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146ª Leva - 01/2022 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa II

Gabriele Rosa

 

Foto: Fátima Soll

 

[falta, fio, fenda]

 

dias transbordados em xícaras de café. no corpo, silêncios. cortina, copo, cordão. a colher ainda adormece dentro do açúcar. ontem, sete dias atrás, vinte e dois, talvez, não lembro. a tv me assiste, o presente esgarça. lágrimas afogam peito a conta-gotas. horizonte de expectativas rompido. vivo um luto estendido. cada pessoa que morre habita o topo na pilha de corpos que cosem meus poros. dessocializada no álcool em gel. sorrisos agasalhados, abraços suprimidos. medo, máscaras, mortes. suspensão. angustio toques, engaveto afagos. a vacina bate à porta. Eles escolheram as trancas. a estabilidade são mil mortes diárias. mil camas vazias. mil copos deixados nas pias. mil vidas esfaceladas pela Covid-19. como não morrer dentro de uma política de morte? baços destroçados. o meu é um deles, mamãe. queria descrescer, sentir o balanço das tuas águas. aninhar no teu ventre, desaguar pulso. ventania, sopro, tufão. como não sentir medo sendo uma mulher no mundo? mulher, e agora sozinha. negligenciadas por governos fascistas. língua, lenço, linha. as mães não morrem nas canções de ninar.

 

 

 

***

 

 

 

[fornalha]

 

pés sufocados. escondo palavras nas meias coloridas. como caber nas frestas? a cada quatro horas rapto doze segundos de tempo. engarrafo momentos. ofegante, peito bate-estaca. fuligem, fagulha, pó. brônquios embaçados, umbigo aberto. as varandas escondem olhares irredutíveis. pensei ouvir minhas águas, não sei nadar. pernas e pelos e peles queimam colchão suado. das línguas escapam benzeno. gosto do cheiro da fumaça no seu cabelo. inflamáveis: costelas e quadril e clavículas. acendo dedos molhados. chamas penduradas em cabides de plástico. combustão distraída sutura paixão adversa. deslizo. pinço delírio nos dias ensolarados.

 

 

 

***

 

 

 

[infiltração]

 

flores de plástico não gestam lágrimas. bile saturada. pescoço, tornozelo, pulso. falanges Carrara, mapa violáceo. se eu não tivesse tomado aquele picolé de silêncios com cobertura de ameaças, encontraria o palito premiado? espinhos brotam em intestinos fofos. etiquetada. na face, o reboco em seis camadas. no peito, olhares copiosos cavam átrios viciados. empilhada. adormecida entre lascas de detergente e gotas de óleo. pia suja de palavras. desaguada. exaurida desde a placenta. vigiada em caixas. qual a minha fome? ele devorou todo o resto.

 

 

 

***

 

 

 

[fagulha]

 

sopro fósforos entre a tela de proteção e o céu que não alcanço. deixei infância na feira de antiguidades. ardo parapeito oxidado. dentro de um envelope vermelho na caixa de correios pousa a chave extra. sexto andar. prefiro as escadas. na cama, cobertos de sonhos e saliva e medos. pistas, ponte, passagem. olhar turbulento de maré baixa faísca paredes frágeis. magnetizados. vestidos em lençóis, horas suadas de algodão macio. os ossos guardam memórias? corpos arrepiados, constelações em pilot vermelho. poemas riscados nas coxas. línguas disparam vontades: insaciáveis. sono excitado, pupilas flutuantes. páginas arrancadas pela manhã. fotografo a pele cansada, não perco nenhum segundo de vida. marsala, bordô, cornalina. planto fogo e não colho chama.

 

 

 

***

 

 

 

[beira]

 

metatarsos dançam lembranças. piso magoado, afagamento escorregadio. quinas, dores, vasos. alinhavada em cobalto e índigo. perambulo espaços cozidos a olho nu. despertenço. veias chaveadas, espuma rápida. pestanas dragam gotículas de pele. sintonizo águas rasas, visto prumo aluado. corrente alternada, lentes em paralelo. pouso, poeira, pulsão. onde afogo os meus sapatos? pendulares são as tardes de domingo, costelas flutuantes atulham taças de abismo. respiro leds acessos. berro. dependuro balanços chumbados na lâmina do teto. salivo lacunas de vento. medula andarilha., carne viva.

 

 

 

***

 

 

 

[ato]

 

peles afoitas sorriem vendaval. respiros largos, línguas hábeis. na cama desaforada, travesseiros avulsos. jade, buganvília, alamanda. aérea. paredes infinitas. sentados, pelados, invertidos. claraboia observa bulbos talhados. libertos. pequenos lábios acariciam lâmina. corpos abertos devoram os dias. treliças, toalhas, talheres. comidos, amanhecidos. de perto seus olhos me escapam. nuca aquecida, tornozelo em chamas. não aprecio quedas bruscas. me deixa ver seus tentáculos? no varal, roupas abandonadas sugam horas intermináveis. desmascarados. pendurados em sorrisos amplos, viciados em palavras táteis. inflamáveis. piscada em picossegundo. o desejo dorme, a cortina desce.

 

Gabriele Rosa é historiadora, poeta, artesã da palavra e da cena. Atua como dramaturgista e dramaturga de processo na Bonecas Quebradas Teatro. Graduada em História pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, integra o coletivo CuidadoPoema. Autora de “Lavínia é mais Rosa que Espinho” (Libertinagem, 2021, no prelo) e “Fendas extraordinárias” (Patuá, 2019). Tem contos e prosas curtas publicados em diversas revistas literárias.

 

 

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146ª Leva - 01/2022 Dedos de Prosa Destaques

Dedos de Prosa I

Helena Terra

 

Foto: Fátima Soll

 

Eu nunca sonhei com você

 

Eu estava no lado de dentro. Ele estava no de fora. E entre nós havia a vitrine estreita e com muitos livros.  Quase todos cinzas e do mesmo tamanho, encaixados uns nos outros como se fossem pedras de uma calçada. Uma ideia, em um certo sentido, interessante e poética: no meio do caminho tinha uma história e mais outra e mais outra. E talvez, em algum lugar do futuro, no meio do caminho, poderia haver uma única para nós dois. A história de A e de A. De Ana e de André. Vamos fazer de conta de que são esses os nossos nomes. Juntos. Não separados como estávamos. E separados, assim tão perto, nos chamávamos de Lígia e de Gilberto e nos conhecíamos vagamente de uma rede social. E, na rede social, ele não estava com ela, não como ali do outro lado da vitrine. Se bem que ali, apesar da proximidade física, havia também algum tipo de espaço divisor entre os dois, e eles pareciam mais uma dupla de irmãos do que um casal.

Lígia estava no lado de dentro da livraria, sozinha, com o mesmo enigma e beleza que em suas fotografias, folheando um livro. Três novelas femininas, do Zweig. Eu estava no lado de fora, parado em frente à vitrine, fingindo grande interesse por alguns títulos porque eu queria vê-la, porque eu estava fascinado por vê-la ao vivo e em cores e queria que ela me visse. Se ela me visse, eu poderia sorrir e acenar e, quem sabe, dizer: ei, Lígia, sou eu, o Gilberto, da internet, vamos tomar um café? Mas em uma outra ocasião, infelizmente, porque, naquele final de tarde, a minha mulher, que há semanas, meses, anos me beijava como se eu não tivesse língua, dentes e um céu na boca e, noite após noite, desencorajava o meu corpo, estava comigo. Não deveria. De acordo com suas próprias palavras, fazia o enorme favor de me acompanhar para ver mais um desses filmes cabeça quando ela poderia estar em casa, de pantufas e de pijamas, bordando mais uma almofada.

Eu vi o exato instante, não foi impressão, em que os olhos do Gilberto não conseguiram mais se focar nos livros para se fixar em mim. E com tanta força e cobiça que eu poderia dizer, como a protagonista de uma das poucas séries de TV que tive paciência de ver: eu ouvi sua mente me observando. E eu, em vez de sair de seu campo de visão ou de apontar o dedo e de falar, o que é isso, abusado, você está acompanhado, como eu faria, já fiz tantas vezes por sororidade às outras mulheres, mexi nos meus cabelos, acariciei o meu pescoço e sorri. Sim, sorri, oferecida, fêmea, ignorando à minha falta de ética e os riscos do jogo em que eu estava entrando. E ele viu que eu o vi e que entendi o seu desejo. E, talvez, ela tenha visto e entendido também. Ou pressentido o perigo, porque parou de fuxicar no celular e o puxou pelo braço. Vamos, Gilberto, ela pareceu ter dito. Fique, não vá, venha, eu pensei.

“Eu nunca sonhei com você, nunca fui ao cinema, não gosto de samba”, cantarolei sem me mover um centímetro antes de responder a minha mulher: não, ainda não está na hora, vá indo na frente pegar uma água, eu vou passar no banheiro e depois quero comprar um livro. Dois, três, cinco, na verdade, quantos fossem necessários para que Lígia tivesse tempo de vir falar comigo ou para que eu pudesse me aproximar dela. Ou, sei lá, que o destino nos desse um empurrão maior do que já estava nos dando, porque as chances de nos encontrarmos, de novo, eu sabia, sempre soube, eram mínimas, ainda mais assim, com Lígia sem ninguém no entorno, com nenhum outro homem tentando invadi-la, transpassá-la. E foi aí que ele surgiu, do nada, pelas costas, em um bote territorialista, colocando as mãos peludas sobre os olhos delas, cheirando os seus cabelos longos e escuros e falando, em seus ouvidos, as palavras que eu não pude dizer.

 

Helena Terra mora em Porto Alegre. O seu interesse, despertado na infância, por literatura a levou a cursar a Oficina de Criação Literária, do escritor Luiz Antonio de Assis Brasil, na PUC/RS e a frequentar os grupos de produção e de leitura crítica da professora Lea Masina. Em 2013, publicou o seu primeiro romance: “A condição indestrutível de ter sido”. De lá para cá, participou de antologias e organizou,  com o escritor Luiz Ruffato, a antologia “Uns e outros”. É coautora na novela “Bem que eu gostaria de saber o que é o amor”, publicada em 2020, com o ator e escritor Heitor Schmidt. E acaba de lançar o seu segundo romance “Bonequinha de Lixo”, pela Diadorim Editora.

