Flanar distraidamente é um tesouro. Perder-se em pensamentos. Absorto. O corpo em piloto automático. E ao voltar à tona, encontrar-se no rumo certo. Sem desvios enganosos. Mas desta vez, não. Devo ter exagerado nos devaneios. O caminho era desconhecido. Tudo me parecia estranho, remoto. Estradinha de cascalho. Lembrança distante. Não tenho certeza. Pode ser o cheiro de barro molhado. Cinzeiros de argila na escolinha. Meu pai os recebia com sorriso medido. Talvez antevendo o enfisema que lhe consumiria os pulmões. O cansaço sobrepesava minhas pernas. Não escutava nada. Nenhum rumor de humanidade. Só minhas próprias pisadas naquele chão pedregoso e escorregadio. Sequer lembrava de onde parti. O sapato deve ter sido emprestado a mim. Me escapava o calcanhar a cada passada. E estava sem meias, coisa incomum. Depois de quase uma hora andando por aquela trilha rudimentar, avistei uma luz acesa. Era um bar, vazio. Um homem de idade avançada cochilava atrás do balcão. A TV ligada mostrava o padrão em cores. Há tempos eu não via aquilo. Os canais costumam varar a madrugada exibindo programas religiosos. Pastores negociando terrenos no céu. Ou prosperidade ainda na terra. Pagamento adiantado, irmão. Glória a Deus.
Dei umas batidinhas no balcão, como fazemos à porta. O velho acordou e me olhou com espanto. Corri a mão nos bolsos, mas não os achei. Usava uma calça sem bolsos. Ele se levantou, e perguntou se eu estava com sede. Respondi que sim, mas não tinha dinheiro. Eu não queria entrar em detalhes e explicar que não sabia o que fazia ali. E além de perdido, ainda estava sem nenhum documento. Ele me serviu uma água mineral em garrafa de vidro. Olhava desconfiado, me examinando de cima a baixo. Isso me deixou um pouco tenso. Bebi a água lentamente, aos tragos. Num giro de pescoço, corri os olhos pelo ambiente. Examinei as paredes a fim de encontrar algum indício que pudesse me localizar no mapa. Deparei com um telefone público, vermelho. Daqueles que utilizavam fichas.
“Ainda funciona?”
“Claro. Quer ligar para alguém?”
Respondi de modo afirmativo, meneando a cabeça. Temia que ele me perguntasse se eu estava perdido. Certamente eu exibia um semblante extraviado. Uma cara de quem não estava ali. Como se minha alma e meu corpo tivessem se desencontrado. E foi exatamente o que ele quis saber. Meio ressabiado, achei melhor negar. Inventei que estava numa festa. Aborrecido com a bebedeira geral, resolvi cair fora antes do fim. Precisava apenas entrar em contato com alguém que pudesse me buscar, ou chamar um táxi.
“Era uma festa à fantasia?”
Esbocei um sorriso. Julguei que fosse uma piada. Ele olhava detidamente para minhas vestes. Eu não havia me tocado. Estava usando uma espécie de farda. Cinza, semelhante a do pessoal de “serviços gerais”. Uma sigla bordada na camisa, SSP. Uma mentira nunca vem sozinha. Sempre precisa de outras para sustentá-la. E no arrepio daquele clima inamistoso, forjar uma farsa plausível não era tarefa das mais fáceis. Peguei a primeira roupa que vi pela frente, falei. Dito assim, mais parecia egresso de um grande bacanal. Arrumei uma piscina, churrasco e todo mundo em trajes de banho. O cenário estava devidamente montado. Era só evitar os detalhes. É neles que a gente tropeça.
Ele desligou a TV e ligou o rádio numa estação AM. Pediu para que eu ficasse à vontade. Iria lá dentro e já voltava. Sua voz gutural ecoava por trás dos engradados de Crush. Conversava com alguém que, ao contrário dele, não se podia ouvir a voz. Tentei escutar a conversa, mas o rádio atrapalhava. O locutor esbravejava contra o comunismo, subversivos, terroristas. De fundo, o hino nacional. Ele voltou, expressão ainda carregada. Disse que não passava táxi àquela hora.
“Eu aceito aquela ficha que o senhor me ofereceu.”
Eu não conseguia completar a chamada. Tornei a perguntar se aquele aparelho funcionava. Até o início da noite haviam feito várias ligações nele, me respondeu. Após dezenas de tentativas, eu desisti. Meu dedo estava doendo de tanto de discar. Agradeci e deixei a ficha sobre o balcão. Ele continuava a me fitar de modo inquisidor. Eu mal conseguia disfarçar o incômodo que aquela situação estava me causando. O céu estava apagado. Nenhuma estrela ousava cintilar. O tempo se arrastava. Há quem acredite que universo conspira a seu favor. Ou a seu revés. A segunda opção parecia se anunciar. Tudo estava harmoniosamente combinado contra mim. “Fique atento aos sinais” – me disse minha mãe, poucos dias antes de atear fogo ao próprio corpo.
“Tem certeza que discava o número certo? Parecia ter número demais…”
“Tenho sim. O senhor não teria um celular para me emprestar?”
Ele apertou os olhos, como se não tivesse entendido o que eu havia perguntado. Um telefone celular, o senhor não tem? Voltei a dizer, frisando bem cada palavra. Continuou me encarando, cenho franzido. Olhou para o relógio e, de forma um pouco áspera, respondeu peremptoriamente: “não”.
Eu cogitei sair dali. Continuar andando, ver se encontrava alguma rodovia, pista, canal, o diabo que fosse. O embaraço das mentiras me corroía. Não conseguia mais encará-lo. De repente, um barulho de motor. O dono do bar saiu de trás do balcão. Ficou perto de mim, em posição ostensiva. Apesar de bastante nervoso, me recostei no balcão. Queria aparentar tranquilidade. Tomei mais um gole de água. Quem sabe, alguém que pudesse me dar uma carona.
Dois policiais entraram. Sem falar nada, vieram em minha direção. Coloquei as mãos na cabeça e perguntei o que estava acontecendo. Me mandaram virar de costas. Fui revistado. Em seguida, me algemaram braços e pernas. Conduzido ao camburão, percebi que era inútil fazer qualquer questionamento. Nem eu mesmo sabia o que fazia naquele lugar, àquela hora. Ir a uma delegacia não era mau negócio. Assim eu saberia onde me encontrava. Poderia ligar para um conhecido, me identificar. Estaria tudo resolvido. Do fundo da Veraneio, ouvi o dono do bar falando com os policiais:
“É do São Pedro, com certeza. Procurei saber se era funcionário, mas ele inventou um monte de coisa. Falou que tinha saído de uma festa numa piscina, ligou para um número inexistente e perguntou se eu tinha telefone celular.”
“Telefone o quê?” – indagou um dos guardas.
“Telefone celular”.
Caíram na gargalhada. Um dos policiais disse que não haviam recebido nenhum telefonema de “lá”. Mas tudo indicava que era mesmo um “fugido” do São Pedro.
Sim, a sigla bordada na minha camisa. SSP. Era óbvia a constatação: as duas últimas letras significavam São Pedro. Mas, e o primeiro “S”? O que significava aquele primeiro “S”? O carro arrancou em alta. Comecei conjecturar as possibilidades. Salão? Sindicato? Simpósio? Seminário? Com assombro, a incógnita se desvelou. Um portão imponente se abriu. Acima dele, a inscrição em ferro trabalhado formando um arco. Entrei em pânico só de pensar. Injeções, choques, camisa-de-força. Huxley falou em abrir as portas da percepção. Eu tive a percepção das portas abertas. Deram um enorme vacilo. Certas oportunidades não cruzam duas vezes o nosso caminho. Haviam me tirado as algemas. Deixaram o fundo do camburão aberto. O portão, escancarado. A liberdade gritou meu nome. Saí em disparada. Pela frente, um blecaute absoluto. Nem sei se havia algum caminho pronto. O breu não oferece alternativas, é a ausência delas. Correr de olhos fechados era mais seguro. Eu podia vislumbrar o trajeto. Dar lume à fantasia é a melhor forma de evitar as armadilhas da escuridão.
Não sei dizer por quanto tempo corri. Só parei quando estava esgotado. No limite das minhas forças. Ao abrir os olhos, uma estradinha de cascalho. Cheiro de barro molhado. Aula de artes no primário, trabalhos em argila. Meu pai carcomido pelo vício. Tudo me era incrivelmente familiar. Aquela claridade lá adiante. Uma espelunca metida a vintage, bar 24 horas. Atrás do balcão vou encontrar um velhote de cara amarrada, tenho certeza. Enfim, posso respirar aliviado. Achei o caminho de casa.
Marcus Borgón colaborou com a revista de cultura e literatura Verbo21. Publicou textos em jornais, sites especializados em literatura, e coletâneas de contos. É autor da novela juvenil O Pênalti Perdido (P55 edições, 2016).
Deixou que tomasse conta de si a noite gélida e calada. Lembrou-se de ter-lhe beijado o rosto e sentido o gosto salgado de suas lágrimas.
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Cansado do frio da madrugada, às manhãs envoltas em papelão, foi buscar abrigo no palco da Igreja. Aquela noite sonhou com o sino tocando sua vida inteira num horizonte à frente.
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A velhice bateu-lhe à porta e ele a convidou para entrar. Largou-se aos recônditos da amargura, em desmemória, vendo os seus pés fincarem lentamente naquele lugar.
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Vi as lágrimas escorrerem e lhe borrarem a maquiagem. Pintou-se para elevar a autoestima, mas por dentro o coração flutuava nas águas.
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Entre o nada e o tudo, viram-se em um abismo silencioso, de onde refletia a profundidade das próprias mágoas.
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Não raras vezes, o cheiro de santidade exalava de seu corpo. Era um homem esbelto, viçoso, aparentemente leitor de clássicos, cujos títulos poderiam condizer com a entoação de sua voz em latim e com o seu comportamento reservado, isso graças àquele ar cerimonioso.
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Assim como a água, límpida e calma, pediu que cuidasse também das rosas, da alma de cada pétala, recepcionadas pelo silêncio agora, onde jazem o Reino dos Céus.
