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149ª Leva - 04/2022 Dedos de Prosa Destaques

Dedos de Prosa I

Lorena Grisi

 

Ilustração: Drika Prates

 

Exercícios físicos

 

Faz atividade física? Faço, longe de mim ser sedentária. Não fumo, bebo pouco e carrego comigo este carma de gerações, estes genes, o peso dos dias, esta cabeça que não vem sobre os ombros, vem sobre o pescoço, porque os ombros, é o mundo o que eles suportam e por isso tenho hipercifose. Não sou preguiçosa, ando a pé por essas ruas levando tudo o que é desnecessário em minhas costas, só para ter certeza de que não vou utilizar, mas está tudo ali, são coisas minhas, é tudo o que tenho, pode-se dizer que configura um patrimônio. Juntei cada uma dessas peças como quem guarda pedaços de quebra-cabeças distintos na esperança criativa de montar paisagem própria, forçando encaixes e aceitando que buracos são também composição de destinos. Portando sempre meus objetos, sou meu meio de transporte, meu caminhão de mudança para cada apartamento semimobiliado alugado e, no percurso, perco bibelôs e memórias, o que deixa mais leves as caixas de papelão e é por essa razão, ademais, que eu sempre fui bem magra, embora nunca, nunca mesmo, tivesse sentido medo de que uma ventania me levasse consigo. Tudo ótimo enquanto estiver perdendo bibelôs, o que não dá é para perder as chaves, a cabeça ou o prumo. Eu sou muito ativa, me exercito, escrevo, apago, escrevo, reviso; no ano seguinte, eu abro o mesmo texto e reviso, apago, escrevo, guardo, esqueço. Esse exercício fortalece a mente e os ossos, explico, ele recomenda musculação três vezes por semana, no mínimo. Pergunto se ele já experimentou um teto desabando sobre si e tendo de levantá-lo com as mãos, no sentido oposto à gravidade, e isso na hipótese boa, que é a de ter um teto; ele me diz academia, corrida, pilates, eu digo meu querido, você não faz a menor ideia do que é ser uma mulher.

 

 

***

 

 

Língua morta

 

Fizessem uma perícia a cada vez que morre uma língua, constatariam males que incluem assassínios, genocídios, catástrofes naturais e outros desastres que geram órfãos, herdeiros de um inventário volátil e invisível. Onde o cemitério das línguas não mais ditas ou escritas, usadas, um dia, para dividir a terra em que se plantou o primeiro grão, onde se fincou a primeira bandeira, onde se construiu a primeira cerca em madeira e então se disse é meu? Em que língua uma mulher foi originalmente ofendida e deu seu grito inaugural de horror? Os despojos conhecemos até hoje, os despojos da guerra são do vencedor e a língua mantida viva também, em sua glória. Como se diz meu na primeira língua morta? Como se diz eu? Como se diz não cante essa canção em voz alta, não narre esta fábula? Fato é que hoje e em qualquer raio de futuro, mesmo antes do café da manhã, conviveremos com restos mortais de línguas por todos os cantos da casa e do corpo, no pensamento, no olho do outro, nas plantas no vaso sobre a mesa, perpétuas (ou Gomphrena globosa). Há uma língua que não diz mais e não se entende, mas se sabe, exatamente como a conversão do dinossauro em galinha. A língua de carne, essa também pode morrer, mordida ou queimada, ardendo, dizendo três vezes palavra de maldição, cortada a faca para aprender que alguns vocábulos talvez devessem estar mortos também. Sepulta-se uma língua e ela jaz num túmulo em que se busca desvendar a pequena fotografia preta e branca, sem data ou epitáfio. Uma língua, hoje, é algo que existe primordialmente para dizer fique aqui, em dez minutos poderemos enxergar o satélite, e é a partir dessa fala que todo o mundo se recompõe e gira. Uma língua morta é um fantasma triste que corre de medo de crianças. É uma sobra nas sombras, a cápsula do tempo enterrada, acidente de trabalho de escavação.

 

 

***

 

 

Pretérito imperfeito

 

Acabou-se o que era doce e os nostálgicos garantem que ontem foi melhor que hoje, que os anos 80 não retornam mais, que nos anos 70 não havia Aids e eu concluo que a Guerra do Golfo foi muito pior do que a Guerra do Vietnã, porque a do Vietnã veio antes e tudo o que vem antes é melhor do que o que vem depois. Era doce. Poderiam ter conservado com sal ou com gelo, os nostálgicos, os saudosos, mas isso interferiria na doçura, que não voltaria mais e teríamos um passado salgado, ou aguado, nada condizente com nossa delicada história de afetos e ternura, mesmo que mais de um milhão de pessoas tenham morrido na Guerra do Vietnã. Era tudo muito doce, embora ensinem nas aulas de Ciências que são quatro as possibilidades de sabores – o doce, o salgado, o azedo e o amargo. Era tudo doce, mas acabou-se e agora usamos toda uma gama de açúcares ou de adoçantes artificiais que tornam a vida diária mais palatável e porque o doce, desses quatro, é o único sabor que tem conotação positiva e precisamos dele em nosso cotidiano cada dia mais insípido. Precisamos acreditar na doçura, mas os adoçantes artificiais são cancerígenos e o açúcar refinado dizem que é um perigo também. Os nostálgicos, os saudosos, vazios de um período em que o buraco na camada de ozônio era menor, e de quando não havia alimentos transgênicos, e de quando havia menos arranha-céus fazendo sombra nas areias das praias brasileiras, os nostálgicos se embrenhariam em pequenas fazendas produtoras de mel, caso as abelhas hoje não estivessem enlouquecendo com tanta mudança no ecossistema. Porque as abelhas também estão nostálgicas, saudosas e vazias, deu até no noticiário mês passado. Era doce, todos juram que era doce, mesmo que o Vesúvio tenha destruído Pompéia no primeiro século de nossa era, quando o Vietnã não era uma questão. Era doce, tinha até uma cereja em cima. Não salgaram os corpos de homens enforcados e de bruxas queimadas vivas, de modo que só a doçura se preservou na memória. De modo que neste atual século de nossa era teses estejam sendo escritas sobre afetos, músicas sobre a delicadeza sejam compostas e uma estética da suavidade esteja muito em voga nesse mês de outubro, hoje mesmo, quando não é mais doce como já foi, constatam os nostálgicos, os saudosos, os vazios e os perdidos. Era doce, foi doce. O pretérito imperfeito, dizem os gramáticos, exprime uma ação habitual no passado, enquanto o pretérito perfeito exprime uma ação que não era habitual. Acabou-se o que era doce, ser doce era habitual. Era uma vez. Desde o primeiro século de nossa era e mesmo antes. O anel que tu me deste era de vidro. Era doce, mas agora as abelhas enlouqueceram.