  

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145ª Leva - 05/2021 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa II

Adriano B. Espíndola Santos

 

Ilustração: Paula de Aguiar

 

Divina

 

Divina, com o nome que faz jus, era a apoteose do escalão dos deuses. E a redundância, que atiça os sentidos, é justamente pela ausência de palavras que a descrevam: divina. Digo, com a pureza de uma nascente, ela foi a minha primeira e verdadeira paixão. Sim, dos tempos de escola – que extrapolou para a vida. Alguns até me chamavam de louco: “Como pode, Sebá, você amar uma mulher vinte anos mais velha?!”. Mamãe, no entanto, achava bonitinho, um amor infantil, quando, mal sabia, me contorcia indócil no banheiro, sentindo o seu cheiro penetrar por todos os meus poros, do qual guardo a essência, presentemente, o perfume de jasmim. Papai, provocado pelo ânimo de ter um filho macho, “raçudo”, como dizia, atolava-me com revistas de mulher pelada; uma coleção de fazer inveja ao Marcos, que se vangloriava de seu pai fazer a assinatura da Playboy. Eu não queria saber nada daquilo; sexos escancarados, sodomizados, que me deixavam penalizado, amuado, com o sofrimento daquelas mulheres em posições circenses. Para mim, somente Divina. Maria Divina Assis dos Santos, seu nome completo. Foi a minha professora de português, na quinta e sexta séries. E, por ela e para ela, me converti num leitor contumaz, num crente da religião literária, para demonstrar-lhe do que era capaz. Mal ela chegava em sala e já me avocava, com um leve sinal, para saber qual era a novidade, que leitura estava fazendo no momento. Para impressioná-la, lia os clássicos da literatura brasileira, de Machado a Lispector, e me atrevia, ainda, aos grandes da literatura mundial, sobretudo dos séculos XIX e XX, como Dostoiévski, Tchekhov e Woolf. A professorinha, a mais linda dos séculos e séculos, posso acreditar, parava a aula para dizer aos meus coleguinhas que seguissem o meu exemplo e se dedicassem a ler não só a literatura recomendada pela escola, mas buscassem almejar “novos campos; verdes e imensos”; que devíamos conhecer os sabores e as liberdades conferidas pelo universo das letras. Houve um tempo em que o meu estado de ansiedade ultrapassou o razoável, com o que estava acostumado; podia ver-me, claramente, para além das nuvens, atônito: Divina estava doente e não viria à escola por, pelo menos, duas semanas ou, quiçá, um mês. Não nos comunicaram qual era a maldita doença; o que poderia suceder dessa catástrofe. Eu tentava elucidar, pelas mínimas sugestões, e em tudo me vinha à mente a gravidade de um problema cardíaco, pois que era muito lívida e miúda, pequenina e bonita como um lírio. Antônio, o mais espevitado dos garotos, logo que percebeu o meu tormento relatou uma mentira das grandes, mas que me fez cair ainda mais no poço da discórdia interior: Divina estava no hospital, sofrendo com as dores do parto. Mas como, se ela nem demonstrara estar grávida ou coisa do tipo? Que canalha a teria deflorado, tão pura que era? O carrasco queria mesmo me agoniar, como se ela tivesse e fosse dada a qualquer sujeitinho. E essa troça rápido se desfez, porque a constatação veio em forma de circular, direcionada aos pais. “Prezados pais, a Sra. Maria Divina dos Santos, professora de língua portuguesa, das turmas da quinta e sexta séries, está acometida por uma forte gripe e ficará afastada, para a sua segurança e também dos alunos, por cerca de um mês, até desaparecem todos os sintomas e, por conseguinte, os riscos. Contudo, no período, os discentes serão assistidos de perto pela direção do colégio, pela professora e coordenadora Mirtes, sem qualquer prejuízo no conteúdo. Gratos pela atenção, a Direção”. “Que troca absurda!” – pensei, revoltado. Mirtes teria sido minha professora em dois momentos, na segunda e quarta séries, nas disciplinas de ciências e estudos sociais. Ela tinha um quê militar, e, o pior, de megera desalmada. Tratava-nos com o mesmo prestígio que se trata um rebanho de bois. Quando ministrava as suas aulas, no mais das vezes, não levantava sequer os olhos para nos encontrar; aplicava os exercícios de maneira indiscriminada, para ganhar tempo, e, no fim, fazia-nos passar vergonha, tendo de ir à frente da sala explicar, tintim por tintim, sobre o que teríamos entendido do material. Vale salientar: em regra, o citado material era um calhamaço de vinte páginas, no mínimo, artigos científicos, que, por vezes, não chegavam à compreensão do mais esforçado dos alunos: eu. Olhavam-me com olhos de ajuda, suplicantes para que os tirasse da enrascada. Eu tinha pena e me juntava aos menos favorecidos, aos excluídos e discriminados pela falta de atenção. Jeferson, Cássio e Tânia, por exemplo, apesar de serem espertos – não bagunceiros, propriamente –, demonstravam certa dificuldade de concentração, por isso se ligavam a mim. Sempre eu e mais um ou uma ficávamos com a incumbência de esclarecer à turma o conteúdo dos trabalhos científicos. Ainda assim, por mais que nos esforçássemos, não seríamos capazes de decifrar os signos egípcios, se nem ao menos tínhamos base para isso. Quando os trabalhos degringolavam, Mirtes, como um furacão, caía sobre nós, dizendo que éramos lerdos e desinteressados; e, com isso, alertava-nos que teríamos uma “provinha” na próxima aula. E qual era o conteúdo? Ciências e estudos sociais; nada de português. Bem, numa dessas, me safei com palavras difíceis, como a algoz gostava. Ou seja, nem mesmo ela entendia o que tinha perguntado. Pedíamos aos céus com tanto ardor, para que a nossa mestra voltasse, pela sua recuperação, que fomos consideradas as crianças rezadeiras. Havia um revezamento na capelinha da escola, nos intervalos e nas horas da saída. Num dia radiante, Divina nos surpreendeu no meio de uma aula maçante da Mirtes. Apareceu como uma luz: divina. E disse que estava morrendo de saudade. E que já estaria conosco no segundo período do dia; lembro até hoje dessa data: cinco de setembro de 1994. Nada mais que a agoniante Mirtes falava valia a pena. As provas e os castigos seriam apagados com o sopro celestial de nossa deidade maior. O meu alívio, especialmente, foi em reconhecer em Divina a esperança, o amor renascido. Ela estava esplêndida, com roupas mais leves, encantadas, que me levavam a outro plano. No retorno do recreio, não conseguíamos nos acalmar com a música de acolhida, que era uma estratégia aplicada pela direção para esfriar os nervos. Olhávamos para ela, felizes e gratos, com sorrisos que eram propriamente abraços – eu ainda mais. Ela entendeu e nos cobriu de paz, com o poema Regresso, de Miguel Torga. Sabíamos que, ali, estávamos enfim seguros. Mas, a mim, desandou o calor de uma partida, pois que o ano estava terminando. Só eu, com as minhas íntimas aflições, fiquei enterrado na cadeira, quando a hora da aula acabou. “Você não ficou feliz com a minha volta, Sebastião?”. “Sim, professora; sim! Mas lembrei que o ano está terminando, e…”. “Não se preocupe, querido, estarei sempre aqui. E a literatura será a nossa mãe protetora”. Deu-me um beijo demorado na testa, que, até hoje, estala entre desejos e vontades. Onde estará o meu amor, Divina?

 

Adriano B. Espíndola Santos é natural de Fortaleza, Ceará. Em 2018 lançou seu primeiro livro, o romance “Flor no caos”, pela Desconcertos Editora; e em 2020 os livros de contos, “Contículos de dores refratárias” e “o ano em que tudo começou”, ambos pela Editora Penalux. Colabora mensalmente com a Revista Samizdat. Tem textos publicados em revistas literárias nacionais e internacionais. É advogado civilista-humanista, desejoso de conseguir evoluir – sempre. Mestre em Direito. Especialista em Escrita Literária. Membro do Coletivo de Escritores Delirantes. É dor e amor; e o que puder ser para se sentir vivo: o coração inquieto.

 

 

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145ª Leva - 05/2021 Drops da Sétima Arte

Dedos de Prosa III

Marcus Vinícius Rodrigues

 

Ilustração: Paula de Aguiar

 

EU NUNCA ATRAVESSEI O RIO

 

Eu nunca atravessei o rio Almada. Estive sempre em sua margem brincando no raso enquanto meus irmãos se aventuravam mais fundo, onde meus pés não alcançavam. Um fundo ainda raso porque, embora maiores, eles eram, como eu, crianças. Mas podiam nadar e mergulhar por baixo das canoas. Penso que poderia, também, fazer aqueles mergulhos. Uma vez eu tentei, mas parecia tão larga aquela canoa. Não tive coragem.

Minhas brincadeiras eram naquela beirinha em que o cobre do rio ficava mais transparente, como se um pouco de mel tivesse sido dissolvido na água. Eu sentava sentindo o sol nas costas e a água fresca nas pernas.  Ali as piabas chegavam bem perto. Eu tentava cercá-las como quem pastoreia vacas no curral. Elas eram mais rápidas. Escapavam como as galinhas do quintal de minha avó, mas sem algazarra. Espantadas e silenciosas. Escorregavam pelos meus dedos como a água do rio talvez escorresse para o mar. Sim. Talvez. De meu raso eu não percebia a correnteza do meio do rio. O único movimento eram as ondas do mar no horizonte, onde o rio finalmente despejava suas águas castanhas no azul espumoso do oceano. Eu achava um mistério aquelas ondas que não terminavam na praia como acontecia na praia do Malhado. Que sabia eu, tão criança, sobre o movimento dos rios? O rio Almada não corria à porta da minha casa. Para mim ele estava parado. Eu não conhecia o rio Cachoeira do outro lado daquele grande ilhéu que era minha cidade. Sabia da ponte que atravessava para o Pontal, onde morava minha avó. Mas aquela era uma água vista de longe, de dentro de um carro. No Pontal, havia a praia salgada e os navios encalhados na areia. Nada que lembrasse um rio. O Almada, na porta da minha casa, era aquele rio que parava antes do mar. Imóvel. Para sempre.

Sentado no meu raso, descansei as mãos no fundo, espalmadas para cima como se, em posição de ioga, esperassem a energia do mundo penetrar por elas. Minha calma atraiu, enfim, algumas piabas. Uma nadou por sobre minha mão e, de surpresa, consegui agarrá-la. Que delicado o toque daquele corpo minúsculo e saltitante. Fiz das minhas mãos duas conchas que se fecharam suavemente em torno. Ela pulsava ali dentro como um coração. Gelado, escorregadio. Fazia cócegas. Eu me senti poderoso por conquistar aquela vida para mim. O peixinho não pertencia mais ao rio.

Era meu.

Quis mostrar para meus irmãos. Chamei os dois. Procurei entre as canoas. Não estavam mais na água. Já subiam o barranco para a nossa casa ali em frente, na vila militar. O almoço. Eu queria ficar com a minha piaba, mas eles, parados no meio do caminho, gritavam a ordem de subir. Não podiam ir sem mim. Eu não podia ficar.  Fui atrás, resignado. Era um dia de domingo. Eu sabia que poderia descer no meio da tarde. Eles voltariam para o futebol e mais mergulhos. Eu voltaria com meus carrinhos para a beira da água, para os peixes, para o meu peixe. Bastava guardar o meu tesouro em um lugar seguro, para que ninguém pegasse.

Não contei a ninguém do meu tesouro. O almoço foi lento. As conversas em volta da mesa. Eu quase não falei. Tinha um segredo. Qualquer palavra que dissesse poderia deixar escapar o peixe de minhas mãos em concha. Ele saltitava dentro de mim como uma alegria. Brincava na minha imaginação dando saltos de um lado a outro da água. Eu fazia túneis com as mãos, barreiras com as pernas… a piaba nadava veloz pelos labirintos do meu corpo, mais água do que peixe. Bastava esperar a tarde. Bastava guardar o segredo. O silêncio.

