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144ª Leva - 04/2021 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Milena Martins Moura

 

Foto: Lu Brito

 

milena esconda essas vergonhas
limpe dos olhos dos pios a presença na casa

escórias
o sujo

paredes molhadas
de cheiro vivo

guarde no armário a presença na casa milena
guarde nas gavetas
debaixo das roupas proibidas
que roçam na umidade

sobras à beira do canal
dobras
na ponta dos dedos

é suja a presença na casa

a terra sob os peitos qual serpente
e outros castigos pelos feitos de eva

maçã vermelho-sangue salivando gênesis

 

 

 

***

 

 

 

terra sob as unhas,
sob as solas,
sob o ventre.
eu rastejo.
e o frescor do solo
contra a pele
conhece apenas
quem tem a minha sede.
tantos milhões de anos dedicados
a levantar a criatura humana
em duas pernas
e eu prefiro ver o mundo
desde o chão,
de fora, de frente.
contrariando o igual dos dias.
aqui, desse lado da lida,
todo e cada corpo
é um querubim rebelado
ainda acometido
pela dor da queda.
aprendendo passos senoidais.
aqui, desse lado da lida,
os ciclos se fecham
qual mandíbula nas caudas.
passamos bem, provando o proibido,
que não é tão saboroso quanto pregam uns
tampouco põe as malas na porta.
passamos bem, mas nos botaram
a cabeça a prêmio
num livro famoso
e agora estão querendo nos queimar.
não se vê piedade
para as que preferiram
abandonar pelo caminho
braço e pena,
rito sagrado e doutrina
em nome de um ângulo primevo
que nenhum ser
jamais verá
na vertical.

 

 

 

***

 

 

 

tenho uma dobra vermelha na pele do rosto
como um corte

entranha

……..você viu

a marca vermelha da cama no meu corpo
branco
onde dói o sol

……..você viu
os meus sinais em coleção
imitando a pose ereta de órion

ombro em rigel pé em betelgeuse

as partes proibidas à mostra
faz calor
e eu tenho sede

todos os tabus desnudados

……..constelações

e eu ariadne corpo celeste
vindo jantar nos escombros

as pontas dos seus dedos mastigando os meus contornos

entranha

todos os lábios
mordendo
a fraqueza da carne

 

 

 

***

 

 

 

suas mãos em expectativa
vinham me manter acordada
era hora do sol
…….isso tem que ser visto
o primeiro é o raio das promessas
que se fazem por medo
o segundo é o raio das mentiras
que se contam por amor
os que vêm depois são para aquecer a culpa nos ossos
…….isso tem que ser visto
a manhã é a hora de uma verdade
que não desce com água
nem harmoniza com vinho
hora do lugar da língua que ocupa o sabor do erro
salgado demais para o sangue]
…….em gota
…….em gota
vem ver
já vai nascer
vamos ter certezas
e as janelas ainda mostravam a cidade alagada

 

 

 

***

 

 

 

o reles ato
de atar
os cadarços
……..o inacabado
e a boca continua aberta em suspenso
……..eu respiro
o reles ato
de pés e mãos
……..atarefados
feito o sapato em tropeços
……..desatado
e eu sou inábil em usar as mãos
servem-me à inutilidade
de não arrematar o rosto
……..o inacabado
do ano de quem morreu
dos planos de quem surtou
dos meus dentes que eram tortos
e continuaram tortos
dentro apenas do limite do ignorável
o final da chuva em que eu dancei pequena
tomei bronca
mas não gripei
mamãe estava errada
……..você não é todo mundo
e quem não é todo mundo
é ninguém
e eu ainda tropeço nos pés
e sujo a blusa da escola de sangue
……..eu respiro
e o calor de madureira lateja as minhas veias de infância
o mundo passando
na telefunken
1984
que já estava ali quando eu nasci

 

 

 

***

 

 

