Categorias
74ª Leva - 12/2012 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa III

Rodrigo Novaes de Almeida

 

 

Foto: Catharina Suleiman

 

 

 

Carnebruta 

 

Mas pobre daquele que não pode se dar a um prazer
sem pedir antes a permissão dos outros.
(O lobo da estepe, Herman Hesse)

Nós éramos fio de faca rasgando a sua garganta. [VOCÊ] acorda, deixa a cama e anda pelo apartamento. Seu próprio grito o despertara. Som inumano em carne humana. Água fria para lavar o rosto e água fria para saciar a sede, nós éramos fumaça e veneno atravessando a sua garganta. Para dentro e para fora: [VOCÊ] fuma um Marlboro vermelho na varanda da sala. Pela primeira vez em anos, é a carne distensionada. Liberada a voz abissal, nós éramos necessidade. [VOCÊ] pensa: estão todos quebrados. [VOCÊ] vê adiante, presa a um muro de pedra, uma placa com estas palavras: mata o homem que odeia, faça da rapinagem teu ofício – se tiver sucesso, teu roubo será conquista e tua vingança será a guerra. E [VOCÊ] pensa: vai ser triste, sim. Mas a carne tem necessidades… Por que diabos não há espelho nesse banheiro, pergunta-se. Nem no quarto, nem no resto da casa. [VOCÊ] lava as mãos ensaguentadas na pia do banheiro, enquanto observa a placa no muro de pedra através da janela. No quarto, a mulher estirada na cama. [VOCÊ] se pergunta a razão de não existir espelhos na casa, afinal, [VOCÊ] considera, a mulher é bonita. Uma morte ordinária. [VOCÊ] conta quantas vezes repetira aquele ritual. [VOCÊ] sabe de cor, é claro. Mesmo assim conta. E como [VOCÊ] gosta do medo delas e do cheiro!, sim, do cheiro de todas aquela mulheres – ele inebria. Medo e cheiro o alimentam. Depois vem um sentimento de ausência, uma ausência que não é morte, sempre quando [VOCÊ] lava as mãos na pia do banheiro. E isso acontece todas as vezes, e segue o mesmo ritmo, e vem na mesma ordem. Finalmente, [VOCÊ] diz: tudo terminado aqui. E não há quem escute a sua voz.

***

 

 

Porra em brasa

 

A música não parava de tocar. A agulha da vitrola machucava a bolacha preta, e o chiado que saía da caixa de som era mais alto do que a voz agonizante do cantor de pagode do vinil. A porcaria do ventilador não funcionava como deveria. Teobaldo e Vânia suavam. A temperatura estava em torno dos cinquenta graus dentro daquela quitinete. Era verão, o asfalto derretia nas ruas da cidade. Nestas condições, uma trepada poderia levar dias para terminar. O sangue das pessoas queimava como brasa, tinha a grossa consistência do ferro em seu estado líquido. As pontas de cigarros escapavam do cinzeiro já cheio. Porra pra todo lado.


(Rodrigo Novaes de Almeida tem textos publicados em sítios literários e jornalísticos, como Le Monde Diplomatique Brasil, Portal Cronópios, Germina Literatura e Arte, Observatório da Imprensa, Jornal Rascunho, entre outros. Publicou, pela editora Mojo Books, a ficção A saga de Lucifere (The Trinity Sessions – Cowboy Junkies, e-book, 2009), e, pela editora Multifoco, o livro de contos Rapsódias – Primeiras histórias breves (2009). Recentemente publicou o livro de contos Carnebruta (Oito e Meio/Apicuri – 2012). É cofundador do coletivo literário O Bule e Colunista do Página Cultural)



Categorias
74ª Leva - 12/2012 Dedos de Prosa Destaques

Dedos de Prosa I

A Filha da Cidade

Mariza Lourenço

 

Foto: Catharina Suleiman

 

O nome não importa e não creio faça diferença a essa altura do campeonato. Nem a idade. Ou a cidade onde morava. Pequena o bastante para que todos soubessem de sua vida e a recontassem, com certo exagero, a esta que escreve por mera curiosidade. Chamemo-la, portanto, de senhorita A., já na casa dos quarenta, relativamente agradável à vista, filha única entre nove irmãos. A sexta, para ser mais exata. E a única que restou naquela casa construída com o esforço de seu pai, militar reformado. Os irmãos partiram para cidades maiores. E só os viu novamente no enterro do pai, época da partilha. Deixaram para ela a casa e as parcas rendas que recebia mensalmente a título de pensão.

Senhorita A. não gostava de televisão, mas tinha verdadeiro apego ao rádio de mogno e às notícias. E às músicas que o aparelho retransmitia dia e noite. A inversão das horas era detalhe miúdo. Noite e dia. Salsa, merengue, fuga de Bach, Vicente Celestino. Ora, quem passasse em frente à casa saberia. A resistência do aparelho era impressionante. E sua sonoridade, quase pura, também. Para o mundo, ou pequena vila, era música o tempo inteiro. Para ela, supõe-se… Ah! Suposições, afinal, sempre serão especulativas. Então, que fosse somente música para ela. Todos já haviam se habituado ao som do rádio e à ausência da senhorita A. nos eventos mundanos. Ela não saía de casa. Mas escutava rádio o tempo todo.

Um dia a música calou. Acharam estranho, mas não deram tanta importância àquele silêncio repentino. O rádio, talvez, tivesse se quebrado de tão velho. Ou ela, a senhorita A., estivesse cansada de tanta música. Não se sabe. Até que um cheiro nauseabundo tomou conta de tudo. Um cheiro estranho e aterrorizante, como se todos os segredos e pecadilhos daquela cidade, ou o que ela escondia, pairassem no ar. As pessoas começaram a evitar umas às outras. A desconfiança, agora, era sentimento comum. Um dia a música retornou, baixa a princípio. Mais alta com o passar das horas. Belas músicas encheram o ar de certa esperança. Somente, então, se deram conta dos dias de ausência da senhorita A. e da música que, enfim, estava de volta, encobrindo o cheiro ruim, a desconfiança, os pecados. Bateram à sua porta. Ninguém atendeu. Arrombaram a porta. Ela não estava, mas, em sua cama, uma criança recém-nascida mexia as mãos. Fecharam a porta, levando embora o pequeno segredo.

Da senhorita A. nunca mais se soube.