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Esperançosa, acreditou que após recorrer à terapia ele fosse capaz de costurar os rasgos feitos nos corações alheios, e do arrependimento uma nova chance de perdão.
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Ela preferia ali ficar, envolta na sua angustia existencial.
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As fotografias antigas eram tudo que ele tinha, ainda em preto e branco, como um resgate memorial que o ajudava a envelhecer sorrindo.
Thaís Fernandes é natural de São Paulo — SP. Graduou-se em Letras (Português-Inglês), possui especialização em Língua Inglesa e suas Literaturas e desenvolve pesquisa em Estudos da Tradução (FFLCH/USP). Tem textos poéticos e traduções publicadas em jornais e revistas eletrônicas nacionais e internacionais, incluindo The Mark Literary Review, (n.t.) Revista Literária em Tradução, Revista PHILIA | Filosofia, Literatura & Arte, Zunái — Revista de Poesia e Debates, Revista LiteraLivre, Tuck Magazine, Gueto — Revista Literária Luso-Brasileira. Traduziu, entre outros, Maya Angelou, Katherine Mansfield, Mark Twain e ensaios literários de C.S. Lewis, Ralph Waldo Emerson e Robert Louis Stevenson.
Parece inacreditável hoje, mas na infância participei de uma caça a passarinhos com estilingue. Fomos, eu e Silverinha, no sítio de um tio no Litoral Norte. Não recordo com exatidão todas as circunstâncias, mas lembro que caminhamos dentro da mata até bem longe de casa e que, após atingir as aves com as pedras que levava nos bolsos, ele espetava os corpos dos pássaros caídos no arame farpado.
Fiquei vendo Silverinha fazer aquilo e, confesso, o horror me tomou inteira. Decidi voltar sozinha para a sede do sítio, mas acabei perdida no caminho. Distraída desde sempre, andei uns poucos metros entre árvores que pareciam surgir pela primeira vez na minha frente. Era apenas o sítio de meu tio, onde tantas e tantas vezes brinquei com os primos, e não a floresta misteriosa de As Brumas de Avalon.
Sabia que os adultos da casa não sentiriam logo minha ausência. De vez em quando eu me aventurava no rio que ficava no terreno ou desaparecia por algumas horas, catando licuri para encher o tonel que ficava na varanda, isso quando não estava escalando árvores, para sentir de perto o cheiro das folhas, arrancar as frutas no galho ou simplesmente ter, do alto, a visão do verde das coisas.
Minha mãe bem que tentava acompanhar tanto movimento. Para colocar um freio em minhas aventuras no sítio, fez com que toda a família reforçasse as lendas de que havia um jacaré dentro do rio. O bicho ali representava o “homem do saco” das ruas de Salvador, sempre pronto a levar as crianças desobedientes para uma espécie de limbo. Mal sabia que aquela história teria em mim um efeito contrário.
Localizar o jacaré do rio passou a ser a minha obsessão nas férias — aumentaram ainda mais, os meus sumiços no sítio. Só não sei até hoje como me meti nessa caça a passarinhos com Silverinha. Ele era bem mais velho e penso que me desafiou a mostrar coragem. Mas a verdade é que a coragem de matar as aves, eu simplesmente não possuía. Muito menos a habilidade necessária para armar a pedra no badogue.
Naquele dia, como se cumprisse um itinerário de tortura, engolindo a raiva e a vergonha, precisei esperar durante horas até que Silverinha ficasse cansado de acertar as aves com as pedras. E tudo aquilo pesou bastante nas decisões que tenho tomado desde então. Me refiro aos desafios aceitos só por orgulho. Aos amigos que pedem conselho, sempre falo sobre a queda que antecede o voo dos pássaros. Eu os observo da varanda do apartamento onde moro, no décimo-segundo andar de um prédio.
Gosto de tê-los perto por alguns segundos, como se não se incomodassem com a minha presença. É com certo prazer que me aproximo o quanto posso e deixo que sintam que nada desejo, nem mesmo capturar sua beleza. Nada nessa vida se compara à confiança de uma ave em sua queda. Um pássaro desconhece os princípios básicos da aerodinâmica. Ele apenas confia em seu instinto.
Fico surpresa ao saber que cientistas ainda pesquisam de que modo os pássaros enfrentam as correntes de vento. Fico pasma com a perenidade de alguns mistérios. Como as aves dormem enquanto voam? Alemães estudaram uma espécie conhecida como Fragata de Galápagos e descobriram que ela plana quando adormece, usando apenas um dos hemisférios do cérebro. E até sonha (até sonha!) durante cinco minutos.
Cientistas, sempre eles, divulgaram uma pesquisa em 2017 sobre a adaptação das asas das aves às correntes de ar. Pretendem usar esse conhecimento nos cada vez mais detestáveis e invasivos drones. O mundo é um lugar horrível? Tá certo. Mas, ao mesmo tempo, ele é repleto de beleza. Na internet, por exemplo, alguém perguntou outro dia por que os pássaros não voam até a Lua em um site de buscas.
Kátia Borges é autora dos livros De volta à caixa de abelhas (As letras da Bahia, 2002), Uma balada para Janis (P55, 2009), Ticket Zen (Escrituras, 2010), Escorpião Amarelo (P55, 2012), São Selvagem (P55, 2014) e O exercício da distração (Penalux, 2017). Escreve crônicas no jornal Correio semanalmente desde 2018. A teoria da felicidade (Patuá, 2020) é o seu sétimo livro.
Não passamos pelo mundo sem sermos tocados por algo que nos desafia. Vista assim, de modo apressado, talvez esta frase soe até mesmo um tanto frágil. Quiçá seja melhor dizer que não estamos aqui pelo planeta de modo inteiramente descompromissado, soltos e embalados pelo vento. Somos marcados pelas paisagens humanas que se nos afiguram cotidianamente, impelindo-nos a repensar nosso papel diante do Outro.
A vida enquanto uma comunhão de anseios: eis um propósito possível. E não precisamos concordar em tudo para que convivamos melhor uns com os outros, pois mentes e corações são capazes de nos dar sua contribuição em meio ao engenho da diversidade de pensamento. Estamos aqui a falar do entendimento necessário sobre as nossas diferenças até o ponto em que isso possa representar um caminho viável para uma, digamos assim, lucidez social, esta que também nos faça agir de modo mais harmonioso.
Se utopia ou não, o fato é que um mundo melhor passa por transformações que primeiro partem dos indivíduos, engendradas que estão nas porções internas de cada pessoa. Diante do desassossego que insiste em nos rondar hoje, a palavra resistência nos é por demais preciosa, sobretudo quando ela se inclina a combater os atropelos e insanidades que tanto ferem a nossa dignidade. E é um verdadeiro alento perceber vozes que se insurgem contra os desvarios do presente. Gente como a poeta goiana Dheyne de Souza nos faz acreditar que resistir não é mero artifício retórico, mas uma causa que se respira cotidianamente.
Nas mãos de Dheyne, a literatura é instrumento, palavra afiada que atravessa e sensibiliza, motor de estados da alma, indignação, clamor, escuta, encantamento, espanto e estranhamento. Ler seus versos implica num exercício de mergulhos intimistas que reverberam notícias de um mundo que também é nosso, esse mesmo que exige incansavelmente nossa cota e sangue. Desde “Pequenos mundos caóticos” (PUC/Kelps, 2011), seu primeiro livro, a autora já nos apresenta sua verve existencial a fluir entre as dimensões internas e externas da pulsação da vida. Mais recentemente, ela nos brinda com o seu “Lâminas” (Martelo, 2020), obra que movimenta recônditos líricos com o olhar delicado e incisivo sobre a nossa tão conturbada contemporaneidade. Então, coube à poeta, em seu último rebento, lembrar que estamos vivos e que há, sim, antídotos contra a crueldade e o esquecimento.
Na entrevista que agora segue, Dheyne de Souza é potência, pensamento e ato, principalmente quando divide conosco suas reflexões sobre o agora que tanto nos tem trazido desarranjos de toda ordem. É a poeta que nos fala sobre sua trajetória com as palavras, capaz de nos brindar com dois poemas inéditos em meio ao desenrolar de um diálogo que tenta sondar um pouco do que somos e daquilo que nos tornamos até então.
Dheyne de Souza / Foto: arquivo pessoal
DA – É impossível percorrer “Lâminas” e não notar ali verdadeiros atravessamentos da alma humana. Há o labirinto de paixões que se cruzam, a sondagem dos desejos e mistérios e a conta de um presente insano. O que dizer dessa mescla de sensações a serviço da palavra?
DHEYNE DE SOUZA – Primeiramente, Fabrício, quero agradecer pela presença constante nessa travessia de poesia, pela escuta e também por acolher “lâminas” e ter essa gentileza de olhar esses versos meio cortes. Bem, tentarei responder como posso, e não estamos conseguindo poder muito, não é? Eu tenho achado isso. Então, por favor, releve os hiatos os parênteses as indeterminações. Talvez eu dance pelas perguntas de um modo um pouco errante, talvez disperso, talvez reticente. Ando (andamos?) assim. O que dizer dessa mescla de sensações a serviço da palavra? Nem sei o que dizer, na verdade. Acho que “lâminas” foi se construindo assim, entre a tentativa de dizer e essa parede de empecilhos (o que dizer desses últimos anos no país, no mundo?). São poemas gestados por mais ou menos uma década, em que as sensações (arrisco dizer, sem estar certa se é, aviso) foram se encontrando, cada vez mais, com a insanidade do presente. O livro foi publicado neste fatídico 2020. Tenho dito (ou justificado) que não consigo responder a este ano com reflexões teóricas ou críticas satisfatoriamente objetivas ou sei lá. Só tenho tido (não, não é preciso) respostas estéticas, que vêm, como sabe, no terreno das dúvidas. Acho que “lâminas” (e nisso preciso dizer de mim, não de todos, mas o que eu gostaria mesmo é de saber como é para os outros) atravessa em mim um campo enorme de dúvidas, especialmente, agora, sociais. E a linguagem tem algo a nos dizer da cicatriz que fica nela, acho. O que dizer dessa mescla de palavras a serviço das sensações também, não é? Por que atalho porventura batalha deixamos nossas almas? Deixamos? Sinto que estou mais propensa a perguntar que responder. Não sei. A poesia diz?
