Grávida do ser que me habita
vou parir a mim mesma.
Outra.
Quando a lua anunciar negruras
já serei o que sou.
Mariposas cintilam lilases
voos e auroras.
***
Costuro palavras
no assoalho dos dias
a ver se liberto
os pés
de existir entre homens.
***
Fênix
Para Rita Santana
No chão, os meus restantes.
Estatelei-me no voo.
Esfacelada, a altura era o solo.
Uma asa esmagada
um pé quebrado
os olhos parados
o tronco desconjuntado.
Restantes em fragmento do que te dei inteiro.
Recolhi as partes.
Lavei com lágrimas
sequei com rotos sorrisos.
Secreto unguentos de sangue e muco
e cicatrizo os cortes.
Suturo as dores com o preto fio dos meus cabelos
para deixar marcado, no corpo da fênix,
a porção mulher que há em mim.
***
Abaeté
A água escorre dos olhos
sobre a face escura.
A água escorre das roupas
dentro das mãos negras.
Escorre dos olhos
das mãos da mulher
a dor dos dias.
A água escura da lagoa
lava as roupas
e a alma.
***
De cor
na cidade alba
os olhos brilham retinas cegas.
entre alvos passos
e braços
o invisível caminha.
***
Cio
A fêmea exala
o cheiro rubro
da vida
Baiana de Salvador, Lílian Almeida é professora adjunta na Universidade do Estado da Bahia e doutora em Teoria da Literatura pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. Participa de “Além dos quartos: coletânea erótica negra Louva Deusas”, “CartoGRAFIAS” (Funceb) e “Profundanças 2: antologia literária e fotográfica”. Publicou “Todas as cartas de amor” (ficção) em 2014, pela Editora Quarteto. Venceu o prêmio Edital Caramurê de Literatura 2019 com o livro “Pulsares”.
Ana Mendes nasceu em São Paulo do Potengi, interior do Rio Grande do Norte, em 1994. Graduanda em Filosofia, pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte, escreve desde os 12 anos e declama desde 2014. Teve poemas publicados na coletânea Profundanças 2, publicou nas antologias CidaDelas (2017, Sebo Vermelho) e Blackout (no prelo), participou do grupo de declamadores Dirocha, assina a fan page Erro Errante, no Facebook, e o blog Pensamentos avulsos. Utiliza-se ainda de zines, como forma de publicar seus escritos, tendo publicado: Birgona, diário de um Cego; Prazer Pega Mate e Come e Terno. Seu feito mais recente foi ganhar o Concurso Othoniel Menezes, com a antologia poética intitulada Bélica. Os traços desencontrada(mente) brilhantes que marcam a identidade poética da potiguar falam muito sobre seus embates com o mundo, ao passo que geram o encontro perfeito da inspiração com a palavra. De olhar emblemático e postura crítica, Ana Mendes denuncia em seus escritos vários dos problemas sociais brasileiros e mundiais. Para além das lutas identitárias, percebe-se certa agudez nos versos que instigam reflexões variadas aos leitores. Mulher lésbica, poeta, declamadora e educadora, é no encontro com o papel que o brilho de Ana se faz forte. Quando Ana declama, aí sim, é Açofrio entrando pelos olhos e ouvidos e significando ainda mais do que se pode denotar, no aqui e agora da arte!
Ana Mendes / Foto: Talne Freitas
DA – Captar os múltiplos sentidos que a palavra assume, tanto no momento da feitura, quanto na emissão e recepção da poesia, cremos ser uma das sensações mais intensas vivenciados pelos poetas. Quando a poesia é impressa em livros, esta troca se dá com um intervalo de tempo mais espaçoso do que quando a obra é declamada! Você participa junto com outros sete poetas do Coletivo itinerante Di Rocha, cujo lema principal é: “Poesia pede rua!”. Conte-nos um pouco sobre a experiência de declamar seus poemas para o público, no aqui e agora da arte.
ANA MENDES – Grata pelo convite, esta é uma linda oportunidade de me aproximar das pessoas que possam vir a ler meus poemas. Anterior ao Di Rocha, eu já me experimentava declamar na cidade de Natal, mais ou menos desde o final de 2014 para cá, pois o Di Rocha é de 2016 e encerrou as atividades no mesmo ano. Então, antes disso, eu já declamava em saraus improvisados ou organizados, festas (tipo “invadir a programação” e irromper nas brechas, entre uma atração e outra, com um poema), eventos culturais de modo geral. Declamar foi um desses acontecimentos ébrios e espontâneos, fui percebendo sua potencialidade através das reações das pessoas, a princípio, e pelas sensações que performar me suscitavam; não necessariamente nesta ordem, mas achei curioso dizer assim… Como todo acontecimento, não sabia ao certo tudo o que o impulsiona, mas sempre tentei refletir o que eu queria com isso, além de gostar da adrenalina (risos), isto é, o que fazer disso, a ponto, inclusive, de precisar dar uma pausa para pensar sobre. Apesar de comunicativa e fazer um curso (Filosofia), que dá uma boa base argumentativa, eu me percebi silente em alguns espaços de debate (ou do cotidiano mesmo) por ene motivos. Assim, compreendi a voz-palco como a guisa de me projetar no mundo, ou, pelo menos, na cidade de Natal, já que sou uma interiorana estudando na capital, acredito que foi também a forma que encontrei de conhecer a cidade e me fazer conhecer. Sobre a experiência em si, para mim, é ato puro, pois tenho impressão que minha mente/pensamento, por alguns minutos, está em suspensão. Acredito que declamar, no hoje, é um manifesto de liberdade, seja qual for a forma/estilo ou conteúdo do poema.
DA – Em seus poemas há algumas menções a palavra erros, como no zine independente Bigorna – diário de um cego, onde, ao final, você assina: “diagramação e todos os erros sobrepostos: Ana Mendes”, além disso, você é autora da página erro errante, criada em 2017, na rede social Facebook, que funciona como uma vitrine com parte de seus escritos. Qual a acepção do ritmo errante em seus textos? Há alguma relação existencial? A seu ver, em qual medida o erro é importante à existência humana e qual sentido eles tomam em seus poemas?
