Era uma noite quente naquele apartamento do outro lado da cidade e eu estava deitado sobre o sofá que ela havia comprado uma semana antes – o sofá macio, de vinil preto, dividido em doze vezes no cartão. Pensava no conto que teria que escrever para uma revista. O prazo estava perto de acabar e eu ainda não tinha conseguido um único parágrafo. As coisas muitas vezes parecem mais complicadas quando se tem um prazo. Na tevê passava um faroeste. Dois sujeitos, um de frente para o outro, no meio de uma rua empoeirada, com as mãos sobre os seus coldres, à espera de um sinal. Talvez se eu fumasse o baseado que tinha no bolso as ideias começassem a vir e a história ganhasse forma e eu conseguisse finalizá-la a tempo. O problema era que ela não gostava do cheiro. Por conta disso, eu teria que ir até a praça lá embaixo, escolher um dos bancos que ficavam meio escondidos pela sombra das árvores e fazer tudo muito rápido, na esperança de que não aparecesse qualquer carro de polícia.
Um dos sujeitos na tevê era louro, alto e tinha uma estrela no peito. O outro era só um mexicano com o seu chapéu redondo e as suas roupas sujas e o seu sorriso era o sorriso de quem não tinha muito a perder. Talvez estivesse bêbado. De repente, ele puxou a arma e a apontou para o cara com a estrela no peito. Antes que conseguisse atirar, recebeu dois tirambaços e caiu estatelado no chão. E então, vinda do saloom e das casas ao redor, uma multidão começou a se formar em volta do seu corpo.
– O que é isso, Fófis? – ela perguntou, segurando uma vasilha com pipocas na mão.
– A vida – respondi.
– Não seria a morte?
– As duas. Às vezes as duas se misturam e viram uma coisa só.
Ela jogou um punhado de pipocas para dentro da boca e ficou a me olhar.
– O que ele fez para ser morto?
– Era mexicano.
– Só?
– Só… O nome desse loiro com a arma na mão é Randolph Scott. Tenho um amigo que é fã dele.
– Bonitão.
– Dizem que era gay. Mantinha um caso com outro famoso. Não lembro o nome.
– Não deve ser verdade, Fófis. Olha só pra ele, olha para o jeito dos ombros, dos braços. Posso colocar a mão no fogo por um homem assim.
– Escuta, não quero ser chato nem nada, mas não gostei desse apelido que me deu. Prefiro que me chame pelo nome, se não se importar.
– Tudo bem, eu não me importo. Tem certeza de que quer assistir isso?
– Não. Vou descer para fumar.
– Vai lá na praça?
– Sim.
Vê se não demora. Fico preocupada.
Era geóloga, mexia com pedras, matéria morta, tinha um gato que às vezes desaparecia e, tempos antes, numa noite feito aquela, foi até o quarto e voltou com uma caixa enorme, de onde tirou duas facas, uma taça de metal e uma porção de cartas com desenhos estranhos. Jogou tudo sobre a mesa, acendeu dois incensos e disse que a minha alma era velha e teimosa e que eu precisava evoluir. Disse ainda que a minha vibração tinha uma tonalidade verde escuro ou azul, o que poderia significar uma infinidade de coisas. Eu gostava dela, mas achava aquilo chato e com o passar do tempo tudo começou a soar exagerado, como se fosse uma espécie de resgate entre nós dois. Nos encontrávamos apenas para trepar, comer e assistir tevê, sendo que cada vez mais comíamos e assistíamos tevê.
Em vez de descer, fui até a cozinha e abri a geladeira. Havia uma lata de Malzebier escondida na parte dos tomates. Me sentei num banquinho ao lado do fogão e acendi um cigarro. Dei grandes goles e longos tragos. Por um instante, fechei os olhos e tentei me imaginar longe dali, talvez nadando em uma piscina aquecida, comendo profiterolis numa sacada de frente para o mar, andando de bicicleta em alguma paragem sagrada e especial. Por algum motivo, não consegui. Abri novamente os olhos e enxerguei, através do basculante na cozinha, o reflexo das luzes lá fora – as luzes de ilhéus, a cidade em que nasci e continuava a viver. Pensei que àquela hora, em alguma outro lugar, alguém talvez compreendesse tudo o que lhe acontecia e até se sentisse feliz. Alguém que não ficasse o tempo inteiro se perguntando o que cada coisa poderia significar.
Ela havia mudado de canal quando voltei. Os cabelos negros caíam sobre o sofá e suas pernas morenas se esticavam até a mesinha de centro.
– Tô indo.
– Pensei que já estivesse voltando.
– Tô indo pra casa.
Ela se virou e ficou a me olhar.
– Está chateado?
– Não. Tenho que entregar um texto até amanhã.
– Escreve ele aqui.
– Deixei o rascunho em casa. Melhor eu ir.
Caminhei até a porta e ela me seguiu. Nos beijamos. Sua boca tinha gosto de manteiga e sal. Havia qualquer coisa diferente no seu olhar. Como se soubesse que aquela seria a última vez.
Saí do prédio, caminhei até o fusca, dei a partida nele e coloquei uma música para tocar. Era Kingdons Of Rain, de Mark Lanegan. Ao meu redor, a cidade adormecia, uma e outra janela acesa, e por um momento me pus a imaginar as histórias que aquelas janelas guardavam e tornei a acreditar em belos e intermináveis amores e pensei em como tudo pode ser bonito e intocável quando a gente realmente precisa ou quer. Repentinamente, lembrei do nome do outro ator, mas já não importava mais. Tanto ele, quanto as cartas de tarô e o sofá de vinil haviam ficado para trás. Naquele instante, eu era apenas aquele sujeito a cruzar a cidade dentro do seu fusca bege, acendendo um baseado, calculando que talvez uma hora todas as coisas fizessem sentido e que bastava não desistir. Bastava peitar a fera e continuar, neblina adentro, até a vista clarear. E foi assim que segui: escutando a voz triste e rasgada de Mark Lanegan e sentindo que a cada tragada e a cada metro que o fusca vencia, eu me transformava em um homem mais livre, mais perto da verdade, e, por isso, um homem também melhor. E pensar aquilo me fez um enorme bem. E eu então comecei a sorrir.
Rodrigo Melo vive em Ilhéus, no sul da Bahia, e é autor de Riviera, romance prestes a ser lançado pela Editora Mondrongo.
Fiz doze cirurgias ao longo da vida. Ando com auxílio de uma bengala. Uso bombinha de asma, tomo onze comprimidos por dia e gotinhas de própolis, porque me acostumei com elas, quando tive uma gripe no verão.
Depois das seis da tarde coloco um casaquinho, mesmo que não esteja frio. Tenho sempre um guarda-chuva na bolsa. Sou aquela velhinha que a família inteira acha que vai morrer todo ano. Uma chatice completa. Cansei.
De uns tempos para cá resolvi ousar. Só coloco goiabada, sorvete e biscoito de chocolate no meu carrinho de compras. Fiz uma tatuagem no braço direito. Uma flor pequenina. Meus filhos quase surtaram.
Troquei de manicure e agora pinto minhas unhas com cores divertidas, tons azuis, verdes e alaranjados. Não quero que olhem para minha bengala, quero que olhem para o meu visual. Todo sábado de noite durmo com bobes, para no culto do domingo de manhã meu cabelo amanhecer estiloso.
Faço depilação, limpeza de pele e massoterapia.
Tenho mimado meus netinhos além da conta e constantemente ignoro meus filhos, quando me mandam fazer exames ou voltar a algum dos meus muitos médicos.
Sim, estou cheia de manias e esquisitices novas. Hoje mesmo estou na praia. Fazendo topless. Uma novidade na minha vida. Nunca tinha feito. Tenho oitenta e cinco anos, era hora de testar. Meus peitos estão muito caídos e estou causando um certo mau estar na rapaziada. Mas eu vou ficar por aqui, curtindo esse sol gostoso nos meus peitos por muitas horas. Trouxe até uma bolsa com lanche. Tem goiabada e biscoito de chocolate.
O sorvete compro depois, com o moreno lindo que passa vendendo toda hora.
***
Esquecimentos
Esqueci o que fui fazer no quintal. Tenho esses momentos de esquecimento, todos os dias.
Vou para a cozinha e não faço ideia do que ia fazer com a peneira grande e a colher de pau que tenho nas mãos. Saio para a rua e constato que não sei o meu destino.
Esqueci de tomar banho algumas vezes, no mês passado. Ou talvez não tenha esquecido. Não posso afirmar.
Tem alguma coisa acontecendo comigo. Desconfio que seja deficiência de vitaminas. O problema é não lembrar o quanto já tomei, quando tomei, para que finalidade tomei. Fico tensa desde o momento em que acordo, até a hora em que me deito para dormir. Todos os dias são assombros, espantos.
Ontem fui parar no meio da rua. Uma caminhonete prata buzinou e eu saltitei para a calçada. Tive que abraçar um poste, porque fiquei tonta.
Hoje acordei e o dia está lindo, um céu azul maravilhoso, trinta graus. É meu aniversário de sessenta e cinco anos. Fiz tapioca para o café da manhã.
Um, dois, três… Dezessete pessoas aqui na minha casa.
Toda família está na minha sala e na minha cozinha.
O relógio da parede marca 19:25h.
Trouxeram bolo, risadas e salgadinhos.
Não lembro nada do que aconteceu desde o café da manhã. Olho para a bancada e não há indícios da frigideira e da tapioca. Todos conversam, tem música tocando. Meu ombro esquerdo está dolorido de tanto tapinha de Eeee, parabéns!, estou comendo uma coxinha deliciosa, rodeada de netos lindos.
Devo ter uma doença terminal. Nunca fizeram uma festa assim para mim – com toda a família. Se fizeram, não lembro.
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Herança
Meu avô é um velho inconveniente que faz todas as perguntas que não devia fazer nos eventos familiares.
Além de fazer perguntas medonhas, ele me encara e comenta que eu engordei, afirma que minha amiga é sapatão, que eu nunca vou arrumar emprego com o curso que faço na universidade, mas tudo bem, porque sou um fracassado igual ao meu pai e fala isso dando aquela risadinha sarcástica de quem está determinado a se meter.