(Mariza Lourenço (Valinhos/SP) é escritora e advogada. Integra as antologias: “Saciedade dos Poetas Vivos”, Vol. VI, organizada por Leila Míccolis e Urhacy Faustino (2008); “Dedo de moça – uma antologia das escritoras suicidas” (2009); “Coisas de Mulher”, organizada pelo Conselho Estadual da Condição Feminina (2010); “A poesia é para comer”, organizada por Ana Vidal (2011) e “Amar, Verbo Atemporal”, organizada por Celina Portocarrero (2012). É Coeditora da Germina – Revista de Literatura e Arte e das Escritoras Suicidas. Contato: marizalourenco@uol.com.br )

 

 

 

Categorias
73ª Leva - 11/2012 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa III

OS OUTROS

Nilto Maciel

 

Arte: Fao Carreira

Quando Severino me apareceu pela primeira vez, nem me assustei, porque o vi de relance e queria voltar logo à sala, cioso de rever a chegada do primeiro homem à Lua. Há tempos me imagino astronauta, a saltitar no solo seco do satélite. Chovia muito, a luz dos postes bruxuleava na rua, os pneus dos carros jogavam água nas calçadas. Fui ao banheiro correndo, apenas para cuspir na pia e bochechar. Assim, nem acendi a luz. Além disso, a claridade da sala me permitia ver bem a pia e o espelho. Enquanto esfregava as mãos e cuspia, olhei para o retângulo de vidro e vi o bigode em branco e preto, leve traço de preocupação ao redor da boca e nos olhos. Muito parecido comigo, é verdade. Porém, apresentava uns traços de outro. Voltei à sala e não mais pensei nele, pelo menos durante uma hora.

Naquela noite e nos dias seguintes não falei nada disso a ninguém, muito menos a Sibila. O nome do desconhecido surgiu por acaso. Precisava de um nome. Qualquer um. E o primeiro (ou talvez o mais apropriado àquele rosto) a ancorar em meu porto – como barco perdido – se anunciou com letras redondas: Severino.

Para evitar discussões domésticas, passei a trancar a porta do banheiro, quando ia me ver. Sibila me vigiava e fazia perguntas: Por que tanto você se olha, Rafael? Está ficando vaidoso, depois de velho? Com a porta fechada, poderia passar alguns minutos a observar Severino, analisá-lo e até conversar, sem ser interrompido por Sibila. Mas não adiantou nada a minha precaução: ela continuou a me importunar. Está virando Narciso?

O segundo a aparecer se chama Mariano. Também usa bigode, como eu, mas em seu olhar há uma profundidade abissal. Não podia mais esconder de Sibila a novidade. Ela me chamou de doido. Parasse de beber. Aquilo era alucinação. Arrependi-me de lhe ter contado tudo. Ela não acreditou em mim.

Severino se mostrou mais algumas vezes, mesmo depois de Mariano e outros. Depois sumiu para sempre, ou até agora. Da segunda vez, também na moldura do espelho do banheiro, demonstrou vontade de me revelar um segredo. Não posso assegurar ter ouvido sua voz. Seria mentira. O bigode parecia mais branco do que preto, porém as rugas mais se acentuavam. Figurou-se um homem sofrido, desiludido. Falei-lhe (juro ter falado, e isso mais irritou Sibila, que riu, gargalhou e prometeu me levar à força a um hospital para doentes mentais) de meus problemas pessoais, domésticos e de relacionamento com Sibila.

Bernardo surgiu numa noite de muito calor. Passei alguns minutos a conversar com ele. Ainda não realizara a maioria dos sonhos, porém não desistia deles. Pensava em viajar à Europa, passar uns tempos longe daqui. Plano para um futuro próximo, coisa de um a dois anos. Precisava juntar mais dinheiro, parar de gastar com futilidades.

Muito me estranha em tudo isso é as pessoas só me aparecerem no espelho do banheiro. No do quarto não se apresentou ninguém. Para tirar dúvidas, comprei um espelhinho de bolso. Talvez eles quisessem se expor a qualquer momento, em qualquer lugar. Vez por outra, eu metia a mão no bolso, procurava saber se não estavam a me espionar os curiosos, fazia careta, mostrava os dentes, a querer enganá-los. Como se estivesse preocupado com limpeza. Certa feita, uma colega de trabalho cochichava aos ouvidos de outra. Riam. Tive ímpetos de lançar sobre elas o espelho ou o grampeador.

Nos últimos tempos, minha vida tem sido um martírio. Os antigos amigos se afastaram. As mulheres se aproximam, vão ao meu apartamento, dormem comigo (Sibila desistiu de mim), mas logo se afastam, ao me virem diante do espelho do banheiro, em conversas prolongadas comigo mesmo.

Ontem tudo piorou de vez: antes de me deitar, quebrei o espelho, espatifei-o todo. Fui dormir. Os cacos ainda estão no chão. Só assim poderei me livrar desses desconhecidos que me atormentam dia e noite. Mas uma força estranha me puxa para o chão, me força a juntar os fragmentos do espelho. Eles, Severino, Mariano, Bernardo e outros, parecem pedir socorro, como se quisessem voltar à vida, ao convívio comigo. Porém, não tenho força para remover do piso do banheiro os restos deles. Talvez me falte vontade.

(Nilto Maciel: Venho da serra, do verde do Ceará, mas meus pais e avós vieram do sertão seco. Do tempo do trabuco, da injustiça, da perseguição, de Antonio Conselheiro (Antonio Vicente Mendes Maciel), aquele de Canudos, que as tropas militares massacraram. Não esqueci isso. Li a História desses povos, dessas gentes. Mas li também Camões, a Bíblia, Alencar, Machado, cordel, Moreira Campos. E me pus a escrever também. Mais para relembrar aquele povo e seus descendentes. Para recriá-los. Ou mesmo criá-los, porque talvez nada exista. O que existe é a obra de arte, que é ficção. Nada é real. Quanto mais antigo mais irreal. Ninguém me conhece, ninguém me lê. Sou marginal da literatura. Há muito deixei de sonhar com glórias e famas. Tudo isso é passageiro. O que é bom fica, permanece. Sem precisar de muletas, fanfarras, galardões, medalhas. Sou apenas um escritor de poemas, contos e romances)

 

 

 

 

 

Categorias
73ª Leva - 11/2012 Dedos de Prosa Destaques

Dedos de Prosa I

SUMINHA

Tere Tavares

 

Arte: Fao Carreira

 

Dos degraus junto à calçada prorrompiam papéis e folhas varridos pelas lufadas de ar, prenunciado a torrente que se aproximava. Sob a leveza das malhas de algodão aguardava os pingos da chuva que lentamente lhe umedeciam a pele, o fôlego palpitante, apoiado por uma hachura decidida.