 

 

***

 

 

Carta

 

Se eu te dissesse – Me escreve, assim, a seco, intransitivo, o que você me enviaria? Uma carta de amor, de despedida, um cartão-postal, um e-mail, um bilhete, meu horóscopo, a foto de um recado no espelho, tua biografia? É certo que não diria diretamente que me ama, nem que acordou no meio da madrugada para não mais dormir porque não sabia onde eu estava e se eu voltaria. Me contaria do gato que trouxe para casa, da rua que mudou de sentido e agora deixa os motoristas confusos em frente ao prédio. Me diria que, mais útil que escrever uma carta, coisa que nem se usa mais, é escrever uma tese, um tratado, uma lei, algo que se imponha sobre os homens, palavras contra as quais qualquer insurgência é imputável com isolamento e castigos físicos. Teve aquela vez, na viagem ao Norte, quando eu perdi o catálogo dos lugares turísticos. Me escreve um catálogo. Me escreve um catálogo que fale se os lugares produzem arrepios, se têm cheiro, se o Sol vai queimar minha cabeça, se o caminho pode ser feito a pé, se, para chegar lá, basta fechar os olhos no chuveiro. Me escreve, mas escreve à mão, com essa letra que eu não entendo, mapa para a rua que mudou de sentido e que eu perdi, no meio da viagem.

 

 

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A casa

 

A casa, caixa de móveis desembalados e descobertos de lençóis, habitada, durante o dia, por este sofá velho, vazio e emprestado, em que alguém já se sentou para não cair no chão de desespero e dormiu, perdendo a hora. Há grades nas janelas, mas o Sol tem sua incontornável liberdade de atravessá-las e de queimar os rostos nos quais hoje se veem manchas e linhas de quem observou a paisagem atônito. Eram duas as cachorras no pátio, latindo para os outros cães que passavam por trás do muro, e o barulho dizia dessa ordem perdida em que os seres se reconhecem, se cumprimentam e estão atentos aos cheiros. Nesta casa, três famílias, em seu tempo, celebraram aniversários, receberam notícias de mortes e penduraram quadros em diferentes paredes que já foram brancas ou amarelas. Da casa de baixo, sente-se cheiro de carne sendo assada e há uma conversa, entre mãe e filha, sobre objetos perdidos nas escadas. Debaixo dela, a casa térrea, vazia e de porta fechada, hospedagem provisória de ácaros e de pequenas aranhas tranquilas, na privacidade dos cantos e das frestas. A casa, arquivo de espantos em quarto e cozinha, tem uma moradora, à noite, na hora em que se imagina que todos dormem, mas há uma verdade e é esta: há o pesadelo, o suor frio e os banhos. É tarde para se preocupar com visitas, é cedo para consultar a meteorologia. E o universo é dentro da casa e, não, fora, e isso inclui os raios, as tempestades e os objetos não identificados, dos quais fazem parte utensílios domésticos que determinam a completude de um lar: mesmo sem uso, tem-se o que é preciso, além de um fogão, de uma cafeteira e de um acendedor automático. Vê-se, na sala, uma mesa com papéis e livros que indicam as tarefas de quem reside na casa. A mesa é bússola, é rosa dos ventos, por isso está centralizada. Em cima dela, um castiçal com uma vela apagada. Dali, contam-se dez passos para a cama, dez para o aparelho de som, dez para a gaveta de facas. A casa, neste terreno argiloso e infértil. Amanhece. Na rua em frente, os cães encoleirados passeiam na hora esperada.

 

Lorena Grisi nasceu em Salvador. Publicou, em 2021, o livro de poemas “Exercícios físicos” (Editora Paralelo13S). Tem textos publicados nas coletâneas “Hilstianas vol. 1” (Editora Patuá/Instituto Hilda Hilst, 2019), “Antologia Ruínas” (Editora Patuá, 2020), “Terra, fogo, água, ar: coletânea lírica” (Edufba, 2020), “Mulherio das Letras Portugal” (Editora In-Finita, 2020), “Parem as máquinas!” (Selo Off Flip, 2020), “Cartografias vol. 1: contos de autoras brasileiras” (Editora Primata, 2022), no Jornal Relevo (set. 2021), na oitava edição da revista Felisberta, na revista Aboio, na revista Mulheres do Fim do Mundo (abr. 2021), na segunda edição da Revista Torquato (abr.-jun. 2020) e na Revista Contempo (maio 2020).

 

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147ª Leva - 02/2022 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa III

Ianê Mello

 

Ilustração: Bianca Grassi

 

A HORA DE 50 MINUTOS

 

com as mãos sobre o colo sentada naquele divã um profundo sentimento de estranheza toma conta de mim e a vontade que tenho é sair correndo dali sem pestanejar mas a consciência me impede e distraidamente pouso os olhos nas paredes brancas com alguns quadros dependurados que me fazem lembrar a visita que fizera recentemente a galeria de artes que era por sinal uma de minhas distrações prediletas e sinto meu rosto corar quando me deparo com o olhar inquisidor do terapeuta a minha frente esperando que eu desse inicio a sessão o que com certeza eu não tinha a menor vontade de fazer porque hoje me sentia esvaziada de palavras mas sabia que quanto mais eu demorasse mais me sentiria constrangida e seria dinheiro posto fora coisa que eu não poderia me dar ao luxo assim como também em anos de terapia aprendera que essa resistência de minha parte significava algo importante que estava submerso representando material de primeira a ser trabalhado em terapia e tudo o que tinha a fazer era dizer a primeira frase que depois o resto fluiria como um rio caudaloso e o tempo passaria a ser pouco para extravasar uma torrente de emoções que aflorariam o que traria em mim um arrependimento por não ter começado logo a falar e assim pensando não me demorei nem mais um segundo e só me dei conta que o tempo havia terminado quando meu terapeuta olhou discretamente o relógio em seu pulso

 

 

 

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REPRISE

 

naquela manhã quente de verão suas mãos estavam frias e todo seu corpo parecia desvanecer numa palidez inesperada enquanto ouvia sem acreditar o homem que amava dizer-lhe adeus em palavras lançadas como pontas de faca afiada em seu peito matando dentro dela qualquer fio de esperança nesse amor ao qual se entregou sem medidas coisa que jurara para si mesma não mais fazer pois já conhecia o fim e sabia o quanto era amargo como fel e assim estava ele à sua frente agora sendo forçada a assistir o mesmo filme que já conhecia passar frente a seus olhos na mesma forma forçadamente amena de dizer adeus como dizem todos aqueles que se julgam superiores de alguma maneira por haverem superado um sentimento que antes existia e por acharem que se bastam a si mesmos podendo do outro dispor como fosse um chinelo velho que não tem mais serventia sem pensar ao menos que esse mesmo objeto tanto tempo lhe serviu e aqueceu os pés em tempos frios e nem mesmo o olhar incrédulo do outro pode dissuadi-lo do término e nem mesmo a lágrima que disfarçadamente escorre do canto dos olhos o comove como se uma capa de frieza o envolvesse e nada mais possa tocar seu coração que um dia se mostrou tão amoroso e seus lábios que agora proferem palavras duras e cortantes nem mais parecem os mesmo lábios de onde só saíam palavras murmuradas docemente e promessas de amor eterno

