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132ª Leva - 04/2019 Aperitivo da Palavra Destaques

Aperitivo da Palavra I

PROFUNDANÇAS: TRAJETÓRIA DE UMA GUERRILHA LITERÁRIA

Por Daniela Galdino

 

 

Nos últimos anos tenho me dedicado ao duplo desafio: denunciar a invisibilidade histórica de nós, mulheres, no campo literário; maquinar formas de romper com essa genealogia de apagamentos. Muito embora a energia que me move seja íntima, nasça de vivências pessoais, sei que não estou só.

Uma rápida andada pelas veredas virtuais já é suficiente para percebemos a profusão de coletivos de leitoras, selos editoriais, canais no YouTube e outras plataformas dedicadas à divulgação da literatura de autoria de mulheres. Já é possível falar de uma ampla rede dissidente que, ao existir, tem desafiado a continuidade dos apagamentos. São experiências diversas, vozes dissidentes, lugares díspares a partir dos quais as tramas dessa rede vão se construindo, e mesmo nas diferenças os desejos transgressores nos trazem aos pontos de confluências. Ou seja, aqui o pessoal é político.

Para ficarmos na Bahia – lugar a partir do qual desobedeço – destaco que esses elos transgressores envolvem os clubes denominados Leia Mulheres (já ativos em vários territórios de identidade), o coletivo Lendo Mulheres Negras (atuante em Salvador), as plataformas virtuais Escritoras Negras da Bahia e Escritoras da Bahia, a coleção Das Pretas (pensada por mulheres pretas para publicação de outras pretas escritoras via Editora Segundo Selo), a Irmandade da Palavra (que tem mobilizado mulheres no recôncavo), o Slam das Minas (em que os corpos dissidentes performam os versos cortantes), as edições do Festival Sonora Ilhéus/Serra Grande, que têm aliado a poesia e a música de mulheres. Trago apenas alguns exemplos não institucionais para demonstrar que também seguimos atentas e dispostas a transpor as barreiras da interdição literária.

Nessa energia de partir das perguntas ainda não respondidas (quantas e quais mulheres você leu na escola ou por conta própria?), nasceu na Bahia, em 2014, o projeto Profundanças (numa parceria com a Voo Audiovisual). Ao rebentar-se, Profundanças veio rasgando várias negativas que ainda hoje impedem que os nossos escritos rompam as gavetas e alcancem os amplos circuitos de leitorxs. Nascido e criado como projeto independente dedicado à visibilidade de escritoras, Profundanças parte do reconhecimento de que, associada aos apagamentos e silenciamentos, há uma concentração editorial inviabilizando mulheres escritoras (sobretudo aquelas em atuação fora dos grandes eixos de produção cultural). Daí ser algo inegociável que o projeto vá ao encontro de mulheres que sonham e lutam nos lugares mais diferentes desse universo chamado nordeste (do sertão à favela, da roça ao litoral deslocado), pois entendemos a necessidade de criarmos outros espaços, já que as dinâmicas editoriais voltadas para o mercado são excludentes.

Em cinco anos de projeto, Profundanças editou três antologias literárias e fotográficas que seguem disponíveis para download gratuito. O conjunto desses e-books expressa as conexões que rasuram as distâncias, fazendo com que as águas turvas do Capibaribe alcancem o mar de Itacaré ou que a poeira do Pajeú pinte de ocre as tardes potiguares ou ainda que as marés da Baía de Todos os Santos sejam música nos amanheceres cinzas em Garanhuns. Tudo em Profundanças é diálogo, encontro de dicções e experiências autorais diferentes, somos afluência.

 

 

Em Profundanças a palavra escritoras é acionada para alcançarmos territórios diversos e amplos. Em cinco anos de projeto, foram mapeadas e publicadas 51 autoras nas tentativas de rompimento com a noção hegemônica de mulheres brancas, urbanas/metropolitanas, heterossexuais escrevendo. Sim, precisamos enfatizar outras identidades e seus processos autorais. Num país genocida, racista, feminicida, misógino e lgbtóbico é um ato político de grande impacto veicular imagens e narrativas de mulheres negras, trans, lésbicas, sertanejas, não negras que re-existem a partir das artes. E nessa trajetória de uma guerrilha literária, cada antologia parte da pergunta: quais palavras e imagens podem nos representar em tempos violentos e odiosos? Os poemas, contos, crônicas e ensaios fotográficos de Profundanças são contragolpes à orquestração do medo. Ao dizer isso, inevitavelmente lembro do educador Paulo Freire criticando esse modelo de sociedade que convive melhor com a morte do que com a vida. Queremo-nos vivas e criando – eis o mote de Profundanças.

