É preciso viver sem paixões.
Permanecer morto ou vivo até o fim.
Mergulhar no absoluto anonimato,
Aclamar o tumulto escuro e bruto.
Encenar o drama clemente e lento.
Sentir um amor ideal por anjos nebulosos.
Descobrir um novo fundo de poesia e aguardar
uma voz que nos ordene docilmente:
– Não te movas, nem te inquietes,
nem traias o que
ainda não
és.
***
O poema aquece
as montanhas
quase sem voz
e relativiza a fúria
Inocente e letal
Do vento
***
Talvez um dia recordes
num qualquer espelho torto
quão simples fora a tua salva
e te lembres daquela vez
em que ceáramos apenas meia
laranja e nada de pão naquela casa cega
com o telhado a verter lágrimas
de fel.
***
Porto
A poesia vai
Pela rua,
Nua.
Esconde-se
Nas manhãs mais
Frias.
E é à noite que lhe foge
A voz.
Lenta
E lenta,
Lentamente,
Até
Desembainhar
Na
F
O
Z
***
Cisma
em mim um
conceito,
quase uma
ordem estabelecida.
– o desejo.
Quanto
menos o
pratico,
Mais
se manifesta e me
surpreende por
excitante e novo.
Glicínias.
***
Por vezes
Acontece entrarmos
Num maravilhoso jardim árabe
E sentarmo-nos logo ali
No primeiro banco de pedra lisa
Imaginando o azul do mar.
***
Hoje acordei com uma andorinha no estômago.
A noite era de tempo limpo e sono.
Sabia a quebra milenar, cabelo solto.
Nenhuma angústia, lei, mato ou víscera defronte.
O prédio seguia o seu curso normal de vida, espécie de abrigo impune.
Gineceu.
Observava sem capacidade estrelada o céu, quando a miúda astronomia me
Espantou a inocência.
A circular impressão se revelara.
Tal como no meu estômago, assim uma via-andorinha, se alongava, qual
fita emprestada, distraidamente, no ar.
Pedro Vale vive no Funchal desde 2002 onde é professor de primeiro ciclo desde 2002. Cursou Ciências da Cultura e frequenta o mestrado em Gestão Cultural na Universidade da Madeira. O seu primeiro livro – “Azul Instantâneo” – foi lançado em dezembro de 2017 e o autor trabalha há largos meses na sua segunda edição.
É um caso raro de acontecer. Eu considero ser um privilégio meu estar aqui a apresentar uma pessoa que durante cinquenta anos escreveu para si mesmo, para a gaveta, e eventualmente, de vez em quando, para aqueles que, como o que está lá ao fundo [o editor], o quiseram publicar, não é verdade? É uma vida dedicada a uma fé. O autor acredita na poesia, acredita na palavra. Eu me sinto de facto comovida de poder estar aqui com ele hoje e gostaria de vos explicar com palavras muito simples, e não vou ser longa, o que é a poesia lírica. A poesia lírica é aquela poesia que mais de perto nos fala ao coração. Aquela que nós gostamos de recitar, aquela de que nos lembramos quando estamos a conversar com os amigos: olha, os sonetos de Camões; olha um poema da Natércia Freire… É aquele que se nos entranha por dentro.
A poesia lírica é uma espécie de conversa de uma pessoa com o mundo, é uma conversa quase secreta. Disse um teórico canadiano da literatura, Northrop Frye, que a poesia lírica é feita do eu para o eu, mas ela é feita também para ser dita ao outro, porque é evidente que ela é uma forma de comunicação. Disse o teórico Northrop Frye que, quando lemos a poesia lírica é como se fosse um ato de indiscrição, é como se a gente “tresouvisse” a privacidade absoluta do outro e é como se esse outro generosamente nos deixasse entrar naquilo que nós costumamos chamar, e bem, de “alma”; entramos na alma do outro pela poesia lírica.
Uma coisa que a poesia lírica tem de muito bonito e que nos faz gostar dela, é o aspeto ritualizado: ela tem um ritual, um jeito de dizer as palavras, um jeito de organizar as ideias que faz com que tudo fique musical e não é à toa que ela é chamada de “lírica”. É porque no início ela era acompanhada pela lira, acompanhava-se ao som da lira. Aquilo fazia uma junção da palavra com a pura melopeia que acompanhava essa palavra. O nosso amigo António Vera nos seus cinquenta anos de escrita secreta acompanhado pela esposa, com certeza que era a sua musa, já se sabe. Não é verdade, ou talvez até tocasse mesmo lira. Às vezes, no convívio de um casal, fazem-se muitas coisas ao longo da vida.
O nosso amigo António Vera tem no meu entender uma grande noção daquilo que faz a substância da poesia ocidental e da lírica ocidental. Essa noção é, em primeiro lugar, a da musicalidade. Ele tem música nos poemas, ele trabalha muito bem nas retomadas dos mesmos sons dentro do mesmo verso ou entre versos. Ele trabalha muito bem no ritmo, como é que ele quer que o leitor leia, com que pausas, com que forças, com que subtilezas de voz. Ele precisa disso, ele sabe fazer isso e, sabendo disso e precisando disso, ele se enquadra de pleno direito na tradição da poesia em que nós vivemos. Aliás, ele se enquadra também porque revisita formas da poesia. Ele faz, por exemplo, uma linda cantiga de amor, neste livro, como faz também sonetos, que são formas particularmente difíceis. O Couto Viana** e o Nogueira*** dirão: “mas o soneto é uma forma exigente”, o soneto pede uma disciplina mental muito grande para você construir uma ideia e chegar àquilo que se chama “chave de ouro” e, portanto, não é qualquer um que faz um soneto. António Vera tem preciosos sonetos e, daqui a pouco, lerei um deles.
Queria falar ainda um bocadinho, que eu não quero tomar muito tempo. Nós temos que pedir ao Papai Noel para trazer ao Fernando**** umas cadeiras de presente para o Natal para os próximos lançamentos, para podermos explicar melhor as obras literárias. Temos que explicar depressa [pois] com o pessoal de pé, não dá. Mas eu queria dizer uma coisa para vocês que é o seguinte: eu, no começo, disse que o lírico é aquele que se encanta perante a variedade do mundo. O mundo é variado, o mundo é diferente, o mundo é bonito, o mundo nunca é igual. O mundo é sempre uma provocação e o lírico sabe disso, e ele dialoga com o mundo e dialoga através de determinados temas que são também revisitados em toda a tradição cultural europeia e talvez mesmo universal, e que são os temas revisitados também pelo António Vera. Por exemplo, um tema fundamental é o tema do tempo. O tempo passa. Ele tem imensas poesias sobre o tempo que passa. E aquele tempo que passa e que ele retrata nos poemas é um tempo que simultaneamente dá a vida, porque evidentemente nós vivemos no tempo, mas traz a morte também. Porque o tempo é aquilo que nós vamos caminhando através de, não é verdade? E vamos chegar ao outro lado. Então nesse tipo de temática vocês encontrarão laivos de melancolia muito bonita, uma melancolia por vezes muito discreta, muito subtil; ele é muito discreto, ele não é um homem do dizer com muitas palavras, ele não é um homem de muitos adjetivos, ele é um homem do pudor do sentimento.