Mas aquela não seria uma tarde de domingo silenciosa. Antes de acabar o almoço, vieram gritos do rio. Alguém veio chamar meu pai. Um alvoroço se espalhou pela rua. Minha mãe nos proibiu de sair. Ela saiu. Meus irmãos cuidariam de mim. Ficamos a tarde inteira sozinhos vendo a televisão com seus chuviscos dissonantes. Era meu pai quem movia a antena até a imagem estabilizar. Da rua não vinha nenhuma notícia. Todos estavam na beira do rio. De casa não podíamos ver. O barranco. Dali, nossa visão do rio era a outra margem, onde havia um grupo de pessoas observando.

Alguém se afogou, meu irmão mais velho disse. Aquela frase instaurou uma realidade de medo em mim. Alguém tinha ido para a parte funda do rio e tinha se afogado. Eu sabia que aquilo podia acontecer. Minha mãe sempre nos prevenia para não nadar para o fundo, onde não dava pé. Podíamos nos afogar. Disso eu sabia. Eu não sabia exatamente o que era se afogar, mas não era algo bom. Eu sabia o que era fundo. Era onde meus irmãos nadavam quando brincavam nas canoas. Com a revelação, meu corpo tremeu. Meus irmãos podiam se afogar. Vocês já se afogaram? Eu perguntei preocupado. Eles riram de mim. Claro que não. Fiquei com raiva das risadas e da gozação, mas aliviado porque eles não se afogaram. Eu nunca tinha me afogado. Não ia nunca para o fundo. Voltei a pensar na minha piaba. Ela também não se afogava. Estava sempre no raso como eu.

Passamos toda tarde em espera. A noite chegou e minha mãe voltou. Eu procurei o medo em seus olhos, aquele de quando ela avisava do afogamento. Mal consegui ver. Ela nos disse que estava tudo bem, que nada tinha acontecido. Meu pai? Estava resolvendo alguma coisa de trabalho. O quê? É verdade que alguém se afogou? Não era assunto de criança. Nós devíamos fazer os deveres da escola. Meus irmãos não tinham feito. Eu já tinha pintado os desenhos do meu livro com o cuidado de não sair das linhas. Era preciso dormir para a escola cedo.

Eu já estava na cama quando ouvi a história toda entre os meus sonhos. Eram vozes de meu pai e mais alguém — minha mãe ouvia entre soluços. Depois, meus irmãos repetiram a história no quarto. Havia um menino no fim da rua, na primeira casa da vila. Já era grande… três pescadores… a rede se enroscou em alguma coisa no fundo do rio… a mão dele estava presa… os amigos tentaram salvar, mas não conseguiram… gritaram. Só à noite conseguiram tirar o menino de lá. Os peixes já estavam começando a comer. Meu irmão disse aquilo muito assustado. Eu quis acordar e perguntar como o menino estava.  As feridas doíam? Foi então que ele falou respondendo a pergunta que não fiz: morreu.

Eu nunca tinha imaginado que, se alguém se afogasse, morria. Morrer era ir para debaixo da terra. Mas o rio…? Fechei muito os olhos para não ver o menino dentro da água sendo comido pelos peixes. Não queria ver a cara dele faltando pedaço. Os olhos abertos. Em algum momento eu dormi e senti a água acobreada do rio me envolvendo. Cobrindo minhas pernas, avançando pela barriga, pelo peito, pelo pescoço. Eu estava completamente mergulhado — as piabas em volta. Abri a boca e a água entrou. Bebi muito, sem querer, sem poder resistir. A barriga ficou cheia. Eu pensei que era daquele jeito que a gente se afogava. Achei que ia morrer, mas tinha vontade de fazer xixi. E fiz.

Minha mãe não me deixou ir à escola naquele dia. Tinha acordado no meio da noite gritando e chorando. Era melhor ficar em casa. Ficamos sozinhos os dois. No meio da manhã a casa se encheu das mulheres da rua. Elas começaram a conversar sobre o afogado. Eu queria escutar as conversas, saber dos detalhes, mas minha me mandou brincar no quintal. Nada de ir para a rua.

Foi a primeira coisa que fiz. Desci o barranco e fui atrás da minha piaba. Por sorte, tinha deixado atrás de uma pedra. Mesmo com toda a confusão, eu tinha certeza de que ninguém tinha encontrado.

Ela estava lá.

Mas não estava saltitante como antes. Nem molhada. Estava seca e dura. Peguei com cuidado em minhas mãos e levei para a água. Ela afundou como uma pedra. Imóvel. O rio também não se movia naquele meu raso.

Não entrei na água naquele dia, nem depois. Ficamos proibidos de nadar no rio e, quando o ano acabou, nós nos mudamos. Saímos de Ilhéus e nunca mais.

Adulto, voltei à vila, ao rio, mas sempre passei apenas de carro. Nunca mais desci o barranco que, na verdade, era apenas uma descida muito curta.

O rio Almada. Ele vem do interior muito mais ao norte, mas deságua no oceano. Vira-se para a direita e percorre um longo caminho paralelo à praia. Ele resiste a entrar no mar, ele não quer morrer se misturando às águas claras e salgadas do atlântico. Na frente da minha casa, enfim, dobra-se para a esquerda, contorce o corpo desenhando uma interrogação de cabeça para baixo. É ali, em frente à casa da minha infância, que ele morre — todos os dias — murmurando seu porquê sem resposta.

 

Marcus Vinícius Rodrigues nasceu em Ilhéus-Ba e mora em Salvador. Publicou, entre outros, os livros O mar que nos abraça (contos, Ed. Caramurê, 2019); Manual para composição de Vitrais (poesia, Selo João Ubaldo Ribeiro da Fundação Gregório de Mattos, 2019); Café Molotov (contos, Editora 7Letras, 2018); A eternidade da maçã (contos, Editora 7Letras, 2016) — vencedor do Prêmio Nacional da Academia de Letras da Bahia de 2016; Arquivos de um corpo em viagem (poesia, Editora Mondrongo, 2015) e Cada dia sobre a terra (contos, EPP Publicações e Publicidade, 2010). É membro da Academia de Letras da Bahia.

 

 

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145ª Leva - 05/2021 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra II

Entre o Rio e a Riviera

 Por Gustavo Rios

 

 

Sou mais um que acredita no poder de uma boa história. E quando falo em acreditar, me refiro àquele tipo de encantamento simples e direto que flui numa boa, num tipo de literatura em que tudo se encaixa e funciona, também de forma simples e direta, de acordo com as escolhas feitas pelo autor.

Considero-me um escritor. Diante disso, declaro ter sido esse o motivo principal (ler uma boa história) que me fez querer ser um. Obviamente, com o decorrer dos anos, e o significativo aumento de livros em minha estante, algumas vezes derrapei na pista. Tentei ser mais “cabeça”, mais sabido, envolvido pelo suposto poder da palavra em detrimento ao que realmente interessa: a vida, no sentido mais franco do termo.

Em vez de seguir reto na boa estrada da clareza, andei pegando uns atalhos. Atitude que, no fim, apenas confundiu os meus pouquíssimos leitores (e não enxerguem ironia aqui). Pois ainda que lhes pareça piegas falar sobre vida, esse é o único fundamento que resguarda e mantém a melhor literatura existente no mundo: Henry Miller, Bukowski, Hermilo Borba Filho e Kerouac não me deixam mentir – só para citar alguns, pois a lista é imensa.

Foi então que percebi claramente: independente da forma usada num texto, precisamos estar ligados ao entorno (a vida, no caso) para que uma obra se mostre verdadeira.

E assim foi e é com Riviera.

Francamente não sei se Rodrigo Melo alguma vez em sua trajetória, que envolve dois livros de contos (Jogando dardos sem mirar no alvo e O sangue que corre nas veias) e um de poesia (Enquanto o mundo dorme), embarcou nessa viagem de experimentar e se perder. Riviera, romance publicado em 2020 pela editora Mondrongo, é a primeira coisa que leio dele. E, ainda que Rodrigo tenha supostamente derrapado em algum momento de sua carreira, coisa que repito não saber, acho que Riviera poderá o redimir. Colocando-o de novo na reta.

Michel Rodrigues, o protagonista, é um cara apaixonado. E o nome dela é Sandra D’Angelo. Sandra, uma poeta (ou poetisa, nunca sei direito) do tipo que curte saraus, praias e outras ondas, depois de viver um romance de verão com nosso herói, na Bahia, acaba voltando para sua cidade, o Rio de Janeiro.

Daí é que Michel Rodrigues, o apaixonado, resolve correr atrás dela algum tempo depois. Munido de um número de telefone, ele pega uma grana com um primo agiota, se despede da mãe, e segue reto, ou nem tão reto assim. É quando o encontramos já na primeira página, num “final de uma tarde de domingo”, sobre a Ponte Rio-Niterói, em que o “asfalto tremulava por conta do mormaço e o céu rebentava em uma mistura de azul claro, cor de rosa e laranja”.

Com base no resumo dos parágrafos anteriores (quase uma sinopse fuleira de Netflix), o autor inicia sua bela jornada. Junto ao protagonista, Michel. Logo, e fazendo jus à tradição dos bons livros que, em essência, se resumem a poucos elementos principais (o amor, as descobertas e uma viagem, no caso de Riviera), mas que crescem e se dignificam no percurso, Rodrigo nos conduz por essa estrada (ou ponte). No que ficamos gratos.

 

Sobre influências

 

Não creio que Rodrigo ficará ofendido se eu disser que John Fante foi uma das grandes referências. Claro, não estamos aqui reduzindo sua escrita a uma única fonte, visto que outros matizes surgiram na leitura que fiz. Entretanto, as semelhanças e as convergências (um tipo de zona comum aos dois em que, suponho, Knut Hansum reside) com Fante são claras.

E isso é bom, em minha opinião. Ainda mais inferindo que a “forma” desse grande escritor não foi aceita de maneira premeditada e infantil, aquela coisa em que o autor imita determinado estilo na cara dura, tentando disfarçar sua incompetência.

Rodrigo Melo escreve bem, muito bem. Por méritos próprios.

Ainda que o Fante tenha tido lá sua importância no chamado “paiol de influências” de Melo, como bem afirmou Marcus Borgón na orelha de Riviera, essa influência, quando surgiu, foi algo que ele soube dosar e aproveitar.

Temos o protagonista incondicional e crédulo, na acepção mais legal das palavras. Temos os diálogos bem estruturados e sem firulas, além de um elenco de personagens marcantes com suas características e particularidades, meio que gravitando ao redor do protagonista em situações e cenários em que Melo se mostra bastante à vontade, num tom aparentemente confessional – suspeito que alguns trechos só puderam existir graças às experiências de vida do seu autor; ainda assim, não posso bater o martelo e dizer que Riviera é uma obra fortemente autobiográfica.

No conjunto do livro existem descrições que se equilibram bem entre a beleza pungente, que define o nosso herói e o mundo que o cerca, e a riqueza de detalhes, que nos coloca dentro de determinada cena sem nunca nos deixar enfadados.

