O senhor ressentido em paixões
repete temas: recupera estátuas
em enigmas indecifráveis. Reluta
convicções
e dispõe sobre as bases ……………elementos concretos: ama ……………o paradoxo da frieza da pedra ……………e no metal deixa a sua marca ……………amarfanhada em papéis ……………decorridos de madeiras ……………inacabadas em regiões …………………………………..estéreis.
***
Tece o pouco em necessidades
e as traduz em fugas.
Vida diversificada
em objetos herdados.
Destruído em condensado
no senhor do absurdo recriado.
Vive na significância da não
aceitação dos termos: extermina
a vontade de se fazer maior.
A desnecessidade da prisão ao ser
irreconhecível em paixões formatadas
no inacreditável de ser pedra
e só.
***
Imensos os aspectos
atraídos pelas mãos que criam
a ilusão da vida. O metal têm olhos
e ouvidos: não escuta …………….e não enxerga.
A mão sustenta a luva.
os pés contraem a terra.
Diz que respira
e oxida. Mãos recriam
o fantasmagórico: escuta ……………………….e enxerga.
A matéria é retrato
inacabado: reconstrói
a moda desfeita em tradições
inabaláveis das certezas.
O dono assoreado em documentos
repousa ante o fantasmagórico.
***
Idealiza. Conhece a essência
da transformação. Carrega o medo.
Escorrega a mão sobre o nada
no sentir a consistência do inexistente.
………..Traduz. …………..Escolhe. ……………..Pensa.
Dispõe a necessidade em espaços
demarcados no projeto para atender
ao anseio da realidade.
………………….Produz. ……………….Contrata. ……………..Entrega ao senhor ……………a procedência do artefato.
(Pedro Du Bois é natural de Passo Fundo e reside em Balneário Camboriú, SC. Escreve poemas e contos. É editor-autor, com livros feitos em casa, em tiragens mínimas, não comercializáveis. Foi vencedor do 4º Concurso Literário Livraria Asabeça, categoria poesia, com “Os Objetos e as Coisas”. Em 2009, “A Criação Estética” foi publicado pela Editora Corpos, Portugal. Em 2013, seu livro de poemas “O Senhor das estátuas” foi publicado pela Editora Penalux (SP))
O amor cãibra sobre o assoalho
dá voltas em torno da sua inadequação
e rala os joelhos.
Não transita. Não se ergue.
Não se transforma em a asa ou em barco.
Da porta mesmo volta
e macera.
Ele é aprisionado no corpo, o amor
e quase nunca conhece
a maneira dos pássaros.
***
Subtraído
teu coração de exíguo
e indefinido amor
descansa entre um domingo e outro
põe a água para ferver
e esfria.
não espera o equinócio, o saldo
o próximo aniversário
o cabelo crescer pelas costas
enquanto vaga nas proporções
e quedas previstas pela exaustão.
meu coração
sobrancelha sobressaltada
no teu vulto
“cogito, ergo sum” sem a prova dos nove
meu batom terra glaise 74.
***
Acordo
não lhe faria mal algum pela manhã.
deixaria o saldo ………………. ….o ocaso
o escaldo da colheita ………………….tardia e enunciada
e a centena de mal-traçados
escritos em breves
e em permanentes polissílabos.
me devolveria o livro …………………………….o centauro
a minha concuspicência.
sem olharmo-nos.
com o distanciamento
recomendável
aos que se amam em demasia
e se arremessam.
***
Anímico
anuncia o princípio anímico
e todas as coisas se enchem
de alma.
vela o Verbo
espia a pena
ratifica as Escrituras, o Talmude, ………………………………………………o Tao.
Deus imana e eu amo as hortaliças
de verde enluarado.
e o centeio e o peixe e o orvalho
e a pedra e a trovoada e a magnólia.
tudo exala. nada transcende.
o vácuo é composto de falenas.
***
Vigília
Havia ternura:
a cor da fruta
sombreava as palavras
o cavalo-marinho
ia de amarelo
e sem ver
todos os nossos braços
suspensos em tempo irregular
de afago e festa.
Então, reiventarei
por necessidade
novas guardas.
Trazes o crisântemo
e a ófris esquecida
e a alma
desalinha-se no leito:
minhas horas são feitas
de inseguro tear.
Antecipas o agosto
em tempo hábil
e o talha em jaspe:
a melifluidade
do amor raro
resvala na pedra.
Tuas mãos cheiram
a silício e abandono.
Nenhum louva-deus.
Nenhuma flor imprevista
salta das letras.
De madrugada
assim tão tarde
nem as tangerinas maduram
e nem o céu responde.
Tua metafísica monitora
o fólio, a promissória
e a minha poética insiste, azul
como anil dissolvido na água.
***
Amarelo Por Dentro
A tua letra é amarela
como a nêspera, a gema
o fruto em véspera e ocre
saltando da árvore, da página
da costura no dobrado do paletó.
Devolveu-me a vida enquanto escrevias
e sublinhavas o termo, a epígrafe
a semântica clara de cuidados.
Trouxeste o castiçal, o sol
a lâmpada
a última literatura.
O teu amarelo a escorrer-me, por dentro.
