Tempo é a sucessão dos anos, dos dias, das horas. Permite ao homem ter noção do presente, passado e futuro. É irreversível.
Dar um tempo é a nova droga do momento. Vou dar um tempo. Estou dando um tempo.
Indicação deste produto para pacientes que durante uma relação amorosa passaram a sofrer de: choro súbito, olhar perdido, dor no peito, estresse com o vizinho que não tem culpa de nada, ódio da prima que mora a mil quilômetros de distância e nem lembra de sua existência, vontade de comer dúzias de bombons depois de um churrasco, secura na boca, aumento do consumo de bebidas de teor alcoólico, overdose de cigarro, cantar Yesterday em pagode, ímpetos de matar o açougueiro que substituiu a alcatra por chã de dentro, mandar pra puta que pariu o porteiro que não lavou seu carro, desejar a maldição de Montezuma para todos os vendedores de telemarketing, gritar pro filho que o som está alto, rever novela no Vale a Pena Ver de Novo, sentir raiva dos bonzinhos e uma vontade imensa de ser mau, muito mau. E bota maldade nisso.
Informações
No século XX, resolveram que dar um tempo nas relações afetivas é eficaz. Desde a antiguidade o tempo é considerado o melhor remédio para tudo. Há relatos de que com o tempo a verdade aparece. Foi comprovada essa tese em alguns detentos que passaram a juventude inteira presos injustamente, mas na velhice tiveram a inocência declarada. Morreram livres e hoje usufruem lápides com escritos lindíssimos!
Efeitos colaterais mais comuns (que não melhoram com o tempo)
Saudades, ódio, esquecimento e morte.
Advertências
A saudade costuma causar depressão. Se você sentir vontade de ver fotos e cartas antigas, fechar os olhos e reviver momentos passados, cantar Matriz e Filial no banho, suspenda imediatamente o tempo e tome Prozac, concomitantemente.
O ódio pode levar a desejos estranhos, como querer a ditadura de volta, sonhar que a cunhada caiu na rua, comer o fígado do ex.
O efeito esquecimento é extremamente perigoso, costuma causar o adeus com cinco letras que não choram.
Se estes sintomas ocorrerem, consulte imediatamente seu coração. Caso você morra antes, dane-se. Acreditou que o tempo cura, porque quis. Este medicamento é contra-indicado na faixa etária superior aos sessenta. Pode não dar tempo de retomar à antiga posição.
Dados complementares
Vovó e vovô fizeram bodas de ouro antes dessa solução afetiva que muitos afirmam revigorar a saúde da relação! Só não fizeram de diamante, pois apesar da penicilina ter sido descoberta antes desse recurso, vovô pegou pneumonia por conta de um vento e faleceu.
Não houve tempo para o efeito do medicamento.
Dar um tempo é a grande saída para se chifrar parceiros sem o perigo de ser malvisto por terceiros. Quem pede um tempo, quer se livrar da relação. Eficaz apenas para amor de ocasião, daquele que começa num verão e não chega a outono nenhum.
***
Art. 214*
Tinha apenas uma hora para chegar ao aeroporto. Seu corpo parecia uma bomba-relógio. No táxi, começou a rever o que estava levando e o que havia deixado. Tinha certeza de que havia colocado todos os seus vestidos de alça, não abria mão deles nunca; todos os remédios, não se acostumava com similares, muito menos genéricos, tinha grilo deles, já estava acostumada com a cara da embalagem tradicional, em remédios a gente tem que confiar, só fazem efeito se forem antigos amigos; documentos (trouxe todos ou lá é sem lenço e sem eles?); a sandália preta; aquele ratinho de pelúcia; o travesseiro rasgado; o CD dos Beatles; as fotos companheiras da night.
Não queria revirar o armário da memória, as gavetas das lembranças, a estante das reminiscências e mandou o taxista acelerar ao máximo. Não queria mais tempo para se revirar, não pretendia ficar novamente enfurecida com a constatação de que o atual coração é genérico, daqueles em que ela não confia. O antigo, aquele que adorava os vestidos de alcinhas, a sandália preta, o ratinho de pelúcia, o travesseiro rasgado, os Beatles, que botava o seu sorriso nas fotos, foi roubado por um traficante de heart.
Foi presa por atentado violento ao pudor, quando saltou do táxi, literalmente nua, sorrindo pra dedéu. O motorista afirma que ela se estressou no engarrafamento e saiu jogando tudo pela janela.
*Atentado violento ao pudor (Código Penal Brasileiro)
(Natural do Rio de Janeiro, Rosa Pena é escritora, professora especialista em recursos audiovisuais e artes cênicas, administradora de empresas. Trabalhou na Divisão de Multimeios da Educação, na secretaria de Educação e Cultura do Rio de Janeiro com projetos ligados a cinema, teatro, música, literatura. Compulsiva em ler e escrever, considera a Internet a grande biblioteca contemporânea. Possui inúmeros e-books, compartilhou com outros escritores de oito antologias, tem participações em livros da Tribo e três livros de crônicas e contos editados: PreTextos (2004), UI! (2007) e Tarja Branca (2010))
Depois de três meses desempregado, o que me apareceu foi uma vaga na livraria da Praça 1817. Eu nunca gostei muito dessa coisa de livro, leitura… mas, diante de uma carteira vazia, era minha única opção. Foi lá que descobri que era… Atchim, atchim, atchim… alérgico à poeira. Mas, não precisa se preocupar comigo não, já descobri um remédio que é tiro e queda. O nome dele? Cetirizine. Você conhece? É ótimo, um santo remédio. Aqui, meu trabalho é tirar a poeira dos livros, levá-los do estoque para a loja e organizá-los nas prateleiras. Depois, é só esperar que cheguem os clientes.
– Moço, o senhor tem o livro do Valter Hugo… Caramba, esqueci o nome do homem! Você poderia consultar no sistema se existe algum autor com esse nome?
É sempre assim, quando consigo engatar uma conversa legal com alguém aparece uma criatura dessas, que não sabe o nome do livro, muito menos o do autor. Dá vontade de matar uma pessoa dessas. Sei não, viu! Só um minutinho que eu já volto para continuarmos conversando.
– Pois não, senhor. Só um instante.
Ora, pois não, pois não… Eu só falo isso porque fui ensinado, mas a vontade que dá é mandar um cliente desses para aquele lugar. Ora, onde já se viu chegar a uma livraria sem saber absolutamente nada do livro que procura! Só se eu fosse um adivinho, daqueles com bola de cristal e tudo, pra acertar o livro que a pessoa mais perdida que ele procura.
– Não, infelizmente não temos nenhum autor cadastrado com esse nome.
– Mas, você não sabe dizer se chegará algum livro desse Valter Hugo?
– Infelizmente não, pois os pedidos deste mês ainda não foram feitos.
Quando não trabalhamos em uma livraria achamos que as pessoas que vão até lá são pessoas objetivas, que chegam sabendo o que querem. No entanto, olha aí esse carinha pra comprovar que as coisas não são bem assim.
