agradar o outro, seja esse outro o mercado editorial, um amigo poeta, um editor de revista, de jornal, ou até um crítico. A minha travessia se travestiu de incursão porque escrevo, antes de tudo, para mim mesma. Sob esse prisma, e de um ponto de vista meramente material, talvez eu seja egoísta, mas não acredito na arte que não dialogue antes de tudo com o interior do artista, com seu mundo particular, que, por sinal, é vasto. Caso contrário, ele ainda não é um artista de fato, mas alguém que necessita da atenção dos demais, e talvez por isso se vê tanta gente escrevendo igual a tanta gente. Em muitos casos, é natural que, ainda que o poeta tenha optado por trilhar esse caminho a que me propus, a obra chame atenção, mas aí a atenção é mera consequência, e não o estopim para que a arte aconteça, porque para mim é necessário que ela se distancie do criador a ponto de pertencer aos demais, e, ao mesmo tempo, que ela se mantenha como um mundo muito particular ao criador, muito pessoal e peculiar. Se o leitor encontrar o objeto da criação com outras feições, melhor. Sempre digo que “a terceira margem de um livro é o leitor”, justamente porque a primeira e a segunda pertencem ao autor, pelo diálogo interno que precisa acontecer para ele poder chegar ao ato da criação. Como se fôssemos híbridos, é necessária a contradição interna, pessoal, uma segunda leitura feita, talvez por alguma camada da consciência a que não temos acesso reconhecido, mas que está lá, apta a esse diálogo. Eu acho que todo bom autor é dialético por natureza.
Ai das coisas que não se contradizem.

 

DA – Em “70 Poemas”, há um vasto painel de olhares e percepções que não congratulam com o estado de coisas em que vivemos. O mundo sempre foi um lugar estranho? 

ANA PELUSO – Acho que sim. Eu poderia responder que fizeram do mundo um lugar estranho, mas se a gente imaginar o homem das cavernas e sua luta pela sobrevivência, vai ser obrigado a concordar que o mundo só é estranho à sensibilidade de alguns homens. Matar um semelhante pela supremacia da tribo é tão apavorante quanto administrar a desigual distribuição de renda. Para mais além, o mundo é tão estranho, que nascemos berrando, o que não foi exatamente o meu caso, mas não me pauto jamais pelas exceções, até porque o “nascimento de um natimorto” deve ser infinitamente mais doloroso. Pena que não me lembro. Adoraria narrar uma ressuscitação.

 

DA – Sua poesia tem uma marca substancial, que é uma atitude desperta e incomodada diante da vida. E você consegue equacionar as doses sem se perder em desvios ideológicos.  Em que medida o caos interior é um aliado de quem cria?

ANA PELUSO – O que você chama de caos interior, e eu de infinito interior, é matéria-prima. E tem uma ideologia lá dentro, sim, só que ainda desconhecida. Sem contar que tudo o que fazemos, fazemos por um ideal.

 

DA – No sentido lato da palavra, o seu ideal faz com que sua poesia seja algo engajada?

ANA PELUSO – Se há engajamento, é orgânico, não panfletário. Não adianta levantar uma bandeira se quem a pega não distingue cores. Então, a gente enterra a mão e fertiliza uma raiz interna. É como dizer ao coração porque o sangue corre nele, fazer pele falar com pele, é um engajamento sutil, quase impossível de um ponto de vista prático, racional. Mas é uma poesia feita de perguntas.

 

DA – É interessante quando você diz que escreve para si mesma. Esse pensamento parece colocar criador e leitor numa situação de autonomia compartilhada, através da qual cada um demarca seus territórios de vivência dentro de uma determinada obra. Leitores são seres realmente livres?

