Naquela madrugada de encantamento e lenda, naquela madrugada atravessada de sombras e presságios, Rosa acordou antes de todos. Abriu os olhos ainda nas trevas absolutas do primeiro galo e, só depois de escancará-los no escuro e permanecer um instante com o coração aterrado e os ouvidos à espreita, é que escutou, muito longe, o lamento da primeira sereia. Talvez porque, ao longo dos meses que antecederam o prodígio, ela tivesse se habituado a aguçar os olhos e ouvidos e perscrutar o coração em busca de vozes e sinais. Porque, desde os primeiros tremores da natureza, foi sempre ela a única a perceber que eram avisos:
“Começou aqui em casa. Pus o leite para ferver, lembro muito bem, não tinha dormido quase aquela noite, as janelas estremecendo, sacudidas por um vento ruim, e me distraí varrendo o quarto. Quando voltei para a cozinha, corri direto ao fogão, vi da porta que o leite já ia derramando, o balão estufado e branco transbordando da panela. Mas logo percebi que não derramava, alvo que nem camélia, a pele cada vez mais fina e esticada, em vez de branco era assim quase transparente, por pouco não se desprendia em direção ao forro. E quando, num susto, arredei a leiteira da chapa, ele afundou tão depressa, as pétalas de magnólia murcha mergulharam, macias, e uma gota grande respingou no seio esquerdo, é essa marca de queimadura e aviso que tenho até hoje. Em cima do coração.
Nessa mesma semana, começaram a aparecer as formigas. Nas primeiras horas eram poucas, achei uma na minha cama, outras em cima da mesa, rondando o açucareiro. Logo eram fileiras engrossando, jorravam de todas as frestas da casa, centenas de milhares de formigas mansas. Também começou aqui, mas em seguida espalharam-se pelo povoado. Apareciam nos jardins e quintais, não tocavam em nada, em planta nem bicho, algumas subiam num voo cego e tonto, voo pesado de bicho da terra, sem vocação de asa, já reparou que formiga voa diferente de pássaro e borboleta? Morcego também, parece que ele guarda no ouvido o guincho do tempo em que foi rato. Por isso voa espantado. No terceiro dia, a doença da terra se alastrou ainda mais. E cada fresta, cada fenda, cada buraco, por toda a vila, regurgitava golfadas negras de formigas. Até que não houve pedaço de chão ou parede que não estivesse coberto delas. Tentaram veneno, tentaram querosene e fogo, só serviu para matar os ratos e cachorros da vizinhança, as formigas aumentando sempre. E então resolvemos esperar.
A terra passou sete dias vomitando insetos e, então, na tardinha do último dia, fui ao quintal procurar uma abóbora e elas tinham desaparecido. E pelas mesmas fendas e frestas começou a soprar o Terral insistente que crestou o capim, levantou rodamoinhos de pó na estrada, chamuscou as árvores e deixou o mar transformado numa chapa de aço polido onde se refletia, duro, o branco das nuvens mormacentas. A lagoa, ao contrário, encrespou-se toda verde, e subia dela o bafio de enxofre do lodo revolvido.”
Quando começou a rondar o sudoeste, cheirando a tempestade salobra, Rosa correu ao quintal. E enquanto recolhia a roupa, olhou para os lados do mar. O vento soprava agora do fundo dos seus abismos gelados, levantava as ondas em verde e branco, espumando. Só no horizonte, uma faixa clara ainda iluminava uns restos de dia. Para cima, os rolos de nuvens que vinham empurrando o vento e rebocando a noite já se espalhavam numa frente que escurecia o céu. Nesse momento estalou o raio, Rosa persignou-se, chamou Santa Bárbara e sentiu no ombro direito a primeira gota de chuva. Soprou outra rajada de vento e ela ouviu ao longe a algazarra dos homens recolhendo as redes e fugindo para casa. E o último grito de pássaro rasgou os ares.
Choveu seis meses. E o mar fervilhou de peixes. Os homens não se aventuravam a sair de barco com medo de perder o rumo no meio dos aguaceiros e cortinas de névoa, ou estilhaçar os cascos de encontro às ondas de vidro. Mas iam todos os dias à beira da praia buscar as corvinas e tainhas que a maré deixava pulando na areia. Quando a coleta era pequena, andavam até a restinga e, debaixo da chuva, jogavam as redes e recolhiam à flor das águas os cardumes que entravam barra adentro.
Durante cento e oitenta dias os peixes desfilaram numa procissão serena. A lagoa chegou a ficar tão cheia que cheirava a peixe, e os meninos esbarravam nos lombos frios quando iam se banhar debaixo do temporal. Do canal, transbordavam vez por outra para as ruas e, num dia de enchente, desfilaram como num aquário em frente às vidraças das casas mais baixas. Nos meses seguintes era comum acharem-se conchas, estrelas do mar, restos de sargaços e medusas nos canteiros da praça. E um polvo foi encontrado nadando dentro da cisterna do armazém.
Choveu seis meses e todas as casas mofaram. Não houve teto, parede ou chão que não amanhecesse com desenhos de borboletas e pássaros infiltrados, castelos de bolores esverdeados, teias de filamentos lívidos, serpentes e dragões de óxidos alaranjados que avançavam mordendo os canos. Nas primeiras semanas, as mulheres se esforçaram numa guerra sem quartel, varrendo, esfregando, polindo. Mas no fim do segundo ou terceiro mês, perceberam que não adiantava lutar contra aquela flora que ameaçava invadir-lhes também os ossos e convenceram-se de que já era uma boa fortuna manterem os cabelos livres de algas, a pele lisa e os dedos enxutos. E em cada cozinha ardia um candeeiro durante todo o dia, à volta do qual costuravam e preparavam o alimento, e cuja luz orientava a volta de seus homens.
Na última noite do sexto mês de trevas, Rosa acordou com um silêncio pavoroso alastrado nos ouvidos. Acostumada ao ruído constante das águas caindo, fossem os tamborins da chuva miúda, ou os surdos tambores da chuva grossa, fosse a peneira do chuvisco ou o rolar do temporal, aquele silêncio de faca penetrava-lhe os ouvidos, abria um clarão assombrado, ofuscava como luz cegando um olho habituado à penumbra. Em seguida ouviu longe, como um navio distante, o lamento da primeira sereia. Pedro dormia ao lado, e ela empurrou as cobertas com cuidado e calçou os chinelos. Fora, o ar estava fresco e leve, levantou os olhos devagar, e devagar girou a cabeça e olhou para cima. E nunca vira tantas estrelas juntas, tantas, tantas, a Via Láctea inteira, caminho de leite no céu. Estrelas riscavam o horizonte e caíam no mar, acendendo espumas frias.
– Acorda, Pedro, olha, vem ver o céu, vem, escuta o chamado das buzinas, pode ser um navio perdido, vamos à praia, anda, as outras casas estão se acendendo, olha, todo mundo nas ruas… – Rosa, parou de chover? O que foi? – Tanta estrela, o chão está fresco e cheio de frutas, dá a mão, vamos, não precisa se vestir, olha a Deolinda de camisola, põe uma toalha nos ombros, vem Pedro, vamos pra ponta do farol olhar o mar.
E quando chegaram, já os botos vinham em bandos, gritando e pulando, e atirando-se, cegos, na praia, em busca dos homens. Não havia naufrágio no horizonte, mas as sirenes chamavam, e todo o povoado se reuniu no promontório. E Padre Salustiano benzia as águas agradecendo a provação passada, “…e não faltou peixe para estes homens, e a chuva passou e agora Deus nos mandou de novo um céu cheio de estrelas…”
Mas não se ouvia a voz do Padre, as sereias cantavam mais alto, os botos espadanavam água e espuma e as estrelas caíam em chuveiro. E quando um menino com olhos de sonâmbulo quis se atirar no mar, foi Rosa quem segurou. Logo fez-se um cordão dos homens mais fortes. E, sem que o Padre mandasse, ela se benzeu e caiu de joelhos, depois o menino, e uma a uma as mulheres e crianças, e depois os homens, todos se benzeram e ajoelharam-se rezando.
Não se sabe quantas horas ficaram assim imantados, entre o sortilégio dos ouvidos e o murmúrio das rezas, o fascínio dos botos e o cuidado de conter os encantados. Mas a força de todos segurou cada um. E os que olharam para o alto viram: um Anjo se despenhou do céu, muito branco e leve, cisne e homem de alvas asas, todo plumas. O Padre falou que foi invenção, cuidado com o sacrilégio, mas nós vimos, os botos já se aquietavam e regressavam em fila para o fundo; e as estrelas se apagavam num céu lívido de espanto. O Anjo se despenhou do alto e as águas se tingiram de vermelho. E as sirenes se calaram todas de uma vez.
E então era o Sol no horizonte.
Lucia Fonseca nasceu no Rio de Janeiro, em 1940. Começou a escrever regularmente no início da década de 70, publicando poemas em suplementos literários de alguns jornais.Dentre outros livros, são de sua autoria:“Invenções do silêncio”, pela Livraria José Olympio Editora, “Rede fluvial”, ainda pela José Olympio,“Cadernos de geografia”(Editora Mitavaí), “Confissões de penumbra” (Ed. Rosa dos Tempos/Record), “Cantares”e “O paraíso era antes” (estes dois últimos pela Editora da Palavra). Mantém o site Vestígios.
Claudio Parreira é um destemido. Ele acaba de lançar um livro influenciado pelo realismo fantástico num país que subestima a literatura de Murilo Rubião e de J. J. Veiga. Um livro de contos, gênero que causa arrepios nas grandes editoras, pois não vende, “salvo se você for um Rubem Fonseca ou um Dalton Trevisan”, como, certa vez, desastrosamente declarou a representante de um selo. Contos estes, em grande maioria, brevíssimos, quando acaba de ser laureado com o Pullitzer um calhamaço de 800 páginas.
Claudio Parreira é, de fato, um artesão. Percorridas as primeiras páginas de “Delirium” (Editora Penalux/2014), é possível reconhecer o lapidar das frases, o tempo gasto para o encontro da consonância entre as palavras, a cultura paciente de um bonsai. Tal processo acaba por cobrir seus contos com um verniz poético que suaviza o estranhamento inerente ao terreno do insólito, porém não o destitui da capacidade de impacto. Há uma fronteira muito estreita entre sonho e pesadelo, entre o cotidiano que nos acomoda e a realidade que dele se mimetiza, na qual prevalece a absurdeza. Parreira a conhece bem e prepara a armadilha para o leitor. A linguagem é a isca.
Nessa entrevista, o escritor e jornalista experiente, com colaborações na Revista Bundas, Caros Amigos Online e O Pasquim 21, aceita o convite de transitar por caminhos dentro e fora do universo literário, mas que se relacionam diretamente à sua ficção. Rotina criativa, formato digital, autores contemporâneos, mercado editorial, o papel do leitor; uma estamparia de temas analisados com destreza e segurança, que ratificam o poder de encarar a vida e a arte, mesmo que de viés. “Não consigo imaginar literatura a favor do vento. Sempre escrevi na contramão. Se os meus temores se concretizarem, estou em plena rota de colisão. Sei disso, e sigo. Não aprendi a voltar”. Venham, caminhem junto.
Claudio Parreira / Foto: Arquivo pessoal
DA – “Delirium”, seu recém-lançado volume de contos, tem influência direta do realismo fantástico, cujos expoentes na literatura brasileira são o mineiro Murilo Rubião e o goiano J. J. Veiga. Na condição de leitor, qual a sua relação com esses autores e por que decidiu transitar por esse gênero ao tecer sua ficção?