Caminhou ondulando as pernas, apreciando o tremular das gotas como um afago de nanquim que lhe retirava as ardências do dia.

Largou os sapatos encharcados junto ao chão luzidio da casa – a janela debatendo-se contra o vento numa cantoria estridente. As paredes lhe ampararam o cansaço. Via-se no debrum da água que a banhara como se só naquele instante realmente valesse a pena desvelar-se.

Os livros que carregava no colo amaciaram a mesa e as transparências da sala. Largou-os como quem liberta retratos de outrora, recolocando-os novamente no olhar. Quase perscrutava com exatidão pueril o chilreio das folhas semi-abertas, devorando as capas, os desenhos das capas, tateando: até onde tudo era somente o mosto de histórias, sons desertos, cores aninhadas em outras cores, águas dentro de outras águas?

Buscava rapidamente o ar mais puro e perfeito, como quem se dispõe a arrefecer o frio, a alma disposta sem repressões nos vãos da natureza. O barulho da enxurrada preenchia as fendas rudes da casa, o telhado ensurdecia-se dos pingos desfeitos na cerâmica. Viu-se no desassossego das ações mais simplórias. A louça do dia anterior ainda rescendia à canela e erva-doce. Quantas vezes tomara o chá desanuviada de afazeres para melhor prender-lhe o sabor? Não tinha dúvidas de que se filiaria algum dia, com tempo, ao movimento slow. Pensava enquanto o vapor do chá se misturava à poeira da chuva.

Lá fora para onde resolvera retornar, as flores permaneciam no seu crescimento inevitável. A legitimidade de estar conspirando para além da linguagem lhe parecia a incompreensão de assumir detalhes, a desistência decidindo por uma oposta intimidade apaixonando-se por silhuetas abstratas como se soubesse que, ao flanar sobre as coisas importantes, passassem, essas mesmas coisas a não ter mais lugar algum no mesmo e luminoso mundo que as pensara.  No incomum, talvez mais oportuno e incômodo, longe de superlativos ou relativismos, a lucidez de arguir sobre o que é grandioso ou necessário nasceria invariavelmente da suspeita de não chegar a nada sem a via crucial dos sentimentos.

As pétalas palmilhavam-se de um amarelo descrente, olhava-as, em tintas musicais – colheu várias, sentiu-lhes a seda, como se pedisse desculpas por não considerar-se uma delas.

Pinças de brisa se estendiam na claridade morna, retorcendo-lhe a curiosidade.  Com alívio, retornou para dentro da casa. Amaciando-se na umidade da aragem, desfazendo-se sobre lençóis e travesseiros rebordados de um cetim confuso porque de letras brancas que sobre o negro cansava-lhe o fundo mar dos olhos.

Pensava como se sonhasse… e escolhia retornar à beira do areal, ao menos até o verão retornar, a pele sugada por um farfalhar de asas, em movimento de abraços…bastava-se num colar de ametista, afoita, sulcada pelo que se fora,  quiçá em ramas de mangues, de uma garça que vigiava –  o vento ruminante torcia as gaivotas, tomava notas ao secar-lhe os olhos suspeitando que a sensibilidade das retinas desse em algo possível de prodigalizar.  Adiava as ondas enquanto ganhava novos óculos escuros, as têmporas renovadas pelos filtros duros de lume, da brandura árida que não mais lhe provocava lágrimas. Como se assim pudesse evitá-las.

No lado mais despido da praia o bailado das dunas era um dueto a agigantar-lhe os cílios no rumor sonoro e miúdo do algaço. A vida era real como o vento que soprava a memória dos sais retidos de Suminha. De outro ponto os cardumes contrariavam a correnteza e as redes como se fossem seus olhos multiplicados em cepas e borbulhas, em busca de fertilização.

As mãos restavam finas produzindo fogueiras sobre o mar – repletas de matizes azuis e verdes, a rebuscar a serenidade líquida transportando-a, imensurável, para uma tela qualquer, sem importar-se se alguém diria que era um auto-retrato, um resto obscuro retirado da coloração irresistível dos corais.

Os dedos ágeis como o choro contido nas achas por arder, perfuravam o silêncio, prosseguiam nos mimos hirtos do horizonte, bebia do sargaço, do sumo esgarçado nas bordas dos barcos que mascavam a madeira carcomida pelas cordas da âncora. “Sobe um pouco mais, Suminha, preenche o ato duplo dos gestos com o teu verde pueril – há ornamentos suficientes para estilhaçares condições que por um descuido fútil do destino não mais te pertencem. O tato, Suminha”.

Retomou os despojos. Alguma coisa sobrara dos rabiscos que ousaram ferir a brancura daquele dia, das polifonias daquele vento, daquele sal, se a preenchessem de mais cor, de mais força – o que havia perdido permanecia em origamis devorados por fungos de esperança – quantos pronunciavam que a experiência não se media entre os dedos, entre o passado e o futuro, tampouco em entretantos.

Suminha do desacato chamuscava os feitiços luminosos, não suportava a ideia de submeter-se por mais tempo ao torpor. “Que cores acordam-te mais a música por dentro, Suminha? Assim, na umidade? Que rio te quer decantar esse azul-vermelho-débil-verde?”. Dá voos aos beijos azuis, lava a lama das asas, o corpo fenece, lúbrico, como se moldado pelas águas que lhe caíram do céu, na face, na secura febril dos olhos, o azul fiel lhe dá guarida.

A xícara de chá é óleo, medium, piano, tecido. Agora sentia o sabor, controlava as gotas, recriando-se, diluída do silêncio, na leveza de esvaziar-se no que lhe agradava. O peso leve da louça era igual ao da vida, da sua vontade que enfeitara feito Penélope cega, partituras dispostas num circuito infalível… a limpidez dos nadas que carregava como adornos. Dos engenhos orquestrados, das teclas, das paletas. Demais o que desconhecia, era desnecessário dispor… os azuis salpicavam-lhe os cabelos, como pincéis de outono musicando-lhe o que, independente de solicitações, concebera para o mundo – Suminha é a multiplicação assídua dos sons suspensos na memória, na umidade lídima de cada segundo que ensaia abrir-se no horizonte.

