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137ª Leva - 04/2020 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Sérgio Tavares

 

Ana Paula Lisboa é uma das grandes vozes da atualidade. “Favelada e carioca de nascimento, a mais velha de quatro irmãos, filha de dois pretos”, como se define, seus textos em prosa e em poesia trazem toda a potência, a riqueza e a representatividade da cultura afro-brasileira, chamando atenção, com igual vigor, para a ancestralidade, a produção cultural das mulheres negras e também se manifestando contra ações que silenciem, infrinjam direitos e tirem espaços dos negros dentro e fora do Brasil.

Dividindo a vida entre o Rio de Janeiro e Luanda, dirige a Aláfia e a Casa Rede, espaços de produção de arte e cultura na capital angolana. No Brasil, escreve regularmente para o Segundo Caderno, do jornal O Globo, um desejo que vem de muito jovem, um desejo de ser lida que nasce aos 14 anos, quando escreve seus primeiros contos e poesias. Hoje, seus escritos estão em coletâneas nacionais e internacionais, porém, mais que uma escritora, prefere ser reconhecida como artista textual, utilizando da palavra escrita e da falada em diferentes plataformas, com o intuito de promover a visibilidade na narrativa e na gramática negra no mundo.

Em entrevista exclusiva a Diversos Afins, Ana fala sobre sua vivência com a literatura, suas experiências com a leitura de mulheres negras, aborda o problema da educação e do racismo, além de denunciar o desvirtuamento do que se entende como “literatura negra” e a falta de espaços para a publicação de autores negros no mercado editorial brasileiro. Com respostas francas, marcadas por um misto de indignação, inteligência e personalidade, a autora aponta problemas antigos e da política atual, celebrando nomes como Carolina Maria de Jesus, Conceição Evaristo e Machado de Assis, sem nunca baixar a guarda no que se refere ao respeito às tradições africanas. “Para mim, é imprescindível que Machado de Assis seja negro, não por uma fantasia de representatividade, mas por uma reparação histórica do apagamento. Não conseguiram apagar suas palavras, porque ele era um gênio, então apagaram seu rosto, porque era inaceitável um gênio negro”, sentencia.

 

Foto: arquivo pessoal

 

DA – Um dos pontos centrais, tanto de seus textos ficcionais quanto de suas crônicas, é chamar atenção para a cultura afro-brasileira, em especial para a literatura produzida por mulheres negras. Queria saber, a princípio, sobre a sua primeira experiência de leitura de um autor negro. Quando ocorreu e o que representou para você?

ANA PAULA LISBOA – Eu sinceramente não me lembro da primeira leitura, o primeiro lugar em que me senti representada pela cultura afro-brasileira foi na música e na dança. Pensando agora, talvez a Elisa Lucinda fosse alguém que eu sentisse algo especial, uma poesia de voz feminina mas que não representava a “mulher universal”, tinha ali questões que eram só dela. Eu me lembro bem quando li “Ponciá Vicêncio”, da Conceição Evaristo, que a sensação era de que tudo que era possível escrever sobre ser uma mulher negra no mundo estava naquele texto. Eu, inclusive, fiquei algumas semanas sem escrever nada porque parecia que não havia mais o que escrever.

 

DA – Dentre outros meios, você escreve regularmente para o Segundo Caderno, do O Globo. Baseado nessa experiência de colunista, como analisa a importância de tratar de temas representativos, sobretudo no que diz respeito às mulheres negras, num jornal de larga circulação nacional? Encontra ainda algum tipo de resistência?

ANA PAULA LISBOA – A resistência que eu encontro é do próprio pensamento e estrutura do Brasil, um país em que, por mais que não tenha passado pela experiência do Apartheid, os lugares para pretos e os lugares para brancos estão muito bem definidos, não numa placa, mas no próprio imaginário das pessoas. Então, ter uma mulher negra jovem escrevendo um jornal de grande circulação é ainda estranho para muitas pessoas. Eu adoro escrever no jornal, era um desejo desde muito jovem. Escrever, pra mim, nunca foi sobre só escrever, mas sobre ser lida, então, quanto mais pessoas lendo, melhor. Os orixás trabalham para que as coisas aconteçam da forma que elas têm que acontecer. É muito bom chegar em pessoas fora da minha bolha, de outros estados, de outros países, ou em salas de aula.

 

DA – Entrando no universo da literatura, o livro “Silêncios prescritos: estudo de romances de autoras negras”, da doutora da USP Fernanda R. Miranda, traz uma informação espantosa de que, em 200 anos de literatura brasileira, apenas oito autoras negras publicaram romances. Você acredita que, neste caso, a mínima quantidade de obras está diretamente associada a um processo sistêmico de silenciar as mulheres negras? E como isso ocorre?

ANA PAULA LISBOA – Está ligado a vários processos, não há um motivo único, porque o racismo é um monstro com muitos tentáculos. A questão principal, nesse caso pra mim, é a publicação, porque tem muita gente escrevendo, mas não tem tanta gente sendo publicada. Todos os anos, os mesmos nomes estão nas estantes. Depois, há também outras coisas: eu estou passando pela experiência de escrever um romance e é uma coisa muito difícil. Escrever uma narrativa longa é muito trabalhoso, requer concentração, tempo, espaço e, às vezes, dinheiro para bancar essa escrita. Quantas pessoas têm isso? No buraco de tempo que a gente consegue entre tantos trabalhos domésticos e na rua, o que dá para fazer muitas vezes são só as narrativas curtas, as poesias. Isso também é um dos motivos porque muitas mulheres e homens negros publicam em coletâneas, como, por exemplo, são os Cadernos Negros, que existem há mais de 40 anos. A outra coisa é que, além de criar espaço nas editoras que já existem, é preciso também que sejam abertas novas editoras, de donas e donos pretos. Esse também é um espaço que podemos e devemos ocupar.

 

DA – Outra questão forte e alarmante está na afirmação de que, no rol de todas as expressões artísticas, a literatura é aquela menos acessível ao artista negro, pois tem o poder de colocá-lo como figura central, de projetar sua voz. Penso que isso gera um deslocamento do campo literário e prova um racismo que transcende a ficção. Sendo assim, você acredita que o preconceito é o mal que explica a escassez da literatura produzida por negros, ou é um pensamento muito limitado, que encobre outros problemas?

ANA PAULA LISBOA – Todas as opressões cabem dentro da literatura, é uma grande luta para saber quem vai narrar o Brasil, qual Brasil é válido de ser contado em palavras escritas. A educação é uma grande questão, porque os negros foram proibidos de ter acesso a escola, era um tal de “vou aprender a ler, pra ensinar meus camaradas”. A entrada na universidade continua a ser uma luta, um espaço que a todo momento tentam retirar. E mesmo dentro, a luta por um conteúdo que nos inclua também permanece. Tudo é um grande plano para nos afastar e não nos deixar emancipar, um plano que todos fazem parte de uma forma ou de outra, ainda que não percebam. Por isso eu acho a ficção tão importante, ela não se desloca do tempo e do espaço que nos prende. É o contar histórias dos griôs, é só inventando mundos outros que vislumbrarmos sair desse em que estamos.

 

Foto: arquivo pessoal

 

DA – Em 2018, o romance “Torto arado”, do baiano Itamar Vieira Junior, ganhou o Prêmio Leya de Literatura, dando voz a duas personagens negras num épico passado num Brasil profundo. Pensando na questão do lugar de fala, de alguma forma um homem dando voz a personagens femininas é um problema? De que forma a ausência de uma autora vocalizando questões ligadas ao universo feminino impede com que se chegue a uma verossimilhança representativa?

ANA PAULA LISBOA – Eu não li o romance do Itamar ainda, mas ouvi coisas muito bonitas sobre ele. Eu acho que ser um escritor é a possibilidade de ser outros, de ter outras vozes, de estar em outros mundos, então não vejo um homem criando as histórias de mulheres como um problema. As coisas são só coisas, nós é que damos funcionalidades a elas. A questão, pra mim, da escassez de personagens negros na própria literatura é porque o homem branco escritor do sudeste, que é o publicado, só fala de si.

 

DA – Neste caso, há também a questão do Machado de Assis branco, mulato ou negro? Qual a relevância dessa discussão para você? 

ANA PAULA LISBOA – Eu sou apaixonada pela literatura de Machado de Assis. Na verdade, voltando à primeira pergunta, eu me lembro da primeira vez em que li “Dom Casmurro”, e ele começava escrevendo algo como pegar o trem para o Engenho Novo. Na época, eu morava no Engenho Novo e, pra quem conhece, sabe que não é um bairro pra se ter muito orgulho. Mas foi naquele dia em que eu me apaixonei pelo Engenho Novo. Para mim, é imprescindível que Machado de Assis seja negro, não por uma fantasia de representatividade, mas por uma reparação histórica do apagamento. Não conseguiram apagar suas palavras, porque ele era um gênio, então apagaram seu rosto, porque era inaceitável um gênio negro.

 

DA – Tratando agora de autoras negras, um caso marcante é o da mineira Carolina Maria de Jesus, cujo livro de estreia, “Quarto de despejo: diário de uma favelada”, é considerado um best-seller e segue encontrando novas gerações de leitores e de admiradores. Contudo, é uma literatura que paradoxalmente não trouxe larga visibilidade para a figura da autora, ou mesmo seu devido reconhecimento. A que se pode imputar tal discrepância dado o caráter livremente autobiográfico do livro?

ANA PAULA LISBOA – São várias as questões, porque Carolina, diferente do Machado, tinha rosto, tinha traços, tinha corpo, um corpo preto retinto. Carolina era uma mulher muito forte, ela se conhecia e conhecia o Brasil, esse Brasil racista. Ela não se deixou ser colocada na caixa da “favelada”, como se essa fosse a única narrativa que ela pudesse escrever. Como não conseguiram apagar seu rosto, tentaram apagar seus escritos, também geniais.

 

DA – Outra autora em foco é a também mineira Conceição Evaristo que, em 2018, esteve no centro de uma campanha nas redes sociais para que fosse a primeira escritora negra a ser eleita para a Academia Brasileira de Letras (cadeira que acabou sendo preenchida pelo cineasta Cacá Diegues). Na ocasião, um dos assuntos mais discutidos foi se o estofo de sua obra lhe garantiria força para disputar a vaga ou se sua escolha se devia a sua representatividade no meio literário. Qual sua percepção sobre essa questão?