Mas, continuando nossa conversa, aqui é sempre muito calmo. Ficamos sempre a esperar que o cliente nos aborde fazendo algum questionamento sobre o livro, o autor, o preço, essas coisas. Eu evito chegar junto ao cliente assim que ele entra na loja. Não quero parecer com aqueles vendedores de sapato chatos que, mal entramos na loja, já nos mostram sapatos ou sandálias que jamais compraríamos, mas, que para eles: “olhe só que coisa mais linda!”. Não, isso não! Prefiro aquele atendimento de loja chique lá do shopping da granfinada, que o vendedor apenas observa quem entra e, ao perceber alguma dúvida ou ao ser chamado, aparece perto do cliente para atendê-lo. Tem gente que acha que vendedor assim é vendedor esnobe, que atende com simpatia dependendo da cara de riqueza do cliente. Eu não penso assim, não. Acho até melhor esse tipo de atendimento, sem pressão.
– Moço, o senhor sabe dizer se tem o livro “O fio das missangas”, de Mia Couto?
– Deixe-me ver, só um minuto. Sim, temos sim. Irá levá-lo?
– Ah, que bom! Já procurei demais por este livro. Onde é o caixa?
– É só ir em frente. Muito obrigado!
A rotina aqui é essa, meu amigo. E, numa loja como esta, num país como o nosso, onde poucos lêem, a começar por mim mesmo, não vemos muitas pessoas por aqui. Agora, dá um pulinho na loja de sapatos da esquina pra você ver a diferença. Está apinhada de gente essa hora. Bom pra mim, só assim não tenho que ficar o tempo todo atrás de um e de outro pra atender. Sei que, nessa brincadeira, eu já estou trabalhando aqui na loja da dona Amália há umas oito semanas.
Logo nos primeiros quinze dias de trabalho – que, diga-se de passagem, foram semanas muito nubladas e chuvosas – apareceu aqui na loja um cliente muito diferente. Ele é magro, tem uma barba branca e longa. Parece um árabe. Mas, quero logo deixar claro que não tenho nada contra esse povo. É que não é muito comum por aqui pessoas com a feição como a daquele cliente. Mas, além de tudo isso, ele tem outra peculiaridade muito engraçada, apesar de trágica. Ele carrega o peso morto de uma das pernas com uma muleta. Por que é engraçado? Claro que não é a circunstância em si da perna morta, mas o fato de que ela parecia querer entrar na outra perna, assemelhando-se a uma vírgula. Sim, com o detalhe de que ela estava coberta com gesso, como para esconder sua própria deformidade.
Quando ele chega à loja, taciturno e com o semblante fechado, anda entre as estantes de livros, não sem alguma dificuldade – outra vez ele bateu a muleta num monte de livros que eu havia organizado um minuto antes na forma de espiral e derrubou todos eles – escolhe um livro e lê cada linha dele em voz alta, como que para uma platéia invisível, que observa atentamente cada sílaba, ponto e vírgula pronunciados. Como ele fica muito tempo no mesmo lugar, lendo o livro sempre em voz alta, nunca sei exatamente o quanto do livro ele consegue ler. Se não o lê todo, chega bem pertinho. Isso eu tenho certeza. Eu nunca o vi acompanhado por quem quer que seja, pai, mãe, irmão, esposa ou filho. É sempre sozinho que chega aqui na loja. O mais interessante é que antes dele aparecer por aqui eu nunca o tinha visto por essas bandas da Praça 1817. É claro que passa muita gente nessa rua, mas, quando você vem trabalhar todos os dias, você começa a ver que são quase sempre as mesmas pessoas que circulam por aqui.
Semana após semana ele vem à livraria e repete seu ritual, sempre às três horas da tarde, nem antes nem depois desse horário. No início, eu fiquei muito curioso para saber quem era aquela figura tão inusitada. Enquanto ele permanecia na loja, a cada minuto eu desejava que ele me chamasse para fazer uma pergunta que fosse, só para eu tentar ao menos descobrir o nome dele e de onde ele era. Mas, confesso que até hoje não consegui descobrir nada disso.
– Alberto, deixa de conversa com esse aí e vai atender o cliente ali!
Alberto, Alberto… Eu já disse para dona Amália que podia me chamar de Beto mesmo; todo mundo me chama assim desde a minha infância, tanto que às vezes até esqueço que me chamo Alberto. Eu já nem sei mais o que fazer para dona Amália me chamar de Beto, mas não vou mais ligar pra isso não, afinal, meu nome não é mesmo Alberto? Então!?
– Pois não, senhor! Posso ajudá-lo?
Como eu vinha nessa divagação sem futuro sobre meu nome, se era Alberto, Beto, essa coisa toda, nem me dei conta de quem era o cliente que dona Amália mandara atender. Pois não era o carinha da perna morta de quem eu estava falando! Meu susto foi tão grande que quase gaguejei ao perguntar o nome dele. Acho até que ele pensou que eu era gago de verdade. Mas a surpresa foi ainda maior quando ele respondeu que o nome dele era Alberto. Ele era meu xará! Você acredita nisso? Fiquei tão desnorteado que minha reação foi sair dali o mais rápido possível; o que fiz assim que ele respondeu à minha pergunta:
– Não, obrigado.
Saí dali direto para a sala da dona Amália, para contar-lhe o pouco que eu sabia da rotina do homem aqui na loja.
– Dona Amália, aquele cliente que a senhora pediu que eu atendesse vem aqui na loja toda semana, religiosamente. Ele lê alguns livros em voz alta e depois vai embora. Nunca apareceu aqui acompanhado.
– Será que ele não está observando o movimento da loja para nos assaltar, Alberto? Sei lá, hoje em dia está tudo tão perigoso. Morro de medo de assalto.
– Onde é que um homem desses, com todo respeito, tem condições de assaltar alguém, dona Amália?
Dona Amália é daquelas empresárias que vivem soltando fogo pelas ventas, manda aqui e acolá, dá grito em gente e tudo mais. No entanto, é só falar em assalto que ela fica mansinha, mansinha. Ela é muito nervosa com essa coisa de assalto, faz de um tudo para ter segurança aqui na loja. Já instalou câmeras de vigilância dentro e fora da loja e, além disso, contratou um segurança que passa vez ou outra aqui em frente para conferir se está tudo em ordem.
– Alberto, desde quando esse homem vem aqui na livraria, que eu nunca o vi por aqui?
– Já faz algumas semanas, dona Amália. A senhora nunca o viu porque ele só vem aqui às três horas da tarde e a senhora raramente está aqui nesse horário. Mas, não se preocupe não, dona Amália, ele parece ser totalmente inofensivo. A senhora não vê que ele mal consegue andar direito carregando aquela perna?
Ela não respondeu. Ficou na sala com uma cara de espanto, meditando sobre nossa conversa. E eu voltei para o salão de vendas, também refletindo, mas, não sobre a mesma coisa, e, sim, no meu encontro estabanado com o meu xará. Depois desse incidente, nunca mais falei com ele, pois ele nunca deu brecha para maiores diálogos. E assim os dias foram passando, as horas se somando e ele sempre a nos visitar, com dona Amália já sem ter medo do pobre. Eu tinha pena dele, solitário a entrar e sair de estórias, como se quisesse ser uma delas; com aquela perna morta, em crise por ser membro, querendo ser vírgula e eternizar-se, emaranhando-se nas linhas e parágrafos daquelas fantasias,
(Leitora assídua, desde a adolescência, Lizziane Negromonte Azevedo, monteirense de criação e coração, é advogada, cofundadora e coeditora da Boca Escancarada: Revista de Literatura e Arte. Possui diversos contos publicados pela Câmara Brasileira do Jovem Escritor, pelo Correio das Artes – Suplemento Literário do Jornal A União, do Estado da Paraíba – e pela Revista Boca Escancarada)
23:00 horas. O relógio deu uma volta completa sem que eu pudesse detê-lo, de forma que inapelavelmente é noite outra vez, ou seja, um insulto, golpe desferido à traição pelos ponteiros do relógio, bicos vorazes a perfurar-me miudamente e de vários pontos da cidade, notadamente os luminosos.