Um outo tema que ele tem, é o tema da morte e outro tema é o tema da natureza. São todos três temas privilegiados na nossa tradição. Quando ele trabalha esses temas, obcessivamente ele fala uma vez naquilo, depois ele torna a falar, depois no poema seguinte toca noutro assunto, depois retorna ao primeiro, vai revisitando a mesma preocupação, que é uma preocupação humana. O que é que ele está fazendo? Ele está fazendo aquilo que todo o poeta faz e que se não se faz isso não se é poeta. Ele está a estabelecer um lugar da sua reflexão sobre as coisas, ele pensa sobre as coisas, ele vai refletindo e quando nós refletimos sobre as coisas, é evidente que nós não pensamos nelas uma vez só. Para a nossa medida precisamos voltar ao mesmo lugar, tornar a pensar, ver como é que é, contar de novo. E quando ele estabelece esse espaço de reflexão e o revisita, ele então inocula na sua poesia aquilo que eu gostaria de chamar, António Vera, de dimensão filosófica. É a dimensão do pensamento que se constrói sistematicamente, retornando aos mesmos temas e tentando ver até que ponto aqueles temas pesam ou não pesam dentro do imaginário do ser e dos seus livros. Eu vou dar para vocês alguns exemplos, vou ler para vocês alguns poemas do António Vera:
4
da talha benta da senhorinha morta, vazio o bojo de pedra, polido. o rosto deitado da senhorinha morta, cobre-o um lenço de linho.
quem foi o rosto copiado em cera e lírio da senhorinha morta?
responde (o que responde?) o bojo polido, o bojo da talha benta da senhorinha morta, com uma lágrima de vidro: conta de um terço rezado à senhorinha morta, em tempo ido.
17
crepita um vento fraco na crista lúcida da onda. colada à sombra do barco desliza na água minha sombra. planície, verde várzea, móvel e falso espelho de deus, retém a quilha, gela a água! que vento, quilha, mar e sombra sou eu.
38
verde o reflexo na folha iluminada. sobre ele adeja a minha nostalgia.
agora lembro aquele antigo dia feito de som e água.
e um quase nada daquela cor aflora aqui a relembrar a minha vida que se esbate no ar como o vapor da madrugada.
68
a solidão alonga pelo rio, direita à barra, seu ventre de metal. presa a estibordo, a dor, que vai partir, tenta ficar soldada àquele pontal. manhã nascente, é noite noutro rio.
passos nus, vacilantes, de um arrais, timbram o silêncio de um som mole e cavo, e um grito de sereia põe um travo de acre certeza num manar de ais. os sinais amarelos das vigias abriram rumo sobre o rio plano, enquanto em nós se abre um oceano, em que naufragam terras e alegrias.
Ele tem espírito de humor também. De vez em quando os poemas dele são poemas de espírito de humor:
75
à mulher que mais amei levou-me o vento um recado: — perdoaste? — perdoei! ó vento, muito obrigado!
E agora é a revisitação, noutro poema, da poesia medieval da cantiga de amigo:
94
ai flores, ai flores do rosmaninho, se sabeis novas de outro olor amigo, trazei-mo de volta, de sândalo ou trigo, trazei-mo de volta, que de respirar vivo, que de amigos vivo, que de respirar vivo.
trazei-mo de volta, fazei-mo vizinho, trazei-me um amigo, que não um cativo, livre como o vento, vivaz como um vinho, que de amigos vivo, que de respirar vivo.
ai flores, ai flores do rosmaninho, partiram as barcas, eu fiquei sozinho, salsugens, madeiras de pinho e de azinho zarparam pelos ares, foram-se os amigos, fiquei no azul, suspenso, sozinho… trazei-mos de volta, que de amigos vivo, que de respirar vivo.
* Texto que serviu de apresentação da obra quando do seu lançamento em Lisboa a 17 de dezembro de 1998, na Livraria Colibri da Universidade Nova de Lisboa.
** Referência a António Manuel Couto Viana (1923-2010), notável poeta português, dramaturgo, ensaísta, ator e encenador.
*** Referência irónica a um dos apelidos de Fernando Pessoa: Fernando António Nogueira Pessoa.
**** Referência a Fernando Mão de Ferro, primeiro editor deste livro.
ONZE POEMAS DE ANTÓNIO VERA
[sem título]
da talha benta da senhorinha morta,
vazio o bojo de pedra, polido.
o rosto deitado da senhorinha morta,
cobre-o um lenço de linho.
quem foi o rosto copiado em cera e lírio
da senhorinha morta?
responde (o que responde?) o bojo polido,
o bojo da talha benta da senhorinha morta,
com uma lágrima de vidro:
conta de um terço rezado à senhorinha morta,
em tempo ido.
in cursivo menor, 2000, pág. 20.
[sem título]
a morte é um planeta inabitado,
donde partiram quantos ali foram
ou voluntariamente ou enganados,
buscando alojamento, paz, alfombra,
descanso para a alma, ou magoados
por não haver onde esconder a sombra.
tal planeta lá para oeste fica,
bem para trás do sol posto, onde se expande
o raio verde, com o fim do dia,
sarcástica mansão dos desenganos
dum mundo atafulhado só de vida,
mas que à vida responde só com vida
e aos desenganos só com desenganos;
onde o tempo-matéria se desfaz
com presteza contrária à da luz
e os calendários giram só pra trás
in palavras com rosto, 2000, pág. 75.
roleta
uma fonte, dois cântaros:
em um deles, veneno;
de um só tu beberás.
a tua sede aperta.
alguém te diz “és livre”;
alguém te diz “és cego”.
a tua sede é muda.
acerta ou desacerta,
mas beberás com pressa.
e, certo, serás livre,
nesse momento eterno,
que tu decidirás.
in as pestanas de Afrodite, 2001, pág. 29.
torre do bugio, pau de água
à beira de um tejo azul,
grosso pau de água soluça
verdes folhas enlaçadas
em forma de coração.
chora a tepidez dos trópicos,
chora por chica da silva
que lhe afagava o formato
de pau-brasil em ereção,
e os quindins de sinhá-moça,
ao passar por ele as mãos,
duas mil léguas pra lá
dum meridiano a oeste
deste que o ata por cá.
ai! porque as mãos de sinhá,
palmas de leite de coco,
levam-no ao bugio mirar
como se ele fosse um sinal:
a torre sendo um pau de água,
prantado à barra do tejo,
pelas águas enlaçado…
e as dobras das ondas fossem
as lamas das mãos de iá-iá.
in escrito na margem, 2003, pág. 43.