DA – Diante das angústias e incertezas que experimentamos, poderia a poesia nos ajudar a suportar a realidade?
DHEYNE DE SOUZA – Eu acho a poesia uma possibilidade. Gosto de pensar não como um apoio para suportar a realidade, mas como uma indignação que confronte, questione, critique esse “real”. O que sabemos do que é real? Não sei. Acho que a poesia nos fortalece as dúvidas. E gosto de pensar na poesia em um sentido amplo, para além das fronteiras de gêneros literários, acadêmicos, enfim. Gosto de pensar a poesia como esse sol corajoso que se põe, o vento que deita as folhas do mato, que movimenta alguma emoção, que nos lembra alguma coisa de nós que está no sem nome, ou o sol o vento o mato a emoção que porventura cai numa linha. Para lembrar que é de todos (acho que nunca achei tanto como agora que somos esse todos, que nós = um & outro). Gosto de pensar que a poesia, esse algum estado do que flui em nós, toca-nos e ao outro, se permitimos, se oferecemos, se aceitamos, se lutamos, são muitos “ses”. Sinestesias. Saraus. Sons. Acredito (ou procuro acreditar) que, com alguma consciência de uma incerta “onipresença” dela, entramos mais fundo nas angústias e incertezas que experimentamos. Enfrentar o medo disso. Daí, de dentro de nós, inúmeras outras possibilidades. Conhecimento. Partilha. Resistência. Lembrança de alguma coisa que não sei exprimir. Talvez a lembrança de que somos queremos ser seremos humanos. O que é o humano? Quero acreditar que sim.
DA – “Lâminas” toca em temas sociais que nos são muito caros. Marielle Franco está ali presente e, só em pronunciarmos seu nome, toda uma simbologia de resistência emerge. Ali também está Evaldo dos Santos Rosa, homem negro que morreu ao ser alvejado com 80 tiros disparados por militares contra o carro em que também estava sua família. Falar sobre tais chagas abertas é também um clamor contra o esquecimento?
DHEYNE DE SOUZA – Acredito que seja principalmente um grito contra o esquecimento. Especialmente no momento atual, com um governo que é uma vergonha para qualquer tipo que imagino de humanidade, são ainda mais essenciais, na minha opinião, gritos contra violências, racismos, machismos, desigualdades, entre outras pautas importantíssimas. Marielle está presente e, de fato, é símbolo de resistência. São inúmeros nomes que merecemos lembrar e registrar na história. Crianças foram assassinadas pelas mãos de policiais, elites, preconceitos. Estamos morrendo a cada dia por quê? Fabrício, acredito que já está passando da hora de mudarmos várias coisas nesta sociedade cujo templo é o capital, de adoração patriarcal. Mudanças drásticas, enormes, pode até ser que utópicas. Mas é esse o tipo de sangue que anda correndo em minhas veias e que sinto escapar de “lâminas”. Às vezes me debruço na janela e penso tanto. Eu sei que são poucos os que têm força e, especialmente, esperança de mudanças tão enormes. Mas eu acho que é o que pode nos movimentar. Não quero achar possível que Marielle morra todos os dias pela falta de impunidade e pela tentativa de apagamento dessa memória. Não. Não quero imaginar que 80 tiros sejam apenas um símbolo debaixo do tapete, porque na verdade foram muitos mais. Não. Nem que o golpe vista outro nome, ou a ditadura militar, ou o genocídio e etnocídio de indígenas, negros, mulheres, LGBTQI+s. E, enquanto não quero pensar nisso, escrevo. Escrevo porque acredito que as literaturas podem lembrar à história… sabe? E porque escrevo como resistência, como luta e com a seguinte utopia alimentando atualmente meu peito (segura esta): vem aí a era feminista. Avante.
(em desespero o eu lírico pede SOCORRO)
clarice, foram mais de 80
carlos, já não há rio doce
manoel, o quintal está vedado
manuel, me recuso a pasárgada
paulo, o opressor está no cio
diadorim, conta a sua versão
macabeia, sem remédio a angústia
capitu, até hoje o bentinho
iracema, anagrama de queimas
marielle, quem mandou lhe calar
mariguella, onde estão vossos filhos
ágatha, quantas balas da escolta
mari, o culpado É o estuprador
(poema inédito)
DA – Como você vislumbra uma vindoura era feminista?
DHEYNE DE SOUZA – Não sei se exatamente vislumbro. Acho que mais intuo ou percebo (e nisso posso até estar equivocada, mas estou aqui dando apenas opiniões… então vamos lá). É o que estou observando e pensando. Eu conheço tantas mulheres incríveis, que têm trabalhado incansavelmente, seja na literatura, nas artes, na educação, na economia, no jornalismo, no lar, enfim, em qualquer trabalho, eu tenho visto tantas mulheres enormes, fortes, cheias de coragem. Estão por aí, em toda parte, suando. Cozinham, cuidam da casa, trabalham fora, criam filhos, sonham, escrevem, dão aulas, fazem lives, participam de saraus, falam, gritam, dizem não. É um movimento grandioso, é o que sinto. É muito trabalho. Porque toda essa indignação está na garganta há séculos. Você já imaginou? Sobrevivemos ao fogo. Estamos falando, fazendo, lutando. O que quero dizer é que acho que, se olhamos bem, em todas as partes, estamos. Sabe?
DA – Isso que você acabou de mencionar é algo muito vivo e poderoso. Parece que temos avançado um pouco no processo de redução de invisibilidades no que se refere a pensar o ativismo de muita gente. E notamos que não basta o empenho apenas daqueles que sempre sofreram os apagamentos, mas também é fundamental a adesão de tantos outros grupos sociais, inclusive os que sempre detiveram privilégios. Reconhecer-se parte do problema e ser vigilante quanto isso é um começo?
DHEYNE DE SOUZA – Eu acredito que sim, é um grande passo reconhecer-se parte do problema e também da história e também das rédeas, não é? A gente sabe que é muito difícil avaliar o momento presente com uma lente justa. E eu tenho sentido que o momento presente tem pedido extrema e intensa atenção. Tenho sentido a escrita como um campo talvez não de batalha (embora a luta seja necessária), mas de movimentação, de questionamentos, de dúvidas, sabe? Não sei se sei explicar. Acho que esse volume crescente (tenho também essa impressão) de atitudes que questionam nossas bases cheias de preconceitos, traumas sociais e desuniões, enfim, carrega uma força de uma luta absolutamente justa e necessária. Vamos?
Dheyne de Souza / Foto: Helô Sanvoy
DA – Você tem razão quando diz que essa luta é deveras necessária. Na Literatura, por exemplo, há várias frentes em ação advogando por vozes de mulheres, negros, pela comunidade LGBTQI+, dentre outros. Como você observa essas pautas identitárias transitando pelas produções literárias?
DHEYNE DE SOUZA – Com bastante entusiasmo, especialmente porque, nas nossas manifestações literárias, estão gritando as vozes de mulheres, negros, comunidades LGBTQI+, indígenas, entre outros grupos minorizados socialmente. Acho esses gritos, Fabrício, importantíssimos. Ouvi-los me dá uma força enorme. Tenho lido autores contemporâneos (dessa contemporaneidade que está aí na porta, aliás ouvindo pancadas fortes), digo dos últimos dois, três anos, por exemplo. Eu fico extremamente emocionada com esse presente explodindo em várias formas (e vozes). Tenho receio de citar nomes e cair no fatídico equívoco do esquecimento (com o qual, feliz ou infelizmente, já estou me habituando), mas gostaria de citar alguns nomes não porque tenho condições para tal (quem é que tem condições para tal em um país desse tamanho com os nossos níveis de desigualdades, me pergunto, mas vamos lá), mas porque estão ecoando forte com nossa conversa. Neste 2020, emocionei-me transbordantemente com a leitura de “N’oré Îukaî Xûéne!” (editora Patuá, 2020), da goiana Suene Honorato. Do tupi antigo, o título do livro faz um convite de reflexão e também de revisão da nossa história (e da potencialidade de nossa garganta): “Não nos matarão!”. Também morri um pouco com a leitura de “A mulher que nasceu sem metafísica” (livro no prelo), da também goiana Tarsilla Couto de Brito. Esse título pede muita reflexão. Tem “Bruxisma” (Urutau, 2019), dessa personalidade humana que é a Pilar Bu. Exemplo de força pra mim e desse som alto que digo que nos espreita, assim como ouvi ranhuras altas quando li “Modus operandi” (R&F, 2017), da Thaise Monteiro, mulher-escrita que é corpo-arte. “Cobra criada” (martelo, 2019), do Mazinho Souza, foi outro livro que me despedaçou o sangue negro que me corre a condição de estar e ser. “Uma casa se amarra pelo teto” (Macondo, 2019), da Viviane Nogueira, é algo que ainda estou desamarrando em mim. Enfim, há muitos nomes, muitos livros que me arrebentaram (e eu digo isso em tom de entusiasmo mesmo, porque acho realmente incrível). Fernanda Marra, com “taipografia” (martelo, 2019); Camila Assad, com “desterro” (Macondo, 2019); Wesley Peres, com “o corpo de uma voz despedaçada” (martelo, 2019); Wilson Alves-Bezerra, com “Malangue malanga” (Multinacional Cartonera, 2019); Lubi Prates, com “Um corpo negro” (nosotros, 2019); Arthur Moura Campos, com “5into” (Selo Doburro, 2019); Tarso de Melo, com “Rastros” (martelo, 2020); Natasha Felix, Ana Beatriz Domingues, Bruna Mitrano, há muitas, muitas vozes em todos os cantos. Precisamos ouvi-las e partilhá-las mais e cada vez mais, na minha opinião. Enfim, são leituras mais recentes que dizem tanto do nosso presente que.
DA – Junto com Helô Sanvoy você mantém no You Tube um canal de leituras de textos literários variados, o Pequenos Mundos. Como foi a concepção desse projeto e como tem sido a experiência, seus desdobramentos?