(Tere Tavares é escritora e artista plástica. Autora de três livros publicados: “Flor Essência” (2004), “Meus Outros” (2007) e “Entre as Águas” (2011). Integra a Academia Cascavelense de Letras. E-mail: t.teretavares@gmail.com) 

Categorias
71ª Leva - 09/2012 Dedos de Prosa Destaques

Dedos de Prosa I

 

Pintura: Sylvana Lobo

 

 

VÉRTEBRAS E CORAIS

Marcia Barbieri

 

“E se você olhar longamente para um abismo, o abismo também olha para dentro de você”.
(NIETZSCHE, F. Para Além do Bem e do Mal)

Os carros não passam nos becos. Vértebras partidas impedindo toda possibilidade de travessia. As ruas são escuras e a luz barata morre antes de tocar o fosco do chão. Jonas perdido dentro da baleia. Vísceras e Deus dividindo o mesmo leito. Temporal lá fora. Algumas poças devolvem um retrato cruel de mim. Doryan Gray. Marginais defecam no meu rosto magro. A barba cresce (ou seriam apenas penugens?) e sinto que posso a qualquer instante rejuvenescer. Experimento o medo de todos os meus antepassados através do meu sorriso pálido. Dou uma olhada ao redor. A lua atrás continua minguante. Retrocesso. Vejo as fases da lua no calendário. Cheia, às vezes. Quando estou com sorte. Rasgo o verbo, principio de todo infortúnio. Me recordo que Ela espera. O cais despenca dos seus cabelos molhados.

Gosto de observá-la. Calado como um animal solícito na expectativa de uma migalha. Ela afia a faca sobre a pedra furta-cor, inclina a cabeça para o lado e tira pacientemente as escamas. Corta as rodelas de tomate, de cebola, pica o pimentão. Vermelho. Ela gosta do vermelho e das cores púrpuras. As entranhas escorrem poéticas pelas suas mãos pequenas de mulher perdida. Todas elas cortesãs. Nunca amaria alguém tão frágil nas extremidades – era tão certo devorá-la! Os olhos do peixe insistem em me interrogar, em me deixar inseguro. As pálpebras mortas no mar. Os escafandristas procurando refúgio para seus suicídios diários. Submergir e emergir para esse mundo de merda. O enigma da vida perdido em alguma isca não devorada.

Toda noite sonho que moro num lugar cheio de cerejeiras. As noites são brancas e os dias se diluem entre um intervalo e outro do relógio. Um engano matemático. Somente.

Ela chama para o almoço. Já é tarde. Ela gosta de se gabar da sua maestria na cozinha. Me sento na mesma cadeira de sempre. De frente para o descaminho. Desvio o olhar. Começo a comer. Engasgo com uma espinha. Ela fica atravessada na minha garganta. Como aquele nó que se forma quando queremos chorar e o choro não vem. Estrangulando toda palavra, qualquer tentativa de discurso. Começo a entender o que significa escutar o silêncio. Me calo. O talher bate no prato. Vão. Entre uma ideia e outra. A saliva viscosa escorre feito esperma molhando a espinha. Resistente. Ela parece se deliciar com o mar formado na minha laringe. Saudades de sua origem. Os olhares se voltam pra mim. O centro do universo. O umbigo depravado do mundo. Envaideço. Aos poucos a gosma da minha garganta envolve a solidão da espinha. Ela se despedaça e desce. Solto um pequeno sorriso, dez centímetros de talho. Eles voltam a movimentar as mandíbulas e os talheres continuam a ensurdecer meus ouvidos. O zunido das pedras caindo nas águas.

Irei embora, antes acendo um cigarro. De longe, Ela imagina que a brasa entre meus dedos é um pequeno pôr-do-sol. Quase apagado.

 

(Marcia Barbieri é paulista. Possui textos publicados nas Revistas Literárias Coyote, Cronópios, Germina, Escritoras Suicidas e Meio Tom. Tem três livros publicados: dois de contos e um romance. É colunista da Revista Literária O BULE)

 

 

 

Categorias
70ª Leva - 08/2012 Dedos de Prosa Destaques

Dedos de Prosa I

Foto: Viviane Rodrigues

CURTÍSSIMOS CONTOS

Gladson Dalmonech

 

(20)

Haveria poesia sem palavras? – Pensou ele, chegando à praia, de madrugada, sol quase nascendo. Depois, despojou-se da mochila com os livros, da garrafa de vinho pela metade e das roupas. Em silêncio, mergulhou naquele instante em que a onda se ajeita pra escrever poemas obscenos na areia.

(68)

Os ponteiros do relógio avançavam como cães ferozes no tempo. Ele a esperava, mas ela não veio. Nem nunca mais viria. Uma hora e meia e sete cigarros depois, só o que restara dela era aquele isqueiro vagabundo, com os dizeres “eu te amo”.

(102)

O cara o esfaqueou e correu. O outro caiu na calçada, em frente ao bar. Saí da mesa, última cerveja, fui ajudá-lo. “Você tem um cigarro?” – ele perguntou. Acendi e passei pra ele. “Nem precisa chamar a ambulância. Entendo de facas”. – e deu uma tragada funda. “Apenas fique aqui comigo. Morrer sozinho é foda”. Sentei-me ao seu lado e ficamos ali, mastigando o silêncio da espera. Lá longe, o destino assoviava uma canção no vento da madrugada.

(120)

Ele acolheu o sorriso dela numa foto. Lá se iam trinta e cinco anos daquele clique. E a guardou, em preto e branco, no meio das páginas de um livro surrado. Hoje, arrumando sua velha estante, ela voltou à tona – mesmo doce sorriso – quando a foto, num escape da cela das páginas, mergulhou no piso do escritório. A saudade lhe acenou do retrato. Iria visitá-la. O manicômio não era muito longe.

(216)

Voltou da missa, foi pro quarto, tirou a roupa, fechou os olhos, desceu os dedos. O padre novo da paróquia não era coisa de Deus.

(Convivo com Gladson Dalmonech há 47 anos. Ele, que é professor universitário de comunicação e mestre em Estudos Literários, vive às esfregas com as palavras. Sujeito estranho, ganhou o II Concurso de Contos da Playboy, em 1998, e desde garoto tem essa mania de rabiscar suas loucuras onde der. Agora mesmo escreve seus Curtíssimos Contos no Facebook. Não é fácil conviver com ele. Eu já estou preso dentro dele há tanto tempo que até me esqueço que ele tem dupla personalidade)

 

 

 

Categorias
69ª Leva - 07/2012 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra

Desenho: Rui Cavaleiro

 

SATÃ ROUBA A CENA

Por Sinvaldo Júnior

 

Se a história de Noite na taverna, de Álvares de Azevedo, acontecesse hoje em dia, seria mais ou menos assim: alguns amigos em um boteco (puteiro?) bebendo e filosofando sobre a vida, destilando sua erudição, com direito à citação de Hoffmann, Spinoza, Hume, Schelling, Homero, Platão, Schiller etc. É assim que se inicia o livro, mas em uma taverna, nos meados do século XIX, com muito vinho e mulheres ébrias e macilentas deitadas ao chão.