Meu avô consegue azedar qualquer reunião familiar. Ele começa discussão, ofende. Zomba, magoa. A todos.
Ele tem olhinhos azuis, cabelo todo branquinho, é gorducho e caminha pulando. Quem olha de longe vê um velho fofo. Quem convive de perto está louco pra ir ao seu funeral.
Ele maltrata a vovó. Chama de lesada, define as roupas que ela deve usar e onde pode ir. Se e quando pode ir. E com quem. Joga o prato no chão se a comida não está do jeito que ele quer. Ela não reage.
Ele espancava os filhos quando pequenos – meu pai e meus tios. E agora que os filhos estão adultos, sempre se dirige a eles com sarcasmos ou palavrões.
Ele nunca nos abraçou. Me chama de Breno e meu nome é Bruno. A Carla ele apelidou de Saco de Banha!, ela é a minha prima complicada com o controle do peso. Já tentou se matar, é depressiva. Minha tia fica arrasada. Meus primos gêmeos ele chama de “os dois” e outro primo, o Gil, de “o menino”. A minha prima Cássia, eita!, essa ele ignora. Tem tatuagens e piercings, para ele não existe. Ela diz – Olá, avô! Ele vira a cara.
Estamos na delegacia. Meus pais, tios, tias, primos, primas e vovó. Depois desse ridículo e desprezível almoço de natal. Vovó é a única que chora e repete Tadinho, tadinho.
Meu avô nunca mais escarnecerá de ninguém. Foi esfaqueado, enquanto dormia, após o almoço, com a faca nova de cortar o peru. Durante o almoço ele ofendeu, zombou e xingou a todos.
Impressionante sua capacidade de humilhar, menosprezar e detonar. Meu avô era brilhante na maldade.
Somos muitos e somos todos suspeitos, mas o delegado já ganhou uma graninha e semana que vem todos ficarão sabendo da tentativa frustrada de assalto. E co mentarão, impressionados, da valentia do meu avô, que sozinho no quarto, reagiu. O resultado final foi que, infelizmente, ele não resistiu aos ferimentos na luta feroz, corpo a corpo com o marginal.
A vida seguirá. E a maldade da minha família, que era só do velho, agora está em todos nós.
***
Visitas
Quando ele chegou – depois de cinco anos sem dar notícias – ficou puxando as flores do arranjo cafona da mesinha de centro da sala e fazendo comentários imbecis do último jogo do Flamengo. Eu sabia que era enrolação.
Tenho setenta e oito anos, mas a força de um garoto. Meu soco é brutal. Faço longas caminhadas e cavalgo todos os dias, com muita facilidade.
Quando eu ouvi o
Tio,esse sítio é um fim de mundo. A oferta é ótima, eu tô sem grana. Quero adiantar o que vai acontecer mesmo, quando o senhor morrer!,
Não aguentei.
Retirei e recoloquei no lugar todos os quadros, os cinzeiros, a folhinha da farmácia, as duas almofadas que estão puídas e perdendo o enchimento. Passei o pano úmido em tudo, várias vezes.
Toda a madeira da sala está precisando ser envernizada. Amanhã vou à cidade comprar verniz fosco e aromatizador. Hoje não dá tempo. Preciso enterrar, bem escondido, o corpo desse sobrinho insolente.
Alê Motta nasceu em São Fidélis, interior do estado do Rio de Janeiro. É arquiteta formada pela UFRJ. Participou da antologia “14 novos autores brasileiros!, organizada pela escritora Adriana Lisboa. É autora de “Interrompidos” (Editora Reformatório, 2017) e “Velhos” (Editora Reformatório, 2020).
A mulher em casa está em uma floresta. Entre seus dedos, invisível, existe uma lança e há terra constante em seus pés. A mulher em casa está vulnerável. A mulher em casa está em estado de sítio, onde todas as quinas lhe ameaçam e ela constrói barricadas. A mulher em casa está em uma zona de guerra e os intocáveis não serão poupados. A mulher em casa tem pensamentos perigosos. A mulher em casa atravessa um deserto onde recolhe vestígios ilegíveis de uma antiga civilização que ela mesmo fundou. A mulher em casa está em uma fronteira e é, a um só tempo, agente de controle e refugiada. A mulher em casa está no fundo do mar e inventou modos próprios de praticar apneia. A mulher em casa tem guelras e está sozinha. A mulher em casa não está esperando ninguém. A mulher em casa deseja estar em outro lugar. A mulher em casa está subindo pelas paredes e começa uma volta ao mundo sem planejar o seu retorno. A mulher em casa está se olhando generosamente pela primeira vez. A mulher em casa é monstruosa. A mulher em casa é uma horda de crianças e bichos que ameaçam as estruturas da casa. A mulher em casa é a última força a evitar a separação entre duas placas tectônicas. A mulher em casa sustenta a casa e não recebe nada a mais por isso. A mulher em casa faz amor com as sombras e gesta os seus filhos na escuridão. A mulher em casa é um eixo em torno do qual o mundo rotaciona na direção oposta ao que lá fora chamam de avanço. A mulher em casa troca a resistência do chuveiro e faz a comida. A mulher em casa quer colocar fogo na casa. A mulher em casa sente culpa. A mulher em casa é um vulcão adormecido. A mulher em casa está menstruada. A mulher em casa tem amantes como quem tem uma horta. A mulher em casa finalmente tem um teto todo seu. A mulher em casa toma conta de uma horta como quem cuida de amores. A mulher em casa quer escrever, mas acha que precisa lavar os azulejos primeiros. A mulher em casa está na rua. A mulher em casa não é facilmente encontrável. A mulher em casa coloca para fora a sua animalidade latente. A mulher em casa saiu.
***
Tales achou que era tudo água. Anaximandro inventou um nome próprio para a matéria infinita das coisas. Anaxímenes sabia que o fundamento da vida é o ar, a poeira e o espaço. Heráclito dizia que o princípio de todas as coisas está contido no fogo que a tudo destrói e refaz. Eu acho que essa cola imanente, que relaciona todas as coisas, é menos uma matéria e mais um conjunto de influências mutuamente realizadas. Seria preciso olhar o espaço entre as coisas como se olha uma ruína, um manuscrito antigo, o corpo de um animal raro. Apostar que entre nós e qualquer coisa pode haver uma relação como a que há entre a terra e o céu. Mapear analogias como mapeamos a influência dos planetas sobre os nossos modos de ser. E se percebêssemos por fim que tudo é signo? Por exemplo: verificar como a longevidade dos meses é análoga às bases das falanges dos dedos. Cume janeiro, declive fevereiro, assim por diante até a repetição dos ápices entre julho e agosto, que obriga a dar uma volta, passar por fora e recomeçar. Foi nesse intervalo que eu nasci. Talvez a minha existência seja regida por esse salto, por esse deslocamento pelo lado de fora. Para levar isso às últimas consequências seria preciso esquecer um pouco o que é uma mão e esquecer um pouco o que é uma vida. Para discernir como tudo incide sobre tudo talvez fosse preciso desaprender o que é matéria e desaprender o que é mundo. Nesse afrouxamento de convicções uma nova ciência poderia se estabelecer. Esquecer um pouco o que se é para conhecer a si em tudo que há, a mim isso soa como um plano.
***
Será que quando Francis Alÿs chegou bem perto do furacão os seus alvéolos começaram a rotacionar em torno de algum centro propulsor insurgido ali, na radicalidade dessa aproximação? Fico pensando se é possível chegar tão perto de um tornado sem se tornar algo como um tornado. Certamente sou um pouco você desde que cheguei mais perto. Eu me pergunto se naquela vez em que estive em um desastre eu extraí dele alguma qualidade desastrosa. Se na passagem por terras distantes eu esgarcei as possibilidades de me distanciar de mim. Se ao caminhar nas beiradas do abismo de Moher eu me tornei um pouco mais abismal. Se quando tive entre as mãos o corpo de um pássaro machucado eu também eu me abandonei em alguma força maior. Roger Callois investigou o fenômeno da metamorfose e chegou a uma misteriosa conclusão: que o mimetismo não seria uma prática de sobrevivência, como se pensa, mas uma espécie de loucura que desestabiliza as distinções entre meio e ser. O destino mimético seria menos um esconderijo e mais uma tentação. Vamos na direção das coisas que não somos porque não resistimos a elas e nos transformamos nelas porque não resistimos à transformação. Quando olho Francis Alÿs perseguindo tornados, quando penso nos caminhos até o abismo de Moher, quando me penso diante de você entendo que não resistir, às vezes, é um longo trabalho. Não resistir pode ser uma laboriosa forma de salvação.
Priscilla Menezes é artista, poeta e professora. Em 2017, lançou o livro “Erro tácito” pela Editora Patuá. Participou da coletânea “Tertúlia” lançada em 2018 pela editora Ágrafa. Em 2019, lançou o livro “Eu vou invadir os latifúndios que cercaram a minha carne”, pela editora Nadifúndio, e integrou a publicação coletiva São nossas as notícias que daremos produzida pelo Movimento Respeita!. Seu trabalho pode ser acompanhado através de seu instagram @lotahille.