(lolanda Costa (Itabuna-BA) é graduada em Filosofia e especialista em História Regional. Editou, artesanalmente, folhetos de poesia Às Canhas as Palavras Realizam Mil Façanhas (1990), A Óleo e Brasa (1991) e Antese (1993). Tem poemas publicados em jornais, antologias e blogs. É autora de Cinema: Sedução, Lazer e Entretenimento no Cotidiano Itabunense (2000), Poemas Sem Nenhum Cuidado (2004), Amarelo Por Dentro (2009) e Filosofia Líquida (2012))
Por vezes nos deparamos com uma assertiva a dizer que certos autores, ao desenvolverem sua bibliografia, estão escrevendo e reescrevendo sempre o mesmo livro. Alargando um pouco mais a ideia, muito me chama a atenção a hipótese de certos autores nordestinos formarem uma família antropoliterária, os quais traçam e trançam na mesma renda a inesgotável e árida epopeia da vida e da morte agrestes.
Vou omitir, por falta de lembrança ou de conhecimento, nomes importantes, mas penso que tal família tenha seu precursor em Augusto dos Anjos, sendo configurada por Graciliano Ramos, João Cabral de Melo Neto, Ronaldo Correia de Brito e Daniel Mazza. Não se pode negligenciar as miríades de poetas cordelistas e cantadores espalhados pelas feiras e empalhados nas prateleiras do menoscabo da “alta cultura”.
Tais autores irmanam-se ao tomarem mutuamente os procedimentos formais e os temas constantes da obra de seus entes, sem que isso nos cause, admiravelmente, a sensação de previsibilidade ou mau epigonismo. Todos eles desautorizam a visão pitoresca do espaço sertanejo, encravam a caatinga em seus parágrafos e estrofes, tornando-a metáfora de espaços e tempos de todos os lugares e épocas, sejam as ágoras mitológicas da Grécia, sejam os bíblicos e empoeirados caminhos da Palestina. São eles xilos ou litogravadores da palavra, visto lançarem-se de encontro ao hiperbólico mosaico da linguagem para dele extrair ou nele imprimir, à mão de faca, a palavra certa e seca. Sublimadores da brutalidade, valem-se de mão de vaqueiro, que por um instante é capaz de domar a vida: domadores do discurso, penduram a encharcada escrita à cerca e ao sol para que se lhe retire toda a gordura, até que sobre apenas o substantivo couro. Alunos dos seixos, concebem a partir do vento quente e da areia seca, pois tanto o sopro como o barro têm uma saúde incoerente para esta gênese.
Assis Lima pertence à linhagem desses escritores, umbilicalmente ligados ao sertão e espiritualmente dados ao mundo. Nascido no Crato, interior do Ceará, Assis, médico de profissão, fixou residência na urbaníssima São Paulo. Nela desenvolveu o notável estudo Conto popular e comunidade narrativa, que a um só tempo registra e abraça a vocação do povo nordestino para a oralidade, a qual, de tão bem aprendida com os gregos, tornou-se invenção patrimonial sua. Como poeta, Assis presentificou os aspectos mais representativos de sua genealogia artística em Poemas arcanos, livro repleto de evocações locais e translocais, todas enoveladas em cantigas, “incelenças”, lendas e evangelhos.
E para perpetuar o movimento contínuo de ressurreição de sua família autoral e assinalar seu fio particular, Assis Lima dá ao primeiro texto do seu Marco misterioso o aqui infiltrado título de “Água”, com o qual diz não e sim à sua sina – “O deserto esteve fincado dentro de mim” (…) // “Que me cubra o nevoeiro!”. Essa peleja, típica do homem em apreço e repulsa pela matéria de que se constitui, tem presença cativa em diversas passagens do livro, e em textos como “Caleidoscópio” ganham a feição de arena onde duelam ser e transcender: “As pedras, uma extensão de mim. / E dentro das nuvens, a extensão de todas as pedras”.
Assis Lima / Foto: Divulgação
Assis Lima é a assinatura literária de Francisco Assis de Sousa Lima (com o nome civil ele registrou sua tese acadêmica). Há nessa heteronímia o amálgama de símbolos próprios da literatura que o autor desenvolve e da casta à qual pertence. Francisco (de) Assis é nome de um dos mais expressivos personagens bíblicos, ao passo que “sousa” – registram os dicionários portugueses – é um tipo de pombo aguerrido, não por acaso tomado como imagem de brasões familiares. No Brasil, Sousa é uma cidade do sertão paraibano. Já então se vê o anelo do local e do universal, ao qual se liga a fusão da figura do santo e do bicho guerreiro, ambos imagens diletas da cultura nordestina. “Lima” é uma fruta cítrica, ácida, cortante, e mais ainda o é a lâmina com que o autor decepou sua identidade em consonância com o corte literário: os Poemas arcanos, da primeira para a segunda edição, foram reduzidos a quase metade, e este Marco misterioso já vem ao mundo com uma seção amputada, visto ser e não ser pertencente ao conjunto do que agora se publica. E não nos esqueçamos: o Rio São Francisco encrava-se gigantesco no solo e na sola do Nordeste, cercado de seco por todos os lados, cortando-o de ponta a ponta.
