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94ª Leva - 08/2014 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Myriam de Carvalho

 

Luciana Bignardi
Foto: Luciana Bignardi

 

POETRY

 

Though the rainbow is richly-coloured,
It will soon fade away.
Milarepa

1.

“Quem boa cama fizer, nela se deitará”
– Provérbio português

 

Hoje é dia 10 18
Data que me traz à rija têmpera
das palavras,
das mais doces às mais duras,

As minhas palavras são temperadas
como o ouro, como
o aço,

As minhas palavras são deusas consagradas,
da linhagem dos sentimentos os mais puros, mais
profundos, mais complexos, mais
sentidos,

Que as palavras são para ser amadas!
Entrego-me ao poder das palavras
como àquele único amante que me eleva
às âncoras onde se fundem corpo e alma.

As palavras são para ser amadas!
Com as palavras se salva ou se condena,
com as palavras se escraviza, ou se liberta,
com as palavras se louva, ou se despreza,

ou se ama,
Com as palavras se escolhe o destino –
a vida – ou a morte –
como quem faz a cama

 

 

2.

 

“Tão pobres somos
que as mesmas palavras nos servem
para exprimir a mentira e a verdade”
Florbela Espanca

 

A minha guarda não me larga.
Fétida, pútrida, maninha.
Algemada, a coragem que se apaga…
– Amanhã – dizem a mãe e a madrinha

– é outro dia; dorme agora,
descansa em paz, na brasa dos
grelhados. Deixa lá, que se tiveres a
tua hora, ela virá buscar-te a casa.

– Mas vem, Tu, vem de mansinho
como quem venha de longe… E
com jeito e com carinho,

de facto, vem me acordar!
Que urge o tempo que lá vai,
e eu nasci para Te cantar!

 

 

3.

 

 

A Mão escreve; e tendo escrito,
Vai embora; e nem tua piedade nem teu espírito
Lhe farão apagar nem uma linha
Nem lavar uma palavra, esses teus gritos.
Omar Khayyam

 

Preciso de palavras.
Para cumprir
os versos que me faltam.

Cadela esfaimada – acossada pela ramona –
a farejar migalhas,
cada rio, cada onda, árvore, ou nuvem – um oásis,

Cada momento
a sós contigo,
uma visão

 

 

4.

 

“É só com sangue que se escrevem versos”
Saúl Dias

 

Versos,
minutos,
momentos dispersos.
E a mulher-poema ambulatório,
eterno –
a comoção nos olhos –
caixeira-viajante, estrela
cadente,
clériga-vagante,
garimpeira de esmeraldas,

A carne
à procura de um ninho,
E só o Poema
abre o caminho

 

 

5.

 

Han Shan poems were written on bamboo, wood, stones, and cliffs.

Escrevemos nas rochas antiquíssimas da montanha gelada, nos troncos doridos das
velhas sequóias, dos embondeiros, testemunhas das dores da Terra,

Escrevemos na areia da praia, na espuma das ondas, que nos moldam as mãos, na
frescura das ervas, que nos moldam os dedos, nas nuvens que passam e nos moldam
os sonhos,
Escrevemos nas corolas humildes das flores silvestres, nos ramos dolentes dos
salgueiros, nas bordas das canoas, na água das ribeiras, nos juncos das margens.

Escrevemos na chuva, no vento, no verão, no inverno, na luz e no drama, em qualquer
momento,

Escrevemos na pele dos tambores, nos silvos dos comboios, nos sinos dos
campanários, nas sirenes das fábricas, nas marchas forçadas, nas fugas e retiradas, nos
campos minados,

Escrevemos porque dói a pele mirrada das crianças a quem roubaram o pão,
Escrevemos porque dói a mão ensanguentada das feridas das guerras,
Escrevemos porque dói os refugiados, condenados sem causa.

Escrevemos porque olhamos os ponteiros do relógio, atentos à declinação do sol.

Escrevemos porque amamos.
A Escrita é a comunhão dos xamans
– fundidos todos no fluir do Tempo

 

Myriam Jubilot de Carvalho, 1944, portuguesa. Foi professora. Representada em várias antologias e revistas. Divulgadora da cultura e poesia do período do Al-Andalus. Colaboradora no jornal “O Autarca”, de Moçambique. Publica no site brasileiro “Recanto das Letras”. Dois livros de poesia publicados.