ANA MENDES – Birgorna foi minha primeira zine, a versão que te passei foi a primeirinha. A frase no final era uma ironia aos possíveis erros gramaticais e de estrutura, que eu poderia ter deixado passar. Não apenas ironia, porém assumindo os “erros” que são próprios de escritos de diário, uma vez que fiz uso de “automatismo”, isto é, deixar me levar pelo subconsciente. Em outra versão, tem a revisão de Ayrton Alves (risos). Bom, creio que Bigorna é um marco. Porque eu tive muita resistência de criar um material físico, pois era um tipo de “exposição”, que foge do meu controle, ao contrário do blog, da página no Facebook. Mas é marco não apenas por isso, porque também é uma transição na minha forma de escrever, aqui assumo a prosa e certo surrealismo. Apropriei-me de erro e errância, refletindo sobre como me sentia na época e ampliei isso para uma perspectiva mais “universalista” sobre a vida. Então, sim, possuía uma veia existencialista nesse movimento. Apropriei-me das palavras também, como que relembrando a mim do engodo da perfeição, dessa busca obsessiva que, por vezes, caio. Quando criei a página era a fim de dar mais visibilidade aos textos, de perder o medo de me expor, pois até então utilizava apenas no blog e num grupo de Facebook. Mas, com o passar do tempo, fui percebendo que erro errante se tratava de um projeto, de me tornar mais íntima de mim mesma e da minha escrita, a tentativa de romper com minha própria maneira de escrever, fazendo uso do automatismo e depois “lapidando”, retirando vírgulas, maiúsculas, quebrando a sequência das orações, por exemplo, e, contraditoriamente, empreender a busca por uma identidade. Sobre a importância do erro: acredito que quando não o confundimos com a perspectiva cristã de pecado, é uma delícia, pois é abertura aos múltiplos significados na literatura e, também, se atentarmos mais aos processos do que à finalidade (o certo), iremos perceber o quão plural foi o aprendizado sobre algo (na educação). Então, meu exercício é me voltar mais ao movimento de cada “estilo” de escrever (quando observo meus poemas antigos) do que uma execução fidedigna do que projetei – isso quando o escrito tem uma intencionalidade “traçada”. Não sei se expliquei direito (risos). Hoje, acredito que estou muito mais analítica do que errante, mas gosto de relembrar os processos pelos quais passei…
DA – Falando em processos, conte-nos: como ocorrem seus processos criativos? Muito da abordagem estética dos poemas decorre das influências e vivências dos seus criadores. No poema “Escrever poemas é…”, você deixa escapar algumas dicas de como sua criatividade passeia por um eterno pique esconde/ de enxergar o olho ocultar o choro. Seu locus social enquanto mulher lésbica influencia em sua poesia? De que maneira isso reverbera?
ANA MENDES – Acho que não sei responder a estas perguntas, acredita? Mas posso tentar pensar aqui e agora alguns elementos: sobre processos criativos, quando os mencionei, é como um olhar em retrospectiva, de ter me percebido mudando. Mas há algumas intenções que sempre me permearam, como, por exemplo, intentar poemas concretos e poemas cada vez mais concisos e precisos, ainda que sempre me parta de um “descontrole”, quando bate a vontade de escrever, isto é, não tenho muito controle no exato momento que tenho vontade de escrever. Às vezes, parto de palavras específicas, que vejo se repetirem nas minhas leituras. Talvez muito do meu processo criativo se dê por repetição, ou seja, aquilo que sempre me visita, em sons/gestos, ideias, imagens. Fico intrigada quando estou “perseguindo” a mesma coisa, por certo tempo. Ultimamente, tem sido elementos bélicos. Sobre ser mulher lésbica, creio que sim, reverbera, só não sei descrever como na poesia ou em processos criativos isso se dê. Mas faço questão de declamar um poema que tenha algum conteúdo explícito sobre minha sexualidade, o amor por uma mulher, entre outros. Inclusive, a primeira coisa que tentei escrever (acho que aos doze anos) foi uma música que eu falava que gostava de uma “pessoa”. No começo, eu ocultava os pronomes femininos para que ninguém soubesse. Mas acredito que parte de não saber responder tua pergunta também seja porque estou refletindo muito sobre meu gênero, e isso perpassar, experimentar a minha feminilidade e masculinidade, ou algo entre os dois. O que ainda posso comentar sobre ser lésbica e a poesia é que fico puta em ver que quando nós temos espaço na literatura, ou quando somos reconhecidas em certos espaços, é sempre através da poesia erótica, que, para mim, só escancara o quanto há de fetichismo e hipersexualização.
Ana Mendes / Foto: arquivo pessoal
DA – Na sua fala “quando somos reconhecidas em certos espaços, é sempre através da poesia erótica, que para mim só escancara o quanto há de fetichismo e hipersexualização” há uma clara denúncia à construção estereotipada da mulher lésbica dentro do campo editorial. Estereotipação essa que condiciona a escritora a uma temática específica: a erótica. Qual o mecanismo utilizado por você para se desvincular dessa armadilha? Além disso, há entre os seus escritos textos que problematizem estas questões? Se não, quais os perigos em se abordar estas questões de identidade do mercado literário?
ANA MENDES – Sendo curta e grossa: eu não escrevo mais poemas eróticos, e, se escrevo, não publico online e tento experimentar passear por estilos de escrita de tempos em tempos. De imediato, não foi uma escolha consciente, mas, quando li sua pergunta sobre quais mecanismos utilizo, me veio essa resposta súbita. Sobre a segunda pergunta, acredito que, quando voltei a escrever em 2014, eu problematizava muito sobre a questão da gramática, não apenas como crítica, mas foi também a guisa de expurgar a ideia de não ser “boa”, por não dominar tudo da gramática e da história da literatura. Sobre os perigos, eu não saberei responder a essa questão porque, sinceramente, não penso a respeito do “mercado literário” convencional como um risco ou obstáculo para mim. Por que eu estou no mundo, sabe? A melhor publicidade é estar na rua, trocando com as pessoas, e outra, estou atenta às micro editoras e pessoas que desenvolvem seus trabalhos alternativos e afetivos em suas produções, como a Muganga Edições (RN), Sol Negro (RN) Padê Editorial (DF). Numa perspectiva mais crua, empoderamento e questões identitárias ganham cada vez mais força, portanto, vendem. Então, acho que o mercado deva se adaptar (suponho que já esteja, pois capitalismo é isso (risos)). No mais, boto fé em micropolíticas; por isso, minha atenção voltada para essas editoras.
DA – No que toca as temáticas, quando analisamos a história da escrita das mulheres, notamos que existe uma grande luta no sentido de colocar a voz da mulher enquanto uma voz humana, capaz de falar sobre mais variados temas. Isso porque, durante muito tempo, os temas ditos universais eram reservados aos homens, enquanto às mulheres foi oferecido o recorte “literatura feminina”. Nesse sentido, também caminhou o espaço reservado às escritoras lésbicas. Como você enxerga o comportamento do mercado literário com relação a sua literatura? Qual importância tem a coletânea Profundanças 2, que utiliza selo online, como forma de driblar a dinâmica desse mercado?
