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92ª Leva - 06/2014 Ciceroneando

Ciceroneando

 

Foto: Luiz Navarro

Um tempo que gira sem parar. E cada instante desfrutado tem a capacidade de se manter perene quando as experiências vividas são assimiladas com certa dose de leveza. Mesmo sabendo que frequentemente somos tomados por visões que nos desafiam, ainda assim cabe perceber tudo com serenidade. São bons combates aqueles que travamos na busca pelas palavras. São dignos combates os que mantemos na construção de imagens que representam o mundo em que vivemos. Nos últimos anos, autores e artistas variados fizeram da nossa revista um espaço de convergência de sentimentos de mundo. É como se precisássemos de suas vozes para atestarmos que todos estamos amalgamados pelas mesmas razões. E quando a revelação vem, entendemos que a arte é, sobretudo, uma forma de ultrapassarmos as barreiras dos mistérios. Talvez por isso o ato de criar seja um duradouro processo de reconhecimento não somente daquilo que vislumbramos alcançar, mas também do que nunca dissemos conscientemente a nós mesmos. Há um casamento de particularidades do ponto de vista de quem cria e quem recepciona as obras produzidas. Nesse movimento de dupla via, o grande efeito é supor o que o outro não pensou. É transpor barreiras de interpretação até mesmo como se uma nova obra surgisse a partir do que originalmente nos foi apresentado. Enquanto a tradição nos dá referências, a intuição, somada a nossas revoluções internas, redimensiona nossas percepções sobre as coisas. Assim, vamos tecendo um longo e imprevisível caminho de descobertas, cuja marca maior está sustentada no desejo de conceber a arte como um verdadeiro movimento de autoconhecimento.  Hoje, ao celebrarmos oito anos da Diversos Afins, sentimos que permanece bem vivo o propósito de fazer da revista um território efetivo de aproximações. Seguindo esse fluxo, novos criadores fazem da 92ª Leva seu habitat natural. Gente como o amazonense Luiz Navarro, que com suas fotografias põe em evidência as faces ignoradas de um mundo. Dentro das janelas poéticas aqui apresentadas, vigoram os versos de Regina Azevedo, Paulo Sérgio Lima, Carla Diacov, Inês Monguilhott e Carlos Barbarito. Compartilhando as marcas de sua vivência literária, o editor e poeta Gustavo Felicíssimo é o nosso entrevistado de então. No Aperitivo da Palavra, o livro de Lima Trindade é objeto da leitura sensível e atenta de Sérgio Tavares. O escritor Geraldo Lima celebra o teatro de Ariano Suassuna. Com sua devoção à sétima arte, Larissa Mendes nos conduz até o mais novo filme do diretor espanhol David Trueba. Nos ambientes da prosa, Andréia Carvalho, Lima Trindade e Márcia Barbieri desfilam as densas narrativas de seus contos ante nossos sentidos. Das paragens goianas, o rock lisérgico da banda Boogarins exibe seus acordes em nosso Gramofone. Aos nossos leitores e colaboradores de todas as eras, dedicamos mais uma especial edição. Boas leituras!

 

Os Leveiros

 

 

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92ª Leva - 06/2014 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Regina Azevedo

 

Foto: Luiz Navarro

 

Mãe Terra

 

seu corpo finda em raízes
sempre.

a gente olha e procura
os pássaros, as margaridas
e tudo acaba em raiz, nó, recomeço.

não tem problema
só correria na floresta
os índios montados em seus cavalos
com suas lanças, caras pintadas
e todos os animais
correndo sempre no mesmo círculo
como se o mundo estivesse
des
c
e
n
d
o
pelo ralo.

ainda bem que nós
estamos grudados
nalguma coisa
e morremos, morremos
lenta e infinitamente
juntos.

 

 

***

 

 

o rio tigre
castiga feroz a minha cintura
numa tarde corajosa
de respiração firme e
precisa
mergulho
sem visão do mundo
apenas imagino os peixes e
plantas na água que
é quente e ao mesmo
tempo fria
água morna que às vezes congela
a espinha dos homens
e dos peixes
me afogo
porque mais pro fundo
o oceano é ainda mais bonito
e azul

 

 

***

 

 

você quebra o aquário
de peixes pretos que me atormentam
em pesadelos eu te
agradeço e você me diz que
o amor é um experimento químico
eu me viro rio e digo
baby eu curto toda essa explosão
outro riso quebra os outros
aquários e eu salvo a vida
dos peixes salvo
a vida das baleias que encalham
na areia da beira do
forte e a gente chora, se
molha, mergulha gostoso

o amor também é aquático
de carne e osso

 

 

***

 

 

nove entre os dez
batimentos cardíacos
são vestígios
do seu corpo inteiro

 

 

***

 

 

de que tens medo?

o tempo corre e a gente perde
uma parte de si que fica
refugiada num canto
INALCANÇÁVEL
chega o dia
e nem a chuva fina açoitando
o corpo
causa qualquer
sensação.
você se sente
humano
cem por cento cada poro
do teu corpo precisa
de outro
vê vivo
e pulsante
sabe
que é animal & monstro
ao mesmo tempo
chega o dia
em que escrever poesia é
sangria na esperança
de continuar mesmo que a vida
tatue uma ferida na alma
do seu
corpo
a mesma alma
que se perde e fica num canto
inalcançável

 

 

***

 

 

muita gente não sabe.
mas o amor é simples,
victor.
o amor é só um limite
rompido no ventre.
o amor é aquilo que você
não me diz
nunca.
o amor é tudo que ainda não
descobrimos.
o amor é o calor que escapa
do corpo e explode
a terra
o amor é o coração
que fica na boca
o amor é o coração
que foca na cama
o amor não é só coração
amor é
a porta aberta
que você chega
e a fechada
que nós chegamos.

 

 

Regina Azevedo nasceu em Natal. Publicou Candura (conto, online), Das vezes que morri em você (poesias, ed. jovens escribas) e Carne viva o amor estanca (poesias, ed. tribo). Além do blog, escreve prosa jornalística para O Chaplin. Mora em Natal, ainda não está no ensino médio e já quer o mundo.