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138ª Leva - 05/2020 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Kátia Borges

 

Lima Trindade é rock, quadrinhos e literatura. Nascido em Brasília, viveu intensamente os anos oitenta no olho do furacão. Entre o Distrito Federal, o Rio de Janeiro e Salvador, onde mora hoje, construiu uma bagagem sólida de referências, numa triangulação de afetos que transcende a ascendência carioca-baiana. Autor dos livros Supermercado da Solidão (LGE, 2005), Corações Blues e Serpentinas (Artepaubrasil, 2007), Todo Sol mais o espírito Santo (Ateliê Editorial, 2005), Aceitaria Tudo (Mariposa Cartonera, 2015) e O retrato: um pouco de Henry James não faz mal a ninguém (P55, 2014), lançou no ano passado As margens do paraíso (Editora Cepe), romance que apresenta ao leitor um Brasil que se alimentava de sonhos, talvez ingênuos, de grandeza. Nesta entrevista, conversamos sobre influências, paixões, mercado literário e a primeira incursão de Lima Trindade no universo dos quadrinhos, na lendária revista NTC, com um conto e um roteiro inéditos, que devem ser lançados em 2021.

 

Foto: Marcelo Frazão

 

DA – Quando o Lima Trindade que sonhava em ser desenhista descobriu a literatura como modo de expressão?

LIMA TRINDADE – A expressão literária chegou tarde. Talvez o grande estímulo tenha ocorrido quando assisti ao filme “Sociedade dos poetas mortos” aos 23 anos de idade. Eu me identifiquei muito com a personagem do Ethan Hawke, um cara extremamente tímido e que se sentia deslocado em ambientes formais. Todo aquele lance do “Carpe Diem”, a mistura de Horácio com os transcendentalistas americanos e a busca por uma existência autêntica fizeram minha cabeça. De vez em quando, rabiscava umas frases sem sentido nos intervalos das aulas da faculdade. Era uma coisa quase mediúnica. Eu não censurava nada. Apenas, deixava fluir. Não havia burilamento. Escrevia nas margens do papel timbrado, nas últimas folhas dos cadernos, no lado interno das capas. Escrevia e dava por acabado, sequer voltava a ler. Havia uma amiga na sala de aula, a Rosana Garutti, que adorava pegar meus cadernos e ler esses fragmentos. Dizia que achava bonito, que eu deveria escrever poemas ou letras de música. Aconteceu, então, de eu me deparar com o livro “Walt Whitman, a formação do poeta”, do Stefan Zweig. Eu fiquei fascinado com a descrição da maneira como o grande bardo norte-americano construiu e moldou sua vida por uma perspectiva puramente artística, tendo influenciado até o Wilde. Passei a estudar e exercitar versificação, trabalhando para dominar a forma e me sentir seguro para compor um poema inteiro. No começo dos anos 90, conheci os poetas Andrei Morais e Sandro Ornelas. Juntos, lançamos um folhetim poético chamado Huguy Rupi. O Andrei se desligou do projeto quando ainda imprimíamos os primeiros exemplares, rodados na gráfica do Correio Braziliense. Eu e Sandro percorríamos os bares da Asa Sul e Norte para vender e pagar o Huguy Rupi. Era uma grande aventura. Conhecemos os mais diversos poetas nessas andanças: do marginal beatnik ao parnasiano erudito. Infelizmente, a publicação só duraria dois números. Sandro, que tinha ido a Brasília para estudar, concluiu seu curso na universidade e retornou para sua casa em Salvador. Eu não quis tocar o jornal sozinho. Por volta de 1996, reuni uma quantidade significativa de poemas meus com o objetivo de montar um livro. Durante a preparação do original, reavaliei o material cuidadosamente, percebendo, com tristeza, que ele carecia de um acento particular, que sua publicação nada acrescentaria à história da literatura. Faltava-me originalidade. Eu me expressava literariamente, mas não com a potência que eu gostaria. Desse modo, desisti de escrever versos. Havia um amigo no trabalho que insistia muito para que eu escrevesse uma história de amor vivida por ele. Eu nunca experimentara a prosa de ficção, mas resolvi atender o seu pedido. Contudo, em vez de narrar a história que ele tanto desejava, enveredei por outro caminho e escrevi o conto “A meia-sola do sapato”, inspirado num episódio real de sua infância. Esse trabalho, que era meu primeiro no gênero, me valeu uma menção honrosa no Concurso de Contos Paulo Leminski em Porto Alegre. Deu-me também disposição para experimentar novas possibilidades de narrativas e pontos de vistas.