CLAUDIO PARREIRA – Só fui conhecer Murilo Rubião e J. J. Veiga lá pela metade dos anos 80, depois de ter lido muito Cortázar, Borges e Gabriel Garcia Márquez. Eu simplesmente não sabia que se produzia realismo fantástico no Brasil. Li pouco de Rubião, apenas “O Pirotécnico Zacarias”, mas esse pequeno livro, por uma razão misteriosa – ou seria fantástica? – ainda se faz presente na minha experiência como leitor. Já o Veiga, esse eu li mais. “Os Cavalinhos de Platiplanto” e “A Estranha Máquina Extraviada”, mas pouco perdura na minha memória afetiva. Quanto ao gênero que pratico na minha ficção, creio que, depois de ler tantos autores nacionais e hispano-americanos de literatura fantástica – ou realismo fantástico, que seja -, sem contar um punhado de europeus e norte-americanos, esse acabaria sendo mesmo o caminho natural. “Delirium” nada mais é que o resultado dessa mistura louca e prazerosa, uma maneira de devolver ao mundo dos livros aquilo que os livros trouxeram pra mim.
DA – Curioso mencionar Cortázar e Borges antecedendo Rubião e Veiga na sua escala de leitura, pois essa parece ser uma via de mão única. Aliás, há muitos leitores e autores que ainda desconhecem o quilate literário desse gênero no Brasil, dando conta de que o realismo fantástico cabe unicamente aos hispo-americanos. Por que acha que o gênero é tão subestimado no Brasil? Por que Rubião e Veiga não detêm a mesma exaltação cultivada por autores cujo extrato, por exemplo, provém do regionalismo?
CLAUDIO PARREIRA – Acho que o gênero ainda não atingiu a popularidade que merecia no Brasil, mas creio que isso está mudando; basta ver a quantidade de autores contemporâneos que de certa forma estão resgatando o realismo fantástico e acrescentando ao gênero curiosas misturas e experiências que vêm sendo muito bem recebidas pelo leitor.
Murilo Rubião e J.J. Veiga deixaram uma literatura que causava — e ainda causa, de certa forma — estranhamento. O leitor brasileiro não conseguia se ver refletido nela. Isso, com certeza, impediu que suas obras fossem apreendidas na devida profundidade e intenção. Mas elas ainda estão aí, cada vez mais, no meio do caminho, do nosso caminho. Acredito que o devido reconhecimento é só uma questão de tempo.
DA – Diante das narrativas de “Delirium”, podemos dizer que “seu caminho” é uma vertente que Italo Calvino, organizador da coletânea “Contos fantásticos do século XIX”, classificou de “fantástico cotidiano”. Perceber por trás da aparência corriqueira um outro mundo, colher do processo criativo o poder de conformar figuras. Empenho semelhante é atribuído à busca por reificar sentimentos, materializar sentidos que deveriam povoar unicamente o plano das abstrações. E isso, penso, só é possível mediante uma forma muito sensível e diferente de observar o que está a nossa volta. Essa percepção, no seu caso, é o mais próximo que se pode chamar de inspiração? Como um jornalista, que trabalha com fatos, quebra essa fronteira e transita por esse universo?
CLAUDIO PARREIRA – Não gosto muito da palavra inspiração. Isso me parece algo bem próximo do clichê do escritor que sofre, sofre e finalmente se redime com um presente da Musa. Eu trabalho com ideias e as transformo em texto, ficção. É um processo bem objetivo. Acredito no fazer literário, na disciplina. Talvez aí esteja a experiência do jornalismo: objetividade, prazos, metas a cumprir. Sou bem isso. A grande diferença é que os fatos com os quais trabalho são de natureza poética.
DA – Por falar em poesia, um dos contos mais singelos e com um verniz retinto de lirismo é o brevíssimo ‘A Flor’. Perceber todas as nuances que o compõem é justamente trazer à tona essa perícia, essa habilidade incansável e quase cirúrgica que significa o exercício da escrita. Como isso funciona para você? Nem sempre o texto mais curto é o mais fácil de se escrever?
CLAUDIO PARREIRA – Como muitos outros autores, comecei escrevendo poemas. Ou algo que eu achava ser isso. Tive a sorte de conhecer Leminski e, por intermédio dele, os haicais de Matsuó Bashô. Achei que aquela forma poética era tudo o que eu queria: dar o meu recado da maneira mais breve possível. E tentei, mas logo percebi que o gênero poesia não era bem a minha praia. Já a forma do poema japonês, a sua concisão, isso ficou presente em mim, tanto que passei a aplicar o que aprendi no microconto — numa época anterior à internet, que acabou por popularizar o gênero no Brasil. Praticando esse formato, foi que aprendi a força de cada palavra, o seu peso, o arranjo harmônico do qual surgem pequenos contos como “A Flor”. E sim, concordo: o texto curto não é o mais fácil de se escrever. Requer, no mínimo, paciência. E um bom conhecimento dos elementos que o compõem.
DA – Esse olhar, que é íntimo e mundano ao mesmo tempo, de certa forma evoca o embate entre a crônica e o conto. Alguns textos de “Delirium” parecem se localizar exatamente nessa fronteira, revelando-se para o leitor uma sala de multiformes espelhos, algo passível de ser concreto e de ser subjetivo. Essa possibilidade de abalar o leitor é uma busca na sua literatura? O quanto a preocupação com aqueles que lerão o seu livro influencia seu processo criativo?
CLAUDIO PARREIRA – Sim, sempre. É ótimo quando um texto causa impacto em quem lê. Significa que a intenção dele alcançou o seu objetivo, que é encantar, ou até mesmo indignar o leitor. Mas a preocupação com quem lê, quando escrevo, só vem depois. No princípio do conto é tudo nublado, uma estrada escorregadia, bifurcada. Esse período de névoa dura horas, dias até. Quando finalmente assumo o controle do conto, aí sim entra a figura do leitor: tudo é feito para ele e por ele. Mesmo que seja uma elaborada armadilha.
DA – O leitor brasileiro é mal formado, mal informado ou mal influenciado?
CLAUDIO PARREIRA – Pergunta complicada essa. E sou levado a crer que é um pouco de tudo isso. O bom é que estatísticas provam que o número de leitores está crescendo. Mas qual tipo de leitores? Creio que o mal influenciado é o que mais se destaca nessa história: simplesmente consome aquilo que a mídia e o mercado lhes enfia goela abaixo. E aí voltamos aos dois primeiros, que são mal informados porque foram mal formados. Mas isso é uma generalização, e toda generalização é perigosa. De qualquer maneira, já podemos falar de leitor brasileiro com mais certezas do que há dez, vinte anos. Já é um progresso.
DA – Digo isso por conta da percepção de que, apesar de termos hoje um número maior de novos autores, não contamos com leitores suficientes para absorver toda essa produção. O que me parece é que são os autores que acabam lendo os autores, e esse rejuvenescimento da literatura contemporânea brasileira passa a ser confinado a um grupo mínimo, algo com uma enxurrada que desemboca num funil. Qual a análise que faz dessa observação? Há livros sendo escritos para nenhum leitor?
CLAUDIO PARREIRA – Eu acredito que temos leitores suficientes, sim, para absorver essa nova produção. Mas tudo isso é um processo, um trabalho que ainda não alcançou o leitor. Como dito na pergunta anterior, diversos são os tipos de leitores. O quanto essa nova produção chega até eles, de qual maneira chega? Esse fenômeno, se é que pode ser chamado assim, de autores lendo autores, já é um fato um tanto antigo que continua aí. Errado? Acho que não, uma vez que se pretende que todo autor seja também ele um leitor. Mas é insuficiente. O que falta mesmo, e acho que esse é o grande nó que deve ser desfeito, é a distribuição dessa nova produção. Como ela tem sido feita, por quem, quais são as estratégias? As redes sociais têm facilitado muito esse trabalho, eu mesmo coloco meus livros nas mãos dos leitores através delas – mas isso, só isso, não é o suficiente. Não basta publicar o livro, é preciso fazê-lo circular, chegar às mãos dos verdadeiros leitores e não apenas dos nossos pares. Com raríssimas exceções, somos autores pregando no deserto – escrevendo para ninguém, como você diz. É muito mais fácil publicar hoje do que tempos atrás, mas e daí? Via de regra, as editoras colocam o material no mercado e deixam os autores entregues à própria sorte. Acho que também é papel das editoras divulgar e investir nos seus autores, torná-los visíveis nesse mercado cada vez mais competitivo. Uma parceria mais abrangente. Caso contrário, os livros continuarão sendo escritos para nenhum leitor – e assim perdemos todos nós, hoje e no futuro.
Claudio Parreira / Foto: Mariana Parreira
DA – Esse é um ponto interessante, pois hoje temos uma geração perfeitamente adaptada ao formato digital. Leitores de blogs, e-books, cuja extensão da biblioteca é medida pela capacidade da memória interna do dispositivo eletrônico. Você, embora da geração dos livros físicos, relaciona-se bem com esse universo, disponibilizando seus livros em arquivos digitais e divulgando-os nas redes sociais. De que forma essas mídias têm sido producentes para sua literatura? Lançar livros em formato digital, no Brasil, é uma opção ou a falta dela?
CLAUDIO PARREIRA – Sempre me relacionei bem com os meios de divulgação digital. Uma parte significativa do que escrevo e já escrevi passou por blogs, sites, redes sociais e afins. As redes sociais, por exemplo, são ferramentas que considero fundamentais para a divulgação do que produzo — sejam e-books ou livros físicos. Não tenho nenhum tipo de problema com essas plataformas. Lançar livros digitais é uma opção, sim, no meu entender. Gosto do formato, porque ampliam a visibilidade e não me obrigam a fechar necessariamente um volume de contos ou um romance: costumo lançar contos avulsos, volumes com dois ou mais contos, trechos de romances inacabados. E livros digitais trazem vantagens que eu considero muito importantes: relatórios detalhados nos quais você sabe quanto vendeu, o destino das vendas e o melhor: a remuneração é clara e certa!
DA – Falando em remuneração, o que é mais difícil ser no Brasil: jornalista ou escritor?
CLAUDIO PARREIRA – Os dois. Mas os jornalistas, pelo menos, conseguem encontrar trabalho fixo e, na falta disso, os frilas livram um pouco a cara. Conheço muitos que vivem exclusivamente do seu trabalho. Já escritores, eu não conheço nenhum.
DA – O que acaba por nos levar a uma questão que, a um só tempo, tem inúmeras respostas e nenhuma: por que seguir escrevendo? Cortázar afirmou que escrevia para suprimir seus medos. E você, o que ainda lhe motiva?
CLAUDIO PARREIRA – Costumo dizer que escrever é um ofício de trevas. Sou um cego em busca de luz.
DA – Essa busca, inclusive, é reprisada pelas vozes que comandam alguns dos contos de “Delirium”; personagens que tentam lançar luz sobre um dilema circundado por uma desclaridade multifária. Em ‘A Terceira’, em que um homem inventa mulheres, essa escuridão é o próprio processo de criação, uma metáfora para a incapacidade de transferir integralmente a ideia para o papel. Fale um pouco da tarefa de composição da antologia, da escolha dos contos.
CLAUDIO PARREIRA – “Delirium” é mesmo o que se pode chamar de coletânea de contos, pinçados aqui e ali, cobrindo diversas épocas e formas de escrever. Um inventário, digamos assim, da minha produção recente e mais antiga. “Z”, o conto que abre o livro, por exemplo, é o mais antigo de todos eles: foi escrito em 1989, durante uma dolorosa oficina de texto que fiz com João Silvério Trevisan. Quanto à composição da coletânea, quis que ela contivesse contos escritos num registro diferente dos quais estamos acostumados a ver e ler por aí. Fiz questão mesmo do estranhamento — mas só como superfície. O que me interessava na composição de “Delirium” era a linguagem, a forma de fazer, a maneira como a maioria dos textos foi escrita. Não era a minha intenção juntar apenas continhos bem escritos. Longe disso. Reuni, portanto, uns 40 contos tortos, dos quais escolhi os 29 que integram o volume. Essa tem sido a minha pegada desde sempre. Deixo a literatura bonitinha e bem comportada para os outros.
DA – O estranhamento, que você cita, é uma das nuances mais retintas do gênero fantástico, cujo poder de criar uma nova realidade, a partir da realidade que povoamos, foi a saída encontrada por muitos escritores para canalizar suas críticas. No ápice do movimento, nas décadas de 60 e 70, este tipo de literatura bateu duramente em governos ditatoriais, valendo-se de seus aspectos metafóricos. Hoje a que propósito serve a literatura fantástica? Contra quem ou o que novos escritores podem utilizá-la?