Nesse ambiente de taverna, noite, bebedeira, filosofia, mulheres macilentas, exclamações, fumaça, brindes (Senhores, em nome de todas as nossas reminiscências, de todos os nossos sonhos que mentiram, de todas as nossas esperanças que desbotaram, uma última saúde! (…) Ao vinho! Ao vinho!), alguém sugere uma contação de história, daquelas sanguinolentas, fantásticas, até absurdas (no bom sentido do termo), como as de Hoffmann, medonhas. Solfieri então começou.

Era em Roma, a cidade do fanatismo e da perdição. A noite estava bela. Solfieri encontra uma mulher pálida à noite. Segue-a até o cemitério. Ali adormece, espreitando-a. Um ano depois, de volta a Roma, após uma orgia, ao entrar na igreja de um cemitério sem perceber (estava bêbado), Solfieri se depara com a mesma jovem, mas agora morta. Tomou o cadáver nos braços. Mil beijos nos lábios sudário rasgado despida do véu gozo fervoroso. Àquele calor do peito de Solfieri, a donzela pálida parecia reanimar-se. Súbito abriu os olhos embaçados. Catalepsia? Mas ao acordar desmaiara. Solfieri carrega então o “cadáver” pelas ruas. Chega ao seu aposento. A mulher desadormece. Riso convulso. Insanidade. Dois dias e duas noites levou ela de febre. Morre. Após tudo isso, ela merecia uma estátua – foi o que Solfieri mandou fazer em sua homenagem.

De volta à taverna… Outro conviva se levantou: Bertram. Começou então a contar sua história com Ângela, a donzela espanhola e morena. Amava muito essa moça, mas quando estava decidido a casar-se com ela, precisou partir da Espanha para Dinamarca, onde seu pai o chamava. Soluços, lágrimas de esperança, beijos, promessas de amor, de voluptuosidade no presente e de sonhos no futuro. Partiu, enfim. Dois anos depois voltou. Mas Ângela já estava casada e tinha um filho. Então, como viver aquele amor que não morrera, nem por parte dele nem por parte dela? Enquanto o marido não soubesse, tudo poderia ser feito nas sombras de um jardim, mas um dia o marido soube de tudo. E marido traído é igual a Otelo. Ora, havia uma maneira de viver esse amor: Ângela mata o marido degolado e o filho. Por amor. Amor? Tudo resolvido, viveram uma vida insana, num viajar sem fim, aventuras, em noites belas. Porém, um dia ela partiu. Partiu, mas sua lembrança ficou como o fantasma de um mau anjo perto do leito de Bertram.

A história de Bertram é longa; não acaba aí não. Uma noite, ao cair bêbado às portas de um palácio, ele foi pisado por uns cavalos e por uma carruagem. O povo desse palácio o acudiu – um nobre viúvo e uma beleza peregrina de dezoito anos. Bertram a desonrou. Roubou-a do fidalgo que lhe dera abrigo e fugiu. Após enjoar, vendeu-a para um pirata, que logo na primeira noite foi morto por ela, que, por sua vez, afogou-se. Um dia, na Itália, Bertram tentou suicidar-se; alguém o salvou, mas esse alguém morreu afogado por tentar salvá-lo. Ô sina! Quando recobrou os sentidos, estava num escaler de marinheiros. O comandante gostara dele. Mas trazia a bordo uma bela moça, sua mulher. O leitor certamente imagina o que aconteceu. Amaram-se! Em alto-mar, após um combate sangrento entre navios, sobraram cinco: Bertram, a mulher do comandante, o comandante e dois marinheiros. Dias se passaram, a parca comida acabara. Os dois marinheiros morreram. Restaram, então, Bertram, a mulher/amante e o comandante. É aí que entra a antropofagia. Mas não falo, caro leitor, da antropofagia literário-artística da Semana de 22 não! Falo da outra: Bertram e a amada comem o comandante. Após toda essa aventura e sofrimento, de repente o nosso protagonista sentiu-se só, porque a amada não resistira:

Uma onda me arrebatara o cadáver. Eu o vi boiar pálido como suas roupas brancas, seminu, com os cabelos banhados de água; eu vi-o erguer-se na escuma das vagas, desaparecer e boiar de novo; depois não o distingui mais: era como a escuma das vagas, como um lençol lançado nas águas…

Agora é a vez da história de Genaro. Aprendiz de pintor em casa de Godofredo Walsh, Genaro desonra a sua filha de 15 anos, Laura, mesmo apaixonado por Nauza, a esposa de Godofredo. Laura diz ter engravidado. Adoece – cada dia torna-se mais pálida, mas a gravidez não crescia. Em seu leito de morte, ela chama Genaro: murmura que matara o filho deles antes de nascer. Laura enfim morre. Genaro, enquanto o velho chora a morte da filha, se declara a Nauza, que também o ama: E as noites que o mestre passava soluçando no leito vazio de sua filha, eu as passava no leito dele, nos braços de Nauza. Um dia, após um surto do velho, Genaro lhe confessa sobre a filha, o “namoro”, o aborto, a morte dela – tudo. O mestre então, depois, finge esquecer tudo. Uma noite, após a ceia, o mestre Walsh tomou sua capa e uma lanterna e chama Genaro para acompanhá-lo. Em frente a um despenhadeiro o velho lhe propõe o suicídio, uma forma de se desculpar por tudo que fizera. Genaro se joga ou Walsh o empurra? Mas não morre. É resgatado. Volta à casa do velho – se humilhar, mostrar-se arrependido ou se vingar? Nem um nem outro. Uma surpresa trágica o espera.

Chegou a vez de Claudius Hermann, que inicia sua história se gabando: em Londres, ninguém ostentava mais dispendiosas devassidões, nenhum nababo numa noite esperdiçava (sic) somas como eu. O suor de três gerações, derramava-o eu no leito das perdidas, e no chão das minhas orgias… Numa corrida de cavalos, conhece uma mulher. Apaixona-se. Essa mulher era a duquesa Eleonora. Claudius, então, começa a segui-la até o palácio. Ao encontrá-la dava-lhe narcótico a fim de, uma vez ela em sono profundíssimo, amá-la. Decidiu raptá-la, o que fez após lhe dar um narcótico fortíssimo. Eleonora enfim acorda. Desespera-se: está com um estranho, num lugar estranho. Depois de muitos choros, dramas, relutância, tentativa de convencimento, a duquesa decidiu ficar com Claudius. Aqui parou a história de Claudius Hermann.