ANA PAULA LISBOA – Conceição Evaristo é, pra mim, a maior escritora do Brasil. Conceição não entrou para Academia Brasileira de Letras porque a branquitude não gosta de ser questionada, não suporta ser racializada e não tem nenhuma vontade de reconhecer seus privilégios. Reconhecer privilégios é reconhecer a sua culpa em tudo isso e ninguém quer se sentir culpado. No Brasil, o racista é sempre o outro. Mas Conceição não perde em nada, na verdade quem perde é a Academia Brasileira de Letras. Ela é uma deusa e deusas já nascem imortais.

 

Foto: arquivo pessoal

 

DA – Você tem contos e poesias publicados em coletâneas nacionais e internacionais. No entanto, numa visão ampla da literatura contemporânea brasileira, ainda há poucos autores negros publicando. Por parte das editoras, em especial os grandes selos, você percebe que ainda há resistência para se publicar autores negros ou preconceito sobre temas ligados ao universo afro-brasileiro?

ANA PAULA LISBOA – Para que existam na literatura publicações de literatura negra, é preciso que haja editores que saibam ler essa literatura, e há muita gente nesse mercado que não sabe ler. Depois é o mercado, que está percebendo lentamente que os negros compram livros, leem livros e que nós não lemos de qualquer coisa. É engraçado porque se um carioca da Zona Sul resolve comprar um livro só porque conhece o autor e a história se passa no Leblon, ninguém acha isso estranho. Mas se eu disser que comprei um livro só porque ele se passa na Complexo da Maré, ou porque ele foi escrito por uma mulher negra, acham que eu estou à procura não de boa literatura, mas de representatividade.

 

DA – Falando em preconceito, temos hoje, no governo federal, um presidente da Fundação Palmares que explicitamente menospreza a história de resistência e luta dos negros no Brasil, reiterando declarações racistas. Você acredita que essa é a pauta de um indivíduo completamente transloucado ou há, por trás disso, toda uma ação institucional para sufocar e anular as políticas públicas e reconhecimento histórico-sociocultural do negro no Brasil?

ANA PAULA LISBOA – Eu acho que nada é por acaso, não acho que buracos se abrem do nada, a gente sempre caminha até o abismo, mesmo que não se dê conta disso. A minha sugestão, inclusive, é a que mudemos o nome da Fundação Palmares enquanto o senhor esteja presidente. A luta ancestral não merece ter seu nome tratado assim.

 

DA – Há uma máxima de que o esporte é um instrumento para socializar e dar oportunidades reais a crianças situadas nas áreas mais pobres do país. Porém, não deveria ser o único a ter essa disponibilidade. Você acredita que a cultura, em especial a literatura, poderia ser também um caminho? E essa ausência não explicaria o baixo número de autores negros em atividade no Brasil?

ANA PAULA LISBOA – Ninguém tem muita paciência com a criança e o jovem negro, há pesquisas que falam que professores são mais agressivos e se recusam, às vezes, a explicar para crianças e jovens negros na escola, que crianças negras passam mais tempo chorando ou sujas nas creches. O adolescente branco, de classe média, geralmente quando começa a dar problema vai para terapia, isso não acontece com jovem negro. Então, é mais fácil botar ele para jogar futebol, gastar energia, colocar para fora aquilo que tá incomodando do que sentar com ele e efetivamente explicar o mundo. Ao mesmo tempo, eu acho que a cultura ou o esporte não tem o dever de salvar ninguém, a criança e o jovem preto não precisam de salvação, precisam de repertório de mundo, terem acesso a estímulos para que possam fazer boas escolhas para a vida. Esse é um direito que está inclusive na Declaração Universal dos Direitos Humanos.

 

DA – O que pensa sobre a expressão “literatura negra”? Há, na confirmação do termo, um fator de representatividade, de força para esses autores? Ou literatura brasileira deve ser vista em sua multiplicidade, incorporando temas e contextos sem que seja distinguida por qualquer partição?

ANA PAULA LISBOA – Eu não sou acadêmica ou crítica literária, eu sou só uma escritora. Hoje eu percebo que o que eu escrevo é literatura negra e não vejo nenhum problema em ser colocada nessa estante.  O que me incomoda é a classificação “escritora negra”, porque geralmente quando me colocam nessa caixa quer dizer que eu só possa escrever, ver, ou falar a partir das questões do racismo. Se eu pensasse ou escrevesse sobre racismo 24 horas por dia, eu já teria morrido de depressão. É óbvio que ser uma mulher negra vai aparecer no que eu escrevo, assim como Clarice Lispector ser ucraniana criada no nordeste aparecia na literatura dela. Ser negra não é a minha limitação, na verdade é o que me amplia.

 

DA – Para os leitores que querem acessar a literatura afro-brasileira, o que você recomenda de contemporâneo? Quais autores ou livros são fundamentais hoje?

ANA PAULA LISBOA – Leiam qualquer coisa da Conceição Evaristo, até receita de bolo. Meu preferido, nesse momento, é “Becos da Memória”. “Um Defeito de Cor”, da Ana Maria Gonçalves, é tipo a bíblia. “Meio Sol Amarelo”, da Chimamanda Ngozi Adichie, é de destruir emocionais. Nesse momento, estou lendo as poesias da Ryane Leão, em “Tudo Nela Brilha e Queima”, e os contos da Cidinha da Silva, em “Um Exu em Nova York”.

 

DA – A literatura, por si só, tem o poder de ser um instrumento de representatividade social, ou depende de uma combinação de fatores?

ANA PAULA LISBOA – Não sei responder.  Eu acho que a literatura como qualquer outra arte está inserida no tempo e no espaço de uma sociedade, então de alguma forma ela sempre vai representar algo. Representação não é um problema do escritor, o problema do escritor, ou a tarefa do escritor, é escrever: é criar histórias, mundos, pessoas e esperar que quem esteja do outro lado entenda a história que a gente queria contar.

 

Sérgio Tavares nasceu em 1978. É crítico literário e escritor, autor de “Queda da própria altura”, finalista do 2º Prêmio Brasília de Literatura, e “Cavala”, vencedor do Prêmio Sesc Nacional de Literatura. Alguns de seus contos foram traduzidos para o inglês, o italiano, o japonês, o espanhol e o tâmil. Participou da edição seis da Machado de Assis Magazine, lançada no Salão do Livro de Paris. Edita o site de crítica literária A Nova Crítica.

 

 

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136ª Leva - 03/2020 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa II

Carlos Vilarinho

 

Imagem: Roberto Pitella

 

O Gari

 

Tudo devia começar com um grito, como aquela pintura que parecia tintas derretidas que vi no museu enquanto varria do lado de fora, na calçada do elegante e nobre bairro da Vitória, em Salvador. Um grito de desespero que chegava a segurar a cabeça e expressava horror e medo.  Mas começava assim: um rapaz cujo único trabalho foi sentir prazer antes que eu nascesse, jamais soube quem eu era. Muito menos eu lhe pus os olhos. Talvez ele, caso houvesse interesse em me conhecer, acalentasse minha alma daquelas situações rasteiras de dissabores raciais, por exemplo. Não sei qual foi a pior situação, se a minha ou a de Amanda. Com minha irmã, além da cor da pele, minha mãe não tinha certeza, entre três rapazes, qual deles era o pai dela. Portanto, quando a médica disse “dispneia”, pensávamos se tratar de algo letal como câncer. Tudo de ruim acontecia com pobre e preto desvalido. Nessa época, eu contava com doze anos, Amanda com oito. Minha mãe nunca conheceu as Letras, talvez por isso o serviço do rapaz foi mais fácil para que culminasse na minha existência. Nasci quando minha mãe completava quinze anos. Nasci um negro de periferia. Aos poucos quase me tornava ressentido e rancoroso pelo que faziam comigo e com os outros negros, pobres diabos no mundo. Não foi difícil deduzir que se tratava de racismo aqueles tratamentos díspares, ainda que me faltassem leitura e Educação. Nunca esqueci uma professora que tive quando estudei na escola da prefeitura quando tinha nove anos. Gostava de ouvir e ler histórias de pessoas que provocavam diferenças na vida e se tornavam essenciais à sociedade. Ela nos mostrou uma coleção de fotos de pessoas importantes que venceram com coragem as adversidades. Entre as fotos havia de uma pequenina menina negra chamada Ruby Bridges. A professora disse que nos espelhássemos naqueles exemplos. Toda vez que me sentia ultrajado com troças de racistas pensava em Ruby, aquilo me fortalecia. Mas não era fácil, o racista corrompia a alma alheia sem se inibir. Parecia um vestígio característico do ser humano. Quase ficava com vergonha de minha pele, não havia ninguém que me acalentasse.

Havia passado trinta e três dias. Contava desde que aquele jornalista apareceu em minha casa dentro da televisão. Avisava da quarentena e anunciava a primeira morte. Trinta e três era um número cabalístico. Quer dizer, sempre ouvia dizer essas coisas, na verdade não sabia do que se tratava. Sabia que Jesus havia morrido com trinta e três anos, mais nada. Despois de quarenta anos de idade, vinte varrendo as ruas de Salvador, me sentia finalmente essencial à humanidade. Nos meus primeiros vinte anos de existência, sonhei um dia em ser médico. Quando vi uma delas salvar minha irmã da tuberculose. Era uma boa médica, cuidadosa, zelosa e carinhosa. Além disso, foi ela quem alertou o outro problema que Amanda carregava desde que nasceu.

‒ Parece que ela tem dispneia.