DHEYNE DE SOUZA – Sim, o Pequenos Mundos. Foi uma ideia que surgiu processualmente, como se fosse um rastro (na virtualidade do nosso tempo) para leituras variadas mesmo. Um lugar para deixar lá essa coisa que tenho achado tão importante, cada vez mais, que é a leitura “em voz alta”, como se diz. Eu sempre gostei muito de ler “em voz alta”, desde pequena (na verdade, fazia leituras em murmúrio, para não chamar muita atenção, que o negócio comigo foi meio que assim muito reservado, digamos assim). Faço isso muito com meu próprio trabalho, avaliando o impacto do ritmo no tema (e vice-versa), procurando achar a rachadura na língua que faz a palavra sair. Quem deu a ideia do registro em um canal foi o Helô Sanvoy, que é meu companheiro de vida e de arte (possível separar?). É um trabalho que tem inúmeras lacunas, inclusive temporais. Às vezes, ficamos muito tempo sem “atualizar” o canal, por forças maiores, como viver cotidianamente e suportar o político que há nisso. Com a pandemia, senti uma necessidade muito grande de ler as vozes contemporâneas, de que falamos há pouco. Com essa vontade, retornou certa frequência de gravações e publicações. Também teve papel importante a publicação do “lâminas”. Quis divulgar alguns poemas em vídeos (também alcançando a índole instagrâmica da nossa época). Ler e publicar as leituras também foi uma espécie de compartilhamento de poesia, logo, quem sabe, de resistência, de fôlego, de indignação, de uma vontade de alcançar o outro de algum modo. Eu também faço parte de um grupo goiano de vocalização de poesia chamado Corpo de Voz, dirigido por Jamesson Buarque e Maria Ritha. Tem um corpo extremamente variado e potente de vozes, uma coisa linda de se ver e ouvir. O Corpo de Voz também tem um canal, em que há leituras tanto dos membros quanto de convidados espalhados Brasil e mundo afora, além de aulas e depoimentos sobre vocalização. É um trabalho muito importante e bonito, na minha opinião, que vem desse coração gentil e generoso que é Goiás pra mim. Tenho notado muitas manifestações assim, em que ler ou performar um texto convida a reflexões críticas e atitudes propositivas. Saraus, slams, batalhas de rap. Estamos vivendo uma época (e isso tem muita relação com o que falamos antes dessa reverberação de vozes representativas de inúmeras lutas) repleta de possibilidades, que não escondem nem minimizam as mazelas, mas arriscaria dizer que partem delas (também) para explodir. Não quero soar utópica nem otimista diante das gravidades sociais, políticas e atualmente sanitárias, mas quero manifestar que tenho olhado para as experiências e experimentações artísticas procurando pensar no que pode estar acontecendo com o compasso da história no nosso tempo. E também (talvez mais ainda) procurar formas de resistir e participar (para mim, escrever é uma forma de resistência, por mais que já se considere isso uma opinião démodé). Sei lá. Quero pensar o presente junto. E dizer disso algo.
DA – Goiás te deu régua e compasso?
DHEYNE DE SOUZA – Adorei a pergunta, principalmente porque pressupõe cortes arriscados (risos). Vou escolher uma via de resposta que pode fugir um pouco da referência, mas a imagem evoca medidas que me instigam a comentar. Goiás talvez tenha me gestado na desmedida do vento, do mato, do silêncio, da imaginação. E quando digo que sou goiana a pretensão é bem elástica mesmo, inclusive em termos geográficos. Nasci em uma cidade situada no mapa, hoje, no estado de Tocantins. Mas em 1983 ainda era Goiás e continuou sendo enquanto eu ainda estava lá. Com dois anos: de lá para o interior goiano, onde cresci conversando (estranhamente, para alguns) com as vacas antes mesmo de desconfiar que existiam medidas filosóficas nisso. Agora mesmo enquanto escrevo, lembro a sensação nas costas da grama da tarde quando deitava para adivinhar figuras nas nuvens. Só muito depois, vieram as nuvens de Baudelaire (digo do texto “O estrangeiro”). Diria que Goiás me deu sinestesias nos descompassos.
DA – O quanto Dheyne de Souza conhece Dheyne de Souza?
DHEYNE DE SOUZA – Nossa, essa é uma pergunta bem difícil. Inevitável: o quanto nós conhecemos de nós? Não sei. Eu olho para a pergunta e me pergunto se você (também) vê duas pessoas ou se vê apenas uma. Logo em seguida, penso que enumerar seria sempre impreciso. Mas, no geral, fugindo desavergonhadamente da pergunta, diria que pouco. Sendo um pouco mais aventureira, talvez, confesso que brinco de algumas camadas nessas identidades relacionadas ao nome, à linguagem. Confesso também que, no meu processo de escrita, às vezes acho que a personagem me conhece melhor do que eu a ela (estou com essa impressão atualmente, na escrita do meu romance, o que dá certa medida de angústia com a personagem). Eu considero um pouco difícil explicar essas situações de uma forma lógica ou sintética. Ou talvez seja um mistério. E se for mesmo, parece que, de qualquer modo, a gente se conhece pouco ainda.
Dheyne de Souza / Foto: Helô Sanvoy
DA – Sabendo que as águas do imenso e caudaloso rio da vida se movimentam constantemente, coloco novamente a pergunta que te fiz por ocasião da nossa última entrevista, em 2012. Afinal, por que escrever?
DHEYNE DE SOUZA – Antes de responder (ou de me esquivar de, rs), gostaria de deixar registrado o quanto fiquei feliz com a edição de “lâminas”. Agradeço muito ao meu companheiro, Helô Sanvoy, por ter feito uma obra especialmente para a capa do livro e com tanto diálogo com os cortes e alinhavos. Também fiquei emocionada com o trabalho cuidadoso e com grande medida de olhar poético de toda a equipe da martelo casa editorial. Agradeço a todes e particularmente ao meu editor, Miguel Jubé, pelo carinho e respeito com o objeto e subjetivo livro. O trabalho da Martelo, como o de tantas outras pequenas e médias editoras hoje no país, e a presença numerosa de revistas virtuais, como a Diversos Afins, têm sido, na minha opinião, sinais de resistência fincados neste nosso presente tão, para dizer o mínimo, difícil. Ter “lâminas” registrado neste 2020 significa muito para mim e me embala uma força para seguir trabalhando, com tantos exemplos de coragem aos redores. Sigamos! “N’oré Îukaî Xûéne!” Bem, sempre acho essa questão difícil de responder. Costumo dizer que é mais importante que comer, para mim. Mas é uma ficção até isso, avaliando bem. E se a gente cavucar um pouco, chega em subterrâneos ainda hoje muito íngremes. Então, se me permite a “leveza” do aparente fim:
esquife
de tudo isto, o que levar
o queixo alto, as páginas viradas
a lembrança amarelada do que latejou
algum sinal que sobrou no cenho, no colo, na velocidade do silêncio
quem sabe nada
nem serenos
hão de ocupar todas as horas
vezes algum lampejo de memória
como um livro em que nunca se banha duas vezes
de tudo isto
quem sabe tudo
não passou de pesadelo
e antes de terminarem as últimas linhas
já foram lavadas
levadas as mãos
e de dor nunca se soube
(poema inédito)
Fabrício Brandão é frequentador do mundo da Lua, sonhador e aprendiz de gente. Se disfarça no planeta como editor da Diversos Afins, poeta, baterista amador, mestre e, atualmente, doutorando em Letras, pesquisando eus que trafegam pelo mundo virtual.
Antes de falar, a mulher afastou a escovinha do rosto. Retocava o volume dos cílios com uma máscara preta. Eriçava-os para cima enquanto o olhar verde observava a moça que, há pouco, tinha entrado no banheiro. Ela tentava manter os seios dentro de um decote vermelho que insistia em mostrar demais.
— Você anda com fita na bolsa?
A moça lhe dirigiu os olhos castanhos muito brilhantes e esperançosos. Eram olhos juvenis contornados por uma maquiagem alegre.
A mulher enfiou a escovinha no frasco e o deixou em cima da pia. Vasculhou a bolsa de pedrarias pretas, que combinava com seu vestido também preto, bem fechado na frente e com um longo decote nas costas, até a cintura. Costas nuas.
— Já me vi em cada situação. Tenho linha, agulha, alfinete de segurança…
— Você é bem prevenida.
— Uma vez quase fiquei nua em um casamento, minha filha. Essas roupas são uma armadilha. Toma.
Tirou da bolsa a fita e a entregou à moça. O ar distraído. Sacou novamente a escovinha do vidro e se observou no espelho. A mão em suspenso sem saber se recomeçava a tarefa de avolumar os cílios que já estavam eriçados, negros e curvados para o alto. Daquela vistoria os olhos escorreram para a outra.
— Acho que tem de fazer uma tirinha mais fina. Deixa eu pegar uma tesourinha.
— O decote é muito aberto.
A mulher cortou um pedaço de fita e depois o dividiu ao meio.
— Tenta agora.
A moça agradeceu. Parecia atrapalhada com a operação, tentava a todo custo evitar que os seios ficassem à mostra.
— Coloca a fita mais pra dentro para manter o franzido do tecido. Ninguém nem vai notar.
Continuava olhando através do espelho e se colocou em um ângulo em que não podia mais ver a moça enquanto perguntava.
— Gostando da festa?
— Animada. Tem gente famosa.
— Ah! Sempre tem um ou outro… e muito famosinho arroz de festa. Você vai ver.
— Ai. Grudou tudo. Vou fazer outra. Você não se chateia, não, né?
— Olha… eu… a fita? Nada. Pode usar à vontade.
— Não está gostando da festa?
— Maçante. São todas iguais. Mas tem de vir, né. Quando fico entediada venho retocar a maquiagem. Adoro. Já teve vezes de eu mudar a cor da sombra no meio de uma festa… Ninguém notou. É a vida.
A frase a fez pegar o estojo de sombra. Decidida, enfiou o pincel no dourado.
— E não tem como escapar, né?
Empurrava o seio para dentro do decote enquanto falava. Parecia arrependida das escolhas que tinha feito. Os tamanhos.