CLAUDIO PARREIRA – Eis aqui uma pergunta curiosa: pra que serve a literatura fantástica, hoje, já que o cotidiano social e político nos surpreende cada vez mais com fatos e comportamentos gritantemente absurdos? Digo que ela serve para gritar e abrir os nossos olhos e sentidos para outra realidade que não esta, insuportável, à qual estamos submetidos. A literatura fantástica continua servindo para dizer Não! E os novos escritores devem utilizar o gênero contra tudo o que ameaçar esse direito.
DA – Diante dessa observação, o que ameaça sua literatura?
CLAUDIO PARREIRA – Não gosto desses tempos que estamos vivendo, e sinto que paira no ar uma ameaça muito perigosa, uma ameaça de silêncio, de pensamento único, um retrocesso em todos os sentidos, diante dos quais os avanços tecnológicos nada significam. Não consigo imaginar literatura a favor do vento. Sempre escrevi na contramão. Se os meus temores se concretizarem, estou em plena rota de colisão. Sei disso, e sigo. Não aprendi a voltar.
DA – E para onde seguirá sua literatura depois de “Delirium”? Há caminhos que apontam para narrativas de longo fôlego?
CLAUDIO PARREIRA – Sim, venho desenvolvendo um romance já há algum tempo. Mais uma vez, não é apenas literatura fantástica: é um grande exercício com diversas vozes, vários focos narrativos, camadas sobre camadas que buscam um resultado surpreendente. Isso, pelo menos, é o que espero.
DA – Na literatura de hoje, ainda existe a possibilidade de resultados surpreendentes?
CLAUDIO PARREIRA – Sim. Acho que é por isso, em busca disso, que escrevemos todos nós.
Sérgio Tavares é jornalista e escritor, autor de “Cavala” (Record, 2010), vencedor do Prêmio Sesc Nacional de Literatura. Tem textos publicados em jornais, revistas e sites literários nacionais e internacionais. “Queda da própria altura” (Confraria do Vento, 2012), sua obra mais recente, foi finalista do 2º Prêmio Brasília de Literatura.
Para Pedro, que das baforadas de seu cachimbo tantas vezes aqueceu minha enregelada existência
Deixei-me deitar na irregular sarjeta dos muitos pés. Deleitava-me dissipar vagarosamente no delicado ar citadino. Punha-me a devanear sobre os incontáveis dedos que me pus a passar. Incontáveis delgados e cilíndricos enleados pelas mãos de tantos e tantos formatos. Tessituras, marcas e cicatrizes. Eu que estive em tantos e tão diversos lugares, a auscultar o mundo. A provar buquês de timbres tão variegados na boca impregnados. Caminhei nas mãos da jovem. Soerguia-me como troféu pueril. Empertigava-se toda. Esticava as costas. Balançava os cabelos e punha-se a desenhar arabescos no espaço tendo-me por pincel — Não sabia que você fumava, Luciana … Não? Comecei faz pouco tempo, gosto do cheiro desde criança, mas não tinha idade, e tem meus pais também, sabe como é… Em seus lábios punha-me fazendo bico. Tragava-me enojada pelo gosto. Soltava-me pelas narinas maravilhada com as formas que a parte de mim transubstanciada em seus pulmões tomava. Olhava ao redor na expectativa de me apresentar para um amigo, ou despertar a curiosidade de um andarilho qualquer. Evolava teto acima em cinzas graduados, densos e assimétricos. Ali ficava eu a pairar nas lembranças. A preencher os sulcos da face envelhecida. Companheiro inestimável nas noites de solidão. Dedos experientes a me afagar em seus secos lábios. Era-me também parte de si. Um dedo. Dedo de se fumar — Onde minha velha há de estar? Foi e me deixou aqui. Penso que deveria era ter dado um sopapo naquele padreco: até que a morte os separe o quê, deixa disso. Não está essa minha velha chata a ralhar em todos os cômodos mesmo depois de morta? Seu cheiro não está por toda parte? Ora essa, há mais dela aqui estando morta do que eu aqui, vivo estando. Pousado ficava no cinzeiro outrora de ambos. Ali acolhido crispava. Chamuscava no algodão. Dava-lhe relevo. Argamassa em tela, levemente ia passando. Marcando. Escurecendo — Não mãe, por favor, foi sem querer. Para mãe, para, por favor, para, não faz isso pelo amor de deus, dói muito. E lá ia eu vincando, marcando, abrindo caminho em braço alheio. Creio que nesses lábios não tocarei. Não hei de ser tragado, a não ser em seu corpo.
***
Campinas
Beatriz: viva por uma cidade inteira
Acordou cedo sem nem bem ter dormido. Prolongava a noite no arroxeado de suas pálpebras carregadas. Lavou o rosto com a pressa de quem pouco tem a fazer e por isso adianta-se à espera do compromisso que não vem. Ouvia ele na escada os passos da novidade. Parecia poder tocá-la por detrás da porta. Não era nada. Ele só morava em Campinas. Lugar difícil. Metrópole que guarda nostalgia do interior solapado sob o acre cheiro de urina da praça da matriz. Ainda pior. Cidade rápida quanto mais parada é. Desprovida de estrelas para se observar. Campina que se suicidou em asfalto escaldante. Escapamento sufocante. Íris lacrimejante da manhã ainda a desabrochar. Lépido, jogou o casaco em seu corpo esguio. Nem bem escovara os dentes. Sabia que tinha todo tempo. Entretanto, o fluxo das ruas atulhadas de gente desprovida de gente falava-lhe o contrário. Seguiu os passos de um rapaz. Entrou inopinadamente no velório. Não conhecia o defunto. Nem aquelas pessoas iguais, todas de preto por respeito. Curioso, olhou de esguelha. Despreocupadamente, observou o produto daquela embalagem de madeira. Um velho. Acho que já passado do prazo de validade. Bigodes curtos. Acinzentados tal qual a rala cabeleira. Fios espalhados na morena cabeça. Nariz mal entalhado. Lasca de toco cortado sem cuidado. Grossas mãos inchadas da enxada soada em grama seca. Queria fugir aquele terno do peito do homem. Creio que se fosse dado como à Sansão um último fôlego ao senhor imóvel, teria ele rasgado aquela pompa ao meio. Colocado para correr aquelas lombrigas que jamais tomaram leite de vaca. Só da caixa. Todos esses parentes estranhos. Próximos distantes. Ecos de seu sangue repisado. Teria ele chamado as galinhas. Porcos. Cavalos. Vacas. Insetos variegados. Tão mais gente que essa gente. Desinteressados. Tristes por não mais compartilharem o silêncio desse matuto. Nada de herança. Fazenda. Divisão de bens enquanto o presunto ainda nem endureceu. Queimaria as rosas do caixão com seu cigarro de palha. Enchê-lo-ia de capim molhado de sereno. Sem ter o que fazer, seguiu Azazel no tédio alarmante da eternidade sem lembrança. Pensava ele: — Mataram a morte.
Caio Russo estuda História na Faculdade de Ciências e Letras – UNESP – Campus de Assis. Atualmente pesquisa História da Arte e Estética, com enfoque em Nova Música do Século XX e o conceito de Feio na Teoria Estética de Theodor W. Adorno. Dedica-se à prosa, com predileção pelo conto. Escafandrista de nascença, põe-se a relatar sobre os microscópicos animais, objetos e resíduos, que decantam do fundo do lago, a pairar no vidro do capacete um instante antes de nunca mais serem vistos nas turvas águas dos dias. Escreve para não afogar-se em si mesmo.
Quer saber? Eu quero mesmo é um tigre pra me comer. Valente, potente, crescente, varando a noite da cidade com seu brilho de tigreperigoso, feroz e desabrido, mas também mavioso.
Cheguei a vê-lo sábado, no parque, pela manhã. Coincidentemente, ou nem tanto assim, nos encontramos lá, eu e o tigre. Abobalhados que ficamos, mal conversamos. Não pude decifrar com as sutilezas necessárias os seus rugidos e balbucios. Acho até fui grossa. Raiva de ele ter dado pra trás, recuado, desistido.
Por isso agora quero outro, outro tigre, mais valente, mais feroz, mais impetuoso. Mais estrondoso e mais doce. De pelo estonteante, pra me lanhar o rosto e os calcanhares. Caninos fortes, incisivos, pra me deixar marcada da posse.
De papel? Sim, pode ser um tigre de papel, não há restrições quanto a isso. O fundamental é que desempenhe bem seu papel. E que faça surgir flores e bichos onde (aqui dentro) só há ausência. Podem ser bichos peçonhentos, venenosos pra valer, não importa. Mas que sejam bichos vivos, esvoaçantes, com movimentos leves e rápidos, intrépidos. É isso que eu quero.
Um tigre que plante em mim a vida que não tenho mais. Que faça a seiva do sonho me preencher de energia nova, e que eu abandone de vez o melodioso chamado da sacada doce, a rua profunda lá embaixo me acenando, oferecida.
Um tigre que não seja um tigre de verdade. Seja só o desejo do tigre, o enigma do tigre, a imagem do tigre. Signo oco mas fecundo, pleno. Carregado por dois ou até três homens mascarados, atores, que o façam se movimentar pelas ruas e avenidas. Eu quero é isso mesmo. Atores. Que finjam com emoção pungente e suficiente para me envolver, me enlaçar, me aprisionar e assim quem sabe me libertar do feitiço do tigre primeiro, menino do parque, com sua juba que mais parece de leão e que cravou fundo em mim suas garras, rasgando-me o peito, deflorando-me a carne, deformando meus olhos, inchados e atordoados do espanto de tanto chorar.
Tigre ator, ainda por cima. Por isso quero outro. Não igual, mas mais avassalador, mais ator, e que não me leve para os abismos e penhascos da alma dolorida nem da natureza ressequida, e sim projete em mim o brilho luminoso dos painéis e dos carrosséis meninos, onde eu possa sentar nos cavalinhos e girar sob o olhar de sua proteção. E vez em quando um elefante branco…
Tigre ator, ordeiro, atroz. Desestabilizador das certezas que a angústia obsessiva da parede de pedra procurava evitar fossem vistas. O sintoma: toctoctoc. Mas com você não há toc, só que também não há mais toque. Eu quis te beijar, falei: Posso? E você: Ai, parece uma criança pedindo posso, mas não, não pode não. Por quê? Não quero mais, somos amigos a partir de agora, nada mais, mas eu gosto de você, tigresa, gosto sim. Não me chame assim que é vulgar. Ué, você não gosta da música do velho moço baiano? Gosto, mas ele estava apaixonado por ela, e aqui, se pode haver um paralelo, é o inverso.
Quero, quero sim, um tigre de bocarra. Nada de doçura, nem fragilidade. Quero a posse literalmente animal, que não quer saber de mais nada a não ser do desejo dos corpos, desejo das almas-bocas que se procuram e se querem unidas, sem saber do amanhã, mas inteiras no hoje da natureza como ela é.
Cíclica.
E por isso, meu tigre, fique em paz que amanhã tudo recomeça, ou depois de amanhã. E você virá, eu irei, e nós iremos. E vez em quando um elefante branco…
***
Comilança
A Marcelino Freire, que me fez olhar melhor para o título do livro de Francine Prose (Para ler como um escritor), o que acabou originando esta brincadeira, e a Francine Prose, autora desta obra deliciosa.
Para ler, como um escritor. Ou uma escritora.
Às vezes dois ou três ao mesmo tempo. Mas um de cada vez costuma ser mais saborido saboroso gostoso demais.
De lambedela em lambedela, me lambujo, cravo os dentes. Mordo pedaço por pedaço, degluto, engulo ele inteiro. Pasto e repasto.
Pelos, cabelos, axilas, umbigo e cotovelos. Mas também pés, costas, nuca, espáduas, olhos e nádegas. Nariz, coxas, batata da perna, canela.
Neurônios em movimento, remastigo cada uma de suas sinapses sentimentos, adentro suave sua mente e nela me faço hóspede por algumas horas, dias, anos. Às vezes, quando a comilança é boa pra valer, por uma vida inteira.
