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77ª Leva - 03/2013 Ciceroneando

Ciceroneando

 

Ilustração: Thaís Arcangelo

 

Em que medida a porção do sonho funda a matéria de que somos feitos? Onde o vigor da abstração quando necessitamos de um mergulho mais profundo rumo a nós mesmos? Refletir sobre o quanto estamos enraizados pelas nossas questões mais delicadas é algo desafiador ao ser humano. As motivações para se trilhar a jornada são intermináveis e, por isso, continuar é imperativo. Nesse trajeto, as revelações nem sempre são as melhores. Seja no confronto com a dor ou a beleza, o ato de criar teima em procurar abrigo de modo, algumas vezes, desavisado. A arte, enquanto instrumento de transformação, registra as marcas de nossa passagem pelo mundo. É como se houvesse uma necessidade curiosa de também fazer ecoar aquilo que guardamos a sete chaves. Inquietação, espanto, busca, vaidade, regozijo, melancolia e efusão aparecem como alguns dos mais prováveis ingredientes duma humana mistura guiada ora por lucidez, ora pela mais crônica cegueira. E isso apenas explica em parte certos propósitos da criação. O interessante mesmo é quando somos levados pela fluidez sugerida pelas mais diferentes mentes, cada uma delas compondo uma ordenação própria e feita de lugares que frequentemente relutamos em visitar. Assim, saborear tais caminhos é um se deixar levar, permitindo que o efeito duma provocação se faça cativo. A cada um é dado saber o quanto o chamado importa num processo que traz à tona espelhamentos ou negações. Imbuídos um pouco desse espírito, perfazemos 77 edições com a revista. Em meio a nossa trajetória, nos acostumamos a tatear as paredes do indizível, embora entre palavras e imagens possam aparentemente brotar significados que se explicam pela força que lhes é peculiar. É muito pouco tentar definir, por exemplo, o que se encerra nas epifanias contidas na arte de gente como Thaís Arcangelo, nossa expositora da vez. Nela, lidamos com o momento de harmonizar realidade e fantasia, o vivido e o inventado, tudo exalando uma aura de delicadeza a partir do prisma especialmente feminino. Também é tempo de acolhermos as investidas dos poetas Jorge de Souza Araújo, Ana Pérola, Alberto Boco, Raquel Gaio e Nestor Lampros. Compondo as janelas poéticas, a escritora Viviane de Santana Paulo traduz alguns poemas do autor alemão Dirk von Petersdorff.  A partir de um conto de Myriam Campello, o escritor Héber Sales reflete sobre alguns caminhos da criação. Larissa Mendes percorre duas frentes: o filme “Hitchcock” e o disco de estreia do cantor e compositor capixaba SILVA. Falando sobre literatura e de toda uma especial relação com os livros, o escritor e editor Eduardo Lacerda é o entrevistado da vez. Há, ainda, a presença marcante das imagens contidas nos contos de Sérgio Tavares, Maria Lindgren e Pedro Reis. Um novo coletivo de expressões está em rota, caro leitor. Boas incursões!

 

 

Os Leveiros

 

 

 

 

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77ª Leva - 03/2013 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Raquel Gaio

 

Ilustração: Thaís Arcangelo

 

 

um desconhecido que me fala ao pé da noite,
possui entre os dentes
a calmaria de um rio.
em meus sonhos agudos,
sorve como um ventre
os esqueletos decadentes
e translúcidos de minha confissão.
(visões de um deserto que ninguém pressente)
esse sonho
transe alucinatório e místico
onde perco a dormência e o verbo,
nos inventa sem falta
sem desonra.

alegria cobiçada por Deus.

salto com violinos à beira-mar.

a fala desse desconhecido
se debruça sobre meu piano mudo,
e a cada nota costurada à goela,
desmancha qualquer pudor
qualquer lábio e cabelo
sem desastre
e escuridão.

reflexos da manhã

tudo nele é nada
gema de destroços
espinha de peixe
vastidão.

através de sua música onírica,
decomponho-me surrealisticamente.