— Agora é ir até o fim. Paciência. Estou acostumada a esperar as coisas acabarem. O que não é pra vida toda a gente aguenta. Noblesse oblige.
Murmurou para si mesma o noblesse oblige e descartou o dourado. Limpou o pincel e procurou uma outra cor. Decidiu-se pelo bronze fosco. Começou a retocar os olhos, que até então tinham uma maquiagem mais suave.
— Uma festa de caridade…
A mulher teve de parar a maquiagem para rir.
— Olha meu vestido. Uma festa de caridade. Ele não me avisou de nada.
— Não tem motivo para você se preocupar. Aqui…
— Quem ia imaginar uma festa de…
Voltou-se para a moça. Até então só a tinha visto pelo reflexo do espelho. O cabelo era muito loiro e liso. Alisado. O vestido era mesmo muito justo. O decote deveria ser natural com várias dobras, mas como era um número menor, faltou tecido.
— Deixa eu lhe ajudar.
Cortou novas tiras da fita e começou uma nova operação. Tinha de tocar nos seios. Não havia outro jeito.
— Não tem problema.
— E você nunca veio numa festa…
— De caridade? Nunca nem imaginei…
— Espera. Não se mexe… o bom é que é firme. Vai segurar.
— Me custou muito.
O decote se acomodou nos seios. Não corria mais para os lados.
— Tenho medo de escapar se eu me mexer muito.
— Por enquanto você não vai ter de se mexer. Vai ficar sentada… ereta… vai sorrir suavemente e esperar acabar a festa.
A moça riu.
— Obrigado. Vai ficar o final de semana?
Foi a vez da mulher rir.
— Não. Domingo de manhã tem culto.
A risada da moça congelou num espanto. A mulher se voltou para o espelho. Não se decidia a retornar para a maquiagem.
— O fim de semana inteiro, né?
A moça já não ria. Jogava os restos de fita na lixeira.
— Você é mesmo muito prevenida. Tenho de aprender essas coisas.
A mulher guardou a fita e a tesourinha na bolsa e tirou de lá um estojo pequeno. Dois comprimidos surgiram em sua mão. Um azul e outro branco.
— Toma.
A jovem recebeu os comprimidos em sua mão pela inércia da surpresa.
— O que é isso? Eu não curto…
— Eu vi você mais cedo. Acho que vai precisar. Não é pra você.
— O azul… eu acho que não vai precisar.
— Pelo que eu vi, vai. Amassa e coloca na bebida. Funciona bem.
— Mas não é perigoso?
— Pra você, não.
A moça olhava para os comprimidos sem saber o que fazer. Estava presa em um momento em que a compreensão de algum mistério está prestes a se relevar. Aquele momento em que se tira a venda e a luz da visão primeiro cega antes de deixar aparecer a paisagem. Ela estendia a mão como uma pergunta.
— Com o outro você faz a mesma coisa. Amassa e coloca na bebida. Esse é pro caso de você correr perigo.
Os comprimidos foram postos na minúscula bolsa prateada. A jovem tinha, agora, os olhos mortiços, olhos que enxergavam melhor.
— Obrigado. Não vem para a festa?
— Vou depois.
A moça saiu do banheiro e a mulher retomou a sua maquiagem. Decidiu-se novamente pelo dourado e o passou com generosidade furiosa. Tudo se iluminou em torno de seus olhos muito verdes e muito escuros.
ESCREVENDO UM CONTO
As primeiras frases deste conto surgiram-me durante uma entrevista que dei a Suênio Campos de Lucena, em junho de 2019. A entrevista ainda está inédita. No meio de uma longa resposta sobre meu processo criativo, eu disse:
“Ou mais: que tal pensar outros contos que tenham como ponto de partida objetos ou produtos usados apenas por mulheres? Sutiã, salto alto, cílios postiços, a antiga anágua… já imagino uma mulher no banheiro de uma festa bem chique dizendo à outra: “Eu tenho fita dupla face aqui. Quer?” “Você anda com isso na bolsa?” “Já me vi em cada roubada. Tenho linha e agulha, alfinete de segurança… Já fiquei nua na rua, minha filha. Essas roupas sexies são uma armadilha”… acabo de escrever esse diálogo e já quero saber como foi a história de ter ficado nua. Mas interessante mesmo deve ser a outra que, certamente, tem uma roupa que está mostrando demais e talvez nem tenha se dado conta. Quem são essas mulheres?”.
Esse diálogo ficou guardado no meu computador.
Em setembro de 2020, fiz uma oficina de dramaturgia com Marcos Gomes. Um dos exercícios pedia uma cena entre dois personagens que se referisse a algo fora da cena. Voltei às duas mulheres no banheiro e fiz uma cena curta.
Agora, Fabrício Brandão me pediu mais um conto para a revista. Poderia ser qualquer conto que eu tivesse nas gavetas. Eu lhe pedi uma encomenda: um tema. Já tínhamos feito isso antes: O sabor dos anjos e A frestaforam feitos sob encomenda. Pecados capitais: gula e inveja. Desta vez, Fabrício me pediu com o tema “cidadão de bem” e sobre hipocrisia. Usei as mesmas personagens. Mudei o rumo da conversa entre elas e aí está. Talvez seja um conto ainda em processo. Não sei. Deixemos descansar, desta vez não na gaveta, mas em praça pública.
Marcus Vinícius Rodrigues nasceu em Ilhéus-Ba e mora em Salvador. Publicou, entre outros, os livros O mar que nos abraça (contos, Ed. Caramurê, 2019) Café Molotov (contos, Editora 7Letras, 2018); A eternidade da maçã (contos, Editora 7Letras, 2016) e Cada dia sobre a terra (contos, Ed. Caramurê, 2010). É membro da Academia de Letras da Bahia.
1. …Maria, minha mãe, de 57 anos, tem esquizofrenia.
2. …Nada é mais doce que a tortura cotidiana para deformar o espírito de uma pessoa. Mamãe explicava com muita clareza o método de vovó.
3.…Porque o dizer importa! – exclamava Maria a seu marido. Não, ela não dizia a ele sequer uma frase completa. Maria dirigia sua voz ao invisível que habitava as paredes. Contradizendo o valor do inaudito, ela ressignificava o dizer. A ruptura do silêncio era o emergir de uma nova percepção do espaço que a envolvia. Percepção essa manifestada na palavra. Cada elemento desse objeto sonoro, apenas exercia a função narcisista de realçar a subjetividade de Maria. …quanto mais falava, mais percebia a si mesma.
4.…– A esquizofrenia de Maria obedece à 2ª lei da Termodinâmica. É irreversível. A desordem tende a aumentar até um estado futuro em que você não mais a reconheça. Antes desse dia chegar, é melhor não estar com ela. – sentenciou o médico.
5.… Em 1992, mamãe saiu de casa. Desde então, vivo em 1992.
6.…Existem três verdades sobre Anderson: ………a) Ele, enquanto nome e sujeito, não passa de uma crença reforçada pelo tempo. ………b) Houve cinco Andersons em três décadas e meia. O atual é a soma dos anteriores. ………c) O atual existe em conflito com os anteriores.
7.…Quanto a Anderson não sei o que afirmar, porque:
……..a) O original durou do nascimento até o dia em que uma tempestade se manifestou em sua cabeça. ……..b) O segundo apareceu em 1992, levando à morte o primeiro*. ……..c) Já o outro veio a surgir na virada do século 20, durante o curso de Letras. ……..d) E o quarto sorriu em 2012, assim que suas mãos envolveram a pequena Ana Clara. ……..e) Mal conheceu a traição, o quinto emergiu.
…. Daí a impossibilidade.
Estou certo disso: o segundo é uma constante que molda todos os posteriores.
8.…Um parasita controla o cérebro de minha mãe. No exato instante em que o ingeriu, perdeu o domínio das emoções. Agora não sei dizer se ainda há algo nela que possa ser Maria.
9.…Em 26 anos, ela desapareceu.
10.…Mas antes de esvanecer, Maria foi:
………………a) A mão que rascunhou minhas fantasias. ………………b) Os cabelos encaracolados que enovelavam-se em meus dedos. ………………c) O riso ante o grito e a angústia.
11.…Em 26 anos, percebo agora que eu também esvaneci; mas para quem?
12.…Deus ama os seres mutilados.
13.…A ordem era que, com oito semanas, o prepúcio que envolve a glande fosse cortado. Mas, somente com oito anos, tive esse privilégio.
14.…Quando a pele foi arrancada, Deus tirou de mim o prazer. Em seu lugar, a graça de uma vida clemente.
15.…A Bíblia tornou-se minha penitência. E após um tempo que não sei determinar, me converti.
16.…Na conversão perdi o meu nome. Perder o nome é o mesmo que cindir o ser.
17.…Eu sou um homem mutilado.
18.…As mutilações foram três sequencialmente: ………………a) Maria. ………………b) O prepúcio. ………………c) A traição.
19.…Deus me ama.
20.… A loucura constitui-se em um crime contra seu possuidor. Há quem o converta em poesia. Não o louco. Com que paga seu crime? Barganhando o corpo. É uma oferta generosa: perder um pouco de si para ganhar alivio à dor.
21.…O louco, meu amigo, é um penitente.
22.… A oferta teve um lucro: Kelly.
23.…A avó não permitiu que Maria cuidasse da própria filha. Kelly foi tomada. O louco não é apto para cuidar de uma criança. Que pena! Ninguém permitiu que criasse os filhos. Nem Deus, nem o marido, depois nem o primogênito. Acusada, foi banida.
24.…Internada em um hospício, fugiu.
25.…Em um instante de frenesi, quando o delírio toma as feições do espírito e o poeta manifesta-se cantando o porvir, Maria gritava nos corredores do hospital.
26.…Sem filhos, assim ela passou o resto da vida.
27.…Maria morreu em uma cama de hospital sem estar cercada pelos próprios filhos.
28.…Morta, Maria foi sepultada.
29.…Kelly esteve presente, apenas.
30.…Sem Maria tudo é permitido.