ANA MENDES – Huumm… fiquei surpresa e grata com o convite da Daniela Galdino. Um convite como este, que integra uma diversidade de mulheres e de conteúdos – pelo modo que foi e é manejado (muito dialogado e articulado para dar visibilidade a singularidade da todes) – amadureceu minha visão sobre produção e divulgação da literatura, como também me pôs a refletir sobre o meu ser escritora e o que eu queria disso, ou seja, amadureceu minha confiança, pois alguém (que admiro o trabalho) gosta e confiou naquilo que produzo. Assim, creio que a importância e o diferencial do projeto é o diálogo que a coletânea Profundanças 2 estabelece entre ela e o social, a fim de resolver o problema que é a invisibilidade do nosso trabalho literário e intelectual. Sobre o mercado em relação à minha literatura, irei me ater a minha cidade e como tenho visto a dinâmica por aqui, pois minha vivência sobre publicações que envolvam outrem é muito restrita, já que produzo independentemente meu material (zines). No geral, vejo que há poucas editoras interessadas numa troca sincera para além do lucro. Será que beiro a ingenuidade descrevendo assim? (risos). Percebo como há um movimento de usura, de apropriação de algumas lutas para obter vantagem (financeira) apenas para si, uma vez que o “apoio” às pautas é apenas pontual e não sistemático.
DA – A autopublicação pode guardar duas faces distintas, por um lado o autor tem a liberdade criativa garantida, por outro, a responsabilidade sobre o processo de distribuição aumenta significativamente. Você disse que produz independentemente o seu material (zines). Explique sobre esta forma de auto publicar. O que é uma zine? Qual a dinâmica da produção e da divulgação? Aproveite e fale um pouco sobre as temáticas abordadas por você nestes materiais.
ANA MENDES – Ah! Zine, a palavra é um diminutivo de fanzine, que consistia numa revista improvisada (não profissional) e de baixo custo de produção, feita por fãs, sobre bandas ou outro conteúdo, que surgiu nos EUA no século 19. Foi largamente utilizada com diversas intenções, tanto no movimento punk, literário e de artes gráficas, como é o caso dos quadrinhos. No Brasil, é conhecida como qualquer produção independente e muito usada pelo movimento literário. Sobre a dinâmica de produção e divulgação, sigo intuitiva e orgânica. Produzo conforme vai me batendo a vontade de ir a algum evento cultural da cidade; no geral, sigo escrevendo e “guardando” material e, quando vejo ali um padrão de narrativa, passo a organizar para impressão. Assim, por ser uma produção/escrita espontânea, não há uma temática escolhida de antemão. Mas sobre os temas nos zines já publicados: Bigorna, diário de um cego é um relato em prosa, em micro textos, de sonhos; Prazer, Pega Mata e Come são pequenos poemas eróticos; Terno, concisos poemas sobrepostos como cílios, escritos movidos pelo tom terno de conteúdos diversos.
DA – Nas imagens contidas na obra Profundanças 2, você tem um olhar bem emblemático, forte, além disso algumas delas estão em preto e branco. Fale um pouco sobre o processo criativo dessas fotografias. Você pôde dar sugestões ou aprovar as imagens? Outra coisa, o quanto de Ana Mendes há naqueles frames? Conte um pouco de sua trajetória enquanto intelectual e escritora fazendo uma correlação com as imagens da coletânea.
ANA MENDES – Ah! Adorei a ideia de uma antologia literária e fotográfica, as fotos deram corpo e cor à diversidade literária ali. Inclusive, nunca tinha feito um ensaio antes. Sobre o processo criativo das fotografias, foi algo bem dialogado entre nós, eu e Josi Oliveira, a fotógrafa. Ela captou bem as características recorrentes nas minhas fotografias pessoais postadas no Instagram, como também daquilo que, por vezes, se faz intenção nelas, que é propriamente esse jogo de luz (claro e escuro). Também tentamos aproveitar o espaço que tínhamos disponível, utilizando como cenário alguns bairros que gosto muito na cidade de Natal, a Ribeira Cidade Alta e Alecrim, por exemplo. Sobre o que há de Ana naquelas fotos, hoje, talvez uma objetividade mais concreta a respeito desse jogo de luz: comecei a fotografar e filmar, neste ano, com uma câmera mesmo (antes só por celular). Minha trajetória intelectual… Bom, acredito que comecei a pensar mais sistemática/filosoficamente sobre o entremeio da filosofia e poesia, porém “performando” não apenas com a declamação, mas utilizando de recursos audiovisuais, nos quais não sou a protagonista, a princípio.
DA – O seu poema sem título publicado em Profundanças 2 é uma criação muito forte, com imagens e mensagens bem diretas: “Sempre que resisto/ Sou arrastada, esfolada, pisoteada. (…) Quem eu sou?/ Sou o sonho da Humanidade/ Que vocês esquecem e perseguem”. Acreditamos ser uma poesia de protesto. Fale um pouco sobre as denúncias pretendidas por este poema. Em qual lugar de sua identidade ele toca?
ANA MENDES – Este é o poema que acho muito “completo” e o que uso de front em todo espaço novo, portanto, é um poema para ser declamado. Foi escrito em 2016, após o rompimento da barragem da Samarco (empresa da Vale) de Mariana, num período no qual estava acontecendo muita coisa e eu estava muito atenta. Ah! Enquanto recorte, este poema é medo e violência, por esta mulher, LGBTGI+, baixa renda e também fala sobre muitos dos meus, em outros recortes de situação de vulnerabilidade social.
DA – O poema é uma catarse que denuncia a situação de medo e vulnerabilidade vivenciada pela comunidade LGBTGI+, no Brasil e no mundo. Mas um trecho chama a atenção pela sua menção à parte oriental do globo: “Afogam-me na lama/ Me bombardeiam no oriente / Às vezes, caminho com um fuzil / Que me pesa mais que meu corpo/ E a fome, minha companhia inseparável”. Se possível, fale-nos um pouco mais sobre o processo criativo e a rede de significados presentes em seu poema.
ANA MENDES – Confesso que receio dissecar demais o poema, mas tendo em vista seu conteúdo, acho necessário discutir sim. Bom, como foi escrito em 2016 não recordo muito bem, mas lembro de ter escrito de uma vez só e precisei fazer pouquíssimos arranjos, de tão súbito. Deu-se a partir de diversas imagens, que ora oscilam sobre o oriente, ora quanto às periferias do Brasil. Intentei uma diversidade.