Contamino-me por ele, deixo que me coma também, de dentro pra fora e de fora pra dentro, como quiser, que essa inundação fertiliza minhas águas, que rebentam abençoadas, venturosas, integradas e sempre mais esperançosas de haver guardado em meu útero-flor uma sementinha, pequena que seja, dos olhos do escritor. De sua mirada para o mundo e para as palavras, seu namoro com o mundo que se faz pelas palavras, estas suas palavras que são o seu meu nosso mundo.
E saio satisfeita, plena, devassa, dormida, encontrada, recriada, desfigurada, para o próximo banquete amor.
Marina Ruivo é doutora em Letras pela USP, professora da Unimonte (Santos/SP) e colaboradora freelancer de várias editoras. Escreve ficção desde a adolescência, mas por muitos anos tentou se convencer de que deveria ficar somente no terreno da crítica. Como o desejo da escrita não morria, resolveu voltar à prática e vem participando de diversas oficinas de criação literária. Seu conto “Riozinho” fará parte do número 6 da Revista Sexus. É mãe do Pedro, um menino de 5 anos que ainda não sabe ler, mas é amante de histórias e livros.
O homem parado no quintal veste roupas sóbrias. O chapéu largo, a capa de chuva e os sapatos impermeáveis protegem-no do frio e da chuva. Ele mantém-se imobilizado durante todo o tempo. Uma vez ou outra é possível percebê-lo fazendo anotações. Escreve compenetradamente. O bloco e a caneta, escondidos sob a capa de chuva, são retirados com rapidez. E, ali, é registrada alguma informação preciosa. O semblante sério não o deixa mentir quanto a isso, embora não se possa vê-lo totalmente. Os olhos, sob a aba do chapéu, faíscam durante a noite. Vasculham-na inutilmente, em busca de não se sabe qual segredo. Frustram-se por não encontrá-lo. Não desanimam, repetem insistentemente a operação. Quando o dia amanhece, ele, o homem, está lá. De pé. Permitindo-se um alongamento discreto dos braços e das pernas. As cãibras, as malditas cãibras. A família acostumou-se à presença dele, embora, no início, se sentisse incomodada com o relatório das atividades de cada membro da casa.
Quando completava um dos blocos, encerrava-o em um envelope pardo e o remetia para um destinatário desconhecido. A família, receosa por sua segurança. A atitude quebrava o protocolo da imobilidade – o único conhecido daquele homem. E, portanto, a salvaguarda de seu caráter. O deslocamento até a agência dos correios representava alta traição. Passaram a ignorá-lo. Não lhe serviam água ou o almoço. Nenhuma gentileza a mais foi praticada. Sempre que era visto com o bloco de anotações passara a ser ridicularizado. Os membros da família saíam e conversavam todos ao mesmo tempo. Tornava-se impossível o registro do que quer que fosse. O homem parado no quintal redobrava sua concentração. Percebia-se seu esforço para a realização de seu trabalho, mas era inútil. Acentuaram a confusão ainda mais: da arrumação dos cabelos às roupas. Vestiam-se de modo extravagante ou saíam nus para as atividades fora do lar. A situação parecia sair do controle. Ele desesperava-se. Desfazia-se.
A traição do estatuto da imobilidade e da vigilância contínua atentou contra a reputação do homem parado no quintal. A instituição que o havia incumbido da tarefa, indispôs-se. Ele não tinha permissão para deixar o posto. Fariam chegar a ele todo material necessário para o cumprimento de sua tarefa. Retirariam a documentação produzida. Porém, a precipitação atentou contra a credibilidade junto à família. Ele deveria passar a impressão de que estava ali para protegê-los. E não espioná-los. E se os espionava, era por motivo de segurança. A alta cúpula admitiu despedi-lo. A cogitação de dispensa o abalara. Outro protocolo foi quebrado. O homem mais velho da família entrou em contato com a organização que colocara o homem parado em seu quintal para a resolução do impasse: sugeriu que o transferissem. E outro viria para o seu lugar. A agência não apenas negou a sugestão, mas reforçou uma decisão tomada de última hora em mantê-lo no quintal. Tudo isso foi comunicado num exíguo bilhete, que em suas linhas finais dizia: Espero que aceitem e entendam. Seguido da assinatura com as misteriosas iniciais J.K.
Mariel Reis é contista, ensaísta e editor. Publicará, pela editora Oitava Rima, no 1º semestre de 2015, o livro Bordel de Bolso (narrativas).
Desta vez chego sem voltas. Acabo de cortar o parágrafo que abria este conto, a introdução considerável que escrevi para evocar prima Jaci e nossos jogos-meninos. Explicar quem é Jaci, como fomos parar na mesma escola e na mesma casa depois da morte da avó, como isso e como aquilo, até que o miolo das coisas se perca, se esfarele em minhas mãos, desta vez não.
Digo apenas que eu e Jaci, quando crianças, gostávamos muito de cantar, e como perturbávamos demais os semelhantes e dessemelhantes com esse costume que nos arejava a alma, desenvolvemos uma habilidade notável, de modo que nos passeios com a turma do colégio, no ônibus ou metrô, conseguíamos às vezes cantar uma estrofe inteira de boca fechada ou quase, os lábios se movendo de forma imperceptível, o suficiente para a passagem do som, que como um gato se alongando entre grades flanava pelo coletivo, encafifando uns e outros. No final da estrofe, a coisa começava a pegar. A turma se olhava com ares de quem ouviu o galo cantar, sem saber onde. Não haveria, para nós, aplauso mais lisonjeiro. Com a corda toda, passávamos para a segunda estrofe, abusávamos do volume e da sorte, até que o professor se levantava, olhos e dedo em riste, buscando o criminoso. Acabávamos delatados, não pelos colegas, mas por nosso ar de bem cuidada inocência.
Já quando tomávamos o metrô sozinhos, a tática era outra. Buscávamos bancos separados e, com um rápido olhar, decidíamos a música.
Começávamos baixinho, com o trem ainda parado, mas já de portas fechadas. Depois ele partia, ganhava velocidade e nós volume, num crescente, fortíssimo, fortissíssimo, até o máximo, além do máximo. Daí chegávamos à próxima estação, ou ela que chegava a nós, de vez em quando era assim que acontecia.
Com o trem de portas abertas e nós de goela fechada, esperávamos o próximo ato. Nesse momento, que precedia a continuação do jogo, aprimorávamos nossa arte, exercitando em bocca-chiusa a próxima melodia, para que a voz, liberta, fosse de novo o gato que vencendo as grades ganhasse a rua e uma boa farra. Em palavras outras, para que nossa música tocasse o passageiro ao lado que, se portador de bom ouvido, daria um sinal de vida, ou seja, nos olharia de relance, com aquela dissimulação – que nunca enganou ninguém – travestida de bom-tom.
Quando isso acontecia, quando o passageiro ao lado nos olhava de lado, era uma alegria só, porque a ponte estava armada e isso nos franqueava outro estágio do jogo, muito mais arriscado, um pulo no vazio, o contato. Para confirmar a legitimidade do dom musical, ou ao menos auditivo, do passageiro, repetíamos o primeiro estágio… O metrô parava e nós também; o metrô começava a andar e nós começávamos a cantar; o metrô acelerava e nós também; o metrô gritava nos trilhos e nós gritávamos como loucos; e com o coração aos saltos, em contraponto com o ar impassível e a boca-de-siri, recebíamos a resposta: se o passageiro nos olhasse de repente, na nota mais aguda e com indisfarçável estranheza, a confirmação ali estava. O homem tinha ouvidos mesmo. Se não, se abrisse um jornal ou mexesse na carteira ou apenas consultasse o relógio, indicando uma disposição de indiferença… final de jogo.
A dificuldade seguinte resumia-se em controlar o impulso de chutar a canela do pobre idiota, ou gritar um palavrão. Era um parceiro que não valia a pena. E quase não havia nada que nos deprimisse mais.
Agora: se estivéssemos com sorte, se o parceiro chegasse junto – como costumávamos dizer –, mostrando-se mais curioso ainda, aí sim, o jogo decolava, coisa de veteranos, não de principiantes.
Dividíamos esse estágio em sete tempos: 1, entrega-se o intrigado. 2, posicionam-se os palhaços. 3, vamos ver essa esperteza. 4, é mais que certo que o tipo não tira os olhos de nós. 5, que vai fingir-se atento ao geral. 6, menos ao que realmente lhe interessa. 7, porque agora tudo pode acontecer.
Desfechos memoráveis não faltam para coroar os jogos daquele tempo, desde um maestro que nos levou para um coral formado por ex-delinquentes e bancado pelas bibliotecas municipais, com direito a uma bolsa que era quase o que meu pai ganhava nos Correios, até uma encrenca dos diabos, uma dona dizendo que era professora de violino e nós encantados, porque eu sempre quis aprender violino, pinicar aquelas cordas, empunhar aquele arco, seria minha chance, eu pensava, a anos-luz da realidade, mas a mulher só queria nos seduzir, e não estou falando daquela trepadinha rápida, isso aí geralmente me agradava, Jaci não, fazia um drama danado, já eu era tranquilo, a sedução que me arrepiou foi o negócio dos escoteiros, a dona era chefe-não-sei-do-quê, quando dei por mim havia me empulhado um hino pavoroso; com a desculpa das aulas grátis arrancou-me a promessa de que no dia seguinte, às cinco da manhã, eu estaria na praça para hastear a bandeira e prestar juramento, mas acordei a tempo. Já o mesmo não se deu com Jaci, que acabou embarcando na estória a sério, e isso durou meses, com severo prejuízo de nossos jogos a dois, todos eles.
Depois, não vi mais a prima Jaci. É verdade que nos encontrávamos naquelas reuniões de família, todo mundo sabe que quase não há como escapar… Nos encontrávamos, mas não voltamos a nos olhar com aquilo que, para mim, era a mais-valia de nossa infância desperdiçada por tanta aporrinhação da ala séria da família que agora cobrava, de nós, a continuação da novela: tínhamos crescido e pretendíamos o quê? Sempre achei difícil, senão impossível, responder a isso. Eles, não. Pareciam ter certeza do que queriam: que atormentássemos os pequenos com a mesma gana que tinham nos dedicado. Recusei-me e, ao que parece, Jaci também. Nunca nos casamos. E se tivemos filhos foi por aí, fora dos sagrados laços com que as famílias sufocam seus bebês, manufatura de imbecis em franca progressão. Não há como escapar, dizem eles a qualquer sinal de rebeldia, por mais tímido que seja, até que a incansável repetição estabeleça de vez a desesperança, levando a crer que não há porquê. E perder o porquê (assim falou Jaci, num porre de Páscoa) é perder o eixo. Eu não seria tão veemente. Não fui.
Agora, depois de todos esses anos e eternidades, a caminho de um fim que me assusta quase tanto quanto me seduz, um dia ou outro, quando acordo de bom humor, eventualmente esquecido do desconforto e das dores, arrisco uma viagem de metrô e volto a jogar… É verdade que já não sou meticuloso na escolha do parceiro, que me sento em qualquer banco (muitas vezes quase me sentam, porque todo mundo sabe o quanto é insultuoso um velho recusar tamanha gentileza), enfim, não sou mais aquele veterano. Que falta me faz Jaci, alguém a quem piscar um olho. É verdade tudo isso. Mas quem é rei não perde o cetro, o sestro da majestade, ainda sei cantar de peito aberto e boca fechada.
O problema não é esse. O problema é que ninguém liga para um velho cantando no metrô. Nesses tempos de obsolescência programada, ou já em qualquer tempo, não há viagem que sempre dure nem loucura que nunca se acabe.