Esta apagada e vil tristeza
(agosto, 2003)
entre a piedade e o desalento
revejo monte e vale:
queimado quase tudo
sujos rios
pobres
desempregados
traficantes
bêbados de poder
e de arrogância
ou de mau vinho.
e indigno-me sozinho
comigo e o nosso mal:
terem-nos roubado
o gesto e a sanha
o número e a vontade
as luzes do saber
sequer a manha
de dar sentido e nome
a Portugal.
in sons que falam, 2004, pág. 100.
Flor de sangue
caem sonhos no poço onde cai sangue
arterial, contigo misturado,
como um pastor no meio do seu gado
segue o expirar da tarde estreme e langue.
e no poço flutua a flor do mangue
que no líquido vive – é o seu fado –
e no líquido morre: lado a lado,
vida e morte excessivas, força exangue.
é nesse espaço rubro, em quatro quartos,
que a terna flor, vivendo as estações,
dá sustento a nós dois, tornados plasma,
a circular no corpo, em sonhos fartos
de posse, de avidez de sensações,
ébrios da fina dor que entusiasma.
in de amor e desengano, 2005, pág. 108.
O Lacrimensor
chora-me ainda hoje
a minha morte breve
para eu saber
se ainda me memoras
medir-te as lágrimas
no rosto
bebê-las a correrem
plo teu corpo
tocar a minha vida e morte
em trasladado gozo
e evaporada a alma
dessas lágrimas
tomá-la dos teus olhos
tão bem vivos
in estrofes elementares, 2007, pág. 102.
Esconjurando o inverno
desde a raiz da minha vida
uma seiva de fé e de certeza
me sobe ao coração
e a tenho presa
no estame desta flor
que a ti entrego
põem-na entre os teus seios …………esses meus amores …………como os teus olhos …………boca …………quanto és
porque dessa união
nos nascerá um filho
primaveril e doce
a esconjurar invernos
in amor sempre e a seguir, 2009, pág. 31.
Português meu amor e língua minha
minha língua-mãe
confusa e linda
relampejas de luz
e crias trevas
onde flutua a tua omnisciência
que é dos nossos sonhos
o mar onde nos levas
a descobrir o mundo
o mundo avassalado
por capitães do lucro
e da ganância
esfarrapada e bela
velha e jovem
que outros irmãos te vistam
e alimentem
onde eu falhei vestir-te
de rainha
e te peço perdão
por esta minha torpe
insanável e tola
inconfidência
in folha a folha os dias, 2010, pág. 73.
Os pólos sensíveis
coração foi-me guitarra
quando coração havia
e o céu enchia e vazava
de meu amor e alegria
por isso eu pra ele olhava
e a melodia nascia
e havia uma pedra rara
que dentro de mim caía
e com ela me arrastava
a dias sem sol de luto
onde ninguém habitava
senão a mágoa sem fruto
mas sempre havia a guitarra
pra quem a tocava havia
dois mundos que se fechavam
mas que alternados se abriam
agora sonho o meu nada
cordas guitarra partidas
in o frio das metáforas, 2011, pág. 84.
Veleiro
qual a vela
salgada de um veleiro
enfuno e vou direto aos horizontes
sem escolher nenhum
eles que me escolham
extinto o raio verde da memória
a estrela da manhã
e a sua história
tanto que o vento sopra
sopra hinos
todos sacros de adeus
não voltarei
voltar é renegar o tempo ido
e isso eu não farei
in apostila (2015, edição póstuma), pág. 55.
BIOGRAFIA BREVE DO POETA ANTÓNIO VERA
Antonio Vera / Foto: divulgação
[José] António Vera [de Azevedo] nasceu em Lisboa, na freguesia das Mercês, a 22 de junho de 1923, e faleceu na mesma cidade a 26 de dezembro de 2012.
Trabalhou desde muito novo: foi empregado no comércio, agente de seguros, funcionário da Contabilidade Pública. De 1958 a 1987 trabalhou nos Serviços da Emigração como representante do governo português para os assuntos da emigração nos países de acolhimento e, já no final da sua carreira, como técnico superior, veio a aposentar-se da ex-Secretaria de Estado da Emigração e das Comunidades Portuguesas. Ao serviço da Emigração fez inúmeras viagens, tanto por Portugal como pelo estrangeiro, entre os quais se contam a maioria dos países americanos, vários da Europa, assim como no Irã, tendo-lhe sido necessário dominar fluentemente o Francês, o Inglês, o Castelhano e o Italiano. Completou diversos cursos, entre os quais o Curso Complementar dos Liceus (secção de Letras), o Curso Complementar de Comércio, o Curso do British Council, o da Alliance Française e o Instituto de Estudos Sociais, tendo‑lhe sido conferido o diploma de Política Social pelo Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa. Também frequentou a Faculdade de Letras de Lisboa, onde não concluiu estudos devido ao facto de não lhe ser permitido faltar ao trabalho para frequentar as aulas e por não existir ensino noturno. Entre 1947 e 1951 colaborou em várias publicações literárias, nomeadamente na Távola Redonda, fundada por António Manuel Couto Viana e David Mourão-Ferreira, nas revistas Seara Nova e Atlântico, e fez parte dos amigos da Árvore. Exemplos de alguns textos publicados nas revistas citadas acima: Seara Nova: 13/9/47; 1/11/47; 24/2/49; Távola Redonda: 5.º e 7.º fascículos; Atlântico: n.º 5; e revista de Outono de 1951. Foi citado como um dos seus amigos no número da revista Árvore – Primavera e Verão de 1952.
Inscreveu-se como sócio na Sociedade Portuguesa de Autores sob o n.º 4824. Conviva e amigo dos poetas Daniel Filipe e Raul de Carvalho, confraternizou também com José Osório de Oliveira e José Terra. Mas, por dever de ofício e contínuas viagens, não lhe foi possível manter contactos estreitos com estes amigos e outros cultivadores das letras portuguesas. De 1972 a 1974 foi o principal compilador e redator de uma revista informativa editada pelo então Secretariado Nacional da Emigração, o Correio do Secretariado, e de uma revista para jovens filhos de emigrantes, o Boletim da Amizade. Em fins de novembro de 1975, numa viagem de serviço no navio Eugénio C, que fez escala por Génova, e em consequência de uma atribulada mudança de camarote, perdeu uma volumosa coletânea de poesias que tencionava publicar no ano seguinte. Ao empenho extremadamente dedicado de sua filha, Maria José de Azevedo, se deve a publicação da sua obra poética, a qual compreende onze volumes: dez publicados em vida e um volume póstumo. António Vera é também contista e publicou um grande número de artigos ao longo de toda a sua vida.