Mas a coisa não se fia por aqui: dentro deste volume a escrita se mostra mais muscular quanto mais se depura da carne das palavras, como se fosse (e é) possível enrijecer-se de ossos. É o que se observa no finamente geométrico engenho de “Ângelo Monteiro”, ou no obsessivamente talhado “Sem título”, capado até no nome:
………………………………………………………..Pelo verso ………………………………………………………..e avesso ………………………………………………………..em teu colo ………………………………………………………..me teço.
………………………………………………………..Por teu vinho ………………………………………………………..e chama ………………………………………………………..minha sede ………………………………………………………..clama.
………………………………………………………..Em teu seio ………………………………………………………..redoma ………………………………………………………..me rendo ………………………………………………………..genoma.
Essa poética busca uma dicção quite em seus desacordos, e o poeta desgarra-se do parentesco a fim de tanger os próprios passos e o próprio canto. Por isso o leitor verá também um feito marcante do livro no caudaloso “Via Sacra pela morte do filho”. Trata-se de um poema de alta voltagem dramática, construído a partir do arranjo das vozes do pai consternado e do coro que se encarrega de verbalizar o roteiro fúnebre: “Prepara-te, corpo / que chegou teu dia, / recebe esta roupa, / vai em boa companhia”.
E dentro do rio turvado de lágrimas brotam as teimosas águas de “Vida de violeiro”, poema nordestiníssimo por suas cores e sons. O ritmo cantante da redondilha heptassilábica embola na malha do texto a evocação de cantadores lendários, como Cego Aderaldo e Zé Limeira, quando toda a embolada ganha o tom de uma ciranda, viva porque cantada: “‘Quem não canta neste mundo / no outro fica engasgado, / pois o nosso mundo é este, / que o outro, é do outro lado, / por isso cante com a alma / que a vida lhe deu de agrado / para alegrar quem não canta / e alegrar quem está calado!’”.
Foi o poeta-violeiro quem mandou. Que a sua leitura seja, portanto, a rima a unir poesia, alma, corpo e alegria.
(Marcos Pasche nasceu no Rio de Janeiro, em fevereiro de 1981. Cursa doutorado e leciona Literatura Brasileira na UFRJ. É crítico literário, autor de “De pedra e de carne: artigos sobre autores vivos e outros nem tanto”. Neste momento, pede aos acidentais leitores que não deixem de assistir ao documentário “Garapa”, de José Padilha)
o balouçar dos tempos está rangendo
o escárnio surgindo frio pela manhã
dentre vogais que se misturam
nasce a doçura rasgando ingênua.
armadura ginasial nunca polida
dentre dissipados olhares se abrilhantam
sem rumo levando ao descobrimento
degelando essas sensações estupefatas
numa consolidação platônica dominante.
se eu tivesse um sonho
ele seria o pesadelo.
moeda em cobre fundido
no fundo da bolsa
nunca trouxe sorte.
se eu tivesse um pesadelo
um dia seria sonho.
***
entre minhas frestas
um tanto irritante
deitou-se no tapete da sala
sorvendo o cheiro da geladeira
precisando de limpeza.
um tanto amável
acendeu as velas
iluminando os poros
em meu corpo ácido.
um tanto irritante
reclamou das manchas
negras e antigas
no fundo da banheira.
sol nascente
um oriente
plantado feito arroz desnudo,
ficou irritando e doendo por dias,
guardado entre meus dentes
feito massinhas mastigadas
de bolachas japonesas.
***
flamejante
o início perde o rumo
quando lanço chamas
nesse abismo inflamado
em devaneios bucólicos
flamejantes feito ritos
sarcásticos esmorecendo
gota a gota no quintal.
o nariz?
o que é o nariz?
– sentença em riste
buscando amadurecimento.
***
temporário
os trilhos da cidade esperam
minha cheia sangria.
às sete da manhã
vem o primeiro trem
e sua sonora carga amarela
invade as ruas do arpoador.
desaparece nos trilhos,
evade meu pranto sem crenças
e volto pra vida com cheiro de morte
temporário.
***
sóbrio
arfar e sentir o drama inveterado
gota a gota retratando as lágrimas
sóbrias nessa madrugada mnemônica.
não nasci ou amadureci neste nevoeiro
entre discos e canções dos bandoleiros,
odeias tudo em mim e não sentes nada?
sem sol, lua ou cartolinas recortadas
para meus primeiros trabalhos escolares.
nessas madrugadas apenas vício e chamas
me afastam e não sou parte dos seus sonhos.
desconexo nessas pequenas noções de vida
sôfrega voltando a destruir tudo outra vez.
pai, não há mais lamparinas nos cômodos:
sou seu sexo violento sem revide,
a placenta que caiu e não alimentou
em seu nome e do filho que se fez.
(Stefanni Marion nasceu em 1981, no dia do aniversário de sua mãe e no meio do caminho entre cidades do litoral sul de São Paulo. Já se envolveu com teatro, cinema, curadoria artística, mas acabou rendendo-se ao encantamento pelos livros e graduando-se em Biblioteconomia. “Temporário” (Editora Patuá) é seu primeiro livro de poemas)
A poesia é uma instância muito contraditória. Contraditório, e curioso, é também o mercado que a promove. Contradições à parte, há na literatura mundial verdadeiras preciosidades escondidas ou pouquíssimo reveladas, seja por se encontrarem fora do circuito econômico central do país, seja por não estarem inseridas na mídia. O Brasil guarda muitas dessas pedras lapidares. Prova disso é o chamado “homem invisível”, o poeta Francisco Carvalho.