No entanto, restam-me ainda alguns ínfimos prazeres, como contemplar teus lábios quando pronuncias meu nome, traçando no ar a curva palavra de sempre. Tu, sem o saber, me devolves ao rol dos vivos, suave e abstrata Adriana, ainda a sobrescritar envelopes endereçados ao ilustríssimo senhor Raul Kreisker, num papel cujo timbre evoca remotamente uma ave (águia? escaravelho? a impressão é péssima) contudo quanto te sou grato pela delicada omissão do meu segundo nome, o ominoso Nepomuceno, omissão que não exclui a piedade, bem sei, como uma lembrança que se apaga cada dia mais um pouco, prenunciando o genuíno esquecimento, and yet, and yet…
Todavia não te parece absurdo estar escrevendo a apenas algumas horas do nosso encontro quando o mais sensato seria recorrer ao telefone, bastando esticar o braço, usar o, digamos, bom senso, perguntar como está, se queres ir ao cinema, puxa faz um frio do capeta, tenho saudades mas não, obstino-me a não ceder ao código imposto por este objeto que muda a forma mas não permite variações do alô fatal mesmo porque o que preciso te dizer não começa assim, é um pouco como o teu corpo desnudando-se sob minhas mãos e o fato de você tê-las guiado me lembrar extraordinariamente essas excursões onde está tudo previsto, das visitas aos monumentos às gorjetas, sem contar que também tinha algo de peregrinação a santuários feita por beatas em idade provecta (imagina o teu Raul num xale trescalando a naftalina, vela entre os dedos, o transe apoplético). Como se incontáveis peregrinos não me tivessem precedido, e uma nova multidão já não pressionasse às minhas costas para cair fora do sancta santorum do teu corpo obcenamente branco e lascivo e ainda querendo acreditar ser o primeiro, único e último tolo a te possuir – eu e meus pudores provincianos, eu, o deflorado a depositar minha flor murcha sobre teu altar, esquecido que já corre o ano de 1995 DC. e do que mais particularmente me interessa, isto é, o travo amargo na boca, a contração na alma e – já que estamos no assunto – a tua indiferença é alguma espécie de distinção? É com isto que contemplas mesmo o mais ocasional dos teus amantes?
Porque sequer isto, Adriana, não te serviste de mim, nem permitiste que eu o fizesse negando-me a loba faminta que ronda tuas insônias, tantas vezes falamos nela como dessa culpa acorrentada que ata tantas mãos, que silencia nossa boca, esta culpa que anda por aí e que parece ter existência própria junto à trôpega humanidade da qual, se não fazes objeção, ainda faço parte.
Não negue, Adriana, havia uma sentença sobre minha cabeça – pelo arco triunfante do teu orgasmo eu não passaria a despeito da alucinadas ternas furiosas arremetidas do meu membro exausto: mais fundo te penetrava, mais fugias, me devolvendo a mim, a quem retornava ainda mais só e nu e perdido. Era como se percorresse interminavelmente um túnel ao fim do qual me esperasse uma escada que bruscamente morresse no nada, um vácuo sem chão, sem teto, sem limites previsíveis e sempre o mesmo tema a se repetir insuportavelmente nada, nada, nada.
Assim seja, Adriana, assim foi e nada (sim, nada) poderá mudar este vertiginoso martírio (perdoa esta linguagem, este devassar daquilo que, de outra forma, seria uma amálgama de sons indistintos, disto que intraduzivelmente no engolfa neste cotidiano feito de contas de luz e extratos bancários, esta hidra a que chamamos realidade, não?).
Ah, minha suave e abstrata Adriana, não premeditei este encontro, acreditarias? Que aquela noite eu quisesse unicamente a ti? Apenas não sabia ser tão tarde, tão inútil.
Sim, te dou o direito de falares em auto-piedade e o mais: tens a ti mesma e ao teu querido Francisco, lá no Midwest – aquele envelope azul no tua cabeceira, a letra era dele, não?
Depois fiquei imaginando o que poderia conter esta carta à qual sequer aludiste porque, veja Adriana, não pensas que escapou-me por detrás desta dupla negação (porque antes foi teu corpo, eu ainda sei contar) do teu velado riso perverso de quem agita o osso diante do olhar molhado dum cão.
Minha dríade, se ao menos me tivesses negado três vezes eu te perdoaria, atento que sou aos passos do Cordeiro, todavia foram duas e, de resto, o que poderia esperar de ti, tão geminiana e dupla e ainda por cima com Mercúrio perfidamente empoleirado sobre o grau 19 de Gêmeos, a cavalo do teu ascendente, maldito doppelgänger, são quatro, são oito, são infinitas em tua casa de espelhos e, a propósito: qual delas é a imortal? E qual a que mente? Dos teus infinitos de perversidade… Ah, sim, as mulheres são criaturas esplêndidas, como gatos ou papoulas, guardiãs do que não sabem, feiticeiras do Grande Silêncio Estuporado, pisando distraidamente sobre envelopes azuis do Midwest, afrouxando sagrados laços impronunciáveis.
Lembra-te (e isto é uma ameaça), ainda sou o Inquisidor da Treva, o Destruidor Florido, então como negar-me a co-autoria de um ato consumado a dois? Acaso ficaste boba? Ou acaso fiquei eu? Hein? Optando pela segunda hipótese, inclino-me a confessar que me recuso categoricamente a prosseguir no papel que a vida inteira me propus (não ria, por favor) porque afinal de contas, minha cara, falando francamente, diga-me se viver por procuração não é um péssimo negócio? Deixar que as coisas aconteçam sem jamais dar as caras (e as costas) ao destino? E, por favor, esqueçamos a demiurgia, um homem se esconde porque tem medo e é tudo.
De modo que, desde o começo estavas certa, Adriana, não havia mesmo ninguém ao teu lado. O que julguei ser um triângulo (você, Francisco e este seu criado) desabrochou num terrível pentagrama: cinco são as pétalas da rosa, os dedos das mãos, as pontas da estrela do demônio, o número sagrado de Hermes três vezes Trimegisto, quintís e biquintís proliferam nas cartas estelares de Mozart e Van Gogh (Francisco, a esta altura, estará rindo, olá, Francisco, meu velho! Tão cioso quanto imodesto do próprio talento, diga-lhe isto assim que puder, por favor. Estás autorizada a fazê-lo. Eu deixo…).
Ah, Adriana, finalmente! Como aquele sujeito que não conseguiu fazer ponto algum na loteria esportiva, posso proclamar: esta máscara tornou-se meu verdadeiro rosto! Talvez seja por isso que te desejo ainda mais, já te disse, não? Não, não disse.
Doravante tu e Francisco são para mim a mesma pessoa (por obséquio, não me interrompa) – não a contraparte masculina e feminina, não é tão simples, diria antes que ambos são simétricos: opostos, mas perfeitamente iguais, correspondendo-se num salutar intercâmbio de livros, flores do campo, rótulos de vinho, passagens de trem, postais e originais extraviados, do que estou rigorosamente excluído, salvo na condição de personagem ou fantasma ou ambos.
Não. Ele não me mandou dizer uma só palavra para que minha alma seja salva.