ANA PELUSO – Eu tenho que escrever para mim mesma. Para quem mais eu poderia escrever no momento da escrita? A quem o poema deve agradar de pronto? Escrevo sobre/tudo para mim mesma. E, sim, pode chamar isso de autonomia compartilhada (excelente termo), a questão é que para mim, como disse acima, o leitor é sempre a terceira margem de um livro, não adianta eu escrever poesia achando que o texto chegará aos olhos do leitor na forma que eu penso ter escrito a poesia, e, ainda, se chegará como poesia. Eu não gosto do óbvio, apesar de estar trabalhando em alguns textos óbvios, eu gosto de mistério, do que aquelas linhas podem me proporcionar de possibilidades, novidades. Recriar é laborar diretamente com a novidade, é rever, redizer. Quando escrevo uma frase que é minha por epifania, mas cuja alma, a ideia, pertencem já a alguém, digo que é do “dito-redito”. Também gosto de literatura de corpo honesto. É muito tentador dizer o que já foi dito como se não se visse que já foi dito, ou se fingisse não ver, mas é feio, é pequeno. A não ser que o autor desconheça mesmo a autoria – essas coisas acontecem – trata-se de um mecanismo de auto-engano voluptuoso. E um escritor não pode carregar um peso desses. Ele já carrega o mundo, na vertical, das costas para a cabeça. Aí é peso demais, e ele acaba largando o mundo, e ficando com o auto-engano.

 

Ana Peluso / Foto: arquivo pessoal

 

DA – Hoje presenciamos a aparição cada vez mais frequente de autores desembocando suas expressões em diversos meios. No seu entender, há um novo espaço de concepção criativa surgindo? Podemos falar em uma nova geração?

ANA PELUSO – Sim, acontece um movimento feito de outros movimentos, e que vivencia a arte, a própria escrita, de forma plural e constante. Acho que podemos falar em uma geração de gerações. É extremamente rico o momento. Cria-se convergência para um ponto comum: o reconhecimento de que somos vários, e somos variados, mas de forma alguma isso pode equivaler à total qualidade.

 

DA – Vez por outra, percebemos discursos inflamados numa defesa bastante firme da tradição literária. Apesar dos novos tempos instaurarem outras perspectivas, o purismo subsiste. Não é um exagero imaginar que tradição e modernidade não podem se harmonizar?

ANA PELUSO – Acho que tem que existir harmonia, sim. Reconhecer o diferente faz parte da prática da vida, mas por outro lado entendo os puristas, há que se resguardar uma certa tradição. Nem toda arte, nem toda literatura, será exatamente a mesma com o decorrer do tempo. O novo sempre surge, e sempre surge subvertendo o paradigma, mas acho de bom tom que os tradicionalistas estejam de olho. Nem tudo é mar só porque é água. Eu mesma não sei até hoje se o que escrevo é poesia de fato. Talvez comparado ao rigor da tradição, não, mas há um trabalho com a palavra, há uma preocupação em criar um universo poético, ou seja, não se trata de prosa na vertical. Mas isso, de trabalhar uma linguagem (mais) carregada de significados (Pound), não coloca ninguém no patamar de poeta, ou mesmo de escritor. Ao mesmo tempo em que há escritores de correntes tradicionais sem verve, há novatos que operam fora dos paradigmas tradicionais com um brilho literário inquestionável. Perceber e reconhecer isso é o que falta.

 

DA – Há quem defenda uma “fronteirização” da literatura. Nesse ínterim, bandeiras de gênero são erguidas, a exemplo de distinções criadas em torno do que seja literatura gay, feminina, dentre outras. Mais do que nichos de afirmação, essas ações não seriam ilusões de uma frágil tentativa de inclusão?

ANA PELUSO – Não acho que seja “frágil tentativa de inclusão”, mas tentativa de inclusão, e não é necessária. A obra fala pelo autor, com ou sem bandeira, de gênero, cor, classe social, mas aí é preciso ver se a luta é pela inclusão da literatura ou da classe. E isso é ponto relevante a ser apreciado porque dialoga com a história, com o momento histórico, que é de carnaval e toda fantasia tem sua cor, e quer se mostrar. O que não pode acontecer é o poeta engajado em uma causa ceder aos interesses políticos. Por mais política que seja a sua postura, com a vida até, a partir do momento em que a obra se torna um veículo meramente político que não seja de oposição, deixa de ser carnaval e a marcha é outra.

 

DA – Como ser de espanto que é, o que você não endossa na dita pós-modernidade?