Autor de mais de 20 livros, quase todos de poesia, sendo um ainda inédito, o cearense de Russas, Francisco Carvalho, deixou, no mês de março deste ano, estas planuras como um desconhecido para a parcela maior do povo brasileiro. Injustiça sem tamanho, haja vista o autor de Quadrante Solar ser “Dono de uma obra poética de qualidades inquestionáveis”, além de volumosa.
O cantor Fagner musicou alguns dos textos de Carvalho no álbum Donos do Brasil, que rendeu ao poeta mais leitores. Sem nos debruçarmos aqui sobre a belíssima leitura que Fagner fez de alguns poemas do homem “invisível”, o que podemos afirmar, sem temor, é que a poética de Francisco Carvalho é forte, sem engasgos e fórmulas universitárias de laboratório – as quais são aderidas por muitos escritores contemporâneos nacionais. Além disso, contrariando, ao que parece, uma de suas maiores características, a timidez, seus poemas são exibidos. Exibidos como aqueles que, escondidos sob a capa do livro, arrebatam o leitor ao primeiro contato. Basta um poema, para que fiquemos destinados a ler, incansavelmente, os demais.
Adepto da inspiração como caminho para alcançar a verdadeira arte, é o próprio, em uma das poucas entrevistas que concedeu, que aponta: “Tem-se vontade de escrever um poema da mesma forma que se tem vontade de fazer amor. Tem de existir certo clima de sedução e de cumplicidade para que o poema comece a existir. Têm de existir motivações, de ordem interior ou exterior, uma espécie de senha para que o poema comece a acontecer. O poeta constrói o poema, a emoção desenha o ritmo.”. E é este “clima”, talvez, um dos maiores motivos para sua obra ser tão expressiva e marcante – aspectos que podem ser verificados nestes versos:
Poema da Embriaguez
Bebem uns por desprazer,
astros, flor, vinho, absinto.
Bebem Deus para o esquecer.
Eu só bebo o que não sinto.
Outros bebem por desvelo,
solidões, o amor que dói.
Bebem Deus para esquecê-lo.
Eu só bebo o que não foi.
Outros bebem sal do mar,
azuis de ontem e hoje.
Bebem Deus para o matar.
Eu só bebo o que me foge.
Alguns bebem céus e ventos,
som, memória, espera e gesso.
Bebem Deus e anjos imensos.
Eu só bebo o que me esqueço.
A morte, o inevitável encontro, revela-se como um caminho para a sagração e um maior reconhecimento, quase sempre arbitrário, daqueles que são levados por ela. Para a obra de Francisco Carvalho, cuja matéria poética merece muitos estudos, tal reconhecimento, se vier, será justo e apropriado.
(Clarissa Macedo é baiana. Trabalha como revisora, escritora e produtora. Está concluindo o Mestrado em Literatura e Diversidade Cultural (UEFS). Está presente nas coletâneas Godofredo Filho (2010), Sangue Novo (2011), Verso e Prosa – Oficina de Criação Literária III e IV Feira do Livro (2011 e 2012), e no livro teórico Sem comparação: Torga, Rosa e cia. limitada (2013). Publicou na Verbo21, no site Musa Rara, no Barcaças, em A Poesia do Brasil, nesta Diversos Afins, na 7Faces, na Blecaute. Participou, em 2011, da IV Feira do Livro de Feira de Santana e da 10ª Bienal do Livro da Bahia na abertura da Praça de Cordel e Poesia. É colunista do site Viva Feira)
A fotografia tem o condão de vislumbrar perspectivas que se agigantam cada vez que a subjetividade governa seus signos. O modo como um fotógrafo observa a vida e seus complexos fenômenos é especial quando se pode olhar tudo como se fosse a primeira vez. O real, atravessado pelos recursos advindos da alma humana, não é mais o mesmo. Muda sempre, como se estivéssemos mirando um caudaloso e intrépido rio. Assim, flagrar os instantes que nos agarram incessantemente e despertam nossa atenção passa a ser uma missão deveras intuitiva e sensível, mesmo considerando o necessário domínio técnico.
O que será que norteia o olhar frente ao universo de pontos de vista que está diante de nós? Talvez um alguém como a paulistana Mercedes Lorenzo saiba nos responder com a propriedade de quem percebe caminhos singulares por entre os dias. Dona de uma visão que associa poesia à imagem, Mercedes penetra nas sutilezas e retira delas a matéria que dá sentido ao seu ofício. Mesmo no registro da materialidade das coisas e seres, a fotógrafa consegue um resultado que vai além de uma noção concreta e acabada de tudo. Nela, um vigor abstrato e intimista é capaz de redimensionar o foco da criação, fazendo com que um novo impulso seja conferido à existência.
Formada em Desenho Publicitário e Fotografia pela Escola Panamericana de Artes (EPA – SP), Mercedes direciona suas ações para uma reflexão mais humanista das coisas, fato que a estimula a desenvolver novos trabalhos. Na entrevista que agora segue, a artista fala, dentre outros temas, dos motores de sua criação, da especial relação com a palavra e faz algumas reflexões sobre o papel da arte na contemporaneidade.
