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73ª Leva - 11/2012 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Nuno Rau

 

 

Arte: Fao Carreira

 

 

NOTA MARGINAL 2.

 

A linha sinuosa do amor atravessou sua pele
e você,
noite sem luz, todo por dentro um escuro sem tamanho,
não pode perceber em que parte do corpo foi escavado este caminho estreito e suas margens difusas.
Fora, há dia e as manhãs se repetem encadeadas
quando luzem sobre a linha que se afasta e inauguram outros territórios, acolhendo peregrinos  pelo que se segue, curso aberto.
O tempo atrapalhou-se no seu fluxo e lhe ancorou a este entreposto,
presente que nunca se afasta:
os propósitos desencontrados são projéteis contra a pedra à sua frente
e agora sim, agora é o meio do caminho,
você está no meio, mesmo que algo lhe diga,
qualquer coisa lhe diga
que não seja assim.

 

 

***

 

 

NOTA MARGINAL 66.

 

Não há mais rosa ou girassol. Para um outro
jardim deslocado, o aroma da pétala
ainda paira no ar rarefeito.
Seca, a terra – entregue à solidão de uns astros
que nunca respondem – agarra-se ao espinho
e o emoldura: dele é que faz a pena
e risca em si, como se tatuasse auroras na agonia,
uns versos, íntimos
do espanto.

 

 

***

 

 

FALADO

 

não deu pra fazer o retrato falado do mundo, meu amor

retirando as escamas da imaginação (repara o brilho
de prata, fugidio, antes de mergulhar
na sombra, sem a menor possibilidade
de sonho) sobrou esta substância
informe, espessa e sem mágica
que a gente depois pendura em ganchos
nos incêndios sucessivos (onde quem se queima
somos nós) das palavras.

 

 

(Nuno Rau é poeta, letrista, carioca e leitor. Bloga em As Musas Pós-Modernas.  Email: nuno.rau@gmail.com)

 

 

 

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73ª Leva - 11/2012 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Vera Lúcia de Oliveira

 

 

Arte: Fao Carreira

 

 

 

PARA DENTRO

 

como águas que jorram
para dentro

dei para pisar
o rangido dos ventos

dei para virar
em volta dos passos

dei para lavrar a veia
em que piso

dei para revolver
os ossos

 

 

***

 

 

A CULPA

 

o que é
a culpa?

senão a mão que
não existe mais
aguilhoando
o mesmo cão

senão o olho desse cão
que não existe
abocanhando
a mesma mão

 

 

***

 

SEMPRE

 

fui sempre
de percorrer na carne
..o puído dos vãos
sempre de pôr o pé
na intimidade
das veias
sempre de lavrar
os dias mais
ferozes
……..para que doendo
….amansem a morte

 

 

***

 

 

MEMÓRIA

 

abundância de rastros
que não se cancelam
fascinados pelo assombro
de atravessar as esperas
com seus passos abortos
subindo pelas artérias
em busca de outro corpo

 

 

(Vera Lúcia de Oliveira nasceu em Cândido Mota e cresceu em Assis-SP. Atualmente reside na Itália, onde ensina Literatura Portuguesa e Brasileira na Università degli Studi di Perugia. Entre os livros publicados, estão Geografia d’ombra (poesia), Fonèma Venezia, 1989), No coração da boca (poesia), São Paulo, Escrituras, 2006; A poesia é um estado de transe (poesia), São Paulo, Portal, 2010)

 

 

 

 

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71ª Leva - 09/2012 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Pintura: Sylvana Lobo

 

Impassível

Ian Lucena

 

quando deixei de ser
hipócrita algumas ampulhetas
foram embora
à busca das ampolas da memória

quando deixei de
morrer afora
a clepsidra da mágoa
trouxe tudo de volta
às águas da minha vida inócua

 

 

 

***

 

 

Chuva

 

numa noite movimentada
os fios de prata – tecidos – deslizam
atrapalham as vistas das mentes
pequenas
noutras noites os pingos
grossos metalizam a fina umidade
e se tornam tempestade às mentes
criadoras

apenas num dia árido
muito árido
como aqueles que nem é possível sonhar
a chuva acaba
e a minha visão aguçada
perdura

 

 

(Ian Lucena, natural de Cascavel – PR, é poeta, empresário e universitário do curso de Economia)

 

 

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71ª Leva - 09/2012 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

 

Pintura: Sylvana Lobo

 

DANOS

Bruno Gaudêncio

 

quantas
asas
oram
nas covas
gastas?