– E a história, a história? – bradou Solfieri.

– E a duquesa Eleonora? – perguntou Archibald.

(…)

– E a duquesa?

Claudius soltou uma gargalhada. Caiu ao chão. Estava ébrio como o defunto patriarca Noé, o primeiro amante da vinha.

Johann é o próximo, dos amigos na taverna, a contar sua história. Era em Paris. Jogava bilhar com Artur, que venceu o jogo. Mas que encostara, voluntariamente ou não, na bola. Johann olha para ele com raiva, ao que o outro responde com um riso de escárnio. Johann dá-lhe uma bofetada. O moço saca de um punhal. A turma do “deixa-disso” impede o avanço do esbofeteado, que rasgou nos dentes uma luva e atirou-me à cara. Era insulto por insulto, lodo por lodo: tinha de ser sangue por sangue. Exagero? Mas é o que acontece. Antes do acontecimento fatídico, do duelo de morte, muitas peripécias, com direito a carta, lágrimas, anel, brindes, bebida – tudo a criar um mistério extra. Enfim, as pistolas se encostaram nos peitos. As espoletas estalaram, um tiro só estrondou… Depois de tudo isso, o autor ainda colocou muito incesto na história. Ô Álvares!

Enfim, chegamos ao capítulo final de Noite na taverna, de Álvares de Azevedo: Um beijo de amor. Surpresas. Surpresas inverossímeis? Mais tragédias, mas essas acontecidas ali, na taverna, entre os amigos contadores (inventadores?) de histórias. Contarei mais não. Leiam. É uma leitura deliciosa, inclusive para os jovens da atualidade, alguns dos quais com suas vidas parecidas com as dos personagens do livro, embora em outro contexto, completamente diferente daquele. É certo que, apesar de escrito por um autor brasileiro, nada possui de literatura brasileira, uma vez que nada ali espelha a história, o espaço, o clima, a vegetação, os costumes brasileiros. No entanto, esse fato não diminui o valor da obra, que é universal, tendo em vista que hoje vários leitores se identificariam (identificarão) com as suas discussões, as tragédias e desventuras ali narradas. Leiam e verão.

Desenho: Rui Cavaleiro


Em Macário, Satã rouba a cena

O prefácio de Macário é um pequeno tratado de Álvares de Azevedo sobre o drama (o gênero dramático): Haveria enredo, mas não a complicação exagerada da comédia espanhola. Haveria paixões, porque o peito da tragédia deve bater, deve sentir-se ardente; mas não requintaria o horrível, e não faria um drama daqueles que parecem feitos para reanimar corações cadavéricos, como a pilha galvânica as fibras nervosas do morto! Nessas obras dramáticas, a vida e só a vida! Mas a vida tumultuosa, férvida, anelante, às vezes sangrenta – eis o drama. Mas esse drama (Macário) que aí vai, diz o autor, não é exatamente o espelho de sua teoria, o seu tipo ideal, a sua utopia dramática. É um rascunho.

Mas é um ótimo rascunho, leitor. Nessa espécie de esboço de obras que seriam mas que não foram escritas, Álvares de Azevedo cria personagens interessantíssimos, os principais dos quais Macário, Satã e Penseroso. No entanto, embora não dê título à obra, é Satã que rouba a cena, porque é o personagem mais inteligente, mais sagaz, mais irônico. E, pelo menos como pintou Álvares de Azevedo, o mais sensato e racional, que destila sua verdade crua, mas VERDADE. Há, ora nas palavras de Satã, ora nas palavras de Macário, ora nas palavras de Penseroso, tanta verdade e tanta reflexão, dos tipos universais porque hoje ainda elas soam familiares. Vejam:

É uma coisa singular esta vida. Sabes que às vezes eu quereria ser uma daquelas estrelas para ver de camarote essa comédia que se chama o universo? Essa comédia onde tudo que há mais estúpido é o homem que se crê um espertalhão? (…) A filosofia humana é uma vaidade. (Macário)

Quem sabe onde está a verdade? Nos sonhos de poeta, nas visões do monge, nas canções obscenas do marinheiro, na cabeça do doido, na palidez do cadáver, ou no vinho ardente da orgia? (Macário)

A vida está na garrafa de conhaque, na fumaça de um charuto de Havana, nos seios voluptuosos da morena. Tirai isso da vida – o que resta? (Macário)

Bastaria citar vários trechos da obra, diálogos entre Macário e Satã sobretudo, para o leitor ter uma idéia da profundidade e complexidade de Macário. A primeira parte da obra (nomeado de Primeiro episódio – Numa estalagem de estrada) é simplesmente genial. A segunda parte (Segundo episódio – Na Itália) é menos bom, mas quando Satã reaparece em cena, os momentos de reflexão sobre a vida mais deliciosos voltam, e tudo volta a ser genial e prazeroso. Em Macário a descrição e a ação são o menos importante; o mais importante são a reflexão e os diálogos entre os personagens: Macário x Satã; Macário x Penseroso. São páginas de filosofia da boa, daquelas despretensiosas, mas profundas – sobre a poesia, sobre a esperança, sobre os mistérios das mulheres, sobre a vida.

A partir da leitura de Noite na taverna e de Macário, percebe-se que Álvares de Azevedo era um gênio que não aproveitou toda a potência de sua genialidade, pois morreu cedo demais, antes de completar 21 anos de idade. É impossível não tentar pensar no que ele poderia ter escrito, se tivesse vivido mais alguns (ou muitos) anos. Seria ele uma espécie de Edgar Allan Poe, o nosso Poe, com seu veio ultra-imaginativo e suas histórias de amor e morte? Não estaria ele no rol dos maiores gênios da literatura brasileira? São questões que não serão respondidas, mas que instigam os leitores de Álvares de Azevedo e da nossa literatura.

O autor

Álvares de Azevedo nasceu em São Paulo, em 1831. Entre as suas obras estão Lira dos Vinte Anos, Pedro Ivo, Macário, Noite na Taverna e O Conde Lopo. Morreu em 1852. Em seu túmulo, o epitáfio famosíssimo: “Foi poeta, sonhou e amou na vida”.