Da bibliografia ativa do autor contam-se os seguintes volumes: cursivo menor (1998); palavas com rosto (2000); as pestanas de Afrodite (2001); escrito na margem (2003); sons que falam (2004); de amor e desengano (2005); estrofes elementares (2007); amor sempre e a seguir (2009); folha a folha os dias (2010); o frio das metáforas (2011); apostila (2015, edição póstuma). Está em perspetiva a publicação da obra do autor nos países de língua portuguesa.
Maria Lúcia Torres Lepecki nasceu em Araxá, Minas Gerais, em 1940. Licenciou-se e doutorou-se em Filologia Românica pela Universidade de Minas Gerais. Foi docente na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa desde 1970 (Professora catedrática em 1981). Membro do CLEPUL (Centro de Literaturas e Culturas Lusófonas e Europeias), membro da Associação Portuguesa de Escritores (1975-1977), vice-presidente da Associação Internacional de Lusitanistas (1984-1986), conferencista e professora visitante em várias universidades (Salamanca, Oxford, Budapeste, Varsóvia, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Brown). Investigadora, crítica literária, ensaísta e infatigável divulgadora das literaturas e culturas de expressão portuguesa.
Reina suave tumulto
No meu cérebro cansado
De funerais adiados
E tenho medo dos mortos
Com longos avisos prévios
E abro os livros com facas
Em protesto piedoso,
Frágil e silencioso,
E vejo-me de fugida
No espelho dos teus olhos.
***
O BENEFÍCIO DA DÚVIDA
Dai-me o benefício
Da dúvida
Metódica
E farei com ela
Uma certeza instável:
Casa desabitada,
A ruir
Lentamente,
Em silêncio,
Como um barco a afundar-se.
***
AS MÃOS DO VENTO
As mãos do vento agarram-me pelo pescoço
E obrigam-me a ver
O mar morto de fome,
A cidade incivil,
O campo infértil,
O fumo do fogo que não arde,
O fumo do forno crematório,
A cama onde me vou deitar
Para depois ficar acordado
Com medo do escuro.
***
EXCESSO DE VELOCIDADE
Corres para a desgraça dos mendigos,
Dos que vivem debaixo de lusíadas
Pontes, dos que vivem as ilíadas
A olhar para os seus pobres umbigos,
E vais rapidamente, como um atleta
Dos cem metros, desmedidos, tal a pressa
De chegares não sabes a que meta,
Sentes que vais cumprir uma promessa
A uma virgem louca sem altar
E vais, desalinhado, sem parar.
***
CONTAGEM DECRESCENTE
Não é da minha conta
O que acontece
Nos bairros periféricos,
Nos bares alternados,
Nos becos esotéricos,
Nos barcos encalhados;
Não é da minha conta
O sal rosa dos muros,
O sol rubro dos túneis,
O sul roxo dos túmulos.
***
SEM TIRAR NEM PÔR
Não tiro uma vírgula,
Não ponho um acento a mais,
Tenho de ter cuidado
Com as cordas vocais
Com que enforco
As palavras mais banais,
Vida, morte, amor,
E, acreditem-me,
Faço um esforço danado
Para sobreviver a tudo isto.
José Pascoal, 1953, Torres Vedras, Portugal. Bibliografia poética activa: Sob Este Título, 2017, Antídotos, 2018, Excertos Incertos, 2018, Ponto Infinito, 2018, todos na Editorial Minerva,Lisboa.Inéditos em várias revistas digitais e impressa. Mantém o blogue Gazeta de Poesia Inédita.
O oleiro cansado já não molda a forma. As
enrugadas mãos pousam sobre a mesa os
poros da pele do desejo. Calado espera, o
Velho sonhador, pelos tempos que lenta-
mente passam. Não mais outra tentativa!
A. A informe sensação desaparece, lenta-
M. mente, em fios de sangue. Parado, já
O. não desloca o grosso grão de areia da
R. argamassa inútil à mesa. Oca, a forma
E. não mais nasceu perfeita. Vive hoje
S. entre a espera e a imobilidade eterna.
***
POEMA FEITO COM FITA-COLA E ESFEROVITE
À falta de rica matéria-prima, a mão
que desenha já não escava a forma
pura. O rosto e o corpo mutilados
unem-se em fita-cola e esferovite.
Reinventada a carne moribunda
com mingadas e fracas palavras,
a fealdade intensa do monstro,
abre lentamente a grande boca.
O crânio feito em metal reusado,
abrindo e fechando, propaga o som
desarticulado na planície plana.
Pousada Huma perna sobre a folha
o corpo articulado cospe farpas
pontiagudas e Bhabha a quem o vê.
***
DON’T FUCK WITH ME FELLAS!
THIS AIN’T MY FIST poem!
Dizia o poeta, baixinho, gordo,
com a cara irritada, vermelha,
como se fosse um peixe retirado
do mar e que respirava a custo.
Realmente, quem lhe dera ter
a boa intenção de se misturar
com os melhores dos melhores?
Aprender era o que dizia
querer, um querer sincero,
sem qualquer macua ou vil
malícia. Mas, bem sabemos,
a sinceridade pouco acrescenta
à grande e nobre literatura.
E, assim irritado, uma espécie
de Joan Crawford arrancando
a roupa dos cabides a meio da
noite e batendo na filha pequena,
era ele atirando farpas afiadas
a todos os seus colegas à mesa.
Tudo porque não conseguia
ver que por detrás da sua
pequenez existia um ego
maior que o último modelo
de balão quente, um que
dizia insistentemente:
Eu Eu Eu Eu Eu e Eu.
No fundo, todos gostavam
dos seus pequenos poemas,
cheios de ironia e síntese,
mas não suportavam aquele
seco olhar fotográfico que
registava todo e qualquer
arroto literário dos literatos.
***
O MEU NOVO NAMORADO
Everthing is contained Herman Bas
Egon passeando pela Steplansplatz olhava a catedral
e imaginava-se na pele de uma pequena rola que, em
tardes quentes, caminhava, lentamente, como se fosse
um rato ou uma barata, no ziguezagueado do telhado.
Nada disso tem a ver com o meu novo namorado,
sentado aqui no sofá, perdido em pensamentos que
não consigo ler. É quando me debruço sobre o rosto
que me vem à retina os olhos de Egon, a sua pele
desbotada a pincel e começo a imagina-lo entre
as pombas de Steplansplatz. Aqui no sofá, vejo o
meu novo namorado, calado, de perna cruzada e
imagino-o, por momentos, ser ele o próprio Egon
aqui sentado entre a confusão do meu estúdio.