?quantas
horas
vagas
cavam
nas curvas
postas?

?quantas
flores
mortas
ardem
em voltas
sem chegar
a lugar
algum?

 

 

***

 

 

RETINA

 

O olho do poema
permanece fechado,
fluente em seu acaso,
buscando o caos.

O olho do poema
escreve o seu atraso,
no teatro tenso
das luzes do mau.

O olho do poema
voa falso
(aos monstros da fala).

O olho do poema
come a razão
(com sua fome de nada)…

 

(Bruno Gaudêncio nasceu em Campina Grande, Paraíba. É escritor, jornalista e historiador. Publicou: O Ofício de Engordar as Sombras (Poesia, Sal da Terra, 2009) e Cântico Voraz do Precipício (Contos, Via Litteratum, 2011). Membro fundador dos Núcleos Literários Blecaute e Caixa Baixa na Paraíba. Membro do Conselho Estadual de Cultura do Estado da Paraíba. Possui poemas publicados nas seguintes revistas e sites culturais: Correio das Artes (PB), Revista Blecaute (PB), Verbo 21 (BA), Palavrarte (RJ), Revista Macondo (SP), Germina Literatura e Artes (SP) e Samizdat (POR). Atualmente Coeditor da Revista de Literatura Blecaute. Os poemas fazem parte do seu segundo livro de poesia, intitulado Acaso Caos, a ser publicado no início de 2013)

 

 

 

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71ª Leva - 09/2012 Janelas Poéticas

Janela Poética VI

 

Pintura: Sylvana Lobo

 

CASULANIMUS

Floriano Martins e Viviane de Santana Paulo

 

descortinamos a sombra avulsa que mastiga o sol     faminta por entre os monturos
da tarde     surge nas vértebras do tempo uma nuvem de abismos
estática da agonia que não se comunica com seus vultos abandonados
feixe de evasivas     o pavor diante da pilha de cenários vazios     a cidade
regurgitando a própria memória como último recurso para evitar a asfixia     mas
o cansaço reveste os corpos de desamparo     e as esculturas perambulam pelas
galerias sem ninguém
no chão o ruído de madeira reclama as tiras das frestas que atam as cenas
germinando lentas     diáfanas     tendo que relutar
contra o espaço desabitado dos cenários      recolhem o movimento imperceptível
dos sentimentos
nos fios das travessias     emaranhados como um casulo na curva da clavícula
tecemos nossa ausência com as fibras das garoas finas
caída nas costas do crepúsculo     são corpos que mudam de lugar    cruzam as
artérias de um mundo desolado
enlutam os cabides gastos pela melancolia     escrevem os nomes trocados para
confundir a dor
há muito que reúnem as estações para pequenos tragos na madrugada     quando
revivem as imagens desfeitas     e destacam passagens incongruentes da
narrativa de suas vidas incomuns
sedimentando desvios nos fósseis da ressonância urbana
as pernas sonâmbulas dos sonhos no branco do teto deixam marcas longas e
frágeis de nervos de folha desgastada de verão    devoram as cicatrizes
rudimentares de umas poucas utopias que rastejam por monturos     cartazes
aniquilados     detritos surpresos     orquestração de misérias
fomos descortinando a pele dos desgastes     tateavas um palimpsesto aqui     eu
mascava uma imagem putrefata ali     a memória não alcançava o dia seguinte
perdemos a história
já não sabemos em que tempo conjugar os verbos

 

 

***

 