 

DA – Há um momento no qual essa vocação tenha ficado perfeitamente nítida para você? Uma espécie de marco, de ponto de virada.

LIMA TRINDADE – Sim. No dia do lançamento do “Todo Sol mais o Espírito Santo”, no Rio de Janeiro. Como todo ansioso, cheguei ao evento, que aconteceria no Centro Cultural dos Correios, algumas horas antes do previsto. Estava tudo muito bonito e organizado. Eu não tinha muito o que fazer. A não ser, esperar. Desse modo, resolvi dar uma volta. Chegando na Rio Branco, encontrei a Leonardo Da Vinci, que eu sempre ouvira os amigos falarem ser uma livraria fantástica e dona de um acervo de muita qualidade. Fiquei todo animado com a possibilidade de encontrar alguns títulos e autores que não achava em Salvador. Logo na entrada, tomei um susto. Vi o meu livro exposto em destaque. Ao lado, escritores como Truman Capote, Clarice Lispector, Reinaldo Arenas, Gabriel García-Márquez, Caio Fernando Abreu etc. Foi uma emoção sem igual. Ali, eu tive a consciência de estar verdadeiramente inserido no jogo. Até então, nos lançamentos em São Paulo e Brasília, eu me sentia como se estivesse anestesiado, como se nada daquilo fosse real.

 

DA – Como foi a adaptação do brasiliense, que orbitava o boom do rock BR, ao universo dominado pela cultura do axé?

LIMA TRINDADE – Não houve conflito. Sou filho de baiana e carioca. Meu pai e minha mãe se separaram relativamente cedo. Quando eu tinha quatro anos de idade, meu pai foi trabalhar em Manaus, por conta das oportunidades surgidas com a zona franca. Alguns anos depois, retornou, mas os dois não se entenderam e ele partiu novamente. Nós, meu pai e eu, só fomos desenvolver maior proximidade no começo de minha adolescência. O resultado disso é que passei boa parte da minha infância sendo criado por uma mãe, avó e tia baianas. Não sei distinguir o que é brasiliense e o que é baiano em mim. Sem falar que, em matéria de cultura, nunca fui purista. Eu mergulhei no rock de minha geração, mas, ao mesmo tempo, gostava de ouvir Caymmi e Noel Rosa. Ou Villa-Lobos. O que apreciava no rock dos anos 80 era justamente sua rebeldia, sua não aceitação das regras, sua inteligência. Vim para Salvador em 2002. Eu tinha muito preconceito em relação ao axé, botava É o Tcham e Olodum no mesmo saco, entende? Ficava irritado pelo fato de as rádios de Brasília não tocarem mais músicas de rock e cederem quase todo o espaço para o “axé”. Eu sabia que se tratava de grana, que o rock tinha sido uma moda do mesmo jeito que o axé era naquele momento, mas não me conformava. Somente morando na Bahia é que fui compreender o quanto a classificação “axé” era limitada, preguiçosa e excludente. Não dá para dizer que Gerônimo, Lazzo Matumbi, Ilê Ayê, Netinho, Chiclete com Banana e Harmonia do Samba são parte de um mesmo movimento, têm as mesmas identificações estéticas e interesses artísticos. É algo absurdo. Por outro lado, eu já conhecia e admirava a produção roqueira baiana quando ainda estava em Brasília. Foi uma alegria grande conhecer pessoalmente os músicos da Brincando de Deus e da Dead Billies, por exemplo. Salvador é uma cidade muito diversa, rica de possibilidades e encantamentos. Os amigos que fiz aqui estão longe dos estereótipos de baianidade propagados pela mídia. Viver em Salvador não foi uma decisão motivada por falta de perspectivas. Foi uma eleição, uma escolha.