Yara Camillo nasceu em São Paulo. Formada em Comunicações – Cinema – pela Fundação Armando Álvares Penteado, FAAP. É autora de Volições (Massao Ohno Editor, 2007) e Hiatos (RG-Editores, 2004). Em sua trajetória, fez trabalhos para Teatro, traduções, participou de antologias e sites de Literatura, coordenou Oficinas de Teatro e Oficinas Literárias, além de ter vários contos premiados. Contato: yaracamillo@gmail.com
A cadência do tempo corrói e aumenta a dor de uma criatura mesmo quando a esvazia. E não adianta o coração bater mais forte, o sangue se derramar, o comprimido mergulhar em um organismo. Quanto mais lenta, mais forte ela se torna. É o processo. É a mecânica. O trucidamento é sua matriz. O útero que a expulsa em milhões de pedaços, em partículas de angústia e de verdades sem amor. E quando tudo isso acontece, quando alguém é escolhido, não há cor que permaneça e não há vida que não exploda em coágulos. E foi, por isso, que no momento em que eles se encontraram no quarto, ele veio correndo até ela com os olhos fixos em um corpo invisível, obcecado pelo reflexo da ausência. E ela, indiferente, não disse nada. Atravessou o espaço, guardando os frascos do sentimento espancado, surda aos movimentos do afeto. Ele parou, surpreso. A mão roçando a cabeça, prevendo as inflexões de uma ruína. Quer tomar um banho? Ela sentou-se na cama. Não tive culpa por essa demora. Só agora liberaram o leito, minha querida. Onde está minha mala?, ela o interrompeu, vasculhando, com os olhos, o ambiente. As paredes se aproximando, perdendo largura, caindo profundas. Irradiando o calor opaco. Transformando os seus restos de fêmea em um concentrado disforme. E ele, ao lado, contínuo, homem ambivalente dos bastidores, estático em sua permanência secundária, incapaz de romper a cena de inércia e desalento. Onde está a minha mala, ela voltou a perguntar, dessa vez, mais alto. Não está vendo o sangue escorrendo por essa roupa horrível? O vermelho revelado na altura do ventre e das coxas. A solidão revelada nas manchas, em seu papel de mãe túmulo, mulher sepultura encarregada de abrir a própria carne e desenterrar, espasmo por espasmo, célula por célula, o filho. Também sinto muito, ele disse, também sintomuito, e, então, encolhendo-se, bombeou uma lágrima e mais outra e mais outra até ela, exausta, deixar-se levar, repousando o sofrimento sobre a água multiplicada, e desdobrando, finalmente, o seu colo destroçado sobre o do marido.
Helena Terra nasceu em Vacaria. Mora em Porto Alegre. Já colaborou em sites, revistas e jornais literários. Publicou, em 2013, o romance A condição indestrutível de ter sido, pela editora Dublinense. É jornalista e ilustradora.
A lembrança sempre começa comigo correndo.
Estou no quintal do sítio dos meus avós, os pais do meu pai, em Petrópolis, correndo em círculo atrás de galinhas.
Zuzuque, uma pequinesa de pelagem amendoada, corre atrás de mim. Era um domingo e meus pais tinham subido a serra cedo para discutir com o meu avô sobre a intendência da loja de sapatos que haviam tomado às rédeas fazia alguns meses.
Os adultos estão no interior do casarão, exceto minha avó que tricoteia numa cadeira de balanço no alpendre, contudo de onde está não consegue me ver.
As galinhas cacarejam alto, em tropel, enquanto fogem de mim. Próximo a um abacateiro, na lateral do casarão, o bando se separa. Muitas se refugiam no galinheiro, que fica nos fundos do quintal, onde o terreno cuidado se transforma em mata fechada. Outras seguem em direção ao casebre que meu avô transformou em oficina. Eu persigo essas.
Zuzuque vem no meu encalço, com suas patas curtas e focinho achatado, tentando morder a bainha da minha calça. Quando passamos por um jacarandá florido, que sombreia e suja o telhado do casebre, percebo que ela parou de me seguir.
Olho para trás, o tempo das galinhas desaparecerem, e a vejo erguida, com as patas dianteiras apoiadas no caule da árvore. Ao me aproximar, ela começa a latir.
Só depois de um tempo que noto a gorda lagarta verde que escala o tronco.
Com todo o esforço que lhe é possível, flexiona o corpo mole e peludo numa maratona incessante em torno da árvore. Zuzuque tenta derrubá-la, mas a larva já está numa altura que não dá o salto. Me aproximo e a examino bem de perto.
Imagino o quanto já percorreu e o quanto ainda vai percorrer para alcançar um galho e completar seu primeiro ciclo de vida. Depois o casulo, o período de pupa e, finalmente, o renascimento metamorfoseada em borboleta. Tenho vontade de esmagá-la.
Exploro o perímetro da sombra da copa e acho uma pedra redonda, maior que a minha mão. Miro e bato com toda a força contra o tronco. A pedrada é violenta o bastante para cortar a lagarta ao meio e respingar o conteúdo viscoso no meu braço. Zuzuque ataca com as garras as partes que caem na grama, ainda animadas.
Neste instante, ouço minha mãe chamar o meu nome e corro para a frente do casarão.
É uma edificação extraordinária de estilo rústico, erguida pelos imigrantes alemães muito antes da construção das fábricas.
A fachada de madeira envelhecida se sustenta sobre pilares de caibro que demarcam toda a extensão do alpendre elevado, circundado por balaústres pintados de verde-musgo que emprestam cor aos patamares da escada e aos beirais que selam o telhado de cerâmica vermelha, de onde emerge a ponta da chaminé branca.
Em ambas as laterais, há janelões de moldura escura, e uma porta estreita nos fundos. Árvores de várias espécies loteiam a propriedade, escoltada por picos e silhuetas ralas de montanhas. Quando chego à frente do casarão, meus pais e meus avós estão próximos ao Chevette marrom, estacionado a poucos metros da sebe podada à meia altura.
Minha mãe ampara o impacto do meu corpo com um abraço providencial, já me envolvendo numa manta de malha, embora seja verão. Carregando uma cesta com sobras do almoço e do lanche (assado de porco, salada de batatas, strudel, gugelhupf), meu pai manda que eu me despeça dos meus avós. Entretanto, eles insistem que passemos a noite, temerosos pelas nuvens carregadas que avançam sobre os montes.
Meu pai recusa o convite, alegando que tem de abrir a loja mais cedo que o habitual, que ainda tem de terminar o balanço da semana, e entramos no carro.
Pelo vidro do porta-malas, eu vejo minguar a imagem de dois velhos preocupados.
Alguns quilômetros depois, no meio da descida da serra, fomos pegos pela tempestade.
De uma hora para a outra, as nuvens inquietantes, que ameaçam o fim de tarde com rugidos ao largo, transformaram tudo ao redor num sorvedouro.
Rajadas furiosas de vento acertavam o carro por todos os lados, munidas com chuva grossa, folhas e galhas que explodiam contra a lataria.
Em velocidade baixíssima, meu pai fixava as mãos no volante tentando controlar a direção, com os faróis altos acionados contra o véu cinzento. Minha mãe, católica, de cabeça baixa pedia proteção para uma medalha de Santa Rita de Cássia.
Circulava uma eletricidade ruim dentro da cabine.
Um medo irradiado pelo mutismo e as respirações nervosas, uma espécie de asfixia.
Com o rosto colado no vidro embaçado, eu não conseguia enxergar nada adiante.
Não era possível distinguir os limites da estreita estrada sem acostamento, as raias das curvas sinuosas. Os únicos indicadores de que não estávamos avançando rumo ao precipício eram os relâmpagos regulares que se refletiam na pista alagada.
De repente um galho grosso acertou em cheio o capô e correu sobre o teto, no curso quebrando um dos braços do limpador de para-brisa.
Tomado de assalto, meu pai freou bruscamente, afrouxando o controle do volante que guinou para a direita. Sem resistência, o carro começou a adernar.
Meu pai lutava para estabilizar as rodas de volta ao eixo, mas era preciso uma força sobre-humana, que naturalmente ele não tinha, de modo algum.
O carro girava, a direção já não detinha comando.
Então, com o peito apoiado no volante e o rosto pressionado de sangue, meu pai começou a gritar para que abríssemos os vidros das janelas.
Todos, rapidamente.
Aterrorizado, agarrei a manivela ao meu lado e comecei a rodá-la com toda energia contida num menino. Não tive chance de reduzir a metade da altura.
O jorro que invadiu a pequena fresta atingiu o centro do meu rosto, me derrubando do banco de trás com agressividade. Com os vidros abertos, o exterior inundado teve permissão de nos atacar com sua voragem, sua extravagância.
Em segundos, a cabine estava encharcada, nós estávamos encharcados.
Destroços do temporal espiralavam por toda a parte parecendo pássaros selvagens presos num espaço apertado, lutando por liberdade.
Minha mãe berrava, horrorizada.
Meu pai berrava, pedindo calma, numa inútil tentativa de combater a impotência.
Eu berrava, deitado de costas no banco de trás. O pavor me fez mijar nas calças.
O irônico é que justamente o vidro que eu não consegui descer acabou funcionando feito um leme, e a pressão do vento detido foi empurrando o carro de volta ao meio da pista.
Com o controle retomado, meu pai arriscou e aumentou a velocidade.
Deslizamos serra abaixo, patinando sem segurança a cada curva, na iminência de batermos num possível deslizamento na estrada. O vale abaixo, inundado pela desclaridade da noite precoce, soprava agouros de garganta aberta.
Foi então que se entremostrou, por trás da parede de água, a silhueta luminosa do posto da polícia rodoviária. Meu pai suspirou, minha mãe agradeceu à santa.
A poucos metros, porém, o carro bateu num bolsão d’água, perdeu o controle e rodopiou.
Um ônibus que vinha atrás não conseguiu desviar a tempo e atingiu o lado do carona.
Com o impacto, eu fui arremessado contra o teto, abrindo um corte fundo na testa. Meu pai teve uma luxação e algumas escoriações. Nada grave.
Minha mãe, por outro lado, ficou presa às ferragens.
A nosso favor, havia uma unidade móvel dos bombeiros estacionada na saída da praça de vistoria e o atendimento foi praticamente imediato.
Outros veículos de pronta-emergência chegaram minutos depois.
Me lembro de estar passando por uma sutura na carroceria aberta da ambulância e divisar, contra a chuva manchada pelas luzes bicolores das sirenes de socorro, minha mãe sob um forte facho amarelado, sendo retirada do carro e transferida para uma maca logo coberta por uma proteção plástica, cingida por um grupo de paramédicos.
Além dos cortes e das concussões, o acidente causou fraturas em ambas as pernas, no braço esquerdo e na mão direita, além de deslocamento da bacia.
Minha mãe passou por cirurgias emergenciais de algumas horas.
Com a reprodução da notícia do acidente, parentes e funcionários da loja correram para o hospital e se prontificaram a doar sangue. A estadia na UTI durou uma semana, depois foram mais seis meses entre total imobilidade e início das atividades fisioterápicas.
Aos domingos, eu e meu pai íamos visitá-la.
E, apesar da saudade, do vazio que se renovava pela casa a cada conclusão de dia, o que mais me feria era vê-la daquele jeito, presa às maquinas, confinada naquele quarto esterilizado de móveis diminutos e um televisor de baixa polegada em preto-e-branco, sabotando sua dor, sua angústia, seu medo, para tentar mostrar interesse pela minha rotina medíocre.
Ela sempre pedia para eu levar as minhas lições escolares, livros de leitura e um saco de balas boneco, que devorávamos à surdina. Nos minutos finais da visita, pedia ao meu pai para ficar sozinha comigo. Aí perguntava sobre a minha semana, se a dinda, que tinha ido morar conosco a fim de auxiliar meu pai a administrar a loja e a vida de um filho pela primeira vez após oito anos, estava agindo correto comigo.
Minha mãe sempre chorava na despedida.
E quando pressionava o meu rosto contra o dela, tatuado de cicatrizes frescas e hematomas, eu sentia o cheiro ferroso do sangue coberto pelo iodo dos curativos.
No domingo em que só se falava sobre o festival de música, meu pai nos surpreendeu e anunciou, ainda na entrada do quarto, que ela iria para casa conosco.
Houve um leve alvoroço, prontamente censurado pela enfermeira de plantão.