 

 

 

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O OUTRO EM MIM

 

É… a vida que escapa da memória e se perde em devaneios . Quando é melhor esquecer para que a fantasia tome o lugar da realidade… sabe-se lá… E a fantasia ganha asas e voa cada vez mais longe e cria raízes e cada vez mais real ela se torna. Traveste-se de encantos e assume o lugar que não lhe pertencia. Faz-se tentadora com seus ardis e artimanhas com a expressão do desejo de uma vida não vivida. E quem não quer uma vida que não é a sua? A grama do vizinho é sempre mais verde e os frutos mais saborosos. O doce mistério de ser o outro! Apoderar-se de outra vida, de outro corpo, incorporar o outro em si e perder-se. Loucura insana? Pode ser… mas o que importa? Quando se está perdido busca-se uma saída e há tantas portas! E atrás de cada porta o desconhecido habita, sempre à espera para ser desvendado.

 

 

 

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VIDRO E CORTE

 

um sabor de morte e de coisa finda no desalento em cacos de vidro espalhados por todos os lados a vida que se esvai em poças de vermelho sangue a tingir o branco azulejo como marco derradeiro de despedida do débil e frágil corpo jogado na frieza desse chão impuro de um banheiro público onde tudo são escombros e dejetos na louça trincada e encardida do vaso sanitário ainda cheirando a urina e da pia entupida onde tantas mãos foram lavadas em dias e noites desumanos daqueles que vivem na descrença de uma vida melhor abandonados que estão à própria sorte e desgraça sem ter ao que recorrer e ninguém com quem contar para ao menos dividir sua miséria de existir e estar pela vida mendigando migalhas de miseráveis de espírito sem compaixão e sem coragem de continuar põem fim a sua parca existência de forma trágica como esse corpo que aqui jaz

 

Ianê Mello é carioca, nascida no Rio de Janeiro. Foi professora e orientadora educacional no município. Pós graduada em Pedagogia pelo Instituto Isabel. Experimenta diversas propostas em textos literários, desde poemas e haicais até a prosa. Edita e participa de fóruns literários e tem textos publicados na Comunidade Benfazeja, na Revista Zunai, na Revista e Mallarmagens, na Revista Biografia, na Revista Novitas e na Antologia “A nova poesia brasileira “, pela editora Shogun Arte. Em 2013, publicou seu livro de poemas “Tessituras e Tramas”, pela editora Verve.

 

 

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142ª Leva - 02/2021 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa II

Vivian Pizzinga

 

Foto: Joice Kreiss

 

viga-mestra

 

coleciono noites. Olho aberto deslizando impune sobre prateleiras, livros, cinzeiros, hélices de ventiladores, olho aberto avançando sobre os escombros do que sobrou do dia. Há certa mudez ressoando nos quadriláteros adjacentes à sala estupidamente calada. Coleciono delinquências íntimas no caminho do baixo ventre, eloquência insuspeita que não deixa pistas, caminho borrado das 3 da manhã ou mais. Coleciono horas mortas em dias úteis, escassas tardes no que há de ar nos pulmões, e é quase nada. Coleciono asfixias, apneia viga-mestra num punhado de hesitações, olho aberto percorrendo a dúvida, vida esporádica percorrendo o chão. Na contabilidade dessa vigília endêmica, é dia sim, dia não que se dorme. Coleciono olhos abertos em seu escrutínio pela noite desprovida de bordas, avermelhadas pupilas de quem há muito se perdeu do caminho do sossego. E note: nenhuma gota a mais resolve o impasse. Coleciono solilóquios. Deslizes. Dias amanhecendo em qualquer época do ano.

Coleciono ecos.

 

 

***

 

 

miasma

 

isolada. exilada. asilada. arrasto um nó górdio no epicentro do corpo. vômito acumulado (volumoso líquido miasmático com espessura em centímetros) ou fome de muitos dias. o nó górdio deu cinco voltas ao redor do pâncreas, associou o fígado no bolo visceral e arrebanhou estômago e intestino delgado na embolada sem repente. a jornada em espiral do nó adelgaçou o intestino grosso, deu pontadas no marco inicial da garganta, fez o céu da boca rebaixar seu pé direito: língua esmagada, dentes espatifados, voz desaparecida, procura-se. jogo-me na cama, em exílio. pode ser que não me levante mais. olhos fechados pingando suor miram o teto com insistência. por horas a fio. asilo. azia. perco o fio da meada.

 

 

***

 

 

erro de cálculo

 

devastação. sintoma. erro de cálculo. entre o desejo, o amor e o encontro, larguíssima margem de erro. isso foi o que disseram, isso foi o que anotei. sintoma, glaucoma, rizoma, livre associação de palavras fanhosas. e os cadernos? esses, em que desenha suas anotações e depois joga fora, farta da sua fisionomia ali espelhada em letra que ninguém entende. e os cadernos? engodos com pauta, um preparado promissor de garrancho e linhas tortas. blocos prontos para o fracasso. às vezes, contêm espiral. não levam ninguém a nada, só à última página. 98 folhas. lá estão anotadas as pegadas sujas desse erro de cálculo, desse cálculo errático, dessa margem sem borda. é sintoma errante o que trago nas mãos, sempre retorna ao peito natal, aloja-se eficaz na sombra espraiada no lado esquerdo. é glaucoma que estoura a vista, liquefaz a paisagem imediata, rizoma que não se desborda. o amor é erro e é cálculo sim, acolho as advertências, sequer uso o artifício da rasura. mesmo assim indago, com o sintoma pulsando desde dentro, devastação a céu aberto, erro de cálculo numa equação sem começo, mesmo assim pergunto, minha voz um murmúrio acovardado: mas, vida, e se aí, quem sabe, eu for feliz?