Para Priscila Faccini, viragem do meu ponto sem volta
[…]
é muito diferente de cadeiras, não, o sofá é a expressão, a encarnação mesma da solidão, no sofá, deitada sob sua superfície sendo eu mesma o sofá, o que eu posso ser, o que eu posso fazer, eu me concentro, eu me concentro no ponto fixo da parede e deixo que a ausência tome conta de mim como se eu fosse eu mesma um tipo muito particular de necrotério de mim mesma, uma cidade subterrânea de tudo aquilo que não fui e não chegarei a ser. E ali, bem ali no sofá, nesse lugar, nessa terra, nesse plano, nessa superfície de que é feita para o pensar e do pensar, o que eu podia fazer, o que eu podia verdadeiramente fazer? Eu podia me perder, me perder um instante, me desmanchar um tantinho que fosse, eu podia seguir ali deitada e continuar deitada, fazer parte da atmosfera, me condensar no pequeno vento que vinha da fresta de uma janela aberta num dos lugares da casa, essa casa, essa mesma casa, a casa de todos os dias, a casa que antes não tinha asfalto mas agora tem, uma casa asfaltada há muito tempo
[…]
mas deitada no sofá, olhando esse ponto fixo, talvez uma mosca, talvez um qualquer coisa, talvez eu mesma, olhando esse ponto, me permanecendo nele, dançando ao redor dele, gritando em rituais da qual sou a única inventora na separação dele como parte dele mesmo, o que vem, o que vem de um lugar que eu não sei mas que existe em mim, vem um tipo de instinto, um tipo de cheiro, um tipo de radar performático que me faz perceber e notar o que eu sou sem ter de fato sido mas ainda por restar, mas quando estou sendo isso me dói, isso me dói sobremaneira nas articulações
[…]
isso me dói também no próprio estase de me encontrar completamente extática sobre o sofá, o sofá me dói um pouco, posso dizer que o sofá também me dói um pouco, posso dizer assim e só, no entanto, há um problema, há um problema maior que me demanda no sofá, pois o sofá é o lugar em que eu posso não estar, em que eu posso escapar, num pequeno buraco da parede, para o lado de lá do real, plainando num vaporoso continente de espera em vias de balbuciar um algo ainda
[…]
mas confesso, a simplicidade da cadeira me faz navegar no naufrágio de não saber me manter sentada, só deitada, amarrada ao mastro o canto da sereia me fascina de morbidez adolescente, por isso serei sempre a criança perdida no mercado sem mão que lhe conduza os sentidos, uma tautológica menina numa extensa sessão de enlatados, circulando entre gôndolas num repetitivo pendular desde o medo sufocante, perdi muito, perdi o que não deveria ter perdido, o que não poderia, perdi o fundamento do perder, mas algo se passa sem que eu saiba, um anonimato de rosto escondido, um deixar-se descer até ao fundo sem roteiro de mapa no retorno, como um mergulhador das superfícies estriadas, um rasgo no tecido do lembrar, uma farpa de memória a sustentar meu imenso edifício de lamentos, tenho vocação para carpideira, conheço a marcenaria da lágrima desde o abaulado da gota, esculpo as paredes do choro no burilar que me faz faiscar, como um enxame de vaga-lumes noturnos, o cobre da minha desesperança
[…]
mas há um algo, há aquilo que se passa e que chamo de dor porque a criatividade de nominalista sempre me fez tamanha falta, denomino dor o momento exato em que ela se interrompe, o clima de alívio é sintetizado nesse hesitar cinzento de que logo volte, de que logo as ruínas se ergam nos confins de um pouco de lama presa na sola, de que minha banalidade não atravesse o odor de café no insólito da manhã vindoura, aí eu me preocupo, me inicio na escuta do que em mim há de estanque, o que há de destituído em ídolos a não ser no vazio do templo, sou a barragem de mim mesma, o empecilho sem caminho sedimentado, a imobilidade na pedagogia das pedras
Caio Russo é escritor, historiador e pesquisador em Estética Contemporânea, Teoria Literária e História da Arte.
Esse sol na minha cara que queima, que se eu pudesse saía daqui e ia pra sombra esperar. Ai, que eu me mexo e dói, e então é melhor ficar parado, esperando. E olhando assim pro céu vejo agora esses prédios que sobem pela avenida. Que na verdade os prédios estão subindo agora em todos os lugares e todos os espaços, mas é que eu nunca tinha reparado assim, olhando pra cima. Estou sempre olhando pra baixo. E agora aqui parado eu vejo esse tanto de janela que sobe, sobe, e que em cada janela dessas deve ter uma família morando. Será que é uma família feliz?
Ai, que de vez em quando vem uma pontada de dor! Mesmo eu tentando ficar parado, mesmo eu estando calado. Uma dor me futucando. Quando eu respiro fundo acaba incomodando. Vou respirando devagar.
As pessoas ao meu redor vão falando que é pra eu ficar calmo, que vai dá tudo certo. Todos falando, cochichando, com cara de pena pra mim, com celular me filmando. Quantos celulares apontados pra mim. Ai, que dor! Será que vou passar na televisão? Uma moça segura a minha mão, diz que a ambulância já vem.
Eu juro que olhando assim, bem rápido, esse monte de gente perto de mim, bem que parece uma festa, todo mundo conversando, rindo, contando piada, comendo e bebendo, e todos eles me olhando e querendo falar comigo ao mesmo tempo. Eu nunca tive uma festa assim com tanta gente. Se eu fechar os olhos consigo escutar a música.
Tá que dói. Fica difícil de respirar a cada tempinho que passa. Me dá vontade dormir um pouquinho. Estou ficando cansado, mas não pelo tiro que tomei, não pela hora que estou aqui deitado esperando socorro. Estou cansado de muito tempo, desde que tenho que ajudar mainha a comprar comida pra casa, desde que tenho de acordar de madrugada pra trabalhar, desde que tenho que pegar serviço no fim de semana, desde que tomo esculacho de minha mãe, desde que tomo esculacho dos namorados de minha mãe, desde que tomo esculacho do meu chefe, desde que tomo esculacho do cliente playboy, desde que tomo esculacho da polícia. Estou esperando socorro de muito tempo, bem de antes de eu tomar esse tiro, e só agora uma moça segura minha mão e diz que vou ter ajuda. É preciso sangrar pra chamar a atenção de alguém.
Respiro cada vez menos. Respiro cada vez mais forte. Ai, que dor!
Daqui deitado eu vejo os pés das pessoas. Pés tão diferentes uns dos outros. Pé de povo. De tantas maneiras calçados, mas vejo também uns pés descalços, uns pés machucados. Dá pra ver que alguns são de meninos, daqueles pés pequenos que correm com força, pisando direto no chão. Uns pés agitados.
Daqui deitado eu vejo o chão, as pedras e as sujeiras. Já não consigo olhar pra cima, de tão cansado, de tanta dor. Aqui também tem muita história. Olha pra isso! Tem a calçada, a rua, os carros passando, as lojas abertas. Tenho vontade de mostrar isso tudo que estou vendo agora, só agora em minha vida. As lojas vendem roupas, vendem coisas de casa, vendem livros. Vejo também sangue no chão, que já é muito. Um vermelho manchando o asfalto, uma lama. Uma onda que invade, avança e as pessoas vão se afastando. Ninguém quer se sujar. Eu sou uma ilha. Pedaço de terra cercada por mar.
Ai, já não sinto tanta dor. Apenas uma vontade de dormir.
A moça ainda segura minha mão, ainda diz que a ambulância vai chegar. Tem outras pessoas também e elas falam coisas. Já não consigo entender o que elas dizem. Só vou me lembrando do momento que eu estava parado, olhando na loja uma cuscuzeira pra comprar. Gosto de comer cuscuz de manhã. Estava saindo da loja e ouvi um estouro de bala, as pessoas correndo desesperadas. Senti um ardido forte nas costas e vi homens correndo com armas nas mãos. Foi uma bala perdida que me encontrou. Sou um corpo caído e vi um dos homens com arma na mão ficar parado me olhando, parecendo que vem falar comigo, com cara de preocupado. Mas o homem foge, correndo pela avenida.
Olho bem pra moça, que ainda segura minha mão. Não consigo mais entender o que ela diz. Queria dizer pra ela que ela é bem bonita. A gente podia se casar e ela ia fazer cuscuz pra mim todos os dias de manhã. Não sai mais voz.
Não sinto mais dor. Estou com um pouco de medo. Estou cansado. Aperto a mão da moça.
Vou tentar falar com ela que não consigo mais deixar os olhos abertos. Vou descansar um pouco. Queria pedir a ela pra avisar a mainha que vai ficar tudo bem. Que a ambulância vai chegar e eu vou pro hospital.
Acho que não consigo esperar mais, desculpa.
Tiago Chaves é formado pela Universidade Católica do Salvador em Letras Vernáculas e Literatura da Língua Portuguesa. Ministrou aulas de gramática e literatura em escolas públicas e particulares. Ingressou no Grupo Teatral Oco Teatro Laboratório em 2007 e fez curso extensão de Análise de Espetáculos Teatrais pela UFBA. Apresentou e ministrou oficinas de teatro em alguns países e, também, em diversos estados do Brasil. Trabalhou como assistente de produção no Festival Latino-Americano de Teatro da Bahia de 2008 a 2011.
Era aniversário de um ano de casamento. Meu segundo casamento. Decidimos fazer um pequeno jantar para comemorar, convidamos alguns amigos. Eu não conhecia todos os amigos de Marina, acho que ela já conhecia todos os meus, pois não eram muitos.
Fui ao supermercado em busca de um bom vinho, pensei em levar um argentino, mas isso me remetia à minha antiga esposa. Acabei levando um italiano. Comprei mais umas azeitonas e amendoins, a maior parte dos convidados tornou-se adeptos do veganismo. Os que não fossem veganos teriam que comer nossas comidas. A regra da casa era “sem crueldade animal”.
Na fila que eu peguei havia uma velha na frente. Sempre as velhas. Ela tinha o carrinho mais cheio que a conta bancária de Bill Gates. Logo atrás de mim uma mulher linda, cabelos pretos, ondulados, pouco menos de um metro e setenta. Levava apenas uma garrafa de vinho, um vinho chileno que eu adorava.
– Ótima escolha. – apontei para a garrafa.
Ela estava meio distraída. Quando processou o que eu disse, respondeu:
– Ah, sim! Adoro esse vinho. Na verdade, adoro os vinhos chilenos, têm bons preços e o sabor raramente deixa a desejar.
– Concordo.
Ela tinha algo além da beleza óbvia, seduzia com seu jeito de andar ou falar. Tinha um tipo de magnetismo que não me deixava desviar o olhar.
A velha passou as compras e deixei a mulher passar na minha frente, fui gentil, acho que todo mundo deveria ser. Nem sempre fui legal assim, mas a vida ensina que devemos ser menos cuzões e fazer algo de bom, ainda que pareça pequeno.