Das ruas de uma cidade em que os “prédios gritavam por conta de tanta história para contar”, aos cômodos de um imóvel pronto para venda, em Riviera nada-nos-agride-e-tudo-nos-agrada (Pignatari gostaria dessa frase). Acompanhar Michel em sua busca, “arrebatado pela vastidão da cidade que se espalhava ao seu redor: maior e mais frenética do que imaginara, mas que, de fato, existia, porque estava bem ali” é uma das formas de confirmar a qualidade do livro.

E essa discussão de termos ou não muito de autobiográfico, me fez lembrar outro escritor estadunidense, o grandioso Nathanael West. Lembrança trazida pelo próprio Rodrigo numa entrevista recente a uma rádio.

West, que se utilizou da própria vida em prol de seus livros, tendo sido um grande observador nos períodos em que trabalhou em hotéis baratos em Manhattan, também pode ser identificado na “realidade” mostrada em Riviera, bem como nas escolhas do autor: para mim, o romance de Melo possui muito da poética e da também famosa carga imagética, tanto no sentido da imagem transformada, quanto no sentido de descrição pura e simples.

Assim, o estilo da escrita de Rodrigo também pode ser comparado ao de Nathanael, de várias formas. Da escolha de um hotel como um dos cenários, local que, nas palavras de um tal Brad Darrach, para West era como “zoos de fracasso, enfermarias terminais cheias de ‘inocentes desmantelados’”, aos parágrafos que, apesar da fluidez, são seguros e bem estruturados, e visam atingir em cheio o leitor, Rodrigo também não se importou em escutar mais essa “voz” – uma das mais aguçadas da literatura, em minha opinião.

Nathanael West, que foi considerado pelo Nabokov (o “pai” da Lolita) um “fenômeno visual”, foi certamente mais uma figura a ajudar o autor baiano em sua escrita. Tanto na questão das imagens que constroem e determinam o andamento de um bom romance, bem como no belo jogo de metáforas, eufemismos e similares. Recursos que embelezam demais a escrita de ambos.

 

Imagética versus poesia?

 

O leve arranhar sobre os trilhos, o pulsar da fera de metal que cortava a cidade com o seu rugido silencioso e veloz. Botafogo, Flamengo, Catete, Glória, Cinelândia, Carioca, Central do Brasil… A cada estação, as pessoas iam se transformando, ganhavam outras caras e jeitos. Em vez de madames e jovens com fones de ouvido, Michel passou a ver office boys, vigias, vendedoras da Avon, caixas de supermercados e toda aquela gente que vivia nas sombras dos cartões postais, enchendo filas, morrendo nas ruas e em corredores de hospitais.”

Grosso modo, a prosa, ao menos a que considero boa, quando contém em si elementos da poesia (eufemismos legais, metáforas certeiras e ritmo), ganha bastante com isso – e notem que essa é uma opinião que se repete em minhas análises. Então, desconsiderando a obviedade terrível do que acabei de escrever, venho pedir desculpas afirmando apenas o seguinte: quando o escritor possui talento e competência, o uso da imagética, da poesia e de quaisquer outros expedientes não põe em risco seu trabalho.

Rodrigo tem a manha. Ele é o tipo de artista que, acima de tudo, enxerga o lado humano na literatura. E o coloca em primeiro lugar, entendendo que uma escrita sincera e direta não deve ser necessariamente tosca e simplória.

Filosofando um pouco durante a leitura, algumas perguntas surgiram em minha cachola: de que adiantaria usar a tal “carga imagética” sem sacar um tanto de poesia? E o contrário disso, daria certo? Como encantar o leitor sem pôr no livro figuras humanas, mas humanas-de-verdade, do tipo que se presta ao salto, à busca e a felicidade?

Não dá para ficar imune à força de um Michel Rodrigues, por exemplo. Bem como não há como fingir que não viu Louis Buade de Frontenac, o francês boa praça, vizinho de quarto de nosso herói, só para ficar no básico de série, por enquanto.

Como já dito antes, o rol de personagens, bem como o uso de seu “paiol de influências”, ainda que lembrem o West ou o Fante, ou qualquer outro, é formado por figuras arrancadas da cuca, da vivência e, com certeza, do coração (arrisco, sim, uma boa pieguice!) de Rodrigo.

No caso de Melo, eu até consigo imaginá-lo numa noite insone, naquele tipo de luta que só escritores bons travam, tentando reescrever, encaixar, fazer surgir ou mesmo comemorando efusivamente uma boa página ou um vacilo de nosso Michel, justamente por esse vacilo conter muito de ingenuidade, sentimento, beleza e, principalmente, busca.

Ter essa imagem em minha mente já justifica esse trabalho.

Suas inserções poéticas são exatas, firmes, sem pieguices nem choramingos. E quando lemos algo que chega perto daquele sentimentalismo barato (que no fundo muitos de nós curtimos), tal trecho ou frase se revela somente um importante mecanismo que visa dar fala e personalidade ao jovem Rodrigues:

“Siga em frente, ó, contrafeito taxista — Michel pensou —, uma vez que todo homem tem direito à glória e estou prestes a alcançá-la. Se quisesse, poderia passar um longo tempo falando sobre a pessoa que encontrarei, não no hotel para onde me leva, pois já é tarde e a felicidade nos força a certas provações: uma admirável e encantadora poeta de nome Sandra D’Angelo, ou simplesmente Sandy.”

Com o trecho seguinte, destacando a parte em que lemos “alma esquiva e saturada”, talvez eu consiga fazer uma boa comparação entre a poética usada para dar voz ao Michel (acima e, digamos, piegas) e a usada pelo narrador para seguir com o livro (abaixo e, digamos, mais madura):

“Era uma morena baixa com os cabelos negros até a cintura. Seus olhos transitavam entre uma malícia dissimulada e algum tipo de tédio ou cansaço, como se o tempo inteiro estivesse prestes a abandonar o palco ou a gritar. Mas ela não gritou, apenas continuou a rebolar e a tirar as peças de roupa, enquanto Tina Charles cantava “Love to Love”. Por vezes, seu gingado não batia com o ritmo da música, talvez rápida demais para o estado de espírito em que se encontrava (…). Ela se agarrou ao poste e começou a girar. Possuía uma boa elasticidade, mas nada parecia muito natural. Somente a repetição de um movimento que aprendeu, a saga de uma alma esquiva e saturada.”

Para encerrar, ainda falando sobre o imagético e o examinando de forma isolada, arrisco dizer que ele embasa e justifica todo o livro – dentro do equilíbrio e da beleza já descritas nas linhas anteriores. Na descrição da cidade ou na cena de sexo num banheiro de escritório, tudo se mostra visceral. Afinal de contas, Rodrigo quer nos falar de vida, antes de tudo.

Diante disso, quem leva a melhor mais uma vez é o leitor.

 

Arco narrativo e tigelas de açaí

 

Considerando o entendimento de que arco narrativo é simplesmente a divisão de uma história em partes ou capítulos (uma ideia simples, apesar do nome marrento), Riviera tem, sim, o seu arco. E ele funciona.

Valendo-me desse jargão (arco), usado largamente para analisar livros e para fundir nossa cabeça nas aulas de geometria, acredito que o risco que todo autor mediano corre ao usar o seu “arco” é o de se perder em algum “ponto da curva” (o “mediano” se atrapalhando no “radiano”?), pois, ainda que os capítulos não precisem ser fundamentalmente lineares, a coerência ajuda no entendimento geral. Seja na trama, seja no estilo, ou mesmo na definição clara da personalidade do protagonista e de todos os outros “participantes”.

Dessa forma, afirmo sem gaguejar que, ao longo dos 25 capítulos, Melo não derrapa nesse quesito.

Do francês à tia amargurada; do corretor de imóveis Aldo Lomma (não sei se uma sutil homenagem ao Alto Loma Hotel, que se erguia “numa colina, lá na crista de Bunker Hill”) à Arlete, Melo segura bem a onda. Na base da simplicidade que busca a fluidez na leitura e a cumplicidade do leitor.

Pois para todo artista, sempre existe o risco do erro, ao se firmar a personalidade e a voz de cada pessoa que habita o seu trabalho, já que muitas vezes nos deparamos com obras onde não identificamos o ponto de mutação de determinado personagem, muito menos a transição de algo que ocorreu com ele. Transição que, “noves fora”, foi somente uma derrapada do artista, no arco, na tangente ou mesmo na reta, certamente preocupado com sutilezas, concretismos e bricolagens.

Portanto, quando numa boa história a forma linear é quebrada sem aviso prévio – o que seria legal quando temos uma proposta adequada e um escritor com moral para tanto -, nos deixando confusos e perdidos, é nessa hora que geralmente abandonamos o livro.

Isso não ocorre com Riviera. Independente da situação ou da ruptura, temos o estilo que se preserva e não nos engana de forma grosseira, mudando somente quando o livro exige, no caso do andamento da trama e das experiências de Michel. Dessa maneira, temos um jovem se transformando, sentindo medo, vacilando feio e devorando tigelas de açaí, além de seguir apaixonado, tentando encontrar a sua poetisa (ou poeta, nunca sei direito) em meio “a complexidade da tal Cidade Maravilhosa”, conforme Kátia Borges citou no posfácio, no que ela também chamou de “mescla de paraíso tropical e pesadelo”.

Como conclusão, digo que Riviera segue seu rumo (ou estrada, ou ponte…), pois não são poucos os que consideram o livro interessante, ainda que, por conta da pandemia e por conta do fato de Rodrigo Melo não residir no chamado eixo, o romance ainda não tenha alcançado o seu devido status.

Status que o deve colocar como um grande lançamento de 2020, no mínimo. Além de colocá-lo também como uma obra belíssima, franca e humana. Bem ao gosto do que todos nós precisamos em tempos tão bicudos, toscos, demorados e doentios.

 

Gustavo Rios é baiano e autor do livro Rapsódia Bruta (Mariposa Cartonera, 2016), dentre outros.

 

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145ª Leva - 05/2021 Dedos de Prosa Destaques

Dedos de Prosa I

André Mitidieri

 

Ilustração: Paula de Aguiar

 

CINCO EPISÓDIOS À PROCURA DE UM NORTE

 

NA ANTIGA FRONTEIRA OESTE

 

As inscrições quadrangulares de uma incomum calçada e a conhecida placa luminosa da Rua Vinte de Setembro confirmam o endereço: número 1991, Edifício Coronel Cabrita, apartamentos SS/T/01. Após dois lances da escada em mármore verde, a porta de mogno. Entalhes de anjos, querubins, cavalos alados, centauros e cenas da vida campestre.

No meio de tudo, uma guirlanda, flores artificiais e ramos de trigo, pintalgados dum esmaecido brocal na cor do cobre. No seu interior, discreto cartão em letras góticas, douradíssimas, gravadas em baixo-relevo: “Bem-vindos a este humilde rancho, onde não falta o mate amargo e o ombro amigo”.

Ao centro da moldura de prata, contendo arabescos, a campainha. Dois toques, e soa um mugido de vaca, bovinos ou similares. Ao ruído de uma chave na fechadura, segue-se o movimento circular da maçaneta alaranjada, fosforescente.