Treva, silêncio e o vento a agitar os arbustos em torno do parque que avisto da janela deste hotel, aliás muito recomendável para suicidas.
Lembra daquele almoço em casa de Miranda quando, na volta, nos assombrou uma sinistra construção à beira da rodovia com a tabuleta “Hotel”? Júlia foi a primeira a falar: “Lugar ideal para suicídios. Principalmente por causa da placa. Está claro que isto é um hotel. Tão absurdamente hotel que o dono nem precisava comunicar-nos por escrito, o mesmo que botar placas explicativas em tudo, como mesa, cadeira, poste, Raul”. Rimos. Tu, Belisa, Francisco e até a arquiduquesa-ao-volante que no seu afã de arquiduquesa voltou-se toda para o banco detrás, permitindo, ato contínuo, que o automóvel coincidisse com uma valeta pouco menor que a fossa de Mindanau. “Par delicatésse ainda vai matar a todos nós”, gemeu Belisa que abomina qualquer entidade ao volante. Lembrei: “Nos romances ingleses do século XVIII todas as estalagens se chamam Star and Garter”, e Belisa, “e todas as matronas lembram um pudim de franjas”, e Júlia, “já Ulisses é infinitamente chato”, e provocando Francisco: “Também detesto Virgínia Woolf. Consegue ser ainda mais chata. Quando as mulheres entram numa parada, ganham longe…”, donde se seguiram quarenta e cinco minutos dum implacável e minucioso elogio do Passeio ao Farol ( só agora percebo que neste nome um presságio) até porque Francisco sempre morde a isca, tendo a bondade de nos excluir da conversa, dirigindo-se ostensivamente à Belisa e à arquiduquesa que concordavam entre divertidas e irônicas, já esquecidas do “Hotel”, embora Júlia e seu olhar cúmplice me fizesse saber que não, que nada seria esquecido.
Uma última inconfidência, minha pomba: quem é Maximilian? O nome cem vezes garatujado naquele teu caderno ginasiano? Teu novo amante? Não te preocupes, nada direi a Francisco, e mesmo que o faça, tenho impressão que nem ouvirá, últimamente suas cartas mais parecem esses diálogos de surdos.
Na última falava duma luz azulada, ou melhor, absolutamente não falava de luz alguma, contava uma história de fantasmas ou algo assim, todavia quando terminei a leitura, a atmosfera estava embebida de saudades e tristeza e desolação e todas essas palavras cujo frio espectro envolvem o sofrimento de alguém mergulhado no azul longínquo das pradarias do Midwest.
Então era quase natural que eu me sentisse como Jay Gatsby, como alguém a cumprir uma invisível lei não escrita, precisamente como Gatsby ao divisar, pela primeira vez, na luz ao extremo do ancoradouro, o farol do destino.
Ele (assim como eu) viera de muitíssimo longe e seu sonho, naquele momento, deve ter-lhe parecido tão próximo. Ambos, ainda que em extremos opostos (talvez minha luz fosse azul e não verde como a de Gatsby) acreditamos na luz distante, num esplêndido futuro que, sem saber, ano após ano, nos afastava um do outro (a mim e a Francisco) obrigando-me incessantemente a retornar, voltar ao passado, refazer o sonho gota a gota, tentar possuir uma mulher ou outro homem quando é por ele, apenas por ele, unicamente por Francisco que meu corpo arde em febre.
Exatamente como Gatsby: eu e meu segredo, eu e meu destino, minha irremediável servidão.
………………………………………………………………..Eternamente seu, Raul K.
(A escritora paulistana Márcia Denser publicou, entre outros, Tango fantasma (1977), O animal dos motéis (1981), Exercícios para o pecado (1984), A ponte das estrelas (Best-Seller, 1990), Caim (Record, 2006), Toda prosa II – obra escolhida (Record, 2008). É traduzida em nove países e em dez línguas. Dois de seus contos – “O vampiro da Alameda Casabranca” e “Hell’s Angel“ – foram incluídos nos Cem melhores contos brasileiros do século, organizado por Ítalo Moriconi, sendo que “Hell’s Angel“ está também entre os Cem melhores contos eróticos universais. Mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP, é pesquisadora de literatura e jornalista. Foi curadora de literatura da Biblioteca Sérgio Milliet em São Paulo)
Antes de se estabelecer o equilíbrio, o mundo real e o mundo ideal não se olhavam face a face.
O Zohar
Débil, estúpido, soberbo, demoníaco, louco, estranho, doente, sem respeito ao sagrado e às leis; palavras sinônimas ou de similitude clara que definem com a precisão de um cirurgião meu caracter. Ó, como não adorá-las e admirar-se diante delas sentindo-se um deus, um deus cuja índole o eleva acima dos mortais? Bem que eu deveria enaltecer-me ante a tal nomeação adquirida por atos reprováveis – louváveis? Não sei –, no entanto, sinto-me um símio no meio de homens, tentando em vão, como eles, manter-se em pé. E ainda que busque desviar-me do meu caracter, a natureza impele-me a segui-lo. Sou então, por isso, um mau caracter; inevitavelmente um mau caracter. Parafraseando o apóstolo, vejo que vive nos meus membros outra lei. Não me arrependo de sê-lo assim, mas admitindo a corrupção de meu espírito, decidi criar um ser melhor que eu, alguém cujas ações pudessem evitar as minhas. Comparei-o ao melhor dos seres possíveis imaginados por Deus, e o fiz.
No começo… Antes do começo, assim que o imaginei, pensei no que ele faria de bom para mim, ainda que eu não saiba conceituar o bom. Determinei o seu propósito e as condições de existência que permitiriam sua durabilidade como ficção. Pensei tal como um sábio a liberdade desta ficção e os limites a ela impostos por sua natureza irreal, e o que nela haveria de maravilhoso e de verossimilhante, e o que possibilitaria a ela romper com as duas como também o que por meio de ambas poderia desenvolver. Pensei, portanto, nela como indivíduo. Procurei sua alma nos símbolos, na geometria dos símbolos, nas palavras, nas frases, no texto. Procurei o seu vazio. E a cada imagem criada ela surgia mais radiante e perfeita. A mim ela pareceu boa. Certamente a ficção era melhor que o real. Era lógico acreditar que ela permitiria a mim, evoluir – noutras palavras, escapar a minha vil condição. Considerei, contudo, se os limites da folha seriam para ela um impedimento físico para se desenvolver livremente ou se como um carrapato habituado à superfície, não saberia encontrar tais limites, julgando, logo, ser aquele espaço o seu mundo, e se, caso descobrisse, como reagiria. Mas isto era um equívoco de minha parte, jamais uma existência ficcional poderia romper os limites da folha e se tornar real, assim como jamais o real poderia converter-se à ficção. Ao menos… Após muito pensar, criei a ficção de mim mesmo. Criei-a no momento em que escrevi seu nome em um lugar qualquer num tempo qualquer.
A ficção não era perfeita, todavia, por ela tudo podia ser melhor; antes de tomar qualquer decisão, fazia-a com que agisse antes de mim; escrevia a cena, o momento da ação, o que eu faria caso se… de um modo que na realidade não agiria, de forma tal que, eu poderia ponderar meus caminhos e evitá-los. Acreditei com muita fé que sua existência me curaria. Mas a ficção não tem por finalidade curar o real, não pertence a ela como a um escultor modelar a realidade; sua função é outra, contaminar. Mesmo assim, depositar a fé nela não ia de encontro ao que eu mesmo lhe havia estabelecido.