 

 

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66ª Leva - 04/2012 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Foto: Kenia Vartan

 

 

ANÍMICO ANIMAL

Roberta Tostes Daniel

 

Petrificado pelas sensações.
Um bicho. Transmuta
Dor de si. Calcário,
Prende no rosto da rocha
Um reino de pesar. Pensa
Sob seu magma, sente
A poeira nas formas:
Sedimentária magia.
Requenta um passado
De fome. Um nome
Sublima a meninice do homem.
O anímico animal crava os dentes
No sangue da rosa. O peito
Como o diabo gosta:
Santa candeia de artérias.
Um servo: de querer bem ao corpo;
Um passo: rumo a tudo que varre;
Um sopro: de abismo e de glória.
Poente, um deus que venta o rio.
Senhor de fogo, de frio,
Ferve o eterno.
Verve do querer.

 

***

 

COMO PALAVRA
Palavras, evocações que faço
Beberagens do desconhecido
Sob a areia dos meus pés
Fortuitamente, o delírio.

O jorro profundo o silêncio
Seminal do indizível
A liturgia do poema.

Clivada de oculto, não meço
Que levo uma espécie
De vida dupla, movediça
Transubstancio-me na coisa

Da lida da lira.
Como palavra me abro
Ao rito vertida.

 

(Roberta Tostes Daniel, carioca nascida em 1981. Colaborou recentemente na Miniantologia poética do Centro Cultural São Paulo. Publicará na próxima edição da revista Zunái e no segundo volume da Pequena Cartografia da Poesia Brasileira Contemporânea, organizada por Marcelo Ariel)

 

 

 

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66ª Leva - 04/2012 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

NOTURNO

Felipe Stefani

 

Desenho: Felipe Stefani

 

Nos estreitos breves
a arte íngreme
de ser,
frente às faces do mundo.

A margens se re-
dobram nas entranhas das luas.

As barcas sonham a distância das flautas.

Fendido ao tempo feito
um canal,
nos orifícios cegos do fôlego,
basta
aquilo que arrefece.

A inocência do mar submerge as cítaras.

 


Desenho: Felipe Stefani

V

Colossal angústia
da muda serpente
que passa rente
à inexistência.

O inefável labirinto absoluto
está em tudo.

A essência é o enigma,

e a morte toca as margens
com dedos surdos.

Somos o estigma do vento
na estiagem do infinito.

 

(Felipe Stefani é poeta e artista plástico. Nasceu em São Paulo em 1975. Tem os desenhos publicados no site Sodesenho. Ilustrador, já ilustrou muitos livros de outros escritores, e também seus dois livros de poemas já lançados: “O Corpo Possível” (2008), pelo coletivo Dulcinéia Catadora e “Verso Para Outro Sentido” (2010), pela Escrituras Editora. Prefere que sua arte fale por si mesma)

 

 

 

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66ª Leva - 04/2012 Janelas Poéticas

Janela Poética V

Foto: Kenia Vartan

 

 

A PEQUENINA MORTE

Alice Macedo Campos

 

há uma hora em que uma pequenina morte vem até mim,
como uma flor que cresce timidamente no pathos da memória.
dir-se-ia que a pedra inteira do meu corpo
se atira completamente ao mar.
o buraco que o meu peso abre nas ondas é a âncora,
a concha invisível e segura, onde o meu ser mergulha no âmnio,
qual ínfimo peixe à procura de um ovo.
nesses momentos de pura distracção,
o pensamento é um olho autónomo,
fixado em qualquer ponto distante,
não exterior a mim.
onde estás, alice?, perguntam.
e eu não sei responder.
não sei se estou no lugar da lucidez ou da loucura.
gosto de sentir o movimento das ondas e boiar entre elas.
quando eu morrer,
tenho a certeza que esta flor me sai pela boca.
atirem-na ao mar.

 

***

 

a linguagem pára diante da mulher, corpo a corpo
se encaram e se entregam, as melhores palavras, as
que chegam em bandejas de prata, com a escama ainda
exposta, e o sangue, avançam como éguas, ouve-se daqui
o seu galope, deslizam na pele à velocidade dos meus pulsos,
e correm. estavam porém um espelho e a minha voz deste lado,
a luz claramente acesa sobre o medo, pronta a cegar-nos os olhos
e a boca fechada, a gramática impura dos amantes fez do verbo estar
um filme que acontece fora de nós, na paisagem e nos brilhos, onde a
música toca um instrumento tântrico que nos adversa, na hora de cantar.

 

***

 

(passam sobre mim os dias, extenuantes. o que sei é que
existir adquiriu  um peso insuportável. visto-me de manhã,
e observo os meus gestos, como se outra mulher fora de mim,
ainda nua e ensonada, retivesse no seio a vaca da tristeza.
suponho que permanece no quarto, deitada na minha cama,
enquanto finjo, ou procuro a normalidade, até à hora de dormir).