Num piscar de olhos a atendente passou o vinho dela, que por sua vez pagou na mesma rapidez, com dinheiro trocado, também dispensando o uso de sacola plástica. Despediu-se de mim, agradecendo a gentileza. Desceu para o estacionamento.
Paguei minhas compras, também desci para o estacionamento. Coloquei as compras no banco do carona, pois não levaria ninguém. Quando arranquei com o carro, fui fechado por um SUV prata. Abaixei a janela, pronto para ser rude e começar a gritar feito um imbecil, mas lembrei do que vinha me dizendo mentalmente: “vamos tentar ser menos bosta”.
Umas madeixas pretas e onduladas saíram da janela do motorista do carro à frente:
– Desculpe!
Não tive outra reação, a não ser gritar:
– Tudo bem!
Coloquei o carro na garagem. Antes de subir, fumei um cigarro. Marina não gostava do cheiro de cigarro, dizia que lembrava seu pai, e ela o odiava. Eu até a entendia e fazia o possível, menos parar de fumar.
Terminei, coloquei uma bala de hortelã da boca, subi. Quando cheguei no penúltimo degrau, lembrei que as coisas ficaram no carro. Voltei para buscá-las.
Alguns convidados já estavam lá. Meu melhor amigo, André, com sua nova noiva. Acho que era a terceira ou quarta. Eu o entendia, relacionamentos são difíceis. Tinha chegado também um amigo escroto de Marina. Era do TI do trabalho dela, cantava nos bares da cidade nos fins de semana, achava que seria o próximo Tim Maia. Eu odiava aquele cara, ele quase acabou com meu casamento uma vez.
Cumprimentei meu amigo e sua noiva com um caloroso abraço, ele sempre teve bom gosto para as garotas, eram lindas e gentis. Não fui tão cortês com o outro, apenas acenei com a cabeça, de longe.
Levei as compras até a cozinha, Marina me seguiu.
– Você pode tentar ser menos babaca? – ela veio se aproximando de mim com raiva.
– Não com ele.
Para quebrar o gelo, dei-lhe uma flor, que estava meio amassada por estar na sacola, abracei e beijei-a.
– Você é um babaca, mas é o meu babaca.
– Estou sendo menos babaca ultimamente, mas não menos seu.
Preparei alguns petiscos, enquanto isso os outros convidados chegavam. Minha surpresa foi tanta que quase deixei cair a bandeja no chão. A mulher do supermercado sentada dentro de minha casa.
Ela se levantou ao me ver, sem esconder a surpresa.
– Vocês se conhecem?
– Não. – minha resposta.
– Sim. – resposta dela, que logo emendou. – Ele me deixou passar na frente da fila do supermercado.
– Sinal que as sessões de terapia estão funcionando. – Marina ironizou.
Cheguei perto do ouvido dela:
– Não precisa falar dos meus problemas para os outros.
Sem censura, ela escandalizou:
– Daniela não se encaixa na categoria de “os outros”. É minha melhor amiga, dividimos apartamento na época da faculdade. Ela só não veio ao nosso casamento porque estava morando em Chicago. Chegou há uma semana.
Senti tanta vergonha que deu vontade de enfiar a cabeça no chão, como um avestruz. A moça esticou a garrafa de vinho para mim.
– Muito prazer, Daniela Portillo.
Peguei a garrafa, sorrindo timidamente.
– Hugo Saavedra.
Jantamos, bebemos, conversamos, rimos, todos nós. Até ignorei o olhar estranho do babaca do TI e aquela sudorese nojenta nas axilas. Daniela era discreta, mas quando queria, tomava a atenção de todos. Tinha boas ideias, boas histórias. Bom decote também, que eu lutava para não ficar encarando.
Pouco a pouco os convidados iam saindo. Em questão de menos de uma hora, não havia mais nenhum. Eu e minha esposa levávamos as coisas para a cozinha.
– O que você achou, meu amor? – perguntei à Marina.
– Adorei, foi tudo incrível. A noiva do André é linda e muito simpática…
– É mesmo, ele tem bom gosto.
– Já a Karen, meu Deus! Quem é aquele peixe morto que ela foi arrumar? Ele deveria deixar a barba crescer, assim não ia parecer ter acabado de sair do ensino fundamental.
– Verdade.
– Ela engordou também, nem devem estar transando.
Ri alto.
– Duvido! Ela é ninfomaníaca.
– Como você sabe disso?
– André…
– Eles já?
– Várias vezes. Uma vez teve até participação da garota que dividia apartamento com ela.
Marina colocou a mão no rosto, tocando a orelha esquerda com as pontas dos dedos, como sempre fazia quando estava surpresa.
– Ela nunca me disse isso.
– Você tem o jeito muito fechado, sua cabeça é muito fechada.
Vi seu rosto enrubescer, eu conhecia bem aquela mulher, sabia que ela não estava brava, mas tímida. O problema é que quando ficava tímida, aumentava o tom de voz, num tom quase que de briga.
– De onde você tirou que eu tenho a cabeça fechada?
– Você faria um ménage?
– Nunca pensei sobre isso.
Ela me conhecia o suficiente para saber que se passava sacanagem na minha cabeça, quando eu abaixava a cabeça e dava um sorriso de lado.
– Você já, não é mesmo?
– Ah… sabe… eu acho que seria uma coisa legal de experimentar.
– Não sei.
Sua voz titubeou, havia uma brecha. Eu tinha que tentar.
– Já que você confia tanto na Daniela… Seria legal. Queria dizer, ela parece ser legal.
– Acho que ela não é do tipo que faria isso.
É sim! – gritei em pensamento.
– Só tem um jeito de saber.
– Qual é?
– Fazendo o convite a ela.
Era minha última jogada, não sabia o que vinha depois, podia ser o xeque mate. Ela me olhou nos olhos, ficou alguns segundos assim, então respondeu:
– Tudo bem, vou falar. Agora vamos acabar de arrumar essas coisas aqui, a noite ainda não acabou para nós.
Transamos a noite toda, foi incrível. Alguns meses depois estávamos divorciados. Nunca mais vi ela ou Daniela. Não tivemos um ménage a trois. Talvez no meu terceiro casamento.
Berg Morazzi, nascido em 17 de maio de 1992, em uma pequena cidade de Minas Gerais. É escritor, roteirista, audiodescritor e ativista vegano. Autor dos livros “Sobre a lucidez e outras farsas”, “Obsolescência Cotidiana”, “Isso nunca foi sobre o amor”, “Enquanto a cidade dorme”, “As flores morrem o ano todo” e “A um passo do precipício”. Traz em sua prosa uma mistura exótica de Paulo Coelho, Gabriel Garcia Marques e Charles Bukowski. Mostrando o doce e o amargo da vida cotidiana, criando personagens profundos e histórias reflexivas.
A repórter se ajeitou no banquinho de madeira rente ao chão, enquanto Dalmira tentava controlar o choro para continuar seu relato. Levava ao rosto o lenço gasto e parava o olhar, perdido, a mirar o passado. Na face cansada e velha, apesar dos quarenta e poucos anos, escorriam as lágrimas expressivas dos sentimentos de uma existência. Firmino Neves morrera há nove meses; Dalmira agora já não frequentava o casarão do dono “daquelas terra tudo”, inclusive do pequeno povoado de Encruzilhada do Cipó. Mudara-se em definitivo para sua casa.
Chegou menina-moça na fazenda para trabalhar e, ainda que sem corpo de mulher pronta, deixava rastros de suspiros por onde transitava. Diziam que era feita de café com leite e açúcar queimadinho, devido ao tom da pele, e provocava lambidas de beiços na homarada, sem dar confiança para ninguém. Porém, o patrão Firmino Neves foi o único a provar o sabor de café com leite tão cobiçado em Encruzilhada do Cipó. Não apenas a tez morena, mas o balançar dos quadris e a voz de criança faceira que cantarolava pelos corredores nas tarefas diárias faziam o poderoso fazendeiro tremer de vontades. Firmino Neves se considerava dono dos empregados e logo determinou para si que Dalmira era sua pertença, sem se importar em quando lhe colocaria as mãos; seria apenas questão de tempo. Aguardou a potra arisca se acalmar sem pressa, para aprimorar a doma na cama; logo ficaria doce e fácil.
Assim, Dalmira se tornou mais uma entre as mancebas de Firmino Neves. Ganhou uma casa sua e passou a receber cinquenta dinheiros por dia para servir a seu senhor em meio aos lençóis e nos afazeres domésticos. Fora comprada e “bem-paga”, do mesmo modo que as outras, mantidas em cada sede. Dalmira cuidava pessoalmente da comida, das roupas, das botas, do quarto, dos banhos. Era presenteada com vestidos, brincos, pulseiras, colares, fitas de cabelo, teve a casa mobiliada e até um aparelho de som, no qual colocava suas músicas preferidas para tocar e rodopiava pela sala, quando Firmino Neves não estava ou não a chamava. Não levantava os olhos, respondia às ordens com ações, quase não falava. Como a ninfa Eco, condenada à maldição de apenas repetir a voz de Narciso, objeto de sua cupidez, alienava-se e enfurnava seus próprios desejos. Estava sempre pronta, arrumada e perfumada, pois Firmino Neves cismava de querer seus préstimos a qualquer hora.
Não teve criança; fora obrigada a entregar menino nascido ou a botar fora a cria, logo que lhe atrasavam as regras. Nunca saiu da fazenda, não conheceu parente. Nasceu criada, encarou a lida em troca de morar e comer, tornou-se amante de Firmino Neves e nada soube de si.
— Conheço ninguém, não, senhora, a não ser os daqui. Fico sozinha neste fim de mundo até morrer.
Sem pressa e em detalhes, Dalmira discorria acerca de seus dias ao lado de Firmino Neves a uma jornalista lívida. A matéria, pensada minuciosamente, contaria as experiências de mulheres do interior do país, que atravessaram a vida sob o jugo de seus coronéis, servindo-lhes a própria carne. A exemplo das amasiadas de Firmino Neves, muitas poderiam existir pelos cantões do país, e a revista seguia atrás dessas histórias.