Como a um bolo, vou sobrepondo homens como
as camadas de tinta, imagens e aprendizagem,
porque para o meu caótico pincel nada tem entre
si fronteira definida. Por isso, arrasto o meu pincel
em zonas de luz e me demoro na escuridão da sala.
Pintando no silêncio o pensamento daquele que,
agora, amo, dou por mim, sem querer, a fazer do
lume da lareira a chama sobre as suas suspensas
e grandes mãos, como se alguma luz divina me
pudesse dizer em epifania: Este é o verdadeiro
Amor. Eu limito-me a pintar esta que é a minha
Vida e espero pelo eminente colapso de tudo,
dos meus olhos, do meu corpo e desta chama.
***
DO IMPULSO OU DA DELICADESA, COM S.
O poeta altermoderno não pode errar a palavra,
nem alterar a sintaxe da frase, abolir a vírgula.
Deve, como convém à máquina, passar por todos
os estados de formação do espírito: andar, apenas,
cronometrado com o cânone vigente, ler o bardo
A e o bardo C, ser formado em literaturas, línguas,
Química, ter licenciatura, mestrado, doutoramento,
Pós-graduação, pós-pós-graduação em vegetarismo.
Deve comer figos em vez de cenouras, dizer advér-
bios e usar sempre o Nós. Deverá amar a cidade,
apenas a cidade, e citar dez poetas estrangeiros
nos seus poemas, saber dez ou vinte rótulos de
bolachas, músicas estranhas e ter voz de trovão.
E, se isso não chegar, deverá tentar dizer o mes-
mo em todos as línguas, mas com delicadeza. Se
usar o Eu, sem que ninguém o veja, que seja um
eu colado, fictício e nunca autobiográfico. Deve,
sobretudo, escrever para satisfação do público.
Ao anticorpo só lhe resta escrever palavras com
delicadeza e, se possível, numa delicadesa mínima.
Vítor Teves naceu em 1983 em Ponta Delgada, Açores. É licenciado em História da Arte pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto, sendo atualmente aluno no Mestrado de Estudos Culturais e Interartes na mesma Faculdade. Publicou poemas em diferentes revistas (Trama #1,#2, Apneia #2,#3) e sítios de poesia (Bacana; Enfermaria 6; Gazeta de Poesia inédita). Reuniu os seus primeiros poemas em “Dentes Tortos”, edição de autor que comporta poemas de 2007 a 2017. Além de participar regularmente com a editora Enfermaria 6 e escrever poesia, desenha e pinta.
Mirar os espaços em redor. Creditar a eles uma amplitude que atravessa as dimensões concretas da existência. Vislumbrar experiências de vida em esferas até mesmo inimagináveis. Sentir a pulsação dos dias em meio a doses cortantes de realidade e fantasia. Acreditar que o corpo é também um receptáculo de outros tantos estágios da consciência. Assim, trajamos as vestes de nossas humanidades. Assim, também navegamos, talvez um tanto à deriva, em meio às procelas de um mar que sabe a todo tempo nos acostumar a seus mistérios.
Viver é não negar o ato contínuo dos equívocos. É descortinar o véu que divisa a euforia e o sonho da dor ou hecatombes íntimas. Quando olhamos o que nos parece visível ao primeiro ato, sentimos que a matéria um dia pode se dissolver sem prévio aviso. As coisas, por mais palpáveis que sejam, desmancham-se ante nossos olhos nalgum instante futuro. É quando talvez tenhamos como companheira de jornada finita a memória e seus falhos recortes.
Mas se permitir experimentar a efusão dos instantes também pode representar uma rica constatação de que a vida não nos reserva apenas o lado aparente de seres, coisas e lugares. Há um universo de sensações e construções particulares que são percebidos no decorrer duma caminhada que contempla as possibilidades de abstração. Certamente, é ofício dos mais complexos ousar interpretar aquilo que transcende a concretude do mundo.
Todos os mergulhos relatados nas linhas iniciais deste texto talvez sirvam como um átimo de compreensão a respeito do trabalho de uma artista plástica como a portuguesa Cláudia R. Sampaio. São dela arremates de reflexão que viabilizam um espaço de coexistência para os matizes da alegria, dor, inocência e esperança. Suas pinturas, mesmo quando nos permitem vivenciar sinais de elevada densidade em torno do humano, apontam para marcantes sinais de leveza.
Pintura: Cláudia R. Sampaio
Do contraponto entre cenas cruas da vida e seus correspondentes mais antagônicos, Cláudia retira o resultado efetivo de suas apostas narrativas. Desse modo, fala-se de um mundo que nos atravessa cotidianamente, mas também de outros mais que perpassam um lapso onírico da existência. Ademais, esse paralelismo de sensações faz multiplicar uma variedade de sentimentos que, ao fim e ao cabo, são a mais pura representação das nossas inquietudes inalienáveis. No contraste entre as pulsões internas e externas, a artista reverbera uma voz que a tudo vê e sente.
Na espiral do tempo que não retrocede, as pinturas de Cláudia também se ocupam de pensar a vida como um constante painel de expressões poéticas. Há um clamor que vem da necessidade de conferir vez e voz ao canto íntimo de suas personagens, atitude que abre perspectivas em torno do desejo, da serenidade, do caos mundano e do espanto e estranhamento frente ao todo circundante.
Nascida em Lisboa, nos idos de 1981, Cláudia R. Sampaio também se dedica ao ofício de poeta, tendo publicado os livros Os dias da corja (Ed. Do Lado Esquerdo, 2014), A primeira urina da manhã (Ed. Douda Correria, 2015), Ver no escuro (Ed. Tinta-da-China, 2016) e 1025 mg (Ed. Douda Correria, 2017). Sua dedicação à pintura remonta à infância. Tem na figura do pintor Jean-Michel Basquiat uma de suas grandes inspirações no labor artístico.
Diante da presença vigorosa das cores e do contraste entre sentimentos díspares da condição humana, Cláudia lança mão da sua feição de poeta para também impulsionar a criação de suas pinturas. Sua arte mescla tanto uma observação que emana do contato com o externo, como também dos mergulhos interiores caracterizados sobremaneira por uma marca pontuada pelo lado sublime da vida. De modo especial, as incursões apontam para o âmago das coisas, esse ato contínuo e transformador de olhar tudo por dentro.