 

DA – Um aspecto marcante de sua personalidade é a aproximação com o universo dos quadrinhos e do rock. Essas referências influenciam a sua produção literária?

LIMA TRINDADE – Totalmente. Os dois gêneros decodificaram o mundo para mim e nutriram minha capacidade criativa. Por causa deles, atravessei oceanos, vivi momentos únicos na história da humanidade e me senti menos solitário. Minha sensibilidade se cunhou muito a partir das histórias que li e músicas que ouvi. Pela escrita, eu “desenho”. Assim como trabalho os sons numa frase de um conto, estabeleço certos climas para cenas e, digamos, me deixo dominar por uma estilística roqueira, uma trilha sonora interna que dá ritmo e cadência ao texto e me embala.

 

DA – No caso específico dos quadrinhos, tem acompanhado a produção contemporânea brasileira e baiana?

LIMA TRINDADE – Eu tento. Porém, meu método de leitura é caótico, não obedece a nenhuma cronologia. Não me preocupo em estar atualizado com os lançamentos. Meu único compromisso é com a qualidade. Quando recebo dicas de um trabalho legal, seja pela mídia especializada ou por amigos, corro atrás. Tem gente que se satisfaz com quadrinhos bem desenhados e roteiros inconsistentes. Ou o contrário, grandes textos e traços ruins. Para mim, a coisa só funciona se os dois aspectos forem bons. No Brasil, sou fã da Laerte, do Allan Alex, André Dahmer, Davi Calil, Lourenço Mutarelli e Rafael Corrêa. O Marcelo D’Salete é obrigatório. Gosto muito do Wagner William também. Já entre os baianos, o Marcelo Lima, com os roteiros, mais o Dan Borges e a Lila Cruz, com a arte, são três nomes expressivos. Há ainda iniciativas de coletâneas muito legais feito a Máquina Zero, da Quadro a Quadro, que é uma editora baiana, e a Bang Bang, da Devir, de Sampa.

 

Foto: Marcelo Frazão

 

DA – Há alguma incursão nesse universo na gaveta ou na cabeça, em roteiros para HQ, por exemplo?

LIMA TRINDADE – Recebi um convite do Allan Alex para participar de um projeto superbonito, a revista NCT, uma singela homenagem a um gênero que abrigou diversos artistas nacionais de grande talento: os quadrinhos de terror. Quem tem mais de quarenta anos talvez se lembre das revistas Spektro, Pesadelo e Calafrio, que eram vendidas em bancas, e de nomes como Flavio Colin, Julio Shimamoto, Watson Portela, Rubens Cordeiro e Mozart Couto. Para a NCT, escrevi um conto exclusivo e preparei um roteiro de 6 páginas, que está nas mãos do Dan Borges. Se tudo der certo, em 2021 a revista estará em circulação.

 

DA – Vivemos hoje o que alguns classificam como um pandemônio, mescla da situação política, que nos lançou em um cenário de violência e insegurança institucional, e dos efeitos devastadores da pandemia do Covid-19. Nesse contexto, sendo um escritor brasileiro, brasiliense-baiano, como avalia as perspectivas do mercado literário, no que tange à criação, produção editorial e circulação de livros?