Com platina nas duas pernas e o braço imobilizado em gesso, minha mãe saiu empurrada sobre uma cadeira de rodas, que meu pai teve dificuldade de acomodar no porta-malas do carro novo, um Monza Hatch azul-marinho.
Seguimos direto para casa. O percurso foi marcado por um silêncio longo, a tensão por estarmos revivendo a cena pela primeira vez após o acidente.
Fomos recepcionados pelos meus avós, alguns tios e amigos que haviam preparado uma festa de boas-vindas, menos a dinda que tinha ido assistir ao show da Nina Hagen.
Ao chegar, minha mãe pediu que a levasse para uma volta pela casa. Em seguida, fez um breve discurso emocionado, desculpou-se pela indisposição e se recolheu num dos quartos de hóspedes que meu pai adaptou, no primeiro andar, para o seu tratamento.
Durante três meses, minha mãe continuou a se locomover unicamente sobre a cadeira de rodas. A enfermeira vinha todos os dias para lhe dar banho, trocar as camisolas, as roupas de cama, aplicar injeções, fazer os curativos e auxiliar com a fisioterapia.
Nesses instantes, não me era permitido entrar no quarto. Em todo o restante do dia, exceto o período em que estava na escola, passava sentado ou encolhido sobre a beirada do colchão, flanando com ela por lembranças evocadas pelas altas doses de analgésicos, enquanto me afagava a cabeça com a mão sadia.
A recuperação foi lenta e dolorosa. No inverno, as sequelas do acidente ficavam piores e, do meu quarto, no andar de cima, a ouvia gemer durante toda a madrugada.
Meu pai dormia num sofá sem conforto, próximo ao leito. Apesar disso, não abria mão de fazermos o desjejum juntos, ignorando o explícito incômodo da minha mãe por estar suja, fedida, privada da capacidade de pentear os cabelos, corar o rosto, pintar os lábios e as unhas, como gostava, de cores vibrantes.
Mas não era por mal.
E ela sabia que não era por mal. Portanto nunca protestou.
E quando voltou a caminhar com o auxílio de muletas, era ela que não abria mão de tomarmos o café da manhã na cozinha ao invés de, inadequados, ao redor da cama.
Minha mãe queria estar bem, recuperar-se e, em momento algum, mesmo com o corpo governado pelas máquinas hospitalares, hesitou ou esboçou desistência.
Com o máximo de independência que se pode adquirir com um par de muletas, obrigou meu pai a confiá-la toda a contabilidade e as resoluções administrativas da loja. Passava horas no escritório, cuidando dos balanços semanais, dos contatos com os bancos, da comissão dos funcionários e dos telefonemas para os fornecedores.
Sentir-se responsável, útil, retomando de alguma forma as rédeas do negócio, foi recompondo o que estava fraturado e hibernado dentro dela.
Logo pediu para voltar a dormir no quarto de casal, onde meu pai a levava, escada acima sobre os braços todo o fim do dia, e a descia, da mesma forma, todas as manhãs.
Eles tinham uma brincadeira que era só deles.
A visita da enfermeira passou a ser menos regular.
Me recordo de uma manhã, quando me preparava para ir à escola, surpreender-me ao encontrá-la à boca do fogão, fazendo panquecas doces. Sob os primeiros raios de sol que se infiltrava pela fresta das cortinas de plástico, de repente, a redescobri linda.
Então, inesperadamente, voltou a ficar doente.
Um mal-estar acompanhado de febre que foi se agravando severamente dia após dia, ao ponto de voltar para o primeiro andar, depender da assistência integral da enfermeira e de o meu pai chamar de volta a dinda para a casa.
Era como se mantivessem uma criatura naquele quarto que a aterrorizava constantemente.
Gritos ecoavam dali, também do banheiro, gritos ecoavam de toda a casa.
Na manhã do meu aniversário de nove anos, depois de ser amparada até uma cadeira arrumada em frente à mesa da cozinha decorada com um bolo comprado em padaria, minha mãe teve um ataque e foi levada às pressas para um hospital de emergência e não voltou para casa durante algumas semanas.
No mesmo dia, eu fui mandado para a casa dos meus avós em Petrópolis, onde fiquei três meses sem qualquer notícia concreta do estado de saúde dela.
Quando retornei, minha mãe estava em casa, porém eu não podia vê-la ou saber sobre ela. Por mais que implorasse, era definitivamente proibido entrar no quarto.
Um ano e meio após o acidente, meu pai me acordou, com olhos infiltrados de tristeza, e contou que minha mãe havia morrido no andar de baixo, no quarto adaptado para a cura.
E embora ele não tivesse dito naquele momento ou censurado minha suspeita de que tinha sido em decorrência dos cortes, dos ossos quebrados, da criatura dor, a morte da minha mãe foi causada por algo muito pior, que somente me seria contado anos depois.
Faço o caminho para casa a pé. Cinco quadras até a rua residencial, de paralelepípedos, onde desponta o sobrado de dois andares em que nasci, fui criado e vi minha mãe morrer.
Contra o céu de chumbo sem estrelas, a antiga construção se assemelha a uma figura recortada em cartolina e rasurada com carvão.
A escuridão mina da estrutura, inundando a curta distância do portão à varanda, exceto pelo contorno luminoso de uma janela baixa interposta pela porta principal.
É um modelo de assombramento. Algo, à primeira impressão, abandonado, oco, destituído de habitação, caso eu não morasse ali.
Quando minha mãe morreu, tudo que vicejava em sua órbita foi também morrendo aos poucos: os animais, o jardim, os móveis, a casa.
Hoje apenas fantasmas transitam pelos cômodos frios e vazios, presos a um impulso que faz com que reprisem as mesmas intenções.
Eu sou um fantasma e estou preso à memória.
Sinto falta das tardes de sábado. Quando a loja de sapatos funcionava em meio expediente e minha mãe se preservava de acompanhar o meu pai.
O que trago na memória de mais elementar nesses sábados são os acordes. Os primeiros compassos infiltrando-se no sono, puxando-me daquela camada aconchegante com melodias aceleradas que surdiam do andar de baixo da casa.
Eu era um menino de sete, oito anos, e ainda de pijamas, agarrado a um pequeno cobertor com a cabeça do Topo Gigio, descia, sonolento, os degraus da escada, sendo envolvido pelo ritmo alegre que vinha do toca-discos na antessala.
O concerto sempre começava com Beatles, Elvis, depois vinha The Fevers, Renato e seus Blue Caps, Os Incríveis, a ordem em que tinham sido anteriormente guardados os elepês.
Por um tempo, eu ficava estacionado entre o patamar e pórtico apenas sentindo a música energizar meu corpo adormecido, depois cruzava a sala até a cozinha onde sabia que estava minha mãe e seu sorriso radioso.
Minha mãe sempre usava vestido nos sábados, tinha os lábios pintados de vermelho e os cabelos encaracolados arranjados com um lenço, caprichosamente.
Logo que me via, abria os braços e gritava bom-dia como quem saudava a manhã e sua claridade cintilante que invadia as janelas e as portas abertas, revelando as verdadeiras cores dos objetos de decoração, os metais e os espelhos.
A casa tinha som, cor e cheiro.
Pois com a mesa do desjejum ainda posta, minha mãe picava o alho, os tomates e a cebola, crestando o fio de azeite para preparar o molho vermelho que cobriria o espaguete, recendo o ambiente com um aroma único que, se eu fechar os olhos agora, posso sentir rastejando pelo meu rosto.
O barulho do atrito dos pneus do carro subindo o acesso à garagem anunciava a chegada do meu pai, que sempre escondia no bolso um pirulito Zorro para mim.
Era o tempo dele se lavar, e logo estávamos sentados à mesa, comendo sem boas maneiras, contanto que eu não falasse com a boca cheia ou usasse as mãos para pegar a comida.
Meu pai se encarregava de lavar a louça e encher as canecas com vinho, enquanto minha mãe reabastecia o toca-discos e eu subia até o meu quarto para pegar o passatempo com o qual iríamos compartilhar a tarde.
Sentados no chão da sala, em torno da mesa de centro, nos divertíamos com Banco Imobiliário, Jogo da Vida ou Ludo. Meu pai sempre tentava trapacear nos dados, mas minha mãe nos defendia, prontamente empurrando-o com o pé descalço e depois sorrindo com ele desmoronado sobre o tapete, como que atingido fatalmente.
Era comum, quando isso acontecia, pularmos sobre meu pai e nos engalfinhávamos, disputando risadas e cócegas, até ele reagir.
Com presunção de campeã, minha mãe se levantava sacudindo os braços e soprando os indicadores conforme canos de revólveres, em seguida saía para escolher outro elepê, abastecer as canecas e me trazer uma tigela de creme gelado feito em casa.
Acho que, na verdade, ninguém nunca ganhou naqueles jogos.
Já noite, minutos depois de ser acomodado na cama, eu me esgueirava dos lençóis e seguia, na ponta dos pés, até o patamar da escada onde, escondido atrás dos balaústres, ficava ouvindo a fricção dos pés descalços no assoalho da antessala, no andar de baixo.
À meia-luz de um abajur de curta irradiação, meus pais dançavam embalados pela suave melodia de uma orquestra de jazz, dois corpos exaustos e espremidos.
De onde eu me escondia não conseguia vê-los, apenas a projeção de suas sombras alongadas, rodopiando pelo teto do cômodo adjacente feito insetos fascinados pela refulgência.
Agora todos que completavam aquele quadro estão mortos de uma forma ou de outra.
Não há cores ou melodias nos sábados, ou em qualquer outro dia, somente o cheiro rançoso do ar confinado, do desleixo para com a poeira que se condensa numa textura aveludada sobre os móveis e os objetos sem uso, de outros tempos.
A casa foi tomada por sombras.
Planos obscuros que revestem as paredes, as pinturas e os retratos enquadrados, espraiando-se das molduras tal um tipo de vírus incurável.
Um organismo capaz de se multiplicar ante o abandono e a melancolia, deteriorando gradualmente cada espaço com uma substância cinzenta, compacta.
Alguns cômodos, no primeiro andar, já estão intransponíveis, a ponto de a porta sequer abrir. O primeiro andar está perdido, afinal.
No segundo, meu quarto ainda resiste, salvo pelas vibrações que conservei dos objetos e a ternura que eles conservam de mim. Ali estão referências de um tempo em que a casa respirava, vivia. Não mais. A casa morreu conosco dentro ou não existe mais dentro de nós.
Uso a minha chave na porta principal e entro como, se ao cruzar a soleira, não me desse conta e tivesse novamente saído, rumo à noite.
É noite dentro da casa.
Caminho me valendo das silhuetas dos móveis e da configuração familiar. Atravesso o living e avanço pelo corredor estreito, tateando as paredes manchadas por contornos vazios de molduras, até estacionar à beira da escada.
Dali enxergo o facho artificial que foge da antessala, fatiando a escuridão.
Sigo e, à medida que avanço, o silêncio vai sendo quebrado por um rumor infrequente, mecânico, de alguma forma associado à intensidade da luz.
É ele, eu sei.
Encosto no umbral e o vejo pelas costas, estirado no sofá alheio ao televisor que reproduz sua programação impessoal. Tem a cabeça inclinada, coroada pela calvície, dorme. Desde a morte da minha mãe, meu pai se exilou nesse estado dormente, frouxo.
Não teve mais ânimo, emudeceu, passou a apostar nas coisas simples. Ocorre que as coisas simples são as mais terríveis, pois são elas que devoram o tempo. Meu pai é o que restou. Se esqueceu de si e, por conseguinte, se esqueceu de mim, da casa, da loja. Falimos todos.
É irônico como os homens tendem a construir casarões, fábricas, fortalezas, e todos acabam apertados numa mesma caixa de madeira lacrada.
O caixão da minha mãe ficou tampado durante o velório, e algumas pessoas tiveram receio de se aproximar dele. Eu não pude vê-la, dar um beijo de despedida.
A última vez em que vi minha mãe, ela estava com o corpo sugado, coberto por manchas púrpuras e quase sem cabelos, retorcendo-se de dor no chão da cozinha, no dia em que eu completava nove anos.