Pintura: Cláudia R. Sampaio
* As pinturas de Cláudia R. Sampaio são parte integrante da galeria e dos textos da 121ª Leva
Fabrício Brandão edita a Revista Diversos Afins, além de buscar abrigo em livros, discos, filmes e no ato apaixonado de tocar bateria. Atualmente, é mestrando em Letras pela UESC, cuja linha de pesquisa reúne Literatura e Cultura.
sofro
de obstipação emocional unilateral
tenho de fazer um clister a uma aurícula e a um ventrículo
e de laquear a veia do nariz
para me vedar a coágulos e a cheiros espessos
e comer uvas
uvas lavadas na água da chuva
e comer maçãs
maçãs lavadas na água do mar
ir
com as marés
chegar
ao contrário das fases da lua
ficar
onde tudo permaneça em movimento
e
terno
***
tudo
tapei-te os medos com ligaduras
embebidas em mel cicatrizante
meticulosamente arrancadas
à minha própria pele
dando nós pequenos
quase invisíveis
que não se prendessem na roupa
sorvi-te os grãos de ansiedade
como pólen que transformava em tempo
bebi-te as palavras ínvias
com os meus lábios feridos
que não chegaste a sentir
ficou-me o travo amargo na boca
a ferida no lugar da pele
e o frasco vazio do mel
que hei-de lavar com água quente
para aquecer as mãos
e reutilizar um dia
sem tampa
***
strawberry passion
é elástica a dor
expande-se e comprime-se
de acordo com o seu acordo
mastigo-a compulsivamente
receio perder-lhe o sabor
mastigo-a com os ossos com as veias com os pulmões
perfuma-me
emulciona-me
pre
enche-me
***
janus
é estreito o corredor desta casa
há que passar de lado
roçando os ombros o peito
as coxas e os calcanhares
a dada altura o corpo é parede e a pa
rede corpo
como se a verticalidade se impusesse
numa espécie de ética física
talas em vez de pórticos
um corredor sem portas
que desem
boca não se sabe onde
a cal cobre a pele de pó
e os dedos deixam um rasto de estrelas
sem frente nem verso
***
frango com esparguete
dois corpos
dois copos vazios
um corpo
janelas fechadas
almas escancaradas
dois corpos
a mesa posta
o jogo na mesa
quatro pratos sujos
a televisão acesa
***
dieta
no precário equilí
brio das horas
balanço o meu peso
peso o meu balanço
e não consigo andar direita
a dieta não se compadece
do lastro
e a gravidade suga-me a alma
mais do que devia
de dia
arrasto um saco de sombra
que o sol me impõe
à noite
sou toda sombra
e arrasto-me
saco de pele e s
obras
Sónia Oliveira nasceu em Luanda, em 1972. Estudou literatura na Universidade Nova de Lisboa. Traduz livros e filmes. Tem textos publicados nas revistas online Preguiça Magazine, Minguante, no fanzine suíço Milk+Wodka, na antologia de poesia visual, nas revistas Flanzine e DiVersos, Poesia e Tradução, assim como em vários números da publicação Nem Só de Gin Vive o Pinguim. Participou na exposição itinerante Poesia Quase Anónima – A Poesia na Blogosfera Portuguesa, realizada pela associação Mercado Negro, Aveiro. Mantém, desde 2006, o blogue triplicado. Em 2012 publicou o livro de poesia antenas, uma edição pirata da Palavras por Dentro.
Entre os atos, pairam taciturnas outras existências. Viver é esse gesto colossal de colecionar mistérios e avançar por sobre eles sem que saibamos ao certo suas origens mais imediatas. É flertar com o desconhecido que nos apresenta suas investidas cotidianamente. Embora busquemos natural abrigo no algo concreto e visível, somos tomados vez ou outra pelas garras da abstração.
Quando não sabemos lidar com o intangível, muitas vezes sentimos que perdemos a desejada capacidade de controlar as coisas ao nosso redor. É muito mais do que uma mera questão de se ir além da superfície. Um percurso de rotas que nos atraem rumo ao estranhamento de nós mesmos.
Para além das experiências corporais, há trajetos de invenção e sonho. Almejando alguma espécie de libertação, um criador se rende aos atributos desse caminhar por dimensões imateriais. Assim, o que parece ocorrer é que um curioso processo de reconhecimento se opera, tornando a vivência das situações um mirar de faces diante de um espelho.
Para uma artista como a portuguesa Helena Barbagelata, o outro lado do espelho reflete uma esfera de vivências na qual o físico e o abstrato convivem harmoniosamente. É como se um ambiente único de percepções surgisse, mesclando o real e o onírico, o vivido e o imaginado. Tudo num organismo amalgamado que processa as mais complexas questões do olhar.
Arte: Helena Barbagelata
Helena expõe certas densidades humanas. Mostra-nos um conjunto de gestos, externa rostos carregados de sobriedade, aponta trajetos do corpo. Em lugar de entabular razões, a artista utiliza como principal ferramenta um prisma poético sobre as coisas observadas. É, de fato, uma valiosa escolha na medida em que os recursos da sugestão promovem uma ideia de que as vias estão abertas para captar algo que não habita o território das obviedades.
Nascida em Lisboa e hoje vivendo em Atenas, Helena há muito percorre caminhos em torno das artes plásticas, música e literatura. Na seara literária, colaborou com revistas internacionais, obteve prêmios e publicou a obra Soliloquia (Apenas-Livros, 2013). Em matéria de artes visuais, suas criações transitam entre a pintura e a fotografia.
Considerando a arte como um diálogo entre criador e receptor, a artista lusitana abre fronteiras para a libertação do olhar, ponto no qual quem contempla é capaz de vislumbrar outros significados para a criação. Ainda, segundo Helena, os caminhos percorridos levam a uma alternativa não somente de autoconhecimento, mas também de descoberta do homem em relação a seus pares e ao mundo.
Contemplar a obra de um alguém como Helena Barbagelata é apostar na existência de dimensões ilimitadas e paralelas em convivência. Na intersecção entre o palpável e o inventado, percebemos uma sucessão de camadas de vida. São saberes do ato de existir, noções que apenas são percebidas porque se ousou experimentar a continuação dos passos.
Arte: Helena Barbagelata
Fabrício Brandão é um dos editores da Revista Diversos Afins. Cultua livros, discos e filmes com amor táctil e espiritual.