DA – Por fim, estamos em um período de transição presidencial bastante delicada, favorecida por uma onda conservadora bastante forte. Como você analisa a atual conjuntura? Quais seus sentimentos e prognósticos para os próximos anos, no Brasil? Qual papel assume a arte nos processos de resistência? Quais reflexões imediatas que movimentos de repressão provocam em você, enquanto escritora?
ANA MENDES – Uau… Muitas questões. Então, há um tempo venho no autocuidado de me preservar e fortalecer, filtrando pessoas, ambientes e discursos. Apesar de uma sensação de maior sobriedade, de perceber todos esses movimentos individuais e políticos, não me sinto hábil para fazer uma explanação sobre a conjuntura de modo geral, porém, me vem uma palavra: estreitamento, de direitos e oportunidades, portanto, de realizar sonhos, sim, sonhos, projeções de nós mesmos em outro espaço-tempo, em plenitude e com dignidade. Em 2019, me formo, sem perspectiva de atuar como professora de Filosofia (algo que descobrir que gosto e quero, de fato). Porém, em 2018, quando precisei repor a grana da bolsa do PIBID (Programa Institucional de Bolsas de Iniciação à Docência) do qual participava (foi então que trabalhei num sebo, desde abril), então eu percebi o quão é improviso e também possível delinear estratégias a longo prazo (dentro de um ano?!). Precisamos nos lembrar da experiência de ver pessoas fora da bolha da universidade, tanto em coletivos como também individualmente (minha mãe), que se fazem de improviso-estratégias, desde sempre, não se encerrando numa perspectiva de medo. Assim, atentar o olho para o que acontece em minha cidade e atuar cotidianamente-vivendo, habitando a cidade, em toda sua confusa interação. Desde eventos culturais às economias criativas, intercâmbio de conhecimentos e autocuidados em práticas. Como exemplo, pretendo dividir, junto ao Ateliê Sunsarara, uma oficina/minicurso de argumentação lógica, o ateliê da artista visual (grafiteira) Solar Shana Precária, que visa criar um espaço, no qual se reúnam mulheres, para trocar conhecimentos e artes, regularmente, em 2019. Então, acredito que a arte, pelo menos em minha vida, enquanto catarse me provoca uma “força-cuidado” criativa de me projetar no mundo, é minha espinha dorsal. Desse modo, enquanto escritora/performer/educadora, estou atenta aos improvisos-estratégias que possam me desviar. Desejando que as repressões não alcancem meu íntimo e oferecendo, no diálogo com o outro, a mesma brecha.
Elis Matos é “cria” da Universidade Estadual de Santa Cruz, licenciada em Filosofia e bacharela em Comunicação Social, especialista em Gestão Cultural e mestranda em Linguagens e Representações. Trabalhou enquanto Coordenadora de oficinas, workshop e mesa do Festival de Cinema Baiano, nas suas IV, V e VI edições. Pesquisadora, cronista e palestrante feminista, lançou a tag #ondeofeminismomechamaeuvou e vai! Aprendeu a sonhar uma vida justa até as últimas consequências…
Desobediência. Palavra que carrega em si um peso imediato. A uns, espanta e até mesmo repele; a outros, é frente de acolhida. Em tempos de cinismo, hipocrisia, reavivamento ultraconservador e de uma teatralizada desonestidade intelectual a nos rondar, ser desobediente pode se revelar uma valiosa e efetiva maneira de se estar no mundo.
É conveniente frisar que desobedecer não é uma atitude gratuita de simplesmente nadar contra a corrente de um ordenamento jurídico, político, social ou econômico com um banal artifício retórico. Significa entender-se como sujeito permanente de transformações, o qual luta acima de tudo para tornar presente a sua vez e voz num panorama necessário de existência pela preservação daquilo que lhe é demasiadamente humano e caro, a identidade própria.
Diante de um cenário de adversidades, o qual não é apenas secularmente constituinte de um país como o Brasil, há vozes que precisam se fazer presentes e, desse modo, marcar suas preciosas posições de existência. Aliando-se a este tipo de entendimento, uma poeta como Daniela Galdino faz do seu caminhar um permanente movimento de afirmação nos mais plurais níveis. E presenciamos esse vigor expressivo não apenas nos seus escritos, mas sobretudo nas frentes em que atua.
Dona de uma voz transgressora que demarca e expande a sua consciência do que representa ser mulher num mundo como o nosso, Daniela também se espraia pelos territórios da performance, do ensino e do ativismo cultural. Este último vem muito envolto numa noção sócio-política de engajamento frente a questões ligadas à visibilidade das mulheres, bem como aspectos importantes associados às temáticas de gênero.
A autora do emblemático livro de poemas Inúmera (Ed. Mondrongo), através do qual deixa transbordar toda a sua íntima, plural e peculiar visão de mundo, agora dedica o continuar de seus passos para a difusão do coletivo de poetas e fotógrafas Profundanças 2. Celebrando sua segunda investida editorial, esta obra privilegia as expressões de mulheres que se insurgem contra o manto da invisibilidade, o qual, dentro de uma nociva construção social, tentam lhes imputar cotidianamente.
O momento presente, pontuado nesta entrevista, pede que falemos sobre os desdobramentos de Profundanças 2, sua pungência diante dos duros cenários que pululam na atualidade. Urge também falarmos sobre Missivas, performance que Daniela Galdino tem realizado e que alerta para silenciamentos em torno da mulher. Por tudo isso, o agora se volta para ouvir uma artivista que cada vez mais abre seus caminhos para o diálogo com outras vozes. É preciso tirar os móveis do lugar, desarranjar viciadas estruturas, abrir caminho para o outro, sua verdade e inteireza.
Daniela Galdino / Foto: Ana Lee
DA – Na apresentação de Profundanças 2, você emprega o termo re-existência como um símbolo que situa as expressões das mulheres dentro de um contexto de afirmação identitária. Qual o sentido maior de fazer com que tais vozes não se calem?
DANIELA GALDINO – O sentido da desobediência, sobretudo. Em tempos tão ameaçadores à nossa sensibilidade, escrever literatura, atuar na coletividade em busca de leitoras/es, devolver os insultos cotidianos com poesia (por exemplo) é desobedecer à ditadura do pavor e do desencanto. Então, resta-nos dizer e nos associar a outres que também têm muito a dizer. É por isso que na apresentação da antologia Profundanças 2 também afirmo que “agora estamos irmanades pelo grito” e que “odiadores não representam a totalidade do mundo”. Entendo a re-existência como um intenso desafio de reelaboração de si e dos lugares que ocupamos ou pelos quais transitamos. Não podemos sucumbir à desesperança. Isso seria um total desrespeito àquelas que nos antecederam e, com luta/sonho/sensibilidade, abriram veredas para que atravessássemos. Não penso que a literatura deva se dar ao luxo de ignorar esses desafios. A palavra literária é grávida de vida, de cotidiano, de embates, de delírios, de transgressões.