Mercedes Lorenzo / Foto: Rubens Guilherme Pesenti
DA – Não há como passar por suas fotografias sem observar a forma como os espaços são captados. Disso, deriva uma escrita da luz que permeia o ambiente das intervenções humanas, de como divisamos ser e não-ser. Visivelmente habitados ou não, muitos de seus lugares possuem a marca vigorosa dos vestígios. Como lidar com isso na criação da imagem?
MERCEDES LORENZO – Há uma frase de Anais Nin, em meu blog, que resume fantasticamente esta questão: “não vemos as coisas como são, vemos as coisas como somos”. Isso pra mim implica que a criação fotográfica é uma conversa íntima entre o que é pré-existente no ambiente com o que necessita de via de expressão dentro da mente do fotógrafo. A partir desse diálogo mudo, das concordâncias e dissonâncias entre eles, vai se estabelecendo um ponto fino de equilíbrio e toda essa dinâmica acontece às vezes em questão de segundos. Mas sempre existe essa conversa íntima e ela determina o que será ignorado e o que será ‘focado’, usando metáforas da própria fotografia. É algo no qual não costumo prestar atenção consciente em relação ao processo em si. Por isso, talvez a dificuldade em te responder objetivamente. É intuitivo e orgânico para mim.
DA – Falando em caráter orgânico da fotografia, o que mais chama atenção é o menor nível de interferência possível por parte de quem faz os registros. Acredita que a poesia da imagem se inscreve no pacto silencioso entre o fotógrafo e o universo das coisas?
MERCEDES LORENZO – Sim, sua observação é pertinente. De fato, nos trabalhos fotográficos autorais/conceituais eu tento o mínimo de interferência possível, algo como uma busca da “legitimidade” da cena, embora isso seja ilusório: o olhar, o enquadramento, o foco ou qualquer outro elemento de escolha aleatória no ato de captar a imagem já é uma interferência, e ela se prolonga depois no tratamento da imagem em pós-produção. Não sou o tipo de fotógrafa “purista” nesse sentido, estou interessada justamente em transmitir uma linguagem poética. E quando penso em poesia, não penso necessariamente em coisas belas ou benfazejas. Esse pacto entre o meu olhar e o universo das coisas, como você diz, é uma espécie de transgressão ou licença poética. A não-interferência é quase que honrar a veracidade de algo que só eu estou vendo num determinado instante.
DA – Seus caminhos iniciais na arte apontam para um envolvimento com os desenhos. Você traz algum entendimento dessa fase para o olhar de fotógrafa? Diria que houve uma espécie de transição?
MERCEDES LORENZO – Desde pequena eu desenhava. Num determinado momento, na escola, percebi que desenhava um pouco melhor do que os colegas e então pratiquei com mais determinação. A princípio, copiando imagens que gostava e depois criando umas poucas. Mais tarde, nos anos 80, fiz o curso de Desenho Publicitário, especificamente pensando em aplicar aquele “dom” a algo que pudesse também me satisfazer profissionalmente. Trabalhei por alguns anos com desenho-animado comercial até me mudar de São Paulo para Santa Catarina, onde residi por 25 anos.
Nesse intervalo de tempo, tive outras atividades, trabalhei e estudei inúmeras coisas diferentes e me envolvi mais e mais com a linguagem, a palavra. Então, a transição não foi direta, embora eu tenha hoje consciência de que tendo a pensar sempre em termos visuais, quando penso em algo pela primeira vez. Isso é natural em mim, e provavelmente tem tudo a ver com a escolha da fotografia e o fato de me sentir tão à vontade nessa atividade.
Acredito, sim, que a facilidade do “entendimento espacial” das coisas, proporcionado pelo desenho, favoreça de algum modo o exercício da fotografia, bem como a dinâmica do mundo da publicidade seja um treinamento e tanto para determinados desafios da fotografia documental.
DA – Há também a Mercedes que se deixa envolver pelos enlaces poéticos, pela feitura de versos que sabem a delicados percursos existenciais. Em que medida a convergência entre palavra e imagem pontua sua trajetória?
MERCEDES LORENZO – O meu envolvimento com a poesia começou mesmo antes da fotografia profissional, e foi em parte incentivado por amigos que leram alguns escritos meus. Acredito que a palavra tomou destaque em minha vida também influenciada pelos meus estudos em Neurolinguística por volta dos anos 90. A poesia, a meu ver, é um imenso exercício de síntese desse mistério que chamamos Vida, com o pior e o melhor que ela possui. Essa síntese se vale da ferramenta “palavra”, assim como a fotografia é também uma outra forma de síntese que se vale da imagem. São signos que na minha vivência pessoal estão intimamente ligados e creio até que se confundem, na medida em que meus escritos carregam em si uma forte dose visual, e as fotos carregam em si uma dose igualmente grande de simbologia poética. De todo modo, não me considero poeta, apenas arrisco expressões escritas aqui e ali como parte da experiência de pensar o mundo.
Mercedes Lorenzo / Foto: Lais Simenikim
DA – Na sua opinião, qual o grande desafio da criação fotográfica frente às “facilidades” do mundo digital que nos atravessa? Não nos iludimos com uma revolução muito mais tecnológica do que inventiva?