Uma vez, na idade adulta, ainda jovem, quando corria para jogar futebol. Já praticava meu ofício com destreza e afinco, varria as ruas de minha cidade com orgulho de ter nascido na Bahia, mesmo com todas as diferenças que eram acentuadas com discrição e silêncio. Tinha quase certeza que as pessoas na grande maioria disfarçavam o que sentiam verdadeiramente umas pelas outras. Não que eu fosse desconfiado, talvez nem eu nem ninguém tivesse razão para andar cismado, mas algo dentro de mim dizia que somente a própria pessoa conhece a ela própria. Participava de uma partida num campo de várzea, jogávamos todos sem que distinguíssemos o nível econômico das pessoas. Simplesmente formalizávamos a liberdade e empreendíamos a democracia que se traduziam na prática do esporte, pelo menos. Evidentemente não havia como distinguir naquele momento as diferenças acentuadas entre seus praticantes, cada equipe e cada jogador preocupavam-se em vencer. Além de tudo, exercitávamos a coletividade. Enquanto jogávamos, ouvi de um rapaz, acho na mesma idade que a minha, praticamente bradar a pulmões um desaforo gratuito e preconceituoso, sem nenhuma razão para humilhações, a não ser que um drible que lhe ofereci entre as pernas fosse considerado insulto. Fiz o que o momento da partida oferecia e que valia e valorizava o jogo, não foi menosprezo, sobretudo era uma brincadeira entre as pessoas. Mas ele criou sanha e como um rapaz mimado despejou cólera desnecessária. Soube depois que estudava outras Línguas e foi destaque num colégio tradicional de classe bem afortunada. Segundo esse cidadão estudado e bem nutrido e que fazia um juízo final somente dele, agregado a um desprezo gratuito e arrogante que o consumia depois que a bola saiu do seu controle, disse-me entre dezenas de injúrias, que o meu cérebro não captava mensagens e nunca seria capaz de reproduzir uma história. Não se sabe se tudo isso por ignorância, distúrbio psíquico ou mal banal. Acho que era ódio por ódio mesmo. Era o que bastava para me entristecer aquele arroto de poder. Pois agora, anos depois, ao contrariar toda uma gama de descontentes‒ inclusive o rapaz de notória altivez que envelhecia comigo e protagonizava um teatro de rancor, jamais me cumprimentou por uma tolice, atualmente tossia desesperado com falta de ar ‒ eles, soberbos, não tinham como alimentar ambição de ganhar mais do que possuía e era suficiente, pois o vírus não deixava. Pois agora, ao dar vazão ao meu pensamento e mesmo com os contrastes de desigualdade social expostos, fui designado pelo Universo a narrar com imaginação sagaz de um gari convicto o que ocorria na quarentena. Posso adiantar que se tratavam de histórias coletivas da humanidade e que ficaria no imaginário de quem sobrevivesse.

Não era dispneia. Na verdade era um problema maior, diagnosticado por outro médico dono da casa que minha mãe trabalhava como diarista.

‒ Catalepsia patológica.

Não tenho certeza se receitou algo, mas Amanda ficava como estátua de cera toda vez que algo sério e triste acontecia entre nós. E algo sério e triste não era raridade em nosso casebre.

Com dificuldade aprendi as Letras, tomava gosto pela leitura. Gostava de ouvir e pesquisar nomes que surgiam novos para mim. Desde que aprendi a ler, eu mesmo procurava minhas histórias preferidas. Aos poucos assinei meu nome em Letras cursivas, mas vacilantes e tremidas: José de Arimatéia de Jesus. Com o tempo melhorei o traço de minha letra, ficou legível na medida do possível e das minhas condições. Certamente melhor do que antes. Não sei porque Jesus foi parar em meu nome, mas sempre achei bom ter essa referência. Por outro lado, a professora me disse que José de Arimatéia foi um grande homem rico e poderoso e que muito conversava com Jesus. Mas não sei se minha mãe sabia disso. Tenho certeza que ela não fez nenhum estudo onomástico ‒ esse foi o nome que ouvi de uma pesquisadora do IBGE enquanto indagada pelos moradores do lugar que morava sobre a razão daquele censo, só havia pobre por ali, não sei por que ela usou esse termo se ninguém na comunidade ia saber do que se tratava, mas eu pesquisei ‒. Amanda, que tinha mais tempo e era muito curiosa, aprendeu a ler mais rápido do que eu, era quem inicialmente lia a bíblia para nossa genitora quando ela disse que havia se entregado ao Senhor e deixado o cachimbo das drogas. Mas não demorou muito e morreu. Deixou um vão oco onde nos espremíamos e dividíamos o espaço de acordo com as atividades domésticas. Mais tarde, eu e Amanda construímos, de fato, uma casa.

Assim, não tive dificuldade em perceber que meu sonho de menino, em me tornar médico, dificilmente se realizaria. Provavelmente não deixariam sem que eu apresentasse uma chancela, como se certas profissões eram guardadas para quem apresentasse aval, de quem ninguém sabia. Pois, a dificuldade era infinitamente maior do que para um branco bem nascido, que estudou, teve vantagens e oportunidades singulares que eu jamais teria, muito menos imaginasse que existisse. Um branco assim vestia jaleco, era esse o referendo para ser médico no Brasil. Às vezes me entristecia, e ao mesmo tempo me indignava com o rumo das coisas. Pior era quando caía em mim e entendia que aquilo era a regra do mundo e jamais mudaria.  Certo dia, em casa de manhã cedinho, antes de o dia clarear, ouvi uma reportagem no rádio. A mulher que falava era de uma dessas entidades que defendem os negros, ela dizia que o racismo estrutural era o pior de todos porque nos transformava em dados de estatísticas como animais. Aquilo não saiu de minha cabeça. Não sei as outras pessoas, conhecia pouca coisa e bem menos as outras pessoas. Havia mundos que não sabia que existiam, mas sentia necessidade em me tornar útil de alguma forma. A ideia que tinha quando comecei a varrer as ruas era que dificilmente seria notado, as pessoas só olhavam médicos, professores, jornalistas, enfim. Um gari negro que varria ruas era invisível e facilmente substituível. Tentei desesperadamente estudar e aprender, mas tudo era difícil. Não tinha livros, não havia ninguém que soubesse mais do que eu para calçar minha necessidade de aprendizagem. Começava a era de computador, eu não sabia ao menos como ligar aquela máquina. Por fim, o sentimento de impotência acentuava minha alma a cada dia pela manhã, enquanto eu varria e nem um bom dia recebia.

Uma vez, enquanto varria próximo ao Campus Universitário da Bahia, ouvi dois rapazes que conversavam. Pela aparência jovial e os trajes à vontade intuí que eram estudantes de algum curso na Universidade. Um deles inclusive me presentou com um livro sobre mitologia grega. Fiquei apaixonado por Afrodite. Tempos depois, disse ao rapaz o amor que nutria pela Deusa. Imaginava, sendo gari, como conversar com meus colegas sobre Afrodite, Zeus, Atena e Hermes. Enquanto lia sobre os deuses, pensava sobre as relações que podiam existir entre eles e entre tudo na vida. Até que ao chegar em Hermes, algo me chamava atenção. Uma vez, enquanto nos reuníamos para saber a rota que seguíamos a cada dia para varrição, deu-se um estalo em minha mente, ruminava as coisas que lia. Naquele dia entendi como tudo o que lia se processava, era o cérebro que buscava acarear informações. E então, comparei Hermes com Exu. E conversei brevemente com o rapaz sobre a minha comparação. Ele tirou os óculos para me enxergar melhor, ao que parece, riu e disse que estava surpreso, jamais achava que aquela leitura ia me interessar.

‒ Continue a ler, talvez haja alguma diferença em você que você propriamente ainda não sabe.

Esse que me deu regalo reclamava incomodado como a família o tratava. Segundo ele, a cobrança e a preocupação eram muito rigorosas. Parei de varrer um instante e pensei naquela frase. Como minha mãe teria me ajudado se por acaso cobrasse meus estudos. Mas não havia jeito, talvez o conhecimento fosse para poucos e nunca chegou até a mim. Ao mesmo tempo, pensava sobre esse parecer, se isso for procedente, se for real, a humanidade e a civilização seriam o maior e único exemplo de vileza e abjeção. E, é claro, não seria também um absurdo, pois só o referendo do racismo já atestava a imundície de certos humanos. Não valia a pena existir. No entanto, vou me valer de que apesar de todos os meus esforços para ser notado como gente, talvez as coisas sejam irreais e haja outros mundos paralelos ao nosso. E cada vez mais eu era invisível, ainda assim, me sentia bem limpando os arredores. Varria as ruas para não deixar o coronavírus se espalhar. Aquele ofício, simples, de fácil manuseio e que denotava asco nas pessoas era o que me tornava essencial à sociedade. A limpeza fazia parte do mundo civilizado, mas parecia ser tão trivial que as pessoas que como eu cuidavam da higiene recebiam de volta o nariz tampado e o fastio e repulsa de quem passa sobre o lixo varrido.

Agora as ruas estavam vazias, pareciam mais limpas. O vírus limpava o mundo, isso era curioso. Enquanto as pessoas ficavam em casa, para não se contaminar, não havia fardo de sujeira que o próprio ser humano reunia pelos cantos, ou até mesmo abertamente em qualquer parte da praça, próximos onde se sentavam para comer, conversar, ler, namorar ou para ficarem quietos. Fazia de tudo para não tocar na máscara que protegia do covid 19, mas desde criança tinha rinite e o incomodo era incessante, não havia jeito, puxava para cima e para baixo a máscara negra que a prefeitura distribuía. Trinta e três dias de quarentena. A ausência das pessoas nas ruas é o que me tornava tão importante. Era tão curioso pensar assim como que o vírus limpava o mundo. E gostava sempre de pensar nas coisas, pois ao pensar profundamente, diriam aqueles rapazes do Campus Universitário, chegava-se à conclusão de que aquela era a prova de que a humanidade não tinha educação. Qualquer tipo de educação. Estava evidente que as pessoas não cuidavam de nada que não pertencesse a elas próprias. Quando lia a bíblia para minha mãe junto com Amanda, se não me engano, havia um questionamento sobre se algo pertencia ao ser humano, a não ser o que se produzia com o pensamento. As ruas precisavam de pessoas como eu. Mas tudo isso que foi constatado por somente quem limpa o que está sujo. Era uma constatação sem importância que emergia de filosofia barata e sem sustentação social e política. Isso devia ser constatado pelo poder. Pelos poderosos. Mas ouvia dizer que o governante do Brasil não se importava com os vulneráveis. Diziam pelas ruas, ou quando trabalhadores se reuniam para discutir data-base, que houve governante melhor, mas que foi preso acusado de corrupção. Mas quem não subornava no Brasil? Era uma interrogação insinuante e que ecoava como coro de torcida organizada. Parecia que todos que apareciam de outros cantos do mundo e aportavam no Brasil carregavam essa interrogação no semblante. Não lhes tirava a razão, pois, a injustiça, o aliciamento, a deturpação, a desvirtuação, a adulteração et cétera e et cétera… Contaminavam como vírus por aqui, e nesses atributos as máscaras já estavam assentadas, irremovíveis e firmes em cada rosto que lidava, ostentava e recorria a essas divindades diariamente. Portanto, quem não subornava no Brasil? Havia algum tempo, antes desses trinta e três dias, esse cantinho aqui vivia cheio de copos descartáveis, guardanapos, talheres plásticos, preservativos sexuais usados, absorventes sujos de sangue. Às vezes, tudo junto fazia uma bolo de lama e bactérias. Eu era quem varria aquele canto, muitas vezes as pessoas passavam e cuspiam de lado. Eu continuava a varrer. E mesmo assim não éramos valorizados como essenciais. Invisíveis asquerosos do lixo.  Meu colega Joílson era um rastafári que dançava com sua vassoura enquanto varria. Ele imitava James Brown. Nunca pisou na escola, mas fazia de conta que era mestre em inglês. Então, ele cantava e dançava ao meu lado Sex Machine, depois varria satisfeito e, como se imitasse minhas idiossincrasias, puxava para cima e para baixo a máscara negra que a prefeitura distribuía. Em seguida dizia.