DA – Da primeira edição até aqui, o que mudou fundamentalmente? O momento atual, o qual nos toma de assalto com toda sua nebulosidade, configurou uma nova tomada de consciência?
DANIELA GALDINO – A primeira edição de Profundanças é de 2014. De lá pra cá, o país foi assolado por um golpe já denunciado pela imprensa, inclusive internacional. Em linhas gerais, essa foi a principal mudança para pior. No entanto, isso não significa que as outras formas de violência, as opressões (raciais e de gênero, por exemplo) sejam recentes. Não mesmo. A consciência crítica que nos leva a combater tais opressões também não é recente. Na literatura, a genealogia dessa consciência crítica é extensa, nos leva para o século XIX, se pensarmos em escritoras/es negras/os aqui no Brasil. O problema é que os espaços de consagração ou divulgação literária (como a universidade, as academias de letras, a escola, festas/festivais literários e mesmo o mercado editorial) historicamente têm tornado invisíveis as produções literárias que revelam discursividades dissidentes. Recente é o acordar (ainda lento, por sinal) de produtores de eventos, escolas, editoras para as “outras” vozes – negras, feministas, lgbti, etc. – e suas criações literárias. Alguns espaços sequer as reconhecem, como é o caso de boa parte das academias de letras, ainda insistindo naquele discurso desgastado: literatura é literatura e se basta, não deve ser “contaminada” por outras questões. Entendo que o estético e o político não devam ser apartados. E assim tenho sobrevivido como artista que dialoga com outres fazedores de artes. Estão nos bombardeando a todo instante. À literatura cabe a “tranquilidade” de se colocar à parte disso? A minha resposta é um estrondoso não. E, em verdade, a literatura não está isolada no mundo, há intensas formas de ativismo literário, de artevismo (como se diz).
DA – Com estas vozes dissidentes a que você se referiu, uma nova perspectiva de linguagem surge, algo evidenciada sobretudo pela forma de grafar certas palavras. E, sabemos, isso potencializa uma importante vertente discursiva. Acredita que tais mudanças no trato linguístico precisam também ser incorporadas nas práticas formais?
DANIELA GALDINO – Sim. Bem sabemos que a língua é reelaborada no social, que está em constante transformação. Em Profundanças 2, por exemplo, temos a presença de duas artistas trans não binárias, sendo uma delas da fotografia. Daí, generalizar pelo masculino se torna incômodo, não só para essas artistas, como para nós que construímos o projeto na coletividade. No âmbito do projeto passamos a grafar o termo “Fotógrafes”, como uma provocação para que outros gêneros sejam representados para além do binarismo masculino-feminino. Entendemos que não se trata só de uma troca de palavras, mas de um amplo sentido relacionado às formas de igualdade de gênero, o que, desejamos, devem ser incorporadas nas práticas cotidianas.
Daniela Galdino em Missivas / Foto: Ana Lee
DA –Quando você observa o resultado de um projeto como o Profundanças, consegue vislumbrar a presença efetiva de alguma transformação no campo das representações sociais?
DANIELA GALDINO – Profundanças é um projeto que está em curso, estamos no segundo livro num período de pouco mais de dois anos. Então, transformações serão percebidas no processo. Como é um projeto que combate a invisibilidade de escritoras no cenário da literatura, já se torna provocativo, ainda mais por ter a visualidade como algo importante. As duas antologias publicadas trazem, além dos poemas/contos/crônicas, ensaios fotográficos. Isso não é aleatório. Desejamos difundir imagens dessas escritoras em seus lugares de origem e/ou atuação, evitando qualquer forma de objetificação. Importante, também, por se tratar de um projeto que traz, em sua maioria, escritoras inéditas, muitas delas negras. Então, essa visualidade, esse contato de leitoras/es com imagens dessas escritoras, é uma forma de oposição à invisibilidade a que me referi há pouco. Além disso, Profundanças provoca deslocamentos, encontros. Cito como exemplo a poetisa Dayane Rocha que, apesar de ser pernambucana, não conhecia a cidade do Recife. Foi a partir de uma atividade do projeto (uma roda de conversa realizada no Espaço Pasárgada, em agosto/2017) que Dayane esteve pela primeira vez na capital do seu estado. Eu estava com ela e presenciei uma cena profundamente tocante. Chegamos ao Recife numa quinta-feira à noite, a cidade naquele intenso movimento de rua (trânsito frenético, pessoas saindo do trabalho, ônibus lotados). Nos dirigimos ao prédio onde ficamos hospedadas e, da janela de um vigésimo andar, vi Dayane chorando muito e observando os prédios imensos que restringem a visão da paisagem. Ela me disse: “quero voltar pra Brejinho”. Na manhã seguinte, eu me acordei com um poema que ela escreveu bem ao modo da tradição do Pajeú, o seu sertão (e ainda nos deixou um poderoso mote: “Recife, tu és mais dura/ que coração sem poeta”):
Buzinas, carros, barulho
O teu céu reflete prédios
Tua gente vira entulho
Por conta dos intermédios.
Tua paz é estressada
Até mesmo a passarada
Canta uma nota incompleta
Cantando na partitura…
Recife, tu és mais dura
Que coração sem poeta.
Trago esse exemplo para dizer que os encontros têm acontecido. Encontro com outras, com nós mesmas, com as estranhezas cotidianas… e isso tem nos transformado a todo instante. Dia desses, numa conversa in box, Renailda Cazumbá (escritora baiana que está em Profundanças) me disse: “você é uma refazedora de novos lares! Lares poéticos”. Somos colegas de trabalho na universidade e, aos poucos, comecei a desconfiar que Renailda escreve. Perguntei pela primeira vez, em 2013, ela disse que não. Na segunda vez, não perguntei. Já enviei o convite para ela participar de Profundanças, em 2014. Inicialmente ela não aceitou, depois foi convencida. Dito e certo: ela me enviou arquivo com poemas datados (alguns do final da década de 80). A partir disso, Renailda tem sempre relatado como foi difícil atribuir a si o nome de poeta; como tem disso uma revolução interior: se ver ao lado de outras mulheres que escrevem. Estou falando de uma mulher negra nascida no recôncavo baiano e vivida no sertão. Uma mulher que me diz: até a minha casa deixou de ser a mesma depois disso (a sua primeira experiência de publicação literária).