 

 

***

 

 

repousa a cabeça larga na colcha do fracasso. de bruços, pensamentos disléxicos, afetos dislálicos, paixões tristes. quer esquecer o dia, apagar conversas da lousa ressecada, ocultar intentos. sente o lençol morno ofuscar o corpo, o sol morto descascar a sombra. epiderme castigada de toques sem mãos. afunda no colchão rugoso, ponte entre o nada e  coisa alguma, toca de silêncios distraídos.

desiste.

abandona a memória de si encorpada de atributos rasos. é melhor esvaziá-la. fecha os olhos vivazes para os sinais das vísceras em levante. desaprende a língua pátria, os gestos hábitos, os gestos rápidos, os gestos dádivas. repudia os verbos vagos. persegue o juízo último, perde o ar na empreitada. dobra em quatro o pensamento, adia-o, agora não.

adormece sem argumento.

prefere não ter razão.

 

 

***

 

 

quando eu quase morri 

 

quando eu quase morri, havia pessoas à minha volta, elas não disseram nada, não fizeram nada, e não pude gritar. quando quase morri, minha voz virou um fiapo estrangeiro, e era áspero, e era triste, era terreno baldio. as pessoas que me rodeavam (havia pessoas me rodeando) não sabiam que eu quase morria, mas ouviram meu fiapo. uma delas chegou a tocá-lo, aquele fiapo estrangeiro, irreconhecível, esguio. ela puxou o fiapo, e o esticou, e o esgarçou, e minha voz era agora um istmo, deixou de ser território, nunca foi lar. quando quase morri, ninguém me reconheceu, e o último a sair não se preocupou em apagar a luz.

 

Vivian Pizzinga é escritora e psicóloga. Lançou Dias Roucos e Vontades Absurdas (contos), em 2013, e A primavera entra pelos pés (contos), em 2015, ambos pela Editora Oito e meio. Em 2018, lançou, em co-autoria com o escritor Igor Dias, o romance epistolar Extravios, pela mesma editora. Tem participação em coletâneas diversas, como Escriptonita (Patuá, 2016) e Cada um por si e Deus Contra Todos (Tinta Negra 2016). Atua como psicóloga em Saúde do Trabalhador e na clínica.

 

 

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130ª Leva - 02/2019 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa III

Samantha Abreu

 

Foto: Almir Bindilatti

 

Pequeno confessionário admiratório

 

Eu escrevo sobre mulheres, pois gosto de imaginá-las majestosas e donas de seus corpos, caminhando em direção a um pôr do sol, sumindo no horizonte dos sonhos.

Acho gentil a poética de seus ventres quando as trompas se transformam em galhos cheios de flores. Existe tanta beleza na anatomia das ancas arredondadas, uma arquitetura sutil dos desníveis.

Admiro a deformação de seus rostos quando sentem; me encanta a euforia de suas vozes e o silêncio de suas dores. São seres que não passam incólumes pela cerca viva e espinhosa da grade de suas próprias costelas.

São jeitos de quem aprendeu sobre os contornos da existência, que enfrentou os desvios necessários das lâminas, que sobreviveu aos abismos diários das pequenas mortes.

Eu escrevo sobre mulheres para descobrir os segredos do mundo.

 

 

 

***

 

 

 

Uma mulher é uma imagem em pé

 

Uma mulher se levanta roçando suas asas nas pernas dos sonhos

e as asas da mulher flamejam e estalam,

as asas chicoteiam quando a mulher se levanta pisando no acolchoamento de nuvens.

Sempre que a mulher se ergue do meio do nada, de dentro do vapor suado que circula o mundo,

sempre que ela se mostra, sempre que a mulher caminha

eu entendo que anjos e demônios usam seu corpo,

que anjos e demônios se irmanam

sob as formas que ela encontrou de encarar o abismo.

 

 

 

***

 

 

 

Meninas que saltam de parapeitos

 

Algumas meninas se debruçam sobre os parapeitos e observam encantadas outras vidinhas e pequenos afetos. Algumas meninas se debruçam sobre as grades e sorriem com os olhos. Depois se recolhem silenciosas para suas modéstias e sobriedades. Algumas meninas se recolhem.

Eu me deito sobre o vento pincelando no ar meus dedos de autoridade sobre o recato. Tenho desejo de gravidade infinita. E me jogo do parapeito das meninas, sorrindo as sobrancelhas e deformando a boca enquanto berro. Berro, mas não paro de cair. Eu desabo estendida em nuvens.

 

 

 

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Putas

 

Mulheres passam pela rua de todas as horas arrastando os pedaços de seus corpos anteriores, pedaços de suas trompas, suas pontas de astros. Passam altivas carregando o peso de antigos seios de tantas mamadas, braços marcados por unhas e barbas, genitálias explodidas por nãos que foram ditos entre berros, cabelos enozados por coágulos causados por vômitos cuspindo dentes.

Elas caminham juntas, passo a passo, cantando dolorosamente sua elegia da carne viva, enquanto a rua as observa quase vivas e asseguradas por um mandado de segurança: cem metros de distância e maquiagens de alta definição. Uma renovação pela graça de grandes laboratórios dirigidos por homens cientistas.

As boas pessoas que assistem ao cortejo rezam de cabeça baixa pedindo a benção do esquecimento, mas as mulheres seguem ensanguentadas em direção ao espaço reservado aos que pagam penitências e culpas: putas!

 

Samantha Abreu (Londrina/Pr) é professora e poeta, que pesquisa a literatura de autoria feminina pela Universidade Estadual de Londrina. Já foi publicada em antologias e revistas, além de participar de debates, projetos e eventos literários. Lançou “Fantasias para quando vier a chuva” (Orpheu, 2011); “Mulheres sob descontrole” (Atrito Arte, 2015); “A pequena mão da criança morta” (Penalux, 2018); e tem dois livros no prelo. Integra as antologias “O Fio de Ariadne” (Atrito Arte, 2014); “29 de Abril: o verso da violência” (Patuá, 2015); “Um Dedo de Prosa” (Atrito Arte, 2016); e “Sob a pele da língua” (Cintra, 2019). Seus textos foram adaptados para o teatro na montagem “Trouxe a chave para libertar sua tristeza”, da Cia AARPA. Faz parte do Coletivo VERSA, que pesquisa, organiza e divulga a escrita de autoras londrinenses.

 

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122ª Leva - 07/2017 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa III

Marcelo Ariel

 

Foto: Bárbara Bezina

 

Em A CRIAÇÃO DO MUNDO SEGUNDO O ESQUECIMENTO

 

O significante aqui é a sombra da árvore com sua música silenciosa quase tocando seus olhos, árvore ininteligível e silêncio amado com força suficiente para desintegrar a mistificação da linguagem poética, mas isto apenas no final, quando a sombra de um outro silêncio incancelável atravessar o espaço

 

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E se tudo for uma metáfora dos nossos sonhos? E se a realidade for um emaranhado de poemas e problemas tão misturados entre si que é quase impossível distinguir uns dos outros? E se o amor for no fundo a única maneira de distinguir uns dos outros?