Outra marca de Profundanças é a horizontalidade. Embora o foco do projeto seja o mapeamento e a publicação de escritoras inéditas ou com apenas um livro autoral publicado, a cada edição participam duas ou três escritoras com maior inserção no campo editorial. Dessa forma, vamos desestabilizando as hierarquias que geralmente definem as dinâmicas de publicação e difusão literária. Interessa-nos muito mais a escuta atenta e o tear de palavras/imagens em lugar das disputas literárias nutridas por posturas de egolombras que exercem seus domínios nas curadorias de eventos, nas editoras, nos circuitos de difusão literária.

Contornando as disputas egolombristas, combatendo a invisibilidade de escritoras, rasurando os grandes eixos de produção literária, criando e ampliando um espaço dissidente de publicação, investindo no virtual como campo produtivo, fortalecendo as redes que divulgam literatura escrita por mulheres, Profundanças vem aprendendo outros modos de atuação. E, nesse corrupio coletivo, de certa forma vamos conhecendo outros modos de ler, à medida em que os nossos livros vão ocupando espaço de destaque nas experiências coletivas de acesso. Já temos notícias das antologias de Profundanças sendo lidas, inclusive, em espaços que não dispõem de redes de internet, pois há xs seres amavelmente transgressorxs que baixam o livro, salvam em alguma mídia e exibem nos computadores de escolas rurais – só para citar um exemplo.

 

 

Sabemos que o acesso à internet não é universalizado no Brasil, pois incontáveis famílias estão privadas da convivência cotidiana com o virtual. Apesar de… seguimos nas aprendências de lançar ao mundo antologias virtuais e comemoramos a cada transgressão sabida, a cada experiência coletiva de leitura vivenciada mesmo nas condições distantes do ideal. O desejo de dizer, nesses momentos, se alia aos desejos de ler… e é assim que se rompem as distâncias entre quem escreve e quem acessa a literatura nascida das nossas entranhas. Queremos alcançar as escritoras, fotógrafes e leitorxs que re-existem a partir dos lugares que nem conseguimos imaginar…

O nosso método dissidente é descobrir esses seres nas relações cotidianas, conhecer pelas bases, nas dinâmicas até mesmo invisíveis do ato de escrever/criar. Por isso, na nossa guerrilha não há edital, não há chamada pública para envio de textos. Na nossa dinâmica há o mundo e a ele nos lançamos para compor o mapeamento transgressor de Profundanças. Agimos em silêncio, temos o segredo como princípio de organização, e seguimos nessa gira até alcançarmos o momento de tornar público que, sim, está rebentando mais uma antologia construída da maneira mais desobediente que se possa pensar. Assim tem sido nestes cinco anos…

Profundanças é uma grande encruza! E aqui estamos, embebides de poeira e águas para saudar os 13 anos da Revista Diversos Afins. Laroyê!

 

* Para baixar gratuitamente as três edições de Profundanças, basta clicar nos links abaixo:

 

Profundanças 1

Profundanças 2

Profundanças 3

 

Daniela Galdino é Poeta, Performer, Produtora Cultural. Idealizadora do projeto Profundanças. Doutora em Estudos Étnicos e Africanos (UFBA). Docente da UNEB. Contato: galdinodanielapoeta@gmail.com

 

 

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99ª Leva - 02/2015 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra

Palavras bailarinas na sala de leitura

Por Neuzamaria Kerner

 

Profundanças

 

Aprofundamento no sentido mais vertical da palavra. Abundância do profundo no mais profundo da alma. Isso deve ser a Profundança. A alma aqui é o livro perpassado pelo filtro da poesia que habita nessas páginas de poemas e imagens femininas. As imagens, representações da psique das 13 escritoras que partiram de vários lugares e caminharam até o ponto de encontro: esta antologia. Elas desfilam vestidas de poemas, sendo vistas desde a apresentação do livro feita pela organizadora Daniela Galdino.