‒ O show não pode parar.

Alguns poucos o cumprimentavam de dentro dos ônibus, pobres como nós. Os outros, dentro dos carrões, apressados, estressados, buzinavam para que saíssemos da frente. Esses pareciam que tinham raiva de gente pobre. Filisteus. Muitos desses não suportavam ser solidários, sentiam-se mal na fragilidade que o momento impunha a todos. Todos na televisão e os governantes do momento de cada lugar no Brasil diziam que não podíamos ficar juntos; segundo eles, o vírus atacava e acabava com as células que existiam em nós. Como se não bastassem os massacres da sociedade sobre nossas cabeças. Toda noite eu ficava na dúvida. Na Europa, as pessoas não saíam de casa, se protegiam para não se contaminar. Ouvi o repórter da noite dizer que o governo de lá tomou providências. O governante maior daqui, não. E cada vez mais, mais dúvidas se acentuavam nos meus pensamentos com relação a esse povo do governo. Mas, como um alento de todas as coisas da vida, enquanto varria novamente lá perto do Campus Universitário, ouvi dessa vez dois senhores que conversavam, um dizia ao outro.

‒ Sempre é bom ter dúvidas.

Enquanto varria, em um dos dias da semana de pandemia, próximo a um hospital, nas imediações do Porto da Barra, as pessoas choravam. Parei e observei penalizado aquela gente. Enquanto estava parado e observava, vi um homem na sacada de um dos quartos do hospital, no sexto andar do prédio, dependurou-se e gritou com os poucos pulmões que lhe restavam:

‒ A humanidade não deu certo.

Aquela frase me envolvia, sentia que havia sido capturado por aquela simples sentença como mágica lexical.

Em seguida, não se soube como, ateou fogo no quarto do hospital e pulou da sacada. Quebrou as duas pernas e algumas costelas. Morreu dias depois de insuficiência cardíaca. No entanto, os médicos ainda não sabiam se ele estava ou não contaminado com o Covid 19.

Sentia falta do movimento das ruas, mesmo menosprezado. Curioso, quando passei à condição de essencial à sociedade, promovido pelos órgãos do governo, para deixar limpo e dificultar a circulação do vírus letal ninguém circulava mais. Não havia ninguém para atestar a importância de um varredor de ruas. Isso só confirmava nossa invisibilidade. Todos os dias, quando era escalado na rota do Centro da cidade, na Avenida Sete, no Largo Dois de Julho ou nas imediações do Pelourinho e Barroquinha, sabia que em qualquer lugar daquele que varresse seria servido um lanche para mim e Joílson. Na Praça Castro Alves, por exemplo, havia Zezinho, povo como nós dois, sofredor da vida, vendia pipoca doce e salgada e cantava músicas românticas. De preferência, Julio Iglesias num portunhol inepto e confuso. Quando chegávamos era uma festa de pipocas e cantorias produzida por ele e Joílson. Os dois faziam troça da estátua de Castro Alves, diziam que o poeta estava com a mão estendida pedindo esmolas para publicar poemas. E, ainda em troça, perguntavam entre si como um poeta fazia para comer se poesia não dava dinheiro. Zezinho deixava que comêssemos pipoca à vontade. Não sabia imaginar como Zezinho se virava com aquela quarentena. Provavelmente passava o dia numa fila de agência lotérica, ou da Caixa Econômica, e tentava resgatar o que o governo oferecia. Era a humilhação em forma de auxílio emergencial. Ouvi dizer que as pessoas deviam baixar aplicativos de internet. Imaginava então quem nunca se encontrou em frente a um computador como fazia para finalmente acessar o dinheiro e em seguida gastá-lo com as necessidades primordiais. Enquanto varria a Praça Castro Alves, dia desses, ouvia reportagens no rádio portátil que sempre carregava no bolso do macacão de uniforme e um desses estudiosos acadêmicos importantes dizia que havia milhões de pessoas no Brasil que não sabiam o que era internet. O sofrimento era iminente e diário. Sempre quando parava para pensar, as dificuldades do dia a dia passeavam em minha mente e também o que fazer para vencê-las. Ah, antes que me esqueça, é bom fazer todos os registros; no mesmo dia que ouvi, lá em frente ao Campus Universitário, um dos senhores falar sobre a dúvida, também escutei a resposta do outro.

‒ É importante sempre pensar.

Achava que o vírus veio para eliminar quem não prestava. Tinha uma imaginação fértil e mágica quanto a isso, achava que a natureza observava de tempos remotos o comportamento das pessoas com as pessoas. Quem não era fraterno, a flecha da natureza, como a de Eros, só que ao contrário, sem paixão, sem amor, sem erotismo, contaminava sem dó, como uma punição. Mas não era nada disso, quer dizer, continuava a achar que a natureza estava metida nessa mixórdia, mas eliminava qualquer um, em qualquer lugar, em qualquer condição. Tempos depois, durante a quarentena, quando varria a Praça Castro Alves vazia e me sentia essencial à vida, senti falta de Zezinho. E Joílson me contou que soube que o pipoqueiro havia sido contaminado, morreu e deixou dois filhos e mulher.

No Largo do Mocambinho, na entrada do Dois de Julho, sempre havia muito trabalho, a varrição era gigante. As flores vendidas nas barracas deixavam muitas pétalas espalhadas no chão. Como em qualquer lugar da cidade, ali estava ermo naquela quarentena. A algaravia que emergia no Largo todos os dias era contagiante. Normalmente o clima era de pessoas que contagiavam pessoas com alegria, bom humor e satisfação. Havia contágio de tristeza, mau humor e aborrecimento também. Pessoas especialmente para cuidar desses desconsolos, muitas vezes proposital. Mas não era o caso de alguns do Largo do Mocambinho, na entrada do Dois de Julho. Havia a senhora Lurdes, que vendia flores na barraca da esquina, ao lado do restaurante chinês. E Maria Inês que fazia jogos de loteria ilegal, do lado oposto ao restaurante de Kim Xing Ming. Kim assim que nos via, eu e Joílson, acenava desesperadamente. Fazia-nos entrar e ir ao fundo do restaurante, lá por dentro a bagaceira de tripas, pelos, órgãos era insuportável. Nunca conseguimos identificar que animais eram aqueles. Diziam que chineses comiam cachorros, mas não sei se aquilo eram restos caninos. Kim pedia quase sempre implorando para que limpássemos aquilo. Muitas vezes ele misturava as Línguas, falava mandarim, depois um português embolado, o fato era que quase nunca entendíamos. Kim fazia isso sempre no momento de acertar algum conosco e, então, aceitávamos o que ele dava sem entender muita coisa. Era um trabalho de Hércules, mas tirávamos tudo. Descobrimos depois que Kim só pedia para fazer aquela limpeza em seu restaurante quando a dupla de garis era eu e Joílson. Além do mais éramos funcionários da prefeitura e varríamos as ruas. Era um daqueles subornos que geralmente brasileiro dizia ser jeitinho. Era ilegal fazer limpezas particulares, não era nosso ofício. Mas a vida era tão difícil e tínhamos tão pouco que sucumbíamos e nos deixávamos ser aliciados também. Soube que um dia Kim Xing Ming pediu a outros dois que foram escalados para aquela rota em nossa ausência, não lembrava o motivo, achava que eu e Joílson folgávamos e os rapazes não se recusaram a fazer. Eram Joselito e Raimundo. Disseram que o que ele pedia era um serviço extra, o que não deixava de ser, e queriam administrar a negociata com lucros maiores. Eu e Joílson não fazíamos isso. Das duas, uma. Ou as duas de vez. Ou a corrupção no Brasil nascia nos níveis mais baixos e grotescos que se há, em progressão aritmética e infinita, ou ela chegava em via inversa, ou expressa, vinda de todos os níveis possíveis, aceitáveis, existentes e inexistentes até o mais baixo e grotesco. E como trânsito de avenida, ia e vinha ininterruptamente.

Mas quem não subornava no Brasil? Ecoava insinuante insistente e sempre em qualquer imaginário do mundo.

Joselito pegou covid 19, foi internado, depois de vinte e cinco dias teve alta curado. Raimundo também foi diagnosticado positivo, mas era assintomático. Foi orientado para ficar em casa durante quinze dias. Kim Xing Ming fechou o restaurante quando a quarentena engrenou. Ouvíamos histórias de que Xing Ming estava com febre alta e tossia muito. Não funcionou através de delivery, como a maioria dos restaurantes do Centro da cidade faziam. Aliás, as coisas não ficaram boas para Kim Xing Ming, os moradores do Dois de Julho e comerciantes acusavam-no de participar de uma teoria da conspiração. Segundo as pessoas em geral incentivadas pela fake news de um ministro do governo. Aliás, governo esse que parecia fazer de tudo para que todos se contaminassem. As pessoas começavam a acreditar que o chinês disseminava o vírus entre os mais pobres do centro da cidade numa comparação em menor nível e proporcional aos esdrúxulos comentários divulgados na mídia, feitas pelo então ministro do governo. Começava a circular que o mundo ia sucumbir em razão do vírus que havia sido criado e dispersado pelos chineses. Curioso era que, de fato, a população mais pobre se contaminava com maior facilidade. E morria rápido. Maria Inês, que vivia de conversa com Joílson e ensaiava romance com o parceiro gari, dormiu durante dias na porta de um hospital esperando notícias da mãe hipertensa e diabética que contraiu o Covid 19. Inês era uma das que acusavam Kim. Segundo ela, a mãe voltou sentindo-se mal depois que almoçou no restaurante do oriental. Infelizmente não sabia precisar se a mãe de Inês conseguiu escapar do corona. Não havia mais ninguém no Largo do Mocambinho e as notícias não chegavam.