Talvez as metáforas sejam ‘a droga do século’ mas na falta delas o amor pode se converter em mais uma droga anestésica, uma geração inteira viciada em ‘anestesia da vida interior’ não é melhor do que outra viciada em ‘fuga interior’, olhar para fora pode ser um ato revolucionário se nossa vida interior acompanhar o nosso olhar, vou reler o seu livro como se ele fosse um filme em estado puro ou seja, como se ele fosse ‘ algo vivo’ como os nossos sonhos, esse lugar onde o amor nasce ou se confirma como mais uma metáfora, a mais poderosa delas.

 

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Como acender uma paisagem para libertar os gritos?

 

Inesperadamente os sentidos mais profundos de um termo nos escapam se estamos no início de uma paixão por uma ideia vaga e errática como essa ideia do ao vivo (inexistente segundo a microfísica pois tudo é gravado) ou a ideia do encantamento como fundador do amor (impossível segundo a lógica mais abstrata e por isso mesmo uma longa sinfonia que toca muito baixa por dentro) como um pássaro que se apaga.

 

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Todas as tentativas de controlar, limitar ou destruir o caos formam a essência do nazismo psíquico, o caos é indestrutível e se multiplica através das galáxias, das palavras e dos silêncios.

O nazismo psíquico tem cheiro de menta.

Nós em nome do poema contínuo nos colocamos contra o nazismo psíquico neo-positivista dos livros de autoajuda e contra o nazismo psíquico pseudo-niilista e semi-hedonista da cultura das drogas.

o nazismo psíquico se alimenta da diluição da angústia em um pragmatismo ou utilitarismo disfarçado de ética-estética do vazio que por sua vez se alimenta da lógica do possível imediato da ditadura das coisas.

ora o caos já provou através da história que a vida se move dentro do impossível

e dissolve as coisas no ácido do tempo-morte. No ácido do tempo-êxtase

o caos é ambíguo como um elétron, ora é uma partícula de caos visível, ora é uma onda invisível de hipercaos.

o caos não é um teatro.

o nazismo psíquico é um cenário interior construído pela ditadura das coisas-conceito.

o hipercaos não é um poema.

nenhuma palavra jamais tocou na realidade, isso explica porque os escritores sempre fracassam quando tentam vencer o nazismo psíquico com palavras.

mas em verdade vos digo que a poesia fora das palavras é infinitamente mais poderosa do que a ditadura das coisas e ela virá como uma onda viva de dentro do hipercaos tudo o que chamamos de realidade será consumido por essa devastadora onda de sonho.

 

 

 

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Em O REI DAS VOZES ENTERRADAS

Manifesto Sabiá

 

 

18 de setembro de 2013 às 15:20

Conversando com um amigo sabiá, rimos muito das reclamações que fizeram de seus cantos. Ele disse que os cantos que mais incomodam são os quânticos desatrofiantes, que interiorizados oniricamente na cidade geram como primeira reação uma imediata indignação com os véus cegantes da pseudo exterioridade, e tem como consequência um acordar-revolta contra o próprio canto-reza (ele nomeou esse processo como ornitoclash anticósmico). Disse ainda que repelimos os cantos dos sabiás e dos sábios com a mesma ignorância que destruímos as abelhas humanas, atordoados e anulados pela pluriesquizofonia congelante e assassina do irreal. Tive de concordar, e rimos ainda mais. Quando lhe perguntei sobre os limites da desrazão, ele voou.

Depois me deitei no sofá e sonhei  que ele não havia voado e havia começado uma convenção telepática de Pássaros do mundo inteiro e  o Sabiá pousou em cima da lâmpada da sala e começou um canto-diálogo com o ‘Ele’ que é o eu dos sonhos:

Sabiá: – Nós somos o mesmo pássaro, mas de todas as formas de asa o seu olho é a mais bonita, a asa fechada no círculo, com todos estes fios finos

Ele: – Supercordas para receber as imagens do cosmos disfarçadas

Sabiá:- O canto do olho cria todos os sóis, você é um Sabiá diferente dos outros

Ele:- Eu sou um Sabiá, porque é o que todos nós dizemos quando encontramos vocês, definição é o assassinato pela nomeação

Sabiá:- Sim, vocês cantam isso com o olho-boca, mas a porta, o que vocês chamam de bico em mim, é em outro lugar na cabeça e é também um ovo que vocês quebram por dentro

Ele:- O cérebro, o nome do nosso bico é cérebro

Sabiá:- Então a flutuação dos raios é para dentro dos fios, aqui o ar é delicado e podemos conversar, mas meus eus estão chamando e tenho de voar para fora do seu dentro.

Eu acordo e não consigo mais pensar em outra coisa a não ser na origem da palavra ‘ Sábio’ e na ligação entre o canto dos Sabiás e o canto quântico dos Pré-Socráticos.

 

Escrito com Kleber Nigro

 

 

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Voltando para a floresta-sem-floresta que a película de Berkeley sempre confundida erroneamente com o véu de Maya continua escondendo. Nesse lençol de luz e gravidade que chamamos de VISÕES a ‘Une rose seule,c’est toutes les roses’ continua cantando :

” Ó imenso mar das formas coberto por este manto de olhares imensamente fechados…Logo mais TUDO estará flutuando como o sonho

Para acabar de uma vez por todas com o amor, basta chamá-lo de amor e esperar que a palavra dissolva A COISA… Que morre dentro do pote de vidro fechado de um nome ou passa como essas nuvens clonadas na superfície desse mar emprestado por um filme onde elas se deitam como putas ou dentes-de-leão filtrando um ex-poema dentro do pó. O amor é o esqueleto de um inseto.

 

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A Love Supreme

 

Cruz e Souza: Existe uma rutilância sublime nas auroras em contraste com o tempo que nos assombrava que tornava pálida a luz destas chamas que fomos e que hoje é musical se a este sonho for comparada.

John Coltrane: Talvez venha do Senhor todo esse resplendor, a luz invisível que era a música que hoje não podemos mais separar de nada, até da nossa carne, este pó de luz  que volta a ser luz e de novo pó da luz

Cruz e Souza: Sim, entendo teu discernimento da música e dentro da arquitetura da etérea leveza das experiências, eras músico…

John Coltrane: Não, tentei não ser isto, eu tocava para o altíssimo e tudo o que eu fazia era orar e receber os sinais, Ele só desce pela escada das harmonias celestiais e a música e a oração são a mesma coisa, como degraus dessa escada

Cruz e Souza: Já que falaste em escada, vamos subir…

 

Marcelo Ariel é poeta, performer e dramaturgo. Nasceu em Santos, em 1968, e reside em Cubatão-SP. Autor dos livros “Tratado dos Anjos Afogados”, “Retornaremos das cinzas para sonhar com o silêncio”, “Com o daimon no contrafluxo”, “Potestade e pássaro”, entre outros. Os textos aqui publicados integram o livroA névoa dentro da nuvem – Prosa reunida”,recentemente publicado pela Lumme Editor.