Meu pai dorme em frente à luz fria do televisor. Sinto a frialdade da sua sombra que passa ao meu lado e se projeta na parede nua atrás de mim.
Fico ali por um tempo, depois me afasto.
No movimento, me recordo do sítio, da sensação inefável da correria. Penso em correr.
Todavia, na escuridão, é inevitável nos movermos lentamente.
Sérgio Tavares é jornalista e escritor, autor de “Cavala” (Record, 2010), vencedor do Prêmio Sesc Nacional de Literatura. Tem textos publicados em jornais, revistas e sites literários nacionais e internacionais. “Queda da própria altura” (Confraria do Vento, 2012), sua obra mais recente, foi finalista do 2º Prêmio Brasília de Literatura.
Atalhos: Leda e o relógio acertavam o tempo. O vento mais úmido, ameaçando. E o cão vira-lata não mais a seguia. Cansara de dizer não aos pedintes. E em seu coração chovia. Quem disse Salvador um verão sem tréguas? Salvador a levava à loucura. Eram as melhores horas. Um homem com alma de cidade.
Entalhes: o ateliê não recebia um turista há séculos. Na verdade, dos doze anos vividos ali, tirara muito, reconhecia. Hoje, a rua, escura e funda, exalava odores de morte. E a luz, que iluminava o saguão, mal servia para nortear os olhos de doninha do proprietário. Real Antiquário. A letra u, pintada numa caligrafia caprichada, apagou-se por si própria, cansada de se apresentar na placa comida de ferrugem. Apesar disso, Salvador continuava a empunhar o formão, talhando uma nova cópia de peça barroca. Os cabelos raros e brancos de velho espanhol. As mãos grossas e ainda fortes. Sua mão era seu sexo: os dedos hábeis e macios, moldando a carne rebelde de Leda.
Retalhos: Conheceram-se numa noite clara em que o céu estava fatiado de azul e as estrelas nasceram ofuscadas. Leda & Salvador. Tocava uma música sensual nas escadarias do Carmo. Salvador, bêbado. Leda, chapada de maconha. Sorriram um pro outro: o gringo e a negrinha. Ele sem saber dançar a salsa. Ela já acostumada ao ritmo e à voz de Gerônimo, ao balanço e à malícia de Gerônimo, à pena pintada de vermelho na ponta e na cabeça de Gerônimo, ao sorriso malemolente dos quadris de Gerônimo, seu cantor preferido, preto – apesar de branco. Eu sou negão… Eu sou negão… Meu coração é a Liberdade. E assim Salvador se libertou, subindo os degraus até sua pequena Oxum, que girava já dentro de sua cabeça desde tempos atemporais.
Atalhos: Guardava a lembrança da avó, anéis de ouro e balangandãs. Escrava como Leda, pobre como a mãe de Leda, mulheres juntando o comércio do amor possível. No iorubá, língua-mater, xingava o feitor de puto, viado, ladrão. Em português desfiava mentiras quentes como a cor do dendê. Ela ela e mais ela sabia sabiam que o amor e o sexo são as palavras. Não quaisquer umas, porém, as palavras.
Entalhes: As hastes dos óculos eram flexíveis e envolviam as orelhas grandes. Uma das lentes quebrada. Bem no meio. Daí a imprecisão. E lascou a beirada do lábio com sua ânsia. Os dedos molhados. De suor. Mesmo assim avançou. Podia-se ouvir um espasmo ou suspiro no ar. O vento revirando as folhas do catálogo sujo sobre a mesa. Salvador acariciou o peito quase reto, quase liso da escultura, não fossem os dois biquinhos. Ele cuspiu um cuspe grosso na ferramenta – outrora tão luzidia. E com a outra mão desferiu o golpe entre as pernas do anjo.
Retalhos: Carregara a menina no colo como um noivo leva a noiva em suas núpcias. Entretantos entretantos, ela o escolheu como homem, assim como Zeus escolhia suas vítimas. Talvez a beleza da jovem o embalasse para uma armadilha. Dois marginais sairiam de algum canto escondido e o roubariam e o assassinariam, deixando seu desejo enterrado num vão, tornando Salvador nota e número de um jornal esquecido e em ruínas. O susto veio. Leda Leda Leda. Dezessete aninhos e já passara para antropologia na universidade. Como podia? Mais susto. Ela conhecia arte. Mesmo no lixo que era a loja. A influência européia, séculos de oro y plata, porcelanas chinesas e azulejos azuis, castiçais, ornamentos em peças cotidianas. Danada. Susto maior. A raiva de Leda. Raiva dos homens e seus preconceitos na pele. Raiva tão grande quanto a delicadeza.
Atalhos: Cada nó de suas tranças contava uma estória de espoliação. Queriam-na mais trágica, menos feliz. Não permitia. A beleza de sua alegria guerreira era estampada na fronte. Arrastou Salvador pelos braços, apresentou-lhe o Ilê. Nada de Chicletes com Banana, Babados Novos, Harmonias do Samba ou quem quer que representasse a estupidez de uma alegria embalada por uma maré sem ventos. Por isso, odiava os circuitos de carnaval e o automatismo dos corpos nas danças sincronizadas. Não era o vento que a insuflava. Sim, as tempestades. Fechou as mãos com mais força e sentiu as jóias machucando as palmas. Jogou tudo dentro da mochila: anéis, brincos e pulseiras. Aproximava-se da casa de John, um velho sobrado caindo aos pedaços na Mouraria. A poucos passos, ouviu o cachorro latir.
Entalhes: O telefone tocou. Era Leda no celular. Salvador ouviu tudo em silêncio, apenas murmurando o consentimento. Não restavam mais alternativas. Precisavam sair da cidade, abandonar o país. Quando montou o ateliê, havia outros artistas. Verger costumava visitá-lo. Salvador falava vários idiomas. Filho de brasileira com italiano, nasceu na Espanha. Durante a infância, morou em Portugal. Os pais não sentavam lugar. Mudaram-se para a Itália, Grécia e, por fim, fixaram-se na África do Sul. Com dezoitos anos completos, a mando do pai, foi buscar trabalho na França. Lá, aprendeu a pintar e a esculpir, enquanto vendia pães em cestos nas ruas de Paris. Numa noite de boêmia, recebeu convite de Truffaut para fazer figuração num filme. Assim, começou carreira no cinema. Não se saiu de todo mal. Logo, outros cineastas o convidaram. Godard, Jean Vignon, Louis Malle e até Fellini, que visitava os estúdios de produção de La Rivière de Cassis. Dividia seus dias entre a sétima arte e as aspirações políticas da época. Tornou-se marxista. Contudo, sentia-se um estranho em qualquer chão que pisasse. Gostava de aventuras. As mulheres o agradavam e não se recusava aos homens, conquanto fossem bonitos e tivessem alguma graciosidade. Participou das manifestações de maio em Paris, viajou para a Bélgica, Alemanha e, quando se cansou, decidiu estudar política na Inglaterra. Os anos foram passando e Salvador cada vez mais desterritorializado. Viu com terror a queda do Muro de Berlim, teve depressão, isolou-se. Até que um dia caíram em suas mãos novamente o cinzel e o martelo. Ele os recebeu, gratificado.
Retalhos: Tinha bebido e nem por um instante pensara numa razão íntegra o suficiente para se satisfazer: que queria a menina? Andava pela sua caverna como se dela fosse, afastando peças, sorrindo e dançando entre as vênus e dianas. E tinha se apercebido – sim, nesta hora precisa –, Salvador lembrou e se conscientizou de que era um velho. Leda beijou sua barba por fazer. Leda arrancou seus óculos da face. Leda abriu os botões da sua camisa. E Salvador, Salvador não sentiu nada. O pinto tão murcho como ultimamente. Mas não era um completo vazio o que sentia. Dentro, lá dentro, era um sentimento abrasador, pulsante e extremamente vivo. A questão era se para Leda bastava isto, olhar. Leda segurou o sexo de Salvador em sua mão de menina. Sexo grande, macio e mole. Salvador tentou se recolher e fugir. Mas Leda o deteve, baixando a mão até suas bolas e apertando com firmeza.
Atalhos: Uma empregada-zumbi abriu a porta e segurou o rottweiller pela coleira. A mulher era um caniço, mas de um lado a vassoura e do outro a grande fera assassina. Leda escapou para o corredor e, de lá, direto para o jardim, nos fundos, de onde uma luz natural se projetava para o interior, e da porta se viam duas cadeiras de ferro, uma mesa de madeira, caixotes e mais caixotes amontoados e uma vista linda. John molhava as pontas dos bigodes loiros numa xícara de café, óculos escuros, bermuda e camisa florida aberta no peito. Um chavão, pensou Leda.
– Hey! Ledá!
– Diz aí, John.
– Coffee? Está uma d’lícia.
O quintal e a casa ficavam acima da rua posterior, a diferença de altura propiciando a visão das torres das igrejas do Pelourinho, os telhados vermelhos enegrecidos das casas, janelas de edifícios e muitas antenas por toda parte. Um forte.
– O que vai ser desta vez? – falou o americano em bom português.
– Nada de compra. Trouxe um negócio para você.
– Oh, really? E do que se trata?
– São jóias. Coisa de primeira. – Ela pôs a mão na mochila.
Ouviu-se um grunhido. A cabeça do cão surgiu na janela da cozinha.
Entalhes: Era preciso lixar a madeira, passar verniz e deixar secar. Depois, lixar novamente – com uma lixa mais leve – e pintar com tintas foscas, para dar a impressão de antiguidade digna de uma obra de arte. Reconstituir o passado. Inglaterra. Um dia, chegou uma carta da África do Sul. Os pais completavam quarenta anos de casados. Junto, uma foto do casal. Estavam mais gordos do que imaginara. O pai nada escrevera, somente a mãe, sua doce e meiga mãe brasileira. Contava que não se acostumara ao abandono, que chorava antes de rezar, à noite, enquanto o marido roncava. E pedia cuidados ao anjo da guarda do filho. Salvador deslizou a ponta dos dedos sobre o papel e acreditou que talvez uma lágrima houvesse molhado e turvado as tintas da caneta. Perguntou-se que mãe era essa que ele não conhecia perfeitamente, tão amorosa e sentimental ao mesmo tempo? Suas lembranças não davam conta da família. Acostumara-se à solidão e, também, à independência. Forjara-se homem pelos próprios esforços. E sobrevivera. Na infância, a mãe era uma presença viva, enquanto o pai, bom comerciante, contentava-se em pôr a comida à mesa, fazer as vontades da mulher e perguntar como ele andava nos estudos. Em todo o resto, era como se não existisse. Já a mulher, de pele apessegada e olhos puxados, abraçava Salvador sempre que ele chegava, tratava-o como um eterno menino. Daí, raciocinou ele mais tarde, o desprezo e a ferocidade com que o pai se apressou em despachá-lo para longe. Era pela mãe que escrevia postais ocasionalmente. E, pelo pai, a decisão de nunca telefonar nem voltar para casa. Quando o velho morresse, quem sabe? Mas, dois anos depois, a mãe descobriu-se com um câncer – sua falta?, ele se perguntaria – e então faleceu em poucos meses, evitando o reencontro. Salvador montou uma exposição com seus trabalhos, recebeu críticas extremamente desfavoráveis e se recusou a criar algo novo no futuro. Tornou-se um exímio copiador. Um artista que sobrevivia graças ao desejo daqueles que não tinham dinheiro e desejavam mais que tudo um nome famoso na parede da sala, num canto da biblioteca ou no alpendre da fachada da nova casa. Numa tarde fria de março, pegou seu agasalho, abriu o guarda-chuva e, na agência de viagens mais próxima, comprou uma passagem sem volta para o Brasil.