31.…Sem ela, Anderson é responsável por qualquer dor que a escolha lhe trouxer. Não pode mais culpá-la.
32.…É tarde
* N.A.: O primeiro não é o mesmo que o original, cujo sentido etimológico é creatio ex nihilo.
Anderson Fonseca é autor dos livros “Sr. Bergier e outras histórias (2016)” e “O que eu disse ao general (2014)”. Atualmente, cursa Mestrado em Filosofia na Universidade Federal de São João Del Rei.
No meio do país ainda se acredita em Deus e no casamento, as pessoas vão à praça, fazem festas na calçada da igreja, sorriem e comem carne em churrascos civilizados lá no meio, longe de tudo, perto do mato e da água, onde poderiam ser mais selvagens, acreditam no progresso e confundem progresso com:
Deus
emprego
casamento
previdência
e morte
A gente não cresceu ainda, então é mais fácil fingir de doida e escapar da catequese para ir nadar, correr léguas da catequese e zunir da missa, cruzar a rodovia na garupa de uma moto e queimar a batata da perna, beijar atrás de um caminhão pisando em galho seco, fazer gangue para roubar bombom, se depilar na casa de uma tia
estranha
voar para muito longe dali
e nunca mais voltar
***
Fuga número 2
Se tudo começa quando a gente fala, então as palavras eram:
mapa
mala
festa de adeus
(último) contra-cheque
salto
medo
vontade
Socar tudo em duas portas de armário, vender a mãe e a sogra num mesmo pacote, telefonar para aquela prima distante, cavar uma carona no sete de setembro e varar as montanhas para pegar essa garoa que molha a alma e às vezes demora a secar.
mas seca
e a gente aprende que é bom
carregar capa de chuva
***
Fuga número 3
Ali está um bueiro (a palavra é alcantarilla, em espanhol) feito para quem não teme passeios pelo subsolo dos diabos brancos, como o da carta do tarô.
– desça, diz o lobo
no eco de um bom mistério
Metros abaixo, a vista embaralhada de desejo e perdição, exploro corredores compridos, sem bússola nem lanterninha. Viro menina-morfina sob um feitiço amoroso que abraça e paralisa.
– dance, ri o lobo
ao som dos seus maiores medos
Nas galerias que servem como salões de baile, sou vestido, maquiagem, laço grande no cabelo. Quase não sei por qual buraco entrei e tenho um arranhão vermelho no pescoço quando a festa termina.
– fuja, rosna o lobo.
com uma boca enorme que me morde forte
mas assopra sempre que o primeiro raio de luz
atravessa nosso quarto
Maria Lutterbach (1982) é mineira e vive no Rio de Janeiro, onde escreve e realiza projetos audiovisuais. Foi cronista do jornal “O Tempo”, de Belo Horizonte, e colunista convidada no blog da saudosa Cosac Naify. Seu romance de estreia, “Baixo Araguaia”, será lançado em breve pela editora Quelônio (SP).
Estava morta a minha irmã, ali entre jasmins e rosas, minha mãe à cabeceira chorava. Era uma noite inquieta, essa do velório em vigília e prantos por Estelinha, de quando em quando se rezavam benditos. O enterro iria seguir no outro dia, no meio da manhã de sol.
Estela estava morta, aos treze anos. E eu sentia dentro de mim esta morte. Era um pouco também eu morto, sem tempo de me redimir e poder amar minha irmã, como — só agora! — eu sabia ser capaz. Ela não morresse, eu iria brincar com ela, nunca mais uma zombaria, nem desprezo, nunquíssimo a chamaria de “sua doida”.
Pois agora eu começava a compreender sua linguagem; logo agora, desde que ela se fora para o hospital, eu comecei a entender seus diálogos compridos com as pedras, com os tocos de pau, com as folhagens ao vento. O silêncio de sua ausência no quintal se mostrou dentro de mim em tons de uma saudade estranha. Mas, ainda ali, eu não suspeitava do que me vinha na alma.
Tudo fora a ordem do tempo. Ela nascera primeiro, três anos antes de mim. Agora a diferença encurtava, mas justo quando eu me afogava nesse deserto de lágrimas. Pela primeira vez, eu dialogava com a minha irmã:
— Estela, acorde, vamos conversar com as pedras — sussurrei no seu ouvido, ninguém me escutasse.
A madrinha veio me consolar, eu tivesse paciência, fora a vontade de Deus, o melhor para ela, tão doentinha, coitada. Tive raiva de madrinha, no meu mais íntimo sofrimento. Continuei a conversa, até que me puxaram pelo braço, pois minha mãe redobrava-se no pranto.
— Estela, acredite em mim agora. Vamos correr picula.
O corpo dela suava, dormindo sem ressonar. Um pano envolvia seus cabelos castanhos e descia para sustentar seu queixo — talvez para conter o sorriso? Minha mãe enxugava o suor da morta com o mesmo lenço em que depositava as próprias lágrimas. O tempo voltasse, meu Deus! Eu só implorava um único milagre. As imagens desfilavam na minha memória, eu a escutava como se fosse agora:
— Vamos brincar, Dindinho.
— Não me chame de Dindinho! Meu nome é Pedro — respondia áspero, sem sequer olhar, e ia saindo.
Eu pensava odiar o fato de ter uma irmã assim. Ela insistia, amorosa, que me dava um constrangimento.
— Não, ninguém sabe, mas é Dindinho, seu nome bonito, eu chamo — dizia, como se eu continuasse presente.
Eu fugia de ter essa irmã. Os meninos me abusavam. Várias vezes briguei por me chamarem de Dindinho, o irmão da doida. Dindinho, eu mesmo não! Minha mãe já ia pegando o costume de me chamar assim, nas vontades de sempre agradar a filha. No contra, eu me rebelei, fugi de casa um dia inteiro. Minha Mãe me deu uma surra, depois, mas nunca mais me chamou daquele nome.
Por que ela existia? Eu não me dirigia a Estela. Mudava de rumo, baixava os olhos para não dar com ela. Eu a considerava um estrago na minha vida. Quis muito que morresse.
Ela me surpreendia, às vezes, antes que me mostrasse irritado, como quase sempre acontecia:
— Quando você morrer, Dindinho, de que cor você quer suas asas no céu?
Uma coisa tão sem sentido, que eu sequer respondia. Apenas fazia uma careta de enfado, balançava a cabeça negativamente. Ela me cercava os olhos, inventava brincadeiras cada vez mais estranhas, para conquistar minha atenção. Isso tudo mais me afastava. Os meninos, meus amigos, considerassem que eu não tinha irmã, pois mencioná-la era já motivo de desavenças. Fiquei de mal com alguns dos melhores, tempos e tempos, por essas causas.
Diante de minha repulsa, Estela intentava uns modos de me sensibilizar, sem o menor sucesso. Um dia, posto que eu a estivesse atentando muito, ela imaginou uma proposta das mais descabidas. No começo da noite, ela, depois de tanto silêncio, me propôs com a maior certeza do mundo:
— Eu lhe dou uma coisa para sempre, aquela estrela grande será só sua a vida toda e depois, Dindinho.
— Ora, quem pode ter uma estrela, “sua doida”? — desdenhei.
— Pois pode, porque é minha e eu lhe dou só pra você, Dindinho. Mas só se você sorrir para mim, todo dia, uma vez… Só uma… Você quer?
Nunca soube sorrir para você, Estela, me perdoe. Quando eu tomava posse de mim mesmo em mais profundo, quando um sorriso germinava no fundo de minha alma — e seria seu! —, você já não estava aqui. Até hoje só me vêm as lágrimas que nunca tive antes, quando você vivia em seu mundo de imagens, que só percebi depois. Eu era mesmo um Pedro, o coração tinindo na dureza, você foi me amaciando. Você, aos quase quatro anos, me carregou no colo. Eu era seu neném, como a nossa mãe me contou, depois de tudo, tardiamente. Estela… Tudo podia ser tão diferente!
A noite ia avançando, em horas que eu não conhecia, os meus olhos já desistentes. Eu me debruçava sobre a morta, o sono me empurrava para ela, nos movimentos bruscos dos cochilos. Minha mãe me mandou dormir, e eu, depois de insistir negativo, enfim saí cabisbaixo da sala, a solidão me completava. Não me dirigi ao meu quarto, mas ao que ficava ao lado. E examinei os ângulos daquele lugar, tudo tão limpo e arrumado numa ordem que eu não conhecia. Ali, enxerguei os contornos deste vazio que até hoje carrego. Fiz meia-volta e caminhei para o meu leito, mas não consegui me acomodar. O sono me apertava os olhos, uma agonia no peito teimava-me pela vigília. Quis retornar à sala, mas nossa mãe me suplicou que não, com um olhar terno, tão raro aquele olhar… Eu voltei, mas não para o meu quarto. E me deitei na cama de Estela, deixando na alfazema do travesseiro o sal dos meus olhos.
Eu me vi vivendo o melhor que nossa realidade. Estela me sorria, corria de mim, eu não tinha pressa de apanhá-la, era talvez picula. O nosso quintal se alargava, o caminho de plantas, paus e pedras ia-se margeando em nuvens sem um fim que se avistasse. Eu tinha o saber de tudo, mas não me importava, o sorriso de Estela me preenchia e me fazia leve, que então voávamos. Eu queria alcançar minha irmã, mas não podia lhe pedir que parasse. Estela tinha um voo firme e certo, e eu, me parece que só voava no seu vácuo. Mas eu a queria, buscava-a para um abraço que faltava em mim, um toque que me transmitisse os seus modos de sorrir. Eu queria conversar com as nuvens, e as pedras lá embaixo já me sorriam, as folhas acenavam para mim. Estela ia-se distanciando, eu me surpreendi no cansaço desse voo, as nuvens perdendo sua leveza. Estela! Estelinha, me dê a mão! Me leve com você! Mas o seu sorriso já me abandonava. Ela se foi fazendo em cor de nuvem, aos poucos me vi sem olhos para tê-la. E era tarde, muito tarde: tive um sobressalto, e tudo que agora eu via eram as telhas vãs do nosso quarto.