 

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114ª Leva - 08/2016 Dedos de Prosa

Dedos Prosa II

Samantha Abreu

 

milton-boeira
Foto: Milton Boeira

 

Faz sol

 

Logo agora que a chuva parou e que voltamos a ter vinis na estante. Agora, bem agora que não queremos mais ter tudo pois estamos de folga. Que não precisamos calçar sapatos, que a lua de mel mora no sofá de veludo. Bem agora.

Estava chovendo antes de ser hoje. Antes de ser este cabelo ruivo secando ao vento antes de ser vida acontecendo a partir das dez da amanhã. Mas dormir é sonho que também é noite. Bem agora que dormir é sonho eu escuto esses gritos lá fora e corro pra ver a morte, o ardor, a bomba. Bem agora, bombas. Explosões que não são coloridas e a gente querendo um banho morno seguido de pijama cama pra dois nossa comida. Bem agora que acabou a comida, que o sapato aperta e que a gente desaprendeu a dançar, já não temos cabelos nem sono nem os sonhos.

O que é que a gente vai fazer quando essa guerra acabar?

***

O golpe

 

O tempo entre a pancada e tombo está no cambalear das pernas.

As mesmas que vibram durante o ato – teu dia amanhecendo em mim – são as que cedem diante do fato de que tua ausência seja sempre

passagem.

O teu perfeito golpe

me pega na rigidez das coxas, para o amparo dos braços antes da queda.

Mas o tombo chega

inelutável,

fazendo do susto o sonho sempre depois do nascer do dia

o nocaute, a lona.

***

Guerrilha

 

Simulo que não, ele provoca o sim. Tem fácil acesso, nome na lista, ingresso livre. Entra, carrega as malas, todas as balas e todos os concordantes motivos. Ele me arranca os sorrisos, os suspiros. Arrasa todos os atinos.

Faz que não faz e desfaz a completa certeza do não.

E daí já não sei, já não importa: roupa, brincos e cordas. O banco de trás, o beco e o balcão. Guerra indeclarável pelo território alheio. Língua na boca do outro e cerveja esquentando na mão.

Enquanto ele derrete, eu sua.

Líquido e rubro amor que escorre. Terra invadida que ferve por toda a veia que corre,

briga no escuro, gangue de rua.

 

Samantha Abreu é professora em Londrina/Pr. Já foi publicada em antologias e revistas, além de participar de debates, projetos e eventos literários. Lançou o livro de poemas “Fantasias para quando vier a chuva” (Orpheu, 2011) e o livro de contos “Mulheres sob Descontrole” (Atrito Arte, 2015). Integrou as antologias “O Fio de Ariadne” (Atrito Arte, 2014) e “29 de Abril: o verso da violência” (Ed Patuá, 2015) junto com autores contemporâneos de todo o país. Seus textos poéticos foram adaptados para o teatro na montagem “Trouxe a chave para libertar sua tristeza”, da Cia AARPA.

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106ª Leva - 09/2015 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa II

Caio Russo

 

Sinisia Coni
Foto: Sinisia Coni

 

Confissão ao pé do caixão

Murmuras: mamãe.

Sonolenta a cabeça em cadência. Tocas aqueles tecidos turquesa. Toga da matriarca.  Tempo teve que desejaste a imobilidade desse superego que bolo de fubá tão bem fazia. Tua vontade era um tanto mais volátil, que fosse dar uma volta por uma semana até a raiva do “Você não vai filha, nem pensar” passar. Folga de filha. Férias da família. Pobre pequena, das Fúrias nada vem que não seja fulminante.

Murmuras: mamãe.

“Se você ficar de mentirinhas vai ver só, venho puxar teu pé de madrugada depois que morrer, ah se venho, faço questão, moleca”. Ria um riso dúbio, danado de delicado. Sabia ser tácita, tênue, torpe e tenra como tu que dela tascou os traços por atavismo. Não consegues derramar lágrimas. Levanta em ti uma confusão, balbúrdia como se de uma ora para outra passaste a sentir em mandarim. Tua mãe ali tensa, num sono nada tranquilo, parecia o ideograma de um rio em coma. Também os trapezistas ao redor, artistas dos sentimentos, como equilibravam bem tormentos, lágrimas caiam num choro compassado, conivente com a morte, morto, consonante ao ambiente. E tu esturricada como tundra gelada.

– Gente, que menina estranha, nem chorando está…

– Meu Deus, perdeu a mãe e parece que nada aconteceu…

– Sempre foi problema essa menina, precisava ver…

– Lembro que dava um trabalho para a mãe dela, nossa…

– Morreu de desgosto…

– Morreu de tanto passar nervoso…

– Infarte, nova como era?

Murmuras: mamãe.

Deslizas por entre as difamações ditas entre dentes. Aproxima-te do caixão e confessas ao ouvido de tua mãe o segredo. Sorri e segue em solilóquio com tua confidente, aquela que cobrirá teus pés noite afora.

Murmuras: mamãe.

***

Releitura de Caravaggio: Narciso em plástico

Ana: esburacas a terra seca ainda que sem unhas

Frio lá fora, sobretudo no imo de ti; espelhavas como uma patinadora sob o lago de vidro; encantavas, teu observar espalhavas em teus esporádicos anseios; trepidavas o olvido de quando embrenhavas nas nódoas de teus rastros náuticos. Quem defronte o espelho? Quem és senão tu no vácuo de ti?  Quem formula essas perguntas? Quem senão a agrilhoada consciência de si, encarcerada numa das tantas salas de tua íntima morada…

Enluarado teu dia é de uma noite imperturbável; num átimo tua face escorrega do congelado espelho, no lugar a vala translúcida da ausência de ti; emoldurada uma diáfana porta ao nada; eras inteiramente nariz, quem organizava tua face senão esse imenso olfato físico, adunco, herança em caídas moedas de um bolso judeu…

Rapinar transbordavas tua arguta inteligência, teu narigão, esse quem impunha tua presença, caneta que assinava o espaço por onde passavas; Lírio da paz, dependurado níveo em teu rosto angular, depois da cirurgia tomou-lhe o lugar essa desenxabida margarida; tiritas a cavar na face um oco de cartilagem, eras inteiramente nariz…

Narciso foste num livre índigo agreste, hoje ninfeia a boiar no estranho licor especular, não afundas, não afundas em ti, soterrada de ficares fora d’água; impressa na tua cara dois ofídicos buracos em catálogos comprados.