A personagem escolhida para a primeira reportagem da série “Cama e Mesa” envelhecia rápido e prematuramente, contudo se conservava jovem no gosto de se mostrar enfeitada, de sombra nos olhos, vestido florido de saia rodada. A repórter acreditava que a trajetória de Dalmira seria perfeita para sua pauta – saturada de dor e tormento, coagida pela dominação, pelo poder, pelo dinheiro, pelo descaso de uma sociedade conivente com a submissão e subserviência femininas. Alheou-se à entrevista, imaginando Dalmira infeliz, dias e noites em claro, o anseio por ir embora, sumir dali, abandonar Firmino Neves para ser livre, ao lado de alguém que a honrasse e construísse com ela uma família em uma relação de amor.
— Saudade? – a repórter se deu conta de que escapulira em devaneios – o que disse?
— Que sinto saudades de Firmino Neves, sinto falta do meu homem.
— E o seu sofrimento nesse tempo todo? – perguntou a repórter, confusa.
— Que sofrimento? A vida não me deu nada, não, dona; Firmino Neves foi quem me deu tudo. Amei quieta, servi com gosto, recebi em troca mais do que esperei. Felicidade era ter Firmino Neves. Agora que foi embora, resta esperar minha vez e ir no encalço dele.
***
Pé de não sei quê
E o maldito pé de não sei quê enfim pendeu de vez, mortinho. Arqueou o tronco fino lentamente, perdendo sua força; tentou apoiar no muro, mas minha vontade que virasse um molho de folhas secas pareceu vencer o que lhe restava de viço. E ali está: acabado, sem chance de voltar a assombrar minhas lembranças e a se manter como guardião do jardim do amor eterno, como se agora me ameaçasse com sua presença muda. E feia.
Ele caiu. E com ele se foram as últimas lágrimas. As últimas que choraria de raiva, de humilhação. Agora o choro é de foda-se! Desabou o último representante de uma fase sombria.
Dez anos durou aquele arbusto. O mesmo tempo em que dividimos o teto, a cama, a comida, o chão. O mesmo tempo em que nos enganamos ou que eu me enganei. Era pra ser o símbolo da nossa união e da nossa felicidade. Foi o primeiro ser vivo a fazer parte do que seria um lar, em dia especialmente escolhido, com direito a ritual a dois. Recebeu o apelido de pé de não sei quê, pois não sabíamos nada sobre plantas, muito menos que nome teria a arvorezinha que levamos para a casa em obra. Ríamos disso.
O que nunca prevemos é que o mundo é real, com problemas reais e suas consequências. Com as mudanças, mágoas e rancores. Com a maldade pura e fria. Foi uma década de olhos baixos, sorrisos pela metade, concordâncias falsas, cessões por simples favor. E, ao final, o transbordamento de tanto desgaste pela via mais torpe: a violência.
Encaro o pé de não sei quê com ódio. O peso de significados que carregava o levou à queda. Eu não resisti, ele também não. Aguentei o que pude, levei a sério o que aprendi com o padre e com meus pais: segurar o casamento, pelo bem dos filhos. Balela. Tornamo-nos todos infelizes – eu, ele e eles – por não sermos capazes de dizer não. Eu não fui capaz de dizer não.
Confesso que dei uma ajudazinha: deixei que se virasse. Se chovesse, teria água; caso contrário, ah, que pena. Era frágil, o pé de não sei quê. Bem parecido comigo lá no início da história. Passei pela manipulação, pela pressão, pelo descaso, pelo abuso. Ele só teve sede e absorveu minhas vibrações negativas para que definhasse sozinho. Finalmente, parou de exalar seu perfume nauseante no fim da tarde.
Por que não o derrubei? Afinal, seria mais rápido me livrar da representação tão marcante dos meus dias de infortúnio. Porque preferi ser cruel. Queria vê-lo se dobrar diante dos meus olhos, vergar o que era altivo e vultoso, beijar o chão. Entregar -se.
Em pouco tempo o caule enrugou, as folhas amarelaram e começaram a cair. Mais uns dias e estava encurvado, até tombar de vez. Morte assistida e comemorada com o que de pior tenho em mim. Imagino que me olha com desprezo, enquanto o encaro com sarcasmo.
Era o que eu queria ter feito, meses atrás, mas não tive tempo, nem jeito. O ódio me faria a arrancar-lhe unha a unha, até ajoelhar e pedir perdão. O ódio que o surpreenderia na madrugada com o quarto em chamas, até sucumbir sufocado. O ódio a mim, por ter me submetido e suportado sem resposta. O ódio por tudo em que se transformou essa existência fracassada. O ódio que me moveu a fazê-lo pagar com a vida, sem sentir nada do que me fez penar.
***
Desenlace de Família
Aquele rosto me era estranho. Não porque jazesse inerte, dentro do caixão. Não porque, coberto de flores, não pudesse reconhecer-lhe o físico. Não porque cheirasse mal. A tez morena, avermelhada, feito índio; os cabelos brancos encaracolados; os lábios finos, sem curvatura, como se traçados num único risco de dois lápis. Aquele rosto me inspirava desprezo, somente. Não me interessava recordar dele vivo, pois à memória retornaria a expressão de fúria nas lides diárias ou descendo o cacete nas filhas.
Agora a carcaça do brutamontes estava cercada pelo choro das mulheres que subjugou. Não atinava como pessoas tão judiadas fossem capazes de lamentar a morte de seu carrasco. Olhei ao redor e não encontrei a caçula, a única das filhas que conversava comigo, a mais doce e cordata. Havia algo que nos unia, um laço entre almas. Não reagia às corretivas do pai, ao contrário, demonstrava afeto por ele, não manifestava revolta pelo tratamento opressivo, não chorava e nem reclamava pelos cantos. Apesar de castigá-la como às outras, Rejane era a única filha que contava com um mínimo de carinho e certo excesso de atenção do “tio” Cadô. As irmãs se ressentiam, enquanto a mãe notava a diferença, mas deduzia como preferência natural – quem não tem seu filho dileto? Compreenderia se qualquer das filhas faltasse ao velório, no entanto foi Rejane que não velou o pai.
E eu? O que estava fazendo naquela sala escura com cheiro de flor e vela, suor e café? Fora arrastada pelo meu irmão, Lucas, sem explicações; disse “morreu” e me tirou de uma festa para o velório. Não tivesse apenas treze anos e igualmente criada abaixo de porrada, teria questionado “E eu com isso?”.
Seria a minha primeira vez na quermesse, sem a mãe; a primeira vez de olhos sombreados e batom; a primeira noite com amigas. Combináramos de andar na festa de braços dados, pedir música e mandar mensagens aos rapazes pelo autofalante. Não poderia passar das dez horas, sob a ameaça da varinha de marmelo de papai, que me aguardaria na varanda, a contar os primeiros segundos de atraso. Como “tio” Cadô fazia com Rejane, papai me cobria de mimos exagerados, contudo não me poupava das sovas quando lhe convinha ou se me rebelasse contra seus afagos melosos.
Quis me afastar do caixão, porém meu irmão me segurava, e se mantinha contrito diante do corpo do homem que admirara. Temente a Deus, frequentava a igreja aos domingos, pai exemplar, bom provedor, trabalhador, honesto, corrigia esposa e filhas com precisão, educava com rigor, rude, tosco, grosso, mau, violento, cruel. Na verdade, não era parente nosso; amigo chegado de papai, fora escolhido para apadrinhar Lucas. Embora as duas famílias tenham se constituído praticamente juntas, até então, mamãe tolerava essa amizade em silêncio.
Não assisti ao enterro. Acompanhei o caixão sair no carro funerário, entrei em casa, do outro lado da rua, e emburrei. Sobre a causa da morte, passei muitos anos sem saber. No velório escutara rumores sobre um tombo da marquise e minúcias que não se arranjaram de modo lógico no meu raciocínio. Este mês faz dez anos que “tio” Cadô se foi. Também são dez anos sem ver Rejane, a filha que pagou na cadeia pelo assassinato do pai, com a paulada que o derrubou do beiral da janela, onde emendava um fio. Deve estar prestes a sair da prisão. Agora, se quiser, poderá viver. Eu escolhi fugir.
Giovana Damaceno é jornalista e escritora. Autora dos livros: “Mania de escrever” (2010), “Depois da chuva, o recomeço” (2012) e “Do lado esquerdo do peito” (2013). Membro da Academia Volta-redondense de Letras e integrante do Coletivo Feminista Literário Mulherio das Letras.
Alguns dizem que ele a matou e a jogou, com carro e tudo, num dos brejos lá da serra, um daqueles que ninguém sabe direito como chegar. E, acredite, tem uma porção de brejos assim por lá. Mas a maioria acha que tudo realmente aconteceu: que eles foram levados para algum tipo de experiência e que, por algum motivo indecifrável, só ele voltou. Eu mesmo não sei dizer o que é verdade. Cada um tem a sua opinião e a depender do jeito que falam, acabo acreditando em quase tudo.
A história que todos conhecem é que eles tinham saído para jantar. Era uma quinta-feira como outra qualquer, sem nenhuma data comemorativa ou algo assim. Alguém lembrou depois que eles quase nunca saíam juntos, mas há muitas coincidências na vida e essa pode ter sido apenas mais uma. De qualquer modo, foram até uma pizzaria, aquela que fica na esquina do cinema, e se sentaram em uma das mesas da varanda. Ele deixou Norma escolher o tamanho, família, e os sabores, e ela pediu metade de calabresa e a outra metade de manjericão roxo. Comeram sem conversar, como muitos outros casais, cada um sentado em um lado da mesa. Ela bebeu refrigerante e ele, uma lata de cerveja. A garçonete disse que Norma perguntou se era possível embrulhar os dois pedaços que haviam sobrado e que ele, ao descer o batente da pizzaria, disse:
– Cuidado, querida, para não tropeçar.
Entraram no carro e partiram. E, depois disso, tudo o que a gente sabe foi o que ele contou.