Já podemos falar de abalos na representação de si. E isso também envolve leitoras, leitores que temos encontrado pelo caminho. Pessoas diferentes nos mais diversos espaços (ruas, escolas, universidades, coletivos culturais, redes sociais, eventos etc) que têm nos feito relatos sobre a importância de se reconhecer na escrita e na imagem das escritoras que estão nos dois livros. Acho que a primeira poderosa transformação a que posso me referir é essa.
DA – Você crê que a literatura voltada para o ambiente virtual encerra uma substancial dinâmica de construção das identidades?
DANIELA GALDINO – Eu entendo que a literatura divulgada em ambientes virtuais nos insere em outras dinâmicas de diálogos com leitoras/es. Para você ter uma ideia, o primeiro volume de Profundanças já foi lido em escolas públicas, tivemos notícia de que circulou em turmas de um programa de formação de educadoras/es no sertão baiano. Ao mesmo tempo, numa pesquisa na internet, descobri que uma docente da UENF e IFF, a Analice Oliveira Martins, iriá apresentar uma comunicação acadêmica em Portugal (o Seminário Mundial de Estudos da Língua Portuguesa, outubro/2017). Nesse trabalho a profa. discute antologias literárias brasileiras e ensino, dentre as obras analisadas está Profundanças 1. Imagina a minha surpresa! Outro exemplo da repercussão: em novembro deste ano a mestranda Elis Matos (UESC) estará numa congresso na Argentina, apresentando um trabalho que aborda o feminismo não binário a partir do poema “Enquanto meus pés balançam”, de JeisiEkê de Lundu, que foi publicado em Profundanças 2.
No nosso caso, publicar um livro virtual resolve uma questão: a falta de recursos financeiros. Tem mais: Profundanças é um projeto independente, já nasceu na contramão e até o momento não vislumbrei captação de recursos via edital, por exemplo. Pode ser que no futuro façamos a opção pelo livro impresso. Por enquanto, a virtualidade tem nos levado ao encontro de leitoras/es distantes e desconhecidos. Eu, por exemplo, não conheço a Profa. Analice Martins, só depois de encontrar o resumo do seu trabalho na internet, fiz contato por e-mail.
Por ser um projeto que envolve imagens (ensaios fotográficos), sei que Profundanças demandaria custos relativamente altos. Isso talvez limitasse a quantidade de exemplares a serem impressos e, consequentemente, reduziria o público que teria acesso. O livro virtual tem nos dado uma maior liberdade nesse diálogo palavra-imagem e a grande aventura é saber que a circulação é ainda mais imprevista. Talvez tudo isso influencie a construção de identidades.
DA – Sua performance Missivas traz à tona importantes reflexões sobre a invisibilidade da mulher em nosso tempo. Desde o início do espetáculo, já somos tomados de assalto pela metaforização de um peso através da melancia que você carrega e vai passando, ao longo do caminho, por mãos masculinas. O que dizer desses sinais de alerta?
DANIELA GALDINO – São incontáveis os sinais de que o patriarcado e seus tentáculos imputam a nós, mulheres: a inferioridade, invisibilidade, o aniquilamento. As violências se manifestam de várias formas e, o pior, vão se cristalizando como normalidade. A violência não tem existência por si só. É uma fabricação social e, como tal, necessita de sujeitos que movam essa roda. Por outro lado, se a violência é criada em sociedade, é nesse mesmo espaço que ela deve ser desconstruída, desfeita. Como proceder? Denunciando, (des)educando, descolonizando mentes e saberes, refazendo práticas cotidianas. O meu espaço de atuação tem sido a arte: a poesia e a performance. Como performer, tenho como prioridade sair do palco tradicional e ocupar as ruas e outros lugares aparentemente inadequados para a atuação artística. Prefiro me inserir no cotidiano das ruas, dos pontos de ônibus, dos mercados, das feiras – com seu ritmo, com seus sons, gritos e silêncios. Tem sido uma experiência fortíssima, pois a rua me traz o imprevisto, a possibilidade de interagir diretamente com desconhecides. E o contato – seja pelo choque ou acolhimento – faz de cada apresentação uma estreia. Tenho buscado esse diálogo, primeiramente, com as mulheres com as quais me encontro; mas é imprescindível deslocar, provocar e dialogar com os homens também. Só acredito em arte que potencialize as transformações (de si, de nós, do mundo).
DA – Como você percebe a reação do público masculino diante de uma performance que o põe no cerne de uma discussão?
DANIELA GALDINO – Missivas se divide em dois espaços: a rua, com um cortejo; e um ambiente que minimamente garanta condições adequadas para a trilha sonora e interpretação dos poemas. Nesses espaços as reações dos homens têm variado entre o espanto, o incômodo e até mesmo o desprezo. Explico essa última reação: na rua a performance implica em entregar uma pesada melancia para os homens, enquanto entrego cartas poéticas para mulheres e também digo frases secretas no ouvido delas. Ao mesmo tempo em que interajo com cartas e sussurros às mulheres, os homens seguram a melancia. Muitos já recusaram, teve até um, em Garanhuns (PE), que me hostilizou. Outros ignoram completamente a minha presença, desviam o caminho. A maior parte dos homens têm se incomodado, mesmo “aceitando” segurar a melancia. O desconcerto é visível, eles não sabem o que fazer com esse peso. Há, também, a reação na segunda parte da performance, quando interpreto os poemas e outras formas de interação com o público se desenvolvem. Geralmente fazemos uma roda de conversa após a performance e não houve uma só vez, desde a estreia (em março de 2016), em que não houvesse depoimentos de homens que assumem estar perturbados. Sinceramente, sinto prazer ao perceber essa perturbação que nada mais é do que o contato com as nossas palavras de mulheres dissidentes, com a ação performática e o convite para participar, acolher em si os desajustes. Importante dizer também que Missivas tem trilha sonora ao vivo e a proposta é convidar um músico a cada apresentação/temporada, que traz o seu repertório para dialogar com a proposta. Tenho feito questão de convidar homens para fazer a trilha porque dessa forma eu também os provoco, enquanto artistas, a ler/ouvir e se contaminar com o que nós, mulheres, escrevemos. Até então os parceiros musicais têm revelado incômodos e verbalizado isso nas rodas de conversa. Eles entram na performance e também percebem que, naquele instante, não são protagonistas; talvez aprendam a ouvir, não silenciar… Enfim, lógico que as transformações não são imediatas, mas só em gerar esse incômodo, já é maravilhoso pra mim enquanto artista dissidente.
DA – E o que dizer da interação das mulheres em meio às provocações sugeridas por Missivas?