Estou sentada no limiar da casa
Inteira e magra
A rua abre-se no vidro cheio de reflexos
Tecidos por aranhas diurnas
Anoitecendo
Seguro o quotidiano quieto
Como um bicho de asas frágeis entre os dedos
Um pássaro de porcelana viva tinge a manhã
Do ocre da parede imaginado abre-se um esgar de humidade
O sorriso de uma velha ausente
Ou o caminho deserto descendo
O gato jaz no centro inavegado da sala
Dentro dos meus ossos faz imenso frio
Já só poderia segurar uma violeta nas mãos descarnadas
E atrás de mim uma amiga nua
Um sonho desenrolado
No papel roto da parede
***
Desabrocha-me uma flor no estômago
Um lírio expandido de água morna
Que me marca o centro líquido do corpo
Depois arquejo e solto-me no umbigo de água
Meridiano em volta da terra
Em volta da bolsa minha dos alimentos
Isto não é a escrita
Uma massa cega murada ao verso
Tão só a linha brilhante
Um nascimento inteiro pedindo água
***
Mastigo a maçã…
O dia é polido como um espelho
Mas impuro
Tingido pelos sons da minha boca
Pela curvatura voluptuosa do fruto que o preenche
Na quina dos dias há sempre o redondo de uma forma comestível
Não posso estar sentada que uma folha me não fira os dedos lisos
Clorofila indelével marcando a pele
Se a sombra da maçã é suave e fria sobre o solo
O estômago desfaz o suco amarelo do fruto
Os intestinos lavados
Prendem-te ao sulco lavrado na terra
E tudo isto é talvez uma mesma luminosidade
Ancorada debaixo dos olhos
***
Arte Poética
Sono
Abro o olho silente da palavra
As coisas monologam infindavelmente consigo próprias
Opacas com o halo vaporoso do meu sono
Reconduzo as palavras ao seu lugar mais ínfero
Mas deixo-as sujas de terra: inteiras
Esse é um desenho pleno, rugoso,
Um desenho de barro e cal em que nos sabemos
Sem nome
Entre as linhas
Esse pequeno toque
Sombreação ligeira da mudez
Um cavalo desenha-se no vidro fosco do meu sonho
Mas não lhe sei o corpo
Isso
O flanco
Era já só pressentimento lasso da mão
Dor
Talvez memória côncava de pele
Mas ainda…pertença
O vácuo dos dedos aflige o futuro inteiro com o interior opaco do animal
E este era o momento presente
***
Nenhuma dor latente nos mina:
Somos apenas percorridos por um pequeno animal agudo.
Ana Horta nasceu em Lisboa, em 1975. Estudou Filosofia e Literatura na Universidade Nova de Lisboa e Fotografia e História de Arte no Ar.Co (Centro de Arte e Comunicação Visual). Escreve poesia desde que se lembra e nunca mais conseguiu parar. Estes poemas pertencem ao seu primeiro livro: “Inventa uma voz no rodopio do corpo”, Black Sun Editores, Lisboa, Dezembro de 2002. Tem colaborado em diversas revistas de poesia e um segundo livro de poemas no prelo: “Ínfimo Vento, Volta d’Mar”, Outubro de 2015.
senta-te na vida
como no suicídio,
somos feitos de metal febril,
responde-me com a garganta iluminada,
és o espectro nómada
das noites que passo com o tagame,
um Rimbaud cansado
já aos quinze.
existes-me nos becos sinuosos
da mente, não sei se
o teu espírito rodou pela direita ou pela esquerda
mas foi Dante quem te ensinou a subir montanhas.
ainda não consegues compreender
o esforço que Max Brod fez para divulgar Kafka depois da sua morte.
és a penumbra secreta
quando te vigio a morte.
um amigo nas trevas
que percorre caminhos transparentes
onde a solidão se transforma
na música demorada dos teus pensamentos.
***
Há uma luz selvagem
há uma luz selvagem que me percorre o nome
e que enlouquece lentamente
no interior húmido da memória.
o espaço da voz
expande-se até à idade irrespirável dos objectos.
sento-me a observar a praia
e a forma como a água tem medo de se aproximar demasiado
e pousar nas perguntas.
as pálpebras escorrem-me até aos nervos.
há um frio insuportável na passagem escorregadia das horas
no gesso de cada nome,
e um sítio febril onde a inteligência consegue deteriorar
todos os vestígios decifráveis de vida.
cada nome, no interior imóvel do seu ventre,
no sangue fervido das noites,
transporta uma luz pesada,
impronunciável.
***
Cheguei demasiado cedo
ao colo da floresta,
quando falei,
falei extremamente baixo
sobre as mitologias
da linguagem.
se alguém me ouviu
foi porque este oceano pedestre
a que chamas existência
me deixou mergulhar
nas vertigens dos campos.
deixa-me conduzir
esta voz
até à intimidade do céu.
***
Anuncie aqui
anuncie aqui,
temos o que procura,
clientes de existências quentes,
astros estendidos no comprimento da boca.
anuncie aqui a sua solidão
o seu medo assimétrico,
o seu bom coração.
havemos de lhe encontrar
alguém sensível
com ossos audíveis,
botões em zonas estratégicas,
onde pode parar ou começar
os violinos,
as cortinas,
a paisagem.
a cortina paisagística
e um soneto capaz de cobrir a visão.
anuncie aqui
e anuncie ali
quanto mais se explorar
mais hipóteses tem de ganhar.
tudo amadurece,
até o silêncio
aquele que ressoa por esta febre
febre que se arrasta pelo poema,
poema que se verga
para o seu interior de mar.
as rosas brotam
o leite envenenado
dos nossos direitos mais antigos.
o avião transporta o peso
da luz
e a água da manhã atravessa
o brilho abandonado das mulheres
selvagens que te tecem o sono.
amanhã as fábricas recomeçam
a queimar os seus mortos
e deus ressuscitará entretanto.
***
A conquista da Polónia
a tua fala loira desdobra-se em pedaços brancos de pele
esta música goteja com o teu sangue,
o apetite dela do tamanho do meu.
orgulho-me das tuas veias tão salientes,
da altura assustadora dos instintos.
chove por dentro do desejo
e eu quero enterrar-te ainda esta noite,
quando passar o próximo comboio
terei o teu peito molhado,
os teus ossos transpirados
por aquela vontade de viver
mas antes do comboio passar
navegarei na tempestade azul dos teus olhos
e terei os teus lábios gelados
como o norte,
sentir-me-ei a rainha da Polónia.
Sara F. Costa (1987) Natural de Oliveira de Azeméis, Portugal. Licenciada em Estudos Orientais e Mestre em Estudos Interculturais: Português/Chinês pela Universidade do Minho e Universidade de Línguas Estrangeiras de Tianjin, China. Tem publicadas as obras poéticas: “A Melancolia das Mãos e Outros Rasgos” (Prêmio Literário Serra da Lousã, Pé de Página editores), Uma Devastação Inteligente (Prêmio Literário João da Silva Correia, Atelier Editorial) e “O Sono Extenso” (Prêmio Literário João da Silva Correia, Âncora Editores).
O dia está abrasador e eu não aguento tanta presença entre garrafas de água. A ressaca dói-me como uma primeira vez, apesar de já não ser novidade. É o baptizado do último primo que não sei se o será e eu sinto-me como se caminhasse por entre um sonho onde mal dou por quem passo. Cada parente pesa-me como um membro edemaciado, pendurado pelos nervos directamente no meu cérebro, hoje de gelatina. Tenho que sair deste lugar tão familiar na pedra e no sangue, com agulhas quando me olham e eu sem conseguir compor-me no fato descosido que hoje sou. Tenho que sair daqui e encontrar-me comigo em algum lado onde hajam só olhos para dentro, até me passar esta náusea nada metafísica e reaprender a caminhar de outra forma e não desta em câmara lenta, pensando cada passo para parecer natural e dando cabo de todo o teatro de improviso.