/porque há um estrangeiro que me habita todas as noites
como uma avenca em perpétuas ilusões/

 

 

***

 

 

costurar na minha virilha
nosso enlace.
apertá-lo com as pernas nas noites
prenhas e insones.
(encontro frutífero de terrenos baldios-
benção de um deus que não reza.)

 

 

***

 

 

perpetuar  homicídios
abater  andorinhas
e retirar de cada mamilo o pouso.
as feridas continuam a se mover em círculos, você não vê?
o adorno dos corpos diz o destino
diz a escama escura e perpétua?
uma matilha de cães te ensaboando as vísceras
e no meio da guerra  compartilhando a romã da madrugada.

um explícito exu encosta em meu hálito,
e fecundo o chão grávido de nada.
(o chão me exige uma paternidade que não posso dar)

desejos de fim de ano
derramando o café
substituindo a borra pela combustão.

/eu tenho um relâmpago nas mãos e uma fratura na boca/

estou vendendo o tempo que esse poema consumiu pra ser feito,
quanto você pagaria?

 

 

***

 

 

um poema me começa
e invade minha saudade inventada.
tenho um sonâmbulo amor
e as costelas lúcidas da madrugada.
– sei que isso já foi escrito em algum lugar-
sou plagiadora desde nascença.
imito paraísos e tonturas.
tenho correspondências não lidas
que ocupam toda a mesa de jantar.
– ando preferindo ser horizontal e mística.
encerro esperanças na vodka
e minha sede se derrama pela noite.
cem estilhaços me dão a mão,
e no verão,
tenho contrações
devido ao número excessivo de verbos.

qual a palavra/gesto que costura
um abcesso?

observações pertinentes a esse plágio:
não possuo óculos escuros
e  antes de sair de casa,
esqueço de tirar os soluços do bolso.

 

 

(Raquel Gaio nasceu na cidade do Rio de Janeiro, é atriz, poeta e performer. Cursa o último período da Faculdade de Letras da UFRJ. No ano de 2011, lançou o livro de poesias “O Exercício no Mundo” com Luis Alexandre Louzada e Denise Fraga. Foi publicada nas revistas Um Conto, Diversos Afins, Estrelas Vagabundas e Zebra, estas duas últimas da UFRJ. Suas performances, algumas delas, são derivadas de suas poesias como “Retina” e “poemas vermelhos”. Mantém o blog Sensação de Violeta, onde publica suas poesias e algumas imagens de seus trabalhos)

 

 

 

 

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69ª Leva - 07/2012 Ciceroneando