Em cima da porta, o arranjo metálico tilinta, pequenos sinos dobram. No saguão de entrada, multiplica-se em biombo de espelhos a pequena bailarina. Dança o Tema de Lara sobre círculos imantados de um vistoso porta-joias.

Entre as duas portas no velho estilo faroeste, da cozinha e da sala de jantar, o corredor em cotovelo, onde se enfileiram as fotografias. Retocadas por tintas de coloração primária, imagens unidas de um casal em close-up. Amarelados instantâneos da casa de campo avarandada e do homem de enormes bigode e chapéu. Em preto-e-branco, um retrato de casamento: a mão da noiva sob a do noivo segura a faca de serra, acima do segundo andar do bolo. No terceiro, um par de açucarados pombinhos.

Num verde-oliva destingido, e à frente do esquadrão em continência, o militar bronzeado, com óculos de sol, exibe medalhas no peito a estufar-se. Em tons pouco definidos, a dupla de meninos sorri, sem os dentes da frente, atrás do globo terrestre. Como pano de fundo, a bandeira nacional e o estandarte azul-anil, “Lembrança da Escola do Divino Espírito Santo”.

Lustrosamente coloridos, rapazes em trajes menores, e a dezoito por vinte e cinco, circundam o pôster da Cleópatra seminua. Pernas roliças, escadinhas no abdômen e bronzeado reluzente, no meio de um mar de plumas e tecidos bordados a lantejoulas, em degradês de verde.

Ao fundo do corredor, na grande sala de móveis brancos, laqueados, destaca-se a lareira, de rosáceo granito. Sobre ela, cabeças de cavalos em puxadores de brasa, tubos de vitaminas e a Vênus em bronze. Seus braços amputados, sem pés nem cabeça, mas com o triângulo, entre as pernas, bem definido. Raros pelos crespos, a descerem do ventre liso, rumo à orquídea entreaberta, pronta para estremecer e abrir-se ao primeiro toque.

Impaciente, meto a boca na flor da deusa. Por meio desse pitoresco interfone, comunico-me com a dona da casa e espero. Batendo a cinza do quinto cigarro no cu de ferro de um Hermes grego.

 

 

***

 

 

UM TESOURO TODO SEU

 

Se a minha anfitriã não existisse, de qualquer forma, seria inventada por algum oficineiro em busca de protagonista. Ou de protagonismo.

Importa que existe. De fato, seu guarda-roupa não delata uma perua a rigor. Modelitos mais casuais, no âmbito cotidiano: flanelas e camisetas tamanho L, uma que outra estampa xadrez, jeans e jardineiras, nem amassam. Do outro lado, à espera do ferro de passar, as golas plissadas, pantalonas com vinco, saias mini rodadas, de cintura alta.

Sempre de classe, mas sem os excessos da década anterior, revisita blusas de seda, lã e linha, jaquetas e casaquinhas bem cortadas. Todas em cabides individuais. As cotidianas, bem à frente; as festivas, mais ao fundo.

Ainda separa roupas citadinas da indumentária agreste. Subdivide-as entre as seções matinal, diurna e noturna. Sem contar com o nicho das ocasiões mais assim: o baile das debutantes, carnavais binacionais, o sarau das prendas, as exposições agropecuárias, de Esteio e Palermo (de Buenos Aires, não da Sicília).

As vestes de gala nem serão descritas, congêneres encontram-se nos catálogos de JP Gaultier e do Alexandre, aquele, que tem o mesmo sobrenome da romancista polaca. Sete fantasias, por sua vez, de grega ou de egípcia, devido a alguma crendice, talvez, e com os brilhos cabidos, ornamentam uma arara de aço inox, que fica no canto bem do fundo.

Na fileira anterior, tem que ver, os panos da campeira: ponchos de lã crua e palas de seda pura; as bombachas com casinha de abelha nas laterais. E os cintos de todas as cores, no couro ou no tecido, com fivela ou sem fivela, guaiacas, inclusive.

Tampouco faltariam peças do chiripá, uma grande tira que se amarra na cintura, como saiote ou fralda, a canga dos gaúchos. Quem não tem praia, lagarteia ao sol nas coxilhas, nem fica com areiazinha entrando nas partes.

Caso à parte, um outro quarto inteiro, onde guarda, praticamente, só as bolsas e os calçados. Não vou me debater, porém, no meio de cabides, sapateiras, cobertores, sob os trinta e tantos graus do verão fronteiriço, para expor a sua incontável e mais particular coleção.

Nada nosso, tudo dela. Como os armários embutidos, outros aposentos, o big apartamento, a laje, os ladrilhos, pedrinhas; falsos brilhantes, brincos iguais ao colar do anjo, um bosque, a piscininha; Amor, bombons finos. Dona do carnaval, da coisa toda, menos da voz que narra. Por enquanto.

 

 

***

 

 

UMA FIGURAÇA EM BUSCA DE BIÓGRAFO

 

Desvela-se um fantástico show ao vivo; a vida como ela é. Nada fútil segundo pressupunha. Nem uma existencialista com toda razão, nem a rebelde dos anos dourados. Não queimaria sutiãs, tampouco haveria de pintar a cara e se vestir de preto, tipo carola andaluza.

No lado inverso, como visto pelo closet e se verá pelas melenas, tende para o arco-íris, multicor. Nada mais, nada menos, do que uma fábula. Em carne e osso — que figura! — as curvas sinuosas, o traseiro empinado, as pernas sólidas, meio arruivada.

Os prontuários do doutor Resende, segue à risca, paciente. Toma uma canja revigorante, ou caldo, ou ambos, talvez, ou suco, ou os três, quando acorda, lá pelas dez da matina. E o chá [?] verde num coité que ronca, sorve pelo canudo de metal, durante o resto da manhã, os pauzinhos boiando ao final de mais um conto, se é que há.

Às vezes, acrescenta tília ou erva-cidreira, anda doente dos nervos, mexeram na sua poupança. Congelada pelo governo, pense aí, quadro depressivo, crises de ansiedade. Mesmo com a dieta rica em antioxidantes, betacarotenos, gafanhotos, acha-se meio desmemoriada.

Não sendo chata para comer, nunca passa fome, ainda fica longeva. Prescreve o médico ortomolecular, lá de Resende, como dito, e papa lindo, a figurona, lesmas hermafroditas, lagartas de cartucho, o chá de cavalinha, a tanajura que cai, cai, na panela de gordura insaturada.

Caramujos da maçã, caracoles do café, com sal rosa do Himalaia, caralhinhos de licor, os caracóis dos seus cabelos, até o louva-a-deus morto no pós-coito. Tudo mastiga devagar, mas em refeições ligeiras, entre o desjejum e a comida do meio-dia. O cardápio todinho na ponta da língua, porém se cala quanto aos homens com os quais se enrolou.

Abotoaram o paletó, alguns. O primeiro, na hora do bem-bom/bem-tudo que, com ele, poucos minutos, nada bons. Esta mulher daqui pra frente dá uma pausa no seu relato de cunho biográfico, mas não quer voltar atrás, não é carangueja na enchente da maré. Está mais para uma louva-deusa.

 

 

***

 

 

IN MEDIA RES

 

Meia rês, manda carnear, para os filés a cavalo, que costuma oferecer nos almoços sempre tardios, com batatas fritas mais legumes frugais. Ao revezar o menu, carreteiro de arroz vermelho, feijão mexido na pimenta da braba e as bananas da terra baiana.

Já na sobremesa, pode nem alcançar a metade do assunto de grave urgência para cuja resolução convocou-nos a opinar durante o aperitivo. Se bater um soninho, ou aquela fome mais tarde, ceva outra vez o verde mate, serve mix de nuts, os chips de coco, uns chocolates lá de Uruçuca.

O lauto jantar traduz-se num caranguejo inteiro acompanhado de vinho tinto, ervilhas poás e cenouras baby ao molho campanha. Na ceia da madrugada, o espumante nosso de cada dia, para alternar entre a salada de pepino com frango assado e o quefir de mamão cassis na baguete de aveia. Talvez por isso, não enrugue, é o que aparenta, colagenosa.

Adepta do fogo baixo e da comida lenta, busca não se estressar muito, eu que o diga. Altas horas pelo Beco dos Ricos, até agora no Bar Pirâmide, a biografada discute comigo os pormenores desta narrativa por fazer. E havia proposto só uma espichadinha nas redondezas, perto das doze do meio-dia, para uns três chopes, no máximo, com intuitos de encerrar o papo. Mas esse, como a saideira, nunca chega ao fim, pletórica que só!

 

 

***

 

 

ABRE A JANELA, FORMOSA MULHER

 

Vinha direto da balada. Belíssima como ela só, e uma novela brasileira. Quem não soubesse, presumiria que, de tão nos trinques, recém saísse do cabeleireiro. Após umas vinte e quatro horas na rua, mal tomou uma ducha, o suco de couve, e mate quente até ficar verde, umas duas garrafas térmicas.

A mochilinha das costas, trocou pela bolsa-baguete; do coque, fez um rabo de cavalo. Sente-se meio sufocada, quando sufocado, deveria estar eu, ainda que já fora do armário.

Para respirar melhor, aproxima-se da veneziana pintada de amarelo-ouro, com vista para a Via Pirandello. Rápido, rapidíssimo, escancara dois postigos. Iluminada e policromática, faz fusquinha para uns guapos de bom-porte, passantes. Quanto à plena modernidade que ostenta na cabeça, dá as tintas: Anjo-Caramelo de tonalizantes temporários, mais Cereja do Peloponeso, às custas de Casting 3.1, tintura sem amônia.

Em um ponto, indomável, suas posições modernas orientam-se por determinados limites. Causam-lhe nojo quaisquer clones, inclusive uma telenovela com esse nome. Para que não a confundam com uma cópia mal feita, a personagem em busca de si-mesma como uma outra quis porque quis deixar um pouco da vida para virar páginas impressas.

Nem bem escolho novo ângulo a fim de melhor observá-la, espicha o olho para a tela do computador, que acabou de inicializar-se. E ri de gaiata ao ver um dos seus mimosos apelidos a luzir na mais recente das pastas que vou abrindo neste Word for Windows.

 

André Mitidieri: Pobre bicha na estrangeiridade do lugar e do momento. Professa e pesquisa a nebulosa biográfica, as literaturas transviadas, mas nem tão só. Nasceu na terra do Quintana, mas ama a Baía de Todos os Santos. Oferece em primeira mão, nesta edição de aniversário, super agradecendo à Diversos Afins, os textos que integram a trilogia Eterna miss, a ser lançada em outubro, após 25 anos de engavetamentos, extravios, miles de disciplinas, artigos publicados, ressacas, recomposições, ejós & etc.

 

 

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144ª Leva - 04/2021 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa II

Dheyne de Souza

 

Foto: Lu Brito

 

Doroteia

 

Vi Doroteia uma única vez. Assustei-a parece que para sempre. Mas desde então, e isso já faz três dias, ela vem me perseguindo a lembrança a ponto de conhecê-la.