MASCARALVO

 

a noite e o problema confinado     jogo de despistar o solitário
noite de sexo sem a coroa de estrelas     não te conhecem as cigarras     o bafo quente
…..das sombras macias
somente as silhuetas dirimidas no breu     dissolvidas as cores do dia na saliva da boca

para dizer que tudo se esvai     mas permanece este delírio
arrancar a ilusão do duro das paredes
buscar as amarras     o equilíbrio das gotas de chuva no limiar do arame     na ponta
…..dos espinhos
minto carnavais e feriados     noite de sexo sem a purpurina vermelha     sem a pérola
…..branca
o estranho gosto do amor na boca amanhecida com atraso
lençóis rachados como os lábios do deserto de teu olhar   contrariar a roupa ao vesti-
…..la
gemidos entranhados entre a meia e o sapato     não te vás     não me sigas
o sol se retrai indeciso sobre o disfarce que usará
a janela se espreguiça com um gato decalcado em suas vértebras
o mundo não vai a parte alguma     nem sei ao certo quem és
rumino as penumbras dos gestos e algo quebra a casca fina da manhã gelada     onde
…..as primeiras luzes surgem indiferentes     inventam o cotidiano no gargalo dos
…..recintos
imperturbável na hora do despertar
nascem os corredores de reflexos     matizes promissoras e lembranças viajantes que
…..vagueiam no vasto do dia que vem sem ti
e precisamente onde não estás recupero o que houve de melhor entre nós
e o faço entornando a jarra de felicidade com que sei que nada voltará a se dar

 

(Floriano Martins (Brasil, 1957) é poeta, editor e ensaísta. Dirige a Agulha Revista de Cultura. Entre os livros mais recentes, se encontram Autobiografia de um truque” (2010) e Susana Wald – La vastedad simbólica” (2012))

(Viviane de Santana Paulo (São Paulo), poeta, tradutora e ensaísta, é autora dos livros Depois do canto do gurinhatã, (poesia, editora Multifoco, Rio de Janeiro, 2011), Estrangeiro de Mim (contos, editora Gardez! Verlag, Alemanha, 2005) e Passeio ao Longo do Reno (poesia, editora Gardez! Verlag, Alemanha, 2002). Integra as antologias Roteiro de Poesia Brasileira – Poetas da década de 2000 (Global Editora, São Paulo, 2009) e Antología de poesía brasileña (Huerga Y Fierro, Madri, 2007)

 

 

 

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71ª Leva - 09/2012 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

 

 

Pintura: Sylvana Lobo

 

 

Insignificância

 

Em que pese os malefícios para o corpo,
devemos arrastar a consciência de nossa insignificância
Jorge Elias Neto

 

 

O azul se dissipa
em tons de desespero.

Os segundos corrompem
nossos sonhos,
e a eternidade –
consome toda inocência.

O céu conspira
dentro de mim,
ponto
sujo no útero
da neve.

 

 

***

 

 

Um resto de sol no desalento

 

Ocupo-me de uma febre
sem propósito.
Modos existem
de forjar os dias,
principiar universos,
rir-se do descomunal
segredo da vida …
Mas não nessa noite gelada
em que persisto centelha.
Eis a última pele – a palavra –
que se desgarra inapta
a prosseguir
afirmando
o esplendor da verdade.

 

 

(Jorge Elias Neto é médico, pesquisador e poeta. Capixaba, reside em Vitória – ES. São de sua autoria os livros: Verdes Versos (Flor&cultura ed. – 2007), Rascunhos do absurdo (Flor&cultura ed. – 2010), Os ossos da baleia e Breviário dos olhos (inéditos). Integrou as publicações Antologia poética Virtualismo (2005), Antologia literária cidade (L&A Editora – 2010), Antologia Cidade de Vitória (Academia Espiritossantense de letras – 2010 e 2011) e Antologia Encontro Pontual (Editora Scortecci – 2010))

 

 

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70ª Leva - 08/2012 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

 

Foto: Viviane Rodrigues

 

 

Daniel Gonçalves

 

O amor quando se afasta da tua luz deixa tudo desarrumado.
Caminhas de olhos vendados, tropeçando nas palavras que ficaram por dizer.
Na verdade o que ficou por dizer não foram palavras.
Foi uma casa caiada de fresco, um jardim com tulipas todo o ano.
A cancela vedando os gatos.
Por isso esta cadeira vazia.
De um lado para o outro, carregando e esvaziando o silêncio.
Sempre o silêncio.
Não podia ser outra coisa que outra coisa não sobra quando estás sozinho.
É a balança com que medes os teus pensamentos.
Sai-te do bolso como quem perde moedas e não se importa com o tilintar da miséria.