Mas a senhora Lurdes era o que de melhor havia no Largo do Mocambinho. Antes de passar no chinês Xing Ming, antes de fazer a fé nos jogos ilegais da loteria de Inês, antes de discutir futebol com o fanático torcedor tricolor que parecia dono de uma loja de miudezas na esquina, enfim, parávamos na barraca de flores da senhora Lurdes. Não havia jeito, assim que dobrávamos aquele pedaço na Carlos Gomes era a primeira imagem que tínhamos; a senhora Lurdes sentada em sua barraca de flores, com dois netos em cada lado, geralmente cada um com a boca cheia de doces e ela observava quem entrava e quem saía no Largo Dois de Julho.  Havia sempre uma merenda que ela guardava e nos oferecia assim que aparecêssemos. De praxe; café com leite e pão, às vezes uma fatia de queijo. Ou bolo de chocolate. Ou tapioca com manteiga. Uma ou duas bananas, às vezes. Deixávamos tudo limpo e bem sequinho ao redor de todas as barracas de flores, no entanto dispensávamos atenção especial à da senhora Lurdes. Era uma senhora com muito bom humor e senso de parceria. Aliás, era uma sinergia fácil de achar e de conquistar entre a camada mais fraca socialmente na economia. Quando o pobre via-se em apuros, era com rapidez acolhido por outro, e por outro, e por outro. Nova progressão aritmética, dessa vez para o bem. Tinha a prova disso quando levantei minha casa e de Amanda junto com os vizinhos, se não tivéssemos contado com eles dificilmente cavaríamos fundo para a fundação e levantaríamos os blocos. Não que não tivéssemos forças, mas o trabalho era descomunal para um homem e uma mulher que não nutria muita saúde, não esqueçamos da catalepsia que tomava minha irmã desde criança. Senhora Lurdes fazia a festa do seu modo, não era como Zezinho, por exemplo, que vivia em cantorias com Joílson, em outro exemplo de colaboração mútua. Deus o tenha Zezinho. Mas a senhora deitava falação. A senhora Lurdes conhecia todos e sabia de tudo referente a cada um que ela comentava. Assim soubemos da marmelada e falcatrua dos outros dois garis juntos com Xing Ming. Soubemos que a mulher do homem que discutia futebol comigo saía às escondidas toda quarta-feira à tarde, como senhora Lurdes soube disso é um mistério, mas procedia a verdade. O homem descobriu onde enfiava-se a companheira ‒ acompanhada de outro ‒ e o sentimento de traição cobriu-lhe de violência. Naqueles tempos, muito se via na mídia reportagens de misoginia, muito mais do que de racismo estrutural. Os taxistas ficavam parados no ponto, um deles conversava sempre comigo em tom professoral, emitia sugestões filosóficas sobre a humanidade e comparava com uns filósofos que eu não sabia pronunciar os nomes, segundo ele, tudo procedia conforme o pensamento de Nietzsche. Fiquei na dúvida como pronunciar cinco consoantes de uma vez, ainda que uma fosse muda. Mesmo assim nada sabia sobre Nietzsche. Ele dizia saber tudo. O rapaz que conversava comigo sobre mitologia grega no Campus Universitário, que me presentou com o livro, um dia, antes da quarentena, me disse que a atitude de quem diz saber tudo é porque não sabe nada. O taxista, depois de algum tempo, quando ele deixou que eu emitisse um parecer qualquer, não lembro sobre o que, espantou-se quando confrontei aquela situação que conversávamos com deuses gregos da mitologia. E desde então, quando me via com a vassoura na mão me aproximar da barraca de flores da senhora Lurdes, o tal corria e falava algo com relação a qualquer coisa e esperava para ouvir o que eu tinha a dizer, em seguida perguntava se havia algum Deus grego que se comportasse daquela forma. Soube através da senhora Lurdes que ele havia morrido do covid 19 e contaminado toda a família. Foi também através de senhora Lurdes que Joílson soube do interesse de Inês por ele. Lamentavelmente soube há poucos dias, agora Inês passava dia e noite na porta do hospital e requeria notícias da mãe. A velha havia sido transferida duas vezes de leito e de hospital, finalmente encontraram um respirador numa UTI de periferia. Além de tomar conta da vida alheia, senhora Lurdes colecionou ao longo dos anos sabedoria popular. Ela pensava sobre as coisas assim como eu. E nos dávamos muito bem quando parávamos para conversar. Foi ela quem definiu com curiosidade, talvez até sabedoria, o que essa quarentena, o vírus e toda a humanidade significavam naquele momento terrível.

‒ Pode escrever, isso tudo vai desandar somente para três caminhos: solução, prazo de validade e lição de vida.

Senhora Lurdes me disse essas coisas quando tínhamos dez ou doze dias de quarentena. As ruas já estavam vazias e, por acaso, encontrei ela que separava as flores que não havia apodrecido das outras. Não estava vendendo nada, primeiro que não podia, segundo que não havia quem as comprasse. Flores alijadas. Curioso que ela me disse sobre aqueles três caminhos com um leve sorriso no rosto. Dias depois que percebi que aquele sorriso era de abdicação. Em primeira mão, achei que senhora Lurdes ainda não havia dado em si do prejuízo que ela teria. Ela e todos comerciantes ambulantes. Mas ela sabia de tudo, sim. Dias depois, com a quarentena em andamento e muito depois do nosso último encontro quando ela separava as flores boas das podres, encontrei a senhora novamente. Ela estava sentada em frente à barraca de flores e bebia café. Desculpou-se conosco por não haver merenda. Usava uma máscara florida que protegia o queixo e a papada. A boca e o nariz estavam desprotegidos em desânimo. E já não era a mesma senhora que conheci durante esses vinte anos que varria as ruas de Salvador. Abatida, havia emagrecido, carregava um semblante padecido, tinha olheiras marrons ao redor dos olhos, principalmente na parte inferior, e tossia com frequência. Disse que não teve febre, mas os dois netos tiveram. Foi ela quem nos deu a notícia da mãe de Inês. A velha tinha sido enterrada coletivamente numa vala do cemitério de Brotas. E finalmente falou com desânimo para mim e Joílson.

‒ Perdi todas as minhas flores, acho que estou doente. Aliás, onde moro a maioria das pessoas estão tossindo, mesmo assim não se entregam e saem às ruas para buscar o que comer, um vende café, outro cata latas, eu vendia flores, não tenho mais o que vender, Inês perdeu a mãe e os jogos ilegais não correm mais durante a quarentena… Isso veio acabar com a vida do pobre. Essa é a solução que eles querem, o prazo de validade está acabando e a lição de vida… Rum! É que ninguém quer aprender lição de vida nenhuma.

Desde que me falou, no início da quarentena, sobre esses três caminhos da humanidade, que pensava sobre isso. Inicialmente concordava com ela. Tínhamos que tirar algo do que acontecia. A humanidade devia voltar, ou começar, a confiar nela própria. Uns nos outros. Acontece que parecia que havia uma distância, um poço tão fundo quanto o oitavo anel do inferno, para duas coisas que deviam ser a mesma coisa. Ou no pior dos casos, coisas afins e próximas. Mas afinidades e proximidades não procediam. Muitas vezes esse abismo aparecia entre humanidade e ser humano.

‒ A humanidade não deu certo.

A frase do homem que pulou da sacada do hospital tomava efeito em meu pensamento.

Aquele trigésimo terceiro dia de quarentena caiu num domingo cinzento de maio. Mesmo que surgissem outros sóis, aquela tristeza cinza não abandonaria o dia. Um vento frio soprava na rua vazia. Mesmo o calor do girassol que havia na minha porta não denotava ternura naqueles tempos. Aquela flor foi presente da senhora Lurdes. Ela dizia que o meu jeito pensativo e sereno lhe passava tranquilidade. Joílson, como sabemos, era falante como ela, eu só ouvia e ria. Mesmo o serviço de varrer as ruas não me deixava estressado e impaciente. Se não me resignasse quando aprendi as Letras e escrevi meu nome, mesmo que trêmulo e inseguro, talvez não desse certo para a vida. Mas parecia que a minha existência teve uma finalidade. A comunidade que morava era de uma pobreza extensa, às vezes o esgoto alagava as ruas e a água podre entrava nas casas. Muitos políticos andavam por ali, prometiam valas e higiene sanitária, mas nunca foi feito nada para benefício das pessoas naquele lugar esquecido. Algumas vezes, quando tinha o prazer de estar presente quando os políticos apareciam, tinha a impressão ao olhar as emoções no rosto daqueles homens que não existia emoção. Tudo era ensaiado. Nada nem ninguém interessava ou provocava misericórdia ou compaixão naqueles homens. Só o voto de cabresto. Como a fome parecia ter um contrato de coexistência com a comunidade, sempre e somente em épocas de eleição eram servidos feijoadas, churrascos, galinhadas e cervejas a rodo para as pessoas que estavam famintas ali há tempos. Depois as obras de contenção de encostas, onde aqueles que comiam as feijoadas, os churrascos, as galinhadas e bebiam cervejas, também morriam soterrados, e os políticos que ofereciam aqueles banquetes lamentavam todas as mortes sem emoção. As creches não apareciam e as crianças ficavam nas ruas, os empregos e os projetos sociais jamais ninguém viu. Todos ali viviam como podiam, as casas em sua maioria eram de barro batido, ou, as melhores, de bloco cozido com uma laje que não se sabia se havia fundação para suportar o peso. Morava com Amanda e nós dois conseguimos construir uma casa que nos protegia. Durante a construção tivemos ajuda dos vizinhos, todos juntos, cavamos a fundação e suspendemos as paredes com bloco e batemos a laje. Conseguimos doações de piso, além do que achávamos no lixo e ainda estava em condições de ser usado. Só não rebocamos, faltava dinheiro, mas conversávamos sobre isso e combinávamos de quando o vírus se for, se se for, íamos terminá-la. Alguns ficavam dentro de casa durante a pandemia, a maioria ficava nas portas, ou na rua de barro. Achavam-se imunes, ou não acreditavam que havia o vírus letal. Quando acreditavam e tinham medo, não podiam ficar em casa porque se não, não comiam. Então saíam para trabalhar, muitas vezes sem nenhuma proteção. As casas eram minúsculas e geralmente havia no mínimo quatro pessoas em cada casa. Não sabia como os homens do poder podiam dormir com aquelas pessoas sem condições mínimas de, ao menos, sobreviver naturalmente onde se encontravam e procuravam para se proteger de um vírus fatal que assolava o mundo. Os homens do poder não se interessavam pelas pessoas, o líder maior no meu país aparecia nos telejornais para pedir que as pessoas não se afastassem umas das outras, que as coisas não parassem de funcionar e agradecia a Deus por tudo. Sem falar as casas construídas nos barrancos, era época de chuva e a cada tromba d’água o temor que tudo ruísse era gigante. Já dissemos sobre a não contenção de encostas A prefeitura instalou uma sirene que soava e avisava do perigo de desabamento para que as pessoas deixassem suas casas e não corressem risco de morte. Mas quase ninguém saía, preferiam morrer soterradas com elas. Também não tinham para onde ir, além do mais perdiam tudo que conseguiam com esforço. Ou no desabamento, ou, quando não desabava e soterrava tudo junto, pessoas, móveis, papéis et cétera… A água da chuva invadia as casas e acabava com o que tinha lá dentro. Eu era um dos poucos que trabalhava e tinha o dinheiro certo ao final do mês. Foi assim que comecei a pensar sobre a minha condição. E uma alegria individual que quase não existia na comunidade tomava conta de mim discretamente. Uma alegria que durava pouco quando olhava ao redor de minha gente. Passei a uma condição de essencial à sociedade e à vida e entendi que a minha presença estava comprometida no lugar que morava. Fui o primeiro a dividir os mantimentos que a prefeitura distribuía entre os garis. Na verdade, já recebíamos uma cesta básica sobre o salário; com a pandemia e quarentena aqueles mantimentos dobravam. Era o mínimo que se fazia por nós. E não faziam mais nada do que isso. Amanda trabalhava na casa do médico que nossa mãe trabalhou antes de morrer com uma doença adquirida na época que usava cachimbos com drogas. Minha irmã entendeu melhor o que houve com ela, mas só chorava e não conseguia me explicar direito. O médico, desde que nossa mãe se foi, não deixava que faltasse nada para ela e, consequentemente, para mim também. Não havia naquele homem aquele abismo existencial que separava as pessoas da humanidade. Então muita coisa sobrava. Sentíamos obrigação de dividir com vizinhos. A fome em comunidades como aquela que morávamos jamais deixou de ser parceira.