Retalhos: Sussurros, pequenos sinos, timbres, sim, avança o sinal, pára, segura e lança seu uivo de salvação e despertar, óleos oleosos pelos vãos escavados, caindo atrás de você o trovão, eu um raio apagado no tempo, estamos às voltas e envoltos em odores, disfarçamos nossos nãos, entrelaçando os sentidos e fazendo, oh, estamos fazendo, mesmo?, tão perto assim, a glória e o altar, cantarei gregorianos cantos, chuvas móveis em sua face, pergunto-me como e eu desejarei sempre, você, Leda Leda Leda, sem enganos, beija, meu coração, beija meus dedos fatigados, beija-me com teus lábios novamente, fechando e abrindo e dobrando a espinha, chorando em mim, mais uma vez chorando em mim… Eu, inteiro, encoberto por suas tranças, encoberto por sua volúpia.
Atalhos: Leda tirou os anéis e os balangandãs e John admirou-se da formosura.
– Quanto?
– Cinco mil dólares.
– Não. É muito.
Ela ameaçou guardar de volta na mochila.
– Pago dois mil.
– Quatro. E mais duas trouxinhas.
O americano sorriu maliciosamente.
– Se quiser, te dou dois mil e – olhou para as pernas da menina – posso lhe compensar com uma coisa melhor que drugs – apalpou o volume na virilha.
– Nem pensar. São quatro mil e só.
– Se quiser, dou três e deixo você cheirar algumas carreiras.
– Pra eu ter uma overdose? Não, obrigada. Aceito os três. Em dinheiro. Deixo as jóias aqui e saio imediatamente com a grana, sem mais conversa.
– All right! Estou d’acordo. Mas isso não é material roubado?
– São heranças de família. Você ainda não precisa se preocupar com a concorrência.
Entalhes: Para que guardar os entulhos e fingir e se convencer e retornar a uma rotina solitária, colhendo os caquinhos do Velho Mundo, asfixiando-se com a invasão, com a depreciação da vida, os prédios, outrora casarões repletos de vida, desabando sobre ele, Salvador, sem fio de esperança, a desapropriação, o governo, os turistas, a placa REAL ANTIQUÁRIO uma mentira, uma ilusão, os sonhos dos meninos seminus cheirando cola na esquina, olhando para ele, Salvador, sem ao menos expelir o medo que assegura a não-violência, evita a morte, o perigo desse outro inóspito, falando outros idiomas, as palavras pintadas com cores de amor e sexo. Palavras. Leda quer ir embora para o lar que ele deixou, viver uma outra guerra, estar no centro do poder, fazer cócegas, ser uma bárbara no Império, ou ainda na periferia do Grande Império.
Atalhos: Entalhes: Leda pagou as passagens e despacharam as malas e se abraçaram longamente. Faltava mais de uma hora para o vôo partir. Salvador segurava uma pequena bagagem de mão, Leda uma bolsa. Salvador. Go home!. Leda. Eu amo Salvador. Ele a presenteou com um perfume caro. Uma gota em cada lado do pescoço. E disse parabéns, menina! Feliz aniversário! Ela sorriu, beijando sua boca. Atravessaram o portão de embarque juntos, pisando primeiramente com o pé direito. No avião, Leda deixou que a paisagem se dissipasse entre as nuvens e finalmente olhou a janela e o céu fatiado de azul.
(do livro corações blues e serpentinas)
Lima Trindade nasceu em 23 de dezembro de 1966 em Brasília, DF. Vive em Salvador desde 2002. Publicou três livros de contos e uma novela. Participou de diversas antologias, entre elas “Tempo bom,” (Iluminuras, 2010) e “Geração Zero Zero: fricções em rede” (Língua Geral, 2011).
Dani Dark tinha viajado. Rio de Janeiro. Um congresso em seu ramo de atividade, que não vem ao caso explicitar aqui. O certo é que, àquela hora, ela estava num hotel da Zona Sul, o mar em frente, numa verdadeira metrópole, e eu aqui, comendo no Yang Ping do Center Lapa e, nos dias em que não tinha trabalho, saindo cedo para caminhar no Dique. Era tudo. Meu trabalho, vocês sabem… Quem leu os contos do Gallo já me conhece. Eu mato. Sou pago para matar. Gente rica, e até gente pobre, me contrata com frequência. Mas também já matei para fazer cumprir a justiça. Instinto de nobreza, uma coisa assim do Zorro, que não faz de ninguém um sujeito melhor nem pior ― muito menos eu ― e que, sobretudo, não nos salva do injustificável: o fim do túnel lá adiante e o salto, afinal, no abismo.
Uma semana antes, como estivesse na cidade um escritor de São Paulo, lançando um livro, compareci ao evento, na LDM do Itaú Cultural. O cara autografou o livro para mim, e fiquei lá, zanzando entre os escritores. Dei até a minha opinião sobre um poema do Ruy Espinheira Filho, que Milena Brito, Tom Correia e o Gallo ― acima citado ― leram com reverência, a um canto da livraria. Falei: “Metáfora da ditadura militar”. Eles concordaram, e logo saí, fui me restabelecer no balcão com um cappuccino gelado. De lá, fiquei olhando a plateia. Quero dizer: as pessoas que compareceram para comprar o livro do escritor. Me perguntava quantos de fato o leriam e quantos não estavam ali apenas pela dedicatória ou pelo autógrafo, rabiscados na folha de rosto. O autor parecia dos bons, com títulos que ressoavam: Não há nada lá. Ou: Do fundo do poço se vê a lua. Um sugeria desesperança, e o outro, o inverso. Whitman aprovaria. O velho João Antônio também. E os três livros que abri e folheei, entre os quais o que o autor me autografou, começavam bem, produziam interesse. Acabei então o meu café e fui para casa, ler. Não precisei sair à francesa, pois ninguém me conhecia mesmo. Eu estava isolado, sou comumente isolado, e esta é realmente a maior das dádivas.
De manhã cedo, lá pela página 35, o autor ― Joca Reiners Terron (e tive agora de pegar o livro para achar este nome do meio, pois tenho dificuldade em memorizar nomes triplos) ― o autor continuava me seduzindo. À tardinha, idem. Tanto que eu estava quase no fim do volume e entrei na internet e adquiri outra obra do cara, A tristeza extraordinária de alguma coisa. É a vantagem de se trabalhar para si mesmo e exercer uma atividade lucrativa: pode-se ler à vontade e quando se quer. E adiar as obrigações, que jamais serão inadiáveis.
Finda a história, e não eram vinte horas ainda, pus calção, camiseta, tênis e desci para uma corrida no Dique. Passei pelo porteiro, que cumprimentei como sempre, levantando a mão, ao mesmo tempo para que abrisse o portão e se sentisse bem, por eu enxergá-lo no seu trabalho diário.
O Dique estava quase vazio. Na segunda volta, vinte minutos depois, eu passava por um jogger a cada duzentos ou trezentos metros, sempre homens, nenhuma mulher. Eu ia correndo e pensando no livro, também em telefonar para Dani, que estava no penúltimo dia do tal congresso. E foi então que cheguei ao fim e me sentei num dos bancos. Um orixá próximo, horroroso. A típica arte do típico e que não nos diz nada, a não ser para os turistas, que também são típicos. Eu estava lá, olhando a lua subir, respirando um ar frio e menos poluído, todo suado, alguns mosquitos grudados na testa, reflexos do Terron ainda na cabeça e nos olhos, quando dois caras chegaram da escuridão e se sentaram, um de cada lado do banco. Ambos negros, desnutridos e inúteis. Mantive a calma e pensei que as pessoas são livres para se sentar onde quiserem. E que o banco não me pertencia e que eu não poderia exigir que eles saíssem. Então saí eu, mas, mal havia dado dois passos, ouvi:
“Onde cê vai?”
Eu poderia dizer “Não é da sua conta” e seguir em frente, mas preferi parar e esperar.
“É, onde cê vai?” ― disse o outro, como um eco.
Me voltei. E só me ocorreu, naquele momento, arrancar de minha testa dois mosquitos que estavam me incomodando ― mortos, afogados, contra o meu suor.
“Eu tenho uma casa e é para lá que eu vou”.
“Não sem a gente”, o primeiro disse e se levantou, e tinha um revólver na mão e o ar de insolência dos poderosos da política, quando não estão em público fazendo média com o eleitor burro, burro o suficiente para acreditar em palavras repetidas à exaustão, desde o tempo em que, entre animais, o primeiro homem impôs a outro a sua força.
Vestiam bermudões, folgados, as cuecas à mostra, e camisetas de tecido sintético, com propagandas de cervejarias, restos do último carnaval. Nos pés, sandálias que antes só os verdureiros e estivadores usavam. E nas cabeças, com as palas sobre a nuca, bonés de clubes de futebol rivais. Os braços eram finos e tatuados, desenhos que mal se viam sobre a pele fubenta, que estava longe de ser uma tela branca. Exalavam tristeza. Um odor de quarto de hotel barato, das Sete Portas.
Havia um segundo livro do Terron me esperando e um terceiro a caminho, nas malhas da internet. E havia aqueles dois caras ali, que não fariam nenhuma falta ao mundo.
Abri os braços, mostrei que estava liso, que não tinha dinheiro algum, nem celular, nem qualquer outro tipo de aparelho comigo, apenas minha identidade, o cartão do plano de saúde e um papelzinho com o telefone de Dani Dark, para o caso de eu ter um treco, cair afogado também, em meu suor.
Mas eles eram insistentes, queriam que eu fosse com eles em casa, pegasse o cartão bancário, fôssemos à agência mais próxima ― falaram assim, “agência mais próxima”, como num comunicado de tevê ou um impresso de publicidade ― e lhes entregasse uma boa soma.
O que eu poderia dizer, diante da argumentação de um cano frio? Eu, que a meu modo, também matava e sabia que não é preciso motivo algum para se apertar o gatilho numa noite, mesmo de lua…
Assenti:
“Tudo bem, moro nos Barris. É só subirmos a ladeira”. Uma mentira, pois quem já leu o Gallo sabe que moro mais à frente, no Politeama.
“Pare de falar!” ― um deles disse. “Só vá andando, que a gente vai junto, do seu lado”.
E este foi o erro. Quem conhece o caminho do Dique para os Barris sabe que, depois da funerária A Decorativa, à direita, há uma curva e que os ônibus, sobretudo à noite, dobram ali chapados. Foi o que me bastou. Ia com um de cada lado do corpo e, quando ouvi o ruído do ônibus às minhas costas, empurrei o cara da esquerda para a pista ― ouvi o baque ― e, quase simultaneamente, num gesto simétrico, dei uma violenta cotovelada no outro, à minha direita. Ele caiu, e o revólver, que antes apontara para mim, estava em minhas mãos. Não hesitei. Era ele ou eu, como se diz, embora não fosse verdade.
Veio a polícia, e tive que me explicar: os caras tinham me sequestrado, queriam dinheiro, e todo o resto… Ao fim, o delegado, que sabia das minhas atividades, só faltou me abraçar por livrá-lo daqueles dois mosquitos afogados em crimes, um dos quais era suspeito de molestar mulheres e crianças, no Dique. Caras que não costumam ler livros morrem indistintos. Não sei mesmo quem disse isso, mas é um belo aforismo.
O único inconveniente foi que cheguei em casa depois das vinte e duas horas. Sacudido. Escangalhado. À minha espera, havia um e-mail de Dani, afetuoso, e dois outros, de clientes disfarçados de spam, requisitando meus trabalhos. Ia ter que dar um tempo na leitura. Do Terron e de qualquer outro escritor. Bem, pelo menos, em troca, eu ia ser remunerado. Matar sem grana, só por justiça ― e, neste sentido, eu já havia cumprido a minha cota do mês ―, não leva a nada.
Dani, que preferiria que eu fosse mecânico de automóveis ou músico de quinta categoria, não ia acreditar quando eu lhe dissesse que tinha saído para correr no Dique e, por acaso, matei dois caras. Ela ia dizer, como sempre, lembrando-se do célebre caso do cinema ― em que matei um babaca no banheiro, durante a sessão:
“Sem essa!”
(Mayrant Gallo é autor de Os encantos do sol (Escrituras, 2013), Cidade singular (Kalango, 2013) e O inédito de Kafka (Cosac Naify, 2003). Este conto foi escrito exclusivamente para a Diversos Afins e incorporado ao volume inédito O próximo herói)