 

***

 

o vestido que trazes está gasto como o nome que deste ao amor
saqueado como o chão da seara depois da fermentação do verão
inútil como uma palavra à roda de um poema que não se alumiou

o vestido que trazes arruinou a sua bainha e desfiou-se a chorar
parece um jornal amarrotado uma película translúcida de silêncio
deixando ver as feridas nos joelhos o coração resistindo ao vento

passou de moda porque deixaste de te despir com a luz acesa
e o espelho já não alcança a parede onde havia um outro retrato

já não te serve porque esqueceste de mudar a água aos girassóis
e agora há uma escuridão que se enovela à volta da tua tristeza
pesando sobre os teus olhos como uma pedra tirada a um poço
ou uma música de embalar de onde se perdeu a letra e o sonhar

o vestido que trazes está perfumado de pérolas que se partiram
num excesso das sombras que musicam a vaivência da solidão

e como uma vinha a quem se arrancou o chão antes da vindima
pareces-me abreviada despida exangue impossível descosturada

 

 

(Daniel Gonçalves nasceu na Suíça e é filho de emigrantes portugueses. Em 1983, a sua família regressa a Portugal e fixa residência em Santo Tirso. Estuda em Ermesinde e Braga, onde completa a Licenciatura em Ensino de Português. Desde 1999 que leciona em Santa Maria. A sua obra mereceu vários destaques e edições. Entre os principais prêmios, conta-se o Prêmio de Revelação de Poesia da APL 1997, o Prêmio de Poesia Cesário Verde 2003 e, mais recentemente, o Prêmio de Poesia Manuel Alegre 2010. Os últimos livros publicados foram “a tua luz costurou-me uma bainha no coração” (Editora Labirinto) e “um coração simples” (Instituto Politécnico de Leiria, ambos em 2012)

 

 

 

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70ª Leva - 08/2012 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

 

Foto: Viviane Rodrigues

 

XIII

Adriana Zapparoli

 

Com o nome prisioneiro no silêncio
aniquila o anacrônico em sua língua-lavanda
e acúleo
além da estação.
O escorpião.
Uma fruição bélica entre a lírica essência
de fruta cítrica (Nárandja)
e o perfume em lençol vestido
pelo sol vespertino.

 

***

 

XIV

 

no código da memória
o deserto da sala de atacama
em ágata – eldorado
são estômago, músculo e vaso
na sombra a projetar a mucama
despida pela paisagem escondida
em tara de bisão
que em carne de pescoço, comunga a intenção
aramada sobre o crânio seus ascos
em botão.
há fissuras que cortam a retina
em boca-de-leão (Antirrhinum majus)
em cultivo o florífero, estio em dia tinto
pela flor-de-maria, um cacho-lírico,
de uva em gotícula.

em vilarejo tântrico
habita-se,  entre véu e o espanto,
o amor-víneo de ensejo
na centelha de um seio-
castonhola, um alçapão de olhos
em crucifixo de desejo.

 

(Adriana Zapparoli é escritora, poeta e tradutora. Seus trabalhos foram editados em revistas impressas e eletrônicas. Publicou as plaquetes de poesia A Flor da Abissínia (2007) Cocatriz (2008), Violeta de Sofia (2009), Tílias e Tulipas (2010), o livro O Leão de Neméia (2011) pela Coleção Caixa Preta, Flor de Lírio (2012) todos pela Lumme Editor. Prevista para agosto de 2012 a publicação da plaquete Lontra Corola Libido, pela Coleção Poesia Viva, Centro Cultural São Paulo)

 

 

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69ª Leva - 07/2012 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Desenho: Rui Cavaleiro

O MURAL DE ALEXANDRE

Marra Signoreli

 

O amanhã é a lágrima de criação do sangue
É o silêncio dos anjos que nos anuncia Ítaca
Vejam a eternidade dessas velas e também os peixes
Como vocês tive medo e também tive carne
Não tive voz quando as correntes me prendiam o corpo
Não tive o além quando o desejo me desfez o mundo
Se tive Aline foi quando o mar me desejou o sonho
E tudo quanto mais voei foi pura inexistência.