A manhã se ia acesa como as velas, numa rapidez que doía em nós. Vi que minha mãe não dormira, velara nessa noite toda uma vida ao lado da filha. Era um olhar cansado, dela para mim, com um desencanto mudo, enxergando o nosso vazio. Acerquei-me dela, os seus braços me tatearam. E logo me acariciava os cabelos com a mão direita, com a outra acariciava os cabelos de Estela. Inesquecível aquele gesto de nossa mãe, em toda a nossa vida, por seu corpo passando a nossa última sintonia.
As pessoas iam chegando, a hora do enterro se aproximava. Madrinha apagou os quatro tocos de vela acesos ao redor de Estela. Começaram a distribuir os ramos de flores para o acompanhamento. Eu reparava nos meninos e nas meninas que se acotovelavam para ver a morta. Alguns que sempre zombavam dela. Uns me pareciam tristes, outros apenas viviam uma aventura. Eu me sentia completamente afastado de todos.
Iam fechar o caixão. Minha mãe despejou mais lágrimas e inquiria Deus pela morte da filha. E até madrinha, pela vez primeira, soltou as rédeas do seu pranto. Eu me guardei no silêncio, peguei um ramo de rosas que estava próximo ao rosto de Estela. Não me pareceu que eu pudesse beijar o seu rosto agora, já que nunca o fizera em vida. Então beijei as flores e pus de volta no caixão.
Era hora, o enterro ia seguir. Quando me mandaram olhar minha irmã pela última vez, não chorei, pois me pareceu que ela sorria um sorriso longe só para eu sentir. Então percebi que ela agora se tornava como nuvens. Eu quis seguir com ela, mas não me deixaram. E me levaram Estela de mim.
O cortejo dobrou a primeira curva de nossa rua. Os meus olhos continuaram buscando, até hoje parados naquela curva sem nome. Madrinha varreu a casa, dos fundos para a porta da frente, juntando as folhas e restos de flores e tocos de velas. Deixou o montinho no pé de jambo que Estela chamava de “meu segundo amor”. Era onde minha irmã costumava ficar à sombra, enfeitando-se com as flores rubras de jambo. Ali eu derramei as minhas derradeiras lágrimas.
Minha irmã, ainda hoje eu contemplo a tua estrela e tenho uma vontade enorme de que fosse minha. Eu vejo tua imagem se projetando de lá, num sorriso longe que não me deixa desamparado. Era essa luz que você me oferecia, por apenas um sorriso, que já era seu sem que eu soubesse. Quantas estrelas no céu — e eu não possuo uma sequer!
O tempo me deu estes cabelos brancos, mas a minha memória guarda os sinais do semblante de Estela, com suas alegrias sem nenhum motivo. Em nosso quintal, as pedras, os tocos de pau, as folhagens ao vento puxam conversa comigo, mas eu continuo mudo. No entanto, agora sinto: eu sou Dindinho.
*Conto integrante do livro “O desterro dos mortos” (Caramurê, 2018)
Aleilton Fonseca é ilheense de adoção, nasceu em 1959, em Firmino Alves-Bahia, viveu e cresceu em Ilhéus, dos 4 aos 19 anos, e reside em Salvador. Escreve poesia, conto, romance e ensaios. É doutor em Letras pela USP e professor de Literatura da UEFS. Estreou em 1981, com o livro de poemas Movimento de Sondagem. Tem textos traduzidos para francês, espanhol, inglês, italiano, neerlandês e alemão. Publicou diversos livros, como: As formas do barro e Um rio nos olhos (poesia), O desterro dos mortos, O canto de Alvorada e As marcas da cidade (contos), Nhô Guimarães e O pêndulo de Euclides (romances) e O arlequim da Pauliceia (ensaio). Pertence à Academia de Letras da Bahia e à Academia de Letras de Ilhéus.
Uma leitura de Cinevertigem, livro instigante de Ricardo Soares
Por Geraldo Lima
Cinevertigem, de Ricardo Soares, é um livro inovador, provocador, escorregadio. Publicado pela Editora Record, em 2005, é obra que cruza a fronteira dos gêneros literários e busca, com certeza, ampliar os horizontes da criação literária. Durante a sua leitura, o leitor provavelmente indagará: isso é prosa ou poesia? É um romance ou um longo poema?
Num primeiro momento, o leitor, certamente, será tentado a ler essa obra como um longo poema, já que o ritmo, as aliterações, as rimas internas e as imagens atestam isso: “veloz dentro dessa noite oriunda quem, quem, quem me acende a boca do fogão que está entupida, quem que me frita um ovo do avesso, quem me paga comida, compra ração para o cão, entende que os livros estão espalhados pelo chão porque assim eles são…” A repetição do pronome “quem” enfatiza e reverbera o desejo do eu lírico [ou seria do narrador?], assinalando mais ainda o caráter poético do texto. Assim se inicia o texto: “quem, quem, quem, quem, quem é que me cobre de beijos? Quem, quem me lambe a ponta do nariz…?” Essa repetição, que se pode dizer também icônica, já que indica um sentido de urgência, de obsessiva solicitação, aparece ora no início da estrofe [ou parágrafo?], ora no meio, mas sempre introduzindo um novo núcleo de ideias, de pedidos, de coisas desejadas, um novo rol de objetos, lugares, pessoas, profissões etc.
Cabe salientar aqui, e creio que sem perigo de dar spoiler, que estas são, também, as palavras que encerram o texto, expondo sua estrutura circular, ou inscrevendo-o no rol das obras que começam pelo final. O autor, num gesto tipicamente machadiano, marcado pela ironia, parece brincar com o leitor, querendo surpreendê-lo numa falta. Senão, vejamos: “para os que começam lendo um livro pelo fim devo dizer que morri no meio da história; sou um defunto que jaz e pergunta: quem, quem…?” Há que se observar, também, que “veloz dentro dessa noite oriunda” é uma referência clara ao livro de poemas de Ferreira Gullar, Dentro da noite veloz, publicado pela Editora Civilização Brasileira, em 1975. Aliás, a referência a outras obras literárias, a personagens de ficção [“quem, quem, quem me dá essa vida de Macunaíma, brincando com o pau dentro do jirau…”], a nomes de autores ou figuras de destaque no mundo intelectual [“quem, quem, quem me dá a vida do cabeludo pajé Darcy, boca seca de tanto falar”] será, ao longo do texto, um procedimento bastante usado por Ricardo Soares, mas evitando, sempre, o tom de exaltação ou de discurso elevado.
Mas aí, na ficha catalográfica, diz que se trata de um romance. Entendemos que o romance é um gênero híbrido, que acomoda em sua estrutura outros gêneros, como bem nos mostrou Bakhtin, mas seria esse o caso deste livro do jornalista, diretor de TV e escritor Ricardo Soares? Se formos enumerar nele a presença de elementos próprios de um texto narrativo ou ficcional, talvez nos frustremos. O narrador, no caso, se confunde com o eu lírico da poesia. Há mais uma voz que explicita seus desejos, sua subjetividade, do que um ser fictício que conta uma história. É mais uma voz que clama, como numa oração, ou num cântico pagão, do que uma voz que narra. Não se trata nem mesmo de um poema narrativo, de caráter épico, já que não há a figura de um herói realizando grandes feitos, tampouco o tom elevado do discurso que caracteriza essa forma literária. [Da página 70 à 73 há de fato um poema, com versos, estrofes, rimas e composto num ritmo próprio da poesia feita pelos cordelistas; mas a inserção desse poema, claramente narrativo, no corpo do romance, – aqui admitindo-se que se trata de fato de um romance – encontra-se, ainda, dentro do caráter híbrido desse gênero narrativo.] Os personagens, ou pessoas referenciadas, melhor dizendo, não chegam a mover-se, dando início a uma ação concreta, progressiva. Vez ou outra surgem fragmentos de histórias que poderiam se desenvolver, mas logo se esgotam e somos introduzidos em outro núcleo de coisas evocadas pela voz masculina ou consciência desejosa de experimentar novas vivências. Os espaços são variados, já que há um vagar constante da alma ansiosa desse ser que se agita no texto. Desse modo, a narrativa em si, ou o escoar poético da voz que fala no texto, resulta num amplo passeio por vários lugares da nossa geografia, por vários aspectos da nossa cultura e da de outros povos, nessa tentativa angustiada de alcançar, realizar ou incorporar aquilo que se reitera com a pergunta: “quem, quem, quem, quem, quem é que me…?”
Para ampliar ainda mais o seu aspecto de obra fora do convencional, há a sua aproximação dos recursos da montagem cinematográfica. Cada bloco que se inicia, quase sempre com a pergunta obsessiva “quem, quem…”, parece expor um fotograma que registra uma unidade de desejo ou súplica que vai se desdobrando e agregando outros elementos ao núcleo temático, justapondo sensações ou ambientes, para ser, logo em seguida, substituída por outra, criando sempre uma atmosfera de vertigem. Mas, ainda que aparente ter uma estrutura fragmentária, há um sentido de encadeamento, de ligação, de amarra entre os parágrafos, ou as estrofes, ou as cenas, como queira. Como se dá isso? Às vezes a unidade seguinte ganha corpo a partir da retomada de uma palavra da unidade anterior, sugerindo a técnica de “palavra puxa palavra”. Um exemplo: “… este velho na ativa dava inveja a outros tropeiros…” Inicia-se, então, a unidade seguinte retomando a palavra “tropeiros” no singular: “quem, quem, quem me dá essa vida de tropeiro absoluto…” O vasto painel de realidades díspares que o autor vai agregando ao texto, ora com visão crítica sobre questões sociais e políticas, ora movido pela ironia e pelo espírito de carnavalização, cria a imagem de um mundo caótico, de cinema glauberiano, em que a câmera gira nervosa, registrando tanto o delírio poético do cineasta quanto o seu olhar que desvenda criticamente a nossa sociedade.
Em suma, o Cinevertigem de Ricardo Soares é esse passear delirante, aflitivo, obsessivo, desejoso por vários meandros do fazer humano, da experiência de vida do outro, enfim, da cultura, numa sequência que se processa entre o ritmo e a imagética da poesia e o possível novelo da narrativa ficcional que vai se desenrolando num único fôlego, até desembocar num final que é puro cinema, ou referência/reverência ao cinema.