Naquele dia, o trigésimo terceiro, algumas coisas chamavam atenção da comunidade. Primeiro era a rebeldia dos jovens. Estava em casa com Amanda, conversávamos sobre nossos trabalhos. No meio da tarde, ouvíamos passos de gente reunida. Olhávamos discretamente pela janela, como diziam que pobre fazia, olhava pelas frestas e víamos um grupo de jovens que dançava sem parar. Dois deles conversavam embaixo da minha janela.

‒ Não aguentava mais, brigava comigo mesmo em casa… Sem falar que meu pai xingava todo mundo, xingava o presidente, xingava o patrão dele, aí começava a me xingar porque sou gay e acabava dando tapas em minha mãe… Dizia que a culpa era toda dela pelas misérias do mundo e por eu ser gay… Meu pai é um homem horrível.

‒ E ainda dizem para ter esperanças que dias melhores virão.

‒ Acho que o mundo vai acabar.

Em seguida, quase ao mesmo tempo da reunião dos jovens no meio da tarde, o que me fazia pensar era quando passavam hordas de evangélicos sem máscaras de proteção ao vírus covid. Gritavam pelo Senhor e suplicavam misericórdia. A maioria dos religiosos diziam que o Senhor os livraria do vírus. Só no lugar que morava soube do desaparecimento de dezenas deles tossindo e com falta de ar. Comparava com os jovens, alguns de máscaras, outros sem usá-las, que dançavam sem parar. Chegavam notícias que havia doze ou treze deles contaminados na comunidade. E a dúvida acentuava. Lembrava do senhor lá no Campus Universitário que dizia ser bom ter dúvidas, ao que o outro respondia que também era bom que pensássemos. E não conseguia responder a mim mesmo um questionamento que se seguiu enquanto olhava aquelas duas condutas.

‒ Qual das duas vertentes era incapaz de sentir prazer em viver?

No entanto, talvez fossem comportamentos que pedissem ajuda com gritos silenciosos de desespero como aquele expressionista começava a história. Cada um em seu extremo.

A fome era a porta de entrada de todos infortúnios de quem era pobre em qualquer país do mundo. No Brasil e na comunidade que morava não era diferente, aliás, o incômodo no estômago levava as pessoas a se comportarem de outras maneiras que não eram consideradas habitualmente costumeiras. Mas é claro, além da fenda social, a fome enlouquecia. O vírus tinha um crescimento exponencial, principalmente nas comunidades como a que morava com Amanda, eram sentimentos de limitação, impotência e medo. Somada a essas agruras, ou como consequência, aparecia serelepe, imponente e de certo modo fascinante, a violência. No fim da tarde do trigésimo terceiro dia, ecoavam no ar saraivada de tiros.

Havia desde cedo um movimento diferente na comunidade. Aquilo não era boa coisa. Alguns homens de semblantes não muito bons iam e vinham acompanhados de alguns outros que moravam por lá. Isso desde a madrugada do sábado. Depois uma quietude tomou conta do lugar. Um silêncio torturante ganhou os ares daquele domingo, no trigésimo terceiro dia de quarentena. Depois que os jovens desceram a rua e, em seguida, os religiosos evangélicos se acomodavam no templo que eles construíram e de lá suplicavam louvores. Um clima de testemunha silenciosa se apoderava na comunidade. Aquele suspense sinistro foi quebrado no começo da noite pela algaravia dos tiros. Houve uma correria e depois a rua ficou erma. Enquanto olhava pela fresta da janela e ouvia os cânticos religiosos, pensava na humanidade e seus crimes. Aquelas pessoas, muitas gritavam por Jesus em desespero, para mim uma atitude inexplicável e intolerante. Ainda que o corona vírus andasse à espreita, tínhamos que nos cuidar, manter distanciamento social e a quarentena dentro de casa. O resto realmente era com Deus. Mas tinha dúvidas se aquela gritaria faria Deus, ou o Senhor Jesus, ouvir e descer para acudir a todos nós. Talvez, antes de toda súplica misericordiosa, devêssemos assumir os pecados. Ou os erros propriamente ditos e afiançados. Para aqueles evangélicos, e todos os outros, não havia sido ninguém que rompia o silencio do lugar com tiros, mas o diabo.

As notícias não tardavam e minutos depois soubemos a razão dos tiros e sua consequência. É bom que se diga algo sobre essas coisas: somente em comunidades pobres que os policiais decidiam valer a autoridade. Isso acontecia em todos os cantos do Brasil, quiçá do mundo. E sempre descambava para aquela discussão do racismo estrutural. Mas era racismo, sim. Não sei se estrutural. Provavelmente, não. Racismo, ponto final. O pior é que não havia respostas para tanta brutalidade e força exagerada num lugar em que as pessoas lutavam dia após dia para sobreviver. Nem sequer viver, mas sobreviver. Num lugar onde as pessoas não tinham oportunidade, talvez quando tivessem não sabiam como agarrar. Faltava-lhes estudo. Faltava-lhes conhecimento. Faltava-lhes incentivo para sair da escuridão. Nenhum político, daqueles que distribuíam comida e cerveja, em sua pré-eleição, gostava de ver sua gente discutir cultura com sabedoria. Queria que vivessem como gado. Queriam que a gente pobre se contaminasse com o covid 19 e morresse para diminuir o peso da Previdência. Quanto mais mortos, melhor. E ainda assim a gente resignava-se, como eu, por exemplo, que lia por conta própria. E emitia comentários, conselhos e sugestões a outros. Como aquele taxista que corria ao me ver abraçado a minha vassoura e aprender mais sobre mitologia grega. Cada pessoa em lugares como esse devia pensar o que fazer em cada passo que desse em sua caminhada. Em cada respiração. Eu e Amanda somos exemplos vivos desse aperto. Temos que provar todos os dias e horas que éramos pessoas capazes. Daí, minha satisfação em ser transformado em essencial para a sociedade por um vírus, na ironia da vida. Parecia que cada negro que nascia nas comunidades, tinha que pagar o preço do erro, primeiramente por ser negro, aquilo parecia realmente um erro, nascer negro. Em seguida, pelas faltas e crimes que nasciam naturalmente na alma de quem as provocava. Era negro, branco, mestiço. Rico ou pobre. Assim como preto e pobre emergia e vivia do crime, no pensamento de quem tinha poder e girava o dinheiro na própria gangorra financeira.  Rico e branco também espalhavam drogas, sonegavam imposto, lavavam dinheiro, surrupiavam dinheiro público, espancavam mulheres, desrespeitavam funcionários públicos de cargo inferior, criavam milícias et cétera… E parecia que nada disso era marginal às regras. Não aparecia, não havia força descomunal de polícia que contrariasse, que combatesse esses crimes, com a mesma veemência da periferia, nos lugares deles. Mas lá, no lugar dos fracos, lá onde não havia o que comer, lá onde não havia moradia decente com banho quente nas noites de chuva e frio, mas muito medo de tudo desabar barranco abaixo depois de soar a sirene da aflição, lá onde as máscaras de proteção ao corona vírus eram somente um pedaço de pano, às vezes engordurado, para cobrir a metade do rosto, lá matava-se quem não tinha nada a ver, que por um capricho do destino tinha um vizinho suspeito. E para contabilizar na estrutura, somente quem tinha a pele preta cometia atrocidades. Começava a entender a fala da mulher que defendia movimento negro e que se pronunciava na reportagem do rádio de manhã cedinho antes do dia clarear. Aquele era o horário para indignar-se da dor e da injustiça, quando acordava para ir à luta com o dia sem apresentar aurora definida.

Os policiais invadiram a comunidade em perseguição a traficantes de facção, segundo disseram. Falavam que eram recebidos a tiros pelos meliantes. Revidavam, e assim foi baleado com fatalidade o menino Carlos Augusto de quatorze anos. Carlos, negro, estudante do nono ano do Ensino Fundamental, sonhava em ser jogador de futebol. Estava dentro de casa sentado no sofá e assistia a um jogo antigo da seleção brasileira, a final da copa do mundo de 2002 contra a Alemanha. O Brasil ganhava de dois a zero e relembrava a euforia orgulhosa de ser brasileiro e pentacampeão naquele domingo cinzento do trigésimo terceiro dia de quarentena sobre o coronavírus. Carlos Augusto não foi vítima do covid 19.