Gritei quando a vi. Na verdade, antes de vê-la. Apavoramo-nos ambas. Eu de ver um vulto estrangeiro cair atrás de mim no momento em que movimento a porta e acendo a luz. Ela de perceber meu semblante aterrado movimentando a porta no mesmo instante de acender a luz. Corremos para cantos opostos. Acalmamo-nos, aparentemente. Fui eu quem deu o primeiro passo.

Não sabia ainda o seu nome, Doroteia. Dei três passos e pude contemplar seu silêncio indescritível. Era tão fiel sua ausência completa de movimento que era mesmo possível acreditar que não estava ali, o que era justamente o que ela queria; era mais que perceptível, sensível. Cometi nossa espécie mais chula de pecado e fingi que cri.

Não sei exato. É possível que tenha me dito seu nome, agora pensando bem, naquele tempo ali. Alguns minutos fiquei decorando a recorrência de padrões em sua pele. Fecho os olhos e posso rever sua textura. Jamais descrevê-la.

Busquei metáforas, perdi. Acredito agora também que não emiti som, também não acho que me lembre mais ultimamente o que é isso de a voz ter função externa. Sei que tentei falar-lhe. Provavelmente – agora é que isto me ocorre –, falei na altura com que me falo todo dia bom dia, com que rego as plantas, bebo o café, vejo o noticiário, abro a janela e volto à cama. Telepatia, acho que é essa a palavra que dizem. Diziam.

Joguei fora uns passos na cozinha. Passei os dedos na mesa da sala. Pensei em lavar a cortina. Gastei uns segundos ou mais avaliando o gelo do congelador. Tirei duas batatas e carne moída, que tenho deixado assim os ingredientes soltos na pia a ver se me dizem como preferem renascer. Conferi a chave na porta.

Voltei ao meio da sala. Olhei para a porta onde Doroteia e eu nos esbarramos há pouco. Foi nessa ocasião, agora é que me recordo, que elegi Doroteia como seu nome e acatei a ideia até então sorrateira de tê-la como nos filmes, nos livros ou nalguma anedota antiga de vizinho, não tenho tido propensão a exatificar as memórias, enfim, de tê-la como amiga. Comentar novelas. Reclamar dos preços. Bodejar à toa.

Dei mais dois passos em direção a ela, Doroteia. Estanquei avaliando a utilidade que seria. Nós duas feitas fraternas. Ela aparecer de repente, agarrada nas paredes. Fazer a pose de morta. Riríamos da primeira vez à porta. Você me desculpe é que não sabia. Eu que não sabia. Hahaha, hihihi. E aquela velha história de. Como é que se diz o nome? Conviva, conveva, convisser. Enfim.

Se bem me lembro, ainda a vi uma vez. Não, não foi. Senão começaria mentindo. Sei que, mesmo deixando a porta aberta, a luz acesa, o grito calado, quando voltei, Doroteia não estava mais em lugar algum. Olhei atrás, dentro e debaixo de todos os móveis. Encontrei, inclusive, uma meia que havia abandonado seu par. Nem parecia infeliz. Nem eu me havia dado conta. De qualquer modo, levei a meia para a máquina de lavar. Não quis ligar, menos pela energia que já aumentou vinte por cento mesmo com toda essa loucura acontecendo lá fora, mais porque ainda não sabia se Doroteia gostava de barulho alto. Ainda mais a essas horas.

Não. Agora eu tenho certeza porque, como já disse antes, embora ninguém confie em nada ou nada seja digno de, eu comecei a conhecê-la melhor. Doroteia. Fiquei um tempo escorada na máquina de lavar. Deixei a luz apagada. Ela também prefere assim. Nós combinamos tão bem. É uma pena que tenha durado tão pouco. Ou não. Ainda não sei. Pode ser que ela esteja ainda em algum lugar, espreitando-me, conhecendo-me. Não posso recriminar sua apreensão. E eu gritei deveras alto. Doroteia não disse nada. Um silêncio dos mais elegantes. Mesmo quando eu a devorava com esses olhos desumanos, nunca perdeu a compostura.

Olhando aqui essa sombra que cai na área de serviço. Quando percebo, já estou imaginando Doroteia morando ali, uma cama perto do tanque, meio embaixo. Logo em seguida, peço milhões de perdões. Embora saiba que ela de modo algum vai desculpar esse desvio de conduta.

Digo então, e de novo creio que em mente, que Doroteia fique à vontade para dormir, deitar, enfim, ter casa onde quiser apear. Só não parta. Não me abandone. Não vá pras ruas, é perigoso. Olho as janelas. Chego a me mover para fechá-las, para que Doroteia não se exponha. Abandono o ímpeto no ar. Não sei se precisa voltar.

Doroteia, quando digo esse nome, sai com uma pá de saudade e outra pitada de dor. O frio chega de madrugada. Sento-me na beirada do sofá. Olho o vulto das nuvens atrás dos prédios. Penso em cortar as unhas. Depois ouvir um vinil. Doroteia adora Bach. Ergo-me numa efusão acelerante. Qual sua uva preferida, senão shiraz. Peço escusas, Doroteia, hoje não tenho espumante. Brindemos a isso que a vida nos proporciona cruamente. O tempo. Sim. Essa migalha de pão.

Já faz tanto que não faço uma massa. Podemos tentar. Doroteia escolhe nhoque. Será uma pena sem sálvia. Quem sabe no mês que vem, quando formos ao supermercado. Escolhemos um dia de sol. Um horário mais pela tarde. Conferimos o movimento.

De repente, dou um pulo. Eu me assusto. Corro pra máquina de costura, sopro a poeira, escolho o retalho mais caro, procuro a linha azul da prússia. Vou lhe fazer uma máscara, Doroteia, belíssima. Você nem vai acreditar. Não sei se sabe o que está havendo. Senta, escuta, vou lhe contar.

 

Dheyne de Souza é goiana. Vive atualmente em São Paulo (SP). É doutoranda em Literatura Brasileira pela Universidade de São Paulo. Recém-publicou “lâminas” (poemas, pela Martelo Casa Editorial, 2020). Seu primeiro livro foi “pequenos mundos caóticos” (poemas, PUC/Kelps, 2011). Mantém ainda um blog e um canal de leitura de poemas chamado Pequenos Mundos. É membro do grupo goiano de vocalização de poesia Corpo de Voz.

 

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144ª Leva - 04/2021 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa III

Wellington Amâncio da Silva

 

Foto: Lu Brito

 

Por que o editor sumiu?

 

Um sonho. Lá está ela, nos dias de Junho, durante o auge do solstício de inverno. Lá está ela, no mais alto plano do hemisfério austral, próxima à constelação de Órion. Liúna é uma galáxia, para quem pode vê-la. A mais estrelada do universo. Espiralada, cinco linhas circulares, paralelas, mas que se tocam de leve. Predominam o dourado, o anilado, o prateado, e tons de ardósia nas bordas. Sua figura se consolida no dodecaedro. Veste-se de seda inconsútil, imaculada, e apenas disto se veste. Possui o poder universal de suster os luminares, por isso nenhuma contristação sente, e não há o mais leve sinal de que ela não sinta demais outros sensos. Diz-se que no centro do seu alvor reside a mais fulgurante estrela, que se observada através de um prisma especial, contar-se-á oito pontas, e cinco ao centro. Seus olhos de âmbar transparente e claro transfixam-nos constantemente (por isso a impressão de que somos observados e ao mesmo tempo protegidos). As entidades mágicas de variegados domínios e graus podem pensar, voar, pairar, andar, circunvagar, existir, morrer e reexistir como queiram, quando e onde, segundo os auspícios de Liúna. Debruçam-se sobre as esferas, clarificam certos âmbitos, domínios, e administram certos campos, segundo o que apraz Liúna. E ela estende as mãos e nos toma para si — sua miração primeira possui dois ângulos abertíssimos, e no centro, o adentramento e o anelo. E pode transmutar-se ao coração do homem em dura gnaisse, ou em matéria vaporosa e volátil. Eis a porta aberta, o fogo, irresistível umectância! E ele, o Carlos, abriu uma das mãos, ao máximo, até as pontas dos dedos curvarem-se para cima; desceu as mãos sobre a coxa lisa e dura, perto da virilha dela; parecia tocar em brasas (não porque estivesse quente como o fogo — muito porque a perna, a coxa, em que se toca, muda a sina das mãos, embaralha a ordem das coisas, desfaz o sossego da mente, e eriça alguma coisa dentro do peito — perdição); bordeou a orla da fundura de Liúna, e caiu, de corpo penso, ao fundo. Sentiu estremecimento antigo. Lançou-se, num ímpeto, imerso, e atravessou-se para lá. E em Liúna o editor sumiu. Um sonho.

 

 

 

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Formação

 

Alceu Vivalma compositor de samba das antigas! Reverenciado, ainda que “dissidente” da Portela. Do tipo “raciado”, porque trazia os sinais supremos do autêntico e do febril criador. Ébrio-de-cara-inchada e pálpebras caídas, ao modo do equilíbrio entre o sadio e o patológico, do fígado não muito cirrosado, porque só no final, tal e qual o auge, amadurece no ser do boêmio aquele horizonte trágico, apaixonado, entre a indiferença do artista diante da proximidade do fim e o seu mais inspirado e fervoroso momento de criação (certamente evidente no último disco lançado). Isto quer dizer — como pensam alguns radicais — que a obra póstuma, por vezes incompleta, é a obra máxima do artista, “a obra de porta aberta”, em que os críticos têm pano pra manga. E a obra-prima é aquela que nos lega espaços vazios e brancos, suscetíveis a enchimentos interpretativos, e aos questionamentos de todos os tipos, sem os quais a conversa não se prolongaria, nem a crítica se lamberia, e a rodada de cerveja vai que se acaba em breve. E é preciso que digam alguma coisa e sempre, nos jornais, na roda de samba, na esquina cotidiana, dentro dos lares, dentro do pensamento de quem curte a coisa toda, porque se se acabar o converseiro sobre o artista quando morto, ele pode ainda morrer novamente. E é essa “segunda morte”, o silêncio da boca do povo, que o artista tem medo de morrer.

Diziam que os “iniciados” o reconheciam em qualquer lugar, sem requerer dele nenhum imperativo de palavras de apresentação. Era necessário o silêncio para que reverberasse o som. Cantava ao violão Di Giorgio 1979. Voz de barítono levemente alcoolizada e rouca. Alguém batucava de leve num pandeiro deitado sobre a mesa — “A vida é assim/ Eu sou assim/ Não me leva a mal…”.

Após, Alceu Vivalma ainda recebia os aplausos, quando Safiro do Borel cochichou no seu ouvido. Em seguida, num canto do bar, ambos conversavam.

— Alceu, meu amigo, agora é a tua hora, o teu primeiro disco. Por favor, não diga não desta vez! A oferta é irrecusável. Fubica disse que ele mesmo produzirá o teu disco! Aceita, homem! Fubica é gênio de mixagem, e Aloísio um mestre do merchandising, das rádios, da tevê. Aceita, homem! Ou vai morrer cantando em bares? Compondo música para tocar em mesa de boteco? Teu repertório, bicho, está fadado ao sucesso! Vai estourar! Fubica é um mestre! Aloísio é um mestre! Você é um mestre! Vai tocar em todo mundo.