Passei a mergulhar em seu símbolo, convenci-me de sua beleza, e cri no seu milagre. Antes de ir ao trabalho, antes de amar minha esposa, antes de pensar, antes de respirar, antes que o dia começasse, antes que o outro dia começasse, antes, antes, antes, antes mesmo de, a ficção era e por ela tudo mais era e sem ela nada havia de ser. E com ela meus dias se tornaram melhores. Por meio da ficção eu percebi ser possível evitar o mal. Meu casamento, que antes estava uma porcaria, alcançou o status de sublime, tudo porque a ficção havia me dito como seria se. Ora, era verdadeiro que eu havia me convertido à ficção, contudo ela jamais se converteria a mim. Então, ainda que sua existência me permitisse ser outro de mim mesmo, era impossível ela se tornar eu. Havia um limite intransponível. No entanto, ao olhar para minha vida, semanas após tê-la criado, era inevitável não pensar o quanto em tudo estava a sua essência. Quisera sê-la, mas tornar-me ela, como já disse, era impossível. Eu procurei convencer a ficção de se tornar real, eu busquei de todo modo arrancá-la daquelas folhas e outorgar-lhe a dádiva de estar em meu lugar; eu lhe fiz uma proposta irrecusável, a qual qualquer outra ficção aceitaria sem titubear, mas ela rejeitou.
A ficção rejeitou seu autor – e, ainda que esta rejeição fosse a prova de sua liberdade, continuei a acreditar que ela existia sob o meu querer; enganei-me; a verdade era que sua liberdade demonstrava incontestavelmente o quanto ela existia sem mim. A ficção não dependia mais do seu autor. Depois disso, não houve dia melhor. Todas as escolhas se tornaram acidentais; a vida reduziu-se a um acidente, quando antes se podia chamá-la milagre. Era como estar diante do quadro, Reprodução proibida, de Magritte, por mais que olhe você não vê o rosto. Voltei a fumar cigarro, ouvir blackmetal e tomar banho com o corpo mergulhado em bolsas de gelo seco. Minha esposa mudou-se para a casa dos pais. Tive um companheiro matinal que chegava às 6hs: o jornal – mas, depois de conversarmos, eu era forçado a rasgá-lo e queimar tudo o que ele havia dito na lareira. Quando à noite eu necessitava de uma companhia, pousava no pinheiro da rua ao lado, uma coruja branca e cantava-me uma nênia, ao som dela eu adormecia. Quem, no entanto, suportaria esta vida miserável? Quem, no mundo, admitiria a realidade sem manifestar asco? Eu tinha fome… fome da ficção. Pensei no rosto que não via… tornou-se necessário forçá-la a mostrar a face.
Não precisei de tempo para pensar em como, a resposta, sabia-a desde o princípio. Coloquei uma página em branco em frente à página onde está o último parágrafo, e aconteceu o que imaginei: a ficção olhou-se a si mesma no vazio da outra página. E eu, de fora, vi seu rosto. Ela percebeu que a havia descoberto e procurou se esconder, mas era tarde, meu olhar a detivera.
Novamente a ficção me pertencia… me pertence, entretanto, até o momento em que cansado rasgue suas páginas ou até a hora em que ela declare minha morte.
(Anderson Fonseca formou-se em Letras e Literaturas de Língua Portuguesa pela Universidade Estácio de Sá (RJ). É escritor e crítico literário. Publicou os livros Alucinação (poesia, 2009) e Notas de Pensamentos Incomuns (contos, 2011), organiza a antologia Veredas: Caminhos do Conto Contemporâneo Brasileiro (Ed. Oito e Meio, 2013). Editou a revista Confraria (Brasil / Portugal, edição impressa, 2009, Ed. Confraria do Vento); editor do selo Orpheu (2010-2012), selo de poesias editado em parceria com a editora Multifoco (RJ). Tem textos publicados em diversas revistas. Trabalha como leitor crítico e revisor de editoras e agências literárias)
“Se metade do meu coração
está aqui, Doutor, a outra
metade está na China com
o exército que flui em
direção ao Rio Amarelo.”
Angina Pectoris – Nazim
Hikmet
Corações de Silício – pulsam nessa percepção para além de Bits e Quarks baterias de Volts impessoais. Tragamos com a retina fontes que pulsam em HD`s e nuvens abrangidas de paradigmas de programação. Crias frankstenianas escoradas por mesas inertes e contraditoriamente giratórias. A comunicação visual é acelerada por meio de janelas cravadas em caixas quadradas ou slim. Redes sociais velam a vigília de uma Legião – superação das elites humanas à parábola do Nazareno (expansão universal dentro do buraco da agulha).
Corações …de… Silício – conservar a
humanidade. é questão relativa e anexa às
HQs e heróis 3D ou de poliuretano. Anos
de ..petições e .exercícios de altruísmo de
calendário .… Afinidades com Karmas e
Dharmas e expansão mental editada pela
engenharia …genética. Arte adaptada aos
pixels, .. ferramentas … comprimidas
no winrar. .– ..foice e martelo in Botons e
Cartões de Crédito.……………………………….
Corações de Silício – coletivo iluminado por telas de signos édenizados – biblioteca de Alexandria abrigada no cisco de uma nano-unha e frequentada diariamente por cyberbactérias. A promoção do eu-anódino em seus quinze minutos de infâmia. Estímulos assexuados e eunucos – precipita a ação e condena o corpo à condição uniforme.
Corações de Silício – nata do Oriente
navegando em mares ocidentais.
Feminino e Masculino habitando o
andrógino e as universais idades.
Sais antidepressivos, antimaníacos,
antikarmicos. Ornitóptero de pedra
colado, limitado pelo seu pulso
potencial e temível. Crianças-fuhrer
cortejando bestas apocalípticas. Deus
Capital venerado em seus templos-
shoppings (na santa missa de
domingo).
Corações de Silício – carcaça altíssima na piramide vida-matéria – conduz fluxos aos retos orifícios e vias chupadas pela yankeeannélide. Arranca a estrutura Animaanimal e libera a energia nas cavidades interiores. Pneuma despertada ao campo fonte – voltagem exata e evoluente em software original.
Corações de Silício – autogestão
bakuniana e desmistificação do criador e
do patriota. Bomba e bombeador
detectados no silêncio que medita a
clarividência e os intentos de uma
humanidade criativa e com License
Commons – capaz de compartilhar o seu
melhor sem apontar seus cielos ou cercas.
Cor e ações em uma orbe policristalina tingida de silíca e mitos.
***
A Queda
Embrutecida pela solidão não consegue retribuir as rosas deixadas no seu caminho. Alguém surge de mansinho e perfura o seu coração com notícias trêmulas e catastróficas. Caída afasta a única corda de esperança – não anseia elevação e muito menos últimas chances. Abraçada ao chão sorri expondo os dentes maltratados de tanto roer ossos. Imagina um 3×4 tirado ali e se envaidece “experiência de fundo do poço deveria constar em qualquer curriculum vitae”.