MERCEDES LORENZO – Como disse anteriormente, não sou “purista” no sentido de evitar a manipulação digital da imagem quando se trata de buscar uma linguagem a ser transmitida e, claro, dependendo do contexto e finalidade do trabalho em questão. Fotojornalismo é diferente de fotografia conceitual. Mas, ao contrário do que muitos acreditam, a manipulação da imagem fotográfica já existia desde os primórdios da fotografia analógica, e muitos dos efeitos digitais hoje propagados têm sua origem justamente nos laboratórios químicos e em grandes nomes como o de Man Ray, para citar um. Isso não invalida de modo algum o trabalho conceitual que é isento de manipulação, acho que há lugar para todos os tipos de expressão individual. A qualidade da ideia final transmitida é o que deveria contar, não propriamente o processo em si, mesmo sendo ele uma parte lúdica e apaixonante do nosso trabalho. Cada fotógrafo tem habilidades específicas e preferências pessoais ao usar suas ferramentas disponíveis para chegar aonde quer. É a sua “paleta de pintor”, que apenas começa na câmera. O grande desafio, a meu ver, reside no mesmo lugar de sempre: a originalidade e consistência do trabalho, seja digital ou analógico.
DA – Seus registros para a publicidade possuem uma conotação artística deveras importante. Imagina rupturas ali?
MERCEDES LORENZO – Eu penso que a publicidade é um segmento que acompanha de perto todo tipo de inovação e consegue, talvez mais do que nenhum outro, absorver tendências de novas linguagens. Claro que estou falando da publicidade de alto nível. Então, nesse sentido eu acredito que, mais do que ruptura, é uma evolução constante. Meus registros para publicidade se querem sempre consoantes com essa maneira de assinalar uma valorização da inteligência do cliente e do seu público.
DA – Quando a arte não passa impune pelas questões de nosso tempo, seu significado ganha corpo especial. E você traz isso à tona na série Lançar Luz à Indiferença. O que lhe é mais caro nesse percurso?
MERCEDES LORENZO – Fico gratificada por você ter feito menção a esse trabalho, ele me é muito caro em vários sentidos. Acredito que a arte pode refletir as questões de seu tempo de forma implícita ou mais explícita, como uma crítica, que é o caso da série Lançar Luz à Indiferença. Minha experimentação com essa explicitude se deu transitando na linha tênue entre crítica e provocação. Toda a série foi produzida por mim com recursos fotográficos e de edição digital de imagens, de forma a chegar perto de um efeito “publicitário” muito mais do que propriamente “artístico”, pois se valeu dessa linguagem para dar ambiência ao questionamento proposto. A importância deste tipo de trabalho no meu percurso é a de me colocar em contato com todas as realidades sociais que me cercam, mas não apenas isso: pensá-las, propor um pensamento crítico e independente sobre elas, uma aproximação a elas por parte dos que ainda não o fizeram. São muitas ambições, eu sei, mas aprendi com a poesia que nós nunca sabemos exatamente onde uma ideia pode florescer e o quão longe ela pode alcançar.
DA – Chama atenção a forma como você aborda a perspectiva do masculino no ensaio Ecce Homo Nudus. A poesia do corpo revela um olhar especial sobre o homem, desanuviando tensões aborrecidas do gênero e propondo outras leituras. Estamos diante de um resgate necessário?
MERCEDES LORENZO – Sim, sem dúvida, eu acredito que estamos diante de um resgate necessário, em muitos sentidos. Apesar de aclamado na mídia e amplamente exibido na publicidade, o que observo é um recrudescimento em termos de moralismo no que se refere ao corpo na sua expressão natural. Esse recrudescimento se reflete inclusive nos espaços da web com uma censura indiscriminada que coloca a pornografia e o mau gosto no mesmo patamar de um Davi de Michelangelo, por exemplo. Também se reflete na reiteração de dogmas medievais travestidos de condutas contemporâneas. Este ensaio está entre os meus favoritos, não somente pelo resultado estético, mas também pelo que ele simboliza e tenta resgatar. Ele vem acompanhado em meu site de um texto introdutório, onde resumo essa visão que vai além do erótico, do comercializável, do corpo idealizado. O corpo aqui se quer parte indissociável do Ser. É incrível que em pleno século XXI ainda não tenhamos irrestritamente difundida a ideia revolucionária do psicanalista Wilhelm Reich, que nos mostrou que a mente humana está “espalhada” por todo o corpo e não reside apenas no cérebro. Esse conceito é a antítese da dicotomia repressora e moralizante, e mesmo sem essa clareza o ser humano o tem intuído ao longo das eras. Mas aí já vamos descambar em Foucault (risos). Eu quis que fosse um nu masculino porque também nessa especificidade residem tabus, já que o corpo da mulher é muito mais exposto pela mídia em geral. A inspiração final, o start da coisa, veio quando pude obter num sebo (já que se encontra esgotado) o maravilhoso livro da fotógrafa Vania Toledo: “Homens, um ensaio”. Editado em 1980, ele traz várias personalidades masculinas da época (e ainda atuais) em fotos de nu absolutamente naturais, despojadas, e em situações que evocam particularidades de cada um deles. Fiquei me perguntando por que o livro não foi reeditado, pois existem tão poucos ensaios desse tipo no país. Considero esse trabalho transformador e poético num nível muito sutil, e por isso ele me é caro.