Ele disse que seguiram pela estrada que leva aos brejos. Era o caminho mais longo, mas ela gostava de ir por ali. Escutavam música francesa: Allan Barriere e Charles Aznavour. Conversavam sobre o desabamento de um prédio que tinham visto na tv. Tudo ia bem, quando, depois de passar pelas velhas fábricas, ao entrar à direita para pegar a grande reta que os levaria para casa, o carro de um segundo para o outro parou – não havia desligado, assim como não parecia haver qualquer problema mecânico. Apenas deixou de ir para a frente, de seguir a linha que vinha seguindo. E o mais estranho daquilo era que, mesmo acelerando e quase afundando o pé no assoalho do carro, continuavam sem sair do lugar. Era como se um enorme ímã os segurasse. E então, abruptamente, o carro ficou suspenso no ar e começou a se afastar do chão. Ele disse que não demorou a deduzir que estavam sendo abduzidos por alguma nave espacial, pois era a única coisa que poderia estar acontecendo. E ela, a nave, era enorme e muito clara, tão clara a ponto de quase cegá-lo, por isso teve que fechar os seus olhos. E apagou. Quando despertou, horas ou dias depois, se deparou com aquelas duas criaturas curvadas sobre si. Eram bem diferentes das que vira em qualquer filme sobre aliens, pois tinham o corpo gelatinoso e andavam sem esforço algum, como se flutuassem a dois palmos do chão. Curiosamente, ao invés de lhe causarem medo ou asco, lhe davam uma surpreendente sensação de paz e segurança. Elas o colocaram numa espécie de redoma de vidro, que chacoalhou por algum tempo e depois parou. Nesse tempo, ele acabou apagando mais uma vez.
Na manhã seguinte, encontrava-se completamente nu, deitado sobre o asfalto, quando um cachorro veio e lhe lambeu o rosto. Não havia nenhum sinal do carro, muito menos de Norma. E ele, sem ter mais o que fazer, simplesmente se levantou e correu para casa, de onde ligou imediatamente para a polícia.
Tem cinco anos que isso aconteceu. O caso continua em aberto, pois nunca acharam o corpo, mas a bem verdade é que quase todo mundo acreditou na história que ele contou. Às vezes, até eu. Nos finais de semana, quando o tempo está bom, alguns turistas aparecem e vão até a estrada que leva aos brejos, hoje tão movimentada quanto qualquer rua comercial. Procuram por uma queimadura no asfalto ou qualquer coisa que os convença de que tudo de fato aconteceu, e por vezes até encontram algo, e, alvoroçados, começam a falar alto e a sorrir, como se dependesse daquilo atestar que tudo tinha sido mesmo verdade. Em seguida, rumam em caravana até a frente da casa em que o casal morava, onde hoje há uma lojinha na garagem. Em alguns dias, ele aparece, acompanhado da nova esposa, uma loira, quinze anos mais jovem, e tira fotos, conta para todos como foi a louca e maravilhosa experiência que teve a sorte de vivenciar. E aquelas pessoas então o abraçam, lhe pedem autógrafos, e, ao seu modo, o reverenciam, porque, apesar de tudo, ele conseguiu sobreviver.
Parece que na semana que vem, lá na praça em frente à pizzaria, vão inaugurar uma estátua dele montado em um disco voador.
Rodrigo Melo é prosador e vive em Ilhéus, Sul da Bahia. Publicará, no início de 2020, o romance Riviera.
Parado em cima da ponte Rio-Niterói. A voragem. Um ponto indefinido lá no alto, na ponta de uma reta de metal, betão, piche. Carlos Henrique vacila. A dor dilacera o pensamento. A dor arranca-lhe o coração e o estômago. A dor é uma pesada pedra no peito. A imagem de seu filho perfurado, ensanguentado e morto. Fixada na memória como ferro quente. Queima, arde. A ponte, a água dura e profunda. Ele vacila. O vento passa pela face molhada. Não chove. O sol embaçado de poluição e mormaço. O calor derrete. Os olhos chovem. A injustiça abissal. O indestrutível Golias. O sofrimento maior. O peso do mar imóvel. E de novo a imagem do filho perfurado.
Furo, disparo. Tudo o perfura, atravessa o corpo, estraçalha a alma. Dói a realidade dentro dele. Na sua mente perfurada de chumbo. Tiros que o acertam e destroem a vontade de viver.
Esquecer é um bálsamo. Mas a memória dispara a imagem centenas de vezes. E tudo à volta o acerta, fura-lhe os olhos, a boca, o ouvido. Fura o pescoço. O sangue escorre e flui pelos olhos, pelas narinas, pela boca, pelos ouvidos, pelos furos nas veias…
Cento e onze.
No meio de um dia qualquer de novembro, o raio de sol refletia na janela. Nina lia o jornal, sentada no sofá da sala, no apartamento no Rio de Janeiro. Não gostava de ler jornais, raramente abria as páginas de um. Mas comprava de vez em quando no jornaleiro. Ele vendia exemplares do seu livro.
Ao ler os jornais parecia que tudo se tornava um problema. Desde que o povo acordou para a democracia era uma manifestação atrás da outra. Era cansativo! Ela se perguntava quando isso teria um fim e ela podia viver em paz sem as vicissitudes políticas e econômicas, sem ter que responder sobre sua opinião política nos eventos de literatura. Para ela, literatura não tinha nada a ver com política.
Lendo o jornal, os assassinatos a incomodavam. O artigo dizia que mais de sessenta mil pessoas morrem assassinadas em solo brasileiro, por ano. Quarenta e cinco mil, em acidentes automobilísticos. E mais adiante: Cento e onze tiros de pistola e fuzil contra o carro no qual estavam os jovens. Neste ano, são mais de onze mil, quinhentos e sessenta disparos pelos policiais do Batalhão de Irajá. Os policiais de São Gonçalo deram quinze mil setecentos e sete tiros. Somando com os do Batalhão de Niterói e do Bope chegam a quarenta e dois mil e quatrocentos e oitenta e sete mil disparos em um ano, e ainda faltava o mês de dezembro. A foto dos jovens Roberto de Souza Penha, dezesseis anos, Carlos Eduardo da Silva de Souza, dezesseis anos, Cleiton Correa de Souza, dezoito anos, Wilton Esteves Domingos Junior, de vinte anos, e Wesley Castro Rodrigues, vinte e cinco anos, horas antes do fuzilamento, mostrava a cara alegre e inocente de jovens afro-brasileiros.
Os ruídos dos disparos ecoavam. Muitas balas perfuraram o tronco, muitas balas entraram por cima, por trás e pelo lado direito do carro. O policial que mais atirou deu onze disparos com uma pistola Taurus e dezoito com um fuzil imbel M-964 FAL.“É um vazio no coração um pai sepultar um filho assim. Você nunca supera essa dor”.
Ela passou na casa de seu editor, no condomínio CXI, na Av. Costa Barros. Um homossexual com cara de Oscar Wilde e gestos de Woody Allen. Ele, sentado na sala do escritório desarrumado e cheio de livros, propôs: — Escreva sobre isso, então! Se está te incomodando tanto! Há meses que ele parou de fumar e engordou. Mas começou a fazer uma dieta rigorosa com o auxílio de uma jovem nutricionista. E fez um tratamento de branqueamento dos dentes. Sorria um sorriso imaculado. A editora é pequena e o número de leitores restrito, mas ele consegue financiamento de algumas empresas conhecidas do marido dela.
Nina sem inspiração. Não era ruim porque tudo o que ela escrevia seria publicado. O marido possuía amigos influentes que possuíam amigos influentes, e o irmão dela era jornalista. Seu círculo de leitores eram a maioria mulheres e ela vendia bastantes exemplares nas reuniões das instituições de caridades, promovidas pelas empresas dos conhecidos de seu marido. As boas resenhas nos jornais eram por conta dos amigos de seu irmão.
Cento e onze. Wesley Castro deixou um filho de dois anos. Wilton ia se formar como técnico em administração. Carlos Eduardo tinha acabado de concluir um curso de Petróleo e Gás e se preparava para tentar concurso para a Marinha. Roberto era Jovem Aprendiz no Atacadão de Guadalupe. “Primeiro emprego. Estava rindo à toa, estava bem com a vida. O primeiro salário que recebeu foi brincar no Parque Madureira com os colegas dele”.
Antes de voltar para casa, Nina passou no supermercado e fez a compra da semana. E cinco ramos de copos-de-leite brancos. Quando seu marido chegasse a janta estaria pronta. Ele reclamava que ela perdia tempo escrevendo ou lendo, mas quando alguém nasceu para escrever, ele somente poderá ser impedido se de alguma forma for morto. Como ela não se deixava matar, ela escrevia ainda mais. Seus três filhos quase a assassinaram, mas a empregada salvou-lhe a vida. Sem a Val ela jamais seria o que é agora, uma escritora mediana, casada com o superintendente de uma grande empresa, com três filhos homens adolescentes e o sobrinho que veio morar com eles depois da morte dos pais, em um acidente de automóvel.
O PM botou o fuzil na cara de Márcia Ferreira, mãe de Wilton. “Ninguém se aproxima do carro”, berrou. A mãe viu o seu filho e o amigo Carlos ainda vivos, gemendo. A mãe foi ameaçada por policiais, ela viu quando um deles colocou uma arma no chão, ao lado do carro, e tirou a chave do contato, jogou-a no porta-malas do veículo. “Minha cunhada queria ver o filho dentro daquele carro, mas o PM botou o fuzil na cara dela e disse que ia atirar em quem se aproximasse do carro. Quando chegamos deu para ver que o Wilton e o Carlos agonizavam e ainda estavam vivos. Pedimos para socorrer, mas eles não deixaram”.
Cento e onze pássaros alçaram voo. O bando estava pousado na árvore e no muro do grande jardim. Cinco ninhos nos galhos das árvores. A tarde caía. Nina sentou-se à mesa e não conseguia começar. Não sabia o que narrar sobre os cinco jovens assassinados pela polícia dentro de um Fiat Palio branco, enquanto voltavam para casa. Roberto tinha recebido seu primeiro salário como auxiliar de supermercado e os cinco amigos foram comemorar. Moravam no Morro da Lagartixa, no Complexo da Pedreira, onde os jovens negros morrem ou nas mãos dos bandidos ou da polícia, um bairro distante de onde Nina mora. Era como se fosse em outro país, em outro continente. Precisar conviver com a incerteza se o filho será vitima ou algoz. Era como uma guerra civil, um genocídio camuflado de perseguição e execução de criminosos. Horas antes a polícia tinha recebido um aviso sobre um roubo na redondeza e os suspeitos estavam dentro de um carro e uma moto. Na Curva Vinte e Um apareceu um carro e uma moto e isso foi o suficiente para a polícia atirar. Despreparo. Salário baixo. Risco de vida. Psicopatas. Psicologia. Despreparo.