***
Angelus Blasé
Frito reminiscências temperadas com sais de tortura. Cavei as mãos para despejar sucos de minha filantropia. Deguste e sorva nossa carne sem essa face acinzentada por transes, escute os ditados, escreva-os e depois os guarde em um arquivo antes que a espada de significações recorte sua imaginação e a ofereça aos pássaros carniceiros da Manufatura. Representamos uma espécie sem roupagem: demônios doces e poliglotas, leitores de clássicos e amantes de uma audaciosa revolução. Caçamos qualquer um que se maquia de vítima ou simplesmente se apropria da sombra alheia – caçamos para formar alianças e não para ao ato de eliminação (que fique claro antes mesmo de mantermos um grau de compreensão mútua entre o leitor e o que se lê). Existem tantas metáforas que nos colorem como o lado sombrio da humanidade que já não podemos nos abrigar na nossa naturalidade blasé – agora somos luminosos homens de branco, esboçadores de alegres fisionomias e praticantes do altruísmo de calendário (com hora e data marcada).
Observação: É só assinar na última linha e depois chuviscar um pouco do seu vermelho.
(Lisa Alves nasceu na cidade de Araxá/MG e vive há mais de dez anos em Brasília/DF. Trabalha com arte digital e projetos ambientais. Possui poemas publicados em três antologias poéticas: Trilhas (CBJE, Rio de Janeiro, 2007), Poema Capital (Eloisa Cartonera, Buenos Aires, 2011) e Cumplicidade das Letras (Perse, 2012). Divulga sua arte em vários sítios culturais e atualmente é colunista na Revista Ellenismos)
Regrinha básica para uma boa leitura de ficção ou de poesia, que até alguns críticos profissionais ignoram às vezes – falta-lhes generosidade, um pouco mais de atenção, de paciência, de humildade? O que, numa leitura superficial e apressada, pode parecer um movimento errado, grotesco ou mal coreografado, talvez seja na verdade um belo golpe de imaginação, tramado para produzir um efeito de sentido necessário, inevitável até, se considerarmos a obra em seus próprios termos e propósitos – um golpe sem o qual o texto literário não vence a desconfiança e a indiferença do leitor.
Acabei de pensar nisso ao reler O Olho, conto de Myriam Campello, que um dia me desagradou por uma ou outra metáfora mais tosca. Como poderia ser diferente, porém, se o narrador, logo no primeiro parágrafo, avisa-nos: “Não sou escritor, isso vê-se. […] Se deito ao papel notícias do vendaval que no último mês desmantelou minha vida é por justamente sentir-me em pedaços”?
É natural que um sujeito desses, poeta amador e casual, apele para imagens banais e cafonas do tipo: “Se só entre nós permitimos que a espuma do amor flua e se derrame?”. Como também é muito verossímil e ficcional que em outros trechos, arrebatado pelos acontecimentos excepcionais da narrativa, lhe ocorram observações mais agudas, bem arrematadas e poéticas. Acontece quando ele se refere, por exemplo, a “um bom dia reservado que marca limites”, ou ao comentar um desejo muito intenso e proibido, descrevendo-o como uma “avalanche que se nutre do próprio excesso para melhor derrubar e engolir”.
Está claro para mim agora, claríssimo: o fato de haver algumas metáforas mais preciosas do que outras nessa história nada tem a ver com a qualidade da autora e da sua prosa; é uma exigência do mundo ficcional do conto O Olho, um mundo animado pelo espanto de um narrador literariamente mal equipado para retratar uma experiência extraordinária.
O valor estético dessa irregularidade poética seria flagrante para o hermenêuta profissional, um perito em prestidigitação literária, muito capaz de fazer ver o todo nas partes ao mesmo tempo em que mostra as partes no todo, aproximando os dois planos até que eles se confundam, do mesmo jeito que a gente consegue fazer com o céu e o mar num dia bem azul, muito liso e manso.
Apesar de todo o meu respeito para com tal ciência interpretativa, que não é pouco, eu não havia pensado nela até o último parágrafo, confesso. Tentava apenas adivinhar o movimento de imaginação que fez Myriam Campello por o protagonista a misturar poesia com clichês. Se a manobra ressuscitou ou não a musa de O Olho, eu não sei, e, para ser bem sincero, nem me interessa saber, pois o que eu queria mesmo era dar um pouco mais de exercício à minha.
(Héber Sales, administrador, publicitário, escreve. Tem poemas, crônicas, ensaios e entrevistas publicados na revista Germina, Portal Cronópios, Digestivo Cultural, Portal Literal, Mallarmargens e nestes Diversos Afins)
Moleque, imaginava que, homem feito, eu seria alguma espécie de guerreiro, herói de batalhas, conquistador (nunca um médico, como meu pai, ou contador). Transformei-me, por fim, num fiscal da Secretaria de Trânsito e Transportes da prefeitura: o bloquinho e a caneta na mão, óculos escuros pro romantismo não morrer.
O ônibus era o 016, linha 20, que entrava pelo Alto do Basílio, cortava Palmares e descia lá na Avenida Esperança, perto da Polícia Federal. Minha função era anotar o número da catraca toda vez que chegássemos ao ponto final, e o objetivo da missão, como o pessoal da Secretaria gostava de falar, era descobrir se o trajeto suportaria um ônibus maior. Eu sabia que não, mas não fazia diferença: os diretores e os seus secretários, com suas caras brutas e mal humoradas, quase nunca seguiam a lógica ou a opinião dos fiscais na hora de tomar as decisões.
Eu subia e descia as ladeiras olhando para o mar lá embaixo, pensando que, séculos antes, centenas de homens haviam cruzado aquelas águas em busca de riquezas, amores e salvação – o sangue humano, nunca derramado em vão. Agora, cruzando os morros, eu só buscava um pouquinho de emoção.
O tempo, de uma maneira ou de outra, acabava passando, da mesma forma como passavam as ruas e as janelas que eu investigava. Quem sabe a vida, minha e das pessoas que eu via, se resumisse àquilo: a sombra dos prédios e o sol marcando o asfalto, as tardes sonolentas, uma curiosidade infantil, a melancolia dos lugares e dos dias.
A empreitada acabava perto das sete da noite. O 016 me deixava a dois quarteirões de casa. Eu apertava o passo porque era justamente nessa hora que as costas começavam a doer.
Naquela noite, no entanto, enquanto eu caminhava distraído, coincidentemente pensando na história dos Aqueus (e em Aquiles, que, antes da flechada, vingou Peleu, do jeito que previram), havia uma garota lá, do outro lado da rua, gritando e assobiando pra mim. Tinha mais ou menos vinte e poucos anos, usava um short largo, estilo surfista, um top cor de abóbora e marrom. Linda não era, mas a gente nem sempre pode escolher. O mundo aperta o laço pra quem já passou dos trinta e tantos e não vingou.
– E aí, gato, tá afim?
– Tô – respondi sem pensar muito. – Quanto é?
– Trinta.
– Ela tinha uma boca carnuda, os seios grandes e pontudos.
– Tenho doze – falei.
Ficamos parados, nos encarando. Fazia frio. Eu pensava que era um tanto Aquiles também, o destemido guerreiro encarando a vida e suas provações.
– Com doze, gato, é rapidinho – ela disse, a testa franzida, o dedo me apontando a direção.
E a transcendência e a eternidade nos fundos de uma serraria em alguma noite sem estrelas de um ano que não lembro mais. Eu não sabia se era um guerreiro usufruindo das conquistas da vitória, o fiscal de trânsito e transportes da prefeitura rumo à salvação ou o sujeito ultrapassado e perdido no labirinto dos anos e da vida, gastando a grana do cigarro pra beliscar a alma. Não encontrava a resposta, mas concluí que naquele instante não necessitava encontrar: me bastava sentir, indo um pouco pra frente e pra trás, com os olhos fechados, tentando, entre as pilhas de cedros, vinháticos e putumujús, fazer valer a vida, o sangue que corria nas veias e os meus doze reais.