LIMA TRINDADE – O interesse por literatura e arte, seja ela qual for, nunca deixará de existir. É vital no ser humano. Não se trata em absoluto do impacto reflexivo que ela nos proporciona, o que não seria pouco, pois isso as ciências exatas também fazem, mas sua importância se dá numa espécie de refinamento de nossas emoções, na possibilidade de oferecer uma troca de experiências e nos conectarmos com nós mesmos e com os outros num nível mais profundo. Recordemos que a humanidade já passou por desafios ainda maiores que essa pandemia. E, fosse na quebra da bolsa dos EUA em 1929, num Japão destruído do pós-guerra ou a vida num regime ditatorial no Brasil em que, para piorar, havia um índice de inflação altíssimo, as pessoas não deixaram de adquirir e ler livros, ouvir músicas, participar de exposições ou espetáculos de dança. Penso que nessas situações limites a necessidade de aproximação com o universo artístico se torna ainda mais forte. No âmbito da criação, há quem acredite, inclusive, serem esses momentos mais férteis. Quanto ao mercado editorial em si, a produção e circulação de bens adaptar-se-ão às novas realidades, sejam elas quais forem. Pode ser que a mudança do suporte físico para o virtual, no caso da literatura, avance mais. Pode ser que o crescimento se dê mais apenas na forma de aquisição, os leitores comprando livros de papel pela internet. Ou, ainda, pode ser que as consequências não sejam tão amplas e tudo volte a ser exatamente como era antes.

 

DA – Seu livro mais recente, “As margens do paraíso”, debruça-se sobre um país literalmente em construção. Logicamente, há vários caminhos narrativos para contar a história de Brasília. O que o fez escolher um formato não exatamente linear?

LIMA TRINDADE – A história de Brasília se confunde com a história do Brasil e se confunde também com as histórias de todas as pessoas que viveram o período. No entanto, o livro foi escrito hoje e meu objetivo ao realizá-lo não foi o de suprir lacunas históricas ou fazer sociologia. O romance traz uma realidade completa que se fecha nela mesma e se presta a múltiplas leituras e interpretações. Quando lemos o Quixote ou Hamlet pouco importa o período “real” em que a personagem vive, mas, sim, a vivência de uma gama de emoções colocadas em cena por meio de uma linguagem igualmente viva. A linearidade ou a não-linearidade tem de atender à capacidade do autor expressar melhor os problemas, questões e temas escolhidos para trabalhar. No caso do As margens do paraíso, esse “em construção” já dá uma tônica da complexidade do caminho. A linearidade isolaria e simplificaria as vidas de Leda, Rubem e Zaqueu, personagens também “em construção”, coisa que eu não desejava. Eu não quis facilitar nada para quem lê. Acredito na inteligência de meus leitores e leitoras.

 

DA – Como se deu a opção por três pontos de vista, em processos individuais, na composição de seu romance?

LIMA TRINDADE – Ao escolher a margem como perspectiva, eu decidi não colocar as personagens à margem, entende? E não dava para problematizar o centro acreditando em limites únicos, restringindo o seu ser e estar no mundo numa única voz. Seria contraditório. Essa era uma história que, a meu ver, um único narrador a empobreceria. As sutilezas das diferenças e aproximações dos três narradores se perderiam, a visão do todo ficaria embaçada e não duvidaríamos se o que a personagem diz é uma manipulação ou se o fato narrado acontece “verdadeiramente”.

 

DA – “As margens do paraíso” é um dos poucos romances contemporâneos que abordam a construção da capital federal do ponto de vista dos candangos e dos primeiros habitantes de uma cidade planejada. O que, a seu ver, provoca o desinteresse temático por esses personagens tão característicos quanto interessantes e históricos?

LIMA TRINDADE – Não sei. É algo que nunca me ocorreu. Talvez não haja desinteresse. Talvez a razão resida no fato de a cidade ser extremamente jovem e seu passado recente pareça um presente sem enigma algum a ser decifrado por quem a vive hoje. Jorge Amado retratou uma Bahia em processo de transformação, a passagem do estágio agrário para a industrialização, que poucos se detiveram com idêntica acuidade. Ou será que uma parcela grande de escritores enfrentou o tema, porém sem despertar a mesma atenção do público e alcançar os mesmos resultados literários que Jorge? É possível que haja uma literatura submersa dos candangos e primeiros habitantes da capital federal e nós não saibamos.