Alceu, com ar de pensativo, disse, pondo a mão direita sobre o peito:

— Não me vendo, meu amigo. Tu sabes porque resisto. Tu sabes…

Safiro se aperreava.

— Homem! Eu sei das tuas filosofias. Mas, seja um pouco mais flexível. Seja sábio desta vez! Ou prefere mofar naquele barraco?

Alceu enrugava as sobrancelhas, como se estivesse zangado:

— Ninguém é sábio, rapaz!  Essas gravadoras todas não iriam desvirtuar minha imagem e minha música? Eles gostam de meter o dedo em tudo. Lembra-se que modificaram a minha capa?

— Águas passadas, meu amigo. Pode crer. E os caras da OMD são imbatíveis, profissionais!

Alceu o encara, põe a mão no ombro dele.

— Quanto custará sua comissão por esta empreitada? Me diga!

Safiro do Borel ajeita a gola da camisa.

— Homem, isso é de menos… o teu sucesso é o que importa.

Alceu o encarou por um instante.

— Me fale a verdade: lembra-se que modificaram a minha capa?

Safiro coçou o topo da cabeça e olhou de lado.

— Sim, sim. Há vinte anos atrás? E tu ainda se lembra disso, bicho? Deixa de orgulho, meu irmão! Aquela capa estava mais para disco de música clássica, ou caipira… do que para o teu disco de samba raiz.

Alceu descansou a mão direita novamente sobre o ombro de Safiro, e disse em voz demasiadamente pausada:

— Além da capa, eles regravam os batuques, mudaram o ritmo, descartaram nosso partido alto, tiraram os graves do som.

Quando ouviu a expressão “Partido Alto”, Safiro respirou fundo e calou-se. Tremeu-lhe o queixo. Encheu-se os olhos d’água, ainda encarando os do Alceu. Baixou a cabeça e foi-se.

Em seguida, Abelardo e a esposa chegaram junto do Alceu.

— Ouvi a conversa to-di-nha! — cochichou Abelardo, num tom assisado, e continuou — Novamente, Alceu!? Vai negar até quando a oportunidade de ouro? O tempo passa, meu irmão. E o nosso disco? E o nosso disco?

— Ah… Disso eu sei, Abelardo. Um dia eu gravo. Agora, não.

— Compadre, compadre, tome jeito! — disse Lurdinha, esposa de Abelardo.

— Não sei o que dizer… — finalizou Alceu de cabeça baixa.

Lurdinha o encarava com aquele semblante de zangada, de quem exorta um amigo ou um parente.

— E o senhor não dá a mínima para registrar a sua obra? E o nosso disco?

Alceu passou a mão no rosto, de cima para baixo.

— Do fundo do meu peito, vocês sabem que não minto. Digo o que penso. De verdade: quem quiser me ouvir, que venha até aqui me escutar tocar e cantar. Eu amo este bar, as pessoas, vocês dois… não porque vocês sejam os proprietários… eu amo este bar… há décadas nos reunimos aqui. E isso já me basta. Encontro paz e sossego, aqui. E eu acho, aliás, que a fama é exigente demais, sufoca o artista em demandas impossíveis.

Os três detiveram-se em silêncio por um instante. Lurdinha e Aberlado reconheciam sua genialidade, sua sinceridade, por isso o olhavam-no com orgulho e apreço.

— Como pode cantar canções tão belas?… — perguntou Lurdinha depois de longo silêncio. Os clientes observavam de longe.

Com esta pergunta, os olhos de Alceu encheram-se d’água:

— Vou te contar algo que nunca antes disse a ninguém — ele falava entoado, com aquela rouquidão típica de sambista, que brota do fundo da garganta, quando se expressa e se expira desde o ventre —Sou íntimo de mim mesmo, quando não tem alguém por perto. Parece óbvio, mas não é.  Assim, me debruço em mim mesmo e passo um tempo nisto, só cavando. Desço às profundezas do Alceu de verdade e reconheço a sua face de homem que nunca desistiu no meio das lutas, e vou buscar por lá, no fundo da alma, umas poesias, uma canções, o meu jeito mais particular de ser. Depois, apresento o que tudo naquela mesa, ali, aquela… sim, a minha mesa, a mesa que me basta. Mas, apresento porque… é o dever do artista, vocês sabem como é…. Depois descanso. Depois, missão cumprida. Depois, volto para casa. Fico por lá por alguns dias, olhando as paredes e as telas pintadas que os amigos me deram de presente. Leio umas coisas… leio Drummond, Bandeira e João Cabral e outros, e choro, mas ninguém vê, graças a Deus, porque lágrima verídica na cara de artista pode ser sinal de fraqueza, pode ser seu sim, dar em má interpretação. Se vissem as lágrimas que choro todo dia, meu samba perderia a graça, viraria um “caldo ralo”, porque só se pode ver a boa lágrima, com a poesia e tudo, no próprio samba, ali, naquela mesa, onde cada nota do violão e verso cantado é suada e chorada, mas o artista não pode chorar pra o mundo ver, somente no samba, eu já disse. Quando escrevo eu tomo um baque e a boca do mundo vem me visitar, me fazer sofrer, aí eu não suporto o seu peso — daí eu penso nas crianças jogadas, eu penso nos velhinhos… eu penso no amor negado a uma mulher fiel que por sofrer demais caiu na vida, eu penso no cara que morreu de tanto tomar pinga por causa de amor não correspondido, eu penso nessas coisas e penso no próprio samba, na coisa em si, tá entendendo? E após, eu lembro dos grandes que antes de mim cantaram, e a sua música fica tocando o dia todo dentro da minha cabeça, eu lembro da paixão de cada um deles, e as minhas pálpebras começam a pesar abaixo da testa, meus olhos ficam vermelhos, meu nariz se enche d’água e eu começo a fungar e a garganta dá um nó. Tudo isso que digo, a intimidade do artista, é cafona, apelativo, fora de moda? É. Mas sem essa matéria-prima não pode haver samba. Por isso gosto de ficar sozinho.

 

Wellington Amâncio da Silva nasceu em 1979, em Delmiro Gouveia, Alagoas. É professor graduado em Pedagogia e Filosofia, e tem mestrado em Ecologia Humana. Editor das Edições Parresia. É membro da equipe editorial da Revista Utsanga — Rivista di critica e linguaggi di ricerca. Em literatura, publicou-se: Apoteose de Dermeval Carmo-Santo (2019), O Reneval (2018), O Quasi-Haikai (2017), Epifania Amarela (2016), Distímicos e Extrusivos (2016), Diálogos com Sebastos (2015), Primeiros poemas soturnos (2009) e Elegia da Imperfeição (2001).  

 

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143ª Leva - 03/2021 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa III

Adriano B. Espíndola Santos

 

Ilustração: Marjorie Duarte

 

Coleção de veredas; e nenhuma razão

 

Pior do que não falar nada foi a molície do corpo-indiferença de Laís. Não sendo afeita às palavras, algo natural à sua personalidade estrita, eram comuns, no entanto, uns lances de rabugem, de reclamações. Naquele dia, simplesmente saiu pela porta da sala, depois do estrago.

Era agosto ainda; um mês para o meu aniversário. Ela sabia, desde que éramos crianças birrentas, que esperava ansiosa; que teria mil planos, para fazer, continuamente, a melhor festa de todos os tempos – a cada ano, me impregnava com a ideia de que deveria superar a anterior, e, quase sempre, conseguia.

Ela guardava, de início, uma inexplicável rejeição a mim, porque, pelo que percebia, eu seria a causadora da separação de nossos pais; da mudança repentina de vida, para pior; praticamente a razão da inércia de meus pais, que, logo após a dissensão, se esqueceram de nós, assumindo, como diziam, “cada qual os seus problemas”. E não admitiam interferências exteriores, o que complicava a situação, para o espanto de minha avó Maria, que nos amava muito. Alegavam, vagos, que precisavam se estabilizar e despachar – ou apagar – o passado; e isso inclui não estarem presentes, não participarem das festinhas de colégio e não dedicarem míseros instantes para nos resgatar da tristeza que, pouco a pouco, nos abocanhava.

Ainda que morássemos com minha mãe, vivíamos sem qualquer regulação; o que não era bom. Para os nossos amiguinhos da escola, seria um sonho, viver livre, sem um pai ou uma mãe superprotetora a tiracolo. Mas não – posso confirmar, e era difícil de explicar –, a suposta liberdade, para quem não compreende a vida, é uma armadilha voraz; falo isso por experiência própria – presenciei pelejas de minha irmã, para se desvencilhar de um canalha, um garoto mais velho, que queria possuí-la. Eu mesma cortei, com um canivete, todos os tendões dos dedos de sua mão direita, e o safado saiu com os farrapos dependurados, qual um carniça desossada, se esvaindo em sangue. Aprendemos, na marra, a nos defender, com os instintos apurados, à flor da pele, que poderiam, facilmente, eliminar um agressor.

A questão também morava no campo da competição. Mãe queria mostrar ser superior, e incluía, em sua obstinação cega, arranjar um namorado novo e bonito, e ostentar invejável independência financeira. Pai, que era do tipo esbanjador, por natureza, acumulava dívidas, na mesma proporção – só ficamos sabendo anos depois, pelo motivo da debandada para outro estado, se escondendo das buscas judiciais, que, de certa forma, nos enleava também, com as cobranças chegando ao nosso endereço de origem, as quais não suportávamos; e, por isso, abríamos as cartas, uma por uma – o montante poderia superar o valor de três apartamentos bons, num bairro nobre da cidade.

Assim sobrevivemos até os dezessete anos, qual irmãs siamesas, com personalidades diferentes, é claro; mas irmanadas, confiantes, uma na outra, somente. Foi que mais uma divisão aconteceu: prestes a completar dezoito anos, mamãe, com o seu novo namorado – com o qual se perdera e, cega, se achava amada –, numa espécie de reunião familiar, que nunca tivemos, por sinal, declarou que não poderíamos permanecer ali, já que pretendia formar uma nova família. Significou o choque total, apesar de já intuirmos que, mais cedo ou mais tarde, iria preparar uma dessas.

O que nos salvou, mesmo com tudo, foi o amor de minha avó Maria, que aí nos acolheu, sem pestanejar. Mãe, sendo sua ex-nora – e dizem que não existe ex-sogra –, rareava nas ajudas com alimentação e bens de primeira necessidade, alegando que: “Estão bem grandinhas… E não vou botar comida, sustentar sozinha as duas, coisa que o pai de vocês nunca fez!”, e se carregava em raivas passadas e conversas hostis, como se fôssemos inimigas. Por isso, vovó não compactuava com a ideia de termos de suplicar por qualquer coisa aos “pais desnaturados”: “Vamos nos virar com isso aqui” – e apontava para a geladeira, da qual se vislumbrava nada mais que água, frutas, arroz para a semana; cuscuz e um bocado de verdura. “Pelo menos não precisamos nos humilhar pra seu ninguém…”, concluía.