(Rodrigo Melo é ilheense, nascido em 1971, ano do javali, da marcha contra a guerra do Vietnan, ano em que Neruda vingou. De 71 pra cá, escreveu contos, alguns editados em revistas e jornais, e poemas nunca lidos ou mostrados. “O sangue que corre nas veias” (Editora Mondrongo – Ilhéus – BA – 2013) é seu primeiro livro. Se pudesse, começaria com o segundo)
faz a cama como quem veste a noiva e não dorme sobre. o pouco que se diria sobre este jovem não se daria à história. é como aconselhar alguém a não respirar mais o ar, dizer que é pura alegoria, luxo demais. estou tocada pelo fogo. há também o fato de que não gosto de dizer o rapaz. ele me chama. quando o digo, ele me chama. mas bem, faz a cama como quem veste a noiva e não dorme sobre. veste-se como aos dias, é um mancebo cotidiano. hospeda-se onde cessa. sempre. é uma preguiça feita. é também essa espécie de hotel de esquina onde raios de sol e partes de luar só entram se convidados. não uma casa, é hotel de esquina, pois que pura cintura. não bebe café nem liga pra conhaque. serve-se de leite morno e não dança bem, não dança bem nem querendo pretender passinhos engraçados. não nos roçamos. aos seis anos tomou uma surra dum buldogue de ladeira e quase perdeu-se do nariz. ele não diz, mas sei que ama a minha voz, pois que falo a ele. falo a ele para ecoar o menino. e minto. o menino não faz a cama. a cama o faz. sua noiva, sua cama. disse que o pouco que se diria sobre este jovem não se daria à história. minto. oh, Deus, minto tanto. neste hotel, as esquinas dos espelhos se dobram, os corredores se cruzam e se perdem tanto, todas as janelas se lamentam e então prosam. este é o nome do menino.
***
seus parágrafos
digo que há sempre um leitor. na escuridão. na chuva. no ponto de ônibus, entre tantos que não, por exemplo, na biblioteca poderia não haver. e o leitor é instituto flamejando a cabeça besta e os óculos respingados, boneco vodu recheado de nada para que o livro entre ao leitor, faça-se o leitor. é besta e é servidor e como é bonita a cara do leitor. não ter vergonha, não ter destino, consumida cara por este sal de esperanças desgraçadas. na praça, na fila do açougue, onde houver aglomeração, lá estará o leitor, onde houver espaço, onde houver encaixe, onde não houver, no avião, onde não há, poderia haver. deixa-se respirar e existir pelo manto que o cobre, o leitor é súbito. emprestado à paisagem, divindade caridosa, silente, o leitor. o leitor do quando alguém a pedir informação, o leitor gesticulando sem estar ali, o leitor. escondido e infiel, agora estará lendo um suspense, em casa, ao lado do abajur tenro, o leitor e o gato do leitor, o café esfriando ao lado do leitor e o leitor ao fim do livro, como que num gesto de súplica e horror, aplacado e um tanto decepcionado, enfim volta a ser gente no clique que apaga a luz, derrubando o café já frio, espantando o gato do leitor que não mais, o leitor.
***
seus queijos
(Para Gabraz Sanna)
parte já o trem com jeito de sino. vai já partir. numa das janelas sem vidro está o homem bom. Gabriel é de viajar sozinho e leva no colo uma sacola com queijos e doces caseiros. fazia tanto, contando em tempo, que Gabriel não via a mãe e esta o fez levar sete dos queijos e três dos potes de doce que é o doce-de-leite, não o argentino, diz a mãe, o argentino não presta, esse faço eu, gritava, que gostava de gritar. ao lado de Gabriel senta-se uma senhora já tomada pelo conhaque, fumando feito uma senhora muito fumante e que podia muito bem ter se escavado em outro lugar do vagão quase completamente vazio. Gabriel é este homem bom que não dirá coisa alguma, não se levantará rumando outro assento, não Gabriel, Gabriel não. a senhora roça o homem bom, ela não tem jeito mesmo, é uma joça duma senhora, enfia o dedo na beirada da sacola, espia os queijos, ri como joça muito gargalhosa. e agora estarão passando pelas fazendas e Gabriel fingirá esse interesse absurdo pelas manchas que fazem o rebanho no pasto, pensa em mapas, são mapas, são estados e cidades as manchas que fazem. a senhora o cutuca na bochecha, examina sua camisa de homem bom. o cigarro dela já quase todo consumido e a cinza quase toda aposentando-se no queijo do cimo. Gabriel cutuca um dos parafusos do banco da frente, são globos, planetas, são planetas, lá vivem criaturas que, pensa gritado, que gostava de pensar assim, gritado, criaturas que. a senhora pega a cabeça de Gabriel, desmoronada do cigarro que já não mais, que jaz na sacola sobre o último queijo, junto às cinzas, pega a cabeça do homem bom, toma o rosto dele e por uma eternidade, com a língua e os dentes, com o sexo e a tremedeira duma ressaca bem próxima, estuda um estudo mancado do que é o rosto e o dorso de um homem tão bom. engole e então o cospe, mastiga e então o rumina, Gabriel é a pele seca da mulher vivida, é a vulva e é a suja lentidão. a senhora o embrulha em pura libertinagem molenga e malpassada para depois o ejetar. embrulha e o ejeta. e agora o Gabriel não. o homem bom não estará mais ali. Gabriel, o bom, terá sumido com os entrecortes de sombra e de sol, uma ou duas estações atrás. o Gabriel que fica é tomado pela senhora ladrona depravação, é tomado de luxúria e despreocupação. filho do mal, agora é um homem vermelho e alto que desce ao Rio de Janeiro sem instinto subsidiário. ele não é mais uma filial. a vida se ribomba por ele e tudo é calor e umidade. a senhora, os queijos e o doce seguem viagem. não esse Gabriel. esse não.
mas acabar assim o guloso recomeço de vida de Gabriel, oh, não poderia.
agora ou mato Gabriel ou ele me mata. e assim é.
segue a bandidagem, segue a senhora, seguem os queijos e o doce.
segue o trem com jeito de sino. fica um homem, fica sua pujança, coisa abusada debruçada na ribalta da mácula.
***
suas faces
cresce o boi, os porcos, cresce a lã, cresce a muié. o céu faz cosquinha nos orvido dos bão de coração. ah, a vida pequeninha do homem de saia rosada. tem dia que limpa o chiqueiro e tem dia que não, que se limpa não chamava chiqueiro, não. tosa Carla, sua única ovelha. pretinha-pretinha é a Carla, a ovelhinha do homem de saia que faz café, faz pão de milho, fez curso de tricô lá na comunidade do Amparo, com a mulherada do Amparo pra tricotar e tricotou: fez três lindos cachecóis pra Carla, friorenta que só, tadinha, estranhando a intimidade com a lã. teve o dia em que o boi, a muié e os porcos do homem de saia fugiram e não voltaram. teve o dia em que Carla quis fugir e não foi, ficou presa no farpado. e é assim: Carla e o homem de saia. a cadeira de balanço com o homem de saia e Carla. e, claro, o céu fazendo cosquinha nos orvido dos bão. os bicho e a muié andarão bebeno e brigano na estrada, cabadibronco. UMA HORA ES AVORTA, CARLA. UMA HORA ES AVORTA. CAUSEDEQUE AVORTA É AVESS DI SAÍ. Carla pensa: ÉÉÉ-É-É-É.