 

Kátia Borges é autora dos livros “De volta à caixa de abelhas” (As letras da Bahia, 2002), “Uma balada para Janis” (P55, 2009), “Ticket Zen” (Escrituras, 2010), “Escorpião Amarelo” (P55, 2012), “São Selvagem” (P55, 2014) e “O exercício da distração” (Penalux, 2017). Tem poemas incluídos nas coletâneas “Roteiro da Poesia Brasileira, anos 2000” (Global, 2009), “Traversée d’Océans – Voix poétiques de Bretagne et de Bahia” (Éditions Lanore, 2012), “Autores Baianos, um Panorama” (P55, 2013) e na “Mini-Anthology of Brazilian Poetry” (Placitas: Malpais Rewiew, 2013).

 

 

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105ª Leva - 08/2015 Destaques Olhares

Olhares

Exílios voluntários

Por Fabrício Brandão

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O mundo pode ser um imenso jardim onde depositamos o tamanho de nossas expectativas. Podemos regá-lo de acordo com conveniências misturando doses reais e fantásticas. E talvez não seja tão relevante procurar saber se apreciamos mais a aparência ou o conteúdo das coisas quando a intenção é a de se ter uma atitude contemplativa diante da vida. Mergulhar mais fundo significa uma escolha a produzir seus próprios resultados.

Eis que há um outro sentido de busca na captura das imagens do mundo. É quando o artista, numa atitude libertadora, deixa-se conduzir pela pulsação própria da existência. Nesse ato, ele sai ao encontro do inesperado sem saber ao certo quais sinais irão se insinuar diante de seus sentidos. Entra em cena o desperto exercício da observação, mola propulsora do trabalho de gente como Juca Oliveira.

Juca não sabe ao certo o que vai encontrar quando permite que o mundo o apresente suas tantas e tamanhas imagens. Não há um roteiro prévio a comandar os impulsos da criação. A orientação primeira de desenhos e ilustrações vem de uma atitude de desapego à conformidade, uma sensível vontade de se deixar surpreender pelas manifestações externas. Assim, há um significativo eixo de posicionamentos, através do qual o artista, seu olhar e os objetos/sujeitos flagrados compõem uma tríade de papéis.

No seu trajeto para ver o mundo, Juca assume o desafio de articular e harmonizar elementos abstratos e concretos. Nesse momento, a intuição configura-se uma ferramenta fundamental, pois possibilita ao artista vislumbrar cenários e engendrar campos de atuação para seus personagens.

Juca Oliveira
Arte: Juca Oliveira

Seres, coisas e lugares dão o tom ao ofício de representação que nos é proposto por Juca. Dialogando com traços da contemporaneidade, o criador lança mão de recursos provocativos, irônicos e também dotados de suavidade. Faz uso de cores e formas que assinalam um modo peculiar de captar o que a vida lhe oferta incessantemente. Se o fluxo de informações é grande, Juca prefere o exílio voluntário, momento em que, num amplo processo de tomada de consciência, rende-se a apelos cotidianamente ignorados.

Outro ponto forte da trajetória desse artista baiano é a elaboração de histórias em quadrinhos. Com certa dose crítica e sarcástica que o gênero demanda, Juca conduz seus imaginados enredos. Suas tirinhas sequenciais apresentam uma robusta capacidade de equilibrar e condensar texto e imagem.

Na sua intenção confessa de se deslocar para um tempo diferenciado, mais lento, no qual desacelerar significa ampliar perspectivas de apreensão das coisas, Juca Oliveira edifica o habitat de sua arte. Alheio ao turbilhão que desconcentra e por vezes desvia, o artista encontra refúgio na percepção detida de um tudo. Com isso, reconecta-se a si mesmo, evidenciando o poder dos silêncios e abrindo canais de entendimento sobre a existência.