‒ A humanidade não deu certo.

Emiti sem querer aquela frase que me capturou a alma.

 

Carlos Vilarinho, nascido em setembro de 1963. Conhecido como Pensador das Ruas como atestam seus textos e personagens que surgem e passeiam livremente pelo Centro de Salvador. Autor de: “Labirinto-Homem” (Romance, Editora Kalango, 2013); “Baculejo e outras histórias” (Contos, Editora Via Litterarum, 2017) e “Barroquinha” (Romance, Editora Via Litterarum, 2019).  

 

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134ª Leva - 01/2020 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Fabrício Brandão

 

De quantas travessias é feito o caminho com as palavras? Certamente de uma infinidade delas. No entanto, há algo na jornada de um escritor que confere um sentido especial às experiências vividas. Esse algo não está na busca meramente exasperada por melhores soluções criativas; tampouco reside no terreno das exposições de uma personalidade que se mostra incensada e cultuada na esfera pública, arena que também alimenta vaidades de ocasião. Estamos a falar aqui do vigor que uma obra ganha quando volta suas atenções para perceber o humano em suas mais diversas acepções.

A noção de que as paragens literárias são instrumento de comunicação e expressão das nossas humanidades é ponto de destaque para uma literatura que fratura apagamentos sociais. E não somente a denúncia de nossas mais comezinhas e seculares mazelas aflora nesse percurso que incomoda, mas também a ideia de que é preciso mostrar universos de existência que trazem suas peculiaridades, seus modos naturais de ser e estar no mundo sem que tal matéria seja reduzida aos cínicos requintes do exotismo.

Refletir sobre certas invisibilidades e inscrevê-las na pele do texto demonstra ser um relevante objetivo para um alguém como o escritor baiano Itamar Vieira Junior. Dono de uma escrita segura e atenta às questões de seu tempo, Itamar vem construindo sua trajetória literária de modo deveras consistente. Desde livros de contos como “Dias” (Caramurê, 2012) e “A Oração do Carrasco” (Mondrongo, 2017), este último finalista do Prêmio Jabuti, já era possível perceber como o autor acenava com um domínio técnico e criativo afinado com a qualidade.

Se Itamar já nos chamava atenção com seus livros anteriores, é com seu último trabalho, o romance “Torto Arado” (Todavia, 2019), que sua obra parece atingir uma espécie de apogeu das percepções. E falar desse ponto alto não significa apenas abordar a ótima repercussão que o livro obteve, incluindo aí uma premiação internacional, mas referendar a continuidade de um processo que é marca registrada do escritor, sua capacidade de olhar para o povo negro e mostrá-lo protagonista diante das reiteradas investidas de invisibilidade patentes em nossa história. A partir da impactante atmosfera de seu recente livro, pudemos conversar com o autor sobre os processos atinentes à escrita de tão significativa obra, além de transitarmos sobre questões fundamentalmente relacionadas à condição humana e algumas de suas implicações no trato social. De todo o dito, Itamar Vieira Junior é um nome de relevância no contexto atual da literatura brasileira, não apenas pela qualidade de seus escritos, mas também pela propriedade do seu pensamento crítico e desperto diante da realidade.

 

Itamar Vieira Junior / Foto: arquivo pessoal

 

DA – Lendo “Torto Arado”, é impossível não pensar no Brasil profundo que ali está, principalmente se considerarmos tensões que envolvem as populações quilombolas e seu, digamos assim, permanente desterro. De que maneira você mergulhou no cotidiano dessas comunidades e dali retirou subsídios para a feitura do livro?

ITAMAR VIEIRA JUNIOR – Sou geógrafo de formação e há quase 14 anos eu trabalho com as populações do campo. Primeiro no estado do Maranhão, onde conheci comunidades quilombolas, indígenas, ribeirinhos, sem-terra, e depois no estado da Bahia. Anos mais tarde fui fazer meu doutoramento em Estudos Étnicos e Africanos, que estava intrinsecamente relacionado com o meu trabalho como servidor público, e pude aprofundar minha pesquisa. A história de “Torto Arado” me acompanha há mais de 20 anos. O título, inclusive, remanesce dessa minha primeira tentativa de escrevê-lo – sem êxito – na adolescência. A história das irmãs, a relação com o pai que fala com os espíritos, todo esse núcleo central da trama permaneceu. Com o passar dos anos a história incorporou questões de ordem sociológica que refletem a minha formação, a minha ancestralidade e o interesse pela história do Brasil. Ao longo de anos – eu que nasci numa grande cidade -, tive o privilégio de conviver com camponeses, escutá-los, aprender sobre a vida no campo e conhecer suas histórias. Era o que eu precisava para retomar esse antigo projeto de escrita.

 

DA – Nessa sua aproximação com as comunidades, certamente foram inúmeras as narrativas escutadas. Ao mesmo tempo em que você teve contato com esse manancial de depoimentos, percebeu também uma necessidade de visibilizar tais grupos no seu mister de escritor? Indo mais além, diria que “Torto Arado” encerra um clamor consciente?

ITAMAR VIEIRA JUNIOR – Primeiro acho que é desejo de qualquer escritor contar uma boa história. Embora esteja previsto no meu projeto literário percorrer caminhos diferentes para refletir minimamente a grande diversidade da nossa sociedade, o que me levou a escrever “Torto Arado” foi a vontade de contar uma história que contemplasse o anacronismo dos nossos processos sociais, a herança da escravatura, a luta pela terra como o direito mais elementar da existência porque sem chão não há vida, movimento, não há alimento. O romance trata de um grupo de trabalhadores que, em contato com outros grupos que travam lutas por melhores condições de trabalho e por terra, se identifica como quilombola. Mas poderiam ser indígenas, ribeirinhos, geraizeiro, sem-terra, qualquer agrupamento humano que detivesse este elo de coexistência com a terra que nós, ocidentais e urbanos, parecemos ter perdido.

 

DA – As irmãs Belonísia e Bibiana são algo emblemáticas na medida em que expressam, dentro de duros enfrentamentos sociais, o vigor do universo íntimo que as atravessa. Pelo olhar de cada uma delas, o livro ganha uma pulsação narrativa diferenciada, evocando o duplo interno/externo a partir do modo como ambas pensam e vivem suas trajetórias. Diria que tal escolha narrativa lhe foi mais desafiadora?

ITAMAR VIEIRA JUNIOR – Concebi a história inicialmente narrada por uma única irmã, a Belonísia.  A determinada altura da escrita eu percebi que a diferença e a complementaridade de suas vivências só poderiam ser transmitidas ao leitor de forma plena se conhecemos as suas perspectivas individuais. E por que são as mulheres, as narradoras, e não os homens? Pelo simples fato que nesta região, no interior do Nordeste, encontrei mulheres que pela ausência do homem por diversos fatores – morte por baixa expectativa de vida ou violência, emigração para o trabalho ou mesmo o abandono da família -, as mulheres assumem um protagonismo que precisava ser visibilizado. Por isso são elas a narrarem a história. E são três narradoras que contam as suas perspectivas sobre o que aflige a população de Água Negra: seja pelo olhar infantil e sonhador de Bibiana, ou pelos gestos duros de quem não sabe viver além da terra de Belonísia, ou pelo olhar de quem pôde atravessar a história para contar que o passado não nos abandona, por mais que tentemos nos afastar. Na nossa trajetória social quase sempre iremos alcançar as respostas sobre o presente em um passado aparentemente distante, mas que se perpetua em práticas vigentes que refletem uma segregação secular e colonial.

 

DA – A atmosfera de “Torto Arado” também nos lembra a existência daquilo que podemos chamar de invisibilidade em camadas, ou seja, de experiências de apagamento que, num efeito cumulativo, agregam simultaneamente a condição da negritude, da pobreza, do ser mulher, dentre outras. O que dizer desse delicado território de humanidades?

ITAMAR VIEIRA JUNIOR – Com a tecnologia que dispomos acho que essa invisibilidade só persiste porque é interessante ao sistema. A literatura reflete também as diferenças deste mesmo sistema: quem tem acesso à educação de qualidade? Quem pode ler bons livros, escrever conforme a norma culta ou experimentar novas formas? E durante as últimas décadas, com honrosas exceções, a literatura não refletiu a nossa diversidade étnica e cultural. Esteve durante muito tempo voltada para os conflitos da classe média branca. Esse é um ponto crucial quando me proponho a escrever: quero que a literatura se volte para as clivagens sociais, os cantos esquecidos do país. Talvez nessas experiências limites de humanos ocultados por um sistema esteja a chave para entender o todo. É o que eu gostaria de capturar com a escrita: o mais profundo dessas existências, que consequentemente será nossa também.

 

DA – A fixação do homem do campo à terra também levanta reflexões para quem lê seu livro. E estamos falando aqui duma noção de pertencimento ao solo ancestral, mesmo que não se tenha, por sucessivas gerações, a posse formal dos territórios em que tais pessoas habitam desde sempre. Na sua opinião, de que modo continuamos nos equivocando quando o assunto é pensar e viabilizar uma reforma agrária no país?

ITAMAR VIEIRA JUNIOR – O atual problema fundiário brasileiro reflete as questões da formação do país: a primeira diz respeito à exploração do solo brasileiro imposta pela colonização em modelo de sesmarias, que legou grandes extensões de terra a particulares que gozavam de status ante à Coroa. A segunda foi quando esse modelo de sesmarias foi substituído pela lei de terras de 1850, que firmou a compra como a única forma de acesso à terra. E quem poderia comprar? Foi assim que se consolidou parte da nossa desigualdade social, que poderia ter sido corrigida pela reforma agrária, que foi, nos últimos governos, incipiente, e agora se encontra definitivamente abandonada como política pública. Esta é a nossa mais elementar questão social, porque um país não pode prescindir de alimentar a sua população de forma extensiva e ambientalmente correta, protegendo a natureza. Não pode querer que sua população renuncie o direito à terra, porque sem a terra não há vida. Ainda não temos asas para vivermos suspensos na atmosfera, e mesmo os que têm, os pássaros, precisam descer para comer o que nasce do chão. Daí a importância dos muitos movimentos que lutam por seus territórios: indígenas, quilombolas, dos atingidos por barragem e ribeirinhos. Para essas populações, a terra não é um bem econômico, mas, sim, a sua história. É a extensão de seu corpo. É a sua morada. E o modelo neoliberal em curso privilegia as grandes corporações que não têm nenhum vínculo com a terra, que a usa como um recurso sem vida, sem passado ou qualquer esperança de futuro. Não há conciliação quando se tem os graves problemas fundiários, que não são somente fundiários, mas fundantes da nossa desigualdade social.