(sou carla diacov. de qualquer forma. não me importa tanto ser. e também vou e volto e babo durante. nasci (09/04/1975) e moro em São Bernardo do Campo e brinquei na praça-dos-meninos. morei a Londrina e ela a mim. fiz teatro e me desfiz. então escrevo e sei que vou, mas volto. de qualquer forma. e gosto tanto de pão de forma com amendocrem. de qualquer forma, que é como eu sou, mas volto. Babando)
Paisagem com cavalo (Editora 7Letras)é um romance-ensaio, uma metaficção, uma narrativa que brinca e desloca os conceitos literários. Já na página de abertura, deparamo-nos com um narrador nada complacente com o leitor, é um narrador saído das profundezas do subsolo. Embora se trate de um romance de estreia, ouso afirmar que Halley Margon queimou tantos outros antes deste, recuso-me a acreditar que estou lidando com um romancista inaugural.
Halley é o tipo de escritor que não precisa mendigar por leitores, não espera aflito por eles, até suspeito que os renega*. Mas, se por acaso os conquista, não os subestima. O autor em questão não precisa alimentar e nem manter os cães na soleira, quem decide segui-lo terá que acompanhar seus devaneios, embrenhar-se nas suas matas fechadas por conta própria, porque ninguém mais dormirá um sono sem pesadelos, ninguém sairá ileso ao corte de sua narrativa. Como o narrador alerta, a previsibilidade é uma das características mais nobres do aço. Talvez, o autor comungue dessa opinião, pois ele não tem medo de começar o romance contando sobre um suposto assassinato. Tal ousadia é a marca dos grandes, dos destemidos, como Sábato em O túnel. Ele tem essa coragem porque não precisa de leitores, somos nós quem precisamos dele.
Encontramos, nesse romance, todo tipo de linguagem. Em algumas partes, experimentamos uma linguagem mais poética, em outras, mais filosófica, em outras, tão fria e direta que se assemelha a uma literatura médica.
Tanto a arquitetura quanto a linguagem desse romance são impressionantes, ainda mais em uma época como a nossa em que se procriam (como se procriam bactérias e tão nocivas quanto) fórmulas fáceis. Ele não é um autor que acredita na facilidade, no enxugamento das frases, na eliminação da língua, é experimental e sabe que é necessário se submeter aos caprichos da escrita. Sabe que a escrita se esconde nas brechas, nas lacunas, nos devires, no fora de Blanchot. A língua é um fosso e apenas os escritores autênticos têm permissão para escavá-la.
No final do trajeto, percebemos que o verdadeiro drama relatado não é o assassinato, ele é ínfimo comparado ao resto. A verdadeira tragédia é o esquartejamento do homem contemporâneo, é a apresentação de um sistema (político, social, econômico, pessoal) precário, de engrenagens que não funcionam, não acoplam. A tragédia é a exposição de rostos sem face, de rostos suturados, de uma humanidade em estágio avançado de putrefação.
* O ouvinte não tem nenhuma importância. Não é para alguém que você tanto anseia contar. Você apenas conta/relata porque precisa. (p. 19)
(Marcia Barbieri é paulista. Possui textos publicados nas Revistas Literárias Coyote, Cronópios, Germina, Escritoras Suicidas e Meio Tom. Tem três livros publicados: dois de contos e um romance. É colunista da Revista Literária O BULE)
Para quem se embrenha pelo pantanoso terreno da criação literária, talvez não haja desafio maior do que adentrar as alamedas do erotismo. E não é simplesmente isso. O dilema que é posto aqui remonta à hercúlea tarefa de se transpor as muradas do óbvio e da gratuidade, construindo uma narrativa que se firme apartada de elaborações banais e, por assim dizer, descartáveis.
Se serve de consolo, há quem ainda consiga materializar em palavras impulsos valiosos numa literatura que se digne a decifrar certos esconderijos da carne. É quando um autor, utilizando-se de recursos cuidadosamente arquitetados, consegue efeitos que redimensionam a experiência de se estar vivo. Exemplo disso é o que acontece com Carnebruta (Ed. Apicuri/ Oito e Meio), livro de contos de Rodrigo Novaes de Almeida. Nele, o escritor, mais do que nos apresentar situações e cenários envoltos numa forte carga sexual, propõe um percurso por outros tantos becos do homem.
Conduzindo uma obra esculpida em carne e palavras, Rodrigo não nos conta boas novas nem tampouco atiça descobertas próprias do instinto humano. Se a cada um de nós é dada a faculdade de conhecer do próprio corpo um receptáculo portentoso do prazer, por outro lado, a mera representação de um desfrutar dos sentidos dá lugar a uma constatação de que o gozo maior se instala na crueza do ser.
Em Carnebruta, a pulsão sexual deixa de lado o simplismo da contemplação e canaliza suas forças para cruzar certos labirintos. E, assim, seu autor aposta em narrativas decididas, muitas vezes diretas, viscerais e ácidas, como se a intenção fosse golpear as percepções dos leitores mais desavisados. Não há espaço para devaneios, tampouco delírios baratos. Nesta viagem, somos convidados a perceber alguns aspectos que põem em xeque nossas vãs convicções, chacoalhando quaisquer enquadramentos que se pretendam moralistas.
Rodrigo é, antes de tudo, um provocador, tanto em seu modo de desarrumar os móveis da secular “casa dos costumes” quanto pelo fato de celebrar as pequenas epifanias da carne nossa de cada dia. Um jogo cênico vibra por entre seus contos, fazendo-nos crer que estamos diante de um livro de imagens. Numa aproximação com o cinema, os relatos desfilam arremates dignos de um bom curta-metragem. Seus personagens sabem tão pouco de suas imprecisas trajetórias como qualquer mortal que se preze.
Engana-se quem pensa que Rodrigo Novaes de Almeida, soando, alguns momentos, pornográfico, concentra seus esforços apenas numa frente. O percurso em Carnebruta visita todo tipo de paisagem, desde a mais cotidiana possível até aquela que é fruto de nossa projeção imaterial. Nesse ínterim, há espaço para uma curiosa nostalgia do futuro, marcada em passagens como as do conto inicial Valete-de-espadas. Nele, a “oportunidade única de uma segunda vida” contrasta com as inúmeras mortes que podemos experimentar quando nos achamos absolutamente vivos e respirando.
Com doses muito bem aplicadas de sarcasmo, algumas passagens do livro têm um arremate que lembra Nelson Rodrigues, sobretudo quando o assunto é a surpresa de certas revelações, encerradas no porão da consciência dos personagens. No confronto com o mundo de aparências ao qual estamos acostumados, Rodrigo posiciona o homem em toda a extensão de sua autofagia, traído que está pelos sentidos e pela miopia inerente à existência.
Carnebruta é um roteiro de percursos que retiram da vida seu véu sobejamente pudico. Demovendo excessos, seu autor forja os idiomas da pele e os converte em instrumentos hábeis das diversas e malfadadas travessias que fazemos. Mais do que desnudar a matéria que habitamos, é a alma quem aparece, arranhada e nada impune, a flutuar nas águas turvas do existir. Melhor assim, pois ao menos em parte estamos quites com nossos subterrâneos.