ANA PELUSO – Se você fala da pós-modernidade no campo das artes, endosso tudo. E falo de arte, não de entretenimento. Se você se refere ao campo de ação do homem comum, me preocupa a falta de interesse pelo que está realmente acontecendo. E não está acontecendo direita e/ou esquerda, está acontecendo nesse exato instante o controle total do ser humano pelos mais variados tipos de comando. Desde a escravidão devotada voluntariamente, vício já na tecnologia, como a implantação de chips no pulso de cidadãos norte-americanos para validar o Obamacare, até as mulheres muçulmanas que vivem sob uma burca, passando pelas protestantes do “Cinturão da Bíblia”, nos EUA, e seus maridos violentos, até o controle do que eu devo ou não assistir na tv, ler nos livros, e ouvir nos discos. Eu não endosso o controle. A liberdade já é produto da utopia, ninguém precisa lembrar disso a todo instante.

 

DA – Somos incorrigíveis?

ANA PELUSO – Sim, para o bem e para o mal.

 

DA – Saberia dizer o que a literatura espera de você?

ANA PELUSO – Não, não saberia dizer, mas sei o que eu espero de mim em relação à literatura. Gostaria de ter tempo para escrever mais e melhor. E para poder levar adiante projetos antigos, como escrever para crianças. Também gostaria de ter fôlego, tempo e meios para me dedicar a um pequeno romance. Se eu tivesse condições, só escreveria. O livro ’70 Poemas’ não contém nem 1% do que eu tenho a dizer, a escrever. Mas infelizmente a literatura no Brasil é um artigo de luxo, principalmente para o escritor, e, sobretudo, se ele é obrigado a exercer outras funções que o mantenham como um bom pagador perante os banqueiros e o mercado. É uma via de mão única: ou se escreve verdadeiramente, e se come pão com água, ou se paga as contas, e se escreve pouco, muito pouco o que se tem a escrever. Ouvi certa vez de uma acadêmica em Letras: “Você é muito boa, mas não tem pé de meia”. Aquilo foi um choque para mim. Porque ela está coberta de razões. Não dá para parar um poema para dar sequência a um trabalho, por pura necessidade, e voltar ao poema depois com o mesmo espírito. O capitalismo é o maior assassino de pessoas no mundo, incluindo os escritores. Vejo muitos autores vivendo puramente da literatura com oficinas, workshops, palestras e performances, mas comigo não é assim que funciona. A literatura, para mim, é uma arte feita principalmente de burilamento e silêncio. Eu não teria cabeça para dar uma oficina e voltar a um texto em seguida. Seria como parar um poema para dar andamento num trabalho qualquer, quando a própria literatura já é um trabalho, que exige muito da gente. Só falta o mundo reconhecer isso.

 

 

 

 

 

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82ª Leva - 08/2013 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Rosana Banharoli

 

Foto: Milena Palladino

 

 

jamais pluma
diante do abismo
lágrimas represadas
comportas erguidas
a concreto e culpas
destino mesmo
depois de chão
:pedra
pedra sem perdão
e ascensão
:pedras atiradas
num jogo de dados

 

 

***

 

 

comungo
companhia
em lua opaca
[a minha]
desbotada
de tentativas
[tamanhas]
esgotada
de partidas e pedras
[grito pra dentro]
explode o poema
em ventre seco
[esse e todos os outros]

 

 

***

 

 

no fundo da noite
o uivo multiplicado
corta a conversa
de sonhos
e dá voz
ao holocausto
:silêncio do medo

 

 

***

 

 

para Julieta Bacchin

 

olhos felinos
de arranhar
salivas e sêmens
& comê-los
em instantes
: cristal de corte
sangue vivo
desejos
vértice de máscaras
& fantasias
longe
talvez cinzas
ou flores místicas
de prazer, talvez
,navegação

 

 

***

 

 

Aqui jaz

Do arrebol,
Andejo por um só caminho

A noite baixa densa                    desdentada

À espreita,
Solitário raio de sol
Vem se deitar comigo
E, misturado a terra orvalhada
Desiluminar a sombra
De meu futuro                             outrora

 

 

 

(Rosana Banharoli é autora de Ventos de Chuva, poesia, Scortecci, 2011[Fundo de Cultura de Santo André]. Participa com dois contos no  livro de Maitê Proença, É duro ser cabra na Etiópia, Ediouro, 2013. Alguns  poemas são do livro inédito, Cartografia em Construção, realizado após breve estada na Casa do Sol-,IHH em novembro de 2012. Publicada em mais de 20 Antologias através de premiações em Concursos Literários e em diversos sites, blogs e revistas literárias)