Ciceroneando

Desenho: Rui Cavaleiro

Seis anos nos separam dos primeiros passos dados por aqui. Nossa primeira infância revelava, mesmo que timidamente, um desejo de alcançar e fomentar espaços em torno das palavras e imagens. Erguer cada edição sempre foi algo visto por nós como uma tarefa deveras especial, agregando expectativas e uma salutar ansiedade pelo modo como o coletivo de expressões mensais pudesse vir a ganhar corpo e alma. Com o passar do tempo, aprendemos que os passos editoriais, por mais que sejam minuciosa e previamente arquitetados, acabam por revelar gratas conformações ao jogo dinâmico do presente. É recompensador saber que existe sempre uma vastidão de leituras há serem feitas, todas elas atraídas pela jornada que conseguimos construir até então. Congregar manifestações dos mais diversos tipos de colaboradores nunca deixou de ser nosso lema maior. Para que tudo isso ocorresse sem gerar uma falsa ideia de incorporação aleatória de expressões, nosso perfil editorial sempre norteou as escolhas com critérios coerentes de seleção, pontuando aspectos que julgamos vitais em termos de publicação. Durante todos os anos de existência da revista, as trocas humanas foram o mote de nossas ações, permitindo-nos não apenas conhecer um pouco mais das obras de inúmeros criadores, mas também perceber neles uma necessária fonte de aprendizado. Os instantes passaram e o melhor de tudo é saber que solidificamos um caminho no qual atraímos, sobretudo, o respeito e a adesão de muita gente verdadeiramente interessada nos feitos culturais. Completar mais um ano de realizações significa louvar o nome de cada pessoa que, sem exceção alguma, por aqui um dia passou. Mais do que celebrar um rito novo de passagem, interessa-nos reafirmar a missão, chamando atenção para aquilo que hoje implica na continuação dos caminhos. E seguimos, contemplando agora os traços marcantes dos desenhos do artista português Rui Cavaleiro, muito bem apresentados por Hilton Valeriano. Nas veredas da poesia, deparamo-nos com Mercedes Lorenzo, Clarissa Macedo, Marra Signoreli, Raquel Gaio e Helena Barbagelata. É deveras especial perceber que gente como a poetisa Daniela Galdino, nossa entrevistada de agora, sabe dotar a vida de uma inquietude criativa vigorosa. Larissa Mendes, com suas precisas escolhas cinematográficas, aponta atrativos em torno do filme “God Bless America”. Intensos percursos da existência resvalam dos contos de José Geraldo Neres, Roberta Simoni e Teofilo Tostes Daniel. O personagem Sinvaldo Júnior, espécie de heterônimo do escritor Rogers Silva, revisita parte significativa da obra de Álvares de Azevedo. A atriz Ivana Luckesi testemunha sobre a sua vivência na arte de contar histórias. A Leva de agora é erguida e dedicada a todos os nossos leitores e colaboradores, em especial a Neuzamaria Kerner, Héber Sales e Valéria Freitas, importantes precursores de nossas andanças editoriais.

 

Os Leveiros.

 

 

 

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69ª Leva - 07/2012 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Desenho: Rui Cavaleiro

UMA ANDANÇA

Raquel Gaio

 

nenhuma sombra pairava em tuas pálpebras
apenas raios de girassol te faziam navegar
nesse escaldante sol de vertigens variáveis.
eu contava os giros de tua andança
e admirava teu suor sem valia
que brotava nesse terreno áspero e doce (que é tua matéria)

minha ansiedade e o tempero do dia
rasgavam teu continente fechado e fronteiriço
que emanava artifícios de um futuro bom.
você ruminava formosuras pra dentro das bocas-desejos
recomeçando assim teu trabalho de escavar juramentos (relíquias da noite)
uma música embalava a vertigem do dia
e você, como era usual, a usava para amordaçar bocas.

 

 

***

 

eu, um invertebrado sem celas,
suportando os caprichos intermináveis dos dias,
engravidando as horas de sonhos,
oscilando entre não-vértebras violetas,
depositando versos no penhasco do tempo,
observando esse corpo irredutivelmente numa estiagem.

é longo o processo das horas.
o arrastar-se ainda comove.
.
.
.
.
.
{desliza inevitavelmente. como os ponteiros}.

 

 

***

 

 

sob a pele de tuas palavras
estremeço nua
/entranhas escarlate/
essas sílabas esses sons esse gozo
amarram-me e me fazem
delirar num silêncio ambíguo
que põe em minha boca
suores ainda não provados
e em meu corpo
uma cama cheia de ecos.

 

(Raquel Gaio é atriz e poeta. Cursa o 8° período da Faculdade de Letras da UFRJ. No ano de 2011, lançou o livro de poesias “O Exercício no Mundo”, pela Editora Multifoco, com os amigos Luis Alexandre e Denise Fraga, que abarcou intervenções artísticas, como performances, desenho, vídeo-poema e intervenções musicais. Também foi publicada nas revistas literárias da UFRJ, “Estrelas Vagabundas” e “Zebra”. Tirou o 3° lugar com “Contágios” no Concurso da Cidade do Rio de Janeiro pela Ed. Taba Cultural, antologia a ser lançada ainda esse ano. Atualmente se dedica a pesquisar linguagens poéticas e visuais)