Agora vejam, homens que perpassam sem destino!
Esta aurora que se desfez em nada,
Este pó que sou eu nas suas carnes e nos seus rumos
Eu que agora pulso em suas veias pelo sangue dos peixes
Eu estou morto como vocês.

 

 

***

 

 

CANÇÃO DO DESNASCIMENTO

 

Às vezes sob os olhos um pássaro decanta
entardecido aos ossos da gaiola,
assim eu via o idioma de seu rosto
mudo de toda pluma da existência.

As mãos de nunca, que não mais distinguem
a dor e o sono;
as vértebras de mármore, que prendem
as vésperas do pássaro, que evolam
nas batidas de um coração parado
já não me luzem a espera de seus olhos,
nem mais me guardam sonhos de outro dia.
Seu corpo é lâmpada de ausência no mistério
sangrando do céu os anjos de silêncio.

Um dia nos amaremos mais distantes,
mas por hora você dorme noutro sonho
em noite inatingível, enfim sorrindo
a pétala do vôo que me vale.

 

(João Antônio Marra Signoreli nasceu em 15 de dezembro de 1989 e é graduando na Faculdade de Letras da UFG, onde pretende bacharelar-se em literatura. Escreveu o livro “Klívena Klarim”, publicado em novembro do ano passado pela coleção Goiânia em Verso & Prosa, participou do blog Vida Miúda e hoje participa do Mallarmargens)

 

 

 

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69ª Leva - 07/2012 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Desenho: Rui Cavaleiro

UMA ANDANÇA

Raquel Gaio

 

nenhuma sombra pairava em tuas pálpebras
apenas raios de girassol te faziam navegar
nesse escaldante sol de vertigens variáveis.
eu contava os giros de tua andança
e admirava teu suor sem valia
que brotava nesse terreno áspero e doce (que é tua matéria)

minha ansiedade e o tempero do dia
rasgavam teu continente fechado e fronteiriço
que emanava artifícios de um futuro bom.
você ruminava formosuras pra dentro das bocas-desejos
recomeçando assim teu trabalho de escavar juramentos (relíquias da noite)
uma música embalava a vertigem do dia
e você, como era usual, a usava para amordaçar bocas.

 

 

***

 

eu, um invertebrado sem celas,
suportando os caprichos intermináveis dos dias,
engravidando as horas de sonhos,
oscilando entre não-vértebras violetas,
depositando versos no penhasco do tempo,
observando esse corpo irredutivelmente numa estiagem.

é longo o processo das horas.
o arrastar-se ainda comove.
.
.
.
.
.
{desliza inevitavelmente. como os ponteiros}.

 

 

***

 

 

sob a pele de tuas palavras
estremeço nua
/entranhas escarlate/
essas sílabas esses sons esse gozo
amarram-me e me fazem
delirar num silêncio ambíguo
que põe em minha boca
suores ainda não provados
e em meu corpo
uma cama cheia de ecos.

 

(Raquel Gaio é atriz e poeta. Cursa o 8° período da Faculdade de Letras da UFRJ. No ano de 2011, lançou o livro de poesias “O Exercício no Mundo”, pela Editora Multifoco, com os amigos Luis Alexandre e Denise Fraga, que abarcou intervenções artísticas, como performances, desenho, vídeo-poema e intervenções musicais. Também foi publicada nas revistas literárias da UFRJ, “Estrelas Vagabundas” e “Zebra”. Tirou o 3° lugar com “Contágios” no Concurso da Cidade do Rio de Janeiro pela Ed. Taba Cultural, antologia a ser lançada ainda esse ano. Atualmente se dedica a pesquisar linguagens poéticas e visuais)