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75ª Leva - 01/2013 Janelas Poéticas

Janela Poética V

Lílian Maial

 

Desenho: Luiza Maciel Nogueira

 

 

FONTE

 

em algum lugar
não cabe o todo
há muito mais de mim
em cada poro
ainda há o choro

o consolo
.
.
.
ignoro

 

 

***

 

 

DESENCANTAMENTO

 para Antônio Adriano de Medeiros

 

Primeiro é preciso encontrar a fome,
a necessidade. Porque todo poema é
alimento. Os versos são pão e vinho.
O poeta precisa aprender que o seu papel
não é colher a uva, mas se deixar embebedar.
Não é devorar a casca, o miolo,
mas aprender a semear o solo e o verbo.
Ser poeta é saber crescer na miséria
de carne, de pão, de uva.
É descobrir-se sedento e esfomeado
toda vez que um verso lhe ronda a face.
Um poema não sabe nada de Vida e de Morte:
ele é a magia, em si, que, se decifrada,
vira palavra no papel.

 

 

 

***

 

 

EU TENHO UM RIO

 

eu tenho um rio que brota de dentro
e traz à tona o que foi sedimentar

tenho margens estreitas, correnteza furiosa
sem escolhas, apenas desaguar

invado e erodo, aliso cascalhos
até escorregar no limo do verbo

eu tenho um rio que leva as paredes
que se erguem em meio ao lixão da poesia
e soterra a palavra viva

eu tenho um rio de inundadas faces
e chovo poemas de sangue

eu tenho um Rio de Janeiro no peito estiado
e expio a falta da lembrança do teu rosto

 

 

***

 

 

POEMA ESTÉTICO

 

Preciso urgentemente de um poema estético
eliminar a gordura localizada da palavra,
depilar o verbo e limpar a pele da poesia.

Necessito impreterivelmente de uma rima cirúrgica,
da assepsia do olhar sistólico,
laquear o peito lacerado.

Careço remover os resíduos de ossos triturados
na medula da saudade,
suturar a deiscência da canção.

Uma incisão limpa no músculo entremeado de versos,
cujas paredes bombeiam ausências.

Por fim, a cicatriz imóvel e cintilante
com o traço fino da pena.

 

 

(Lílian Maial é carioca, médica, escritora e poeta. Publicou, em 2000, “Enfim, renasci!”, com 135 poemas, e teve participação em dezenas de antologias, desde 1999. Coordenadora Regional no Rio de Janeiro para o MIP (Movimento Internacional Poetrix), teve poetrix publicados em “Antologias Poetrix”, de 2002, 2007, 2009 e 2010, além de ter organizado um e-book com poetrix de 10 participantes do MIP. Filiada à REBRA (Rede de Escritoras Brasileiras), participou de 04 antologias lançadas nas Bienais do Livro de São Paulo)



 

 

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Janela Poética VI

Alvaro Posselt

 

Desenho: Luiza Maciel Nogueira

 

 

Me enche de silêncio
O barulho da multidão

Me enche de barulho
O silêncio da solidão

 

 
***

 

 
Ouve
E aproveita
O silêncio do qual
A pessoa é feita

 

 

***

 

 

A gente nunca erra
Quando faz da paz
Nossa arma de guerra

 

 
***

 

 

Viver eu suponho
É montar a realidade
E chicotear o sonho

 

 

(Alvaro Posselt nasceu em Curitiba. É professor de português e revisor de texto. Participou de antologias de poetrix, haicai e miniconto. Já classificou haicais e miniconto em concursos. É colaborador do Jornal Memai – Letras e Artes Japonesas. “Tão breve quanto o agora” é seu primeiro livro. E-mail: alvaroposselt@yahoo.com.br)