Um dos países onde mais se mata.
Nina tinha medo de ir àquela região da cidade, mas buscava escrever uma história autêntica e para isso queria conhecer as famílias, as mães, pelo menos uma, precisava conversar com ela, saber sobre a vida dos rapazes. Soube, por meio de outro artigo de jornal, que o pai de Roberto foi um dos primeiros a chegar ao lugar da chacina, e não consegue esquecer a imagem do carro perfurado com o filho dentro. O adolescente recebeu 16 tiros. Soube que o alarme de Roberto toca regularmente às 6h30. O pai não sabe mexer no computador do filho para desativá-lo, e ouve o alarme tocar de segunda a sexta. O filho, de dezessete anos, nunca mais acordou para ir à escola.
O alarme tocou, seis e meia da manhã. Nina levantou-se e foi ao quarto acordar os meninos. Cinco luzes acesas. Eles tinham que ir à escola. O mais velho era o que mais lhe dava trabalho e era o último a se levantar. O sobrinho era o primeiro a se levantar. Eles não tomavam o café da manhã, se arrumavam e logo saíam.
— Não se esqueçam de passar o protetor solar. Vocês têm a pele muito sensível!
Dois iam a pé, caminhavam pelas ruas do bairro até chegar à escola, atrás de uma praça arborizada. O sobrinho e o de dezesseis anos pegavam o ônibus especial da escola particular que passava na rua de cima.
Cento e onze. Gritos. Eram amigos de infância. Cinco amigos. No selfie, um deles sorri metálico com o aparelho corrigindo a felicidade. Cinco vidas. Josita, mãe de Roberto, morre três anos mais tarde, sem forças, anêmica, aos quarenta e quatro anos. Wilkerson, quinze anos, irmão de Wilton, que estava em uma moto com um amigo e conseguiu fugir dos disparos, morre de aneurisma cerebral, um ano depois.
Nina falou com a Val, que morava no bairro vizinho, sobre a possibilidade de vir a conversar com alguém da família.
— Você enlouqueceu? Foi a pronta resposta de Val. Eu não conheço ninguém daquele bairro. Não piso os pés lá.
— Mas você não poderia ver se alguém conhece uma daquelas mães?
— De jeito nenhum! E como você vai até lá? Nem táxi circula naquela região.
— Mas as pessoas vivem lá. Há muitos que vivem lá e não são todos criminosos. São a maioria gente como nós. Não são? Como eu e você que batalhamos na vida!
Uma série de argumentações passou pela mente de Val. Ela não era como a patroa. E respondeu apenas, “eu não posso lhe ajudar. Pergunte ao seu irmão, ele é jornalista!”.
De repente, a chuva.
— Val, tira a roupa do varal. Está começando a chover! Val correu para o quintal. Mas, não demorou muito, a chuva parou. Cento e onze gotas de chuva na poça no quintal.
“Não atira! Somos moradores!” O braço para fora do carro em sinal de aviso. “Não atira! Somos moradores!”
O maxilar solto por causa da potência das balas, pendurado
Cento e onze.
O advogado pediu ao Tribunal de Justiça que obrigasse o Estado a custear atendimento psicológico para mãe e filha. Em primeira instância, o pedido foi negado — a juíza considerou que a solicitação só poderia ser atendida após a condenação dos PMs.
Cento e onze.
Nina pensou que a Val sempre a teve nas mãos. Ela era de confiança, rápida no serviço, prática, gostava de crianças e Nina não sabia de onde ela tirava tanta sabedoria sobre o relacionamento entre as pessoas. Há vinte anos que ela trabalhava na família. Com a convivência se afeiçoaram uma a outra. Val era determinada, Nina podia se dar ao luxo de se perder na realidade, o luxo do devaneio.
Adriana, mãe de Carlos Eduardo parou de falar. As palavras estraçalhadas dentro dela, a mudez sufocando. E o grito, a agressividade, os antidepressivos. As tentativas de suicídio. O mar. As ondas para engolir a dor. A dor acorrentando os pés. O caminhar no pântano. Na mão uma carta do filho, presente do Dia das Mães: “Escrevo essa carta para te dizer que tenho a melhor mãe do mundo, não porque seja a minha, e sim porque, se buscasse no mundo inteiro, não vou encontrar outra igual, nem parecida”. Monica Aparecida Santana Corrêa, mãe de Cleiton, vive à base de antidepressivos e medo de sair de casa.
O marido chegou do trabalho. Nina preparou a janta que Val cozinhou. No prato, cento e onze grãos. O filho mais velho fez dezoito anos, no mês anterior, e ganhou um Audi A3 sedã branco de presente. Desde então ele não respeitava mais o horário da janta. Nina o orientou a não sair do bairro, não dirigir o carro por aí, longe. Aquele bairro era seguro, os dois bairros vizinhos também, mas ao se afastar para a zona norte, poderia acontecer roubo ou rapto. Nina se preocupava. Quatro jovens em casa, quatro filhos lhe davam trabalho. Nervoso. Paciência. Paciência. Nervoso. O de dezesseis anos costumava deitar a cabeça em seu colo, no sofá da sala, vendo televisão. Ele tinha crescido. Desta vez, Nina deitou a cabeça no peito dele. Cento e onze batidas do coração. — Lembro de quando você nasceu, um bebê gorduchinho! Meu fofo!
Cento e onze. Márcia Ferreira de Oliveira, mãe de Wilton: “Que segurança é essa nossa que a gente é patrão deles porque o pagamento é a gente que paga com o nosso suor e a gente paga para eles poderem matar os nossos filhos da forma que o meu filho e os amigos deles de infância foram mortos? Não tinha bandido dentro daquele carro não. Tinha um bando de adolescente querendo se divertir, querendo fazer de um sábado um dia diferente, um dia de alegria, e hoje eu estou aqui, na porta do IML tirando o corpo do meu filho dali. Que UPP é essa? Ele acabou com cinco famílias. O meu filho tinha 18 anos, mas era uma criança. Ele deitou no meu colo e falou ‘mãe me faz um cafuné?’, como se fosse um bebê. E amanhã eu tenho que enterrar o meu filho”.
A mãe saía para trabalhar, Wilton fazia o jantar e cuidava da irmã pequena, de 6 anos. De vez em quando, ela o chamava de “pai”.
Um ano depois, Nina sentou-se à mesa e não conseguia escrever. Não sabia o que narrar sobre os cinco jovens assassinados pela polícia dentro de um Fiat Palio branco, enquanto voltavam para casa.
No apartamento de seu editor, sentado na sala do escritório desarrumado e cheio de livros, ele propôs: — Escreva então sobre os refugiados! Faça uma viagem pela Europa e escreva sobre os refugiados. Este é um tema que está em voga atualmente, e é um tema internacional. Seus avós eram húngaros, seu marido é descendente de italianos. Conte a história de sua família! Seus avós fugiram, na época da guerra, eram judeus, não eram? Escreva sobre isso! Para ser sincero, eu sabia que você não conseguiria escrever sobre estas mortes. Elas acontecem demais! Fazem parte do cotidiano brasileiro. Nós, brasileiros, lemos isso nos jornais o tempo todo! Esses jovens não são os primeiros e não serão os últimos e a maioria da população não se importa. Este é um tema muito vinculado à vida na favela e as favelas não são o Brasil. Favela é favela! Isso não é um tema internacional e você não conseguiria vender os livros nas instituições importantes. Eles não gostam destes temas polêmicos! E poderíamos ter problemas com a polícia e com o financiamento para a publicação. Eu somente sugeri para você pensar e se ocupar um pouco. Você mesmo veria que não é pra você, e foi o que aconteceu. Escreva sobre os refugiados na Europa, sobre a ditadura e a imigração brasileira! A matança nas favelas é horrível, mas a maioria não consegue se identificar com isso e não quer saber de violência, droga, crime, policiais despreparados, corruptos, sanguinários ou bandidos cruéis ou jovens inocentes. Já chega os filmes norte-americanos! É um tema muito pesado! É um tema masculino! Você não é Paulo Lins ou Drauzio Varella! Escreva sobre a ditadura! O tio-avô de seu marido não esteve preso? Você me falou disso certa vez. Uma namorada dele sumiu. Ela era professora na universidade e foi depor, depois disso nunca mais foi encontrada. Vamos pensar em um livro que possa lhe trazer prêmios internacionais!
Uma centena, uma dezena, uma unidade. Um número harshad mais um. Jorge Roberto Lima e Penha, pai de Roberto, trabalhava de montador da Odebrecht e faz faculdade de Direito. “Ele era quase um bebê, e não vai poder nem me ver de beca. Não é por mim, em si, porque tudo que sempre fiz foi pelos meus filhos.”
Cento e onze.
“Quando ando com essa cara triste pelo morro escuto as piores coisas que uma mãe pode ouvir. Dizem que vai doer menos se eu me conformar, que não sou a única no mundo a ter perdido um filho, que eu quero ficar famosa. Já me falaram até que não tenho motivo para sofrer porque fiquei rica com a indenização do estado. O governo não nos deu dinheiro algum, e a verdade é que não quero um centavo. Só quero sair daqui. Preciso salvar meus outros filhos.”
“Às vezes, ela volta do trabalho chorando o caminho todo. Era o único filho. Só tinha o Wesley!”