DA – Em termos artísticos, acredita que a contemporaneidade é um convite à transgressão?
MERCEDES LORENZO – Em termos artísticos, só entendo como possível a transgressão (risos). Só consigo conceber a criação como algo que transgride em maior ou menor grau o que é vigente. Isso se aplica, a meu ver, desde o começo dos tempos. Mas contemporaneamente acho que o desafio é maior, na medida em que existem já inúmeros referenciais para a arte de outras épocas. Transgredir sendo criativo, hoje em dia, exige ao menos um superficial conhecimento do que já foi feito, e isso não é pouco. As ferramentas que permitem a auto-expressão criativa podem ter sido ampliadas e/ou facilitadas, mas o conteúdo continua dependendo única e exclusivamente do elemento humano. A multiplicidade de nossos dias talvez dificulte exatamente a observação do cerne daquilo que é vigente, para então poder ser transgredido. Por isso a arte hoje, na minha opinião, tem a importância da síntese. Para chegar a essa síntese é preciso pensar – num momento em que a palavra de ordem é consumir.
Mercedes Lorenzo / Foto: Rubens Guilherme Pesenti
DA – O que você não endossa nesse estado de coisas chamado pós-modernidade?
MERCEDES LORENZO – Vou tentar resumir, porque a pergunta é bastante abrangente. Acredito que muitos comportamentos dessa nossa era chamada pós-moderna são mais reativos do que pró-ativos, eles são consequência de um mundo sem garantias e em pleno processo de transformação de valores. Essa transformação não precisa ser negativa em si mesma, mas requer a todo momento a validação ou não de ideias que eram dadas como certas até o século passado. Nem todos têm a predisposição para esse constante questionamento e alguns se sentem sem chão, sem referências, e as buscam onde for mais conveniente segundo suas afinidades. Nesse sentido, o que eu não endosso de forma nenhuma, são todos os tipos de fundamentalismo: seja religioso, ideológico, político, etc. Também não endosso o automatismo consumista como fórmula de escape para o enfrentamento existencial a que todos estamos sujeitos. É uma vã tentativa anestésica num momento em que a humanidade precisa estar disponível e alerta para todo tipo de ideia que possa promover justiça social e a sustentabilidade do meio ambiente a longo prazo. E isso, na minha opinião, precisa ser feito não só urgentemente, mas com alegria, com vistas à felicidade.
DA – Por tudo o que você já viveu com a fotografia, o exercício do olhar implica mais em estranhamento, contemplação ou espanto frente ao existir?
MERCEDES LORENZO – O exercício do olhar… acho que é uma soma dessas coisas que você disse, e talvez mais algumas. Não poderia me restringir a uma delas, mas isso sou eu. O estranhamento é fundamental, me mobiliza, não me deixa acomodar e provoca a criação de novas sinapses o tempo todo. Sem o estranhamento não haveria o aprendizado. Confesso ter uma verdadeira satisfação diante do estranhamento, pois implica sempre que algo é novo para mim. O espanto é mais emocional, e implica mais na construção íntima daquilo que futuramente vai demandar uma expressão externa. A contemplação, sim, faz parte do exercício do olhar, porém ao contrário: para dentro. É ali que eu tento exercer a contemplação, como quem se pergunta “o que é que tem aí para se expressar?” ou “o que é que já assentou o suficiente aí dentro para ter uma possibilidade de síntese e/ou entendimento?“. Isso tudo se mistura, como você disse, frente ao existir. E acho que a arte não deve nunca dar respostas prontas, mas saber fazer as melhores perguntas, como na Cajuína de Caetano: “existirmos, a que será que se destina?”.
* Algumas fotografias de Mercedes Lorenzo fazem parte da nossa 72ª Leva.
sobra de todo o silêncio
o raro acorde
do teu nome
a que solidão altíssima
me entregas
quando te deixas morrer assim
no abraço faminto
do tempo?
***
claríssimo lugar
e chega-se ao lugar
do saber
ao claríssimo lugar
de tudo se nos correr no coração
como luz
como um animal devotado
e louco
branco, muito branco
caído nos olhos fechados
no outro lado
como se fosse enfim
a morte
***
caçar a água
caçar a água
no veludo escarlate da sede
pela madrugada
no coração tenro
da neblina
antes que a maré suba
os labirintos
aos pássaros
revelar a pedra
ensinar o lado de dentro
do musgo
a curva macia
dos seixos
porque a loucura
deve ser rasgada por dentro
com as mãos cravadas numa ponte
acesa ao abismo
***
é preciso dizer
é preciso dizer
que não há mais nada a celebrar
nem os homens
nem as ideias
nem o tempo
essa fenda
que te atravessava a vida
esse rasgão generoso
que te aproximava os céus
fechou-se
estás perante o escuro silêncio
das coisas mortas
não abandones os espelhos
ainda que quebrados
eles são o palácio derradeiro
o último jardim
a gota impossível
de secar
guarda aí a semente
as palavras
as vozes
as imagens
porque o amor
é um minucioso trabalho do tempo
em direcção à morte
(Gil T. Sousa (1957) nasceu e reside em Vila Nova de Gaia e é Licenciado em Comunicação Social pela Escola Superior de Jornalismo do Porto. Escreveu: poemas (2001), falso lugar (2004) e água-forte (2007), edições privadas do autor. É autor dos blogues: poesia,falso lugar e exercícios de esquecimento)
Às vezes, volta ao breu,
como a bruma se afoga
num rio.