Eras nariz.

Toda nariz: respiravas hélio acima das nebulosas: de ora em diante carbono fluente nos escapes dos autos…

***

 

Zoom

Fulgura Ibirapuera no verão: sob verde acobertam asfaltado esgoto: menino lambe prazer absorto em sorvete: favor compensatório do pai no poro: embaixo do músculo fraturada infância: engole difícil: lodoso escuro esôfago.

Caio Russo é escritor, autor do livro “Delicado desespero de beija-flor em voo” (Chiado, 2015), pesquisador na área de Estética, História da Arte, Nova Música do século XX e Rugas em Rostos de Velhas. Tece seu tricô numa cadeira de balanço embaixo d’água. É iminente afogado ao longo do tempo em pausa.

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100ª Leva - 03/2015 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Wesley Peres

 

Foto: Gabriel Rastelli Quintão

 

o que as sereias O disseram. O disseram voz, O disseram peixavesávidas palavras líquidas estruturas, lâmina dáguaçólida, O disseram inscrições no corpo dele, palimpsestensionaram sua carne de açores e penínsulas, O disseram ruídos sutis habitantes da carne do cérebro e O disseram cérberos com plumas e outras figuras de linguagem infernais convexaconcavidades de formações violíneas de mulheres anjas bestiais d´avilas santas desejando travessia da própria carne por setas e cítaras dolorosas alegrias escorrendo pelas coxas adentro aforando as vísceras até dar de beber aos pássaros e a qualquer homem de nome ninguém

 

 

***

 

 

OS SONS ASSUSTADORES QUE OS PÁSSAROS CONSTRÓEM

 

Qualquer constelação que lhe ocorre num lapso, lembra-lhe as modulações do corpo, as pequenas rangeduras, nem escutadas, que inscrevem, na memória gelada do mundo, a mortificação tão viva dessa mulher, para quem olho, sabendo-a bela e jovem e que mesmo uma bela jovem é velha o suficiente para morrer. Ela olha para o mundo e sabe bem que só da coisa inerte a morte se ausenta, então, ela sorri e agradece a alguma divindade ausente (pleonasmo), o fato de a decomposição onipresente ser o mecanismo principal de todo e qualquer palimpsesto orgânico. Hoje pela manhã, quando ela me ligou, conversamos sobre futebol e origamis e obviedades do sr. Assange, sobre o vinho que não tomamos ontem e os olhos inexistentes do monstro do lago Ness e sobre os sons assustadores que os pássaros constróem cotidianamente no espaço entre a minha casa e a dela, o que, naturalmente, nos levou ao assunto “decomposição de todas as coisas vivas”. A ela, é bom que saibam, nunca lhe ocorre Deus, o que lhe diz respeito são as artérias das pedras, as rugas dos lagartos, a torção do tornozelo de Maria Sharapova (mulherzinha antipática, ela diz) e alguma chuva leve na tarde de Amsterdã ou de Araxá. Seus lapsos, nos quais lhe ocorrem constelações de todas as estirpes, sempre produzem, em mim, articulações sintáticas e sinápticas que desabam, líquidas, sobre o meu corpo, produzindo uma espécie de chuva que dissolve, parcial e momentaneamente, este nódulo duro — ser a coisa-homem.

 

 

***

 

 

Queira chamar esta taça de vinho de presença de Deus ou de o-nada, beba-a assim mesmo, acenda depois um cigarro ou um pássaro, caminhe por uma rua vazia ou pela constelação de letras que compõem o limiar de para-onde a mulher, na mesa ao lado, olha. Mais do que isso, se puder, deixe de lado essas coisas de Deus ou de o-nada, deixe que as palavras pensem, deixe-as em sua liberdade e seu aprisionamento que as unem e as abismam, as palavras. Fazendo isso, é possível que desista dessa história de salvação e, então, poderá beber esta taça de vinho, livrando o vinho (e a taça) de sua necrose-simbolismo-cristão, bebendo esse líquido de igual cor que os mares de Homero, sabendo, assim, que apenas ele lhe dará o gradativo sono, que imita a gradativa morte que experimentamos diariamente sem nos darmos conta disso.

 

Wesley Peres é escritor e psicanalista. Mora em Catalão – GO. Autor do romance Casa Entre Vértebras, vencedor do Prêmio Sesc de Literatura 2006. São dele os livros: Palimpsestos (poemas), vencedor da Coleção Vertentes cegraf/UFG 2007, Rio Revoando (poemas) USP/COM-ARTE 2003; Água Anônima (poemas), vencedor da Bolsa Cora Coralina 2001, publicado em 2002 pela AGEPEL. Em 2014, publicou As pequenas mortes (romance) pela Rocco. No prelo: O corpo de uma voz despedaçada (poesia, a sair pela Martelo Casa Editorial)

 

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99ª Leva - 02/2015 Dedos de Prosa Destaques

Dedos de Prosa I

Marieli Becker

 

Arte: Alessandra Bufe Baruque

 

Este espinho que guardo na boca, você não o entende, mas finge. Eu, uma mulher amarrada pelas pernas, também finjo. O espaço sempre manso com seus odiáveis pássaros que caem e caem sempre caem como um som que abre um céu, um caminho, e também aquele barulho que não se sabe o que é e é tudo o que está no mundo, aquela coisa que os débeis chamam de vida e que eu chamo de tempo maldito que nunca cala a boca. Este espinho cuja estupidez de uma revista chama de tpm, a estupidez do psiquiatra chama de depressão, a estupidez do poeta de melancolia e toda estupidez sempre chama. Eu com essa chaga maldita a buscar no alcoolismo um reverso medicamentoso, não me enganam aquelas caixinhas com suas faixas medonhas dizendo que podem te matar ou te salvar ou qualquer coisa que te atingisse, e você ainda finge que funcionam, porque dorme, e isso deveria bastar. Por que diabos o mundo tem mil anos e ainda a verdade não é coisa que escorra dessa boca espinhenta feito sangue novo e fresco? O cheiro, sempre o cheiro, de morte, de agressão, de penetração repentina, qual é o corpo que está preparado para essa desordem do mundo? A faca cotidiana não pode fazer buracos nos meus pulsos. Alguém poderia dizer qual é a utilidade deles senão essa ponte pulsando sangue, um toque, uma junção, uma coisa sem forma-face-sentido, um caminho disfarçado até sabe-se deus onde, porque não sei por que é que tenho mãos. Não gosto da poesia. Assim como não gosto de flores plásticas com seus espinhos metafísicos patéticos.