Nina partiu para a Europa, passou três semanas. Os rapazes foram junto. Visitaram diversos pontos turísticos e Nina recebeu autorização para visitar um campo de refugiados, na Grécia, mas não quis expor os rapazes àquela realidade deprimente de pessoas presas. Guerra, miséria, pobreza, promessa, ilusão. Ainda mais que o sobrinho terminou o tratamento psicológico há pouco tempo. Dois anos fazendo terapia por causa da morte dos pais. Nina dedicava-lhe, às vezes, especial atenção e pedia para os outros garotos terem paciência com ele, ajudá-lo. Eram bons rapazes, carinhosos, bons filhos. Levou-os para curtir a praia turquesa e mansa. Crepúsculo rosado. Cento e onze estratos transparentes no imenso azul do céu.
— Não se esqueçam de passar o protetor solar. Vocês têm a pele sensível!
Ela escreveu um romance sobre uma fotógrafa apaixonada por um refugiado sírio, engenheiro, que consegue falsificar os documentos e acompanhá-la para o Brasil. Menção à ditadura grega e brasileira. Ganhou um prêmio internacional.
Cento e onze disparos atravessaram a lataria branca do automóvel, entraram no corpo macio e quente dos jovens, perfuraram os ossos, transpassaram o tórax, o quadril, o abdômen, o pescoço, estraçalharam o queixo, a cabeça… o sangue gelatinoso e escuro espalhou-se no assento, no chão. Cento e onze balas de ferro, duras e mortais, geladas e inanimadas. No céu o final da tarde. À noite as estrelas caladas. Sem brilho. Assustadas.
“Quem deveria nos proteger está nos matando”.
Cento e onze.
“Cada vez que escuto um tiro penso no que Cleiton sentiu quando entrou a primeira bala. Não consigo parar de pensar nisso. Nenhuma mãe suporta ver um arranhão em seu filho, imagine vê-lo transformado em picadinho. Meu filho foi enterrado nu, porque não era mais um corpo que pudesse ser vestido.”
O filho mais velho de Nina, agora com vinte anos, conseguiu o seu primeiro emprego como assistente de auditoria, através da recomendação do pai. O seu curriculum foi o menos atrativo, ele não tinha experiência e estudou em uma faculdade particular. O mais velho nunca foi de estudar, faltou muito nas aulas e pagou amigos estudiosos para escrever os seus trabalhos. Mas no final, tudo deu certo e ele conseguiu o diploma de administrador de empresas. Um mês depois ele recebeu o seu primeiro salário. Estava feliz. Encontrou os irmãos, na quadra de tênis do prédio, e um amigo dele. — Vamos pro restaurante, no shopping?
Naquele início de noite, vento fresco e cheiro adocicado no ar. Alegres, os cinco jovens saíram com o Audi A3 sedã branco e foram comemorar.
Viviane de Santana Paulo é poeta, tradutora e ensaísta, autora dos livros, Viver em outra língua (romance, Solid Earth, Berlim 2017), Depois do canto do gurinhatã, (poesia, editora Multifoco, Rio de Janeiro, 2011), Estrangeiro de Mim (contos, editora Gardez! Verlag, Alemanha, 2005) e Passeio ao Longo do Reno (poesia, editora Gardez! Verlag, Alemanha, 2002). Publica poemas em revistas e jornais, entre eles, Suplemento Literário de Minas Gerais, Inimigo Rumor, Jornal Rascunho, Poesia Sempre e Coyote; assim como nas revistas Argos e Alforja (México). Atualmente, vive em Berlim.
Uma vez um amigo disse-me que sou uma pessoa ‘’confusa e nada analítica’’.
A análise da ocasião de nossas falas, para aqueles que se proponham a exercer a função de analista informal, era de uma falha de comunicação tamanha que fazia tempo que não sentia a urgência de despersonalizar, por incrível autodepreciação que me acometeu naquele 483 irradiando suor dos trabalhadores do subúrbio.
A poltrona azul-marinho parecia regozijar-se de entusiasmo para analisar – de modo passado a ferro, com toda certeza – a linguagem corporal que expressava sob seus tecidos quase sintéticos.
A angústia inoportuna realizava-se sob gritos de camelôs e bufos de uma multidão assalariada em seus assentos.
“Você não é analítica, é pretensiosa e confusa.”
“Se concentra no que as pessoas falam, e não no que você acha que elas querem dizer.”
Pareciam períodos de crônicas clichês, mas era a realidade material e objetiva de uma amizade de anos que parecia corroer-se a cada mísera vogal que projetava na tela transparente de um Android.
Considero que a contextualização não tenha sido esmiuçada o bastante.
Vejamos, era uma conversa que revogava qualquer contato mecanicista que outrora tive com meu amigo. Éramos bons amigos, mas eu acredito que nunca tivemos uma projeção de honestidade para com o outro em critérios de personalidade expressada.
Éramos arquétipos estúpidos de uma massificação midiática que conduzia os jovens a serem hedonistas, porém inexpressivos em seus sentimentos e virtudes. Em suma, éramos um montante de personagens que queriam disputar o palco para ter uma autopromoção e aprovação de um e outro.
De um ano para cá, a crise endêmica assola o país – por ironia das casualidades – nosso perfil produtivo de personagens foi para o fundo do poço. Aliás, uma música que pode esmiuçar esse termo seria ‘’Exemplar do fundo do poço’’, do grupo de indie-rock, Violins (eles são bons subprodutos de uma hipermodernidade patológica, aconselho a escutarem após seus jantares). Éramos jovens de 20 anos, mas que parecíamos mais um mesclado de personagens de ‘’Skins’’, célebre e degenerada série britânica.
E essas memórias perpassavam entre várias partes de meu córtex, especialmente o pré-frontal, pois a oscilação de humor tornava-se crônica, como o balançar do 483 na Avenida Brasil.
Pela primeira vez, expus fragilidades de um dia de nascimento e de morte de uma terça-feira, para completar a dualidade jocosa que uma terça-feira evocava. Era de uma considerável humilhação abrir seu tecido emotivo para uma pessoa que, por mais que fosse seu amigo de anos, tenha se tornado seu inimigo que pertencia a um grupo divergente (e sabotador) de seu.
E perpassou, adentrou, erradicou após alguns minutos a discussão que mais parecia que romperia uma longa amizade, para se tornar um reduto de confessionários ético-morais.
O assunto era do fenômeno do individualismo, para ser pertinente à ocasião.
O confessionário alastrou-se da Penha até a Cidade Nova em uma vergonhosa performance de prolactina. Lágrimas brotavam – a este ponto – em meu colo. O sistema nervoso simpático não queria inibir; o confessionário do solipsismo tinha começado, e ele não atentava a contrações das emoções, independentemente de estar situado em uma frota de ônibus com uma aglomeração relativa de trabalhadores.
‘’Eu não sou legal, não, eu sou egoísta. Eu costumo colocar as pessoas em primeiro lugar, e eu, em contrapartida, em segundo espaço. Agora, pois, por que seria egoísta, você me pergunta. Eu não faço isso pelas pessoas, mas sim para não ficar com a consciência pesada, tá ligado.‘’
E ele começava a rir, mas eu tenho quase certeza que era de nervosismo e vergonha individual.
Eu conhecia a peça, igualmente da formação da psique condicionada por uma ideologia de uma classe individualista dominante da sociedade de lucro.
Eu o indaguei, questionei, atordoei, eu o expus – quem sabe, agora, de forma analítica – a gênese desse comportamento que, caso fosse materializado em uma maçã, e alguém fosse, por algum motivo, bater em uma árvore, a fruta iria cair em cada esquina e avenida desse Rio de Janeiro (e por que não falar do mundo inteiro).
Ele ignorou minha argumentação, que agora tinha se tornado um monólogo externo para uma tela de Android.
Porém meu confessionário ainda não tinha cessado, mas sim virado um monólogo – quem sabe, agora, interno –.
O garoto que contemplava os saberes éticos, metodológicos e morais de uma sociedade putrefata por dinheiro e solipsismo me deu um tapa tão forte que eu não me recordava da última vez que alguém tinha me transferido tamanha crítica – e olhe que eu recebo várias e espessas críticas, mas eu não as recebo bem, pois minha patologia moral não me deixa escoar as perspectivas –.
Tinha dificuldades em discernir tais indagações do jovem de óculos que se encontrava a malditos e distantes 21km de meu bairro, a 1h de ônibus. Calculava, agora – pela primeira vez, inclusive – a distância da convergência de nossa amizade no decorrer de quase 5 anos.
‘’Amizade’’.
Era uma condição de relação que não tínhamos aperfeiçoamento.
E talvez a magnitude dessa escassez de condição tão imediata para todos fosse um dos motivos que me afeiçoei a ele.
E por isso, logo, encontrava-me a tremer por uma possível perda.
Era ridículo e quase obscurantista pelo contexto geral de uma nação de adoecidos em suas morais.
Ressoava a porra de uma sirene em minha mente fragmentada, mesclando-se com o falatório do ônibus, que, para completar, estava em um clima quase semiárido pelo descaso.
‘’Você não o perdeu, qual é, é apenas uma projeção de uma possível perda, pois você nunca foi tão humilhada por ele.’’
– Pelo contrário, você o humilhava –
– E a autopiedade do semi míope confirmava a sua condição de fracasso personificada –
‘’Por isso você não o aceitava; pois você estava tão confinada a reter seus conflitos internos em sua condição moribunda, que não percebeu que tinha passado dos limites da fronteira de uma amizade, que somente depois de um ano foi ser de fato uma amizade na prática.”
O que mais parecia assemelhar-se a uma dinâmica de um jogo de simulação de um slice of life (vulgo narrativa do cotidiano), parecia a desertificação de perspectivas de afeição.
‘’Ah, meu ponto chegou. Vou soltar, piloto, para aí, na moralzinha.’’
Sabia, quem sabe, a partir de agora, que eu deveria ter maior autocontrole em minhas interações diárias.
E arcar com despesas desnecessárias com remédios de oscilação de humor desnecessários de uma condição físico-mental desnecessária por uma sociedade desnecessariamente degradante.
E desnecessária.
Desnecessariamente solipsista.
Lorraine Ramos Assis, 22 anos, estudante de sociologia da Universidade Federal Fluminense (UFF).Fotógrafa, cujos trabalhos podem ser acessados via Instagram (@catarseoculares).Escrevo para tirar uma sociedade da inevitável zona de conforto.