Profundanças: antologia literária e fotográfica em sua 1ª edição virtual, Voo Audiovisual, 2014, vindo de Ipiaú (BA), pousa nos campos virtuais para espalhar poesia.  Na imagem de abertura uma mulher sobe degraus de uma escadaria como que simbolizando o progresso, a realização de desejo consubstanciado no livro pronto. 13 escritoras desengavetam suas palavras para que povoem o universo; 13 escritoras tratam de recolher as mazelas desaprisionadas da caixa de Pandora para que sejam reconfinadas até elas aprenderem com a Esperança – que havia ficado no fundo da caixa – sobre a importância da arte como elemento que transubstancia palavra em alimento para a alma.

Belisa, Brisa, Calila, Celeste, Daniela, Fernanda, Lorenza, Márcia, Potira, Raquel, Renailda, Say e Valquíria misturam suas experiências individuais e apresentam um modelo de pertencimento a uma comunidade artística de alto gabarito que interage com um público leitor que lança sua rede no mais profundo mundo virtual para buscar o melhor pescado.

A distribuição dos textos é feita com mistura de versos e prosas onde as autoras puderam expressar suas profundanças com muita leveza e liberdade, incluindo a apresentação de fotografias delas mesmas como extensão da palavra escrita. Elas estão presentes. Os textos têm a cara das donas e é muito interessante observar como cada palavra escrita identifica cada uma delas.

As fotografias vão como que revelando o cotidiano das moças e ilustrando o espírito do livro na medida em que o olhar dos fotógrafos vai capturando as profundanças dos momentos e perpetuando os movimentos das escritoras. Assim acontece o entrelaçamento das palavras e imagens quando Martinho, empunhando a câmera, olha o olhar de Valquíria que fala:

Empunho o que sou,
porque o ser que me habita
não quer o que esfria,
ao contrário,
pede o que borbulha.

 

Fafá surpreende Say entre panelas – dispostas no altar para o banquete – grafites, flores e estampas na saia. Mais uma vez a imagem casa com a poesia:

Escondo, na parte de dentro,
Do estampado florido de minhas saias
Um respiro calmo no altar de mim.

Márcia e Jéssica se encontram num diálogo aparentemente desencontrado. Só na aparência mesmo, posto que da cor seca do sertão brota a florada de quem, como num ato de contrição, escreve poemas:

Meu sertão tem a cor amarela
Como as folhas no outono
E a minha saudade tem a cor sépia
Como numa fotografia
uma saudade assim
envelhecida.

Uma árvore prenha guarda águas sertanejas para matar as necessárias sedes. É assim a natureza: resistente e adaptável porque criativa. Como um útero aconchegante carrega dentro de si a poesia que germina e se desenvolve pela palavra forte de Celeste e pelo gatilho da câmera de Ravena. Belo encontro!

É dispensável neste momento escrever sobre as autoras, posto que no final do livro a organizadora teve o cuidado de apresentá-las numa Mini Bio d@s participantes de um jeito muito mais interessante de forma que o leitor poderá conferir e entender o porquê dessa ausência de explicações nesta resenha. Além da apresentação das escritoras, Daniela Galdino abre espaço detalhado para mostrar quem fotografou e quem ajudou na produção do brilhante material que a partir de agora está no mundo através da boca e da pena das autoras deste livro.

Olho-me no espelho nua por dentro

porque

Fui nomeada no esteio do vento.

Sou eu, ácido, violão sem cordas

E me extasiando com sua música surda

tenho medo dos sussurros das palavras

e

começo a pender para direções esquecidas

buscando os caminhos que

as quinas das portas cortam meus passos.

Há mofo no teto e gotas de chuva nas cortinas

e a minha saudade tem a cor sépia

na presença do enxofre envelhecedor de fotografias… mas

prometo gozar o atraso dos dissabores

sintomas de precipício/ predicados de botequim

Ah!… O que tenho?

Tenho tanto medo de deus / que até fraquejei com esta caneta,

porém depois de cada inverno inscrito

eu sempre voltarei para o verão dos teus braços

porque é neles que

os meus cabelos / escondem navalhas errantes

mas que não podarão a profundança de cada palavra poemada.

* Os textos em itálico são os títulos das falas das autoras deste precioso livro.

“Profundanças” está disponível para download no site Voo Audiovisual.

Neuzamaria Kerner, baiana de Salvador, é professora e escritora. Tem publicados os livros: “Fragmentos de Cristal”, “Eu Bebi a Lua”, “A Presença do Mar na Prosa Grapiúna”, entre outras publicações em revistas literárias. Seu mais recente rebento poético é “O Livro-Arbítrio das Evas – Dentro e Fora do Jardim” (Ed. Editus – 2014).