Geraldo Lima é escritor, dramaturgo e roteirista. É autor de “Uma mulher à beira do caminho” [contos, Editora Patuá, 2017], “Trinta gatos e um cão envenenado” [peça de teatro, encenada em 2016 em Brasília] e “O colar de Coralina” [roteiro de um longa de ficção dirigido pelo cineasta Reginaldo Gontijo]. E-mail: gerallimma@gmail.com
O amor deles fedia. Fedia porque depois de nascer, crescer e reproduzir-se (tinham uma filha), o amor morreu. Mas não houve coragem para o sepultamento e o amor deles tornou-se um cadáver jogado em cima do sofá.
Nascera aquele amor num ponto de ônibus, em um desses insuportáveis fins de tarde de primavera no subúrbio carioca, quando voam os mosquitinhos ao redor das luzes.
Ele viu Lucília toda atrapalhada, entre pernas de trabalhadores exaustos que esperavam a condução da volta pra casa. Eram jovens e não havia nem sinal do que se tornariam com o tempo. Lucília abanava-se e às vezes batia em si mesma, por causa dos insetos sobre a cabeça.
– Você deve ser uma pessoa muito iluminada.
– Por quê? – Lucília deu um tapa rente ao próprio rosto.
– Porque esses mosquitos ficam quietinhos no inverno. Mas no calor voam, se guiando pela lua. O problema é que quando encontram outra fonte de luz, se confundem.
– Tipo uma lâmpada?
– Ou um rosto luminoso.
A partir desse dia, Lucília cingiu aquele homem – que entrou no mesmo ônibus que ela dizendo, sim, esta é a minha condução, mas depois pegou mais dois para chegar ao seu verdadeiro itinerário, não sem antes conseguir um beijo e o número de telefone.
O amor cresceu rápido. Não à toa. Eles o alimentaram à base de pipoca e cinema, de chocolate e bolo, de pizza e cerveja. Mas o erro do amor foi ter se considerado autossuficiente. Se amigos convidavam um ou outro para sair, em vez de ir e apresentar o namorado novo, eles diziam em uníssono, não, melhor ficar. E assim foram ficando. Cada vez mais solitários. O amor deles se trancou no quarto e ficou antissocial. O amor ficou mimado, o amor ficou narcísico, o amor perdeu a noção de mundo. O amor deitou na cama e ficou olhando o teto. (O amor ficou um chato!).
Foi assim que o amor deles cresceu mais do que deveria (relacionamentos acabam por amor de menos, também por amor demais). E ficou gordo. A ponto de Lucília, vinte e poucos anos, não aguentar mais carregá-lo em si, de modo que seu marido (casaram-se no civil, depois de algum tempo) teve que conduzir sozinho aquele sentimento morbidamente obeso.
Nessa disparidade de esforços, o tempo passou. Ele começou a se olhar no espelho e sentir-se velho, sozinho, a despeito de ter trinta e cinco anos. O mesmo não ocorria com Lucília. Ela – que até gostava da solidão – ainda sentia-se jovem, uma jovem mãe (o rebento veio logo após o casamento), e essa diferença geracional os distanciou. O que um queria, o outro não estava a fim. Sempre.
Foi a essa altura que o amor morreu e ficou jogado em cima do sofá. Mas o casal não reconheceu o corpo. Não assinou atestado de óbito. Não fez um enterro digno. Ambos empurraram a situação com a barriga (talvez por isso, perto dos quarenta, tenham começado a fazer crossfit – mas cada um numa academia). Enquanto isso, a filha (já uma adolescente) chorava pelos cantos num luto que não acabava nunca. O mau cheiro do cadáver dentro de casa a fazia lacrimejar.
Foi num dia de tristeza extrema da filha (a menina cortara os pulsos com lâmina de barbear), que o homem decidiu ir embora. Não tinha uma amante. Só estava exausto. Lucília também estava, mas feito um mosquito de luz depois do voo, perdeu asas.
– Vamos pensar uma última vez – ela propôs.
Era inverno e ambos se convenceram a recolherem-se em suas solidões e olharem-se sem automatismos. Foram dias de silêncio naquela casa-área-de-desova.
Dias depois, eles se reencontraram e, olhando-se nos olhos, souberam que finalmente era hora da cerimônia fúnebre.
Primeiro ele se abriu. Até as entranhas. Depois foi a vez de Lucília se abrir. Eram as palavras voando depois de semanas em hibernação.
E foi assim, abertos, que tiraram aquele corpo podre de dentro de si; era o amor em putrefação. Havia uma porção de ossos entulhados. (Com o tempo e a serenidade, poderiam remontar o esqueleto do que fora aquele sentimento, e deixá-lo à exposição numa das salas da memória).
Quando saíram do quarto, a filha finalmente conseguiu respirar. O cheiro funesto tinha desaparecido e a adolescente se alegrou genuinamente ao ver a rara alegria nos olhos de seu pai e sua mãe. Abraçou-os, como um padre a benzê-los:
– Eu abençoo essa separação, desde que nunca se separem de mim.
Os dois passaram as últimas semanas de inverno quietos. Cada um em sua nova casa, trabalhando, vendo televisão, olhando a rua sem coragem de ir lá fora. Mas no primeiro fim de semana quente da primavera, como se a separação tivesse acendido uma luz, ambos saíram dispostos a encontrar nova companhia (a filha incentivou a aventura). Meio desorientados, avançaram sobre a noite feito mosquitos avançando nas lâmpadas. Ele encontrou uma jovem num bar. Lucília encontrou um colega de trabalho. Voaram ao redor de suas novas lâmpadas, com a leveza de quem encontra a lua, até se cansarem e caírem nas camas exaustos, sentindo ao redor a lascívia da perda de asas depois do voo e a vontade de estar no casulo de um toque novo.
Foi assim que fertilizaram a terra onde nascem os afetos novos: com prazer. E só prazer.
De amor, por enquanto, nem o cheiro.
***
Substituição
Há meia hora atrás eu era criança, um menino pensando em como melhorar o time da Internazionale para vencer o Milan do meu vizinho, após quatro meses de derrotas humilhantes, no Play Station da lan house do Nino. E agora, deitada no braço do sofá com a saia erguida, a amiga da minha prima me pergunta, você tem camisinha?
Notei que ficou maior a sombra do meu corpo que pedalava com pressa – mais pressa que o Kaká quando puxava um contra-ataque no vídeo-game. Na verdade, até minha bicicleta pareceu uma CG 125 cilindradas; e eu, um homem feito e habilitado a pilotar rumo à farmácia, onde estacionei e perguntei, moça, tem preservativo?
A balconista estranhou. Não que alguém aos catorze anos não possa fazer sexo, mas ir à farmácia comprar camisinha, ainda mais sem constrangimento algum, lhe pareceu demais; meio a contragosto, ela apontou a prateleira, aquela ali, ó. As camisinhas pareciam guloseimas – descobri posteriormente que algumas são. Voltei com três. Era para o que dava meu dinheiro, que iria para a lan house do Nino, mas foi para o sexo.
No caminho, porém, entrei em colapso, como se meus pensamentos não coubessem na cabeça que os pensava. Me perdi pelas ruas que conhecia e, parado numa encruzilhada, sem saber pra onde ir, eu disse a mim mesmo, pensa, pensa cara, a garota tá à sua espera. Na dúvida optei pela esquerda – ainda opto hoje em dia. Então eu reencontrei a amiga da minha prima, e ela ainda estava de saia erguida sobre o braço do sofá.
Tentei ser romântico, passar o dorso da mão no rosto dela, coisas que eu tinha visto na Malhação. Mas logo a mão se perdeu em outras tramas. Se foi rápido ou devagar eu não sei. Quando temos prazer não nos preocupamos com o tempo. Sobretudo esse prazer primicial: a sensação da primeira penetração da vida é algo tão drástico quanto nascer, quando você sai de um corpo familiar; a diferença é que, sobre o braço do sofá, eu entrava num corpo estranho. Depois que saí pela última vez, nos abraçamos e ela disse, amanhã a gente faz mais, pode ser?
Sem saber que esse amanhã nunca chegaria, guardei as outras duas camisinhas como Maldini guardava a zaga do Milan, o time do meu vizinho. Vizinho que, quando me viu na rua andando a esmo – eu ainda revivia as lembranças recentes – me propôs: vamos jogar?
Respondi que estava sem dinheiro. Eu pago, ele disse, e já fez um gol rápido com Seedorf, porque eu ainda pensava no corpo da amiga da minha prima. Empatei com a classe de Figo; Pirlo fez de falta pra ele e logo em seguida meu Recoba provocou um alvoroço em sua zaga e colocou 2 x 2 no placar. Meu vizinho assustou-se: hoje você tá inspirado, não sei o porquê, mas calma que ainda tá no primeiro tempo. Só eu sabia por quê. Inexplicavelmente, consegui segurar o resultado. Eu mal pude acreditar que o jogo já estava no final (quando temos prazer não nos preocupamos com o tempo). Mas eu ousei, queria o improvável! Substituí Figo, o mais velho do time, e coloquei o jovem Adriano, o mais novo; tão novo que parecia uma criança perto dos outros. E foi Adriano que, após um chutão despretensioso, ficou sozinho contra o goleiro adversário. Meu vizinho e eu nos levantamos. De pé na frente da televisão 29 polegadas, parecíamos dois fiéis reverenciando um altar. Seu semblante era de desespero, porque eu finalmente poderia vencê-lo após quatro meses. Ainda há pouco eu era um adulto, pensando em como dar prazer a uma garota, e agora a vida se resumia a fazer valer a substituição do mais velho pelo mais novo, e, com os pensamentos novamente confortáveis dentro da cabeça, vencer aquele clássico italiano do Play Station, na lan house do Nino.
Jonatan Magella nasceu em 1990 e vive em Nova Iguaçu/RJ. Publicou Vidas irrisórias (contos, 2018) e Desculpe o transtorno (dramaturgia, 2019). Tem dezenas de contos em revistas e coletâneas nacionais. Organiza o evento literário Aleatórios.