Não demorou, como esperado, e mãe conheceu o desprazer de se dar a um negócio arranjado; a um “casamento” de aparências; e, sendo enganada mais uma vez, quis meramente nos pegar de volta. Laís foi mais enérgica, fincou o pé e disse que não era molambo, para ser jogada de um lado para outro; que estávamos “bem grandinhas”; que, ainda que ficássemos no limite entre a simplicidade e a miséria, nos virávamos muito bem, obrigada. Mãe nunca mais deu as caras.

Claro, me assustei com o arrependimento de minha mãe, assim, nevrálgico, e, de pronto, com o reproche de Laís. As duas saíram de ponta, magoadas; compreensível, visto que possuíam personalidades semelhantes. Fiquei mais ainda grudada à minha avó, com medo das prementes mudanças e instabilidades. Vó nos acalentou, como meninas pequenas; como fizera nos tempos remotos, superando a barreira que era a sisudez de Laís. Ela se desmanchava toda, sem dar o braço a torcer, quando vó a afagava; bonito de se ver. E eu ganhava, nesses atos naturais, uma piscadela e um sorriso de vó, como se dissesse: “Tá vendo… Consegui domar a fera”.

Não me esqueço de que, nesse mesmo ano de 2011, vó me presenteou com um celular Nokia novinho e com uma festinha modesta, que programou com minhas amigas. Foi um momento mágico, de plena satisfação; esquecemos as dores, os problemas, as contas atrasadas e renegociadas a perder de vista; estávamos engajadas a sermos uma legítima família.

Começamos a trabalhar. Laís como secretária de uma firma de contabilidade, e eu como atendente de uma grande loja de departamento. Nossas vidas mudaram, agora para melhor. As esperanças eram vivas e palpáveis; podíamos comprar roupas, comidas variadas, iogurtes e biscoitos, e honrar as contas da vó Maria. Engraçado é que ela nunca nos cobrou trabalhar, ainda que estivesse abafada pelas pressões financeiras; dizia que, se estudássemos, estava de bom tamanho. Fato é que nunca deixamos de trabalhar e estudar. Terminamos, com um certo atraso, o terceiro ano e logo emendamos nos cursinhos oferecidos pela rede pública.

Laís foi a primeira a passar no vestibular, para Comunicação Social – pode ser ignorância minha, mas não entendi essa pretensão, nem a censurei, sabendo que era de poucas palavras. Um ano depois foi a minha vez, em secretariado, numa faculdade pública.

Nossas vidas corriam bem, embora atulhadas de serviços. Não nos entregávamos. Sempre fomos fortes e atrevidas. Contudo, ambas na metade das respectivas faculdades, fomos surpreendidas com a doença avassaladora de vó, um câncer na região abdominal. Em menos de oito meses, a internação, o coma e a morte.

Isso, sim, nos arrebentou; dilacerou os planos traçados, que seriam de dar um fim de vida tranquilo a vó. Para não termos de pedir ajuda, trancamos as faculdades e continuamos a trabalhar. Eu tive mais sorte, porque, sabendo da morte de vó/mamãe, meu chefe me liberou por um mês; na verdade, antecipou minhas férias. Laís ia arrastada ao trabalho, sem conseguir comer; em tempo de sofrer um revés. Eu mesma preparava sua marmita, para que tivesse apenas de comer; mas, em regra, voltava remexida, quase nada consumido.

Ficamos, sem qualquer perturbação, por dois anos na casa de vó, até que o homem que nos gerou, mancomunado com um tio, boa bisca, irrompeu a morada sagrada para nos despejar, com um mandado judicial forjado, decerto, porque era desse tipinho malandro, criminoso; e, para evitar uma premente morte, contendo os ânimos de Laís, lutei para rebocá-la para um quarto e sala; uma locação que fiz às pressas, para não pararmos nas incertas estrias das ruas.

Laís decretou que sairia com um mês, e queria saber qual seria o homem capaz de tirá-la antes disso. Alcançavam seus arroubos de que a vingança, preparada por ela, seria um prato para se comer quente, fervendo; que esperassem.

 

***

 

Acordei, no malsinado dia, atordoada com a quebradeira. Laís estava determinada a arrebentar das janelas aos azulejos do banheiro. Assim o fez. Nenhuma alma mais viveria ali, conforme declarou com os olhos. Não consegui contornar nada. Estava atordoada, além do mais, com os acontecimentos presentes, tresloucados.

Recuperei alguns pertences, algo que poderia compor a nova morada. Mas, também acometida de ódio visceral, desmanchei o que, quiçá, tivesse serventia.

Laís saiu, colérica, se desatando de minhas mãos suplicantes, com uma mala de mão. Não deixou carta, nem sinal de fumaça. Liguei para amigas e familiares que podiam ter algum resquício de contato, e nada.

Sofro desmesuradamente porque, a essa altura, não sei se está viva, se tem um lugar para dormir; se está perambulando por veredas errantes. Não sei se se entregou à perdição, às drogas. São conjecturas que me atormentam.

Não vale, para mim, ter esse teto sem ela. Agora sou eu quem provo os traços da loucura e do completo abandono. Queria apenas passar meu último aniversário ao seu lado.

 

Adriano B. Espíndola Santos é natural de Fortaleza, Ceará. Em 2018 lançou seu primeiro livro, o romance “Flor no caos”, pela Desconcertos Editora; e em 2020 os livros de contos, “Contículos de dores refratárias” e “o ano em que tudo começou”, ambos pela Editora Penalux. Colabora mensalmente com a Revista Samizdat. Tem textos publicados em diversas revistas literárias nacionais e internacionais. É advogado civilista-humanista, desejoso de conseguir evoluir – sempre. Mestre em Direito. Especialista em Escrita Literária. É dor e amor; e o que puder ser para se sentir vivo: o coração inquieto.

 

 

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142ª Leva - 02/2021 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa II

Vivian Pizzinga

 

Foto: Joice Kreiss

 

viga-mestra

 

coleciono noites. Olho aberto deslizando impune sobre prateleiras, livros, cinzeiros, hélices de ventiladores, olho aberto avançando sobre os escombros do que sobrou do dia. Há certa mudez ressoando nos quadriláteros adjacentes à sala estupidamente calada. Coleciono delinquências íntimas no caminho do baixo ventre, eloquência insuspeita que não deixa pistas, caminho borrado das 3 da manhã ou mais. Coleciono horas mortas em dias úteis, escassas tardes no que há de ar nos pulmões, e é quase nada. Coleciono asfixias, apneia viga-mestra num punhado de hesitações, olho aberto percorrendo a dúvida, vida esporádica percorrendo o chão. Na contabilidade dessa vigília endêmica, é dia sim, dia não que se dorme. Coleciono olhos abertos em seu escrutínio pela noite desprovida de bordas, avermelhadas pupilas de quem há muito se perdeu do caminho do sossego. E note: nenhuma gota a mais resolve o impasse. Coleciono solilóquios. Deslizes. Dias amanhecendo em qualquer época do ano.

Coleciono ecos.

 

 

***

 

 

miasma

 

isolada. exilada. asilada. arrasto um nó górdio no epicentro do corpo. vômito acumulado (volumoso líquido miasmático com espessura em centímetros) ou fome de muitos dias. o nó górdio deu cinco voltas ao redor do pâncreas, associou o fígado no bolo visceral e arrebanhou estômago e intestino delgado na embolada sem repente. a jornada em espiral do nó adelgaçou o intestino grosso, deu pontadas no marco inicial da garganta, fez o céu da boca rebaixar seu pé direito: língua esmagada, dentes espatifados, voz desaparecida, procura-se. jogo-me na cama, em exílio. pode ser que não me levante mais. olhos fechados pingando suor miram o teto com insistência. por horas a fio. asilo. azia. perco o fio da meada.

 

 

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erro de cálculo

 

devastação. sintoma. erro de cálculo. entre o desejo, o amor e o encontro, larguíssima margem de erro. isso foi o que disseram, isso foi o que anotei. sintoma, glaucoma, rizoma, livre associação de palavras fanhosas. e os cadernos? esses, em que desenha suas anotações e depois joga fora, farta da sua fisionomia ali espelhada em letra que ninguém entende. e os cadernos? engodos com pauta, um preparado promissor de garrancho e linhas tortas. blocos prontos para o fracasso. às vezes, contêm espiral. não levam ninguém a nada, só à última página. 98 folhas. lá estão anotadas as pegadas sujas desse erro de cálculo, desse cálculo errático, dessa margem sem borda. é sintoma errante o que trago nas mãos, sempre retorna ao peito natal, aloja-se eficaz na sombra espraiada no lado esquerdo. é glaucoma que estoura a vista, liquefaz a paisagem imediata, rizoma que não se desborda. o amor é erro e é cálculo sim, acolho as advertências, sequer uso o artifício da rasura. mesmo assim indago, com o sintoma pulsando desde dentro, devastação a céu aberto, erro de cálculo numa equação sem começo, mesmo assim pergunto, minha voz um murmúrio acovardado: mas, vida, e se aí, quem sabe, eu for feliz?

 

 

***

 

 

repousa a cabeça larga na colcha do fracasso. de bruços, pensamentos disléxicos, afetos dislálicos, paixões tristes. quer esquecer o dia, apagar conversas da lousa ressecada, ocultar intentos. sente o lençol morno ofuscar o corpo, o sol morto descascar a sombra. epiderme castigada de toques sem mãos. afunda no colchão rugoso, ponte entre o nada e  coisa alguma, toca de silêncios distraídos.

desiste.

abandona a memória de si encorpada de atributos rasos. é melhor esvaziá-la. fecha os olhos vivazes para os sinais das vísceras em levante. desaprende a língua pátria, os gestos hábitos, os gestos rápidos, os gestos dádivas. repudia os verbos vagos. persegue o juízo último, perde o ar na empreitada. dobra em quatro o pensamento, adia-o, agora não.

adormece sem argumento.

prefere não ter razão.

 

 

***

 

 

quando eu quase morri 

 

quando eu quase morri, havia pessoas à minha volta, elas não disseram nada, não fizeram nada, e não pude gritar. quando quase morri, minha voz virou um fiapo estrangeiro, e era áspero, e era triste, era terreno baldio. as pessoas que me rodeavam (havia pessoas me rodeando) não sabiam que eu quase morria, mas ouviram meu fiapo. uma delas chegou a tocá-lo, aquele fiapo estrangeiro, irreconhecível, esguio. ela puxou o fiapo, e o esticou, e o esgarçou, e minha voz era agora um istmo, deixou de ser território, nunca foi lar. quando quase morri, ninguém me reconheceu, e o último a sair não se preocupou em apagar a luz.

 

Vivian Pizzinga é escritora e psicóloga. Lançou Dias Roucos e Vontades Absurdas (contos), em 2013, e A primavera entra pelos pés (contos), em 2015, ambos pela Editora Oito e meio. Em 2018, lançou, em co-autoria com o escritor Igor Dias, o romance epistolar Extravios, pela mesma editora. Tem participação em coletâneas diversas, como Escriptonita (Patuá, 2016) e Cada um por si e Deus Contra Todos (Tinta Negra 2016). Atua como psicóloga em Saúde do Trabalhador e na clínica.