Tenho que me manter eu. Tenho que me manter o eu a que estes estão habituados. Não posso deixar que estes saltos de consciência se manifestem no que sou para o mundo. É festa, a gente está para festejar e não para serem contagiados pelo meu funeral de neurónios. Funeral, baptizado… e eu a ter que aguentar isto tudo, só por causa da religião destes, depois de uma noite herege deste. Se soubessem que as religiões surgem de esquizofrénicos que foram levados demasiado a sério por multidões…
Não sei o que o futuro me reserva, mas talvez um barco, não dos que descobriram a Índia cheia de indianos, mas dos que levam a glande ao colo do útero de uma sueca qualquer, já riscada no mapa por um filho de chileno. Os do novo mundo antecipam-se, mas de vinho… E a irmã ao lado adormecida por um fingimento também ruivo, acordada por uns dedos que desaparecem no vácuo de tanta espera líquida. Só me espalharei numa delas, mesmo dentro de ambas até elas todas ruivas no fim. Não haverá beijos porque o vinho chileno não quer e nada mais será que uma memória de um futuro no passado recordado onde fiquei e estou. Nunca saberei a marca do vinho chileno, mas também depois do orgasmo já não vale a pena.
Pode ser que a distância que me está reservada a percorrer no espaço, chamar-lhe tempo se for mais fácil assim, seja só a que vai desta casa do povo, desta aldeia pequena, até ao lameiro do meu avô onde se ouve o sino da igreja, mas não se vê sinal de telhados laranja ou casas brancas com os palheiros castanhos a assinar a ruralidade que persiste. Pode ser que o tempo todo que tenho ainda que soprar, como vidro quente, no caminho, ou debaixo das macieiras, ou o tempo todo que esse tempo todo será, até o prolongar.
Toda a gente me conhece no baixo da casa do povo menos eu. Os braços são-me mais estranhos que aquele sapato de salto alto pendurado no pé de pernas depiladas para a festa. Mal consigo abrir a décima garrafa de água. A sede que tenho nem parece ser minha, por mais que eu beba, não se vai embora. Devo estar a beber com o corpo errado. Os meus tios insistem em cerveja e eu a fingir-me de doente ou santo. Seria o melhor remédio, mas a noite será de festa outra vez e queria guardar-me para depois do casamento. Ninguém me conhece de verdade, no baixo da casa do povo.
Feliz Natal.
Direi na manhã que me espera, na ilha em marte, longe de ontem, longe de hoje, daqui a umas horas se o tempo me levar sem o peso do corpo. Feliz Natal e um ano novo que não se vê a chegar nunca, passa e fico igual, só o número muda, só a ideia a esperança ridícula que seja melhor que o último, só porque é novo… pois ontem estava melhor: bêbedo, pouco eu, mais nos outros, sem uma caneta espetada no cérebro para escrever o que se passou, para o amanhã ser a continuação falsa do que acaba sempre…
Não sei onde estive ontem à noite. Acordei em mim e só, nada a reclamar. Foi festa na terra e acabou mais tarde que o seu fim, para isso servem os amigos e os bêbados. Sei que houve, quando a cor do céu se torna púrpura, uma grade de cervejas quentes no meio do jardim de paralelos com a música a desafiar os guardas que nem se interessavam de males menores. Sei que falei pela primeira vez, sem ter sido eu a falar, com alguém que conhecia há muitos anos. Dizem-me que às vezes tímido, digo que às vezes com pouca vontade para o que não vale a pena e pouco dura. A mim nem me quero conhecer apesar de andar sempre a queixar-me. Sei que houve abraços sem dúvidas, num estado duvidoso, por razões sem existência, apenas porque havia aquele momento e uma força maior que o nosso pé atrás a empurrar-nos na direcção do que sentíamos, fosse quase nada, fosse uma euforia irracional só por se estar ali no centro do jardim de paralelos, com uma garrafa de cerveja quente, a ouvir música sem se dar por ela depois do dia da tão esperada festa. Sei que esticamos a noite até se romper com o dia e que tentamos desacelerar o tempo com golos apressados, só não sei onde estive ontem à noite. Hoje, que deve ser onde… que deve ser quando estou, não sei quem foi aquele gajo, mas invejo-o, porque hoje ainda há luz e ando a água.
Ainda longe dos paralelos da cerveja quente, estive com os dedos dentro de um candeeiro no passeio, encostado a uma loira acesa, sem qualquer pudor, ou sem consciência para isso, só a vontade. Encostei-me contra a porta descascada da casa antiga, hoje velha, dos senhores ricos em decadência bebendo loiras, confundindo a sólida com a líquida, fazendo com que a sólida líquida e a líquida em pouco tempo a jorrar do sólido. Tudo acabou antes do fim porque no meio da rua da terra pequena não é lugar para se dar liberdade à vontade, mais vale esperar uns dias até a casa estar vazia e uma desculpa estar cheia e infalível, uma cama para desfazer e a ansiedade de ter tudo planeado e previsto quando nada sai como previsto por causa da ansiedade. Trapalhada de lençóis e pregas de pele que se colam ao corpo como sanguessugas de orgasmos, chupando, chupando e o sangue a vir de longe de nós, de um lugar onde não sabíamos existir.
Treme-me o cérebro e sinto-o nos movimentos descoordenados dos braços a levar-me água aos lábios secos, de escamas a saltar no sal dos peixes afogados. A vida passa como uma sucessão lenta de imagens, como se o condutor do tempo estivesse a aprender a conduzir entre travagens bruscas e um acelerador de ejaculações precoces. Devo parecer uma marioneta e este lugar cheio de gente que julga conhecer-me a tomar conhecimento da minha condição, tropeçando nos fios que me controlam, provocando-me espasmos inesperados. Não tarda passa-me do corpo ao que sou realmente e salto anos em segundos sem sair do mesmo espaço, louco por dentro, que são os mais comuns e menos reconhecidos.
Savonlinna, 2010
João Bosco da Silva nasceu em Bragança (1985). Estudou no Porto. Vive e trabalha em Turku, na Finlândia. Publicou os livros Os Poemas de Ninguém (2009), Disse-me António Montes (2010), Bater Palmas E Sete Palmos De Terra Nos Olhos (2011), Saber Esperar Pelo Vazio (2012), Destilações(2014) e Trepanação de Jerónimo Bosch (2015).