 

(Sinvaldo Júnior é um personagem do livro de narrativas Manicômio, de Rogers Silva. Nasceu e vive em Uberlândia-MG. Possui graduação em Letras pela Universidade Federal de Uberlândia – UFU. Possui Mestrado em Teoria Literária (UFU) e Mestrado em Administração (UFU), com ênfase em organizações envolvidas em Artes & Cultura. Publicou artigos acadêmicos e jornalísticos em diversos sites, revistas e jornais. Atualmente é doutorando em Literatura pela UNESP. É pesquisador das obras de Campos de Carvalho e Drummond)

 

 

 

Categorias
69ª Leva - 07/2012 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa II

Desenho: Rui Cavaleiro

 

DURMAM, SEUS TROMBADINHAS!

Roberta Simoni

 

Tentei colocá-los para dormir mais cedo. Vesti todos com pijamas de algodão com estampa de bolinhas. Acomodei-os em travesseiros fofinhos. Fronhas e lençóis limpinhos. Cheiro de lavanda, tecido florido. Janelas e cortinas fechadas. Luz apagada e…

Um deles levantou-se invocado e disse: não gosto de bolinhas! O outro: prefiro listras. O outro: tem uma camisola? Na outra extremidade da cama, um anunciou: vou dormir pelado! Pro cacete vocês todos. Durmam como quiserem, desde que durmam!

Por fim, eles todos: tem café?

Brigaram por espaço na cama, se acotovelaram, fizeram guerra de travesseiro, treparam feito loucos. Discutiram, duelaram e se amaram. Fumaram meu último cigarro. Quebraram minha única taça de vinho. Beberam todas as minhas garrafas d’água no gargalo. Abriram o Chandon que eu estava guardando. Esvaziaram minha dispensa. Escancararam a janela do meu quarto. Puxaram minha coberta. Deixaram meus pés de fora…

Espalharam livros pela minha cama e não me deixaram ler nenhum. Nem escrever. Falaram a noite inteira. Me desconcentraram, distraíram e dispersaram. Julgaram, ofenderam e divertiram. Riram alto. Gritaram no travesseiro. Morderam fronha. Puxaram meu cabelo. Fizeram cafuné. Não tiraram um cochilo. Viram o dia amanhecer comigo. Me esvaziaram e depois dormiram feito anjos.

Meus pensamentos ocuparam, outra vez, o lugar que é seu na minha cama.

(Roberta Simoni é jornalista e fotógrafa e foi só quando descobriu que podia unir as duas linguagens numa mesma forma de expressão (e impressão) que começou a se realizar como escritora, carreira que assumiu recentemente, quando finalmente percebeu que não tinha mais pra onde correr)

 

 

Categorias
69ª Leva - 07/2012 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa III

Desenho: Rui Cavaleiro

AY, ESTE AZUL

Teofilo Tostes Daniel

 Só outro silêncio. O senhor sabe o que o silêncio é? É a gente mesmo, demais.
(Guimarães Rosa – Grande Sertão: Veredas)

Um caos de formas, cores, luzes e gentes. Vozes chamam incessantemente para um embarque imediato. E ela, ali sentada, simplesmente aguarda. Aguarda e observa, espectadora que é. Ouve conversas, torrentes de palavras, que se desgarram de seus contextos para habitarem novos sentidos dados pela escuta flutuante daquela mulher, em contemplativa postura diante do ruidoso turbilhão.

Anita era aquele tipo de pessoa que se destaca pelo silêncio. Não exatamente pelo silêncio, mas por um consciente mutismo, opção sua desde que descobrira a vaniloquacidade de quaisquer palavras. Conhecia bem a inutilidade do verbo diante de argumentos de força. Por essa razão, era lacônica e precisa, como um haikai.

Ali, imersa em seu silêncio, a beber o mundo com os olhos, estava, quando um homem lhe chamou a atenção. A familiaridade daquele rosto, perdido no tempo, seria certamente reconhecida em meio a qualquer multidão. Aqueles olhos… Num impulso, levantou-se e foi até ele.

– Com licença. Provavelmente você não me reconheça. Aliás, eu nem sei se você é você. Quero dizer, se você é quem eu estou pensando que é. Qual o seu nome?

Disse tudo como uma tempestade, com a antiga eloquência perdida. Abdicada. As palavras quase montavam umas sobre as outras, para sair mais céleres. Eram como animais acuados que, num repentino rompante, encontram um ponto de fuga.

– Ro…

Sim, era ele. Anita jamais esqueceria aqueles olhos do mais belo azul turquesa que já tinha visto na vida. A medida de sua mudez se ligava estreitamente àqueles olhos, que ela havia conhecido quando tinha entre oito ou nove anos, na escola. Estavam às vésperas da festa junina e ela iria dançar com Rogério, o dono daquele azul.

A turma se via mergulhada nos ensaios da coreografia da quadrilha, com seus pulos, gritos e túneis, em que todos os pares seguiam os noivos. Anita chegou a ser cogitada para o papel da noiva, mas abdicou. O noivo já estava escolhido de antemão, e ela não queria dançar com aqueloutro menino antipático e metido, dono de estúpidos olhos, verdes e demais convencidos de si.

Anita era só ânsia. Queria logo vestir-se de caipira e dançar, mergulhada naquela imensidão que sequer intuía, num azul que só parecia existir na intersecção entre céu e mar. E naqueles olhos… A roupa já estava escolhida. A maquiagem, de bochechas vermelhas, sardas e dente preto-faltante, era testada quase todo dia. Arriscava acabar com o estojo inteiro de maquiagem da mãe antes de chegar o dia da festa. E como demorava para chegar esse dia!

Por mais que uma iminência demore, no entanto, ela sempre chega. Porque os únicos tempos simbólicos são o futuro e o passado. O presente não se enxerga, nem se apercebe. Ninguém coloniza o hoje. O presente simplesmente é – ligação entre a memória e o sonho. E, gozosa ou desgraçadamente, é nele que se vive. Assim, a festa, que existia como futuro, de repente chegou defronte do portal do agora, pronta para habitar o passado. E foi no agora, no instante, no presente que tudo aconteceu. Mas Anita só se apercebeu de tudo quando a festa já era passado. Pretérito imperfeito: já era.

Pouco antes da apresentação da dança, quando estavam se alinhando os pares, a diretora da escola cismou que aquilo não estava direito. Como puderam deixar uma menina tão alta ensaiar esse tempo todo com um menino tão diminuto? Teriam que rearranjar os pares. A professora chegou a esboçar alguma defesa da desordem já estabelecida, mas não teve jeito. A diretora colocou Anita para dançar com um menino comprido e desengonçado, de olhos foscos, baços. Já Rogério deveria dançar com uma menininha ruiva e sardenta, de olhos muito grandes e negros, semelhantes a uma noite sem lua.