DANIELA GALDINO – Tem sido uma experiência incrível do cortejo à roda de conversa que acontece pós-performance. Estou circulando com Missivas desde março de 2016 e em todas as apresentações aprendi algo forte. As mulheres têm me ensinado muito. A forma de interação é diferente. Não digo que elas sintam mais do que os homens – isso nunca poderemos medir, o território do sensível -, mas a resposta tem feito do ato performático um intenso espaço energético. Tenho várias histórias para contar sobre Missivas, comecei a elaborar o diário da performance, sempre escrevendo dias depois de cada apresentação. Na verdade, relatos curtos que me façam lembrar do que aconteceu. E esses relatos trazem as mulheres na linha de frente. São várias histórias. Cito três.
Em 2016, numa das apresentações, uma jovem teve um ataque de choro e aquilo me chamou muito a atenção. Após a roda de conversa eu notei que ela estava abraçada com dois colegas gays e que os três choravam muito. Fui lá e ouvi isso: algo na performance disparou a memória dolorosa do estupro que a jovem havia sofrido há dois anos. Fiquei paralisada, a performance não fala de estupro, mas a força de tudo o que a moça tinha presenciado e vivenciado em Missivas ativou essa dor. Chorei junto com ela e os amigos dela. Algo que não foi publicizado, ficou entre nós. Difícil esquecer o que aquela moça me disse: “quando eu fui estuprada, era inverno, eu estava de calça, botas, casaco… e ainda assim o cara me violentou… ou seja, nenhuma mulher pede pra ser estuprada, nada justifica o estupro, nem mesmo se a vítima estiver com roupas curtas. Violência é violência”.
Recentemente, em Itabuna, eu estava fazendo o cortejo de Missivas para que um professor da UFSB (o Rafael Guimarães) fizesse o registro audiovisual que vai gerar uma vídeo-performance com fragmentos do trabalho de várias artistes. No cortejo, logo de longe avistei uma mulher que me chamou a atenção, me dirigi a ela e disse a frase secreta. Ela ficou paralisada, olhando profundamente nos meus olhos. Percebi que era uma mulher com transtornos mentais, retribuí a profundidade do olhar. Segui o caminho porque nessa parte da performance priorizo a comunicação com o olhar, sem mais palavras. Só que a mulher me seguiu, me perguntou: “o que é isso que você está fazendo? Por que você me disse aquilo?”. E eu não respondia com palavras, apenas com o olhar. Mas ela não se deu por vencida, me seguiu de novo, segurava a barra da minha saia e repetia a pergunta. Ela parou na minha frente, olhou de forma profunda e falou: “Não fique assim, você está tão bonita”. Depois, segurou no meu braço (sem impor força) e de forma acolhedora me disse: “Você tá bem? Tá precisando de alguma coisa?” Aquilo me emocionou, eu chorei retribuindo o olhar profundo daquela mulher e segui o meu caminho.
O terceiro exemplo foi em Ilhéus. Também no cortejo, me deparei com essa cena numa praça: uma idosa vendendo churrasquinho. A praça fica perto de um ponto de ônibus. No momento, havia incontáveis pessoas, pois o horário era de final de expediente. Apesar do intenso movimentar, ninguém me atraiu mais do que aquela mulher de marcas profundas na face.
Performance, pra mim, é um mergulho no imprevisto. A minha guia são as energias do momento. Eu também tenho amor pela rua – esse espaço-turbilhão onde o instante se consagra no diálogo com desconhecides. Pois sim. A energia me levou até aquela senhora trabalhadora. Cheguei perto dela e disse a frase secreta. Os olhos dela ficaram inundados; os meus, cheio de marés. Por alguns segundos nos olhamos fixamente. O instante se consagrou. Segui o meu rumo, mas me virei para trás e, novamente, conversei com o olhar inundado daquela mulher. Fiquei forte. Prossegui.
A fotógrafa Izabella Valverde (a qual não conheço) consagrou o instante pela segunda vez. E a cada momento em que olharmos para essa imagem, reviveremos o instante e acolheremos em nós as lutas, as inundações e a singeleza dessa senhora. A rua me ensina a cada ato performático. Sou grata a todas as mulheres que tenho encontrado pelas veredas…
Daniela Galdino em Missivas / Foto: Izabella Valverde
DA – Em que medida a convergência entre poesia e performance amplia as possibilidades de libertação pela arte?
DANIELA GALDINO – Nessa convergência só vejo desmedida. Sou uma artista em constante reelaboração, o que significa dizer que não meço as formas de ampliação do processo libertador. Quando as fronteiras entre linguagens artísticas e entre artista e público são rasuradas, o inesperado se apresenta. Gosto disso. Demorei para desenvolver essa consciência, sabe? Primeiro me assumi poeta. Há sete anos tirei a performer que estava no armário. Já havia feito teatro universitário nos anos 90, foi uma experiência incrível. No entanto, o mergulho na criação poética foi me trazendo uns estremecimentos que inicialmente eu não soube processar. Acolher e reler em mim esses impactos redefiniu caminhos. O entrelugar, a atuação híbrida que atrai a poesia para a performance e vice-versa têm me ensinado bastante. O caminho está se construindo nos caminhares, nos encontros, desencontros (comigo mesma e com o público). Esse processo já é libertador.
DA – Quem é Daniela Galdino?
DANIELA GALDINO – Uma mulher desobediente, sonhadora, fazedora de incêndios íntimos. Sou uma incansável artista que não vê separação entre o estético e o político. Aprendente e desaprendente. Sou uma “rameira das palavras”, “uma interrogação vagando com pressa”. Sou esta que vive atenta ao mundo invisível e seus poderes; atenta às outras mulheres – seus desejos, delírios. Um poema que representa esse estado é “Arada” (publicado em Profundanças 2 e inserido no meu próximo livro, Espaço Visceral). Eis:
Fabrício Brandão edita a Revista Diversos Afins, além de buscar abrigo em livros, discos, filmes e no ato apaixonado de tocar bateria. Atualmente, é mestrando em Letras pela UESC, cuja linha de pesquisa reúne Literatura e Cultura.
Há livros que são decisivos para a interpretação de um tempo. Registram fatos. Abordam temas. Promovem o diálogo. Fazem as pessoas avançarem, evoluírem. Alguns desses livros são constituídos de entranhas. São matéria viva, pulsante. São palavras vindas das profundanças. E tal conteúdo adere ao corpo do leitor. Quem o lê, ressignifica o mundo e o que nele existe. Antes, ressignifica-se.