 

 

 

***

 

 

 

O movimento do luto não é um movimento, é um avesso da ação, é um movimento em rewind, uma espiral entortando seus espinhos ao fundo, abaixo, sempre em direção à cova. Um velar desfeito do olhar do tempo, a persistente vigília desse aparelho cardíaco ligado ao coma. Seu barulho, seu batimento, uma tortura japonesa. Nenhuma janela é aberta nesse quarto, o vidro sempre embaçado encobrindo a morte, faz crer que os mortos não são privados da vida. Ninguém chega a esse tipo de doente. O silêncio é a eterna espera dessa avaliação selvagem. Médicos-monstros ao redor da cama, ou da cova, segredam uma temida desesperança que suja os dedos, as unhas, e por debaixo das unhas, um cheiro que não se lava.

 

 

 

***

 

 

 

Ando cansada de você, fantasmático, de ter você na minha mesa de jantar toda noite. Estou sem voz a gritar que saia. Já não me importo. Já te olho nos olhos de morto, a te imitar no olhar que nunca pretende, que não percebe o arredor, que não olha nem pra fora, nem pra dentro, mas cravou-se em si, como um embrião que se engole pra tentar a vida. Estou machucada de ter você por perto, já não me importo. Desisti de pedir que saia, e agora eu reparto o pão nessa mesa, essa trilha cujo pássaro reteve dentro, cruelmente faminto, esse caminho que retornou até onde não havia mais luz.

 

 

 

***

 

 

 

Meu pé preso na cela do cavalo. Meu pé quebrado na cela do cavalo. Meu pé inchado, impedido, encaixado na cela. O animal dorme e sonha. Eu o observo, ameaçada. Meu coração espera que ele acorde e corra. Minha mente está embaixo d’água. Sob o falso silêncio da água. O horror silente aperta meus os ouvidos. Ideias morrem uma a uma, engolindo o sal. Meu peito intoxicado, um componente estranho o engrandece. O silêncio o engrandece. Meu pé quebrado embaixo da água, encaixado no silêncio do fundo do mar. Minha mente um cavalo assustado que dorme e sonha.

 

 

 

***

 

 

 

O desmaio alcoólico, a fluidez para o lugar nenhum. Um escorrer de olhos para baixo, as pálpebras apenas. O tempo é uma macumba mal feita. O meu corpo era o tempo distorcido. Teus dedos sinais enfermos que eu engoli. Um coágulo intra-uterino deslocado. Não era sexo. Não era corpo. Não era aquilo que não é matéria. Não era aquilo que não sabemos. Um tapete manchado na tua sala. Uma história feita da fumaça do cigarro que eu não fumo. Teu corpo buscando esconder teus segredos. Eu, um depósito. Era um amor de mulher vadia, daquele tipo que te abraça.

 

 

 

***

 

 

 

Um grito dentro de um grito, então mais outro, chupando-se, um a um e em sequência, uma ciranda maldita, e eu nunca alcançava a minha voz primeira. Aquela que tocava a goela, o sangue bem dentro. No máximo, era me dado uma imagem esfumaçada dos gritos, meio branca, meio cinza, tudo tão leve, e eu a andar a cavalo aos berros, a selvageria sem me entender, mas sem perguntar e era por isso que eu a amava. E quando eu queria pular do cavalo ele nunca parava, eu tinha que me jogar e eu sabia que não tinha chão nenhum embaixo, era apenas essa fumaça, não havia nada. Quem é que se jogaria? Mas eu escuto um grito, vindo lá debaixo. Talvez a minha goela.

 

 

 

***

 

 

 

Eu tenho os cabelos pretos, naturalmente, quero dizer. Acima do cabelo preto natural, eu aplico uma camada de tinta. Também preta. Eu gosto de ser uma farsa, então eu aplico a máscara que é idêntica à minha cara original, e finjo que sou uma mentira. Eu gosto de entrar na água e ver escorrer a tinta preta cheirando a amoníaco. Não quero ser a única manchada. Quero que escorra. Eu gosto de escrever mentindo para poder dizer a verdade, porque é o único modo suportável. Uso a tinta no cabelo, mas aproveito pra manchar um pouco a cara, me dá um ar de mulher perdida, o que é bastante excitante e adicionado o nível certo de álcool, consigo até sentir tesão. Eu finjo que não acredito em nada porque acredito que os descrentes fodem melhor. Vou tirando minhas máscaras, então, na cama, os pelos pubianos expostos a julgamento, uma máscara original que uso para me cobrir da minha nudez identitária.

 

 

 

***

 

 

 

Estou no corredor de um prédio, que sem pilares, flutua no escuro. Imitações de portas sem maçanetas, nas placas, a minha ausência de sonhos. Pisei num buraco, e não era um buraco, era um grito a agarrar meu calcanhar. Perdi a aberração que pariu a minha história, a matéria pulsante. Mesmo sem lugar, eu me sento, porque andar e chorar me assusta. Pego a foto do meu monstro, penduro na parede que não existe. Meu cativeiro fantasmático feito de fumaça. Estocolmo em chamas. Meu corpo carbonizado, o coração ainda batendo e sangrando. Líquido vermelho em cima da fuligem.  Título do meu livro em branco que está muito perto do fogo. E então, queima.

 

Marieli Adriani Becker (1986) nasceu e vive em Passo Fundo, RS. Atualmente está cursando Psicologia pela IMED, e tem interesse especialmente na área de psicanálise. Tem na escrita uma via de escoamento para questões internas, sendo que escreve por hobby e com uma frequência mais estável há pouco tempo.

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72ª Leva - 10/2012 Dedos de Prosa Destaques

Dedos de Prosa I

Alice Fergo

 

Foto: Mercedes Lorenzo

 

 

ALEGORIA

 

Numa gaveta, as viagens. O véu do silêncio. A hipotética presença de uma ave no mundo das coisas pares. Pensa-me e não temas a resposta. Afianço que o primeiro beijo subiu da água.

Também os olhos são vitrais. E passam informação de milhares de anos. Um rio. A fraga enorme que sustenta o céu. O rigor das coisas caladas. Há símbolos para o nosso encontro numa concha de orvalho. Ainda sabíamos tudo sem nenhum esquecimento. E dançávamos.

O sol parte do mesmo ponto. Das rosas. E arde. É desse sangue que a manhã começa. Sem desculpas. Enormíssima coisa viva que explica o princípio comum da arte. Pareceu-me ouvir da morte. Tu não estavas.

 

(A  poeta portuguesa Alice Fergo é formada em História pela Universidade Clássica de Lisboa. É autora de “As Mãos na Pedra” (1995), “Versos de Água” (2000) e “Quando junto às horas se ilumina um rio” (Labirinto, Fafe, 2009))