 

 

(A poeta Alice Macedo Campos nasceu em Penafiel, distrito do Porto, Norte de Portugal. É licenciada em Gestão de Recursos Humanos e Psicologia do Trabalho. Publicou “o ciclo menstrual da noite” (Edium Editores, 2008), “um cão em cada dedo” (Incomunidade, 2010) e “a mulher sus.pensa” (Edita-me, 2011))

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66ª Leva - 04/2012 Janelas Poéticas

Janela Poética VI

Anna Apolinário

 

Foto: Kenia Vartan

 

 

AÇOITES

 

Angústias castigam estrelas
Ruínas laceram papoulas
Lembranças torturam meus sonhos
Poemas mastigam meus dedos

O amor
dói-me nas veias.

 

 

***

 

 

EPIFANIA

 

Grafito em tua alma
Um verso vermelho
Serpe sibilina
Estilhaço de estrela

Tatuo em tua boca
Que mordo com rimas
A flauta de fogo
Da minha poesia

 

(Anna Apolinário é natural de João Pessoa, Paraíba, poetisa e pedagoga. Participou de várias antologias nacionais. Foi premiada com o 4° Lugar no VI Festival de Poesia Encenada do Sesc Paraíba em 2010 com o poema “Dédalo”, no mesmo ano publicou seu primeiro livro, “Solfejo de Eros” pela Câmara Brasileira de Jovens Escritores (Rio de Janeiro -RJ)

 

 

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66ª Leva - 04/2012 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

LÍNGUA PAPIRA OU O QUARTO DO CORPO

Wesley Peres  

 

Foto: Kenia Vartan

A palavra erra o corpo;
mesmo nele inscrita,
o corpo, entanto,  não
é ermo de qualquer voz.

Disso nem se adivinha o quaseabismo
entre, no corpo, o que é e o que não é boca.
Mesmo no beijo, há línguas,
o que faz da boca insular
anomalia no monastério-corpo.

Ainda que pulse toda papira
como na suposta poética cabralina
: a palavra em suspensão minéria
arranjada na lei mosaica
exigindo o não
espraiar-se dos olhos:

alguma papila pronuncia o tempo no corpo;

ainda que, na palavra papira,
o corpo sonhe de si se eximir,
conservar-se em  reino minériumano,

na mônada no sonho-linguagem,
há um silêncio irremediável,
ruidoso palatável, quasilha de carne
inóspita no na língua canavial;

disso se adivinha um estranho quarto,
minimenso e brancareia, no qual
corpo e palavra furtam-se,
mutuamente,
desde o final dos tempos.

 

(Wesley Peres é escritor e psicanalista. Mora em Catalão – GO. Autor do romance Casa Entre Vértebras, vencedor do Prêmio Sesc de Literatura 2006. São dele os livros: Palimpsestos (poemas), vencedor da Coleção Vertentes cegraf/UFG 2007, Rio Revoando (poemas) USP/COM-ARTE 2003; Água Anônima (poemas), vencedor da Bolsa Cora Coralina 2001, publicado em 2002 pela AGEPEL. No prelo: O corpo de uma voz despedaçada (poesia, a sair pela Casa Editorial Luminara/Porto Alegre); As pequenas mortes (a sair pela Ed. Rocco))

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66ª Leva - 04/2012 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Foto: Kenia Vartan


INALTERADO

Ana Vieira

 

Nada no espaço do peito, na mortalha do dia, na
luz na voz no horizonte no mundo na fenda que submerge,

a não ser o espelho líquido, a imprecisão embrulhada nos gestos aquáticos.
Os peixes sedentos no poente da escuta, no eco do grito, na mão que derrete.

Invento o bater do espelho a cair,
a gota, o veio, o corte na carne
desfeita.
A frase repetida, o inalterado, o sem cor,
a corroer-se inteiro por dentro, a escorrer pernas abaixo como lava que desencandesce e se agarra, se infiltra, penetra cada poro

congela em pedra dura um coração colosso.

A dor nos dedos
no espaço,
na espera, na curva,
no fio da teia da aranha.


***

 

Faço-me solidão em silêncio.
Faço-me solidão espécie suicida de muitas idas e
nenhuma volta
nenhum retorno
nenhum escudo.
Nenhuma pequena vala comum no fim do túnel.

Faço-me sozinha e às vezes aflita.
Sozinha e por vezes contrita fechada
por dentro desse silêncio à força de escrever aos gritos.

Faço-me sozinha e às vezes aflita.
Sozinha e às vezes cativa aflitamente cativa
da solidão e do silêncio opalino
da tua voz.

 

(A poetisa portuguesa Ana Vieira Pereira é mestre e doutora em Letras pela USP. Mãe de 7 filhos, publicou contos, crônicas e um volume de poemas, “O que sobre vive”. Mora atualmente em Araraquara/SP e escreve porque, como os demais, precisa de oxigênio)