 

Itamar Vieira Junior / Foto: arquivo pessoal

 

DA – Nos últimos anos, o meio acadêmico tem sido cada vez mais palco de pesquisas, dissertações e teses que buscam discutir e repensar os diversos apagamentos sociais que enfrentamos cotidianamente. Você mesmo é egresso de um doutorado em Estudos Étnicos e Africanos, por exemplo. De que forma tais esforços podem romper o confinamento universitário e ser algo efetivos na sociedade?

ITAMAR VIEIRA JUNIOR – As pesquisas e o pensamento decolonial que encontraram abrigo nos centros universitários têm chegado de muitas formas à sociedade. A literatura é apenas um dos caminhos que tem sido percorrido. De forma pragmática, essa produção acadêmica tem sido atravessada pelo pensamento decolonial: da arquitetura às ciências humanas e sociais, passando pelas artes. Ela tem possibilitado a construção de uma sociedade menos desigual, onde se discute e se pensa formas de reduzir os danos de nossa própria história. Principalmente quando as pesquisas estão voltadas para fora da universidade, quando não se encerra nos gabinetes e salas de aula, e tenta pensar o mundo com os próprios sujeitos da história. É claro que essa evolução não é permanente, nem mesmo constante, um exemplo é o estado de regressão das pautas sociais em que o Brasil e o mundo mergulharam nos últimos anos. Mas a produção universitária continua, mesmo sob ataque, e será um farol para reconstruirmos o que está sendo destruído.

 

DA – Em escala global, acredita que estamos vivendo um processo de desumanização?

ITAMAR VIEIRA JUNIOR – Não creio. Se olharmos a trajetória da humanidade, cercada de violência e grandes calamidades, vivemos uma época de ouro. Houve avanços para os direitos humanos no século XX, muitos surgidos a partir de grandes tragédias, como o holocausto nazista. É claro que vivemos em um mundo conservador, pouco afeito às mudanças, então elas quase sempre vêm acompanhadas de reações, como as que vivemos atualmente com a ascensão política da extrema-direita e dos regimes autocráticos em alguns países. Mas a humanidade tem ganhado consciência, humanidade, e nosso século promete mais avanços em relação aos direitos humanos.

 

DA – Sua carreira literária hoje assinala uma visibilidade bastante significativa, com sua obra sendo reconhecida e atingindo repercussão dentro e fora do país. O que mudou, de fato, em sua trajetória em face dessa projeção? O homem Itamar hoje é sujeito de ânimo renovado em face dos aprendizados? 

ITAMAR VIEIRA JUNIOR – Acho que o mais interessante disso tudo foi o contato que pude estabelecer com escritores e leitores, seja no Brasil ou em Portugal. E também o fato do livro ter sido editado por um grande grupo editorial me fez conhecer o trabalho dos editores de carreira, as estratégias de marketing e a profissionalização da escrita. Tenho aprendido muito, mas, de fato, pouca coisa mudou. Porque o que continua a me mover é a paixão pela literatura, e para tanto não precisei estabelecer uma carreira ou obter um prêmio, apenas dei liberdade à minha intuição.

 

DA- Há quem sustente que mergulhar nos caminhos da arte seja também uma alternativa para suportar o peso que a realidade das coisas nos impõe em certa medida. É razoável considerar essa espécie de fuga diante do universo oceânico e desafiador que é o autoconhecimento?

ITAMAR VIEIRA JUNIOR – Não considero a arte uma “fuga”, ela é parte da experiência humana. Desde as pinturas rupestres, que datam de 40 mil anos, aos nossos dias, o que existe e persiste é a necessidade do homem criar e comunicar a sua existência. Concordo que dentro do conjunto de expressões humanas, a arte talvez seja a que nos permita “suportar o peso da realidade”, porque está intrinsecamente relacionada à nossa dimensão subjetiva. É nela ou a partir dela que nos autoconhecemos: o medo, os afetos, as grandes questões da vida, ainda que num plano subjetivo. Por ser subjetivo, talvez nos permita emular a nossa própria vida e enfrentar os problemas que estejam por vir. A literatura, em especial, é generosa neste sentido: quando pegamos um livro para ler nós estabelecemos um “contrato” com o autor e as personagens de que, durante um período, no processo silencioso e íntimo da leitura, “viveremos” aquelas vidas. Assim, nos colocamos no lugar do outro num denso movimento de humanização. É o que chamamos de empatia.

 

DA – Afinal, por que escrever?

ITAMAR VIEIRA JUNIOR – Esta é uma pergunta interminável, porque não se encerra em nenhuma resposta. Lembro de ainda adolescente ter lido uma entrevista da escritora Rachel de Queiroz e fiquei muito intrigado com a resposta à mesma pergunta, onde ela dizia que escrevia porque não sabia cozinhar. Anos depois vi uma lendária entrevista do jornalista Jaime Lerner à escritora Clarice Lispector que devolvia a pergunta com outra pergunta: “e eu sei?”. Eu imagino que esse imenso desejo humano de se comunicar e legar para as gerações futuras um registro é que nos move a ler e interpretar o mundo através da arte. Penso nos homens e mulheres que nos deixaram registros da arte rupestre, quais eram as suas intenções ao pintar as paredes das cavernas que habitavam? Certamente queriam comunicar algo aos seus pares e legar, quiçá, registros para as gerações que viriam. O que me move a escrever é a vontade pessoal de registrar o meu tempo, de comunicar aos que se interessarem o meu olhar sobre o mundo, que reflete por sua vez os olhares dos que me influenciaram. Ao mesmo tempo, escrever reflete uma fé inabalável na literatura, não de que ela possa mudar ou alterar nada, mas de que possa ser um exílio, confortável ou não, para os que buscam conhecer a si mesmo.

 

Fabrício Brandão é caótico, sonhador e aprendiz de gente. Se disfarça no mundo como editor, poeta, baterista amador, mestre em Letras e doutorando.

 

 

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75ª Leva - 01/2013 Drops da Sétima Arte

Drops da Sétima Arte

Por Bolívar Landi

 

Django Livre (Django Unchained). EUA. 2013.

 

 

Django Livre (Django Unchained), a mais nova incursão cinematográfica do diretor Quentin Tarantino faz uma homenagem ao filmes Western spaghetti italianos, muito famosos nas décadas de 60 e 70. Além do nome do personagem principal e da música tema, contudo, a obra não apresenta muito em comum com o filme homônimo dirigido em 1966 por Sergio Corbucci e estrelado por Franco Nero (que faz uma participação especial na trama). O Django original passa todo o filme arrastando um misterioso caixão movido pela necessidade de vingar o assassinato de sua mulher. Em sua versão, Tarantino recria toda a história, mas preserva o instinto de vingança do protagonista, aliás tema recorrente em sua obra.

A película é ambientada no sul dos Estados Unidos, dois anos antes da Guerra Civil americana. A mácula da escravidão serve como pano de fundo ideal para a violência apresentada no filme, que, por mais extremada que possa nos parecer, será ainda menos cruel que a que realmente ocorreu. Jamie Foxx, vencedor do Oscar de melhor ator por “Ray”, personifica Django, um escravo liberto pelo arguto Dr. King Schultz, um caçador de recompensas, brilhantemente interpretado por Christoph Waltz, austríaco vencedor do prêmio de melhor ator em Cannes ao dar vida ao nazista Hans Landa de Bastardos Inglórios. Os dois irão formar uma dupla imbatível e partirão em um segundo momento da história em uma longa jornada para procura e resgate da esposa do herói. O filme conta ainda com nomes de peso no elenco, como Leonardo DiCaprio, no papel de um latifundiário escravagista, e de Samuel Lee Jackson, quase irreconhecível, encarnando extraordinariamente o velho lacaio negro de DiCaprio, racista e totalmente insensível às agruras sofridas por sua etnia.

Christoph Waltz e Jamie Foxx na pele dos protagonistas / Foto: divulgação

Esta versão Livre de Django traz todas as qualidades que consagraram o diretor e lhe conferem um estilo inconfundível, imitado por muitos seguidores. Uma direção ágil, movimentos de câmera não usuais e precisos, um texto afiado e irônico, a história que foge da linearidade comum e, óbvio,  sangue, muito sangue… Pulp Fiction – Tempos de Violência (1994), seu segundo longa, por exemplo, se tornou um marco para a sétima arte, introduzindo novos parâmetros que influenciam até hoje a linguagem do cinema.

Assim como em outras obras, Tarantino assina em Django Livre o roteiro original, extremamente inspirado e agraciado este ano com o Globo de Ouro. A trilha sonora, escolhida a dedo pelo próprio diretor, “para variar”, é uma preciosidade à parte e cai como uma luva ao filme. Temos a impressão que as cenas são construídas para se moldar a ela, tão grande é a sintonia. Há músicas clássicas do Western, além de algumas liberdades como James Brown, 2Pac, John Legend e o rapper Rick Ross. A obra concorre ao Oscar 2013 em 5 categorias: ator coadjuvante (Christoph Waltz), roteiro original, fotografia (deslumbrante), edição de som e melhor filme.

O filme foi alvo de inúmeras controvérsias. O diretor Spike Lee (ícone do cinema afro-americano) chegou a declarar que não assistiria ao filme por considerá-lo desrespeitoso à memória de seus ancestrais, outros o acusam de ser racista pelos termos depreciativos com que trata os negros. Polêmicas à parte, o Django de Tarantino se posiciona Livre, acima de qualquer convenção e purismo. Em muitas cenas, chega a ser mais eloquente contra os horrores da escravidão e da discriminação racial que muitos militantes extremistas que sobem ao púlpito para proferir discursos vazios.

Quentin Tarantino brinda mais uma vez seus admiradores com uma obra instigante, cheia de reviravoltas e diálogos sedutores que encantam e prendem o espectador em suas quase 3 horas de exibição. Confesso que fiquei meio com pena de Spike Lee por perder este grande filme.

 

 

(Bolívar Landi é formado em Comunicação Social e História, permanentemente encantado com a capacidade do cinema de reunir em um só espaço múltiplas linguagens e expor confidencialmente as minúcias da alma humana)