Juca Oliveira
Arte: Juca Oliveira

 

* As ilustrações de Juca Oliveira são parte integrante da galeria e dos textos da 105ª Leva.

 

Fabrício Brandão é um dos editores da Revista Diversos Afins. Cultua livros, discos e filmes com amor táctil e espiritual.

 

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95ª Leva - 09/2014 Destaques Olhares

Olhares

O idioma das sutilezas

 Por Fabrício Brandão

Rebeca Prado
Ilustração: Rebeca Prado

 

São mãos a percorrer rostos e gestos. Pequenos universos a abrigar também a intensidade natural das cores escolhidas. O resultado aponta para o surgimento de um traçado irreverente na observação da vida. Dada a multiplicidade de tons, a arte da mineira Rebeca Prado revela-se um misto de doçura e inquietude, quiçá um contraponto dentro de um jogo necessário de equilíbrios.

Eis que não nos basta mencionar a convergência entre sentimentos supostamente opostos. De fato, não. E o que Rebeca propõe reside num plano simultaneamente concreto e intangível. Palpável na medida em que nos incita a sermos personagens de suas representações de mundo. Imponderável quando os ambientes sugeridos fazem parte de uma ampla dimensão na qual a abstração pretende-se inteiramente livre.

Há sutileza nos temas propostos. No entanto, o convite da artista é para que façamos um uso muito mais reflexivo sobre tudo. Num rico painel que agrega níveis complexos de delicadeza, Rebeca incita-nos à provocação. Assim, pequenos fragmentos cotidianos e seus cenários perfazem arremates certeiros em nós. Seja pela pungência do elemento crítico, seja pela evocação de alguma serenidade, ilustrações e desenhos servem a um ideal vigoroso: não passamos impunes diante da beleza e do espanto da vida.

E como, por natureza, somos seres recorrentemente míopes, a acidez do tempo vem quebrantar os laços confortáveis. Ainda assim, os incômodos não conseguem superar os dotes de uma ternura reinante, verdadeira arma do olhar. Tanto nos postais quanto em boa parte de seus desenhos e ilustrações, Rebeca não abre mão de suas lúcidas leituras de mundo. Se a atitude crítica permanece vigilante, os recursos poéticos também assumem seu lugar. Nesse movimento, as tensões internas harmonizam-se a favor de um conceito orgânico em matéria de arte.

Rebeca Prado
Ilustração: Rebeca Prado

 

 Apesar de sempre ter gostado de desenhar, já passou pela cabeça de Rebeca a vontade de ser astronauta e bióloga. Hoje, sobretudo como ilustradora, quadrinista e professora de desenho, ela revela-se ávida por tudo o que o mundo é capaz de lhe proporcionar em termos de imagem. E verter isso em criações também deriva de influências das mais variadas possíveis, como o design gráfico, quadrinhos, arte urbana, animação e ilustração infantil.

O momento atual da artista contempla a feitura de tirinhas, divididas em duas séries, “Navio Dragão” e “Sutil ao Contrário”, ambas publicadas semanalmente em sua página. Vale ressaltar que, nesse território, o humor aguçado e inteligente pontua marcantemente as criações. Rebeca também confecciona diversos materiais gráficos para venda, como pôsteres, postais e quadrinhos, além de integrar o “Selo Maritaca”, de quadrinhos independentes.

A arte tem uma propriedade bastante especial de romper estruturas embrutecidas. Quando se afirma isso, podemos considerar que uma das facetas dela é a de viabilizar uma apreensão menos pesada de tudo que nos acomete. Sem perder a porção inquieta e incomodada da existência, carregamos conosco os dotes inalienáveis da fantasia. No curso dos mares da abstração, ir além é um imperativo. Expondo sua rota, Rebeca Prado nos empresta sua bússola.

 

Rebeca Prado

 

* Os desenhos, ilustrações, tirinhas e postais de Rebeca Prado são parte integrante da galeria e dos textos da 95ª Leva