Indignada, Anita bradou contra aquela arbitrariedade. Apesar de sua pouca idade, sabia argumentar bem. Não se intimidava diante de autoridades que não se mostravam legítimas. Questionou de todas as formas possíveis a diretora. Indagou o porquê do império métrico criado para a apresentação, quando tudo sairia melhor se cada pessoa dançasse com quem tem afinidade. Além disso, mudanças naquele instante, quase na hora da apresentação, poderiam confundir a todos. Mas a diretora era irredutível. Não era estético combinar pares tão desproporcionais, como eles.

Enquanto discutia com a diretora, Anita procurava os olhos de Rogério. O menino diminuto permanecia com o rosto inclinado para o chão, mas a olhava, vez em quando. Seu olhar, quase súplice, parecia pedir que ela desistisse daqueles questionamentos todos, pois aquilo não daria em nada. Como quem falasse “deixa, deixa para lá…” – e ela não deixava.

Somente quando a diretora afirmou, quase aos berros, que era ela quem mandava ali e seria do jeito que ela determinasse, é que Anita percebeu que todas as suas palavras foram inúteis. Contra argumentos de força, de poder, as palavras valem nada. Intuiu isso e calou. Calou as palavras, a voz e o choro. Dançou com o menino alto, desengonçado e de olhos baços. Em silêncio. Só não calou as lágrimas, que insistiam em lavar seu rosto. A maquiagem ia ficando cada vez mais borrada pelos caminhos abertos por esse choro silencioso, brotado quase à revelia da dona do pranto. Ao fim da dança, em silêncio, se retirou. Não havia mais festa. Nunca houve. Não para ela, que tanto a havia esperado.

No banheiro, lavou o rosto. Retirou toda aquela maquiagem sem sentido. Tinha vontade de trocar aquela roupa, aquele vestido florido, comprado especialmente para a festa que não houve. Com os olhos vermelhos e inchados, obstinadamente lacrimais, chegou séria perto da mãe. Disse que não queria mais estudar naquele colégio. A mãe quis saber por quê. Ao se ver defrontada com a necessidade de explicar o que houve, Anita chorou alto. Agarrou-se à mãe e pediu, por favor, que a trocasse de escola. E nunca mais pisou ali.

– …berto.

– Como?

– Roberto – repetiu, um pouco mais articulado.

Não era ele. Mas como podia ter aqueles olhos? Nunca havia visto olhos iguais, até aquele dia. Anita não sabia muito o que fazer com aquilo. Nem saberia o que fazer, caso realmente encontrasse com Rogério. Pensou que o verdadeiro dono daquele azul fosse ainda um menino, talvez. Um menino que ficou preso ao passado. Talvez fosse nela, para sempre, aquele menino que ela nunca mais vira.

– Então você não é você. Digo, não é quem eu pensava que fosse.

Anita notou o semblante daquele Roberto. Parecia abatido. E ela parecia perder a eloquência, novamente. Mas ainda tentou se agarrar a um resto de palavras que lhe vinha.

– Desculpe, Roberto. Devo estar te aborrecendo com isso. Você está indo viajar e aparece uma louca…

– Imagine, é que estou um pouco atordoado. Na verdade, estou chegando de viagem. É a primeira vez que viajo de avião. Segunda, a primeira foi a ida. E ainda trago na bagagem as cinzas do meu irmão, que eu mal cheguei a conhecer.

Acenou um adeus, mas não conseguiu dizê-lo. Não conseguiu, também, encontrar palavras para falar ao desconhecido, diante de tudo quanto ele havia dito. Mas quem consegue encontrar palavras diante da vida, do incomunicável, do desconhecido, da ausência, da morte?

O que dizer para a própria finitude?

 

 (Teofilo Tostes Daniel é um carioca, nascido em 1979, que vive em São Paulo. Formado em Produção Editorial pela UFRJ, trabalha com comunicação pública. Lançou seu primeiro livro, “Poemas para serem encenados”, em 2008. Participa da coletânea “História Íntima da Leitura” (no prelo). Seus escritos são o produto de seu silêncio perplexo ante o mundo)

 

 

Categorias
67ª Leva - 05/2012 Dedos de Prosa Outras Levas

Dedos de Prosa III

Desenho: Felipe Stefani

 

 

DO QUE ESQUEÇO

Priscila Miraz

 

Sempre dos gestos mais pessoais. Dos trejeitos mais repetidos. Esqueço dos meus modos nas situações. Das mãos na cintura quando converso em pé, e de como ergo o rosto pra soltar a fumaça do cigarro. Quando me descrevem, dizem do que mal percebo e do que é o menos passivo em mim. No descuido que o esquecimento permite, a restrita liberdade escapa. E os defeitos e falhas tão mal escondidos, os palavrões, a falta de tato, a evidência do cansaço, o excesso de cuidado, os pequenos melindres, a falta de paciência. Tudo bem figurado na descrição. Encarnado. Quando me chamam a atenção, perco o ritmo, tropeço e fico manca. Demoro a acertar o passo outra vez. A espontaneidade é coisa frágil.

 

 

***

 

 

IMAGEM

 

A casa. A porta lateral está aberta. O ar é denso do silêncio povoado. O calor e os rumores do meio do ermo. É cortante o ranger dos bambus gigantes. Eles ladeiam a casa. Dentro é escuro, úmido, frio. Cheira a madeira molhada. Sempre. A cozinha é quase toda a casa. A mesa grande. As cadeiras descompostas pelo espaço. Utensílios. Livros abertos e fechados. Os pratos sujos. Panos. Óculos. Frutas. As flores apanhadas. Partes do silêncio. E também o arrastar da escova nos cabelos. Ele está em pé, atrás dela que está sentada muito ereta num banco, e lhe penteia os cabelos. Grave. Ela se move involuntária. O puxar que a escova lhe inflige ao pescoço. Não dizem nada. Bem à frente dela, uma janela pequena aberta de par em par. A mata no horizonte se revira com a ventania. Acompanha o cinza escuro da tempestade que chega. Ela quase não respira. É calmo o olhar que vê a aproximação da tempestade. É ainda curioso e encantado. O mesmo olhar que vê a cena vivida.

(Priscila Miraz de Freitas Grecco natural de Assis, SP, é mestre em História da América pela UNESP – Assis. Teve contos publicados pelo jornal literário de Curitiba, Rascunho, pelas revistas eletrônicas Germina e Caderno Literário. Participou também de duas coletâneas da editora Pragmatha, O imaginário do mar e do navegador, e Cardeno Literário III- Meio Ambiente)