Profundanças 2 reúne 16 escritoras: Aidil Araújo Lima, Ana Mendes, Andréa Mascarenhas, Daniela Galdino, Dayane Rocha, Débora Ramos, Erika Cotrim, Haísa Lima, JeisiEkê de Lundu, Laiz Carvalho, Larissa Pereira, Lílian Almeida, Mel Andrade, Miriam Alves, Rita Santana e Thalita Peixe de Medeiros. Não cabe a mim falar sobre cada uma delas, pois sendo uma, elas são todas, e sendo todas, elas são uma. O que eu poderia dizer sobre uma que não coubesse a outra? Incapaz de distingui-las dentro do discurso uno que o livro traz, e que assim foi feito para assumir a voz de cada mulher, coube-me expor o livro que não inaugura eventos sobre suas vidas – posto que está carregado da luta para livrarem-se de uma condição imposta –, mas assume uma voz antes inaudita, pois era calada.
Daniela Galdino organizou a antologia, que é literária e fotográfica. Ela também foi responsável pela apresentação e expõe sem meias-verdades o que precisa ser dito. A cada frase, o eco de quem hasteia uma bandeira com todos os brasões. O trecho de Conceição Evaristo que serve de epígrafe fala sobre o livro, colhido no céu da imaginação, repartido em folhas dadas às autoras e fotógrafes – como grafado no livro –, e, depois, aos leitores, antes que o sonho perca o penetrante toque da arte pura. Profundanças 2 ressalta a trajetória da mulher pelos caminhos da resiliência. Diz claramente que há um gene comum entre Frida Kahlo e elas, seja biológico ou não, e a sociedade insistentemente fracassa em desativá-lo.
Se uns textos tiram a mulher do sofrimento cotidiano e passam-lhes bálsamo nas feridas, outros são reações enérgicas contra as injustiças que lhe são imputadas. O leitor encontrará o depoimento de todas elas. E preste atenção: eu não disse confissão, segredo, desabafo… eu disse depoimento. Em alguns casos, sentirá o vento frio do inverno sobre o corpo nu; em outros, o sopro abafado do verão no areal. A própria voz é a principal ferramenta adotada pelas autoras, que, sabendo-se parte de um todo, dialogam de mãos dadas com as mulheres e olhos nos olhos com a sociedade. Quando alguma autora assume outra voz, retoma, em verdade, aquele gene comum citado acima, de forma que fala também sobre si. No entanto, não cala a outra voz. Serve, sim, de canal, para que todas sejam ouvidas. Elas são voz e porta-voz.
O leitor, por outro lado, conforme se apresente, terá orvalho ou geada, mas ambos resultantes da noite que elas atravessaram. A leitura poderá incomodar o leitor, se a mordaça estiver em suas mãos. Digo, porém, que o leitor de mãos livres sentirá confiança, se partilhar dos sinais que o livro aponta. Não vou falar ainda em felicidade e justiça, porque são dois estados a serem alcançados quando não houver mais obstáculos causando sombras e penumbras.
Tem-se prosa e verso. Na prosa, vemos regras clássicas e novas aplicações gramaticais. No verso, há os livres, os rimados, os metrificados, e as formas preestabelecidas, como o soneto. Em todo caso, há precisão. A linguagem dos textos é moderna e, embora às vezes pareça truncada, traduz o discurso interrompido pela sociedade e terminado pelas mulheres, porque elas são fortes. A inovação da literatura está presente no livro como está presente nas frestas de luz que os textos permitem ver. A novidade literária surge no desdobramento da própria reinvenção existencial das autoras, que sem perder a identidade e a meta, conseguem construir caminhos em qualquer ambiente.
A leitura flui muito bem, sempre alerta e renovada. Quando os temas são pontuais, a autora vai bem fundo, sem perder o fôlego. Quando os temas são mais abrangentes, a visão amplia sobre uma extensa superfície, até que o ponto nevrálgico seja atingido de uma forma contundente. O leitor permanece desperto a cada página, enquanto o cotidiano passa cru e objetivamente.
Umas das qualidades que se procura na literatura é a condição imagética, capaz de conduzir o leitor por cenários diversos a partir dos enredos. Os textos têm tal condição trabalhada com primor. E vão além. Em Profundanças 2 há uma via de mão dupla com a iconografia, pois as autoras foram registradas em ensaios por 19 fotógrafes, que foram, na respectiva ordem de apresentação das autoras, Camila Camila e Letícia Ribeiro, Josi Oliveira, Henrique Valença, Ana Lee, Cláudio Gomes, Andrezza Tavares, Haísa Lima, Catarina Barbosa, Lanmi Tripoli, Mariana Lisboa e João Caique, Adrian Greyce e Rodrigo Iris, Inajara Diz, Brenda Matos, João Santana, Shai Andrade, e Ytallo Barreto. Cada autora ainda recebeu uma ilustração de Bruna Risério. As fotos e ilustrações são figuras poéticas que acompanham os textos das autoras e trazem mensagens agora capazes de conduzir o observador por enredos a partir das imagens. É a inversão da arte que se espera em uma antologia literária; a transmudação para uma antologia fotográfica. A perspectiva muda. Contudo, leitor, lá estão os mesmos sinais.
Os ensaios e as ilustrações avançam sobre a descrição biográfica das autoras que, tendo deixado detalhes nas entrelinhas das poesias, deixam também nas entrecores e entreposes das figuras. Fotógrafes e a ilustradora conseguem traduzir em imagens as autoras, aproximando-as ao leitor. Um trabalho exitoso, que dá continuidade ao conteúdo, sem sabermos qual antecede qual, porque literatura e iconografia se combinam em busca de traduzir sentidos e sentimentos. Resolve-se, por ora, o impasse entre a palavra imagética e a figura que vale mais que mil palavras. O objetivo é trazer à tona aquilo que por muito tempo foi depositado no fundo.
Se o primeiro volume de Profundanças criou um neologismo, o segundo volume fixa definitivamente o verbete no vocabulário brasileiro, significando aquilo que vem do íntimo, que é da sensibilidade humana e se expõe de forma transparente. Diga-se mais. O livro não se encerra no conteúdo literário e iconográfico. Há, ainda, uma valorosa equipe de produção que permitiu tamanha qualidade. Isto porque a intenção não se resume a publicar o livro. É trazer o tema à baila, discuti-lo repetidamente até que se afastem as grades da imposição.
Geraldo Lavigne de Lemos é advogado e poeta. Membro da Academia de Letras de Ilhéus, autor dos livros À Espera do Verão (2011), amenidades (2014), alguma sinceridade (2014) e Massapê: Solo de Poesia (2016), todos de poesia e pela Editora Mondrongo. Tem publicações em jornais, revistas, blogues e antologias. Desenvolve os poemas furta-cores desde 2014. Foi curador do II Festival Literário de Ilhéus (2017). Mantém o instagram @geralavigne.