 

comecei no mundo com um grito de dor
……..o primeiro ar

comburente universal
……..fogo no peito

a minha história
que nasceu do grito
sucessão de notas descolocadas
em sol maior

fogo grave
……..queimadura

a minha história
escrava no fogo da forja

molda o passo torto
com que tento dançar
……..na ponta
……..do lápis

nanquim luz e sombra
todos os fados padecendo ao sol

o meu deposto aos pés do fogo
gota de sal na pele nos pelos

……..cai o pano

eu seco os olhos com o desfecho inesperado

eu seco o corpo da impureza nos poros

 

Milena Martins Moura é mestre em literatura brasileira e tradutora. É autora dos livros “Promessa Vazia” (2011), “Os Oráculos dos meus Óculos” (2014) e “A Orquestra dos Inocentes Condenados” (Primata, 2021, no prelo). Integra a equipe de poetas do portal Fazia Poesia e de colunistas da revista Tamarina Literária. Publica suas produções em diversas esferas artísticas no Instagram @oraculos_dos_oculos. Contato: milenamartinstradutora@gmail.com.

 

 

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140ª Leva - 07/2020 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Milena Martins

 

Foto: Cristiano Xavier

 

Antes da queda é cárcere.

A comida não chega à boca
E o passado não chega ao hoje
Antes da queda.

É cárcere
Sangrando a carne nas grades.

Antes do salto da queda
É cárcere
Sob a tutela da incerteza da verdade.

Não saber é cela antes da queda.

Vieram as tochas, a fogueira.
Os versos condenados.
A morte de Hipatia pelo fogo e pela cruz.

Cárcere
Antes da queda.

E calou aos que buscaram gritar
O rastro de silêncio do carrasco.

Antes da queda, caíram as folhas,
Morreram os frutos,
Cortaram-se as línguas,
Nasceram os súditos.

Antes do nascimento é morte.

 

 

 

***

 

 

 

Hoje há meio sol lá fora
E um estrondo de antecipação.
É hora do risco.
Ponho sapatos apertados
E a dor é mais forte que eu.
Eu nunca fui muito forte.
Cada passo é um esquecimento.
Eu nunca fui muito forte.
Deixei a dúvida dentro do forno talvez ligado
E o propósito em cima da mesa.

Começou a chover no meio do caminho.

Eu nunca fui muito forte.

 

 

 

***

 

 

 

Alguém manteve o fogo
Depois que eu fugi.
Outros vieram continuar os trabalhos.
Eu corri até caírem as pernas
E rastejei uns metros mais.
Fui achada morta de bruços com os demônios presos às costas.
O fogo ainda arde na carne de alguém
Com o calor que eu temi um dia.

 

 

 

***

 

 

 

Não repara a bagunça.
É que eu enlouqueci de ontem pra hoje
E esqueci de guardar os sapatos.
As cartas acumularam pela metade,
As plantas morreram
E os pulmões agora doem.
A loucura chegou de madrugada,
Me achou sem defesa,
respirando entre os dentes.
E os cravou na carne dos meus braços
Como se eu fosse acordar.
E me bateu com os dedos no crânio
Como se eu ainda
Tivesse
Lágrima.
 

 

 

***

 

 

 

Eu machuco o som
Com as unhas.
Cada gota é um soluço.
Finjo-o num devaneio ruim,
Ferido da minha memória.
E só eu o conhecerei,
No escuro atrás dos olhos.
Morreu na garganta uma letra.
O mundo não terá
Esse castigo.

 

 

 

***

 

 

 

Cada desvio podia ser o último.
Eu tinha sopro demais.
Eu tinha gotas de mágoa,
Saltos de susto.

Eu já não conseguia olhar nos olhos
E nunca aprenderia a jogar.

E as décadas que vieram eram ainda futuro,
Que tudo pode enquanto não é.

O sopro se dissolveu em nota
E os aros ficaram vermelhos.
E a liberdade me caiu pelos ombros quando pude sorrir.

O jogo se acabou pela metade.
Ninguém ganhou.

Morreu o medo ao espelho.

 

Milena Martins  é mestre em literatura brasileira pela Uerj e tradutora. Autora dos livros “Promessa Vazia” (2011) e ”Os Oráculos dos meus Óculos” (2014). É também cantora e compositora, autora do EP Flamboyant (2018). Publica poemas, fotografias e pinturas no perfil de Instagram @oraculos_dos_oculos.