Seus olhos são mais
claros que os olhos
claros.
Ele é o gato anterior
ao fato anterior.
Mesmo anterior ao fato
anteriormente dado
a ele mesmo,
gato.
Isso não se explica:
acende-se uma vara
de incenso de mirra.
Nasce e existe,
salta e volta a
saltar, do início.
Salta sobre o meu colo e,
de novo, volta a saltar do
chão, sobre o meu colo.
Se eu me visse
pela primeira vez,
pelos seus olhos anteriores,
não me acharia humano,
nem me acharia.
Mas saberia da dor
de não me saber,
se multiplicada
por cem
pulos.
Ele veio por entre as
teclas do piano de
tampo fechado.
As copas das árvores
as sombras das árvores
se dobraram,
em arco.
Patas postas na soleira
da porta, sem pó.
Unhas arranhando
o chão de terra.
Ele me ensina névoa
de musselinas.
Ele é o gato anterior
ao fato
anteriormente dado.
Roça o tampo do piano
como se fosse
vidro.
Tira escamas
dos meus ouvidos,
e medo dos meus pés.
Ávido, porque
sem lugar
no mundo.
Seu lar é a fresta da música,
o intervalo entre as teclas
branca, preta e branca.
Listras, ele não tem:
qual lince, cor de
laranja.
É o gato anterior a mim,
anterior à minha volta,
anterior à minha
dúvida,
anterior à música,
anterior à pauta.
Zaratustra.
***
Chão Absoluto
A respiração presa. Desde que perdi a noção do amor e o sentido da distância. Desde que não pude mais [nem soube mais] atrair as flores, comandar o vento. Desde que me vi no Exílio antevendo, da morte, a antecâmara. Deveria ser amplo. Poderia ser. O sentido do ar me dando sentido [e estufando o plexo]. Deveria ser sol, e o céu não pareceria tão alto. E a terra não seria O Abismo. Deveria ser Amor, e não Intelecto. No entanto, é a este Chão que estou preso.
***
Acrílico
Ninguém tocará teu rosto
por detrás da máscara de
acrílico [onde há fumaça,
há fogo].
E o coração, muitas vezes,
parece ser órgão cansado e
estúpido. Clange e se arrasta
e plange, como carro de boi.
E ainda que não te possa tocar
a face, posso ouvir [e devo dizer
que ouço] esse roçar de carroça
em chão vermelho e pedregoso.
Olhe pra cima e respire
fundo: Aquilo é o Sol.
(Sou psicólogo por formação. Já trabalhei em AMEs e UBS nas periferias da zona sul de São Paulo, em ONGs [SOS Aldeias Infantis, CVV], consultório particular. Sei das artes um tanto, do mundo cão sei também um bocado. Escrevi alguma coisa que está espalhada na web [Corsário, Cronópios, Mallarmargens, Casa dos Poetas – Portugal -, dentre outros] e em alguns blogs. Publiquei o romance Cidade de Atys pela Ateliê Editorial, em 1998. Por escolha e ideologia [discordância com as regras do mercado editorial, fundamentalmente], só escrevo na net, agora. Assumo a escrita como ofício sem fins lucrativos)
As rosas são belas, Dafne, e como,
A quem por deleite só as cultive, ………Por prazer apenas!
A quem as cultive, que delas viva,
Não serão tão belas: quanto esforço ………Por menores penas!
Sol mesmo ou água de um regato
Não se dão igual a folha e raiz: ………Estão; não estão!
Mata uma por falta, outro por demasia;
O tempo se esvai no só cultivar, ………E a rosa é pão!
De onde tempo, Dafne, quando o tempo
Para admirá-las brotar, colorir, ………Se é mister fazê-las!
O homem, pois, que tem na rosa ofício,
Rosas não vê, senão o que delas tem: ………Regá-las n’é tê-las!
***
Apesar de tudo… aqui venho e virei
Aqui venho e virei, pobre querida.
Machado de Assis
Apesar de tudo ao meu amor levarei flores.
Escondidas entre espinhos levarei as pétalas.
Contra a morte das flores na mágoa do amor,
investirei com a força da esperança crédula.
Aqui venho e virei entristecido e grato,
procurando as vozes que se ouviam ontem.
Aqui voltarei envelhecido e consternado,
acrescentando dias, descontando noites.
De que oco do mundo a vida tira a morte?
De que surpresa a paixão arranca a dor?
Como em tantas dificuldades fomos fortes?
Desmaiam as luzes, mas, pontilhando as cores,
teu olhar renasce e brilha – esperança e sorte –
e ilumina a estrada por onde fores.
(Cícero Galeno Lopes é natural de Uruguaiana, RS. Vive em Porto Alegre. Tem doutorado em Letras pela UFRGS. É ficcionista, poeta e ensaísta, com livros próprios e coletivos editados nessas áreas. Participou de dicionários temáticos no Brasil, Portugal e Espanha. É autor do conceito de literatura de dissidência. Tem suas atividades registradas na Plataforma Lattes do CNPq)